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segunda-feira, 18 de junho de 2012

Oposição turca: “EUA e Erdogan são culpados pela desgraça dos sírios”


14-20/6/2012, Sayed Abdel-Maguid, Al-Ahram Weekly, n. 1.102, Cairo
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Abdel-Maguid
Ankara. A secretária de Estado dos EUA Hillary Clinton tem muitos amigos em Istambul, cidade que visitou como primeira-dama do governo Clinton e, mais recentemente, como alta funcionária do governo Obama. Contudo, se olhasse pela janela de seu quarto de hotel na direção do Bósforo, veria o descontentamento que cresce nas ruas. Na famosa Praça Taksin, em Istambul, secularistas protestam contra o apoio que o governo de Erdogan tem garantido às políticas dos EUA para a Síria; para muitos manifestantes, o que se vê acontecer hoje na Síria é efeito de plano dos norte-americanos, para gerar o caos na região.

A Associação da Juventude da Anatólia, que faz oposição cerrada ao Partido Justiça e Desenvolvimento, de Erdogan, não tem dúvidas de que o inferno que os sírios enfrentam hoje é, pelo menos em parte, efeito das políticas viciosas do atual governo turco.

Manifestantes que se reúnem próximo ao Monumento à República, em Istambul, chamam a atenção de todos os países árabes para o risco de não defenderem a Síria contra os EUA e para o que, para eles também, é efeito das políticas dos EUA para a região. 

Alguns manifestantes acusam a CIA de apoiar o Exército Síria Livre, que combate contra as unidades legais do exército sírio.

Em praticamente todas as muitas manifestações de rua que agitam Istambul, veem-se secularistas preocupados com o futuro da região. Muitos são conhecidos opositores das políticas do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan, cujo modelo de governo parece atender a todas as expectativas de Washington para a Turquia.

Endorgan e Obama... tête-à-tête
Tantos discursos de apoio ao governo de Al-Assad talvez soem estranhos a ouvidos ocidentais, sobretudo vindos de grupos secularistas, tradicionais opositores de governos apresentados no ocidente como de fundamento religioso, ou totalitários ou repressores. E essa não é a única anomalia que se vê na Turquia nos últimos dias: Israel também não vê com bons olhos a “mudança de regime” que os EUA tentam promover na Síria.

Resultado desse cálculo regional, as políticas de Washington para a Síria não estão encontrando o apoio que Clinton esperava recolher na Turquia: grande parte da população turca culpa os EUA pela desgraça dos sírios; e Israel mais teme do que deseja o fim do governo de Assad.

Para o ex-ministro das Relações Exteriores da Turquia, Yasar Yakis, Israel está vendo com preocupação o rumo que as coisas vão tomando na Síria. Com a Fraternidade Muçulmana já tendo alcançado a maioria no Parlamento egípcio, Israel prefere continuar a enfrentar o governo laico de Assad a ter de enfrentar mais um governo islamista também na Síria. 

A Fraternidade Muçulmana já começa a fazer barulho contra a influência de Israel no Sinai. Um governo de inclinação islamista na Síria devolveria à pauta a questão das Colinas do Golan – diz Yakis.

Parte significativa da elite turca está incorporada a esses protestos, porque os confrontos sectários que estão sendo estimulados na Síria, onde sunitas estão sendo empurrados contra xiitas, podem facilmente contaminar a Turquia e servir de combustível, num cenário mais amplo, para alimentar o movimento secessionista dos curdos. 

Muitos turcos já temem que, se não se encontrar saída negociada para a Síria, a crise que daí advirá lançará ao caos toda a região. 

Pela primeira vez, os diplomatas turcos parecem incapazes de formular ou defender qualquer política clara para a Síria. Ankara, que apoiou o levante inicial da oposição síria, talvez não encontre meios para perseverar em suas políticas atuais. Também no Parlamento turco já há forte oposição às políticas do ministro de Relações Exteriores de Erdogan, Ahmet Davutoglu, e vários partidos já falam abertamente em mudança no ministério.

A questão dos curdos

Os curdos se espalham por 6 países
A questão curda também é fonte de graves preocupações; e, desde o início da crise síria, vem aumentando na Turquia a influência do Partido dos Trabalhadores do Kurdistão (PKK). O PKK, com correligionários no norte do Iraque e aliados potenciais na Síria, passa a ter de ser ouvido mais atentamente.

Causou alarme entre os políticos turcos a notícia de que membros do Partido Baath que governa a Síria ter-se-iam reunido com líderes do PT curdo nas Montanhas Qandil. Para muitos, ainda é bem viva a lembrança de quando Ankara e Damasco constituíram uma frente unida contra os separatistas do PKK.

