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terça-feira, 12 de junho de 2012

Sou Anonymous?


Gabriella (Biella) Coleman, LIMN, n. 2: Crowds and Clouds
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Máscara de Guy Fawkes 
Aprender como funcionam os Anonymous significa aprender a ser um. Gabriella Coleman narra sua experiência de viver entre mundos.
_____________________________________________________
Biella Coleman

A1: todos confiam em você, então você ’tá fazendo direito alguma coisa
A1: uma menina me disse uma vez
A1: “oh, você anda conversando com aquela biella outra vez”
A1: “ela é o mááááááximo”

Era dezembro de 2010, e meus planos eram simples: terminar o manuscrito do meu livro sobre a política do hacking dos programas gratuitos de fonte aberta e passar algum tempo com minha família numa ilha no litoral do estado de Washington. Isso, até que os Anonymous novamente ergueram a cabeça na toca. Enquanto a família andava de bicicleta dias inteiros e assistia a filmes até a madrugada, eu vivia sobre meu laptop, obcecada com os Anonymous, um nome e um feixe de ideais tomados por diferentes indivíduos e grupos, para organizar ações distintas, muitas vezes sem qualquer relação entre elas, desfechando ataques temerários de ativismo pelos direitos humanos da tecnologia.

Embora no inverno de 2008, várias pessoas tenham surgido em diversas manifestações e atividades políticas sob a bandeira dos Anonymous (antes disso, o nome aparecia só, quase exclusivamente, associados a ações por Internet), só em dezembro de 2010 o nome chegou plenamente à discussão pública.

Desenrolando-se ante os meus olhos, ali estava uma campanha de “negação de serviço distribuída” [orig. distributed denial of service (DDoS)], a Operação Dar o Troco, #operationpayback. Meu trabalho de pesquisa, é claro, apareceu bem sem graça aos que me cercavam; mas o que eu estava vendo acontecer no Internet Relay Chat (IRC) – o sistema nervoso central de tantas interações de geeks e hackers – tinha muita, muita graça, e nada de tédio. Normalmente sede de conversação viva, mas comum e mundana, legiões de indivíduos escreviam sem parar na sala de bate-papo da #operationpayback, onde se discutiam e coordenavam as ações. A certa altura, o canal chegou a 7 mil participantes e entradas. Muitos estavam contribuindo para a campanha de DDoS dedicada diretamente a derrubar os servidores de Visa, Mastercard e PayPal.

A organização WikiLeaks de Julian Assange acabava de provocar vasta tempestade política, ao distribuir 220 telegramas diplomáticos confidenciais, e aquelas empresas estavam sendo alvejadas na #operationpayback, porque se haviam recusado a aceitar doações para Wikileaks.

Durante todo o mês de dezembro, assisti em silêncio ao frenesi de trabalho dos AnonOps, insegura, sem saber como ou quando intervir, dado o ritmo frenético das conversas, que disparavam vários tópicos que iam, da secular tradição de fazer piadas com o FBI, a discussões densas, nas deliberações éticas sobre os ataques DDoS usados como tática de protesto. No início de janeiro, meu silêncio chegou ao fim, quando um punhado de Anons puseram-se a falar de mim:

A1: Alguém aí conhece [confirma] biella?
A2: Falei com ela hoje, mas...
A3: Você conhece ela, A2?
A2: Se ela me mandou mensagem direta pelo Twitter, talvez conheça.
A3: “biella está fora. Não estou aqui agora” e nem sinal de @ em nenhum dos 7 canais...
A2: Se é a biella do Twitter, já falei com ela antes 
A1: Talvez logo logo precisemos de jornalistas daqui.
A1: (Temporariamente.)
A3: Quem sabe ela volta mais tarde.
Você está sendo chamada por A2: (oi, biella, pode me escrever na MD do Twitter por favor? Obrigado!)

[Entrei na conversa, muito nervosa]

biella: Oi A2 A1
biella: Desculpe, mas estava na cozinha
biella: aqui sou eu
[...]
biella: mandei vários jornalistas para cá
biella: e atualmente estou escrevendo sobre os Anonymous
[...]
A2: Oi, biella, desculpe o mau jeito.
biella: Não, tudo bem, ok
biella: você avisou :-) e eu demorei muito, ando parada
biella: mais do que gostaria
A1: Nós somos muito seletivos e às vezes meio paranoicos, com usuários que entram e não aparecem [não escrevem]  

Foi momento de tudo ou nada. Se aqueles Anons me definissem sob luz desfavorável (como não confiável, atrapalhativa ou as duas coisas), minha pesquisa acabaria ali. Mas aqueles Anons não só não pareciam incomodados com a minha presença, como pareciam estar gostando de ter-me por ali. Depois dessa conversa, aproximei-me mais, passando cerca de cinco horas por dia no IRC, acompanhando de seis a 12 canais do IRC ao mesmo tempo, sete dias por semana.

