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terça-feira, 7 de julho de 2015

Pepe Escobar: Cavalo de Troia na Casa do Arrocho



6/7/2015, [*] Pepe Escobar, Sputniknews
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu





A Grécia inventou a democracia. A mitologia grega forjou o modo como o ocidente vê-se ele próprio. A Grécia inventou até o nome para esse anexo eurasiano – “Europa”.


Porque só criminosos hoje em dia presumem que possam causar dano a outras pessoas sem a ajuda da filosofia.
Robert Musil, O homem sem qualidades.


Odisseu/Ulisses demorou dez anos para voltar para casa, depois da Guerra de Troia. Descendentes dele estão agora fazendo história na casa original da democracia. E sem ter de ir a lugar algum. Já enfiaram seu Cavalo de Troia porta adentro da intolerância e do arrocho. Não há como desistir e voltar atrás, da restauração da dignidade. E se as musas governam tudo isso, a Grécia voltará ao DRACMA.
 
As chamadas “instituições” da UE – além de políticos cuja mediocridade tem dimensões cósmicas, representantes das nações ricas da UE – agiram como bárbaros todos os dias, provando, mais claramente impossível, o quanto toda a construção kafkeana da UE tem ódio de morte à democracia.

Bruxelas e Berlim provaram que estão no business da “mudança de regime”. Atualizando os excepcionalistas contra o Iraque em 2003, advogaram via “Choque e Pavor” econômico a destruição de um governo democraticamente eleito. O subsequente sonho molhado deles será impor renovado arrocho a um governo tecnocrático provisório não eleito.
PM Alexis Tsipras votando no referendum

Na semana passada, todas as mais incansáveis táticas de meter medo – aplicadas por Jeroen Dijsselbloem, Presidente do Eurogrupo, ou pelo Presidente da Comissão Europeia e oportunista de carteirinha`, Jean-Claude Juncker – só fizeram repetir que votar “NÃO” significaria “Grexit”. Hoje, a real possibilidade de um “Grexit” ameaça destruir o euro.
O medo máximo desse políticos cosmicamente medíocres é que outras democracias europeias – a começar pela Espanha, no próximo outono – comecem fatalmente a dizer “NÃO” à obsessão pró-arrocho sem fim.
O mero fato de estar acontecendo o que se vê acontecer já é a condenação final da Troika, cuja receita tamanho-único sempre se traduz em recessão, desemprego e miséria galopante. Essa noção de Europa está morta e enterrada.
Tudo é insustentável
 
Chegamos agora ao momento Termópilas real. Fazer ou morrer. Não há mapa do caminho de como a Grécia pode sobreviver na Eurozona sem destroçar sua sociedade já ferida. E implicaria o fim de políticas profundamente antieuropeias.

A reunião dessa 3a-feira (7/7/2015), envolvendo a chanceler Merkel e o Presidente Hollande da França mostra o desespero de hora final desses políticos de mediocridade galáctica. Merkel corre hoje o risco muito real de passar à história como responsável direta pelo Grexit. E Grexit – por doloroso que seja – ainda é uma solução.
Grécia incapaz de saldar empréstimo do BCE

