Mostrando postagens com marcador Al-Akhbar. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Al-Akhbar. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Bashar al-Assad: “Nossa guerra contra os sauditas continua”

30/11/2013, Al-Akhbar (ed. em inglês), Líbano
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Soldados do exército sírio, com um tanque, patrulham rua devastada no distrito de
al-Khalidiyah, centro da cidade síria de Homs, em 31/7/2013. (Foto: Joseph Eid)

Há dez dias, o presidente da Síria, Bashar al-Assad reuniu-se com uma delegação de políticos e líderes partidários de países árabes. Disse claramente: estamos em guerra contra os sauditas, e a batalha continuará, enquanto os sauditas continuarem a “apoiar o terrorismo” e continuar o fluxo de extremistas armados, dinheiro e mais armas para a Síria.

O presidente sírio Bashar al-Assad disse que o apoio dos sauditas e de outros países aos grupos terroristas adiará qualquer solução para a crise. Disse também que o governo sírio está avançando em mais de um front contra o terror e na guerra contra a Síria. Disse que seu governo não irá a Genebra, se esperarem que entregue o poder.

A fala de Assad aconteceu durante reunião que aconteceu à margem da Conferência de Países Árabes na Síria, há dez dias. Al-Akhbar entrevistou o presidente de um partido político do Maghreb que participou da reunião.

O Presidente Assad fala durante a reunião com políticos árabes em 20/11/2013
Em resposta sobre o que está acontecendo na Síria, Assad disse:

Fomos alvo de guerra de grandes proporções. Na primeira fase, tivemos de nos focar em nos defender, e foi o que fizemos no primeiro ano. Em seguida, passamos a lutar para desalojar o inimigo. Agora estamos derrotando os que nos atacaram. Há experiências na história recente, inclusive o que aconteceu com a Resistência no Líbano, que teve de defender suas posições durante longos anos, até começar a alcançar suas grandes vitórias em 2000 e 2006.

Sempre soubemos, desde o início, que o alvo da guerra era nossa capacidade para decidir com independência. E essa capacidade para decidir com independência foi um dos principais fatores de nossa firmeza e de nossa vitória. Mas apreciamos todo o apoio que recebemos de nossos aliados, e alguns aliados tiveram papel chave, como a Rússia, que permanece ao nosso lado, porque seus interesses também estão sendo ameaçados. Ouvi diretamente da liderança russa, que estão ao lado da Síria para defender Moscou, não só para defender Damasco.

Logo da al-Qaeda
O tempo necessário até o fim da crise da Síria depende, em larga medida, do apoio e do dinheiro que grupos armados recebem de atores na região. A Arábia Saudita e outros países são fortes apoiadores declarados do terrorismo. 

Despacharam dezenas de milhares de takfiris para a Síria. E a Arábia Saudita está pagando salário de até US $2,000 por mês a todos que se alistem para lutar ao seu lado. Há outro problema também, relacionado à infiltração, pela al-Qaeda, através da fronteira com o Iraque. As autoridades em Bagdá estão lutando contra isso, mas ainda sem completo sucesso. 

Consequentemente, pôr fim ao apoio que os sauditas dão aos terroristas terá impacto decisivo, especialmente porque os militantes e os que lhes pagam foram surpreendidos por nossa capacidade militar de defesa. Nós sabemos, e todo o mundo sabe, que a al-Qaeda não ameaça só a Síria. Por isso esperamos que surjam soluções racionais nos próximos meses. Mas tudo também depende de nossa capacidade para fazer frente aos sauditas, e estamos decididos a lutar até o fim.

À luz da situação em campo, não acreditamos que seja possível alcançar algum acordo em breve. Enquanto persistir o fluxo de milicianos, armas e dinheiro para dentro da Síria, pelas fronteiras, continuaremos a caçá-los. Ninguém no mundo pode impedir-nos de exercer o direito de nos defender. Além do mais, hoje, vemos que é muito pouco o que possa ser acordado em Genebra, sobretudo porque há quem ainda creia, erradamente, que o que estamos fazendo aqui é feito para entregar o poder a eles.