Máscara dos Anonymous - Amplie, imprima, recorte e use
Seguir a atividade de AnonOps e algumas outras redes de Anonymous foi, simultaneamente, entusiasmante e frustrante. Os Anonymous são clandestinos e sempre crescentes, com uma arquitetura labiríntica em constante mutação. A qualquer momento pode haver de duas a cinco redes IRC ativas, cada uma delas com dúzias de canais, nos quais os Anons interagem, às vezes à sério, às vezes brincando. Às vezes as duas coisas, sem que se possa saber o que é uma, o que é a outra.

Em apenas quinze minutos, numa única sala de bate-papo, pode haver gente fazendo piadas sobre fapping(“masturbação”, para o mundo exterior), em discussão séria sobre a mais recente legislação antipirataria em votação no Congresso, respondendo perguntas de algum jornalista que apareceu de visita, lançando as mais virulentas acusações contra pessoas, e saudando a antropólogo que apareceu por ali. A sequência abaixo é bom exemplo da vida conversacional no IRC, de múltiplas camadas, às vezes caótica e quase sempre em tom de brincadeira ou farra:

S: Três policiais foram levados ao hospital com ferimentos graves, segundo a Polícia. Varsóvia. [notícias dos confrontos na Polônia, no Dia da Independência]
anonreporterX: Os Anonymous indicam ou indicaram algum tipo de liderança ou porta-voz? Sim? Por quê? Não? Por quê?
j: se não há líderes, e a massa não lidera nada.
j: quem teria capacidade para “apontar líderes”
j: ?
anonreporterX: Perguntei primeiro.
S: Verdadeiros líderes sempre falam por qualquer um.
anonreporterY: Mesmo assim. Aqui é Neil Young. Seria um grande presente #anonspoxNYoung
M: Anonymous deixa de ser anonymous se tiver líder nomeado...
j:anonreporterX, eu sei. Estou querendo mostrar a você, só usando senso comum e raciocínio lógico
j: poder raciocinar [para demonstrar] que nunca haverá nem pode haver um líder
j: mesmo sem perguntar se há
j: :)
k: ^mode (+v biella) by S
j: aparece uma biella selvagem!
P: Pegue ela!
***x pega a biella selvagem 
x: :p
biella::-)))
j: lol
biella: uma biella com sono/acordei agora 
biella: bom ver que voltaram [porque um canal estivera fora do ar por algum tempo]
j: então bom dia :P
[...]
M: Aloha!
x: lol
P: lol
x: aloha!
anonreporterX: não me parece realista: 1. Anonymous já está tendo de lidar [com o problema] de definir quem representa e quem não representa as intenções do movimento (bloco negro em Oakland) e...
x: não
j: anonreporterX, onde está dito quem representa e quem não representa os Anonymous?
j: da última vez que verifiquei, todos os que estavam tentando, levavam chutes na bunda :P

Enquanto prosseguia a conversa, provocada pela pergunta de AnonreporterX sobre liderança, contei a um Anon que gostaria de escrever um ensaio antropológico sobre a obsessão dos jornalistas com líderes e lideranças. Nessa conversa privada, ele fez uma pergunta e comentou:

A8: sobre o quê?
biella: o desejo dos jornais e mídias, de encontrar um líder, diz mais sobre a relação entre repórteres e editor, e algumas obsessões internas da cultura norte-americana
biella: que qualquer outra coisa
A8: pura verdade
A8: Nunca vi europeus e outras mídias, obcecados, como nós, com lideranças
biella: EXATAMENTE
A8: Mas o Reino Unido também tende a sensacionalizar a coisa

Como parece óbvio, muito do tempo que passo com os Anonymous são conversas pelos canais públicos, canais privados ou com Anons “pessoais” e raramente escrevo com objetivos claros; quando faço perguntas diretas aos Anons, também estou seguindo o fluxo, fazendo como todos à volta parecem fazer.

Esse flanar sem objetivo claro é importante, porque captura um dos dois mais importantes tipos de trabalho e de interatividade que os Anons prezam. Um deles é uma forma de socialidade carismática muito comum no IRC onde a esperteza, o “jeito”, a “manha” e a capacidade de brincar e surpreender chama a atenção e, não raras vezes, gera reverência e respeito.

Roger Abrahams
A forma de interatividade e destreza verbal comum no IRC é semelhante a um tipo de conversa descrita como típica do “homem de palavras” [orig. “man of words”], pelo conhecido folclorista e estudioso de culturas afro-americanas Roger Abrahams. “Um homem de palavras é nada”, explica Abrahams, “a menos que consiga, por um lado, alinhavar uma surpreendente peça de retórica oratória; e, por outro lado, capturar a atenção, a adesão e a admiração da audiência pela fluência, potência da voz, capacidade de manobrar a sociedade e resistência psicológica”.