Agora, em vez de Síria e Turquia manipularem o PKK, é o PKK quem vai ganhando posição mais forte. Membros do PKK têm mantido encontros regulares com o presidente do Curdistão Iraquiano, Massoud Barzani – que já declarou que tem dois milhões de curdos sírios dispostos a levantar-se para depor o governo de Al-Assad na Síria. 

Circulam também informações de que Barzani estaria treinando curdos sírios, em preparação para guerra de guerrilhas.

O governo sírio, por sua vez, também alarmado ante o risco de um levante dos curdos, prometeu autonomia e autogoverno aos curdos, em troca de desistirem dos projetos de agitação popular em suas áreas. Essas propostas foram apresentadas ao Partido Curdistão Democrático sírio, que se sabe que mantém laços íntimos com o PKK turco. 

Agora, com os sauditas já tendo oferecido apoio aos sunitas sírios, e o Irã prometendo apoio aos xiitas sírios, a Síria já se precipita para uma perigosa guerra sectária – resultado absolutamente diferente do que os políticos turcos esperavam.

Ainda outra dificuldade diz respeito hoje aos alevitas, grupo étnico minoritário que vive na Turquia, estimado em cerca de mais de 10% da população nacional. Os alevitas não são alawitas, como a família al-Assad que governa a Síria, mas os dois grupos são frequentemente confundidos, porque ambos juraram fidelidade ao profeta Ali, fonte inspiracional de todo o Islã xiita. E nem alevitas nem alawitas confiam em sunitas. 

Há quem preveja que no caso de haver confrontos entre alawitas e sunitas dentro da Síria – os quais podem começar a qualquer momento, e até por acidente – os alevitas turcos abracem a causa dos alawitas sírios; mais um motivo pelo qual há quem recomende cautela máxima a Ankara, nas operações que envolvam a Síria.

domingo, 10 de junho de 2012

Líbia: “De Trípoli a Mitiga”


7-13/6/2012, Gamal Nkrumah, Al-Ahram Weekly, n. 1101, Cairo
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Gamal Nkrumah
As poderosas milícias locais estão, simultaneamente e muito estranhamente, ao mesmo tempo, minando as bases do nascente processo democrático na Líbia e fortalecendo o conceito de justiça social.

Nos últimos meses, cresce a onda de reclamações e protestos, sobretudo entre os mais jovens, contra a situação corrente na Líbia, de caos generalizado e condições cada dia mais degradadas de segurança. Impossível não se solidarizar com aqueles jovens, pelo menos até certo ponto.

A verdade é que quanto mais se batem os tambores de guerra, mas se faz avançar a agenda do caos. No ocidente, poucos têm ouvido falar sobre as milícias que varrem o interior da Líbia e espalham terror pelas calçadas das cidades líbias.

O sentimento da importância de não se render aos comandantes do Conselho Nacional de Transição líbio é cada vez mais forte entre as milícias armadas, que suspeitam que seus interesses estejam sendo devastados pelo novo governo líbio, o qual, por sua vez, dá sinais cada dia mais claros de não estar comprometido com as agendas locais das várias milícias.

As milícias reuniram-se pelas mesmas linhas de divisão clânica e tribal, por cidades e vilas, que, de início, definiam-se como as que apoiavam o líder deposto, Muammar Gaddafi, e as tribos e os clãs que se viam como os revolucionários que depuseram o ditador; e as correspondentes milícias armadas.

Os controversos eventos dessa semana na Líbia pintam quadro perturbador do atual estado da política da Líbia pós-Gaddafi. Seria injusto e errado não ver o sentimento profundamente enraizado de indignação que foi gerado pelo modo selvagem como Gaddafi foi assassinado.

A Líbia sempre foi profundamente marcada pelo tribalismo – plantado e cevado durante décadas pelos italianos, depois pelos britânicos e franceses e respectivos governos coloniais ao longo do século 20 e, em certo sentido, reinventado pelo próprio Gaddafi, por mais que dissesse defender uma identidade nacional árabe, não tribal, para todos os líbios.

Os amazighs autóctones, ou berberes, foram ultrajados, divididos e perderam poder político. Os tuaregues, amazighs de pele escura e nômades dos desertos líbios, tenderam a aproximar-se de Gaddafi, que, em associação com os anciãos tuaregues e as novas gerações, recrutou milhares de tuaregues para o exército líbio. Os tebus, outra tribo autóctone também de pele escura, não amazighs, grupo de etnia não árabe que vive no sul do país, também foram bem acolhidos por Gaddafi.