Ainda que consigam indicar algum nome como líder da oposição [Coalizão Nacional] al-Jarba para a presidência, como conseguirão pôr os pés na Síria?

A Arábia Saudita está liderando a mais extensa operação de sabotagem direta contra todo o mundo árabe. A Arábia Saudita arrastou os países do Conselho de Cooperação do Golfo para a guerra contra todas as nações e partidos que se opõem a Israel. Os sauditas deram cobertura aos acordos de Camp David, apoiaram a guerra contra o Líbano em 1982 e, hoje, estão engajados em guerra aberta contra a Síria. Aqui dizemos abertamente que estamos em guerra contra eles. É verdade: noutras ocasiões, fizemos acomodações com eles. Mas os sauditas querem tudo conforme os interesses deles, a visão deles.

Sobre a posição de países ocidentais que apoiam a oposição armada na Síria, Assad disse que:

O ocidente colonialista ainda age com a mesma mentalidade vã. Agem como se os últimos 20 anos não tivessem existido. Ignoram que os EUA foram derrotados no Iraque. E agem como se a União Soviética tivesse acabado ontem.

Nouri al -Maliki
Sobre a atual situação do mundo árabe e da Liga Árabe, o presidente Assad disse que:

Se a Liga permanecer sob influência e tutela de regimes retrógrados como os dos países do Golfo, ela não terá papel ou valor algum. Mas nem todos os países árabes tiveram roubada a própria independência. Hoje, há um bravo homem no Iraque, o Primeiro-Ministro Nouri al-Maliki. É homem de posições importantes, apesar de seu país estar em ruínas e de haver quem queira continuar a destruição. Também a posição da Argélia pode ser vista como adiantada, em relação a outros. Mas, mais importante, temos de prestar atenção ao que está acontecendo hoje no Egito.

Vemos, como o resto dos árabes veem, que alguém, no Cairo, já está dizendo aos norte-americanos, abertamente, claramente: “Vocês nada têm a ver com assuntos internos do Egito”. Essa é posição importante, que tem de ser apoiada.

O presidente da Síria também falou sobre a situação dos partidos políticos na Síria e no mundo árabe:

O vácuo político é uma das razões pelas quais os grupos extremistas se disseminaram. Mas outra razão tem a ver com o fato de que os partidos não se atualizaram, não rejuvenesceram, e continuam fracos. Nós, como estado, temos interesse em estimular o trabalho deles. Também temos observado o reflexo da força da Síria, na realidade árabe em geral, e especialmente no Maghreb o qual, tememos, pode vir a ser submetido ao poder da OTAN.

Colin Powell
O presidente Assad também alertou contra a disseminação da ideologia wahhabista no mundo árabe:

Para opor-se a isso, é preciso uma nova abordagem das instituições religiosas, mas, em primeiro lugar e sobretudo, exige que se apoie um estado civil baseado na co-cidadania. A geração de hoje foi submetida a um processo de promoção sempre crescente da ignorância. A geração que nos antecedeu tinha mais informação, e esse processo de disseminar a ignorância tem a ver com manter o mundo árabe sempre em estado de atraso perene.

Devo lembrá-los de que o ocidente não quer ver evolução nessa nossa parte do mundo. Lembro da visita que nos fez o Secretário de Estado dos EUA, Colin Powell, em 2003, para dizer-nos o que os EUA queriam da Síria depois da ocupação do Iraque. Queriam, principalmente, que não recebêssemos os cientistas iraquianos. Rejeitamos o pedido dele. Então, a inteligência dos EUA e de Israel liquidou vários daqueles cientistas. Hoje, querem matar todos os cientistas iranianos.