Abrahams identifica duas categorias de homem de palavras: o que exibe floreios retóricos altamente trabalhados em cenários formais; e outro, que brota informalmente e espontaneamente na esquina, no quinta, sobretudo quando bebe [orig. over rum], discurso caracterizado por conversa mais engraçada, de mais baixo calão e não refinada. Não surpreendentemente, esse segundo tipo de brincadeira-duelo verbal é o mais frequente no IRC, embora com algumas importantes diferenças, dados os traços especificamente tecnológicos desse espaço técnico.

Apesar da atmosfera às vezes barulhenta, de gargalhadas, prazer e jogos verbais comum no IRC, mesmo assim os Anonymous são assunto bastante sério, o que nos leva à segunda forma de trabalho e interatividade considerada essencial para conquistar prestígio e respeito na rede.

Na rede AnonOps, como em outras redes Anonymous, os Anons ganham respeitabilidade e prestígio quanto mais se engajem em intervenções de ativismo, algumas ilegais e arriscadas; muitos têm sido presos. Trabalhando em ações políticas definidas coletivamente, e trabalhando na infraestrutura que suporta esse tipo de trabalho (cuidando, por exemplo, do servidor IRC), os indivíduos constroem confiança entre eles. Um dos operadores e organizadores chaves de uma operação chave no Oriente Médio, que deu assistência tecnológica aos ativistas que estavam em campo em janeiro de 2011 e ajudou a catalisar a cadeia de intervenções coordenadas por Anonymous no Oriente Médio – que recebeu o nome de Freedom Ops [Operação Liberdade], explicou, como segue, essa dinâmica:

biella: mas estou tentando entender como acontece de as pessoas começarem a trabalhar juntas e a confiar umas nas outras 
biella: você me pareceu a pessoa certa para perguntar, porque você anda nessa há muito tempo, conhece muita gente etc etc. É um enigma. Talvez seja mesmo um enigma 
a: bom... acho que se vai fazendo alguma coisa e assim se ganha respeito e, no processo, você ganha "amigos"
a: também acontece de, se alguém me ajuda, eu sinto vontade de ajudá-lo também, em troca
biella: e você pode dar um exemplo de alguma coisa que você fez e que lhe valeu esse respeito (se foi coisa legal, claro :-))
biella: e, por favor, pode comentar também a questão dos “amigos”? 
a: bom... eu criei e coordenei a op ##
biella: ok, claro! Entendo muito bem por que aquilo o tornou muito respeitado ;-)
biella: não sabia que você... 
a: é que trabalhei muito, mais de 20 horas por dia, dormindo 4 horas à noite
a: por quase duas semanas 
biella: e os outros começaram a ajudar e o resultado é que todos se sentiram próximos e unidos
a: é. E apareceram uns sujeitos – que hoje são “famosos” – e disseram “posso ajudar”, e trabalhei com eles, porque eles ajudaram mesmo
biella: você quer dizer, hackers?
a: é ;)

Se os Anons ganham respeito público por uma combinação de socialidade carismática e especialmente muito trabalho... E eu? Não mantenho ativo um servidor IRC nem estou engajada em ações políticas. Com certeza, todas as horas que passei no IRC foram essências para forjar linhas de comunicação e construir confiança entre (pelos menos alguns) Anons. Sei me ‘segurar’ no IRC e gosto de conversar ali, o que explica por que escolhi estudar os mundos geek e hacker: mundos coletivos inseparáveis, em algum nível fundamental, dessa arquitetura comunicacional.

Mas num certo ponto, ficou absolutamente claro que minha pesquisa era bem mais complicada do que simplesmente “conversa dura pelo IRC”. Eu também estava acrescentando trabalho no panelão coletivo. De fato, tenho o duvidoso mérito de ter encaminhados umas duas dúzias de repórteres até lá, ensinando-os a encontrar os Anonymous e a entrevistá-los pelo IRC. Durante quase todo o inverso e a primavera de 2011, ajudei a reunir repórteres no canal designado para eles. Obriguei-me à rotina das perguntas infinitamente repetidas, em mais de 80 entrevistas a jornalistas. Respondi as mesmas perguntas muitíssimas vezes, por escrito, na televisão e em entrevistas filmadas. Depois de alguns meses desse tipo de trabalho “midiático” – que pode viciar, como alguns tipos de trabalho – já era bem claro que eu também estava conquistando acesso mais fácil, algum respeito e confiança, tantas vezes fui vista na televisão. Os Anons passaram a fazer muitos comentários, reflexões, elogiavam e criticavam depois de cada noticiário que viam pela TV, ou liam na imprensa ou em aulas e conferências às quais compareciam.

