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domingo, 23 de dezembro de 2012

A luta como a luta é: “Olhar crítico, em apoio aos camaradas na Revolução Egípcia”


9/1/2012, Samer Soliman [1968-2012] [1], al-Shurouk, Egito
Tradução do árabe para inglês por: Industry Arabic
Traduzido do inglês pelo pessoal da Vila Vudu


Issandr El Amrani
No blog Arabist.net - por Issandr El Amrani:  Ao longo das últimas semanas, tópico preferencial das conversas em muitas mesas no Cairo – especialmente nas mesas em torno das quais se reúnem ativistas e envolvidos nas lutas políticas – é o tipo de comemoração a fazer para marcar o primeiro aniversário do levante do Cairo, dia 25/1/2011. Para alguns, será hora para celebrar a derrubada de Hosni Mubarak. No outro extremo do espectro, ativistas mais radicais conclamam a uma “segunda revolução” e à reedição dos eventos de janeiro de 2011, quando, na narrativa revolucionária “o povo derrotou o estado policial”. Novos atores políticos dominantes no Egito – principalmente a Fraternidade Muçulmana – têm tratado muito cuidadosamente a questão das comemorações. Não querem outra onda de protestos, apenas dois dias depois de iniciados os trabalhos do Parlamento que hoje controlam. Querem dar espaço para que se discutam algumas questões, mas, ao mesmo tempo, querem manter tudo sob controle, para o caso de radicais tentarem empurrar as coisas em outra direção.

Divulgo aqui esse artigo, porque me fez lembrar conversa que tive recentemente (numa excelente mesa iraniana – obrigado, P.) com dois destacados lutadores pelos direitos humanos no Egito, ambos preocupados com o fato de vários de seus amigos terem abraçado a teoria revolucionária, estarem tentados a pegar em armas contra o estado, impermeáveis a qualquer argumento que vise a demonstrar que são minoria. No artigo abaixo, o prof. Samer Soliman, que dá aulas na American University of Cairo e é conhecido autor do campo da resistência popular egípcia, discute exatamente essas questões.
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Prof. Samer Soliman
O primeiro aniversário da Revolução é boa chance para todos que participaram dela se reavaliarem e se autocriticarem. Deste ponto de vista, a crítica que faço às posições e ideias de alguns dos meus colegas revolucionários é crítica feita por um camarada, sem traço de superioridade. Meu objetivo é melhorar o desempenho das correntes reformistas e revolucionárias e superar divisões desnecessárias, com vistas a alcançar nosso objetivo comum partilhado: estabelecer um estado baseado na liberdade, na justiça social e na dignidade humana. Minha crítica a alguns dos companheiros está dividida em quatro itens.

Primeiro: Hostilidade absoluta contra todos os partidos e qualquer tentativa de organização é erro fatal.

Política, segundo uma das definições correntes, é a organização e a gestão de interesses coletivos. Cada um é responsável por gerir os assuntos de sua própria casa. Mas gerir os assuntos de um prédio inteiro não é responsabilidade exclusiva de ninguém; é responsabilidade da união dos proprietários, locatários, o que for. Isso é política. Política é uma atividade coletiva que visa a organizar os assuntos do estado e da sociedade. Consequentemente, quem seja contra organizar os movimentos é, às vezes sem perceber, contra a organização política. Se alguém se recusa a organizar-se num grupo ou num partido, como poderá participar de atividade que visa, basicamente, a organizar a sociedade e o estado? Se vocês aceitam organizar-se em pequenos grupos, mas rejeitam absolutamente todos os partidos, também se manifestam contra a política cujo objetivo é conduzir os passos do aparelho do estado. Resultado disso, muitos insistem em se automarginalizar, sob o pretexto de que, assim, estariam mantendo a “pureza da revolução”, protegendo-a contra as manobras partidárias. Sim, a política não depende só de organizações partidárias, e também se baseia em organizações não partidárias, como os grupos de pressão. Mas os grupos de pressão não são alternativa aos partidos. Grupos que defendem a preservação do meio ambiente, por exemplo, pressionam a favor de controlar-se a poluição, sempre em contato com os partidos, trabalhando em cooperação com os partidos, dando-lhes apoio, em troca da promoção de programas que visem a preservar o meio ambiente.