Gamal Abdel Nasser
Mas Assad observou que, diferente disso, a inteligência parece estar despertando novamente entre os povos árabes. Ver cartazes com fotos do falecido presidente Gamal Abdul-Nasser do Egito, em muitas manifestações árabes, é sinal disso. Disse também que:

Não somos contra a religião. Mas somos contra invocar a religião em todos os aspectos da vida diária do povo. Mesmo nós, que somos seculares, garantimos o lugar da religião em nossa Constituição síria, que declara, explicitamente, que a Xaria é fonte de direito. Mas recusamos qualquer politização da religião, no sentido qe leva a resultados negativos. Exemplo de que nós não somos contra a religião é o caso do Hezbollah no Líbano. É partido ideológico cujas ideias são derivadas da religião. Nós não discordamos politicamente do Hezbollah. É prova de que não temos posição contra a religião. Mas recusamos qualquer força religiosa que opere em acordo com takfiri ou com a ideologia wahhabista.

Por isso, dizemos que não negociamos com a Fraternidade Muçulmana. Entendo que os sírios não podemos tolerar essa facção. Jamais, em momento algum, nos ofereceram modelo positivo. Operam a partir de uma posição sectária. E de que outro modo se explicaria a oposição que fazem ao Hezbollah? Aceitam a politização de qualquer assunto e usam seu discurso sectário para incendiar a luta entre sunitas e xiitas.

A Síria, como o Irã e o Hezbollah toleramos muitas coisas, para evitar a sedição. Exatamente por essa razão, temos abordagem muito cuidadosa para a situação no Bahrain.

(Al-Akhbar)


sábado, 12 de outubro de 2013

Novas ordens de Ayman al-Zawahiri à al-Qaeda: “Não atacar nem cristãos nem xiitas”

10/10/2013, [*] Radwan Mortada, Al-Akhbar (trad. do árabe ao ing.)
Traduzido da versão em inglês pelo pessoal da Vila Vudu

O líder da Al-Qaeda Ayman al-Zawahiri distribuiu novas instruções, recebidas como ordens, para a próxima fase da luta. O emir da organização internacional mudou de tom e ordena agora que o grupo evite agressões a xiitas, cristãos, hindus e sufistas, no contexto de “varrer o pecado”; e que todos se concentrem no ataque contra as forças infiltradas dos EUA.