A dívida grega é absolutamente “insustentável”, como se lê na novilíngua corrente. Alguma forma de “restruturação” é inevitável. Significa que um novo resgate tem de estar sendo arrematado, para ser apresentado pelos ministros das Finanças da Eurozona. Talvez ainda faltem semanas até que novo acordo seja forjado. No curto prazo, o Banco Central Europeu caminha numa longa corda bamba, obrigado a decidir o que fazer com o sistema bancário da Grécia.
O povo grego beneficiou-se de menos de 10% dos € 240 bilhões do “resgate” que a Grécia recebeu. Na verdade, foram resgatados bancos comerciais alemães e franceses [vide “Tragédia Grega esconde segredo de bancos privados”, Maria Lucia Fattorelli, 4/7/2015 (NTs)] – e a Grécia foi obrigada a tomar “empréstimos de emergência” para pagar aqueles bancos. Para obter esses empréstimos, Atenas teve de impor arrocho e mais arrocho, nesse neoliberalismo deixado à solta.
Tudo sugere que a Eurozona vai continuar a fazer jogo duro. Embora o próprio FMI admita que seja inevitável algum alívio na dívida. Isso depois de já se saber, por documentos roubados/espionados pela Agência de Segurança Nacional dos EUA e divulgados por WikiLeaks, que a própria Merkel, já desde outubro de 2011, admitia que a dívida grega é “insustentável”.
A dívida do governo grego está ainda em estonteantes € 320 bilhões de euros, 78% dos quais são devidos à Troika. E a Troika está tentada a arrochar ainda mais o parafuso – usando agora a tática de esvaziar as caixas de atendimento automático dos bancos, para induzir a “mudança de regime”. Mas a coisa pode sair errada e precipitar – e o que poderia ser? – Grexit.
Grexit (Banksy)
E Grexit será só o início de uma nova tragédia inspirada em Sófocles. Quando uma nação quebra com a moeda única, toda a união monetária fica completamente exposta. A Deusa (Neoliberal) do Mercado andará por lá, vorazmente procurando pela próxima vítima – Espanha, Itália, Irlanda.
O Cavalo de Troia democrático lá está, em silêncio, dentro da Casa do ARROCHO. A batalha vai começar.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
− Adquira seu novo livro Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Cavalo (fúnebre) de Troia: Syriza e a fantasia do euro sem arrocho

12/1/2015, [*] Greg Palast, Διάλογος [Diálogo], Atenas
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Eu estava no Brasil quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mandou o FMI passear – e rejeitou a privatização dos bancos estatais e da estatal do petróleo, rejeitou cortes em aposentadorias e pensões, e deu uma banana para o resto do programa de arrocho [dito de “austeridade”] e correspondentes sandices. Em vez disso, Lula criou o programa Bolsa Família, ferramenta para massiva transferência de dinheiro para os pobres da nação brasileira. Resultado: o Brasil não apenas sobreviveu, mas prosperou durante a crise de 2008-10. Apesar das pressões, o Brasil de Lula e Dilma jamais cedeu o controle sobre sua moeda.


Troika - Cavalo de Troia: Syriza fará a Grécia capitular? 
SYRIZA quer curar a lepra da Grécia, mas quer que a Grécia continue a viver hospedada no leprosário. Quero dizer: SYRIZA quer livrar a Grécia das dores do arrocho [“austeridade”], mas insiste em continuar na zona do euro.

O problema é que o arrocho é só um sintoma da doença: a doença é o próprio euro.

Nos últimos cinco anos, os gregos ouviram dizer que, se curarem a doença de vocês – quer dizer, se abandonarem o euro –, o céu desabará sobre a cabeça de vocês. Acho que ninguém percebeu, mas o céu já desabou. Com desemprego acima de 25%, não há mais o que desabar.

Em 2010, quando o desemprego estava em terríveis 10%, a TROIKA prometeu que medidas de arrocho [austeridade] duro restaurariam, já em 2012, a economia grega. Olhem em volta e perguntem a vocês mesmos: a TROIKA acertou?

Há um dito nos EUA:

Me engane uma vez, a vergonha é sua. Me engane duas vezes, a vergonha é minha.

Se a Grécia pode sobreviver sem o euro? Mas vocês já estão mortos. Não passam de fantasmas. Disseram aos gregos que se deixarem o euro e não honrarem as dívidas, não terão acesso aos mercados mundiais de capitais. A realidade é que vocês já não têm acesso aos mercados mundiais: ninguém empresta a zumbis.

Muitas nações dão-se muito bem sem o euro: Suécia, Dinamarca e Bangladesh vivem excelentemente sem o euro – e também a Turquia, que teve a sorte de ser excluída da Eurozona. Enquanto os turcos se mantiverem agarrados à lira, nem mesmo um islamo-fascista com dano cerebral grave como Recep Tayyip Erdoğan conseguirá destruir a economia turca.

