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sexta-feira, 1 de junho de 2012

“Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come…”



Ponta Delgada  (Açores - Portugal)
Artur Rosa Teixeira
1 de junho de 2012 


Se ficar...
Os brasileiros têm destas coisas… Em poucas palavras são capazes de caracterizar uma situação complexa. A expressão que escolhemos para título deste artigo é exemplo disso e aplica-se que nem uma luva ao “beco sem saída” para o qual os portugueses estão a ser empurrados…

Os europeístas têm vindo a insistir na necessidade imperiosa de transformar a União Europeia num Estado Federado, com efetiva unidade politica e económica. Tal é apresentado como a única solução para atual crise financeira e económica que grassa na Europa. O abandono do Euro, segundo eles, será o caos… Será uma espécie de Tragédia Grega…

Na verdade, em boa parte os Estados membros da União Europeia já perderam uma parcela substancial da sua soberania. Ao aderirem a uma moeda única, o Euro, abdicaram do ato soberano de cunhar moeda própria e logo perderam a sua independência financeira e económica.

Se correr...
A retórica europeísta contudo chama-lhe de “soberania partilhada” que é para não espantar o Zé Povinho. É que assim até parece que vamos ter alguma voz na matéria… que podemos dizer aos nossos parceiros alemães e franceses, “alto lá parem o baile” que também mandamos…

Ledo engano!

Sem moeda, não existe Comércio e sem este, não existe Economia que proporcione Desenvolvimento, ou seja, que possa satisfazer as expectativas de Progresso Social de uma Sociedade.

Por sua vez, sem moeda própria, nenhuma Economia é verdadeiramente autónoma, nem mesmo as mais fortes, e logo, do ponto de vista político, um País, nessas circunstâncias, está condenado a desaparecer como entidade independente.

Tal facto contudo acentua-se nas economias mais débeis, como acontece com os países da Europa periférica, que têm Balanças Comerciais deficitárias.

Pelo contrário, aqueles que apresentam robustez económica, porque já a tinham antes da moeda única, a “Soberania Partilhada” não lhes faz mossa… Em grande parte até lhes trás vantagens, uma vez que a sua Balança Comercial é positiva, ou seja exportam mais do que importam. E é positiva, em grande parte, graças às exportações para os ditos “periféricos”. Eis porque vemos uma Alemanha e até uma França mandarem bitaites aos pequenos mal comportados da Zona Euro… como se já fossem os donos do pedaço…

... O bicho pega

Claro que a falta de Independência Financeira e Económica condiciona a vida política de um país. Embora se diga que o Centro do Poder resida no povo, a verdade é que só formalmente isso é verdade.

Nas grandes decisões o cidadão não somente não toma parte, como estas são-lhe apresentadas como facto consumado. São previamente tomadas pelos que comandam o Sistema Financeiro Internacional e ao eleitor apenas cabe escolher o que está já escolhido ou, quando não, escolher entre viver ou morrer…

Daí que estejamos entre dois males, continuar ou sair do Euro. Qual deles o menor? Falta saber…

Repare o leitor que a mudança da moeda não foi apenas um expediente meramente técnico, justificado pela existência de um mercado comum, exigindo a simplificação nas trocas comerciais.

Implicou e implica uma alteração política significativa que passou despercebida aos olhos da maioria da população.

Quem tem a faculdade exclusiva de produzir um bem universal como é a moeda, tão indispensável à Economia de um País, tem também o Poder Politico de ditar e condicionar a vida dos cidadãos. Daí a interferência cada vez maior de Organizações Extranacionais, às vezes em coisas tão irrisórias como as dimensões de uma gaiola para o transporte de galinhas… por exemplo.

O BCE não é apenas o banco emissor do Euro. Compete-lhe zelar pelos interesses de todo o Sistema Financeiro e Bancário da União Europeia, de modo a manter a sua integridade sistémica.

Se ficar o bicho come, se correr o bicho pega...

Veja-se que, graças a tratados leoninos como o de Maastricht e o de Lisboa, subscritos nas costas do povo, os bancos compram dinheiro ao Banco Central pela bagatela de 1% a 1,5% e vendem-no aos Estados Membros por 5%, no mínimo, estando estes proibidos não só de emitir moeda, mas também de aceder diretamente àquele crédito.

Por outro lado, o BCE, que é na verdade um banco central privado, não tão independente com se julga, atua concertadamente com outros centros congéneres, a começar pelo BIS, o banco dos bancos centrais, o Fed e a City Londrina, etc. Tal significa que o Sistema funciona em rede, com as diferentes partes solidárias entre si, garantindo que o Crédito e a Produção de Moeda não ponham em causa a sobrevivência do Capital Financeiro Internacional. Daí o seu funcionamento praticamente em “cartel”.