Quem queira agir no mundo político, tem de ser membro de algum tipo de partido que vise a alcançar o poder ou participar do poder; de algum grupo de pressão que não vise a obter poder, mas deseje influenciar as decisões do poder; de um sindicato que defenda os direitos de todos os trabalhadores de determinada profissão, etc. O que importa é que os membros de cada um desses tipos de organização nada podem fazer sem os demais membros e sem os demais tipos de organização; e a verdadeira mudança só surge mediante a integração e alianças que se constituam entre todos esses diferentes tipos de organização.

Segundo: Revolução não significa derrubar o regime logo no primeiro movimento; e revolução não é antônimo de reforma

Em geral ninguém se rebela contra o grupo que monopolize o poder senão depois de se terem esgotado todos os meios graduais de reformas, e as pessoas tenham participado diretamente em revoluções menores, parciais. Diz o povo que revolução é, apenas, reforma falhada. Não há atalho para revoluções totais, instantâneas. Para que o povo levante-se contra o grupo que controla a cúpula do poder, o povo tem de já ter trilhado longo caminho de tentativas de reformas e de rebeliões contra autoridades menores, mais próximas. O verdadeiro revolucionário é quem marcha com o povo, quando é possível reformar. De fato, é dever do revolucionário verdadeiro viver entre o povo, ainda que já esteja convencido de que a possibilidade de reforma seja muito baixa. Só quando se vive entre o povo durante as reformas e as revoluções parciais, menores, é possível pregar a revolução total e convencer as pessoas de que a reforma gradual não é a única via possível. O revolucionário deve preservar sua credibilidade enquanto se vai engajando na revolução; e não deve lançar a palavra de ordem para a derrubada do cabeça do regime sem ter avaliado cuidadosamente as forças relativas que se opõem em campo.

Por isso, os que hoje clamam por nova revolução a ser declarada no próximo dia 25 de janeiro, para derrubar o Conselho Militar, agem como quem não quer ver que há uma Assembleia Popular emergente, que tem muita legitimidade como representante do povo, e que muitos egípcios apostam hoje nessa Assembleia e no novo governo que será formado pelos partidos que recebam a maioria dos votos. Se nada disso acontecer, se o Conselho Militar passar a controlar o Parlamento, o novo governo ou o próximo presidente, ou se o povo vir que as instituições que elegemos não estão assumindo realmente o poder, ou que não estão correspondendo às expectativas, então, sim, será hora de lançar, como palavra de ordem, a derrubada do regime. Antes disso, as manifestações, as lutas, as passeatas e os comícios continuarão a obter vitórias parciais e a atender demandas limitadas, sem visar a derrubar o regime.

O verdadeiro revolucionário anda sempre um passo à frente do povo, não pode estar muitos passos à frente – e longe – do povo. Porque se você põe-se a andar muitos passos à frente do povo, você rapidamente estará sozinho, só você, contra poderes muito maiores que você. Nenhum benefício resultará para a sociedade, se você converter-se em herói solitário, de peito aberto contra o poder.

Seja como for, antes de tentar derrubar o poder, de modo que o poder desabe inteiro sobre sua cabeça, considere atentamente qual a alternativa de poder que haja, se houver. O poder político nada é além do poder para organizar indivíduos e grupos.

O Conselho Militar só passou a ter poder depois da queda de Mubarak, do aparato policial e das forças da Segurança Nacional, porque era a cabeça de uma vasta, ampla organização, muito coesa, que cobria todo o Egito: o Exército. Se derrubarmos o Conselho Militar, que outra organização há, ampla, coesa, que cubra todo o Egito, para assumir o poder? Por favor: que ninguém diga que há oficiais militares honrados fora do Conselho Militar! Já basta de golpes militares e de governos militares!

Terceiro: É errado supor que os mais velhos sejam os inimigos de hoje

A pior coisa que pode acontecer ao movimento revolucionário é perder aliados potenciais e empurrar para o campo inimigo os verdadeiros apoiadores da revolução. Um dos sintomas mais claros da ditadura egípcia era a idade avançada da claque governante (Hosni Mubarak, Fathy Sorour, Safwat al-Sherif, Omar Suleiman, Hussein Tantawi, etc.). Mas a evidência de que o grupo governante era muito idoso é só sintoma da doença, não é a própria doença – é a febre que acompanha a infecção. A idade avançada dos ditadores egípcios não é problema em si: é um dos sintomas do problema.