Minha mágica etnográfica, tomando emprestada a expressão famosa criada por Bronislaw Malinowski há muito tempo, pode estar no modo como me comporto nas aulas, palestras e com a imprensa – algo que jamais esperei que acontecesse, quando esse projeto começou. O trabalho etnográfico não raras vezes trata de vidas e pensamentos privados de indivíduos, ou tem a ver como modalidades públicas de interação; não se trata do agir em público, nem da face pública dos sujeitos ou, como nesse caso, da não face dessa entidade sem rosto.

Alcancei algum respeito entre os Anons, porque trabalhei aplicadamente para dissipar mitos. E tive de, literalmente, aprender algumas “manhas”, para fazer isso, porque tantos jornalistas, sobretudo nos EUA e no Reino Unido, mais fizeram reduzir e recortar as questões, do que tentar vê-las pelo que são: apresentaram os Anonymous no papel de hackers-“bandidos”, conduzidos por uma coorte de líderes, dentre outras distorções.

Em muitas aparições na mídia e entrevistas, sempre disse coisas que os próprios Anonymous não diriam (ou diriam em outros termos). Algumas vezes, os contradisse declarada e abertamente. Por exemplo, no passado, muitos Anons costumavam dizer “não somos hackers,” afirmação que se tornou muito mais difícil, depois do início das operações de hacking-vazamentos, a partir de março de 2011. Expliquei várias vezes: há hackers, mas Anonymous não é simplesmente um coletivo de hackers. E algumas vezes, mais significativamente, fiquei calada. Há muito que não digo nem, hoje, gravo ou escrevo.

Recentemente, expliquei a um simpático repórter, numa longa entrevista, sobre o vai-e-vem de estudar os Anonymous: “Há coisas sobre os Anonymous sobre as quais de fato não posso escrever, porque ainda não as entendo suficientemente bem. É preciso discriminar e manter-me discreta, porque há muita política de fundo de salão, que precisa de tempo para desenvolver-se, antes de poder ser discutida”. Também expliquei que acontece de me sentir colhida em redes de duplicidades, também eu: “Sei que estou operando dentro de redes de duplicidade”.

“Aprendi a confiar em alguns Anons e mais vezes há do que não há empatia, mas também sei que duplicidade é o nome do jogo – desinformação e engenharia social – e também esperneio nessa rede” – disse Coleman. “Mas se as coisas fossem claramente definidas e transparentes, não seriam tão politicamente efetivas”. [1]

Se Abraham identificou o “homem de palavras”, uma modalidade de conversa também integral da vida comunicacional no IRC, melhor seria descrever-me, eu mesma, como a mulher das palavras comedidas, pelo menos na mídia ou quando falo. Embora eu seja do tipo super-atento que os Anons avaliarão criticamente, quando, vez ou outra, dissecam o que escrevo, cuido muito deliberadamente do que digo e não digo em público, porque sei que tudo que eu diga ou não diga afetará e modelará o tipo de acesso que os Anonymous tem-me garantido. Não significa que me encolherei em silêncio.

De fato, falar com clareza sobre algumas questões – como reconhecer que também a informação de que disponho pode não ser acurada – tem-me valido boa aprovação. Mas tudo é, sempre, questão de “jeito”, de “manha, quando se trata de o que dizer, quando e onde, sobre os Anonymous.

No IRC, como todos à volta, muitas vezes cedo à espontaneidade dos jogos verbais e das conversas sem rumo, ou cifrada. Nos contatos com a imprensa, nunca: sempre assumo posição distanciada e moderada. Muitos Anons atentos a essas minúcias (muitos absolutamente não tomam conhecimento) conhecem esses dois lados, cada um deles performativo de pleno direito, embora exijam diferentes quantias de ‘'jeito'’ ou de ‘'manha'’. 

Será que assim – com trabalho deliberado para a mídia e socialização espontânea no IRC – vou-me convertendo em mais um (a) Anonymous?



Nota dos tradutores

quarta-feira, 30 de maio de 2012

A casa que Fox TV construiu: Anonymous, espetáculo e ciclos de amplificação (3/3)


(a ser publicado no periódico peer-reviewed Television and New Media

11/5/2012, Whitney Phillips, Scholars Bank, University of Oregon - 3a. Parte

Leia também (e se possível antes):
24/5/2012, 1ª. Parte (1/3) do ensaio
25/5/2012, 2ª. Parte (2/3) do ensaio


Cientistas do concreto

A colusão entre trolls e veículos da grande empresa-imprensa cultiva um conjunto de tropos linguísticos e comportamentais, os quais, por sua vez, exigem e cultivam um estilo específico de trollagem. Exigem, porque esses tropos demarcam exatamente quem e exatamente o quê se qualifica como trolls/trollagem; e cultivam, porque contextualizam e reconfiguram os significados de comportamentos e conteúdos emergentes – um processo que se alinha com o relato de Dick Hebdige de como se desenvolve o estilo subcultura, sobretudo mediante a colagem [orig. bricolage].