O crédito bancário substituiu a moeda nacional com vantagem evidente para o Sistema Financeiro e Bancário Internacional.

Graças à Reserva Fracionária, os bancos podem emitir moeda fictícia, sem qualquer lastro, e emprestá-la aos Países a juros, por vezes, extrusivos. Em caso de rutura financeira, por excesso de ativos podres ou má gestão, os bancos podem sempre contar com o Banco Central ou o Estado para lhes injetar liquidez.

Na sequência do Crash do imobiliário norte-americano, em 2008, houve de imediato uma injeção de liquidez na banca internacional, garantida em primeiro lugar pelos Estados e em segundo, pelos bancos centrais dos USA e da Europa, algo que teve contornos de escândalo, mas poucos comentadores salientaram esse facto.

Veja-se o que se passou com a “nacionalização” do BPN, onde o Estado português gastou milhões, para depois o vender por tostões…

Veja-se que no acordo com a Troika está inscrita uma avultada verba, 12 mil milhões de Euros, para socorrer os bancos, obrigatoriamente garantida pelo Estado Português, tal como se fosse um fiador…

Mais, o Estado vai comprar “papéis” (ações) dos bancos em dificuldade financeira, mas não terá voto na matéria, mesmo que a sua participação seja superior a 50%... Ora toma, que é democrático!

Nenhuma outra atividade económica, como o sector bancário, é tão protegida, o que contradiz a essência do próprio Capitalismo, que pressupõe riscos e concorrência.

Dá que pensar, não dá? 

A criação do Euro teve contornos hegelianos, como aliás tudo que se relaciona com a integração europeia.

O facto das grandes decisões terem sido tomadas sem qualquer referendo, embora este tenha sido prometido, justifica a nossa opinião.

Noam Chomsky
É que nestas coisas que mexem com o destino dos povos, convém que não se abra o jogo e se adoce a pilula com um bom argumento ou engodo… para que os objetivos ocultos da Elite Global possam ser atingidos, se possível com a colaboração das próprias vítimas… Noam Chomsky, filósofo e escritor canadiano, nas suas "Visões Alternativas”, descreve com clareza a fórmula que leva os povos a aceitar o engano:

“Criam-se os problemas e depois oferecem-se as soluções. Este método também é chamado de problema→reação→solução. Cria-se um problema, uma "situação” prevista para causar certa reação no público, a fim de que este se torne "suplicante” das medidas que se deseja implantar”.

Não admira, pois, que muita gente entenda que o melhor mesmo é entregarmos Portugal…

Mesmo agora, com a Crise do Euro, insiste-se numa via enganosa, para que o cidadão comum aceite a Austeridade como absolutamente necessária, passageira, ainda que não se diga quando termina. Aceite-a como uma necessidade imperiosa para salvar a Pátria…

Vamos ter, de facto, que atravessar o deserto, mas não por essa razão, mas para salvar o Sistema Financeiro e Bancário dos papeis podres que gerou com a especulação financeira elevada à estratosfera.

Os nossos governantes quando insistem no pagamento da Dívida Soberana já… nada mais estão a fazer que ir ao encontro desses interesses. Os bancos têm pressa de repor o que perderam… e por isso precisam do dinheiro vivo dos impostos… retirados ao Trabalho.    

A trama contra a independência dos povos não seria possível se não contasse com apoios internos, uns atuando consciente e objetivamente, outros, como “idiotas felizes”, acreditando na “bondade” do processo de Desconstrução Nacional, todos porém, vivem na expectativa de vantagens pessoais.

Veja-se que os do primeiro tipo, quando completam o seu mandato, têm tido à sua espera bons cargos em entidades internacionais controladas pela Elite Global, enquanto os do segundo tipo, ficam a ver navios…

Pudera, estes são a sua massa de manobra, que, como “operárias” de um formigueiro, morrem após a conclusão da sua tarefa…

Ocorreu previamente em Portugal um trabalho de sapa pela mão de governantes apátridas, alguns ainda no Poder, e de gentinha sem escrúpulos, que levou à destruição de sectores económicos fundamentais, que a existirem permitiriam enfrentar a Crise em melhores condições.

Desde logo, tal facto aumentou o défice da nossa Balança Comercial, gerando uma maior dependência de importação de bens e produtos, o que apenas favoreceu e favorece as potências económicas da Zona Euro, já que é delas que vem muita coisa que comemos e bebemos, além de originar uma sistemática falta de dinheiro no mercado interno.

Houve, portanto, uma política “deliberada” de desmantelamento das bases da nossa Economia, feita em nome de uma pseudomodernização do Capital Fixo existente.