Milícias paramilitares (Al-Awfea) ocupam aeroporto de Trípoli
A surpresa veio com o evento ainda não completamente noticiado, da tomada do Aeroporto Internacional de Trípoli na 2ª-feira, 4/6 [1], pela Brigada Al-Awfea [“Legalista”], presumivelmente leal a Gaddafi, que se supõe que tenha vindo da cidade de Tarhouna, uma das últimas fortalezas gaddafistas a cair quando o país foi atacado pela artilharia aérea de EUA-OTAN. Os habitantes de Tarhouna são líbios evidentemente, de pele escura.

Se é verdade que a queda de Gaddafi trouxe outra vez para o palco da política líbia o fator tribal e racial, também é verdade que o governo de transição não passa de cortina que nada encobre e, simultaneamente, nada faz para reconciliar conflitos antigos.

A Brigada Al-Awfea declarou que a principal razão para a ação de invadir e tomar o Aeroporto Internacional de Trípoli foi protestar contra o misterioso desaparecimento de seu líder, coronel Abu Ajela Al-Habashi e chamar a atenção do mundo para o sofrimento do povo de Tarhouna e outros líbios de pele negra, no período pós-Gaddafi.

Foguetes lança-granadas, alguns tanques e fogo de artilharia pesada foram usados para ocupar a entrada e as cercanias do aeroporto. Aviões internacionais foram impedidos de decolar. Os passageiros, inclusive os que já estavam embarcados prontos para decolar, receberam ordens, de homens armados, para desembarcar e retornar aos hotéis. Aos olhos da Brigada Al-Awfea, a tomada do aeroporto foi uma espécie de sátira política, carregada de simbolismo e, sobretudo, de legitimidade.

A acusação que mais se faz contra a Brigada Al-Awfea é que prega e difunde estereótipos racistas que, cada dia mais, circulam na Líbia pós-Gaddafi. Mesmo assim, a ação no aeroporto gerou pânico entre as autoridades líbias, que bracejam num oceano de confusões. Todas as chegadas internacionais foram desviadas para Mitiga, o aeroporto militar de Trípoli.

Brigada Al-Awfea impede a partidas e chegadas no aeroporto de Trípoli
Não é a primeira vez que elementos descontentes da classe mais baixa da população de Trípoli empreendem ações contra os símbolos usados para propaganda da infraestrutura líbia. Mas a ação da Brigada Al-Awfea contra o Aeroporto Internacional de Trípoli é, até agora, de longe, a mais ousada e temerária.

Mas nem tudo, nesse evento, pode ser debitado a disputas intertribais, de chefes líbios que disputariam entre eles o controle sobre a Líbia pós-Gaddafi. Claro: os serviços públicos não são o que antes eram. No aeroporto, cancelaram-se alguns voos, mas, na 3ª-feira pela manhã as autoridades rapidamente retomaram o controle do aeroporto.

De interessante, o incidente permitiu que as forças de oposição renovassem os ataques contra o Conselho Nacional de Transição, que foi acusado de incompetente. As tribos líbias, historicamente, sempre desempenharam papel considerável no processo de criticar o poder central em Trípoli – papel semelhante ao que desempenham várias organizações da sociedade civil em outros países árabes.

De fato, mesmo que os conselhos dos anciãos, nas tribos, não sejam hoje o que foram e estejam substancialmente alterados, as disputas entre clãs rivais sempre foi traço constante da sociedade líbia. Gaddafi várias vezes serviu-se disso, jogando uma tribo ou clã contra outra, embora tenha mantido também alguma estrutura nacional de lei e ordem, que perdurou durante os 42 anos durante os quais governou o país.

Governos fracos sempre são criticados, em todo o mundo e em todos os tempos. E quanto mais fracos e vacilantes sejam ou pareçam ser aos olhos das massas, mais os governos inoperantes e ineficientes vão-se tornando alvo de protestos populares.

Os procedimentos de segurança linha-dura dos tempos de Gaddafi já não existem. Mas, depois do assassinato de Gaddafi, viu-se crescer em Trípoli uma falsa sensação de segurança nos aeroportos, palpável para quem visitasse a cidade. Mesmo assim, também era palpável na cidade a sensação de que a segurança em todo o país e a estabilidade estão em processo de rápida deterioração. Há armas demais, pelas ruas. Mesmo com tudo isso, a tomada do aeroporto por uma milícia tribal tem de ser interpretada em contexto político mais amplo.

Conjurar os velhos fantasmas de Gaddafi não pode distrair os líbios e levá-los a não ver os fracassos do Conselho Nacional de Transição. A falta de segurança na Líbia já é fonte de controvérsia no país. A Líbia prepara-se para as eleições nacionais de uma assembleia constituinte, em julho de 2012. As eleições foram adiadas, previstas como estavam para 19 de junho. O atraso propriamente dito indica o estado de confusão e desorganização do Conselho Nacional de Transição.

