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segunda-feira, 15 de abril de 2013

Pepe Escobar: “Irã, Paquistão, Síria, Qatar - O Oleogasodutostão em construção”


14/4/2013, Pepe Escobar, Russia Today
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Pepe Escobar
A construção está quase completada: um gasoduto de gás natural que liga Irã e Paquistão, projeto que faz antever mudança geopolítica gigantesca. As potências regionais unem-se nesse mercado chave de energia, de olhos na China e de costas para o ocidente.

Desde o início dos anos 2000s, analistas e diplomatas em toda a Ásia sonham com uma futura Grade Asiática de Segurança Energética.

Disso se trata – dentre outros desenvolvimentos – da conclusão do trecho final do gasoduto de 7,5 bilhões de dólares, 1.700 km de extensão, para transporte de gás natural entre Irã-Paquistão, o gasoduto IP, que começa no campo iraniano gigante de South Pars, no Golfo Pérsico, e deve estar plenamente operante no final de 2014.

Iranianos trabalham em uma seção do oleoduto ligando o Irã - Paquistão (IP) depois que o projeto foi lançado durante uma cerimônia na cidade fronteiriça iraniana de Chah Bahar em 11 de março de 2013.
Ninguém perde dinheiro apostando na reação de Washington: se Islamabad insistir nesse gasoduto IP, estará “violando as sanções da ONU contra o programa nuclear do Irã”. Mas nada disso tem qualquer coisa a ver com a ONU: só tem a ver com sanções inventadas pelo Congresso e pelo Departamento do Tesouro dos EUA.

Sanções? Que sanções? Islamabad precisa desesperadamente de energia. A China precisa desesperadamente de energia. E a Índia será furiosamente tentada a seguir a mesma via, sobretudo quando o gasoduto IP alcançar Lahore, a apenas 100 km da fronteira da Índia. A Índia, já que se falou dela, está importando petróleo iraniano e não está sendo castigada por isso.

Todos a bordo do trem ganha-ganha

Quando o presidente Mahmoud Ahmadinejad e o presidente paquistanês Asif Zardari encontraram-se no porto iraniano de Chabahar, no início de março, já transcorrera muito tempo desde a primeira vez em que se falou de gasoduto Irã-Paquistão, em 1994 – então chamado Irã-Paquistão-Índia (IPI), também conhecido como “oleogasoduto da paz”. As pressões subsequentes, pelos dois governos Bush, foram tão violentas, que a Índia abandonou a ideia em 2009.

Ahmadinejad e Zaradari em início de mar/2013.
Abertura da construção do Olegasoduto IP.
O gasoduto Irã-Paquistão é o que os chineses chamam de “negócio ganha-ganha”. O trecho iraniano já está concluído. Sabedora dos imensos problemas de fluxo de caixa que Islamabad enfrenta, Teerã está emprestando $500 milhões; e Islamabad entrará com $1 bilhão, para concluir o trecho paquistanês. Interessa anotar que Teerã só concordou com emprestar o dinheiro, depois que Islamabad comprometeu-se a não desistir (como fez a Índia), por mais que Washington a pressione.

O gasoduto Irã-Paquistão, como cordão umbilical chave (de aço), zomba da divisão artificial, estimulada pelos EUA, entre xiitas e sunitas. Teerã precisa desse alívio, e de maior influência no sul da Ásia. Ahmadinejad até riu: “com gás natural ninguém faz bomba atômica”.

Zardari, por sua vez, melhorou as próprias chances para as eleições paquistanesas, dia 11 de maio. Com o gasoduto Irã-Paquistão bombeando 750 milhões de metros cúbicos de gás natural para o coração da economia paquistanesa, terão fim os cortes de energia e as fábricas não fecharão. O Paquistão não tem petróleo. Pode ter alto potencial para energia solar ou eólica, mas não há, nem capitais de investimento, nem know-how para desenvolvê-lo.

Dar as costas a Washington é fórmula garantida de sucesso político-eleitoral no Paquistão, sobretudo depois da invasão territorial, em 2011, para assassinar Bin Laden; e, isso, sem falar dos ataques ininterruptos que Obama e a CIA mantêm, dia e noite, sem descanso, com os seus drones, contra as áreas tribais.

Mais importante que isso, Islamabad sabe que terá de manter íntima cooperação com Teerã, para assegurar o controle do Afeganistão, depois de 2014. Se o Paquistão não se aproximar de Teerã, a Índia lá chegará, e haverá uma aliança Índia-Irã na cabine de pilotagem.