Muitas atividades foram abandonadas sob o influxo dos Fundos Estruturais da CEE que pressupunham o abate das estruturas e meios produtivos existentes que convinham destruir para dar lugar, como deu, à entrada maciça de bens, produtos e equipamentos, com vantagem óbvia para os fornecedores estrangeiros e distribuidores nacionais.   

Claro que para chegarmos aqui, houve internamente muito laxismo político. Dizemos até, muita corrupção de princípios e valores.

Os governos promotores da integração europeia escamotearem as consequências negativas da adesão à CEE e esconderam o lado comprometedor dos tratados que subscreveram.

Apenas viram o dinheiro a entrar a rodo…

Parte entrou diretamente nos bolsos de alguns…

Ninguém cuidou de informar do preço que haveríamos de pagar por tanta “bondade” europeia, que se traduziu pela perda de autonomia Financeira e Económica.

Como diz o outro, não há jantares de borla…

Por outro lado, os governantes, de um modo geral, foram incompetentes na gestão dos recursos financeiros colocados à sua disposição, esbanjando-os em investimentos que mais das vezes serviram interesses privados, invés de servir o bem geral do país.

Veja-se o caso das Parcerias Públicas Privadas (PPPs), com contratos leoninos a favor dos concessionários, sobrecarregando o erário público por várias décadas; e o financiamento de Fundações, cujo objeto social e cultural é, do ponto de vista do interesse público, duvidoso, sobretudo quando existem carências sociais que ficam de fora do Orçamento de Estado ou são insuficientemente financiadas.

Obviamente este estado de coisas, já de si representando a corrupção das verdadeiras preocupações de um Estado de Direito, indicia que muito dinheiro público tem sido abusivamente desviado para pagar comissões e bónus em troca da adjudicação de contractos públicos altamente vantajosos para os privados.

Ao mesmo tempo que se afirma que a austeridade é absolutamente necessária para sair da crise e que até pode ser necessário fazer mais sacrifícios, diz-se que se assim não fosse, seria pior…

Mas com o desemprego a atingir perigosamente um milhão de trabalhadores e a fome a rondar a mesa de milhares de famílias, temos dúvidas se a solução contrária não seria menos penosa, ou seja, o abandono do Euro e o regresso ao Escudo.

Sacrifício por sacrifício, preferíamos fazê-lo por uma causa maior, a recuperação da Soberania Nacional. Pelo menos sabíamos que no final da linha, os portugueses voltariam a ser “donos do seu nariz”.

Como as coisas estão, temos a certeza que chegaremos ao fim mais pobres e mais dependentes dos “mercados”, essa entidade abstrata e difusa através da qual a Elite Global manobra para alcançar o seu objetivo final da criação de um Estado Global e Totalitário à escala do Planeta, de que a União Europeia é uma espécie de ensaio.  


Ilustrações extraídas da internet por redecastorphoto

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Como? Empobrecer primeiro?


Não é a primeira vez e certamente não será a última que ouvimos dos nossos digníssimos governantes declarações infelizes.

Desta feita, porém, a declaração em causa revela uma manifesta falta de sensibilidade para com os problemas sociais do país.

Supostamente a Questão Social deveria ser a causa maior de qualquer governo digno desse nome. Mas não é. Recentemente o 1º. Ministro Passos Coelho, perfeitamente alinhado com os Agiotas Internacionais representados pela Troika, brindou-nos com a supimpa declaração de que:

“Temos que empobrecer para sairmos desta situação”.

Assim mesmo. Sem pestanejar…

A História diz-nos que nenhum país cresce, empobrecendo a Força de Trabalho. Pelo contrário. Sempre que o Trabalho é devidamente compensado, a riqueza cresce e gera Desenvolvimento. O melhor exemplo do que afirmamos, é o caso da Alemanha durante o Ministério do Chanceler Otto von Bismarck, que inaugurou o Estado-providência, como forma de estimular a Economia.

Os trabalhadores alemães, como agentes produtivos, passaram a ter direitos sociais e protecção social. Além da Previdência Social, estabeleceu também programas de crédito barato à iniciativa privada para a produção de bens do consumo corrente. As infra-estruturas, as matérias-primas e a moeda estavam a cargo exclusivo do Estado.