De fato, a ditadura implantou-se com ditadores jovens no Egito. Nasser e seus companheiros chegaram ao poder quando tinham cerca de 30 anos. Não faltou quem reclamasse, dos “Oficiais Livres”, naquele momento, que eram “quase crianças”. Mas o tempo passou e o mesmo grupo governante lá permaneceu, com pequenas mudanças; os governantes envelheceram – problema que, aliás, a própria ditadura tentou equacionar, mobilizando um grupo mais jovem em torno de Gamal Mubarak, “líder da futura geração”.

Se o filho de Hosni Mubarak tivesse conseguido assumir o lugar do pai e tivesse “rejuvenescido” o poder no Egito, nada teria mudado na realidade da tirania e da ditadura. A gangue corrupta, tirânica, que controla o Egito é multigeracional, inclui velhos, homens de meia idade, jovens e, sabe-se lá, até criancinhas – porque os tiranos educam seus filhos, desde pequenos, para desprezarem o povo, para tratarem com arrogância os mais pobres.

Por isso, também, a corrente que quer livrar-se daquela ditadura e chegar ao poder também tem de ser multigeracional. Pare e olhe em volta: se você vir que todos os membros de sua organização ou grupo têm todos a mesma idade, ou idades muito próximas, comece a desconfiar de que você está insistindo em via errada e seu grupo jamais representará a diversidade de um povo inteiro.

Não tenho dúvidas de que o que perdemos, nessa luta, até agora, perdemos porque grupos monogeracionais são sempre pobres e fracos, porque não se beneficiam das diferenças de competência, de compreensão, de recursos, das organizações multigeracionais.

Quarto: A construção não pode esperar que a destruição seja total e absoluta; e a economia não pode esperar que a revolução esteja completada

A Revolução Egípcia é longa e ampla, e está sendo feita por ondas de ataque e retirada, maré sobe, maré desce, cortando a cabeça da ditadura e pressionando novos líderes que surjam. É normal, assim, que a tarefa de construir instituições coincida com a tarefa de pressionar, protestar, manter ativos os movimentos de rua. Por isso, precisamente, surpreendi-me muito quando perguntei a um revolucionário “Por que você não se liga a um partido político?”. E ouvi, como resposta: “Porque ainda não terminamos de destruir o velho regime!”.

Os partidos são, me parece (ou, pelo menos, alguns deles), uma das ferramentas para, precisamente, destruir o velho regime! O poder não é um prédio que tenha de estar totalmente demolido, terra arrasada, antes que um novo poder possa ser erigido. O poder novo emerge na sociedade, cresce por dentro da sociedade e exerce sua influência em áreas que o poder velho tenha descuidado ou deixado desocupadas. Se se pensa assim, e se se age por essa regra, remover o poder velho é empreitada exequível, é questão de tempo e empenho; e pôr as mãos no aparelho de estado para fazê-lo operar como mais interessa aos revolucionários é, de fato, praticamente inevitável.

Uma das áreas mais importantes para a emergência do novo poder é a economia, assunto que alguns revolucionários têm encarado quase com indiferença, ou descuidadamente; talvez, até, com oportunismo, quando, por exemplo, usam o salário mínimo como slogan na Praça Tahrir na esperança de assim mobilizar trabalhadores e funcionários públicos para as manifestações de rua com vistas a derrubar o Conselho Militar.

Não se mobilizam classes e grupos sociais só com slogans, nem se derrubam governos só com comícios e manifestações de rua. Greves gerais são ferramentas mais potentes para derrubar ditaduras. Mas não se fazem greves gerais sem alto nível de organização da classe trabalhadora e da classe média.

A gloriosa Revolução de Janeiro, no Egito, derrubou décadas de ditadura e de seu aparelho de segurança, foi resultado do trabalho acumulado dos sindicatos, que jamais pararam de lutar, no Egito, durante quase 60 anos. Só colheremos os frutos dessa vitória histórica daqui a vários anos, porque os velhos sindicatos ainda não foram reformados; e os novos sindicatos precisam ainda de vários anos, para acumular força.