Um tal Plano B sugerido por Washington não passou de algumas vagas promessas de construir barragens hidrelétricas, que se encaixaria num oleogasodutostão norte-americano, miragem que o deserto inspira aos norte-americanos, sempre só no papel, mas desde a era Bill Clinton.

Assentamento de tubos do Oleogasodutostão IP
O Ministério de Relações Exteriores em Islamabad argumentou que cabia a Washington, no mínimo, tentar manifestar alguma compreensão. Quanto à vivaz imprensa paquistanesa, está em campo. [1]

E o grande vencedor é... a China

O gasoduto Irã-Paquistão já é protagonista estrela da(s) Nova(s) Rota(s) da Seda – das que realmente contam, não as que só existem na imaginação de Hillary Clinton. E há também a estratégica, ultra sumarenta questão Gwadar 
Islamabad decidiu entregar à China não só o controle operacional do porto de Gwadar no Mar da Arábia, no ultra sensível sudoeste do Baloquistão; crucialmente importante, Islamabad e Pequim também assinaram acordo de $4 bilhões para construir uma refinaria de petróleo, que refinará 400 mil barris por dia e será a maior refinaria do Paquistão.

Porto de Gwadar, operado pela China. Localização estratégica perto de fronteira Irã-Paquistão
Gwadar, porto de águas profundas, foi construído pela China, mas até recentemente era administrado por Cingapura.

O plano de longo prazo dos chineses é uma maravilha. O próximo passo, depois da refinaria de petróleo, será implantar um oleoduto que ligue o porto de Gwadar a Xinjiang, paralelo à rodovia Karakoram, o que configurará Gwadar como nó chave de distribuição para todo o Oleogasodutostão, levando gás e petróleo do Golfo Pérsico até o oeste da China. Assim estará afinal superado o “dilema de Ormuz”, que Pequim ainda enfrenta.

Gwadar, porto estrategicamente localizado na confluência entre o sudoeste e o sul da Ásia, não distante da Ásia central, emergirá afinal como centro de distribuição de gás, petróleo e petroquímicos – com o Paquistão como corredor de energia crucial, unindo Irã e China. Isso tudo, é claro, desde que a CIA não ponha fogo no Baloquistão.

Vista geral do Porto da Gwadar
O inevitável resultado de curto prazo de tudo isso é que a obsessão norte-americana por sanções e mais sanções está prestes a ser despachada para o fundo do Mar da Arábia, não muito longe de onde descansa o cadáver de Osama bin Laden. E, com o gasoduto Irã-Paquistão, IP, convertido em IPC – com a adição da China – talvez a Índia também acorde, fareje o cheiro de gás e tente ressuscitar a ideia inicial de um gasoduto IPI, Irã-Paquistão-Índia.

O ângulo sírio do Oleogasodutostão

Esse claro, visível, grande sucesso dos iranianos no sul da Ásia contrasta com seus padecimentos no sudoeste da Ásia.

Os campos de gás de South Pars – o maior do mundo – são partilhados entre o Irã e o Qatar. Teerã e Doha desenvolveram relação extremamente complexa, em que se misturam cooperação e duríssima concorrência.

A razão crucial (nunca declarada) pela qual o Qatar trabalha tão obcecadamente pela “mudança de regime” na Síria, é matar ainda no berço o oleoduto de $10 bilhões que ligará Irã-Iraque-Síria, cuja construção foi acordada em julho de 2011. O mesmo se aplica à Turquia – porque esse oleoduto IIS passará longe de Ancara... que sempre se apresenta como encruzilhada chave na distribuição de energia entre ocidente e oriente.

É claro que o oleoduto Irã-Iraque-Síria é tão amaldiçoado em Washington quanto o outro, Irã-Paquistão. A diferença é que, no caso do oleoduto IIS, Washington pode contar com os aliados Qatar e Turquia para que sabotem toda a iniciativa.

Isso implica sabotar não só o Irã, mas também a estratégia dos “Quatro Mares” que o presidente sírio Bashar al-Assad anunciou em 2009, pela qual Damasco se converteria em um portal de acesso para o Oleogasodutostão, conectada ao Mar Cáspio, ao Mar Negro, ao Golfo Pérsico e ao Mediterrâneo Leste.

