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terça-feira, 14 de maio de 2013

Síria: “EUA piscaram. A posição do governo sírio está reforçada”


Uma semana depois, não há sinais de 
Israel ter interceptado arma alguma

3-10/5/2013, Conflict Forum, Comments
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

ATUALIZAÇÃO dos tradutores: 13/5/2013, 13h, Russia Today (esp.) em: “Obama: EE.UU. y Reino Unido acordaron reforzar la presión sobre Siria”.  


Essa semana,  Confict Fórum dedica-se a avaliar o que haveria por trás dos ataques israelenses à Síria, na 6ª-feira (3/5/2013) e no domingo (5/5/2013) passados – e desenvolvimentos.

Míssil Fateh 110 tipo S-300 em plataforma móvel
Ostensivamente, Israel declarou que suas ações visavam a impedir que o Hezbollah obtivesse armas “capazes de decidir” o jogo [orig. “game changing” weapons]. É o que os israelenses vêm repetindo ao Ocidente já há muitos anos (em contextos diferentes: primeiro, seriam mísseis terra-ar S-300; depois, os mísseis Fateh 110; ultimamente, fala-se de “armas químicas”). Os estados ocidentais, sem alarde, aceitaram a versão, em vez dos fatos. E assim, porque calaram, consentiram que Israel teria o “direito” de fazer o que fez. Israel, não há dúvidas, conta com que, hoje, o pretexto que apresentou como motivo dificilmente encontrará objeções entre os países ocidentais.

Mas fato é que já se passou uma semana, e ainda não se viu qualquer prova consistente de que Israel tenha realmente interceptado alguma arma destinada ao Hezbollah.

Desfile de soldados do Hezbollah
Sim, o prédio de um instituto de pesquisas, Jurmana, próximo a Damasco, local onde há muito tempo se sabe que operam militares encarregados de suprir as necessidades militares dos movimentos da Resistência no Líbano e na Palestina, foi atacado por mísseis israelenses, em operação pirotécnica, no domingo. Mas o Hezbollah divulgou extraoficialmente que receberam, sim, recentemente, carregamento de armas “significativas” (o que também foi confirmado por vários jornais e jornalistas de prestígio na mídia de Israel).

Em movimento possivelmente conectado a isso, o Líbano, a partir da 6ª-feira (3/5/2013), passou a ser ostensivamente “visitado” por aviões israelenses de observação, voando a baixa altitude – como se os israelenses tivessem fracassado no primeiro assalto e voltassem, tentando localizar a “encomenda” entregue (assumindo que a informação vazada do Hezbollah seja verdadeira, como provavelmente é). O mais provável é que Israel tenha interceptado alguma inteligência parcial, relacionada a uma transferência de armas; e, isso, os militares apresentaram em seus “road-shows” pela Europa, para convencer sobre os motivos dos ataques.

Em todos os casos, começa a ficar claro que o número de baixas nas tropas de Assad em Damasco é muito, muito menor  do que o divulgado por fontes da oposição síria (o Exército Sírio é exército de cidadãos, e alto número de baixas não passaria desapercebido, sem que a população em geral soubesse). E não se vê nenhum grande avanço estratégico do lado “ocidental”.

O Hezbollah já está, há muito tempo, muito fortemente armado, e a inteligência de Israel já sugeriu, há algum tempo, que o Partido da Resistência libanês tem mísseis Fateh 110 integrados ao seu arsenal.

Super-Putin
Tudo isso sugere que o ataque israelense foi mais político, que propriamente militar. Assim sendo, o que está por trás dos movimentos de Israel?

Muitas vozes nessa região sugerem duas possibilidades: a primeira tem a ver com a oportunidade, o timing: o ataque ocorreu num momento em que o Exército Sírio obtinha avanços significativos contra a oposição armada. Há quem diga que o ataque israelense, muito ostensivo e visível, operação estilo “Choque e Pavor” contra Damasco, pode ter tido o objetivo de dar ânimo à oposição e facilitar um assalto dentro de Damasco – exatamente na véspera do encontro entre Kerry e Putin em Moscou. Um assalto diretamente contra Damasco, se bem-sucedido, poderia fortalecer a posição de Kerry, naquele encontro.