Se os gregos podem abandonar o euro? Há os mais felizes precedentes a seguir. A moeda argentina foi, antes, ligada ao dólar dos EUA, como a Grécia é hoje ligada ao euro.* Em 2000, os argentinos famintos e irados, revoltaram-se. A Argentina derrubou a ditadura do dólar, todos os diktats do FMI e as ameaças dos credores, e aplicou um calote, rindo, nos seus papéis em dólar. Desde então a economia argentina só cresce. Se a Argentina está hoje sob ataque dos abutres financeiros, é, exclusivamente, porque o país tornou-se tentadoramente muito rico.

Merkel, Euro e o ARROCHO!
Eu estava no Brasil quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mandou passear o FMI – e rejeitou a privatização dos bancos estatais e da estatal do petróleo, rejeitou cortes em aposentadorias e pensões, e deu uma banana para o resto do programa de arrocho [dito de ‘austeridade’] e correspondentes sandices. Em vez disso, Lula criou o programa Bolsa Família, meio massivo de transferência de dinheiro para os pobres da nação brasileira. Resultado: o Brasil não apenas sobreviveu, mas prosperou durante a crise de 2008-10. Apesar das pressões, o Brasil jamais cedeu o controle sobre sua moeda.

“Arrocho”: É religião, não é economia

Wolfgang Schäuble
O euro é simplesmente o marco alemão com estrelinhas em volta. Não se pode adotar a moeda alemã, sem adotar o ministro alemão das finanças, Wolfgang Schäuble, como ministro.

E Schäuble determinou que a Grécia tem de ser punida. Não há, é claro, teoria econômica crível que diga que o arrocho – quer dizer, cortar gastos do governo, cortar salários, cortar demanda de consumo – poderia de algum modo ajudar país em recessão, em deflação.

Mas o arrocho, também chamado de “austeridade”, nada tem a ver com economia. É religião: a crença, entre os duros luteranos alemães, de que os gregos já se divertiram demais, já gastaram dinheiro demais, já passaram tempo demais espreguiçando-se ao sol – e agora têm de pagar um preço pelos seus pecados.

Estranhamente, ouço essas bobagens de autoflagelamento também dos próprios gregos: somos vagabundos, preguiçosos. Merecemos o castigo. Estupidez e mais estupidez. Em média, o trabalhador grego trabalha mais horas que qualquer outro trabalhador nas 34 nações da OECD; o alemão é o que trabalha menos.

Alexis Tsipras gostaria de poder fingir que o arrocho e o euro seriam coisas diferentes, que se pode casar com a bonitinha e não convidar para a festa a cunhada feia. Aparentemente, o chefe do SYRIZA vive abençoadamente ignorante da história do euro. O horror do arrocho não é consequência da prodigalidade da Grécia: ele está projetado e previsto no plano do euro, desde o início.

Foi exatamente o que me explicou o próprio pai do euro, o economista Robert Mundell da Universidade de Columbia. (Estudei economia com o parceiro de Mundell, Milton Friedman.) Mundell não inventou só o euro: inventou também as políticas-máquinas de-produzir miséria de Thatcher e Reagan, chamadas “economia de oferta” [orig. “supply-side economics”] – ou, como a chamava George Bush Pai, “economia vudu”. Vudu de oferta é a crença há muito tempo desmascarada, segundo a qual se o país desmonta o poder dos sindicatos, corta impostos para empresas, elimina regulações que o governo impunha e a propriedade pública em geral... “disso” advirá a prosperidade econômica.

A Tragédia Grega imposta pela União Europeia
O euro é simplesmente o outro lado da moeda “da oferta”. Como diz Mundell, o euro é o modo como Congressos e Parlamentos podem perder o máximo poder nas políticas monetária e fiscal. A democracia, sempre com potencial para incomodar, é extraída do sistema econômico.

Sem política fiscal, Mundell me disse, o único modo pelo qual as nações podem manter empregos é promovendo a redução competitiva das leis que legislam sobre o business.