Depois das eleições, a assembleia terá de indicar um primeiro-ministro, um gabinete e uma autoridade constituinte, que redigirá uma nova Constituição para a Líbia. Depois, a Constituição – que se teme que venha a ser fortemente influenciada por grupos islamistas – será submetida a referendo popular e, se aprovada, haverá eleições gerais num prazo de seis meses, contados a partir do referendo. As próximas eleições gerais estão sendo saudadas como as primeiras eleições livres e justas na história da Líbia.

Mas o Conselho Nacional de Transição parece estar metendo os pés pelas mãos. A missão da ONU de apoio à Líbia deve, presumivelmente, estar supervisionando o alistamento de eleitores. O processo de alistamento, nem sempre adequada e homogeneamente conduzido nos vastos países do norte da África cria, mais uma vez, o risco de que haja arbitrariedades, sobretudo dado o grande número de partidos políticos fundados depois da queda de Gaddafi.

O Partido Justiça e Desenvolvimento, braço político da Fraternidade Muçulmana é, de longe, o partido maior e mais bem organizado. Outros partidos parecem ter expressão apenas regional, como o Partido Verdade e Democracia de Benghazi ou o Congresso Líbio Amazigh, que tem formação de base étnica.

A incerteza paira, como nuvem carregada, sobre a Líbia a ser democratizada pelos padrões ocidentais de democracia. Os líbios estarão preparados – e, sobretudo, será do interesse dos líbios – para abraçar um complexo pluralismo multipartidário, imediatamente depois de um processo de transição que pode, sem exagero, ser descrito como caótico? Ou tudo isso ainda levará a mais sangue e lágrimas?



Nota dos tradutores
[1]  Há notícia no Huffington Post, em: “Libya's Tripoli Airport Attacked By Disgruntled Militia (em inglês). O Estado de S.Paulo, como sempre, apenas copiou-colou matéria da Reuters, em: Milícia armada da Líbia cerca aeroporto de Trípoli—autoridade. O Globo, também como sempre, fez o mesmo, também como sempre: repetiu matéria da BBC “e agências” (?!) e diz que alguém disse sei-lá-o-quê à rede (pasmem!) Al-Jazeera.

domingo, 3 de junho de 2012

Egito, eleições-2012: “Como o último Primeiro-Ministro de Mubarak conseguiu chegar, democraticamente, às portas da presidência?”


31/5-6/6/2012, Gamal Essam El-Din, Al-Ahram Weekly, Cairo
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido na Vila Vudu: Ora! Mas queriam o quê? No Brasil, o primeiro-ministro do mubarak local, o tal de ex-F.H.C. e atual N.A.D.A., foi eleito e reeleito várias vezes, depois do golpe de 1964. As coisas só começaram a mudar, mesmo -- e a mudança ainda não está completada! -- em 2001, com a primeira eleição do presidente Lula. Não é verdade que eleições mudam o mundo.
Quem mudou o mundo, no Brasil, foram os pobres e a classe média, quando desistiram de passar fome, à espera de que as elites letradas reacionárias resolvessem tudo. Então, demitiram os tucanos udenistas paulistas metidos a besta e, afinal, elegeram o presidente Lula. Mas, do começo ao fim da derrubada dos mubaraks à moda Brasil, até a eleição dos nossos governos Lula-Dilma, passaram-se quase 40 anos!
Essas coisas são sempre demoradas.
Os muitos, heróis da Praça Tahrir, derrubaram o czar.
Agora, falta um Lênin, lá (como também ainda falta, no Brasil) que tenha lido Marx e entenda de capitalismo e imperialismo, p’ra organizar a construção da democracia. 
Calma. A luta continua.

Ahmed Shafik, ex primeiro-ministro de Mubarak
Os especialistas trabalham revisando suas previsões, depois que o primeiro turno das eleições presidenciais no Egito resultou em disputa direta entre Mohamed Mursi, da Fraternidade Muçulmana, e Ahmed Shafik, último primeiro-ministro de Mubarak, ex-ministro da Aviação e homem com fortes laços com os militares egípcios.

As pesquisas eleitorais subestimaram fortemente o apoio a Mursi. A impressionante base organizacional e popular da Fraternidade Muçulmana explica o desempenho dos “Irmãos”. Surpresa, de fato, foi o desempenho eleitoral de Shafik.

Para Gamal Abdel-Gawad, do Centro Al-Ahram para Estudos Políticos e Estratégicos, Shafik só começou a acumular apoio massivo nas duas últimas semanas de campanha, sobretudo quando começou a receber os votos de Amr Moussa, que várias pesquisas eleitorais mostravam em primeiro lugar na disputa.

“Shafik tocou ponto sensível dos eleitores, quando se apresentou como candidato capaz de restaurar a estabilidade e a segurança, depois de um ano e meio de confrontos sangrentos e condições econômicas em deterioração” – diz Abdel-Gawad.