É estratégia que mostra uma Síria em íntima conexão com os fluxos de energia iraniana – não com a energia qatari. O oleoduto Irã-Iraque-Síria, ISS, é conhecido na região como o “oleoduto da amizade”. Como nunca deixaria de fazer, a imprensa-empresa ocidental refere-se a ele como oleoduto “islâmico” (e os oleodutos sauditas seriam o quê?! Católicos?!). O que torna tudo ainda mais ridículo é que o gás que viaja por esse oleoduto corre para a Síria e dali para o Líbano – e do Líbano escorre para mercados europeus próximos, todos carentes, famintos, famélicos, de energia.

Erimtan Can
Os jogos no Oleogasodutostão complicam-se ainda mais se se soma aí o ultra complexo caso de amor “energético” entre o Curdistão iraquiano e a Turquia, bem detalhados por Erimtan Can – e as recentes descobertas de gás no Mediterrâneo Leste, em águas territoriais de Israel, Palestina, Chipre, Egito, Líbano e Síria; vários deles, talvez todos esses atores, podem transformar-se, de importadores, em exportadores de energia.

Israel terá a clara opção de enviar seu gás por gasoduto para a Turquia e dali exportá-lo para a Europa. É o que explica o tal telefonema de “desculpas” (conversa fiada) entre Erdogan, primeiro-ministro da Turquia, e o israelense Netanyahu, que Obama agenciou.

As fronteiras terrestres e marítimas entre Israel e Líbano continuam pendentes de uma nebulosa “Linha Azul” da ONU, criada nos idos de 2000. Damasco – como Teerã – apóiam Beirute, mais uma vez contra o desejo de Washington. E Damasco também apóia a estratégia de Bagdá de diversificar os meios de distribuição, mais uma vez na tentativa de escapar do Estreito de Ormuz. Daí a importância do oleoduto Irã-Iraque-Síria.

Não surpreende que a Síria seja a linha vermelha demarcada por Teerã. Agora, todo o Oleogasodutostão está à espera: quer saber até que ponto o Qatar está disposto a acompanhar a ensandecida obsessão de Washington.



Nota de rodapé

[1] “LAHORE: Dois dias depois de EUA lançaram ameaça velada contra o Paquistão e os planos do país para importar gás natural do Irã, o presidente Asif Ali Zardari disse, no sábado, que o projeto multibilionário será completado, custe o que custar”.

“Ninguém tem poder para fazer parar esse projeto” – disse o presidente Zardari a um grupo de editores da imprensa escrita e âncoras de redes de televisão, em Bilawal House, Lahore, no sábado. “Como estado soberano, o Paquistão pode firmar qualquer acordo, com qualquer país, com vistas a equacionar nosso problema de energia” – Zardari acrescentou (3/3/2013, The Express Tribune, Islamabad em: Iran gas pipeline project: Unnerved by US threats, Pakistan stands firm)


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quinta-feira, 14 de março de 2013

Gasoduto iraniano: Paquistão desafia os EUA


13/3/2013, Kaveh L Afrasiabi, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Sobre o óleo-gasoduto IP, ver também: 19/7/2012, redecastorphoto, Pepe Escobar: “China quer saber de negócios, não de sanções”

KL Afrasiabi
Embora a ONU jamais tenha imposto sanções contra o setor de energia do Irã, o governo dos EUA opôs-se à decisão do Paquistão, de iniciar afinal a construção de um óleo-gasoduto que o unirá ao Irã. Para os EUA, o negócio implicaria “violação das sanções impostas pela ONU contra o programa nuclear do Irã”.[Ler (em inglês): Saving the Peace Pipeline]. Ao que parece, os EUA mais uma vez confundem suas próprias leis e as leis da comunidade internacional.

Asif Zardari (e) e Mahmoud Ahmadinejad (d)  cumprimentam-se em 11/3/2013
Na 2ª-feira passada, o Presidente Mahmoud Ahmadinejad do Irã e o Presidente do Paquistão, Asif Zardari, deram início oficial à construção da porção paquistanesa do óleo-gasoduto, que percorrerá 1.600 quilômetros. Batizado de “óleo-gasoduto da paz”, o projeto começou a ser traçado em 1994, como projeto trilateral Irã-Paquistão-Índia (IPI). (Em 2009, apesar de suas graves carências de energia, mas pressionada pelos EUA, a Índia abandonou o projeto).

Como seria de esperar-se, a grande imprensa-empresa ocidental já adotou ativa posição contra o gasoduto Irã-Paquistão. Foi chamado de “delírio”, “sonho fantasioso”, com repetidos comentário sobre a impossibilidade de o Paquistão conseguir arcar com gastos da ordem de US$1,5 bilhão, para completar uma linha de transmissão de gás pela qual passarão, por dia, 750 milhões de pés cúbicos de gás natural, diretamente bombeados para o coração da economia paquistanesa sequiosa de energia.