Ayman al-Zawahiri, líder máximo da al-Qaeda
De modo geral, os emires recebem fidelidade e obediência, mas os emires jihadistas na Síria são diferentes. O grupo Estado Islâmico do Iraque e Levante [orig. Islamic State of Iraq and the Levant, ISIS] não gostou da ação de mediação empreendida pelo chefe da al-Qaeda, Ayman al-Zawahiri, para resolver a disputa contra a Frente al-Nusra, preferindo “deixar as coisas como estavam”. O Emir do Estado Islâmico do Iraque e Levante, Abu Bakr al-Baghdadi, separou-se de seu antigo emir, e proclamou que “o Estado [ISIS] permanecerá”.
Zawahiri anunciou uma nova abordagem em relação ao trabalho da al-Qaeda, deixando para trás o mote anterior, que priorizava “os apóstatas próximos”, em vez de combater “infiéis distantes”. E anunciou uma nova palavra de ordem: “Ataque a cabeça do cão, e ele baixará o rabo” – na versão de um dos jihadi.
Exame mais atento da segunda mensagem de Zawahiri – a primeira foi distribuída em junho passado – intitulada “Orientações Gerais para Atividades Militares” [ing. General Guidelines for Military Activities] revela profunda mudança no movimento da organização. De mais importante, que a nova mensagem pode ser interpretada como uma crítica ao trabalho do grupo Estado Islâmico do Iraque e Levante – que continua a matar seus detratores.
Inúmeras páginas jihadistas estão distribuindo a mais recente mensagem de Zawahiri, produzida pela Fundação Sahab de Produção para a Mídia [org. Sahab Foundation for Media Production], usada oficialmente pela al-Qaeda. Na mensagem, Zawahiri falou de duas principais questões que têm de ser encaminhadas na atual fase: uma é a questão militar; a outra tem relação com a “conclamação” [orig. the “call”].
A ação militar visará, doravante,
(...) primariamente aos cabeças dos infiéis internacionais: EUA e sua aliada, Israel. Em segundo lugar, visará aos aliados locais dos cabeças dos infiéis internacionais, que governam nossos países – disse Zawahiri.
Tomar os EUA como nosso alvo significa desgastá-los e exaurir seus recursos, até que acabem como a União Soviética e tenham de retirar-se daqui, de volta às próprias bases, por causa das perdas militares, humanas e econômicas. Assim se enfraquecerão as garras que mantêm cravadas na carne de nossos países, e seus aliados tombarão, um após o outro.
Os golpes dos mujahideen no Afeganistão e no Iraque consumiram os EUA – disse Zawahiri. Por causa da ameaça à segurança dos EUA depois de 11/9/2001, os EUA começaram a inflar a fúria popular [na região], e essa fúria explodiu ante seus colaboradores.
Em sua mensagem, dirigida à “Nação Islâmica” da al-Qaeda, Zawahiri mencionou que muitos países estão assistindo a um renascimento das atividades da al-Qaeda.
O confronto em al-Sham [Síria] é confronto contra colaboradores dos EUA que não permitirão que uma entidade islâmica exista, muito menos se for entidade da Jihad. A história sangrenta das tentativas dos EUA para erradicar o Islã está bem à vista e é bem conhecida.
Apesar de falar de “colaboradores dos EUA que governam nossos países” e falar de atacar seus agentes locais, Zawahiri entende que “é diferente, de um local para outro”. Em princípio, o conflito não deve ser conflito direto contra eles, exceto nos países onde a confrontação seja necessária”.
Quanto a Jerusalém, o confronto básico e principal é contra os judeus. É preciso toda a paciência possível com os governantes locais na autoridade de Oslo. Zawahiri também disse que: o confronto contra [governantes locais] no Afeganistão está relacionado à luta contra os norte-americanos.
Quanto ao Paquistão,
(...) complementa a luta contra os norte-americanos, pela libertação do Afeganistão, criando-se assim uma região segura para mujahideen no Paquistão, para em seguida tentar criar um regime islâmico no Paquistão.
O objetivo da luta no Iraque é livrar áreas sunitas, dos herdeiros xiitas dos EUA – acrescentou Zawahiri.
Na Argélia,
(...) onde a presença dos EUA é pequena e desprezível, a luta é contra o regime, para enfraquecê-lo e ampliar a influência da Jihad no Maghreb Islâmico, nos países da costa oeste da África e nos países sub-saharianos.
Na Somália,
(...) a luta é contra os colaboracionistas, porque são a ponta de lança da ocupação pelos cruzados.
Zawahiri deu algumas orientações aos mujahideen, os quais, para ele, são “vitais nessa fase de acumular dividendos e expulsar o pecado”. Conclamou-os a “não lutar contra grupos desviantes como os rawafid” [termo pejorativo usado para designar os xiitas], “os ismailis, o grupo Qadiyania e os sufistas desviantes, a menos que ataquem os sunitas”.