“Cada vez mais eleitores desencantam-se com os movimentos revolucionários que derrubaram Mubarak e com o fraco desempenho dos partidos islamistas no Parlamento. Muitos eleitores dizem que, em vez de mergulhar na vida política e tentar ganhar espaços no Parlamento, os movimentos dos jovens revolucionários preferiram manter os confrontos de rua, tentando derrubar os prédios do ministério do Interior, do próprio Parlamento e do Ministério da Defesa, sempre sob o slogan de fora-os-militares”.

Para Ragaai Attia, advogado, “a irresponsabilidade dos jovens dos movimentos revolucionários levaram muitos eleitores a votar em Shafik, homem forte, que dá a impressão de ser capaz de combater o caos nas ruas e conter os islamistas. Shafik é meio militar e meio civil, e não pode ser considerado fulul [remanescente do regime de Mubarak]. É um estadista que sabe impor disciplina. Isso é o que mais atraiu os votos dos egípcios comuns”.

Mohamed Mursi da Fraternidade Muçulmana
O fraco desempenho da Fraternidade Muçulmana e dos partidos salafistas no Parlamento, argumenta Attia, deixou muitos egípcios sem alternativa; e eles votaram em Shafik, como uma espécie de contrapeso ao caos.

“Os egípcios viram como os islamistas usaram a maioria que obtiveram no Parlamento, para aprovar leis que só interessam a eles e aos objetivos políticos deles, promovendo Mursi e fazendo campanha muito hostil contra Shafik. O tiro saiu pela culatra. Mais ajudaram do que prejudicaram Shafik.”

No primeiro turno, Mursi perdeu para Shafik nos governorados densamente povoados do Delta do Nilo, tradicional reduto da Fraternidade Muçulmana. Shafik venceu até na terra natal de Mursi, no governorado de Sharqiya, e em Gharbiya, Daqahliya e Menoufiya. Em vários outros governorados, foi o segundo, atrás de Sabahi, candidato da esquerda e apareceu à frente de Amr Moussa em várias outras áreas.

“Muita gente votou para punir a Fraternidade”, acredita Attia. “Com o voto em Shafik, em números tão significativos, os eleitores enviam mensagem forte e clara aos “Irmãos” da Fraternidade Muçulmana”.

Fraternidade Muçulmana
Para outros analistas, a expressiva votação que Shafik obteve é evidência da continuada influência do NDP em vários governorados, sobretudo no Delta do Nilo. Em Gharbiya, onde Shafik aparece em 1º lugar, e Mursi amarga o 5º lugar, não é segredo que membros do extinto NDP, que perderam lugares no Parlamento em eleições anteriores para candidatos da Fraternidade, usaram suas conexões familiares e tribais para apoiar Shafik. Outras fontes dizem que elementos internos das Forças Nacionais de Segurança uniram-se a milícias remanescentes do NDP para virar a mesa contra Mursi.

Os coptas também parecem tem tido influência no movimento que levou Shafik para o 2º turno das eleições. Números extra oficiais estimam a população copta no Egito entre 10 e 15 milhões. Para Abdel-Gawwad, constituem um bloco significativo, que pode ajudar a decidir eleições. 

“Os cristãos em geral, e os coptas em particular, estavam divididos entre Shafik e Moussa”, diz Rami, copta e proprietário de uma livraria na rua Ramses, no Cairo. “Os sacerdotes e bispos ortodoxos foram bem claros: votem ou em Shafik ou em Moussa. Acho que 80% dos coptas, no mínimo, votaram em Shafik”.

“Muitos coptas concluíram que Moussa, na presidência, não teria forças para resistir a um grupo como a Fraternidade Muçulmana” – argumenta Rami. “Shafik é homem de personalidade forte e sempre criticou abertamente a Fraternidade. É o que a maioria dos coptas mais apreciam nele”.

Os coptas temiam que o Egito fosse convertido em estado teocrático, no caso de vitória de Mursi; ficaram sem opção, além de votar em Shafik.

Na primeira conferência de imprensa depois dos resultados iniciais e antes da batalha crucial de meados de junho, Shafik adotou tom conciliatório. Preocupado com afastar-se de Hosni Mubarak, Shafik prometeu que não haverá retorno e que o Egito entrará em nova era. Rendeu homenagem à Revolução de 25 de Janeiro, falando diretamente aos movimentos dos jovens que estiveram à frente do levante contra Mubarak: “A revolução de vocês foi sequestrada e comprometo-me a trazê-la de volta. Essas eleições não estariam acontecendo, sem a Revolução Gloriosa e os que se sacrificaram e morreram por ela”.