A colagem descrita como a “ciência do concreto” (1979: 103), o bricoleur é o cientista do concreto: reúne e reconfigura artefatos socialmente significantes; depois reanima a própria criação com significado(s) novo(s).

No 4chan, a “junção explosiva” de coisas que antes permaneciam desconectadas e coisas (que-)sóaquiestãoconectadas (Hebdige 1979: 103) é acelerada pelas estruturas materiais do próprio 4chan. Especificamente, o 4chan é efêmero; os painéis só podem conter tanta informação porque vão apagando dados antigos, para abrir espaço para novo conteúdo. Resultado disso, poucas threads/”Assunto” permanecem na página por mais de poucos minutos; e as que chegam às manchetes da página desaparecem em, no máximo, uma hora. Mas o conteúdo que “cola”, se número suficiente de usuários aderem a um determinado fragmento de conteúdo, seja porque respondem seja porque repassam, esse será incluído no léxico da subcultura. Em outras palavras, tornar-se-á um meme.

A definição do termo meme é: fonte de alguma discussão. Muitos teóricos, entre os quais Henry Jenkins, insistem que a teoria memética, frequentemente descrita em termos de infecção viral, traz um modelo de transmissão não deliberada; e, por isso, mina a intervenção individual (2009). Simpatizo com os interesses de Jenkins e, como ele, também resisto à ideia de que os públicos sejam pouco mais que “veículos transmissores” passivos do conteúdo distribuído pela empresa-imprensa jornalístico-comercial.

Isso posto, dentro do contexto da cultura da trollagem, “meme” tem conotação muito mais ativa. Para os trolls, os memes estão coerentemente articulados num sistema holístico de significado subcultural: os memes só fazem sentido em relação a outros memes. Para que os usuários não se percam nessas mutáveis areias subculturais, todos contam com que todos reconhecerão e replicarão memes específicos e famílias de memes, ao mesmo tempo em que se manterão em dia com os temas do programa de Jones [1] (ou mais apropriadamente com o 4chan). Reconhecer um meme, remixar um meme, citar um meme – essas ações estabelecem um conjunto de fronteiras da subcultura, garantindo assim um “todo significativo” no qual outros significantes podem articular-se coerentemente (Hebdige 1979: 103, 113).

No espaço de trollagem [orig. trollspace], aqueles signos aparentemente caóticos – manifestos em língua ou mediante artefatos – fazem muito. No contexto da trollagem, eles constroem mundos.


Over 9000 Penises [Mais de 9.000 Pênis], supermeme que teve estrondoso sucesso e foi muito celebrado, ilustra o processo pelo qual se constroem os mundos e oferece exemplo “de manual” da relação de amplificação que há entre os trolls e a imprensa-empresa-comercial jornalística. Não apenas ilustra o modo como se constroem os espaços de trollagem; também ilumina os tipos de mundos que os trolls tendem a criar.

Afinal, os trolls não oferecem conteúdo gerado ex-nihilo; são “vingadores” culturais que extraem nutrição-diversão do que já existe. E na maior parte das vezes, o que já existe passou, antes, pelo filtro da imprensa-empresa-comercial jornalística. A relação entre a trollagem e a chamada “mídia”, assim, não apenas não surpreende; ela, de fato, aproxima-se de uma relação definicional – e nos obriga a repensar, não só o modo como vemos os trolls, mas, também, o modo como vemos a própria imprensa-empresa-comercial jornalística.

Nossa análise começa com o Pedobear [lit. Ursinho Pedô], uma das imagens que mais longa vida tiveram no fórum /b/. Inspirada no “Safety Bear” [Ursinho de Segurança], usada no Japão para marcar os desenhos animados (anime) impróprios para crianças, a imagem-contraparte que surgiu nos EUA é figura muito mais ambígua (“Pedobear” 2011). Às vezes babando, às vezes suando, às vezes portando um sombrero ou as palavras “DO WANT” [quero (muito)], o Pedobear está sempre caçando/procurando alguma coisa. Só quando se entende o quê, precisamente, ele caça/procura, a forma ganha novo significado – “Pedo” é forma encurtada de “pedófilo”, o que faz do Pedobear o mascote não oficial da pornografia infantil [ing. child pornography, “CP” no mundo da trollagem].