Zawahiri entende que as lutas devem
(...) limitar-se às frentes ativas [contra os grupos acima], mostrando que já estamos em posição de autodefesa e que se deve evitar atacar os não combatentes e famílias deles nos locais de moradia ou casas de oração e culto, nas festividades ou nas reuniões de caráter religioso. Mas a denúncia de suas falsidades e de seus desvios de ideologia e comportamento deve prosseguir.
Zawahiri põe todos esses grupos
(...) sob controle e comando dos mujahideen; esses grupos devem ser tratados com sabedoria, depois que aceitarem a conclamação; com consciência, sem suspeitas, promovendo a virtude e combatendo o vício, por tanto tempo quando seja necessário, enquanto não causarem maiores danos, e a ação deles não ameaçar expulsar os mujahideen dessas áreas, nem haja risco de revolução das massas contra eles.
Zawahiri conclamou os muçulmanos a
(...) tomar como alvos os interesses da aliança sionistas-cruzados ocidentais em qualquer ponto do mundo; esse é um dos seus deveres mais importantes.
Zawahiri ordenou que
(...) evitem atacar cristãos, sikhs e hindus em terras islâmicas. Se forem beligerantes, a resposta deve ser equivalente à agressão, não maior. Temos de deixar bem claro que não iniciamos nem iniciaremos qualquer confrontação, porque estamos ocupados no combate contra os cabeças dos infiéis internacionais, e temos todo o interessem em viver em paz e harmonia quando a nação do Islã estiver erguida, o mais depressa possível, pela graça de Deus.
Em suas diretivas, Zawahiri ordenou que,
(...) sempre que possível, se evite matar não combatentes ou combater contra eles, ainda que sejam as famílias dos que lutam contra nós.
Conclamou seus seguidores a não atacar muçulmanos com bombas, sequestros ou mortes, e a não se apropriar de dinheiro ou danificar propriedades.
Não ataquem o inimigo em mesquitas, mercados e locais de reunião nos quais o inimigo mistura-se com muçulmanos que não nos agridem.
Quando à “conclamação”, ela
(...) visa a conscientizar a nação para a invasão dos cruzados, elucidando a significação da unidade e de que só a lei de Deus prevalece; para alcançar a irmandade de todos os islâmicos e a unidade das terras islâmicas – como prelúdio à volta do califato.
Esse é trabalho “em duas frentes” – Zawahiri explicou.
A primeira é educação e conscientização para a vanguarda jihadi, que carrega a tarefa de estabelecer o califato e continuará a fazê-lo. A segunda é elevar a consciência das massas, incitando-as, e mobilizando-as para que se levantem contra seus governantes e a favor do Islã e dos que lutam pelo Islã.
Zawahiri conclamou os muçulmanos a
(...) assumir que atacar os interesses da aliança sionistas-cruzados ocidentais em todos os pontos do mundo é um dos seus principais deveres.
Que os muçulmanos
(...) empreendam todos os esforços necessários para libertar prisioneiros muçulmanos, por todos os meios necessários, inclusive ataques a prisões ou sequestros com reféns de países que participem na invasão de terras muçulmanas, para usá-los como item de troca.
Em todos os locais onde haja chance de reduzir o conflito com os governantes locais, usá-lo para conscientização, para obter informação, para instigar a resistência, para arregimentar e alistar e para coletar fundos e apoiadores – deve-se investir nisso, no mais alto grau. Nossa batalha é longa e a jihad carece de bases seguras e de reforço contínuo, de homens, dinheiro e expertise.
Zawahiri também falou das desavenças com outros grupos islâmicos.
Desentendimentos com outros grupos islâmicos não podem levar-nos a negligenciar a confrontação com o inimigo e com os oponentes do Islã, nem militarmente nem politicamente.
Disse que:
(...) é necessário apoiar os grupos islâmicos, elogiá-los por todas as ações manifestações e declarações corretas, e aconselhá-los nos erros que cometam. Respostas e conselhos devem ser baseados em abordagem científica séria e devem-se evitar ataques e provocações. 
Se um grupo do campo islâmico está engajado em combate ao lado do inimigo infiel, sua luta deve ser combatida com a mínima luta possível para pôr fim à aliança, com o objetivo de não prolongar a luta entre muçulmanos e o sofrimento dos que não se aliam ao inimigo.
 ___________________
[*] Radwan Mortada é um jornalista libanês, editor do jornal Al Akhbar e repórter da Aljadeed TV. É especializado em grupos fundamentalistas islâmicos notadamente a al-Qaeda e seus tentáculos pelo mundo. Também cobre assuntos ligados à segurança interna do Líbano. Eventualmente produz documentários como free-lancer. 