Mais provável, nos parece, é que todo o caso tenha sido construído com o objetivo de conquistar apoio, dentro dos EUA, a favor de intervenção mais direta na Síria. Israel com certeza anteviu (e acertou) que conseguiria safar-se com sua “intervenção”, sem iniciar, sozinho, uma guerra. E se os pró-intervenção, nos EUA, conseguem induzir Obama a ignorar sua tal “linha vermelha”, usando para isso o precedente das armas para o Hezbollah, estariam em melhor posição para induzi-lo a intervir também no Irã.

Efetivamente, as ramificações estratégicas dos ataques israelenses já fizeram subir o nível do conflito sírio: de uma guerra por procuração, combatida só em território sírio, para guerra mais ampla, na qual agentes externos (Israel, o Irã, o Hezbollah e a Rússia) foram postos a um passo de intervir militarmente no conflito: resultado de três intervenções israelenses diretas, no passado, contra a Síria, e caso Israel ataque novamente.

Em outras palavras, as ações de Israel nos puseram ante o risco, hoje maior e mais grave, de que o conflito sírio evolua para conflito regional mais amplo.

Hassan Nasrallah
Dentre outras consequências dos ataques do domingo, fontes israelenses e outras têm noticiado a reação fortemente adversa do Presidente Putin, à ação dos israelenses. Há notícias de que Putin teria advertido diretamente Netanyahu de que a Rússia não tolerará qualquer outro ataque à Síria e que qualquer movimento dessa natureza implicará resposta russa imediata às aventuras israelenses – além de a Rússia passar a transferir também sistemas de armas para a Síria. (Em Israel também circulam notícias de que Netanyahu teria tipo recepção gélida na China, mas nada equivalente à “carraspana, de alto a baixo” que ouviu de Putin).

O aiatolá Khamenei, Supremo Líder iraniano também assegurou “apoio pleno e ilimitado” à Síria, e o Secretário-Geral do Hezbollah, Sayyed Hassan Nasrallah, falou de aliança militar mais próxima com a Síria (trechos traduzidos desse discurso), e da decisão dos sírios – em consequência – de acelerar a transferência de armas e de incluir “novas armas decisivas” para o Hezbollah (o que é ameaça direta a Israel).

Bem claramente, o Secretário-Geral do Hezbollah falou de uma decisão síria de “recuperar” o Golan, como mais uma consequência dos ataques israelenses. Estamos, pois, por tudo isso, à beira de mais uma guerra? No atual momento, provavelmente não.

Barack Obama explica...
Esforços (nos EUA e no exterior) para encurralar Obama e forçá-lo a intervir na Síria, sob o argumento de que sua “linha vermelha” teria sido transgredida, deram, pode-se dizer, em nada. Obama explicou:  
Há provas de que se usaram armas químicas dentro da Síria, mas não se sabe ainda quem as usou. Não tomo decisões assim, sobre suposições. Não posso organizar coalizões internacionais, se só há suposições. Já tentamos esse caminho no passado, aliás. E não deu certo.

Carla del Ponte
De fato, nem provas há, de coisa alguma. A procuradora da Corte Criminal Internacional, Carla del Ponte, disse apenas que há fortes suspeitas de que a oposição – não o Exército Sírio – usou gás Sarin. Obama encontrou aí um gancho no qual se pendurar, para despachar a questão para uma remota (e com certeza longa) investigação.

Este Conflicts Fórum acredita que Obama – pensando já no legado de seus dois mandatos presidenciais – agarra-se ao desejo de passar à história como o homem que arrancou os EUA de suas mais que calamitosas guerras no Oriente Médio, não como quem iniciou novas guerras. Fontes iranianas observaram que inúmeras mensagens voaram, depois dos ataques israelenses, endereçadas ao Irã, à Síria e à Rússia, para assegurar que os EUA não se preparavam para intervir militarmente – e também Israel, na sequência, afirmou, em várias mensagens, que não estava iniciando qualquer guerra.