Praça Tahrir ocupada  (Fevereiro 2011)
“Prometo que todos os egípcios iniciaremos uma nova era. Não haverá volta. Não queremos reproduzir o antigo regime. O passado está morto”.

Shafik acrescentou que está “aberto ao diálogo” com todas as forças políticas e, ao mesmo tempo, “determinado” a construir “uma aliança com o povo”. Disse a um canal de televisão que não tem qualquer objeção a incluir representantes da Fraternidade Muçulmana em seu gabinete de governo.

Mas a mensagem básica de Shafik permanece orientada para os cidadãos comuns, e ele tenta reforçar sua imagem de candidato da lei e da ordem: “No início da campanha, prometi segurança. Os milhões de votos de vocês dizem que vocês querem segurança e não querem ver nosso país mergulhar no caos. Minha promessa de restaurar a segurança continua de pé, nos termos da lei e com respeito aos direitos humanos”.

Shafik não está tentando ocultar suas ligações com os militares. Agradeceu ao exército por ter garantido eleições justas e limpas e por ter “reafirmado seu papel histórico”.

Por mais conciliatório que o agradecimento pareça hoje, muitos analistas entendem que Shafik usará o segundo turno para reaquecer os medos de que seu oponente conservador, Mohamed Mursi, venha a restringir direitos, se eleito.

“Shafik vai concentrar-se no fato de que prega um estado laico, em oposição ao estado religioso que buscam a Fraternidade Muçulmana e seus candidatos” – diz Abdel-Gawwad. “É ideia que atinge também a intelligentsia e a elite cultural, que temem que o Egito converta-se em ditadura religiosa”.

Shafik ainda terá de superar obstáculos legais, inclusive decisão da Suprema Corte Constitucional, que antecipa para o mês de junho o início da vigência da lei “da proibição”. Aprovada pelo Parlamento de maioria islamista em abril, para impedir que remanescentes do governo de Mubarak concorressem às eleições presidenciais, Shafik só foi considerado apto a concorrer às eleições depois que impetrou recurso (ainda não julgado) contra aquela lei.

domingo, 27 de maio de 2012

Gaza-2012 e o futuro da Resistência Palestina

Khaled Meshaal

Eleições no Hamás reforçam liderança de Meshaal

17-23/5/2012, Saleh Al-Naami, Al-Ahram Weekly, n. 1.098, Cairo
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ao longo de um mês, realizaram-se recentemente eleições internas no Hamás, para eleger o alto comando político e do Conselho Geral (Shura) do Partido, que reúne representantes do Hamás da Cisjordânia, da Faixa de Gaza, da Diáspora e das prisões. O Hamás elegeu também representantes para os vários Conselhos da Shura e vários comandos regionais. A questão mais candente na véspera das eleições era de que modo os resultados afetariam as decisões políticas e estratégicas do Partido para a próxima fase da luta, sobretudo no campo da resistência contra a ocupação, a reconciliação nacional e outras questões chaves. Discutia-se também se Khaled Meshaal continuaria na liderança do Partido. O resultado das eleições mostrou que a posição de Meshaal é hoje mais amplamente majoritária do que supunham alguns.

Fontes com as quais Al-Ahram Weekly teve acesso afirmam que o resultado mais significativo das eleições foi o fortalecimento da posição de Meshaal, que foi reeleito e conseguiu eleger apoiadores para várias das principais posições do comando central e de braços regionais da organização, dentre as quais as importantes posições de comando do Hamás na Faixa de Gaza.

Mahmoud al-Zahhar
É resultado muito significativo, porque vários líderes em Gaza, ao longo do ano passado, criticaram a liderança de Meshaal, especialmente Mahmoud Al-Zahhar, que jamais aceitou os mais recentes movimentos políticos de Meshaal – que aceitou o princípio da “resistência pacífica” e firmou o acordo de unidade nacional com Mahmoud Abbas, ainda presidente da Autoridade Palestina. Embora o primeiro-ministro de Gaza, Ismail Haniyeh, tenha sido eleito para a presidência do partido em Gaza, o resultado geral das eleições favoreceu mais os seguidores de Meshaal.

As Brigadas Ezzeddin Al-Qassam, braço militar do Hamás e tradicionais apoiadoras de Meshall, ganharam maior quantidade de postos políticos nas recentes eleições. Ahmed Al-Jaafari e Marwan Eissa, dois dos principais comandantes das Brigadas na Faixa de Gaza, foram eleitos; além de Rawhi Mushtaha e Yehia Al-Senwar, libertados na mais recente troca de prisioneiros entre Israel e Gaza. Ambos são mais ligados às Brigadas e braço armado do Hamás, que aos grupos considerados mais “políticos” do Partido.