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Rei saudita empurra o filho para mais perto do trono


Enquanto “notícias” tipo GAFE* ocorrem na “democracia” da Arábia Saudita, a França-OTAN bombardeia o Mali... (Castor)

2/2/2013, al-Akhbar [trad. de edição árabe traduzida ao inglês]
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido na quadra de bocha da Vila Vudu: O que aí se lê é tão “fato” quanto as futricas e diz-que-disses que cantanhedes & lopretes & friaszinhos & globonews, impingem a consumidores pagantes, como se fosse “informação” sobre algum “poder político”. No Congresso do Brasil-2012... Mas aí, pelo menos, quem faz e acontece é o rei. E quem comenta é um tuiteiro bem informado, não algum “comentarista” autoalugado ao Grupo GAFE* (Globo-Abril-FSP-Estadão)! E o quê/quem são as cantanhedes, lopretes, trigos, waacks, villas, pondés e outros que opinam pela televisão brasileira?! [pano rápido]

Muqrin bin Abdul-Aziz al-Saud 
Na 6ª-feira, 1/2/2013, o rei saudita Abdullah bin Abdul-Aziz al-Saud nomeou seu irmão de 63 anos, príncipe Muqrin, 35º filho do fundador da dinastia reinante, rei Abdul-Aziz, para o posto de segundo vice-primeiro-ministro. Assim, Muqrin passa a ser o terceiro na linha de sucessão ao trono depois do príncipe herdeiro Salman bin Abdul-Aziz.

Assim, os principais postos do reino permanecem em mãos da primeira geração, apesar da idade avançada e da saúde precária de todos os sucessores. O rei, para começar, passou recentemente por várias cirurgias sucessivas que o debilitaram ainda mais. O príncipe herdeiro Salman sofre da doença de Alzheimer e, como já se viu acontecer várias vezes, seguidamente esquece o próprio nome.

Muqrin, por sua vez, recém nomeado, é conhecido por gostar de mulheres públicas (sic), bebidas alcoólicas, noitadas, práticas que lhe valeram a demissão, ano passado, do posto de chefe da inteligência do reino saudita.

Mas esse movimento do rei saudita parece visar a limpar o caminho até o trono para seu filho Mutaib, atualmente comandante da Guarda Nacional.

Mutaib bin Abdul-Aziz al-Saud
Um conhecido ativista da rede Twitter, @mujtahidd, disse em entrevista a Al-Akhbar, que:

“Abdullah quer pôr o filho Mutaib no trono. Se esperar que passem todos os filhos de Abdul-Aziz, Mutaib jamais será rei. E o rei quer, antes de morrer, ver coroado o filho”.

@mujtahidd acrescentou:

“Muqrin tem duas características que permitem que o rei o explore para chegar onde deseja. Primeiro, é o filho caçula (e o último filho) de Abdul-Aziz. Segundo, é homem de vontade muito fraca, para quem os irmãos são seus patrões e senhores, porque a mãe dele foi escrava e negra”.

Quanto à ocasião do anúncio, @mujtahidd disse que

“Abdullah quis indicá-lo agora, porque, em pouco tempo, já não será possível esconder a doença de Alzheimer, que acomete Salman, o que o forçará a deixar a linha sucessória até o trono; com isso, Muqrin seria coroado príncipe herdeiro. O rei, então, já deixa seu filho Mutaib como segundo nome”.

O passo seguinte, segundo @mujtahidd, será a abdicação de Muqrin, com o que Mutaib ficará na posição de sucessor. O mesmo ativista diz que:

“... a saúde de Muqrin torna possível todo o plano”.

@mujtahidd disse também que tem notícia de algumas reações à indicação que o rei acaba de fazer, especialmente dos príncipes Ahmed e Turki (II) bin Abdul-Aziz. Por mais que os príncipes Abdul-Rahman e Talal estejam, naturalmente, muito incomodados, disse @mujtahidd:

“Ahmed e Turki são mais importantes”.

Reconhece que:

“Ahmed continua relativamente saudável e ativo”;

e que:

“Turki está relativamente recuperado dos problemas que teve no Egito e reconquistou pelo menos parte do respeito da família.”

@mujtahidd prevê que os filhos de Salman:

“...alinhar-se-ão com qualquer um que enlouqueça por causa desses desenvolvimentos”.

Em tuítes anteriores, @mujtahidd descreve Muqrin como:

“...homem sem importância alguma, seja como governador da província de Ha’il, seja como chefe da inteligência. Depois de demitido continuou como sempre foi, desimportante, sem coisa alguma que valha anotação de currículo”.