Tudo isso posto, como fica a Síria? A posição síria é hoje mais forte que antes, tanto militarmente quanto politicamente (vale a pena ler as declarações de um alto oficial sírio, que fala em tom muito mais firme que antes dos ataques israelenses). Por enquanto, o foco está orientado para a possibilidade de negociações, numa conferência internacional prevista para o final do mês de maio.

Bashar al- Assad
No plano político, os EUA foram forçados a recuar: os EUA tiveram de se aproximar da posição dos russos (recuaram da posição anterior de “Assad tem de sair”). E Síria, Irã e o Hezbollah, nos últimos dias, manifestaram publicamente a voz de uma frente revigorada de Resistência.

Mas... conseguirá o Ocidente fazer sua parte desse “acordo de Moscou”? Conseguirá levar à mesa de negociações um representante da oposição que tenha poder e credibilidade? Quanto a isso, a posição russa é mais forte: Damasco tem representante com poder armado e com credibilidade. E, mantidas as atuais circunstâncias, as forças do governo sírio também têm alta probabilidade de continuar a avançar com sucesso no front militar.

Isso, ao que parece, não desagradará completamente aos EUA: pode haver aí sinais de importante mudança no pensamento dos americanos. Já começam a circular notícias, depois das conversas em Moscou, que sugerem que os EUA têm, agora, como principal objetivo, preservar o Exército Sírio (mesmo que continue sob o comando de Assad).

Tudo leva a crer que os EUA já não acalentem qualquer esperança – se é que algum dia tiveram esperança honesta (porque tudo pode ter sido só absoluto delírio) – de que a oposição possa (ou, sequer, que deseje) eliminar os grupos islamistas radicais armados – sobretudo a Frente Al-Nusra ligada à Al-Qaeda.

Banner da Frente al-Nusra.
Observem o logo da al-Qaeda à esquerda, no alto

Hoje, os EUA parecem inclinados à ideia de que só o Exército Sírio tem capacidade para conter a Al-Qaeda na Síria (é o que o Exército Sírio já está fazendo).

Nesse caso, sabe-se lá, nada de cessar-fogo? O Exército Sírio continuará a atacar os radicais islamistas, enquanto, paralelamente, a oposição não jihadista será convidada para as negociações? É realizável? Será que os chamados “seculares” podem aceitar essa divisão? Os EUA podem preparar uma oposição síria para participar de negociações. Mas a oposição secular aceitará negociar com Bashar, ao mesmo tempo em que o exército do mesmo Bashar ataca a Frente Al-Nusra? Essa conferência chegará a acontecer? Mas e se nem a conferência for possível? Nesse caso... acontecerá o quê?

sábado, 11 de maio de 2013

Sayyed Hassan Nasrallah: “Apoiamos a Resistência popular no Golan sírio”


25º aniversário da Rádio al-Nour  - Discurso de Sayyed Hassan Nasrallah, Secretário-Geral do Hezbollah

9/5/2013, TV Al-Manar, Líbano (Vídeo legendado ao inglês)[1]
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Sayyed Hassan  Nasrallah
Em discurso transmitido por televisão, na comemoração dos 25 anos a Rádio Al-Nour, no Salão Risalat em Beirute, na 5ª-feira, Sayyed Nasrallah destacou que o governo sírio mostrou sangue frio e sabedoria no comando da Síria, e analisou o confronto com os sionistas de uma perspectiva estratégica, mostrando que o eixo da Resistência consegue avançar mesmo nas situações mais complexas, fazendo ruir os esquemas das potências colonialistas, agindo com firmeza e prudência.