O Egito só alcançará democracia política e social mediante uma luta que está apenas começando e durará muitos anos. Nesse período, a destruição virá misturada à construção; a reforma virá ao lado da revolução; e os revolucionários vitoriosos cumprirão, aos poucos, seu trabalho diário, fundacional.

É normal que alguns de nós tendam mais ao trabalho de destruir, que ao trabalho de construir, ou mais à reforma, que à revolução, ou mais às atividades da vitória, que ao trabalho obscuro, calmo, diário, de plantar as fundações do novo Egito. O que realmente fará diferença é que não caiamos no erro de sentirmo-nos uns superiores aos outros. Que não caiamos no pecado de romper com aliados, com camaradas, apenas porque operamos em quadros diferentes de pensamento, ou seguem rota diferente, para chegar ao mesmo objetivo. O objetivo de todos é um só: construir, no Egito, um estado baseado em liberdade, justiça social e dignidade humana.



Nota:
[1] Conheça mais sobre o falecido prof. Samer Soliman, no Al-Ahram Online de 23/12/2012 em: “Samer Soliman, prominent academic and activist, dies at 44”

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

O que querem os egípcios que protestam contra Mursi


7/12/2012, Ahmad Shokr, Middle East Research and Information Project, MERIP
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
“A rua não organiza: a rua é organizada”
8:03 PM – 8/12/2012
[Pelo Twitter, traduzido]

Ahmad Shokr
Quem passe os olhos pela cobertura da mídia nos EUA e as análises sobre a crise do Egito nas duas últimas semanas, acabará desapontado. Os protestos contra o presidente Mohamed Mursi (eleito) estão em escalada, mas os principais atores e os projetos em disputa aparecem sempre mal caracterizados. Alguém perguntará: e por que isso importa?

As discussões sobre o atual momento do Egito são importantes nos EUA, precisamente porque a Fraternidade Muçulmana está em plena campanha para construir legitimidade internacional. O fato de que tenham equipe de especialistas em política exterior, altamente qualificados, trabalhando para eles em Washington, quando ainda sequer conseguiram criar condições razoáveis para discutir com a oposição externa, é eloquente.

Analistas e comentaristas norte-americanos liberais, desejosos de se afastarem do legado de islamofobia que restou do pós-11/9, e querendo dar aos islamistas recém-eleitos uma chance justa, parecem ter posto de lado as adesões que os motivem no plano interno nos EUA, para modelar alguma compreensão do que está acontecendo no Egito. Nesse processo, estão reforçando inúmeras preconcepções erradas.

Primeira preconcepção errada: “Há no Egito, sobretudo, uma divisão entre islamismo e secularismo”

Essa é, com certeza, a linha que a Fraternidade Muçulmana tentou projetar por seus porta-vozes e representantes. Mas, olhada a questão pelo outro lado, tudo é bem diferente. Nenhum dos líderes da oposição rejeitou a ideia, sempre presente, de que os princípios da Xaria, a lei islâmica, devem ser fonte de direito, como estipula o artigo 2º da Constituição. Nem qualquer deles exige total separação entre religião e política. Nas ruas, tanto quanto sei, não se vê nenhum slogan ou canto que clame por secularismo. A fúria da oposição tem alvo mais bem definido: a Fraternidade Muçulmana, que, para a oposição, está tentando dominar a política egípcia. Esses medos fundamentam-se nas ações da FM, ao longo dos últimos dois anos.

A desconfiança entre a FM e os que lhe fazem oposição vem crescendo há muito tempo. Tem menos a ver com convicções religiosas e, mais, com escolhas políticas. Desde a deposição de Mubarak, a FM sempre manifestou desprezo pelos demais grupos de oposição e pouco interesse em construir algum consenso e um mapa do caminho de alguma transição política , com os fundamentos de uma nova ordem política. Em vez disso, apressaram as eleições, sabendo que, naquelas circunstâncias melhoravam suas chances eleitorais; e emergiram como poder eleito, não como parceiros de uma revolução democrática. Quando os manifestantes voltaram à Praça Tahrir, em novembro de 2011, para exigir transferência menos abrupta e mais genuína de poder aos civis, os Irmãos afastaram-se e disseram que os protestos estariam sendo instigados por sabotadores, trabalhando para prejudicar o bom andamento das eleições parlamentares. 

