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segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

O que querem os egípcios que protestam contra Mursi


7/12/2012, Ahmad Shokr, Middle East Research and Information Project, MERIP
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
“A rua não organiza: a rua é organizada”
8:03 PM – 8/12/2012
[Pelo Twitter, traduzido]

Ahmad Shokr
Quem passe os olhos pela cobertura da mídia nos EUA e as análises sobre a crise do Egito nas duas últimas semanas, acabará desapontado. Os protestos contra o presidente Mohamed Mursi (eleito) estão em escalada, mas os principais atores e os projetos em disputa aparecem sempre mal caracterizados. Alguém perguntará: e por que isso importa?

As discussões sobre o atual momento do Egito são importantes nos EUA, precisamente porque a Fraternidade Muçulmana está em plena campanha para construir legitimidade internacional. O fato de que tenham equipe de especialistas em política exterior, altamente qualificados, trabalhando para eles em Washington, quando ainda sequer conseguiram criar condições razoáveis para discutir com a oposição externa, é eloquente.

Analistas e comentaristas norte-americanos liberais, desejosos de se afastarem do legado de islamofobia que restou do pós-11/9, e querendo dar aos islamistas recém-eleitos uma chance justa, parecem ter posto de lado as adesões que os motivem no plano interno nos EUA, para modelar alguma compreensão do que está acontecendo no Egito. Nesse processo, estão reforçando inúmeras preconcepções erradas.

Primeira preconcepção errada:Há no Egito, sobretudo, uma divisão entre islamismo e secularismo”

Essa é, com certeza, a linha que a Fraternidade Muçulmana tentou projetar por seus porta-vozes e representantes. Mas, olhada a questão pelo outro lado, tudo é bem diferente. Nenhum dos líderes da oposição rejeitou a ideia, sempre presente, de que os princípios da Xaria, a lei islâmica, devem ser fonte de direito, como estipula o artigo 2º da Constituição. Nem qualquer deles exige total separação entre religião e política. Nas ruas, tanto quanto sei, não se vê nenhum slogan ou canto que clame por secularismo. A fúria da oposição tem alvo mais bem definido: a Fraternidade Muçulmana, que, para a oposição, está tentando dominar a política egípcia. Esses medos fundamentam-se nas ações da FM, ao longo dos últimos dois anos.

A desconfiança entre a FM e os que lhe fazem oposição vem crescendo há muito tempo. Tem menos a ver com convicções religiosas e, mais, com escolhas políticas. Desde a deposição de Mubarak, a FM sempre manifestou desprezo pelos demais grupos de oposição e pouco interesse em construir algum consenso e um mapa do caminho de alguma transição política , com os fundamentos de uma nova ordem política. Em vez disso, apressaram as eleições, sabendo que, naquelas circunstâncias melhoravam suas chances eleitorais; e emergiram como poder eleito, não como parceiros de uma revolução democrática. Quando os manifestantes voltaram à Praça Tahrir, em novembro de 2011, para exigir transferência menos abrupta e mais genuína de poder aos civis, os Irmãos afastaram-se e disseram que os protestos estariam sendo instigados por sabotadores, trabalhando para prejudicar o bom andamento das eleições parlamentares. 

Ahmed Shafiq
Depois de trair a promessa que tinham feito de não apresentar candidato à presidência e de vencerem as eleições em junho (em parte porque atraíram os votos de não islâmicos que temiam uma restauração do velho regime de Ahmad Shafiq), os Irmãos não constituíram Assembleia Constituinte mais inclusiva (a Assembleia continuou dominada pelos islamistas). Depois de uma série de boicotes e deserções, muitos grupos – cristãos, mulheres, liberais, a esquerda – acabaram praticamente sem representantes.

Nesse contexto, surgiu o decreto de Mursi do dia 22/11, o qual, para muitos, foi a gota d’água que fez transbordar o copo. Ao assegurar-se poderes para ele mesmo e correr a convocar um referendo, já para 15/12, para confirmar a nova Constituição, Mursi deixou os egípcios sem outras opções: ou ser governados por uma Constituição pouco representativa, ou por um ditador. Muitos recusaram esse tipo de chantagem política.