Foi graças a esta política de intervenção estatal na Economia que a Alemanha se tornou uma potência Económica no final do Século XIX. Curioso assinalar que aquele político, considerado o Napoleão Germânico, nem sequer era marxista. Pelo contrário, foi um conservador e monárquico. Não foi, portanto, com Investimento Directo Estrangeiro e Financiamento externo, cujos operadores querem sempre, obviamente, trocar um chouriço por um porco… nem com um Estado ausente da Economia e omisso na Questão Social, como agora se defende, que a Alemanha alcançou naquela época o patamar do Desenvolvimento. A História do seu actual desenvolvimento porém, já não se conta da mesma maneira… embora as suas raízes remontem àquele século.

Os países na esfera de influência da Alemanha, como os Escandinavos, seguiram o mesmo modelo Económico. Daí que não nos admiremos de ver hoje o superior nível de vida de tais países, cujos altos Índices Humanos são os mais elevados da Europa e do Mundo, acima dos 0,950 (o máximo é 1, que ninguém até agora alcançou). E são-no, porque dedicam às despesas sociais, um valor superior a 30% do PIB, sendo a Suécia campeã, com 38,2 %.

Os USA, por exemplo, ficam-se pelos irrisórios 19,4%, embora seja ainda detentor da maior Economia Mundial, e Portugal, antes da austeridade forçada, pelos 25,5%. Significativo, o leitor não acha?

A propósito de um chouriço por um porco… o Ministro da Economia faz-nos pobres, mas de outra maneira…

No início deste mês anunciou triunfalmente um contrato de concessão com a Colt Resources para extracção de ouro numa mina no Alentejo. Questionado sobre as vantagens para a Economia Nacional, depois de falar com algum entusiasmo dos postos de trabalho que irão ser criados, informou que o país terá um retorno de 4%, acrescentando que tal valor está alinhado com o praticado no mercado, sempre este… agora na moda.

Parece até desculpa de quem é apanhado com as calças na mão…

Ora a questão que se levanta é: porque não os 100%? Porque só 4% de royalties e não mais?

Podemos até compreender que o Estado não tenha neste momento capacidade de investimento para meter ombros ao empreendimento. Mas bolas, parece-nos que estamos a entregar o ouro ao bandido…

Acerca desta questão, todavia, que consideramos de grande interesse para a nossa Economia, não vimos até ao momento ninguém levantar a voz, nem levantar, nem baixar… Porque será?

A pobreza de uma Nação não se faz apenas rebaixando o valor do Trabalho… Mais, não queremos ser impertinentes, mas perguntamos: será apenas uma coincidência a Colt Resouces ser uma multinacional canadiana do ramo e o nosso simpático Ministro ter sido até há pouco professor de Economia na Simon Frazer University, no Quebeque, Canadá? Deixamos a pergunta aos investigadores da “Teoria da Conspiração”…

Em recente conferência de imprensa, a Troika declarou que “…os salários do sector privado deverão seguir o exemplo do sector público…”. Ora, se o corte dos salários na função pública já é uma violência social, imoral até, porque tira o pão da boca a muita gente, como não o será no sector privado, mais numeroso e onde se praticam salários de miséria em muitos sectores? Além do mais, tal medida, a ser implementada, irá afundar ainda mais a curva do Crescimento Económico, que se prevê negativo em 3,5%, e logo o Défice Orçamental irá subir, mesmo que as despesas sociais não aumentem em extensão.

A coisa é tão escabrosa que até levanta vozes discordantes, de figuras insuspeitas, como Belmiro de Azevedo, grande empresário do sector do comércio de bens alimentares, para quem a austeridade e a falta de uma estratégia de crescimento da Economia não pode conduzir-nos ao “nascimento de um exército de excluídos e à miséria absoluta”.

Para se perceber que não são os salários e a produtividade dos trabalhadores portugueses que condicionam a falta de competitividade da nossa Economia, basta consultar os dados do EUROSTAT para este ano.

Este organismo de estatística da Comissão Europeia informa que o custo médio de hora de trabalho em Portugal é de 12,22 €. Na Zona Euro, esse valor é de 26,22€, ou seja, mais de 114%! Em termos de horas de trabalho por ano, os trabalhadores portugueses também estão em desvantagem, 1737 horas anuais contra 1668 horas do conjunto dos países da Zona Euro, para o sector industrial. São, portanto, menos 4%, ou seja, os trabalhadores industriais da Zona Euro trabalham menos que os portugueses e ganham mais do dobro.

A propaganda da Elite Dirigente, todavia, com muitos parvos à mistura, consegue convencer o Zé Ninguém de que é um mau trabalhador e que é o grande culpado da Crise da Dívida e do Euro.

Por outro lado, se considerarmos os salários médios anuais, Portugal fica em último lugar, sendo que a Dinamarca é o 1º deste ranking, onde o valor médio salarial anual é 2,9 vezes o valor do salário médio de um trabalhador português.