Ahmed Shafiq
Depois de trair a promessa que tinham feito de não apresentar candidato à presidência e de vencerem as eleições em junho (em parte porque atraíram os votos de não islâmicos que temiam uma restauração do velho regime de Ahmad Shafiq), os Irmãos não constituíram Assembleia Constituinte mais inclusiva (a Assembleia continuou dominada pelos islamistas). Depois de uma série de boicotes e deserções, muitos grupos – cristãos, mulheres, liberais, a esquerda – acabaram praticamente sem representantes.

Nesse contexto, surgiu o decreto de Mursi do dia 22/11, o qual, para muitos, foi a gota d’água que fez transbordar o copo. Ao assegurar-se poderes para ele mesmo e correr a convocar um referendo, já para 15/12, para confirmar a nova Constituição, Mursi deixou os egípcios sem outras opções: ou ser governados por uma Constituição pouco representativa, ou por um ditador. Muitos recusaram esse tipo de chantagem política.

Figuras destacadas da oposição, muitos dos quais dissidentes da época de Mubarak, exigiram que Mursi revogasse o decreto [o decreto foi revogado hoje, 8-9/12. [Ver, sobre isso de  9/12/2012, Al-Jazeera em: “Egypt’ s Morsi rescinds controversial decree” (com vídeo) (NTs)], e ampliasse o processo de redação da nova Constituição. Grupos egípcios de direitos humanos, praticamente com unanimidade, fizeram eco a essas demandas. Dezenas de milhares que participaram dos protestos que derrubaram Mubarak voltaram às ruas. Não lutam por qualquer espécie de secularismo mal definido; querem, isso sim, inclusão e democracia.

Segunda premissa errada: “Os islamistas são autênticos representantes da maioria dos egípcios”

O corolário, claro, é que a oposição representaria uma minoria secular contrária ao governo dos islamistas e que não estaria disposta a aceitar o resultado de eleições legítimas. Um analista do International Crisis Group disse ao New York Times que os protestos persistem, porque a oposição não consegue “aceitar essas derrotas; e tenta deslegitimar a Fraternidade Muçulmana”. Embora essa interpretação talvez se aplique às elites da era Mubarak, que perdem espaço sob o novo regime, absolutamente não explica os milhares de manifestantes que se opõe, de fato, às manobras antidemocráticas de Mursi.

Mohamed Mursi
Não há qualquer tipo de constatação empírica que demarque maioria definitória, no Egito. Os dois campos, a Fraternidade Muçulmana (e seus aliados islamistas, inclusive os salafistas) e a oposição são capazes de reunir centenas de milhares de manifestantes nas ruas – o que se viu claramente nas duas últimas semanas, prova de que a polarização aprofunda-se na sociedade egípcia. Mursi venceu as eleições por diferença muito pequena, maioria de 51% dos votos, o que sugere que o campo islamista não seja tão claramente representativo das grandes massas eleitorais no Egito, como diz ser.

Aí parece estar o impasse crucial da crise política no Egito. Com a Fraternidade Muçulmana convencida de que conta com o apoio da maioria dos egípcios, e de que a oposição não passaria de uma pequena elite já sem poder, os Irmãos agiram como se tivessem mandato democrático de direito e de fato para abrir atalhos pelo processo político. Até que seus líderes parem de pensar em termos de maiorias e minorias, e reconheçam que há grupos eleitorais diferentes no Egito, que vários deles são gigantescos e têm aspirações legítimas a partilhar os frutos da revolução, o impasse, mais provavelmente, persistirá. E as coisas podem piorar: os Irmãos podem tentar recorrer à repressão policial contra a oposição. 

O incitamento entre Irmãos da FM, para entrarem em confronto aberto com manifestantes da oposição na 4ª-feira (5/12/2012); e as ameaças de Mursi de que usaria força policial legal contra figuras políticas que, para ele, estão financiando o caos e a violência, podem empurrar o Egito para caminho perigoso.

Terceiro erro de análise: “Mursi deu grandes passos na direção da democracia civil; se cair, pode facilitar a volta de uma ditadura dos militares”.