Figuras destacadas da oposição, muitos dos quais dissidentes da época de Mubarak, exigiram que Mursi revogasse o decreto [o decreto foi revogado hoje, 8-9/12. [Ver, sobre isso de  9/12/2012, Al-Jazeera em: Egypt’ s Morsi rescinds controversial decree (com vídeo) (NTs)], e ampliasse o processo de redação da nova Constituição. Grupos egípcios de direitos humanos, praticamente com unanimidade, fizeram eco a essas demandas. Dezenas de milhares que participaram dos protestos que derrubaram Mubarak voltaram às ruas. Não lutam por qualquer espécie de secularismo mal definido; querem, isso sim, inclusão e democracia.

Segunda premissa errada:Os islamistas são autênticos representantes da maioria dos egípcios”

O corolário, claro, é que a oposição representaria uma minoria secular contrária ao governo dos islamistas e que não estaria disposta a aceitar o resultado de eleições legítimas. Um analista do International Crisis Group disse ao New York Times que os protestos persistem, porque a oposição não consegue “aceitar essas derrotas; e tenta deslegitimar a Fraternidade Muçulmana”. Embora essa interpretação talvez se aplique às elites da era Mubarak, que perdem espaço sob o novo regime, absolutamente não explica os milhares de manifestantes que se opõe, de fato, às manobras antidemocráticas de Mursi.

Mohamed Mursi
Não há qualquer tipo de constatação empírica que demarque maioria definitória, no Egito. Os dois campos, a Fraternidade Muçulmana (e seus aliados islamistas, inclusive os salafistas) e a oposição são capazes de reunir centenas de milhares de manifestantes nas ruas – o que se viu claramente nas duas últimas semanas, prova de que a polarização aprofunda-se na sociedade egípcia. Mursi venceu as eleições por diferença muito pequena, maioria de 51% dos votos, o que sugere que o campo islamista não seja tão claramente representativo das grandes massas eleitorais no Egito, como diz ser.

Aí parece estar o impasse crucial da crise política no Egito. Com a Fraternidade Muçulmana convencida de que conta com o apoio da maioria dos egípcios, e de que a oposição não passaria de uma pequena elite já sem poder, os Irmãos agiram como se tivessem mandato democrático de direito e de fato para abrir atalhos pelo processo político. Até que seus líderes parem de pensar em termos de maiorias e minorias, e reconheçam que há grupos eleitorais diferentes no Egito, que vários deles são gigantescos e têm aspirações legítimas a partilhar os frutos da revolução, o impasse, mais provavelmente, persistirá. E as coisas podem piorar: os Irmãos podem tentar recorrer à repressão policial contra a oposição. 

O incitamento entre Irmãos da FM, para entrarem em confronto aberto com manifestantes da oposição na 4ª-feira (5/12/2012); e as ameaças de Mursi de que usaria força policial legal contra figuras políticas que, para ele, estão financiando o caos e a violência, podem empurrar o Egito para caminho perigoso.

Terceiro erro de análise: “Mursi deu grandes passos na direção da democracia civil; se cair, pode facilitar a volta de uma ditadura dos militares”.

Acusações de que, ao bloquear o processo político, a oposição visa a um golpe interpreta erradamente o papel dos militares na atual crise. O exército também está interessado na atual versão da Constituição, que preserva intactas suas prerrogativas centrais: orçamento secreto, controle militar sobre o Ministério da Defesa, voz ativa nas decisões de segurança nacional e o direito de julgar civis em tribunais militares. Os generais livram-se de ter de encontrar parceiro civil que administre o dia a dia do governo, ao mesmo tempo em que mantêm a autonomia para cuidar de seus próprios interesses, bem longe dos olhos de qualquer controle democrático. 