O novo Conselho Geral Shura do Hamás na Faixa de Gaza inclui grande número de ex-prisioneiros recém-saídos das prisões israelenses, ligados aos grupos armados do Hamás, e que tiveram participação decisiva na negociação para a troca de prisioneiros. A presença deles, agora, no comando político do partido, também acrescenta legitimidade à posição de Meshall.

Ismail Haniyeh
A posição de Meshall saiu reforçada, também, pela evidência de que, agora, Meshall conta, no comando político do Hamás em Gaza, com líderes populares como Al-Senwar e Mushtaha, que têm laços históricos profundos com os movimentos de base do Hamás na região. Depois das eleições gerais do último mês, o Hamás é o partido mais firmemente instalado no comando político e na Shura e é um campo político coeso.

Embora Haniyeh e Al-Zahhar tenham manifestado divergências em relação às políticas de “coexistência” de Meshaal, os dois também têm disputas diretas entre eles, o que significa que a oposição pública a Meshaal diminuirá. Embora não haja informações sobre as condições nas quais se realizaram as eleições internas do Hamás na Cisjordânia, dadas as condições de forte segurança sob as quais o Hamás opera ali (vários dos líderes e membros do Hamás são ativamente caçados pelos serviços secretos israelenses), parece certo que, também na Cisjordânia, a posição de Meshall saiu fortalecida das eleições. Todos os principais nomes do Hamás na Cisjordânia apoiaram Meshaal, quando anunciou que assinara a Declaração de Doha – de Unidade Nacional – com Abbas, apesar de o acordo ter sido fortemente criticado por líderes do Hamás na Faixa de Gaza. De fato, a influência da Cisjordânia nos corpos políticos e armados do Hamas é praticamente equivalente à influência de Gaza nos mesmos corpos. Não parece haver dúvidas de que os representantes de Gaza nos conselhos da Shura apoiarão Meshaal.

Apesar de nossas fontes avaliarem que não há candidato em condições de competir contra ele pelo comando político do Hamás, ninguém duvida de que as recentes eleições internas garantirão apoio mais firme a Meshall como cabeça política do partido.

Observadores também concordam com que os sucessos de Meshaal indicam que conseguirá fazer valer suas políticas e posições dentro do grupo, sem enfrentar grande oposição interna – também em duas questões chaves.

Primeiro, a reconciliação nacional (reconciliação com a Autoridade Palestina, PA). Meshaal, como os demais líderes do Hamás na região e na diáspora, conhecem bem as violentas pressões a que Abbas está submetido, sobretudo por Israel, EUA e alguns países árabes; essas pressões praticamente paralisam Abbas e impedem que tome qualquer medida consistente para por fim à luta interna na região ocupada. Ao mesmo tempo, Meshaal entende que os interesses do Hamás serão mais bem atendidos se o Partido cerrar fileiras, porque as disputas internas drenam recursos políticos, financeiros e de segurança.

Diferente do que pensam os líderes do Hamás em Gaza, Meshaal considera que o preço a pagar para que o Hamás continue a lutar pela hegemonia política em Gaza é alto demais – porque o confronto armado contra o Fatah de Abbas arranha o prestígio internacional do partido e suas chances de buscar a solidariedade e a colaboração internacionais. Ao mesmo tempo, o confronto armado entre Hamás e Fatah dá ampla margem de manobra aos israelenses para que continuem a atacar o grupo e seus militantes armados na Faixa de Gaza.

Embora a Primavera Árabe tenha muito claramente alterado o modo como alguns estados árabes relacionam-se com o Hamás, a maioria desses estados e governos ainda se recusa a negociar com o grupo ou com seu governo (eleito) em Gaza. Além do mais, Meshaal está muito gravemente preocupado com o alto custo financeiro de manter um governo em Gaza (Haniyeh é o primeiro-ministro).

Todo o aparelho internacional do Hamás tem de trabalhar quase ininterruptamente exclusivamente para levantar fundos para manter o governo do Hamás em Gaza - serviços e funcionários – tarefa que se torna cada dia mais difícil, sobretudo depois que o Irã suspendeu a ajuda que dava, depois que o Hamás recusou-se a apoiar o ataque militar do regime sírio contra a oposição interna. Meshaal sempre foi responsável pelo trabalho de levantar fundos para manter o grupo e sabe bem o quanto custa manter no poder o governo do Hamás em Gaza.

Meshaal terá de mostrar agora máxima flexibilidade em todas as questões relacionadas à reconciliação nacional (por mais que saiba que, hoje, essa reconciliação seja praticamente impossível). Meshaal quer provar aos estados árabes, sobretudo àqueles nos quais a Primavera Árabe foi bem sucedida, que o Hamás é partido capaz de ser politicamente flexível, sem comprometer seus princípios, em nome de superar divisões internas. Com isso, espera passar a contar com aqueles estados, para que pressionem Abbas a aceitar as propostas do Hamás.