Acusações de que, ao bloquear o processo político, a oposição visa a um golpe interpreta erradamente o papel dos militares na atual crise. O exército também está interessado na atual versão da Constituição, que preserva intactas suas prerrogativas centrais: orçamento secreto, controle militar sobre o Ministério da Defesa, voz ativa nas decisões de segurança nacional e o direito de julgar civis em tribunais militares. Os generais livram-se de ter de encontrar parceiro civil que administre o dia a dia do governo, ao mesmo tempo em que mantêm a autonomia para cuidar de seus próprios interesses, bem longe dos olhos de qualquer controle democrático. 

Essas concessões fazem perfeito sentido com o padrão dos Irmãos, de não hostilizar os generais no caso de qualquer ameaça ao caminho da FM até o poder.

A versão hoje existente de Constituição, a ser votada, não manifesta um consenso democrático, como muitos da oposição diziam que teria de manifestar. Reflete um relacionamento nascente entre a Fraternidade Muçulmana e as instituições já existentes no Estado egípcio, como o Exército, além de cuidar de acalmar os salafistas, que os Irmãos adotaram como novos parceiros. 

A pressa para obter o referendo sugere profunda ansiedade entre as elites do Estado com a instabilidade crescente, e um desejo de aproveitar a oportunidade para cimentar, o mais rapidamente possível, um novo quadro político. Mais preocupante do que o próprio texto, é a visão que esses líderes têm sobre que vozes contam mais e que alianças são mais importantes no novo Egito. Se ninguém constestar essa visão, os principais perdedores serão os que mais clamam por um sistema mais pluralista e inclusivo.

Jason Brownlee
Em mensagem do dia 6/12, Jason Brownlee escreve: “É importante que o debate ideológico entre o secularismo liberal e o islamismo não seja visto como batalha entre democracia e autoritarismo”. Talvez os recentes eventos no Egito exijam que se repensem esses termos. Claro que secularismo liberal e democracia não são automaticamente co-ocorrentes; como o islamismo e o autoritarismo tampouco o são. A batalha no Egito é, de fato, batalha por uma democracia que reflita a diversidade política do país, contra o que mais parece ser um autoritarismo remodelado, liderado pela Fraternidade Muçulmana e seus aliados, que tentam assumir o controle.


domingo, 9 de dezembro de 2012

Os liberais egípcios não são democratas


1/12/2012, Mohamad Hamas ElMasry, Egypt Independent
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu






Mohamad Hamas Elmasry é professor-assistente no Departamento de Jornalismo e Comunicações de Massa da American University, no Cairo.





Ser liberal é ser democrata. Parece óbvio.

Mas no Egito – como na política externa dos EUA –, a coisa é mais complicada, porque há vários diferentes modos de trair os princípios da democracia – o que fazem muitos dos que se apresentam como liberais ou que falam do liberalismo como sua ideologia política.

Examinemos, por exemplo, rapidamente o quadro político no Egito, para ver como se desenrola, ante nossos olhos, um ataque “liberal” contra a democracia, no Egito contemporâneo.

Em junho, o Conselho Supremo das Forças Armadas e um Judiciário constituído de ampla maioria de juízes indicados pelo já expulso presidente Hosni Mubarak trabalharam juntos para desmoralizar, apoiados numa tecnicalidade, o primeiro Parlamento que os egípcios jamais elegeram em eleições livres e limpas.

Seria de supor que essa bofetada perturbaria qualquer um dos neoapaixonados pela democracia pós-revolução no Egito. Nada disso!

Muitos “liberais” egípcios não se opuseram ao golpe. Vários até o elogiaram abertamente. Por quê? Porque a Assembleia Popular estaria dominada por islamistas, e muitos “liberais” não engolem a ideia de ser governados, por quatro anos, por Parlamento de maioria islâmica, mesmo que democraticamente eleito. Em resumo, a ira que os islamistas causam aos “liberais” levou os “liberais” a esquecer completamente de todos os seus muito alardeados princípios democráticos.

Aí está narrativa que não soará estranha a quem acompanhe a atual política externa dos EUA, com os EUA ativamente envolvidos em golpes contra governos democraticamente eleitos, porque os eleitores (na Palestina, na Guatemala, no Irã, na Venezuela, no Brasil, dentre outros países) teriam, na opinião da Casa Branca, votado “errado”.