Essas concessões fazem perfeito sentido com o padrão dos Irmãos, de não hostilizar os generais no caso de qualquer ameaça ao caminho da FM até o poder.

A versão hoje existente de Constituição, a ser votada, não manifesta um consenso democrático, como muitos da oposição diziam que teria de manifestar. Reflete um relacionamento nascente entre a Fraternidade Muçulmana e as instituições já existentes no Estado egípcio, como o Exército, além de cuidar de acalmar os salafistas, que os Irmãos adotaram como novos parceiros. 

A pressa para obter o referendo sugere profunda ansiedade entre as elites do Estado com a instabilidade crescente, e um desejo de aproveitar a oportunidade para cimentar, o mais rapidamente possível, um novo quadro político. Mais preocupante do que o próprio texto, é a visão que esses líderes têm sobre que vozes contam mais e que alianças são mais importantes no novo Egito. Se ninguém constestar essa visão, os principais perdedores serão os que mais clamam por um sistema mais pluralista e inclusivo.

Jason Brownlee
Em mensagem do dia 6/12, Jason Brownlee escreve: “É importante que o debate ideológico entre o secularismo liberal e o islamismo não seja visto como batalha entre democracia e autoritarismo”. Talvez os recentes eventos no Egito exijam que se repensem esses termos. Claro que secularismo liberal e democracia não são automaticamente co-ocorrentes; como o islamismo e o autoritarismo tampouco o são. A batalha no Egito é, de fato, batalha por uma democracia que reflita a diversidade política do país, contra o que mais parece ser um autoritarismo remodelado, liderado pela Fraternidade Muçulmana e seus aliados, que tentam assumir o controle.


quinta-feira, 28 de junho de 2012

Pepe Escobar – “E aí, meu irmão, cadê você?*”


26/6/2012, Pepe Escobar, Asia Times Online  - THE ROVING EYE
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Pepe Escobar
O mundo árabe e, de fato, o mundo inteiro, esperava ansiosamente para saber o que diria o novo presidente do Egito, recém eleito, quadro da Fraternidade Muçulmana (FM), Mohammed Mursi, em matéria de política externa, no discurso da vitória.

Clima de anticlímax. Do Egito, falou só de passagem (que respeitará “seus acordos internacionais” – expressão em código, referindo-se aos acordos de Camp David, de 1979, com Israel. Telavive e Washington que não se preocupem. Quanto à rua árabe, pode continuar preocupada.

Lacônico, Mursi parece ter evitado o grande problema. Mas nesse ambiente volátil, ccntrolado de facto pelo orwelliano Conselho Supremo das Forças Armadas, aparelho da ditadura militar egípcia, é como se a FM tivesse dito que não pensará duas vezes, se tiver de jogar os palestinos debaixo de um ônibus lerdo, se esse for o preço para manter-se no poder.

Pois nem isso bastou para acalmar a direitosfera nos EUA – com os cães raivosos de sempre pontificando sobre como o presidente Barack Obama “perdeu” o Egito, como se os EUA estivessem às vésperas de serem soterrados sob uma tempestade de areia movida a al-Qaeda.

As'ad AbuKhalil
Mais uma vez, coube ao blogueiro Angry Arab, As'ad AbuKhalil, introduzir algum muito necessário bom-senso na discussão. As'ad escreveu que:

“... as eleições, no mundo árabe, ficaram resumidas a uma disputa entre o dinheiro saudita e o dinheiro do Qatar”.

E, no Egito, a Casa de Thani, do Qatar venceu.

É sempre importante lembrar que a Casa de Saud e a FM vivem empenhadas em furiosa discussão sobre o significado do Islã puro. A política exterior do Qatar é apoiar a FM, sempre que possível. Do ponto de vista de Doha, a vitória é imensa: há hoje um islamista, na presidência da nação-chave no mundo árabe. Todos os islâmicos comprometidos, do Maghreb a Benghazi, e de Teerã a Kandahar, também têm motivos de júbilo.