A produtividade contudo, do trabalhador dinamarquês, é pouco mais que 1,57 vezes a do trabalhador português. Significa que um trabalhador em Portugal, com a mesma produtividade daquele, recebe pelo seu trabalho menos 87% de salário médio anual!

Há, pois, uma substancial diferença entre trabalhar no “Reino da Dinamarca” e trabalhar na “República Portuguesa”.

Então das duas, uma: ou o trabalhador dinamarquês é um grande preguiçoso, por que os bens que produz são mais caros 87%, ou o empresário português é ganancioso… pois paga menos 87% do que devia pagar aos seus trabalhadores, considerando a mesma produtividade que se verifica no mundo laboral da Dinamarca.

Estamos em crer que é esta última, a ganância, a razão de tão grande disparidade. Independentemente da carga fiscal e social sobre o Capital, de que os empresários portugueses se queixam muito, serão as margens de lucro, que só os deuses conhecem… substancialmente mais altas aqui do que na Dinamarca, que retiram competitividade às nossas exportações.

Por estes números, não se compreende pois a insistência em rebaixar a remuneração do Trabalho, a menos que se pretenda transformar Portugal na China da Europa…

Esta mentalidade, infelizmente, está muito presente na nossa Sociedade há séculos.

Ainda esta semana, depois de referirmos as vantagens comparadas entre o mundo laboral português e o resto da (des)União Europeia, um dos nossos interlocutores, que tem uma mercearia de bairro, das que ainda, felizmente, existem, atalhou logo, sentenciando com o dedo em riste, que o empregado nacional quer é ganhar muito e trabalhar pouco, ao que nós, perfeitamente irritados, pois o homem não entendeu patavina do que acabáramos de esclarecer, reagimos: “Pois é, meu caro. Está-se a ver que o senhor é daqueles que ainda vive no tempo da escravatura… Bom mesmo, é trabalhar de graça, não é?”

Claro que existem bons e maus trabalhadores, como também existem bons e maus patrões. A generalização, infelizmente um mau hábito muito praticado entre nós, ao violar princípios de racionalidade e inteligência, impede a Concertação Social e o Consenso Político, tão necessários à superação da Crise.

Ponta Delgada, 20 de Novembro de 2011 

Escrito e enviado por Artur Rosa Teixeira, correspondente da redecastorphoto em Portugal, Ultramar e arrabaldes.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Cartas públicas trocadas entre um alemão e um grego


Amigos

Um dos perigos da Crise da Dívida e do Euro na União Europeia, é precisamente o de criar um clima de hostilidade entre os europeus, despertando fantasmas e sentimentos negativos que em nada ajudam a superar os problemas.

Julgo até que estas coisas não estão a acontecer por acaso... Alguém quer ver o circo a arder e não mede as consequências...

A carta aberta de um alemão ao povo grego e a respectiva resposta de um grego, ambas publicadas no Stern, são o exemplo desse perigo...

Há em ambas um equivoco fundamental: não são os povos responsáveis pelas opções politicas não escrutinadas, mas os respectivos governos, que cada vez mais obedecem a desígnios deletérios ditados pela Elite Global.

Abraços.
Artur Rosa Teixeira

P.S. - Absolutamente a ler até ao fim, esta resposta de um grego a uma carta enviada para a revista Stern escrita por um alemão que se sente ofendido com o "estilo de vida" grego.

“Carta aberta” de um cidadão alemão, Walter Wuelleenweber, dirigida a “caros gregos”, com um título e sub-título:

______________________________________________________

Depois da Alemanha ter tido de salvar os bancos, agora tem de salvar também a Grécia.

Os gregos, que primeiros fizeram alquimias com o euro, agora, em vez de fazerem economias, fazem greves.


Caros gregos,

Desde 1981 pertencemos à mesma família. Nós, os alemães, contribuímos como ninguém mais para um Fundo comum, com mais de 200 mil milhões de euros, enquanto a Grécia recebeu cerca de 100 mil milhões dessa verba, ou seja a maior parcela per capita de qualquer outro povo da U.E.

Nunca nenhum povo até agora ajudou tanto outro povo e durante tanto tempo.

Vocês são, sinceramente, os amigos mais caros que nós temos. O caso é que não só se enganam a vocês mesmos, como nos enganam a nós.

No essencial, vocês nunca mostraram ser merecedores do nosso Euro. Desde a sua incorporação como moeda da Grécia, nunca conseguiram, até agora, cumprir os critérios de estabilidade. Dentro da U.E., são o povo que mais gasta em bens de consumo.