Isso não implica dizer que o Pedobear represente interesse ou apoio na vida real, à exploração infantil. A imagem é praticamente sempre usada com sarcasmo, como crítica implícita a aparente predileção que outros anons manifestem por meninas ou mulheres muito jovens; ou em relação a algum outro meme; muitas vezes em relação ao meme-cluster que cerca “To Catch a Predator”, de Dateline, e seu anfitrião, Chris Hansen.

A imagem do Pedobear às vezes, sim, acompanha pornografia infantil e às vezes destaca ou, mesmo, celebra ativamente imagens sexualizadas de crianças. Mesmo nesse território escorregadio, contudo, uma vez que é muitas vezes usada como isca que uns trolls lançam contra outros – a pornografia infantil é dos poucos temas suficientemente chocantes para incomodar até os trolls mais “casca grossa”. Consequentemente, a apesar do fato de que postar pornografia infantil no 4chan é crime punido com expulsão (se os administradores da página encontram pornografia infantil, seja do tipo que for, o endereço IP [dez dígitos] do postador é rastreado, e o anon é expulso para sempre), postar pornografia infantil ou, como quase sempre acontece, a ameaça de postar esse tipo de material, ou fazer piadas sobre postar pornografia infantil – ameaças que sempre vêm acompanhadas da imagem do Pedobear – tornaram-se, elas próprias, um meme.

O primeiro componente é a expressão “mais de 9.000” [orig. over 9000], valor numérico arbitrário, tirado de DragonBallZ, uma série de mangás muito popular. Originalmente lançada no Japão em 1989, DragonBallZ fez sucesso na televisão dos EUA em 1996 e tornou-se ícone cultural para uma geração de fãs de anime e de videogames. Num episódio, os vilões Vegeta e Nappa preparam-se para enfrentar um herói de nome Goku; consultam seus scouter, aparelho que afere o nível de poder do adversário. Nappa pergunta o que o scouter indicou sobre níveis, e Vegeta responde num grunhido: “It’s over nine THOUSAAAAAND” [Acima de nove miiiiiiiiil] e, ato seguinte, esmaga o scouter, com a mão (“9000!!” 2006).

Alguém postou o clip no fórum /b/. Talvez pela nostalgia, talvez porque “mais de 9.000” fosse tradução errada de “mais de 8.000”, o que gerou muita discussão (e muita trollagem), talvez porque moot implantou, logo depois, um filtro que trocava todas as ocorrências do número 7, para “Mais de 9.000”, os Anonymous adotaram “Mais de 9.000” como resposta-padrão para qualquer pergunta que envolvesse valor numérico.

O segundo componente do meme é muito mais direto. Em setembro de 2008, algum anon decidiu trollar as páginas de mensagens de Oprah, apresentando-se lá como pedófilo. Oprah, que passara toda a semana advogando a favor de leis para impedir a busca online de crianças para exploração sexual, foi informada sobre aquele postado e decidiu divulgar a mensagem do anon. “Permitam que eu leia algo que foi postado em nossa página” – começou ela, em tom grave – “por alguém que se diz membro de uma conhecida rede de pedófilos. Diz que não perdoa e que não esquece. O grupo reúne mais de 9.000 pênis e todos estão... estuprando... criancinhas” (“Oprah OVER 9000 PENISES” 2008).

Em menos de uma hora, um segundo anon baixou o comentário de Oprah, como se fosse ato inadvertido de interação com o Anonymous Credo, e aplicou sobre o clip um vídeo de som, com o Pedobear, Oprah, personagens de DragonBallZ e Chris Hansen (“Pedobear remix” 2008). Para a comunidade troll, foi vitória total, absoluta, completa. Na edição de 2008 da Encyclopedia Dramatica, o verbete “Oprah Winfrey” era foto de Oprah sentada com um monstro de ar dissimulado. Usando o popular meme “[substantivo] [adjetivo] é [substantivo]”, a foto levava, como título: “Sucesso troll é sucesso” [orig. “Successful troll is successful”] (2008).

Mas por quê? O quê, exatamente, foi sucesso, na operação “Mais de 9.000 pênis?” É extremamente bem sucedido, em primeiro lugar, pelo apelo transgressor. Não é acaso que os trolls tenham dedicado esse fórum a essa questão, nem é insignificante que o lulz resultante tenha durado tanto tempo depois de terminado o raid [ataque] inicial. Os trolls não teriam gostado, ou não teriam gostado tanto, se a questão não fosse tão absolutamente sensível, para tanta gente. De fato, a exploração infantil, sobretudo quando tenha traços sexuais, é dos poucos tabus idênticos para, praticamente, todos os pontos de vista do espectro político. Resultado disso, seja no 4chan ou fora de lá, a pedofilia (sejam referências sejam ameaças) é das ferramentas mais exploráveis de todo o arsenal dos trolls. Que a “piada” tenha chegado até o show de Oprah Winfrey foi irresistivelmente divertido para os trolls participantes.