Nós – a Resistência – declaramos que estamos prontos para receber e gerir armas com capacidade para decidir conflitos, que temos competência para recebê-las, armazená-las e preservá-las, para usá-las contra agressão que se cometa contra nosso povo, nossa terra, nossos locais sagrados – disse Sua Eminência.

O Secretário-Geral do Hezbollah explicou que:

...o objetivo que se esconde por trás dos recentes ataques da entidade sionista contra a Síria é minar as capacidades dos sírios, remover a Síria da luta, tentando induzir os sírios a acreditar que, se continuarem a garantir ajuda militar ao Partido da Resistência, levarão à derrubada do regime.

Mas, Sayyed Nasrallah lembra bem;

...a Síria respondeu à agressão sionista com precisão, rapidez e coragem, reafirmando o apoio persistente à Resistência Libanesa e abrindo a porta para a resistência popular nos territórios ocupados do Golan.

Citem-me um, um só, governo ou estado árabe, inclusive os que dizem apoiar a Primavera Árabe, que tenha tido a coragem de oferecer um míssil, uma bala à Resistência Libanesa e aos palestinos. Quem? Nenhum. Só a Síria – disse Sayyed Nasrallah.

Sua Eminência repetiu que

... há muito tempo, a Síria tem dado passagem a armas iranianas destinadas à Resistência no Líbano

Não há quem não saiba o quanto a Síria tem colaborado com movimentos da Resistência, sobretudo no Líbano e na Palestina.

Assim como a Síria nunca vacilou na defesa do Líbano, nós – o Partido da Resistência Libanesa – declaramos que estamos, ombro a ombro, ao lado da resistência popular síria, que luta para libertar o Golan ocupado.

Auditório lotado no Salão Risalat em Beirute, na 5ª-feira (9/5/2013)
Sobre as conversas entre EUA e Rússia sobre alguma solução política para a crise síria, Sayyed Nasrallah disse que:

... é um escândalo que os EUA se apresentem com salvadores da Síria.

Sua Eminência repetiu que:

... ainda há árabes que se servem das ruínas da Síria para dar aos EUA o que eles querem, só porque ainda acreditem que o Irã esteja sitiado.

Sobre a causa palestina, tema sempre central nos seus discursos, Sua Eminência Sayyed Nasrallah denunciou que há regimes árabes que tratam os palestinos como se fossem um peso histórico a arrastar, do qual se querem ver livres, mas não têm coragem para tomar qualquer atitude decisiva.

Para todos os que aspiram a preservar a Mesquita al-Aqsa e os lugares sagrados dos cristãos, e para os que estejam decididos a recuperar Jerusalém para o povo palestino e para a comunidade islâmica [Ummah], a única via possível é a Resistência. De nada lhes servirá escolherem a Liga Árabe nem a ONU. A única via possível é, como sempre foi, a via da Resistência – disse Sayyed Nasrallah.

Hoje, a causa palestina é atingida por duas ameaças: a ocupação da terra e o roubo da identidade – disse Sua Eminência, destacando que: ...aceitar que a Terra Ocupada seja Estado, Estado Judeu e Estado de Israel implicaria ter perdido a batalha. O que se tem visto na Região é o esforço para criar oportunidades para o inimigo, depois dos tempos de pânico que viveu durante a Primavera Árabe e o início do despertar dos povos árabes. Infelizmente, ainda somos naca que perde muitas oportunidades – disse Nasrallah.

Os palestinos, com muita razão, esperavam que a Primavera Árabe levasse os árabes a defender mais empenhadamente seus direitos. O que se viu foram ministros de Relações Exteriores de países árabes aceitando servilmente o que lhes impunha algum secretário de Estado dos EUA. Isso indica que a causa palestina também está sob ameaça – acrescentou Sua Eminência, que continuou:

Infelizmente, ainda há gente que supõe que nossas prioridades sejam outras, não a Mesquita Al-Aqsa, mas arrastar Síria e Irã à guerra, e o Líbano para o fundo do abismo.