A Grécia, para sobreviver numa economia do euro, só conseguirá reviver o emprego se reduzir salários. De fato, a recente mínima redução no desemprego é o sinal de que os gregos já estão aceitando, aos poucos, um futuro permanente de baixos salários, servindo piña colada a alemães em cruzeiros turísticos.

Há quem diga que devemos à Alemanha, ao FMI e ao Banco Central Europeu pelo “resgate” da Grécia. Estupidez. Nenhum dos bilhões dos fundos de “resgate” foram para os bolsos dos gregos. Todos eles fora para o caixa do Deutsche Bank e de outros credores estrangeiros. O Tesouro da União Europeia engoliu 90% de seus papeis de bancos privados. A Alemanha resgatou a Alemanha, não a Grécia.

E agora a Grécia tem de pagar à Alemanha, Sr. Tsipras, quer dizer: se o senhor ainda quer usar a moeda alemã.

Robert Mundell
Ironicamente, é Robert Mundell, o pai do euro, cuja famosa Teoria das Áreas Monetárias Ótimas (pela qual ganhou o Prêmio Nobel), quem explica claramente por que Alemanha e Grécia de modo algum podem partilhar uma mesma moeda. Uma nação baseada em turismo, pesca e agricultura não pode cimentar os próprios termos de comércio como uma nação industrial. As consequências logo se veem: mediante o euro, a Alemanha mantém a moeda grega ridiculamente supervalorizada, de modo que Grécia, como Itália, Espanha e Portugal, não possam fazer concorrência às exportações alemãs.

Desculpe, Sr. Tsipras, mas permanecer no erro é decisão de maluco. Não pode ser – não honestamente. Não há meio possível pelo qual a Grécia consiga satisfazer a exigência do euro de limitar o déficit grego a 3% do PIB, sem eliminar as pensões e aposentadorias pagas pelo estado, sem arrochar salários. E não é ‘'austeridade'’ temporária; é arrocho que perdurará por todo o século XXI.

E não há meio honesto para derrubar a dívida nacional pelo “critério de convergência” do euro de 60% do PIB, sem liquidação em massa de propriedade do estado. Mas o problema com essas privatizações é que, quando você vende uma empresa de água, nem por isso você deixa de precisar beber água. A única diferença é que, depois da privatização, o preço da água sobe, e só alguns insiders [gíria: PDL – Por Dentro do Lance (Nrc)] e seus parceiros estrangeiros conseguem ao mesmo tempo beber água e enriquecer.

Yanis Varoufakis e Alexis Tsipras (20/11/2015)
A razão pela qual a Grécia está hoje presa por dívidas são as fraudes criminosas cometidas por governos anteriores para satisfazer os “critérios de convergência” do euro. A ruína da nação começou com swaps de moedas secretos, fraudulentos, concebidos há uma década por Goldman Sachs, para esconder os déficits gregos que excediam o limite de 3%-do-PIB da Zona do Euro. Quando se descobriu a verdade, os detentores da dívida grega viram que haviam sido tungados. Esses compradores da dívida, então, exigiram níveis de juros de usurário (ou, se alguém preferir: spread altíssimo), para protegerem-se contra fraudes futuras. Os juros sobre juros cobrados desses papeis puseram de joelhos a nação grega.

Em outras palavras: a causa da crise são os crimes cometidos para unir-se ao e permanecer no euro, não alguma prodigalidade grega. Isso permitiu que o euro – essa máquina de Mundell à prova de qualquer remorso – fizesse seu trabalho, até forçar a Grécia a ceder todo o poder e todos os fundos que pertenceram à classe trabalhadora. Sem poder sobre a própria oferta de dinheiro e taxa de câmbio, a Grécia desabou de joelhos, implorando a mercê da Alemanha.

Mas não há mercê. Como o Schäube alemão não se cansa de repetir, os votos de vocês valem nada.

Novas eleições nada mudam nos acordos firmados com o governo grego –como diz ele. – Os gregos não têm alternativa.