Paralelamente, o candidato oficial à presidência dos EUA, a União Europeia, Israel, a Casa de Saud e o Ancient Regime egípcio – o ex-general da Força Aérea do Egito, Ahmed Shafik – perderam. Assim também, em teoria, a contrarrevolução no Egito, perdeu. Não. De fato, não. Ainda não.

Só os ingênuos terminais acreditarão que o orwelliano Conselho Supremo das Forças Armadas governa de facto o Egito sem consultar Washington e a Casa de Saud, a cada passo. Antes de Mursi ser oficialmente declarado vencedor, houve um acerto por trás das cortinas – noticiado em Ahram Online [1].

O acerto CSFA-FM resume-se a Morsi ter sido obrigado a aceitar trabalhar “segundo os parâmetros definidos pelo CSFA”. Implica que o aparelho da ditadura militar mandará em Mursi e mandará no parlamento. Só depois de sacramentado esse acerto, Mursi foi “legitimamente anunciado como presidente eleito”.

Droga! Apostamos no cavalo errado

Mohamed Mursi
A Casa Branca cumprimentou devidamente Mursi – e cumprimentou também o Conselho Supremo das Forças Armadas, aparentemente sem escolher lado. Mas Washington apressou-se a lembrar que o governo egípcio “deve continuar a cumprir o papel de pilar da paz, segurança e estabilidade regionais” (expressão em código equivalente a “nem pensem em rediscutir Camp David”. A Casa Branca também prometeu “manter-se ao lado do povo egípcio”. Com amigos desse tipo, o “povo egípcio” – metade do qual está passando fome – tem, garantido, um luminoso futuro.

Salomônico, Obama telefonou a Mursi e Shafiq, à FM e ao CSFA. Só ingênuos terminais acreditariam que o governo dos EUA tivesse algum temor de que Shafiq – seu candidato preferido – fosse declarado presidente. Por falar em Shafik, ele já não está no Egito: teve de fugir, coberto de infâmia, já na 3ª-feira, quando o Procurador Geral do Egito iniciou processo para investigar seus imundos negócios, durante os oito anos em que serviu como ministro civil da Aviação do governo Mubarak.

Assim sendo, pode-se dizer que, doravante, o Egito seguirá dois projetos de política exterior: o da Fraternidade Muçulmana e o do Conselho Supremo das Forças Armadas. O jogo de forças dependerá de se a Fraternidade Muçulmana conseguirá restaurar o Parlamento (a Câmara Baixa) que foi dissolvido; se obtiver tantos votos num segundo turno de eleições parlamentares quantos obteve no primeiro turno (que foi anulado). Tampouco se sabe que tipo de poder terá o presidente egípcio: a nova constituição ainda não foi redigida.

Ahmed Shafik
Do ponto de vista de Washington, aconteça o que acontecer, nada alterará o rumo do dhow [veleiro] real: apoio cego a Israel, faça o que fizer; mal disfarçado apoio cego à Casa de Saud e ao Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), faça o que fizerem (incluindo repressão violentíssima contra levantes da Primavera Árabe na Arábia Saudita, Bahrain e Omã); e se alguém nos desafiar, bombardeamos ou dronamos o desgraçado, até a morte.

Do ponto de vista de Washington, a Fraternidade Muçulmana, com Mursi, pode ser declarada facilmente “contível”. Mursi não se atreverá a confrontar Israel. Morsi, muito provavelmente, dará uma de Erdogan – o primeiro-ministro da Turquia. Protestos fortes contra o brutal gulag em Gaza imposto por Telavive; apoio firme ao Hamás... mas nada que tire do lugar as relações diplomáticas e o comércio. Eventualmente, pode acontecer de a liderança israelense aceitar, finalmente, que os palestinos também são seres humanos. Mas não se recomenda a ninguém apostar nisso.