O tuiteiro diz também que Muqrin:

“...só pensa em mulheres e bebidas e delegou completamente as suas funções ao chefe de gabinete, o que levou a fracassos catastróficos da inteligência saudita no Egito, no Iraque, no Irã e até em questões mais simples, como o caso da princesa Sara Bint Talal, que pediu asilo à Grã-Bretanha”.

Duas semanas antes, o rei fez publicar vários decretos em que demitiu vários governadores e nomeou outros tantos para os mesmos postos. No caso específico da princesa Sara – escreveu @mujtahidd – viu-se claramente que:

“Muqrin nada sabia do trabalho de inteligência; sempre viveu ocupado com seus prazeres proibidos”.

Muqrin, acrescentou o tuiteiro:

“...pôs seu chefe de gabinete [Abdul Aziz bin Saleh] al-Hawas, que já o acompanhava quando foi governador [da província Ha’il], no comando de toda a agência de inteligência, dando-lhe plenos poderes, mais poderes, até, que os de Abdul Aziz bin Bandar”.

O príncipe Muqrin é o filho mais jovem do rei fundador. Sua indicação como segundo vice-primeiro-ministro acontece depois de várias outras indicações feitas pelo rei, que empurraram para adiante, na linha de sucessão, a segunda geração de príncipes. Por essa razão, a decisão do rei foi surpresa para quase todos.

Duas semanas antes, o rei substituíra o príncipe Mohammed bin Fahd pelo príncipe Saud bin Nayef, como governador da província Leste – segundo o noticiário, como punição pela má condução da repressão aos levantes naquela região. O rei também nomeou o príncipe Faisal bin Salman para o posto de governador de Medina, dispensando dali o príncipe Abdul-Aziz bin Majed bin Abdul-Aziz.

Na mesma ocasião, Muqrin fora nomeado conselheiro do rei – um posto honorário. E o príncipe Mutaib bin Abdullah também foi nomeado ministro do Estado e Comandante da Guarda Nacional.

Esses movimentos dispararam especulações generalizadas, como indicação de que, afinal, a segunda geração de príncipes começava a receber postos ministeriais sensíveis. Não por acaso, as nomeações excluíram o príncipe Mohammed bin Fahd do posto que ocupava, sem lhe dar qualquer outra posição chave – sinal claro de que os filhos do falecido rei Fahd estavam sendo marginalizados.

A nomeação do príncipe Muqrin para o cargo de segundo vice-primeiro-ministro foi divulgada num curto comunicado, pela agência de notícias oficial saudita. É a terceira mais importante posição na hierarquia do poder no reino saudita, abaixo do rei e do príncipe herdeiro. 

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Gaza: O único remédio contra a ocupação é a resistência


19/11/2012, Ibrahim al-Amin (editor-chefe), Al-Akhbar (Editorial)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Forças israelenses protegidas por veículo blindado após manifestantes palestinos lançarem um coquetel Molotov durante confrontos no centro da cidade dividida  de Al-Khalil (Hebron) na Cisjordânia ocupada, em 19 de novembro de 2012. 
(Foto: Hazem Bader)

Hamad bin Khalifa al-Thani
“Nem resistência, nem negociações.” Essa foi a frase-chave do emir do Qatar, Hamad bin Khalifa al-Thani em recente visita à Faixa de Gaza. Usou a frase para insistir na urgência de reconciliação entre todos os grupos palestinos. Foi como se dissesse a eles: o campo da resistência de vocês não está resistindo e o campo da paz de vocês não está negociando. Assim sendo, por que não se acertam?

O emir do Qatar não explicou por que deveria haver reconciliação e em torno de quê. É como se não estivesse vendo a razão pela qual o campo da paz não está negociando – porque Israel, não os palestinos, não quer negociação nem paz. E quem disse ao emir do Qatar que o campo da resistência teria parado de resistir?

Talvez porque o Hamás é parte da Fraternidade Muçulmana, e a resistência não se inclui entre as prioridades da organização-mãe? Teria o emir querido dizer isso?