E ainda muito mais divertido foi o status de Cavalo de Troia subcultural que o meme provou que tinha. Simplesmente por enunciar a expressão “mais de 9.000 pênis”, e poderia ter dito “mais de 9.000” qualquer coisa, Oprah demarcou o território dos trolls.

Qualquer um, por mais remotamente conectado ao 4chan (ou à cultura online de modo geral) que fosse, imediatamente soube que a trollagem avançara até lá, e, melhor ainda: que a própria Oprah era agora um peão, no jogo dos trolls. Tudo isso aumentou a visibilidade online dos trolls, acrescentando ainda mais infâmia a um enxame já infame; e operou como catalisador para mais inventividade memética.

Bricolage: Ciclos de amplificação e espetáculo

Além de valer como exemplo “de manual” do modo como os trolls e a empresa-imprensa-comercial jornalística alimentam-se e realimentam-se continuamente; além de ser caso exemplar de como as intervenções da empresa-imprensa-comercial jornalística geram cada vez sempre mais base de alavancagem para novas ações da subcultura, a operação “Mais de 9.000 Pênis” expõe as semelhanças retóricas e comportamentais que há entre a trollagem e a empresa-imprensa comercial jornalística. Dessas, a que mais salta à vista é a busca incansável, de sucesso.

Para os trolls, “Mais de 9.000 Pênis” foi sucesso, porque detectou e explorou um tropo cultural particularmente sensível e, no processo, gerou grande quantidade de lulz. Mas os trolls não foram os únicos que tiveram sucesso: o sucesso do ataque de trollagem fala muito, também, do sucesso dos produtores de Oprah. Os objetivos divergiam bastante, dado que Oprah falava a um público simpático e horrorizado, e os trolls falavam só a um público horrorizado, mas os meios pelos quais os objetivos dos dois lados foram plenamente alcançados eram, de fato, exatamente os mesmos, idênticos.

Ambos, os trolls e a produção de Oprah tocaram o coração do público, usaram linguagem supercarregada de emoção e exploraram com perfeição o ângulo do interesse humano. E o mais significativo de tudo, para essa análise: ambos, Oprah e os trolls, tinham algo a ganhar, do incômodo (da dor, do sofrimento, da ansiedade) que causavam ao público.


A evidente superposição de Oprah & trolls não é surpresa. Os trolls frequentemente entram numa forma complicada de jogo de sombras ideológicas, com os mesmos que eles procuram explorar, sobretudo no relacionamento com a chamada “mídia dominante” (as grandes empresas-imprensa-comercial jornalísticas), o que dá novos significados à expressão “passar a perna”, “enganar”, “ludibriar com esperteza” (ing. outfoxed).

Como os veículos da “grande” mídia comercial, os trolls vão aonde está a notícia; como os veículos da “grande” mídia comercial, os trolls gostam de sensacionalismo e hipérboles. Em resumo, ambos, os trolls e a empresa-imprensa-comercial jornalística vivem mergulhados no espetáculo – o processo mediante o qual se fundem dinheiro & negócios e entretenimento (Kellner 2003).

Evidentemente, o que um lado entende como dinheiro & negócios diverge do que, para o outro lado equivale a dinheiro & negócios. Mais basicamente, a empresa-imprensa comercial jornalística vive investida nos movimentos do capital. Os trolls vivem investidos nos movimentos do lulz. Mas para alcançar esses objetivos declarados – os trolls, aliás, descrevem a eterna busca por mais e mais lulz, como “negócio sério” [ing. serious business] – os dois campos têm de provocar o maior impacto possível. Têm de envolver um público; têm de “fidelizar” a atenção desse público; têm de manter o público sempre atento e interessado. A relação entre trolls e a “mídia”, em outras palavras não é de oposição diametral.

Biella Coleman
Diferente da dinâmica que Gabriella (Biella) Coleman sugere em sua fascinante análise da Igreja da Cientologia e dos Anonymous pós-Chanologia, na qual propõe que o ethos e as táticas dos segundos são inversão direta do ethos e das táticas dos primeiros (2010), os trolls e a grande empresa-imprensa-comercial jornalística são, de fato, homólogos. Os dois lados têm comportamento idêntico, para objetivos divergentes.

Fica-se tentada a sugerir que a empresa-imprensa comercial jornalística não passa de grande instituição de trollagem, ou que, pelo menos, algumas personalidades “midiáticas” são, pessoalmente, trolls. Mas seria reduzir o problema, porque a trollagem, especialmente a trollagem associada ao 4chan e aos primeiros Anonymous, quer ser identificada como subcultura. Os trolls são gente que age como troll, fala como troll e trolla como troll, porque optaram por essa identidade.