Há árabes que se recusam a pagar pelo pão para alimentar sunitas muçulmanos que morrem de fome na Somália, que se recusam a ajudar refugiados sírios no Líbano, que negam apoio efetivo aos jerusalemitas para que permaneçam nas terras que lhes pertencem, mas não se incomodam de pagar qualquer coisa aos judeus da entidade sionista.

Sayyed Nasrallah disse que crê que o que falta a esses governos árabes

...é ver que é a natureza sionista de Israel que os ameaça, a cada um e a todos, gerando ameaças culturais, humanitárias, econômicas, demográficas e de segurança para todos os demais árabes.

Elogiando a posição do Parlamento da Jordânia, em seu voto sobre as relações com a entidade sionista, Sayyed Nasrallah lembrou aos palestinos que:

... não encontrarão defensor mais empenhado e comprometido do que os que permanecem ao seu lado há anos. Sua Eminência lembrou que os palestinos também se beneficiarão com um bom acordo político, acordo político sério [2], que se construa para a Síria e o governo sírio, que impeça que a Síria caia sob o tacão de infiéis, de norte-americanos e de sionistas.

Falando aos grupos da resistência palestina, Sua Eminência lembrou que:

... dia virá em que todos os irmãos palestinos saberão dizer à plena voz o que hoje alguns apenas sussurram em reuniões privadas que ninguém, em tempo algum, os ajudou mais, mais diretamente e mais fortemente, que a Síria do presidente Bashar al-Assad.

Dirigindo-se aos vários grupos políticos libaneses, Sua Eminência disse que a unidade nacional exige que se construa um Gabinete de real parceria nacional, o que se haverá de conseguir com eleições limpas e livres. Sua Eminência reiterou o compromisso do Hezbollah com a proposta “União Ortodoxa” [orig. Orthodox Gathering] e reafirmou que o Partido não tem qualquer interesse em criar algum vácuo político.

Sobre os peregrinos libaneses sequestrados em Aazaz, na Síria, há cerca de um ano, Sua Eminência revelou que o Hezbollah já tomou todas as medidas, e em breve o problema estará superado.

Caberá ao governo tomar a seu cargo os demais passos necessários – acrescentou.

Sobre foguetes lançados por milícias sírias antigoverno contra o Líbano, que atingiram a região de Hermel, ao norte, Sayyed Nasrallah informou que o Hezbollah está agindo e

... se Deus quiser logo haverá solução.

A cerimônia da 5ª-feira foi organizada para marcar o 25º aniversário do início das operações da Radio al-Nour, do Hezbollah, veículo de informação e comunicação social que, disse Sayyed Nasrallah,

sempre cuidou de preservar a credibilidade e a honestidade, na comunicação social.

Nossa experiência nos ensinou que a honestidade, a clareza, é a arma decisiva em todas as guerras psicológicas nas quais combatemos  – disse Sua Eminência.

Logotipo da Radio al-Nour
Agradecendo a todos que trabalham na Rádio al-Nour, pela firmeza, dedicação e fé, Sayyed Nasrallah disse que:

...a estação de rádio foi criada como parte do movimento de Resistência; a partir de nossa experiência acumulada, aprendendo no curso das lutas, com esperança no futuro. Todos confiamos que somos capazes de construir a vitória.

O dilema mais sério que hoje acossa grande parte da mídia mundial em geral, e árabe em particular, é a falta de credibilidade, depois de anos de desinformação, fabricação de fatos e mentiras incontáveis no plano político e das relações e nos noticiários – disse Sua Eminência, que concluiu:

A única missão e a única serventia dos veículos de mídia é noticiar o mais amplamente possível, sem inventar ou fabricar mentiras.

Nossos veículos da nossa Mídia de Resistência muito ajudou a nação a resistir e manter-se unida, indicando o caminho seguro a seguir, e defendendo a Resistência contra acusações de que seríamos terroristas, ou de que teríamos capitulado – disse Nasrallah.