Fraternidade Muçulmana
Resta saber, nesse cenário de “dois projetos de política exterior”, que lado prevalecerá no longo prazo, a Fraternidade Muçulmana ou o Conselho Supremo das Forças Armadas. O teste crucial é o Irã. Mursi, se obtiver alguma liderança efetiva, não seguirá cegamente Washington em sua obsessão de “incapacitar” o Irã – como o Iraque foi incapacitado nos anos 1990s (o longo prelúdio antes do golpe “mudança de regime”). Vê-se uma pista do que pode estar por vir: Mursi disse à Agência de Notícias Fars, iraniana, que que que as relações Cairo-Teerã voltem ao normal. Imediatamente depois veio o desmentido do Egito, que só pode ter sido orquestrado pelo Conselho Supremo das Forças Armadas.

Olivier Roy, professor do European University Institute em Florença adverte, com razão, sobre o Egito:

Foi revolução sem revolucionários. Mesmo assim, a Fraternidade Muçulmana é a única força política organizada. (...) Sua agenda conservadora é adequada a uma sociedade conservadora, que pode acolher avanços democráticos, mas nem por isso se converteu à esquerda.” Para Roy, “a democracia não se institucionalizará no Egito, sem a Fraternidade Muçulmana. [2]

O caminho é longo e pedregoso. Mursi terá de prestar contas não só ao Conselho Supremo das Forças Armadas, mas também aos líderes extremamente conservadores da Fraternidade Muçulmana; afinal de contas, o próprio Mursi, até ontem, não passava de quadro desconhecido do grande público. Mursi sabe que confrontar o Conselho Supremo das Forças Armadas é confrontar Washington. Se tentar qualquer medida mais ousada, logo acharão um jeito de matá-lo softly, suavemente, método muito prezado pela secretária Clinton.

Mas... E se Mursi conseguir mobilizar milhões, nas ruas? Estão abertas as apostas sobre onde está, de fato, esse Irmão.

Nota de rodapé
*Orig. O Brother, Where Art Thou? [lit. “Irmão, onde estais?”] é título de filme dirigido pelos irmãos Coen, 2002, adaptação da Odisseia, no “sul profundo” dos EUA; três fugitivos de uma prisão procuram um tesouro escondido, perseguidos, incansavelmente, pelos guardas e por vários outros tipos de “eventos”. Informações extraídas de “E aí meu irmão, Cadê você?



Notas dos tradutores
[1] 22/6/2012, Al-Ahram Online, Dina Ezzat em: A deal could be reached to end current confrontation: SCAF, Brotherhood sources.
[2] 20/1/2012, Washington Post, Olivier Roy em: A new generation of political Islamists steps forward

domingo, 3 de junho de 2012

Egito, eleições-2012: “Como o último Primeiro-Ministro de Mubarak conseguiu chegar, democraticamente, às portas da presidência?”


31/5-6/6/2012, Gamal Essam El-Din, Al-Ahram Weekly, Cairo
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido na Vila Vudu: Ora! Mas queriam o quê? No Brasil, o primeiro-ministro do mubarak local, o tal de ex-F.H.C. e atual N.A.D.A., foi eleito e reeleito várias vezes, depois do golpe de 1964. As coisas só começaram a mudar, mesmo -- e a mudança ainda não está completada! -- em 2001, com a primeira eleição do presidente Lula. Não é verdade que eleições mudam o mundo.
Quem mudou o mundo, no Brasil, foram os pobres e a classe média, quando desistiram de passar fome, à espera de que as elites letradas reacionárias resolvessem tudo. Então, demitiram os tucanos udenistas paulistas metidos a besta e, afinal, elegeram o presidente Lula. Mas, do começo ao fim da derrubada dos mubaraks à moda Brasil, até a eleição dos nossos governos Lula-Dilma, passaram-se quase 40 anos!
Essas coisas são sempre demoradas.
Os muitos, heróis da Praça Tahrir, derrubaram o czar.
Agora, falta um Lênin, lá (como também ainda falta, no Brasil) que tenha lido Marx e entenda de capitalismo e imperialismo, p’ra organizar a construção da democracia. 
Calma. A luta continua.