Ah, ministro Schäuble, mas, sim, os gregos têm saída. Os gregos podem dizer ao senhor e sua gangue, que peguem o seu euro de vocês e... engulam.
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Nota dos tradutores
[1] O peso argentino era ligado ao dólar norte-americano à razão de 1:1 [em 1996, nos governos da tucanaria privateira no Brasil, também o era a moeda brasileira.
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[*] Greg Palast (nascido em 26/6/1952) é um jornalista investigativo  estadunidense que reside na Inglaterra. Trabalha para o New York Times, BBC, The Observer, The Guardian e outras publicações. Seu trabalho centra-se frequentemente em prevaricação corporativa, mas também tem sido conhecido por trabalhar com sindicatos e grupos de defesa do consumidor. Notabilizou-se por descobrir a fraude de Jeb Bush e sua quadrilha composta da secretária Katherine Harris e o Chefe da Unidade Eleitoral, Clay Roberts, em composição com a corporação ChoicePoint (uma espécie de PROCONSULT da Flórida) na manipulação da contagem das cédulas dos votantes, na Flórida, durante a eleição presidencial de 2000 e novamente em 2004, quando a apuração da roubalheira nas urnas mostrou que o candidato John Kerry, na verdade, venceu a disputa, sendo derrotado não fosse o “desproporcional” roubo dos votos do Partido Democrata.


sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Eleições no Brasil: Marina Silva e a CIA-EUA é “caso” antigo

12/9/2014, [*]  Nil Nikandrov, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

George Soros e Marina Silva
Marina Silva é atual candidata do Partido Socialista à presidência do Brasil. Em meados dos anos 1980s, ela já atraíra a atenção da CIA, quando frequentava a Universidade do Acre. Naquele momento, estudava marxismo e tornara-se membro do Partido Comunista Revolucionário, clandestino. Durou pouco aquele “compromisso”: ela rapidamente se transferiu para a “proteção do meio ambiente’ na Região Amazônica. Os serviços especiais dos EUA sempre tiveram interesse muito especial naquela parte do continente, na esperança de construírem meios para controlar a área no caso de emergência geopolítica.

A CIA fez contato com Marina Silva. Não por acaso, em 1985 ela alistou-se no Partido dos Trabalhadores (PT), o que lhe abriu novas possibilidades de crescimento político.

Em 1994, Marina Silva foi eleita para o senado brasileiro, com fama de ativista apaixonada a favor da proteção ao meio ambiente. Foi quando começaram a circular informações sobre laços entre Marina Silva e a CIA. Em 1996, ela recebeu o Goldman Environmental Prize. [1]E recebeu inúmeras outras importantes condecorações: é praxe, quando se trata de “candidatos” que a CIA tem interesse em promover, que o “candidato” seja coberto de medalhas e condecorações.

Marina Silva serviu como Ministra do gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva até que, interessada em”‘voos mais altos” e, preterida, ela abandonou o Partido dos Trabalhadores e mudou-se para o Partido Verde, de início dedicada a protestar contra políticas ambientais apoiadas pelo PT. Foi realmente um choque, na política brasileira, que a ex-ministra tenha mudado tão completamente de lado, depois de quase 30 anos de atividade a favor do Partido dos Trabalhadores.

Marina Silva no Governo Lula
Nas eleições de 2010, a candidata da CIA obteve quase 20 milhões de votos, como candidata do Partido Verde; na sequência, para as eleições de 2014, aceitou lugar na chapa de Campos, como vice-presidenta, quando fracassaram seus esforços para criar seu “não partido”, mas “rede”, chamada “Sustentabilidade”. Dilma Rousseff, candidata do PT contra a qual se alinhavam já em 2010 todas as demais candidaturas, trazia planos para dar continuação às políticas independentes do presidente Lula. Nada disso interessava a Washington em 2010, como tampouco interessa hoje, em 2014.