Muitos “liberais” egípcios, como os que governam os EUA, não parecem ter entendido, até hoje, que, em democracias, vota-se, contam-se os votos e a maioria assume o poder de pleno direito, mesmo que sejam islâmicos ou que não sejam “alinhados” com Washington. Supor que haja democracia “certa” – parece democrática para “nós”, mesmo que não seja democrática para “eles” – não faz de nenhum “liberal”, um democrata.

Mohamed Mursi
Mais recentemente, em julho, quando o movimento do presidente então recém eleito Mohamed Mursi para reinstituir a Assembleia Popular foi bloqueado, muitos “liberais” deram de ombros e não se incomodaram. E muitos nem deram de ombros, nem tomaram conhecimento.

Em agosto, Mursi, num esforço para atender a uma importante demanda da revolução, tentou demitir o Procurador Geral do Estado, homem nomeado por Mubarak e destinado a permanecer no posto até atingir a idade de aposentadoria. Outra vez, Mursi foi impedido de completar seu movimento democratizatório revolucionário; e, mais uma vez, os “liberais” egípcios calaram-se, quase completamente; e nada fizeram, ou quase nada.

Mais recentemente, e talvez o evento mais importante, a Assembleia Constituinte, democraticamente reunida e encarregada de redigir a nova Constituição do Egito, foi ameaçada pelos dois lados: pelas forças políticas “liberais” e pelo Judiciário. Relatos sugerem que o Judiciário chegou bem perto de dissolver a Assembleia Constituinte, enquanto ainda trabalhava na redação da nova carta constitucional do Egito [1].

A Assembleia Constituinte é um importante ponto a ser analisado. Cerca de 20 dos 54 membros não islâmicos dos 100 que constituem a comissão, abandonaram recentemente o barco, reclamando de excessiva, não autorizada e inadmissível influência islâmica na redação do documento.

As renúncias aconteceram apesar de, segundo vários relatos confiáveis, de dentro e de fora da Assembleia, a vastíssima maioria dos artigos da minuta da nova Constituição terem sido discutidos e aprovados pelos islâmicos e pelos membros seculares da Assembleia, com os grupos islâmicos mais conservadores já tendo desistido de introduzir na Constituição as exigências religiosas mais restritivas.

Recentemente, fontes confiáveis também confirmaram que muitos dos “liberais” que abandonaram o barco não estavam tão incomodados com os artigos “religiosos”, mas, sim, por que muitos membros da Assembleia não estavam dando atenção a uma de suas exigências “democráticas” mais importantes – que a presidência de Mursi fosse considerada concluída no momento em que a nova Constituição fosse aprovada; e que se realizassem novas eleições presidenciais.

Hamdeen Sabbahi
Hamdeen Sabbahi, destacado “liberal” socialista e ex-candidato à presidência expôs claramente essa preocupação “liberal” em outubro, quando exigiu que Mursi renunciasse depois de aprovada a nova Constituição. No mesmo parágrafo, admitiu que, fosse ele, jamais aceitaria tal proposta, no caso de ter sido eleito.

Como se não bastassem os esforços “liberais” para encurtar o mandato de Mursi, já circulam notícias confiáveis de que o Judiciário prepara-se para cancelar a declaração constitucional de Morse, de julho; para reinstaurar a declaração do Conselho Supremo das Forças Armadas (que limita os poderes do presidente e dá ao Conselho Supremo autoridade para modificar a Constituição); e para destituir o Conselho da Shura – a Câmara Alta do Parlamento, democraticamente eleita.

Depois de ver desmontada a Assembleia Popular; de ser impedido de demitir o Procurador Geral; das ameaças de destituição da Assembleia Constituinte e do Conselho da Shura; e de mais ameaças de ter o próprio mandato encurtado ou encerrado para sempre, com a reinstauração do mandato antidemocrático do Conselho Superior das Forças Armadas... pouco restou ao presidente Mursi, além de tentar garantir para ele mesmo, poderes temporários para ficar no posto para o qual foi eleito – esforço para tentar ainda salvar as instituições democraticamente constituídas do novo Egito e o processo constitucional, que ainda não está concluído.