E concluiu:

Nossa Mídia de Resistência continuará em sua luta, nesse seu dever. Todos os órgãos e braços e meios da Resistência persistirão buscando, com confiança, a vitória.




Notas dos tradutores
[1] Trecho do vídeo, em árabe, com legendas ao inglês, pode ser visto na Al-Manar TV, Líbano em: “S. Nasrallah: We Support Syrian Resistance, We’ll Receive Game-Changing Arms”
[2] Sobre o Hezbollah e o trabalho de construir um acordo político para superar a crise na Síria, ver: “Hassan Nasrallah (Hezbollah), entrevistado por Julian Assange” de 18/4/2012, Russia Today, traduzido na redecastorphoto.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Kerry não conseguiu incendiar o rio Moscou


9/5/2013, M K Bhadrakumar*, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

As preliminares dos encontros de alto nível entre russos e americanos sempre são reveladoras. Dessa vez, os dois lados jabearam, na preparação para a “visita de trabalho” de um dia, do Secretário de Estado dos EUA John Kerry a Moscou, na 3ª-feira.

John Kerry (E) e Sergey Lavrov (D) (Moscou 7/5/2013)
As conversas de Kerry produziram resultado significativo, com Washington e Moscou concordando sobre um “mapa do caminho” para resolver a crise na Síria. Parte da razão pela qual se formou quase instantaneamente a percepção de “algum avanço” está em que a visita de Kerry aconteceu em contexto de previsões quase exclusivamente sombrias.

Os ataques de Israel à Síria, os quais – para dizê-lo em termos suaves – Washington “liberou”, geraram uma estranha “abertura” para as conversas de Kerry em Moscou. De fato, Moscou fumegava de fúria. O presidente Vladimir Putin telefonou ao Primeiro-Ministro de Israel Benjamin Netanyahu (que estava em Xangai) e, segundo a rede Debka, aplicou-lhe uma carraspana “de alto a baixo”, avisando-o de que haverá consequências muito graves, se esse tipo de tresloucamento voltar a repetir-se.

Israel bombardeou áreas civis da Síria
Mais uma vez, sabendo perfeitamente que a Síria estaria no item 1 da agenda de Kerry em Moscou, na 2ª-feira a Comissão de Relações Exteriores do Senado dos EUA encaminhou projeto de lei que autoriza o envio de ajuda militar aos “rebeldes” sírios. Foi mal disfarçada pressão tática, de ameaça a Moscou: se não fizesse concessões no caso sírio, Obama armaria os combatentes antirregime.

Baixas expectativas

Mikhail Saakashvilli
Além disso, posto que se tratava de “visita de trabalho”, Kerry deveria ter-se limitado a negócios de governo. Não. Recebeu grupos da sociedade civil russa na residência do embaixador em Moscou, sabendo muito bem das sensibilidades no Kremlin.

Para dizer o mínimo, também foi movimento diplomático de extremo mau gosto os EUA terem hospedado o Presidente da Georgia, Mikhail Saakashvilli, em Washington às vésperas de Kerry partir para a visita à Rússia. Kerry e Saakashvilli têm muito a conversar, mas o georgiano é como capa vermelha aos olhos do touro russo, e Putin nunca se deu o trabalho de disfarçar o profundo desprezo que lhe inspira esse homem, que fez correr sangue russo.

Tudo isso posto, é claro que Moscou não estava exatamente eufórica, quando Kerry pousou no aeroporto Vnukovo, para a primeira visita à Rússia como principal diplomata dos EUA. Foi deixado lá, congelando no aeroporto, por meia hora. Os anfitriões, quando apareceram, explicaram que haviam sido detidos num engarrafamento monstro no centro de Moscou, devido a um desfile militar.

Na sequência, a audiência previamente agendada para Kerry no Kremlin atrasou três horas. Porque Putin estava ocupado em reunião de Gabinete, que se prolongara além do previsto.