Daquele momento até hoje, as relações entre Brasil e EUA só fizeram piorar, resultado do escândalo da espionagem & escutas clandestinas. A Agência de Segurança Nacional dos EUA espionou a presidenta Dilma Rousseff e membros de seu gabinete. A presidenta brasileira chegou a cancelar visita oficial que faria aos EUA, como sinal de protesto. Os EUA jamais apresentaram pedido de desculpas ou comprometeram-se a pôr fim às atividades de espionagem. A presidenta Dilma, então, agiu: denunciou as atividades da Agência de Segurança Nacional e da CIA dos EUA na América Latina e tomou medidas para aumentar a segurança nas comunicações e controle sobre representantes dos EUA ativos no Brasil. Obama não gostou.

As eleições presidenciais no Brasil estão marcadas para 5 de outubro de 2014. E Washington está decidida a fazer de Dilma Rousseff presidenta de mandato único. Não há dúvida alguma de que os serviços especiais já iniciaram campanha para livrar-se da atual governante brasileira. Começaram a agir com movimentos de protesto ditos “espontâneos”, que encheram algumas ruas e foram amplamente “repercutidos” na imprensa-empresa, nos quais os “manifestantes” pedem mudanças (aparentemente, qualquer uma, desde que implique “mudança de regime”) e o fim das “velhas políticas” [de fato, nenhuma política é ou algum dia será “mais velha” que o golpismo orquestrado pela CIA no Brasil e em toda a América Latina (NTs)]. Ouviram-se grupos de jovens em protestos contra a propaganda e os símbolos dos partidos políticos, especialmente do PT.

Alguma dúvida?
Não se sabe até hoje de onde surgiram os recursos com os quais Marina Silva começou a organizar sua “rede” Sustentabilidade. A nova “organização” visava a substituir os partidos tradicionais, que a candidata declarou “velhos”. Tendo obtido 19 milhões de votos, o que lhe valeu o 3º lugar nas eleições passadas, ela contudo não conseguiu cumprir todas as exigências legais para criar oficialmente sua nova “rede”. Até que a tragédia que matou Eduardo Campos e seis outras pessoas, perto de São Paulo, mês passado, deu a Marina Silva uma surpreendente segunda chance para tentar chegar à presidência do Brasil. Para conseguir ser a primeira mulher mestiça a chegar à presidência do Brasil, terá de derrotar a primeira mulher que chegou lá antes dela, Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores, PT; além o candidato Aécio Neves do PSDB, partido pró-business, que hoje amarga um 3º lugar nas pesquisas. A Casa Branca tem-se sentido frustrada.

Dia 13 de agosto de 2014, a campanha eleitoral presidencial no Brasil foi lançada em área de incerteza, quando um jato que conduzia o candidato do partido socialista, Eduardo Campos, tombou sobre bairro residencial de Santos, próximo de São Paulo. Morreram o candidato e seis outras pessoas, passageiros e da tripulação, no acidente que pode ter acontecido por causa do mau tempo, quando o Cessna preparava-se para pousar. As mortes geraram uma onda de comoção nacional, que provavelmente evoluirá para especulações sobre o efeito que terão nas eleições do próximo 5 de outubro de 2014. A presidenta Rousseff declarou três dias de luto oficial por Campos, ex-ministro do governo do presidente Lula. A aeronave passara por manutenção técnica regular e nenhum problema foi detectado. De estranho, só, que o gravador de vozes da cabine do avião não estava operando, o que gerou suspeitas. O gravador operara normalmente e gravara várias conversações na cabine, mas nada gravou no dia da tragédia. O avião já passara por vários proprietários (empresários norte-americanos e brasileiros, representantes de empresas de reputação duvidosa), antes de chegar à campanha dos candidatos Eduardo Campos e Marina Silva. 