Como se poderia adivinhar que aconteceria e aconteceu, muitos dos “liberais” egípcios protestaram que o movimento do presidente Mursi – o qual, sim, do ponto de vista da propaganda e das Relações Públicas, não foi conduzido e divulgado tão bem como poderia ter sido – comprovaria que Mursi teria traços autoritários, que fariam dele ditador semelhante a Mubarak.

O decreto pelo qual Mursi se assegurou poderes, de fato, serviu como excelente munição para os “liberais” que tentam derrubá-lo ou limitar sua influência, medidas que desde bem antes já interessavam muito aos mesmos “liberais”.

As preocupações “liberais” relacionadas à dita “ditadura” (temporária) de Mursi são, de fato, muito confusas, embora compreensíveis, se se considera o medo “liberal” dominante em março de 2011, no período de governo provisório do Conselho Supremo, quando os militares avocaram para eles poderes especiais, um “provisório” que se estendeu por dois anos.

Mohamed ElBaradei
“Liberais” egípcios, como Mohamed ElBaradei, que sugeriu, ele mesmo, o prolongamento do governo provisório dos militares, não parecem preocupados com a evidência de que poderes legislativos e executivos voltem a ser entregues a militares não eleitos, que ainda têm raízes longas e profundas em toda a estrutura do poder no Egito.

A recente agitação contra o decreto do presidente Mursi rapidamente levou a conclamações para que fossem queimadas as sedes da Fraternidade Muçulmana, gerou revolta contra o presidente eleito e envolveu países ocidentais – ideias brotadas, todas elas, do ramo “liberal” da política egípcia.

Para sermos justos, há, sim, liberais equilibrados e sérios no Egito, entre os quais Mohamed Al-Omdah, que recentemente denunciou Sabbahi – que Omdah ajudou a eleger, trabalhando em sua campanha eleitoral durante seis meses – por suas posições antidemocráticas e autoritárias.

Evidentemente, ninguém, exceto Mursi e seu círculo mais íntimo, podem ter certeza sobre se o primeiro presidente que o Egito elege em eleições democráticas tem, ele também, desejos ditatoriais à moda Mubarak, ou, sabe-se lá, até pior que isso.

Em todos os casos, parece prudente – e mais democrático – esperar que transcorra o cronograma que Mursi definiu, antes de se pôr a chamá-lo de “faraó” e “ditador”. Se, ao cabo de três meses, ficar claro que os poderes que Mursi reivindicou para si nada têm de temporários, então, sim, os “liberais” estarão em posição de reivindicar o apoio da maioria da rua egípcia para iniciar revolta popular e democrática. Serei o primeiro a clamar por mobilização e protestos de rua, se isso acontecer.

É preciso saber ver com clareza o quadro, hoje: muitos do “liberais” egípcios apreciaram muito a ideia de ver desbaratada a Assembleia Popular democraticamente eleita; tentaram acabar com o presidente Mursi, eleito, antes, mesmo, de ele tomar posse; e, sem conseguir impedir que tomasse posse, puseram-se a tentar desconstituir e desmoralizar todo o processo constituinte. Assim, os “liberais” só conseguiram devolver o projeto de uma nova democracia egípcia, de fato, a um proverbial marco zero.

Bobby Ghosh
Verdade é que, em vez de se mobilizarem para próximas eleições, os “liberais” só se dedicam hoje, no Egito, a procurar meios – ilegais, não éticos e antidemocráticos – para tirar do poder, ao qual chegou por vias democráticas e lícitas – a mais poderosa força política que há no país.

Por pouco estimulante que pareça, a realidade contemporânea no Egito é clara: alguns respeitam a democracia; a maioria desses, são islâmicos. Bobby Ghosh, da revista Time, acertou perfeitamente quando disse, em 2011, que os islâmicos são os melhores democratas que há no Egito.

Quanto aos “liberais” egípcios, ainda têm longo caminho a percorrer, antes de poderem ser reconhecidos como democratas. Por hora, dedicam-se a “conter a democracia” – tomando emprestada a expressão de Noam Chomsky – por vias e modos que não são muito diferentes do que têm feito sucessivos governos norte-americanos.



Nota dos tradutores
[1] Sobre isso, ver também, muito interessante, na redecastorphoto, “A imperfeita Constituição do Egito”, 3/12/2012, Paul R. Pillar (Consortium News), traduzido.