Vocês descobriram a democracia, por isso devem saber que se governa através da vontade do povo, que é, no fundo, quem tem a responsabilidade. Não digam, por isso, que só os políticos têm a responsabilidade do desastre. Ninguém vos obrigou a durante anos fugir aos impostos, a opor-se a qualquer política coerente para reduzir os gastos públicos e ninguém vos obrigou a eleger os governantes que têm tido e têm.

Os gregos são quem nos mostrou o caminho da Democracia, da Filosofia e dos primeiros conhecimentos da Economia Nacional.

Mas, agora, mostram-nos um caminho errado. E chegaram onde chegaram, não vão mais adiante!

Na semana seguinte, o Stern publicou uma carta aberta de um grego, dirigida a Walter Wuelleenweber:

Caro Walter

Chamo-me Georgios Psomás. Sou funcionário público e não “empregado público” como, depreciativamente, como insulto, se referem a nós os meus compatriotas e os teus compatriotas.

O meu salário é de 1.000 euros. Por mês, hem!... não vás pensar que por dia, como te querem fazer crer no teu País. Repara que ganho um número que nem sequer é inferior em 1.000 euros ao teu, que é de vários milhares.

Desde 1981, tens razão, estamos na mesma família. Só que nós vos concedemos, em exclusividade, um montão de privilégios, como serem os principais fornecedores do povo grego de tecnologia, armas, infraestruturas (duas autoestradas e dois aeroportos internacionais), telecomunicações, produtos de consumo, automóveis, etc..

Se me esqueço de alguma coisa, desculpa.

Chamo-te a atenção para o facto de sermos, dentro da U.E., os maiores importadores de produtos de consumo que são fabricados nas fábricas alemãs.

A verdade é que não responsabilizamos apenas os nossos políticos pelo desastre da Grécia. Para ele contribuíram muito algumas grandes empresas alemãs, as que pagaram enormes “comissões” aos nossos políticos para terem contratos, para nos venderem de tudo, e uns quantos submarinos fora de uso, que postos no mar, continuam tombados de costas para o ar.

Sei que ainda não dás crédito ao que te escrevo. Tem paciência, espera, lê toda a carta, e se não conseguir convencer-te, autorizo-te a que me expulses da Eurozona, esse lugar de VERDADE, de PROSPERIDADE, da JUSTIÇA e do CORRECTO.

Estimado Walter,

Passou mais de meio século desde que a 2ª Guerra Mundial terminou. QUER DIZER MAIS DE 50 ANOS desde a época em que a Alemanha deveria ter saldado as suas obrigações para com a Grécia.

Estas dívidas, QUE SÓ A ALEMANHA até agora resiste a saldar com a Grécia (Bulgária e Roménia cumpriram, ao pagar as indemnizações estipuladas), e que consistem em:

1. Uma dívida de 80 milhões de marcos alemães por indemnizações, que ficou por pagar da 1ª Guerra Mundial;
2. Dívidas por diferenças de clearing, no período entre-guerras, que ascendem hoje a 593.873.000 dólares EUA.
3. Os empréstimos em obrigações que contraiu o III Reich em nome da Grécia, na ocupação alemã, que ascendem a 3,5 mil milhões de dólares durante todo o período de ocupação.
4. As reparações que deve a Alemanha à Grécia, pelas confiscações, perseguições, execuções e destruições de povoados inteiros, estradas, pontes, linhas férreas, portos, produto do III Reich, e que, segundo o determinado pelos tribunais aliados, ascende a 7,1 mil milhões de dólares, dos quais a Grécia não viu sequer uma nota. 
5. As imensuráveis reparações da Alemanha pela morte de 1.125.960 gregos (38,960 executados, 12 mil mortos como dano colateral, 70 mil mortos em combate, 105 mil mortos em campos de concentração na Alemanha, 600 mil mortos de fome, etc., etc.). 
6. A tremenda e imensurável ofensa moral provocada ao povo grego e aos ideais humanísticos da cultura grega.

Amigo Walter, sei que não te deve agradar nada o que escrevo. Lamento-o.

Mas mais me magoa o que a Alemanha quer fazer comigo e com os meus compatriotas.

Amigo Walter: na Grécia laboram 130 empresas alemãs, entre as quais se incluem todos os colossos da indústria do teu País, as que têm lucros anuais de 6,5 mil milhões de euros. Muito em breve, se as coisas continuarem assim, não poderei comprar mais produtos alemães porque cada vez tenho menos dinheiro. Eu e os meus compatriotas crescemos sempre com privações, vamos aguentar, não tenhas problema. Podemos viver sem BMW, sem Mercedes, sem Opel, sem Skoda. Deixaremos de comprar produtos do Lidl, do Praktiker, da IKEA.