Hina Rabbani
Nada justifica o pessimismo “jornalístico”. Com o Paquistão atormentado por racionamentos de energia, numa economia que precisa crescer, esse gasoduto é “assunto de interesse nacional do Paquistão”, como disse a Ministra de Relações Exteriores”, Hina Rabbani.

Os dois países também assinaram acordo para construir uma refinaria em Gwadar, província do Baloquistão, no sudoeste do Paquistão, com capacidade para refinar 400 mil barris de petróleo. Especialistas estrangeiros, como Dan Millison do Banco de Desenvolvimento Asiático [orig. Asian Development Bank (ADB)], é otimista. Millison defendeu uma avaliação feita pelo ADB, sobre o “óleo-gasoduto da paz” baseada exclusivamente em aspectos econômicos e considerando a crescente demanda por energia no subcontinente.

A grande questão é: quando o óleo-gasoduto Irã-Paquistão estiver completado, como a Índia conseguirá resistir à tentação de renovar o pedido para conectar-se a ele, questão que permanece adormecida? Em 2005, o Primeiro-Ministro da Índia, Manmohan Singh disse que “estamos desesperadamente carentes de energia e de novas fontes de energia”.

Do ponto de vista dos EUA, o anúncio feito por Ahmadinejad-Zardari na fronteira entre Irã e Paquistão, significa várias coisas, de várias faces: em primeiro lugar, o negócio é o primeiro grande desafio importante, em palco internacional, contra as sanções unilaterias que os EUA impuseram ao setor de energia do Irã. A significação do desafio vai bem além das relações bilaterais entre os dois vizinhos na Ásia e bem pode servir como exemplo a ser seguido por outras nações.

Victoria Nuland
[Depois do evento, a porta-voz do Departamento de Estado Victoria Nuland disse: “Estamos gravemente preocupados, se esse projeto realmente avançar, que tenhamos de disparar a Lei das Sanções contra o Irã” – segundo matéria da Agência France-Presse. – “Temos jogado limpo com os paquistaneses sobre essas preocupações. Já vimos esse gasoduto ser anunciado 10, 15 vezes antes, no passado. Temos de ver, portanto, o que realmente acontece”].

Em segundo lugar, o óleo-gasoduto é uma oportuna brecha, para Teerã, que padece sob pressões econômicas do ocidente. Enfraquece a política de alavancagem dos EUA nas negociações nucleares, que estão em ponto crucial.

A terceira razão pela qual o óleo-gasoduto é má notícia para os EUA é que ele põe Washington em rota de confrontação com o Paquistão, seu importante parceiro na “guerra ao terror”, destinado a desempenhar papel chave no Afeganistão depois da retirada dos EUA, planejada para 2014. O dilema dos EUA é como esperar que o Paquistão desempenhe papel de maior estabilizador, se, simultaneamente, os EUA o ameaçam com sanções (colaterais), nos termos da Lei das Sanções norte-americana?

Em quarto lugar, os EUA preocupam-se, em silêncio, sobre alguma futura virada na Índia, que estimule uma atitude de desafio pelo Paquistão. Qualquer movimento dos paquistaneses para contornar as pressões norte-americanas, pode levar New Delhi a voltar a pensar em se conectar ao óleo-gasoduto iraniano.

Oleogasoduto Irã-Paquistão-Índia (O trecho da Índia está suspenso)
Se isso acontecer, os EUA comerão o pão que o diabo amassou para evitar grandes torvelinhos em sua política para a Índia, ou enfrentar novas e graves dores de cabeça em sua política externa em todo o mundo. Teste limite para a hegemonia dos EUA no pós-Guerra Fria, o sucesso ou o fracasso da política de sanções dos EUA contra o Irã afeta todo o quadro da política global dos e da liderança global dos EUA.

Para impedir que a questão entre em espiral incontrolável, é indispensável que os EUA produzam política mais realista para o Irã – política que considere a viabilidade de um acordo para “suspender a suspensão”, pelo qual o Irã poria fim ao enriquecimento de urânio a 20%, em troca do fim das principais sanções.

O acordo para a construção do óleo-gasoduto Irã-Paquistão evidencia que os EUA estão cada da mais isolados na batalha pelo Irã. As sanções dos EUA contra o Irã não passam de violência sem qualquer plano de jogo. Quanto mais depressa os políticos dos EUA entenderem isso, melhor.