Essa obscura frase-chave começou a circular imediatamente depois da eclosão das revoluções árabes. O objetivo foi induzir as forças políticas ascendentes nos países árabes cujos ditadores foram derrubados – Egito, Tunísia e Líbia – a adotar políticas alinhadas com o que querem os patrocinadores ocidentais e árabes daquelas revoluções. E esses patrocinadores querem todos esses novos governos confinados às respectivas questões domésticas.

“Nem resistência, nem negociações” significa que os palestinos devem agir sob o pressuposto de que a ocupação seria fato consumado; e de que não contem com qualquer ajuda, só porque houve as revoluções. Funcionário de um dos países do Golfo comentou, com sarcasmo, que o presidente egípcio Mohamed Mursi provavelmente dissera ao líder do Hamás, Khaled Meshal: “Pare com isso! Não estamos conseguindo nem dar conta das ruas egípcias! Você quer o quê?! Desista. Suspenda o fogo e confie em Deus”.

Adnan Mansour 
O ministro das Relações Exteriores do Líbano, Adnan Mansour parecia deslocado na reunião de ministros árabes, na véspera. Assustou os presentes, ao usar linguajar “fora de moda” sobre boicotes e resistência. O linguajar em voga, a fala “da moda”, veio do ministro do Exterior do Qatar, que fez uma declaração de impotência e disse aos palestinos: "Conhecemos os limites de nossas capacidades e de nossas posições, e em nenhum caso iremos à guerra". Isso, pouco antes das indispensáveis juras de apoio aos resistentes da Faixa de Gaza.

“Nem resistência, nem negociações”. A frase foi enunciada não só para justificar a impotência, mas, também, para demarcar o real objetivo das revoluções árabes, a saber: conseguir uma mudança no poder. Nessa linha de pensamento, o único problema dos egípcios seria que Gamal Mubarak não cumpria os rituais da religião e não cultivava longas barbas. Resultado inicial desastroso dos protestos de massa no Egito foi que implantaram no poder réplicas dos antigos ditadores – só que sem as barbas.

Trocaram-se uns por outros assemelhados, enquanto as políticas seguem as mesmas, as políticas econômicas seguem as mesmas, as relações com Israel não mudaram e o papel do Egito como principal mediador entre o inimigo e o povo da Palestina ocupada não mudou.

Os proponentes da ideia de “nem resistência, nem negociações” cumprem um imundo papel.

Creem que a prioridade é esperar outras oportunidades. Dizem que não há resistência, porque escolheram retirar-se da batalha, desautorizar a resistência e mergulhar nas realidades da ocupação. Para defender essa posição, promovem divisões religiosas e acusam as forças da resistência de não aspirarem à libertação como objetivo principal.

Mas como a avaliação feita pelo ministro de Relações Exteriores do Qatar, para quem os árabes seriam impotentes para agir em Gaza, coaduna-se com a determinação com que o Qatar e outros estados do Golfo continuam a armar a oposição síria e garantir a ela apoio absoluto da mídia?

De onde extraíram a conclusão – e será que realmente contam com que alguém acredite? – que os palestinos não precisam também de idêntica atenção e apoio?

O que impediria esses países de continuar a apoiar a oposição síria e, ao mesmo tempo, de apoiar também os palestinos?

Como um povo com tão longa tradição de lutas – sobretudo palestinos que vivem sob o império dos governantes do Golfo – conseguirão justificar os laços com a santa aliança dos estados do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC), os EUA e a Europa colonialista? Como os palestinos ativos na academia, na imprensa, em instituições diplomáticas controladas pelos estados do CCG conseguirão justificar, ante eles mesmos, tais políticas?

O que se vê acontecer na Palestina só atesta uma coisa: a ocupação continua e continuará. Isso implica necessariamente que a resistência continua e continuará. A cada momento, a resistência mais comprova que tem habilidade e capacidades para provocar impacto em Israel.

A alternativa é obedecer. Desnecessário construir frases oblíquas sobre isso, porque, seja o fraseado que for, o significado é sempre o mesmo: rendição.