Mas posso sugerir que os trolls tem muito mais em comum com a “mídia”, ou talvez, mais apropriadamente, que a “mídia” tem muito mais em comum com os trolls, do que seus apoiadores e defensores empresariais, ou que seus consumidores, aceitariam admitir.

Em termos do engajamento com a “mídia”, e baseada nas acentuadas semelhanças entre as ações de trollagem e as práticas das empresas-imprensa comerciais de jornalismo sensacionalista [2], posso dizer que os trolls agem e pressionam a cultura, não porque desafiem diretamente a cultura dominante, mas porque incorporam a cultura dominante, explorando, sobretudo, o imperativo sensacionalista que mantém altos os níveis de venda de publicidade comercial.

Nesse sentido, a trollagem ecoa o détournement como descrito por Guy Débord e Gil Wolman. Segundo Débord e Wolman, o détournement [3], que pode ser traduzido livremente como “sequestro” ou “captura” [também “recombinação”], ocorre quando objetos culturais são recontextualizados, o que torna um dado objeto cultural carregado de novo significado subversivo. Há captura ‘menor’, quando objetos neutros são alinhados, o que reconfigura o significado de cada um deles; e há captura em grande escala subversiva, quando se ressignificam objetos culturais já significantes. O Colbert Report, que afeta o neoconservadorismo para miná-lo, é exemplo do segundo caso; uma imagem tratada em Photoshop, de um gato montado num cachorro, pode ser exemplo do primeiro caso.

Seja a captura “menor”, seja em grande escala subversiva, as duas formas de captura ou de recombinação desafiam ou, no mínimo, remixam ideias dominantes mediante captura criativa ou, em alguns casos, mediante apropriação “absurdista” (Débord and Wolman, 1956). Mais interessante para esse estudo, os objetos podem ser “recombinados” pela cópia, pela sátira, pela reprodução, cujo efeito é “reforçar o significado real de um elemento original” (Jappe 1999: 59). Nesses casos, um objeto – uma frase bem conhecida de obra literária, um fotograma de filme, um fragmento de noticiário – é posto em contexto opositivo e tratado por ironia, o que faz com que o objeto se autodenuncie.

A trollagem, que é simultaneamente cópia e sátira, repetição & sarro, que usa tropos dominantes para “responder” a instituições dominantes, é caso exemplar de “recombinação”. Os trolls trollam a rede Fox News de televisão, atuando como atua a rede Fox News; e trollam Oprah Winfrey atuando como atua Oprah Winfrey. E rolam de rir, quando seus alvos escolhidos inadvertidamente, põem-se a atacar a imagem especular deles mesmos.

Sejam os trolls motivados por preocupações políticas, ou não; tenham ou não o objetivo de desafiar ou desmascarar a ideologia dominante, seus comportamentos e sua linguagem recombinam tropos existentes e, assim, deixam ver a fonte daqueles tropos – fonte, pelo menos, indireta.

Criticar os trolls e a trollagem sem considerar a relação de homologia que há entre eles e a cultura dominante – nesse caso, entre os trolls e a trollagem e a imprensa-empresa-comercial jornalística que alimenta os trolls, é, portanto, equivalente a “denunciar” os defeitos e “erros” de uma imagem, não do objeto refletido.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS (em inglês) estão no ensaio original.
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Notas dos tradutores

[1] The Alex Jones Show é um programa de rádio.

[2]No Brasil-2012, o argumento aplica-se também, e, talvez, sobretudo, à chamada “imprensa séria”, reunida no Grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão), mas ativa também fora desse grupo. O Grupo GAFE vive hoje (de fato, vive assim desde a primeira eleição do presidente Lula) da prática de sensacionalismo o mais alucinado, mascarado como se fosse alguma preocupação “ética”, algum interesse em “transparência”, ou com a “defesa da natureza”, ou com alguma defesa dos princípios de justiça e democracia civilizadas. E não se pode dizer, sequer, que as empresas do Grupo GAFE sejam instituições de trollagem, porque o lulz é anárquico e portanto, por definição, é progressista, e as empresas do Grupo GAFE são (historicamente) doentiamente conservadoras, quando não são, mesmo, ativamente atrasistas e fascistizantes.]

[3] Guia Prático para o Desvio/Guia Prático para a Deturnação/Guia Prático para a Recombinação, publicado no jornal surrealista belga Les Lèvres Nues #8 (maio de 1956). Pode ser lido, numa tradução de Portugal. Sobre o Guia, leia também comentários interessantes, em português.