Ahmed Shafik, ex primeiro-ministro de Mubarak
Os especialistas trabalham revisando suas previsões, depois que o primeiro turno das eleições presidenciais no Egito resultou em disputa direta entre Mohamed Mursi, da Fraternidade Muçulmana, e Ahmed Shafik, último primeiro-ministro de Mubarak, ex-ministro da Aviação e homem com fortes laços com os militares egípcios.

As pesquisas eleitorais subestimaram fortemente o apoio a Mursi. A impressionante base organizacional e popular da Fraternidade Muçulmana explica o desempenho dos “Irmãos”. Surpresa, de fato, foi o desempenho eleitoral de Shafik.

Para Gamal Abdel-Gawad, do Centro Al-Ahram para Estudos Políticos e Estratégicos, Shafik só começou a acumular apoio massivo nas duas últimas semanas de campanha, sobretudo quando começou a receber os votos de Amr Moussa, que várias pesquisas eleitorais mostravam em primeiro lugar na disputa.

“Shafik tocou ponto sensível dos eleitores, quando se apresentou como candidato capaz de restaurar a estabilidade e a segurança, depois de um ano e meio de confrontos sangrentos e condições econômicas em deterioração” – diz Abdel-Gawad.

“Cada vez mais eleitores desencantam-se com os movimentos revolucionários que derrubaram Mubarak e com o fraco desempenho dos partidos islamistas no Parlamento. Muitos eleitores dizem que, em vez de mergulhar na vida política e tentar ganhar espaços no Parlamento, os movimentos dos jovens revolucionários preferiram manter os confrontos de rua, tentando derrubar os prédios do ministério do Interior, do próprio Parlamento e do Ministério da Defesa, sempre sob o slogan de fora-os-militares”.

Para Ragaai Attia, advogado, “a irresponsabilidade dos jovens dos movimentos revolucionários levaram muitos eleitores a votar em Shafik, homem forte, que dá a impressão de ser capaz de combater o caos nas ruas e conter os islamistas. Shafik é meio militar e meio civil, e não pode ser considerado fulul [remanescente do regime de Mubarak]. É um estadista que sabe impor disciplina. Isso é o que mais atraiu os votos dos egípcios comuns”.

Mohamed Mursi da Fraternidade Muçulmana
O fraco desempenho da Fraternidade Muçulmana e dos partidos salafistas no Parlamento, argumenta Attia, deixou muitos egípcios sem alternativa; e eles votaram em Shafik, como uma espécie de contrapeso ao caos.

“Os egípcios viram como os islamistas usaram a maioria que obtiveram no Parlamento, para aprovar leis que só interessam a eles e aos objetivos políticos deles, promovendo Mursi e fazendo campanha muito hostil contra Shafik. O tiro saiu pela culatra. Mais ajudaram do que prejudicaram Shafik.”

No primeiro turno, Mursi perdeu para Shafik nos governorados densamente povoados do Delta do Nilo, tradicional reduto da Fraternidade Muçulmana. Shafik venceu até na terra natal de Mursi, no governorado de Sharqiya, e em Gharbiya, Daqahliya e Menoufiya. Em vários outros governorados, foi o segundo, atrás de Sabahi, candidato da esquerda e apareceu à frente de Amr Moussa em várias outras áreas.

“Muita gente votou para punir a Fraternidade”, acredita Attia. “Com o voto em Shafik, em números tão significativos, os eleitores enviam mensagem forte e clara aos “Irmãos” da Fraternidade Muçulmana”.

Fraternidade Muçulmana
Para outros analistas, a expressiva votação que Shafik obteve é evidência da continuada influência do NDP em vários governorados, sobretudo no Delta do Nilo. Em Gharbiya, onde Shafik aparece em 1º lugar, e Mursi amarga o 5º lugar, não é segredo que membros do extinto NDP, que perderam lugares no Parlamento em eleições anteriores para candidatos da Fraternidade, usaram suas conexões familiares e tribais para apoiar Shafik. Outras fontes dizem que elementos internos das Forças Nacionais de Segurança uniram-se a milícias remanescentes do NDP para virar a mesa contra Mursi.