Para não deixar pontas soltas, foi mais que coincidência que, no instante em que Kerry pisava solo russo, as autoridades de Moscou invadiam os escritórios de mais três ONGs: porque receberam ilegalmente “consideráveis somas de dinheiro de fontes estrangeiras, principalmente de fontes localizadas nos EUA”. As ONGs com sede nos EUA que foram incriminadas dessa vez incluem grupos “5 estrelas”, como a Fundação George Soros e a National Endowment for Democracy.

Para resumir, na 3ª-feira pela manhã, os dois lados, Washington e Moscou davam sinais de já se terem conformado com baixas expectativas de resultado da visita de Kerry. E, de fato, os tópicos mais espinhosos que os separam, como a crise síria, o problema nuclear iraniano ou o sistema de defesa antimísseis, não têm conciliação simples.

Thomas Donilon
Moscou ainda não respondeu carta enviada pelo presidente Barack Obama, entregue a Putin pelo Assessor de Segurança Nacional, Thomas Donilon, em visita a Moscou, mês passado. Pelo que se divulgou, a carta conteria as propostas de Obama para um desarmamento nuclear estratégico, mas, para Moscou, o tema continua na dependência de haver algum progresso na discussão sobre o programa norte-americano de mísseis de defesa.

Simultaneamente e, interessantemente, dois bombardeiros russos com capacidade nuclear Bear H foram vistos dias 28 e 29 de abril sobrevoando zonas norte-americanas de defesa aérea no Alasca [orig. US military’s Alaska Air Defense Identification Zone e Alaska's North Slope region (NTs)], no Ártico e nos mares Chukchi, onde os EUA mantêm um radar estratégico antimísseis.

É o quinto incidente do mesmo tipo desde junho, em que se veem aviões bombardeiros estratégicos russos sobrevoando instalações militares norte-americanas super sensíveis – ocorrência de rotina em tempos de Guerra Fria.

“Quem são as partes?”

Tudo considerado, Kerry estava pressionado para mostrar frutos de suas conversas em Moscou. Suou, na conferência conjunta de imprensa, ele e o Ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, para mostrar algum avanço significativo na Síria – depois que Lavrov passou-lhe a palavra. Lavrov disse que:

Rússia e EUA trabalharão para levar o regime Assad e a oposição à mesa de negociações, juntos, com vistas a encontrar uma solução política para a crise. Acertamos também uma conferência internacional, para o final de maio, para construir a partir de um plano de transição negociado ano passado em Genebra. Rússia e EUA confirmaram a intenção de ambos os países de respeitar a soberania e a integridade territorial da Síria. [1]

Kerry transbordava de otimismo, certo de que a oposição síria está preparada para sentar à mesa com o regime de Assad e já adotou abordagem “inclusiva e democrática”. Sobre isso, Lavrov disse que, no momento, reservava-se o direito de não comentar.

Quanto à integridade territorial da Síria, Moscou trabalha com o dado de que os EUA ainda precisam evoluir, até as conversações, mas, também, precisam conseguir que seus parceiros na região suspendam a gigantesca contribuição financeira e material que continua a abastecer os “rebeldes” sírios.

A certa altura, só a muito custo Kerry conseguiu não repetir o mote de Washington a favor de “mudança de regime” na Síria:

Nossa posição tem sido de que é impossível para mim, como indivíduo, entender como a Síria poderia ser governada no futuro pelo homem que cometeu as coisas [orig. committed the things] que sabemos que aconteceram [orig. that we know have taken place]. Mas não que – não vou decidir nada hoje. E não vou decidir nada no final. Porque o comunicado de Genebra diz que o governo de transição tem de ser escolhido por mútuo consenso das partes. Quem são as partes? As partes são o atual regime e a oposição.

Lavrov não arredou pé da posição de que é simplesmente impossível excluir o governo sírio, do diálogo político:

O povo sírio não é noção abstrata, não é só o regime nem só a oposição, que há anos vive longe da Síria, à parte. O povo sírio é toda a nação. A maioria da população teme a derrubada do regime Assad. Temem que os que combatem contra o atual regime assumam o controle, e que a Síria passe a ser governada por extremistas.