Dilma Rousseff e Eduardo Campos
Para alguns comentaristas brasileiros e dos EUA, há forte probabilidade de que tenha havido um atentado, que resultou no assassinato de Eduardo Campos. Antes da tragédia, o avião foi usado pela agência antidrogas dos EUA, Drug Enforcement Administration (DEA). Enviados de antigos proprietários do avião tiveram acesso ao local do acidente, sob os mais diferentes pretextos. Difícil não conjecturar se teria havido agentes dos EUA por trás da tragédia. Mas ainda não se sabe exatamente sequer o que aconteceu. Saber quem fez, se algo foi feito,  demorará ainda mais.

O avião decolou do Rio de Janeiro, onde opera uma estação da CIA, em território do consulado dos EUA. Não há dúvidas de que aquele escritório é usado pela Agência. Talvez os serviços especiais do Brasil devessem dar atenção especial a personagens que rapidamente deixaram o país, imediatamente depois da tragédia em Santos. A morte de Eduardo Campos teve efeito instantâneo sobre a candidatura do Partido Socialista: Eduardo Campos jamais passara dos 9-10% de preferência nas pesquisas, mas Marina Silva rapidamente surgiu com 34-35%, na votação em primeiro turno. Agora, se prevê que a eleição seja levada para o segundo turno.

O principal problema de Marina Silva é que é sempre difícil entender quais seriam suas reais intenções e projetos. É uma espécie de “imprecisão” que se observa constantemente no discurso de candidatos promovidos pelos EUA. Marina Silva  mudou de lado, sempre muito dramaticamente, inúmeras vezes. Ao unir-se a Eduardo Campos, por exemplo, a candidata várias vezes se manifestou a favor de manter bem longe do Brasil as ideias de Chavez (Hugo Chavez – falecido presidente da Venezuela, conhecido pelas convicções socialistas e políticas de esquerda). Mas ela serviu ao governo do presidente Lula, conhecido e muito respeitado defensor do chavismo. (...)

BRICS
De fato, ao tempo em que a campanha avança e as eleições aproximam-se, Marina Silva vai-se tornando cada vez mais neoliberal. Já disse que não vê sentido em fazer dos BRICS um centro de poder multipolar, nem em apressar a implementação de medidas já decididas dentro do bloco, como criar um banco de desenvolvimento, um fundo de reserva, etc. Já manifestou “dúvidas” sobre o Conselho Sul-Americano de Defesa, e diz, em discussões com assessores íntimos, que quer dar menos atenção ao MERCOSUL e à UNASUL (União das Nações Sul-Americanas, união intergovernamental em que se integram duas uniões aduaneiras, o MERCOSUL e a Comunidade de Nações Andinas, como parte do processo de integração sul-americana). Para Marina Silva, mais importante é desenvolver relações bilaterais com os EUA.

Fato é que os brasileiros estão já habituados a quase 20 anos de progresso social no país, com os governos do presidente Lula e da presidenta Rousseff. A população é ouvida, as reformas acontecem, o que foi prometido está sendo construído, o Brasil vive tempos de estabilidade e de avanços.

Se Marina Silva chegar à presidência (George Soros, magnata norte-americano, investidor e filantropo, tem alimentado a campanha dela com quantidade significativa de fundos), deve-se contar com o fim de vários programas sociais e políticos, o que pode vir a gerar grave descontentamento popular. Há quem diga que os escritórios dos EUA no Brasil estão repletos de agentes dos serviços especiais, encarregados de “gerar” “protestos” naquele país.
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Nota dos tradutores:
[1] Conheça o “Goldman Environmental Prize”; além de Marina Silva, outro brasileiro recebeu esse prêmio, um “Carlos Alberto Ricardo”, fundador da ONG “Instituto Socioambiental”, em 1992.
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[*] Nil Nikandrov é um jornalista sediado em Moscou cobrindo a política da América Latina e suas relações com os EUA; crítico ferrenho das administrações neoliberais sobre as economias nacionais latino-americanas. Especializou-se em desmascarar os esforços feitos pela CIA e outros serviços de inteligência ocidentais para minar governos progressistas na América Latina. Autor de vários livros - tanto de ficção e estudos documentais - dedicados a temas latino-americanos, incluindo a primeira biografia em língua russa de Hugo Chávez.