Os coptas também parecem tem tido influência no movimento que levou Shafik para o 2º turno das eleições. Números extra oficiais estimam a população copta no Egito entre 10 e 15 milhões. Para Abdel-Gawwad, constituem um bloco significativo, que pode ajudar a decidir eleições. 

“Os cristãos em geral, e os coptas em particular, estavam divididos entre Shafik e Moussa”, diz Rami, copta e proprietário de uma livraria na rua Ramses, no Cairo. “Os sacerdotes e bispos ortodoxos foram bem claros: votem ou em Shafik ou em Moussa. Acho que 80% dos coptas, no mínimo, votaram em Shafik”.

“Muitos coptas concluíram que Moussa, na presidência, não teria forças para resistir a um grupo como a Fraternidade Muçulmana” – argumenta Rami. “Shafik é homem de personalidade forte e sempre criticou abertamente a Fraternidade. É o que a maioria dos coptas mais apreciam nele”.

Os coptas temiam que o Egito fosse convertido em estado teocrático, no caso de vitória de Mursi; ficaram sem opção, além de votar em Shafik.

Na primeira conferência de imprensa depois dos resultados iniciais e antes da batalha crucial de meados de junho, Shafik adotou tom conciliatório. Preocupado com afastar-se de Hosni Mubarak, Shafik prometeu que não haverá retorno e que o Egito entrará em nova era. Rendeu homenagem à Revolução de 25 de Janeiro, falando diretamente aos movimentos dos jovens que estiveram à frente do levante contra Mubarak: “A revolução de vocês foi sequestrada e comprometo-me a trazê-la de volta. Essas eleições não estariam acontecendo, sem a Revolução Gloriosa e os que se sacrificaram e morreram por ela”.

Praça Tahrir ocupada  (Fevereiro 2011)
“Prometo que todos os egípcios iniciaremos uma nova era. Não haverá volta. Não queremos reproduzir o antigo regime. O passado está morto”.

Shafik acrescentou que está “aberto ao diálogo” com todas as forças políticas e, ao mesmo tempo, “determinado” a construir “uma aliança com o povo”. Disse a um canal de televisão que não tem qualquer objeção a incluir representantes da Fraternidade Muçulmana em seu gabinete de governo.

Mas a mensagem básica de Shafik permanece orientada para os cidadãos comuns, e ele tenta reforçar sua imagem de candidato da lei e da ordem: “No início da campanha, prometi segurança. Os milhões de votos de vocês dizem que vocês querem segurança e não querem ver nosso país mergulhar no caos. Minha promessa de restaurar a segurança continua de pé, nos termos da lei e com respeito aos direitos humanos”.

Shafik não está tentando ocultar suas ligações com os militares. Agradeceu ao exército por ter garantido eleições justas e limpas e por ter “reafirmado seu papel histórico”.

Por mais conciliatório que o agradecimento pareça hoje, muitos analistas entendem que Shafik usará o segundo turno para reaquecer os medos de que seu oponente conservador, Mohamed Mursi, venha a restringir direitos, se eleito.

“Shafik vai concentrar-se no fato de que prega um estado laico, em oposição ao estado religioso que buscam a Fraternidade Muçulmana e seus candidatos” – diz Abdel-Gawwad. “É ideia que atinge também a intelligentsia e a elite cultural, que temem que o Egito converta-se em ditadura religiosa”.

Shafik ainda terá de superar obstáculos legais, inclusive decisão da Suprema Corte Constitucional, que antecipa para o mês de junho o início da vigência da lei “da proibição”. Aprovada pelo Parlamento de maioria islamista em abril, para impedir que remanescentes do governo de Mubarak concorressem às eleições presidenciais, Shafik só foi considerado apto a concorrer às eleições depois que impetrou recurso (ainda não julgado) contra aquela lei.