Mais uma vez, Kerry de certa maneira “diluiu” a data da conferência; disse que:

...acontecerá tão logo seja prático, possivelmente, esperamos, pelo fim desse mês. Marcaremos – tentaremos agendar uma conferência internacional como seguimento da conferência de Genebra no verão passado.

Silêncio ensurdecedor

Do mesmo modo, ao ser convidado a comentar o projeto de lei encaminhado no Capitólio, 2ª-feira passada, sobre armar os rebeldes sírios, Kerry tergiversou e não respondeu diretamente. Moscou, não há dúvidas, anotou a ambiguidade de Kerry.

O governo Obama tentou criar a impressão de que Kerry daria “um empurrão em Putin, na questão síria”, agindo por dois ângulos: ameaças norte-americanas de que armarão a oposição e a prova de que o governo sírio usou armas químicas.

Vladimir Putin
Péssima tática diplomática que, muito provavelmente está voltando feito bumerangue, dado que Putin detesta ser mostrado como se estivesse pressionado pelos EUA. De fato, os EUA mudaram de posição na questão chave: já não estão exigindo, como precondição a qualquer diálogo, que Assad deixe o governo.

Por outro lado, surge agora um novo desafio para cada um dos dois lados. Para Moscou, tornou-se vitalmente importante manter Kerry fisgado pela palavra, no que tenha a ver com o imperativo de um diálogo político inclusivo, que inclua o governo Assad.

Para Washington, ao contrário, o desafio é conseguir persuadir os sauditas, qataris e o governo turco aliados, a aceitar Assad como participante legítimo do diálogo sírio, por maior que seja a antipatia que lhes inspire.

Barack Obama
A “mão” dos EUA parece provavelmente fortalecida pelo fato de que os aliados europeus estão “muito satisfeitos” com os sinais de que EUA e Rússia concordam na direção de que “a solução do conflito sírio está num acordo político amplo, compreensivo”. Mas persiste aquele silêncio ensurdecedor em Riad, Doha e Qatar sobre a “abertura” obtida nas conversações de Kerry em Moscou.

A Rússia, por seu lado, cuida para não esquecer que o governo Obama, e especialmente Kerry, estão sob descomunal pressão do Congresso, de setores influentes da comunidade estratégica dos EUA e, claro, dos aliados no Golfo Persa e de Israel – tanto quanto, por dentro, também do próprio establishment da política exterior norte-americana – para “fazer algo” sobre a Síria.

Mas o governo Obama também está agudamente consciente de que a opinião pública norte-americana rejeita o envolvimento dos EUA em mais uma guerra, depois de uma décadas de conflito no Iraque e no Afeganistão, que já custou a vida de 6.000 soldados norte-americanos.

Sergei Karaganov
Moscou sente que Kerry é interlocutor tratável, que pode ser persuadido. O importante pensador político russo, Sergei Karaganov, disse recentemente, que Hillary Clinton, que precedeu Kerry, falava demais, em tom professoral, de pregação, sobre uns seus “valores morais”, o que irritava muito mais de um alto funcionário russo.

Por tudo isso, é possível que o lado russo tenha-se arriscado mais do que o normal, para reforçar a posição de Kerry nessa situação. Mas também pode ter sido esperar demais, dado que há em jogo interesses cruciais de russos e norte-americanos e, no cômputo final, prevalecerão as políticas e objetivos respectivos, para as grandes questões globais.

O próprio Kerry fixou metas de certo modo modestas para que se avaliasse sua visita a Moscou: disse que esperava diálogo “saudável” entre EUA e Rússia. E tudo isso acontece com Putin e Obama já agendados para conversarem, mês que vem, às margens da Reunião do G-8, na Irlanda do Norte.
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Nota dos tradutores
[1]  8/5/2013, Ria Novosti, Rússia, em: “Russia, US Want Talks Between Syrian Govt, Opposition”
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*MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.