Mas vocês, Walter, como se vão arranjar com os desempregados que esta situação criará, que por ai os vai obrigar a baixar o seu nível de vida, perder os seus carros de luxo, as suas férias no estrangeiro, as suas excursões sexuais à Tailândia? Vocês (alemães, suecos, holandeses, e restantes “compatriotas” da Eurozona) pretendem que saíamos da Europa, da Eurozona e não sei mais de onde.

Creio firmemente que devemos fazê-lo, para nos salvarmos de uma União que é um bando de especuladores financeiros, uma equipa em que jogamos se consumirmos os produtos que vocês oferecem: empréstimos, bens industriais, bens de consumo, obras faraónicas, etc.

E, finalmente, Walter, devemos “acertar” um outro ponto importante, já que vocês também disso são devedores da Grécia:

EXIGIMOS QUE NOS DEVOLVAM A CIVILIZAÇÃO QUE NOS ROUBARAM!

Queremos de volta à Grécia as imortais obras dos nosos antepassados, que estão guardadas nos museus de Berlim, de Munique, de Paris, de Roma e de Londres.

E EXIJO QUE SEJA AGORA! Já que posso morrer de fome, quero morrer ao lado das obras dos meus antepassados.

Cordialmente,
Georgios Psomás

Enviado por Artur Rosa Teixeira, correspondente da redecastorphoto em Portugal, Ultramar e  arrabaldes

domingo, 16 de outubro de 2011

Os Lusíadas na Crise...

À rasca... portuguesa


I
As sarnas de barões todos inchados

Eleitos pela plebe lusitana

Que agora se encontram instalados

Fazendo o que lhes dá na real gana.

Nos seus poleiros bem engalanados,

Mais do que permite a decência humana,

Olvidam-se de quanto proclamaram

Nas campanhas com que nos enganaram!

II

E também as jogadas habilidosas

Daqueles tais que foram dilatando

Contas bancárias ignominiosas,

Do Minho ao Algarve tudo devastando,

Guardam para si as coisas valiosas.

Desprezam quem de fome vai chorando!

Gritando levarei, se tiver arte,
Esta falta de vergonha a toda a parte!

III
Falam da crise grega todo o ano!

E das aflições que à Europa deram;

Calam-se aqueles que, por engano,

Votaram no refugo que elegeram!

Que a mim mete-me nojo o peito ufano

De crápulas que só enriqueceram

Com a prática de trafulhice tanta

Que andarem à solta só me espanta.

IV

E vós, ninfas do Douro onde eu nado,

Por quem sempre senti carinho ardente,

Não me deixeis agora abandonado

E concedei engenho à minha mente,

De modo a que possa, convosco ao lado,

Desmascarar de forma eloquente

Aqueles que já têm no seu gene

A besta horrível do poder perene!


Enviado por Artur Teixeira – Ponta Delgada, PT

sábado, 15 de outubro de 2011

O BCE (Banco Central Europeu) explicado...


Comentário do *Artur: De uma forma simples, o texto abaixo explica como os bancos especulam com o nosso dinheiro e a nossa desgraça, sob o patrocínio de entidades criadas aparentemente para servir a Economia da União Europeia, como no caso do BCE, mas que servem sorrateiramente ao Agiotismo Internacional e fazem-no com o nosso dinheiro… É de lhes tirar o chapéu!

O BCE (ao contrário das explicações opacas vendidas pela comunicação social) explicado para o cidadão comum...

O que é o BCE?
- O BCE é o banco central dos Estados da UE que pertencem à zona euro, como é o caso de Portugal.

E de onde veio o dinheiro do BCE?
- O dinheiro do BCE, ou seja, o capital social, é dinheiro de todos nós, cidadãos da UE, na proporção da riqueza de cada país. Assim, à Alemanha correspondeu 20% do total. Os 17 países da UE que aderiram ao euro entraram no conjunto com 70% do capital social e os restantes 10 dos 27 Estados da UE contribuíram com 30%.

E é muito, esse dinheiro?
- O capital social era 5,8 mil milhões de euros, mas no fim do ano passado foi decidido fazer o 1º aumento de capital desde que há cerca de 12 anos o BCE foi criado, em três fases. No fim de 2010, no fim de 2011 e no fim de 2012 até elevar a 10,6 mil milhões o capital do banco.

Então, se o BCE é o banco destes estados pode emprestar dinheiro a Portugal, ou não? Como qualquer banco pode emprestar dinheiro a um ou outro dos seus accionistas.
- Não, não pode.

Porquê?!
- Porquê? Porque... porque, bem... são as regras.

Então, a quem pode o BCE emprestar dinheiro?
- A outros bancos, a bancos alemães, bancos franceses ou portugueses.

Ah percebo, então Portugal, ou a Alemanha, quando precisa de dinheiro emprestado não vai ao BCE, vai aos outros bancos que por sua vez vão ao BCE.
- Pois.

Mas para quê complicar? Não era melhor Portugal ou a Grécia ou a Alemanha irem directamente ao BCE?
- Bom... sim... quer dizer... em certo sentido... mas assim os banqueiros não ganhavam nada nesse negócio!

Agora não percebi!...
- Sim, os bancos precisam de ganhar alguma coisinha. O BCE de Maio a Dezembro de 2010 emprestou cerca de 72 mil milhões de euros a países do euro, a chamada dívida soberana, através de um conjunto de bancos, a 1%, e esse conjunto de bancos emprestaram ao Estado português e a outros Estados a 6 ou 7%.

Mas isso assim é um “negócio da china”! Só para irem a Bruxelas buscar o dinheiro!
- Não têm sequer de se deslocar a Bruxelas. A sede do BCE é na Alemanha, em Frankfurt. Neste exemplo, ganharam com o empréstimo a Portugal uns 3 ou 4 mil milhões de euros.

Isso é um verdadeiro roubo... Com esse dinheiro escusava-se até de cortar nas pensões, no subsídio de desemprego ou de nos tirarem parte do 13º mês.
-As pessoas têm de perceber que os bancos têm de ganhar bem, senão como é que podiam pagar os dividendos aos accionistas e aqueles ordenados aos administradores que são gente muito especializada.

Mas quem é que manda no BCE e permite um escândalo destes?
- Mandam os governos dos países da zona euro. A Alemanha em primeiro lugar que é o país mais rico, a França, Portugal e os outros países.

Então, os governos dão o nosso dinheiro ao BCE para eles emprestarem aos bancos a 1%, para depois estes emprestarem a 5 e a 7% aos governos que são donos do BCE?
- Bom, não é bem assim. Como a Alemanha é rica e pode pagar bem as dívidas, os bancos levam só uns 3%. A nós ou à Grécia ou à Irlanda que estamos de corda na garganta e a quem é mais arriscado emprestar, é que levam juros a 6%, a 7% ou mais.

Então nós somos os donos do dinheiro e não podemos pedir ao nosso próprio banco!...
- Nós, qual nós? O país, Portugal ou a Alemanha, não é só composto por gente vulgar como nós. Não se queira comparar um borra-botas qualquer que ganha 400 ou 600 euros por mês ou um calaceiro que anda para aí desempregado, com um grande accionista que recebe 5 ou 10 milhões de dividendos por ano, ou com um administrador duma grande empresa ou de um banco que ganha, com os prémios a que tem direito, uns 50, 100, ou 200 mil euros por mês. Não se pode comparar.

Mas, e os nossos governos aceitam uma coisa dessas?
- Os nossos Governos... Por um lado, são, na maior parte, amigos dos banqueiros ou estão à espera dos seus favores, de um empregozito razoável quando lhes faltarem os votos...

Mas então eles não estão lá eleitos por nós?
- Em certo sentido, sim, é claro, mas depois... Quem tem a massa é quem manda. É o que se vê nesta actual crise mundial, a maior de há um século para cá. Essa coisa a que chamam sistema financeiro transformou o mundo da finança num cassino mundial, como os cassinos nunca tinham visto nem suspeitavam, e levou os EUA e a Europa à beira da ruína. É claro, essas pessoas importantes levaram o dinheiro para casa e deixaram a gente como nós, que tinha metido o dinheiro nos bancos e nos fundos, a ver navios. Os governos, então, nos EUA e na Europa, para evitar a ruína dos bancos tiveram de repor o dinheiro.

E onde o foram buscar?
- Onde havia de ser?! Aos impostos, aos ordenados, às pensões. De onde havia de vir o dinheiro do Estado?...

Mas meteram os responsáveis na cadeia?
- Na cadeia? Que disparate! Então, se eles é que fizeram a coisa, engenharias financeiras sofisticadíssimas, só eles é que sabem aplicar o remédio, só eles é que podem arrumar a casa. É claro que alguns mais comprometidos, como Raymond McDaniel, que era o presidente da Moody’s, uma dessas agências de rating que classificaram a credibilidade de Portugal para pagar a dívida como lixo e atiraram com o país ao tapete, foram... passados à reforma. Como McDaniel é uma pessoa importante, levou uma indemnização de 10 milhões de dólares a que tinha direito.

E então como é? Comemos e calamos?
- Isso já não é comigo, eu só estou a explicar...

Enviado por *Artur Rosa Teixeira - aposentado
(direto de Ponta Delgada – PT)