Simultaneamente, Meshaal espera que, com os novos estados árabes mais abertos a compreender as posições do Hamás, poderá apressar o reconhecimento oficial do partido, e expandir suas relações políticas, de modo a integrar o Hamás na ainda nebulosa, mas já nova ordem política árabe, que se vai configurando, com os primeiros passos dos novos governos surgidos da Primavera Árabe. Esse desenvolvimento reduzirá a capacidade de Israel para encurralar os palestinos e atacá-los.

Em segundo lugar, desde o início Meshaal foi um dos comandantes do Hamás que sempre se opôs a que o partido participasse de eleições e constituísse governo em Gaza – porque, como sempre disse, seria muito difícil para o partido combinar governo e resistência. Meshaal entende que ainda é cedo para que o Hamás assuma responsabilidades de governo; e entende que a situação fica ainda mais difícil, se o Hamás monopolizar o poder (o que acontece hoje, em Gaza).

Segundo fontes ouvidas por Al-Ahram Weekly, Meshaal diz, em conversas privadas, que, com o Hamás no poder em Gaza, Israel ganha uma lista imensa de alvos a atacar quando bem entenda. Acredita também que a Guerra de Gaza, em 2008, é prova disso, uma vez que qualquer instituição ligada direta ou indiretamente ao governo de Gaza tornou-se, naqueles dias, alvo “legítimo” a ser atacado por Israel.

Fato é que Meshaal e muitos outros líderes do Hamás começam a sentir os efeitos negativos de o partido estar no poder, também nas relações com outros grupos palestinos, entre os quais, a Jihad Islâmica.

Grupos da resistência palestina têm acusado o Hamás de ter abandonado a resistência em nome de permanecer no poder, sobretudo depois que se tornou evidente que o Hamás não responde imediatamente a ataques israelenses contra líderes e símbolos de outros grupos palestinos (o que se viu em confrontos recentes), por temer a retaliação dos israelenses contra instituições do governo em Gaza. Meshaal entende que é indispensável chegar a uma fórmula pela qual o Hamás possa deixar de ser governo em Gaza, sem ter de abrir mão dos recursos militares.

Os líderes do Hamás que discordam dessa análise, especialmente Al-Zahhar e, em menor escala, também Haniyeh, tornaram-se minoria no comando político do partido. Assim, Meshaal ganha agora uma oportunidade para convencer outros líderes do partido sobre a necessidade de achar alguma brecha pela qual escapar da dualidade entre governar e resistir, com o mínimo possível de danos. O resultado das eleições recentes dentro do Hamás, deram-lhe poder e legitimidade para empreender esse trabalho político – embora Meshall saiba que o sucesso depende da posição que os demais envolvidos adotem, especialmente a Autoridade Palestina e estados árabes que têm grande influência nas questões palestinas, como o Egito.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Conselho Superior das FFAA no Cairo: escondido atrás de muros de concreto


8/2/2012, Bel Trew, Mohamed Abdalla & Ahmed Feteha, Al-Ahram Online, Cairo
Walled in: SCAF's concrete barricades
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Intermináveis batalhas de rua entre a polícia e manifestantes levaram o Ministério do Interior a, literalmente, esconder-se atrás de muros. Veja no mapa abaixo crescimento dessas barreiras de concreto, que fizeram do Cairo a cidade dos muros.

Os vários muros foram erguidos nos últimos quatro meses mostram  como o Ministério do Interior do Egito pretende se esconder

24 de Novembro -  construído o muro da Rua Mohamed Mahmoud

Os cinco dias de confrontos sangrentos, que fez 40 mortos, começaram depois que as Forças Centrais de Segurança do Egito [Central Security Forces (CSF)] expulsaram os últimos ocupantes da Praça Tahrir, às 10h30 da manhã de 19 de novembro. Assustados ante a violência desproporcional contra o pequeno grupo de manifestantes, muitos dos quais eram familiares dos mártires da Revolução de 25 de Janeiro, as multidões passaram a reunir-se nas ruas do centro da cidade. A polícia retirou-se, depois de rápidas escaramuças, deixando para trás um caminhão das CSF, que foi incendiado. Poucas horas depois, a CSF voltou pela rua Mohamed Mahmoud numa coluna de veículos blindados e a batalha recomeçou.

Tahrir foi violentamente evacuada mais duas vezes, uma pela polícia, a segunda pelo exército, e houve muitas mortes. Resultado disso, o Conselho Superior das Forças Armadas [Supreme Council of the Armed Forces (SCAF)], sentindo a crescente pressão para realizar eleições tranquilas, tomou a decisão drástica de construir um muro entre a polícia e os manifestantes, na rua permanentemente conflagrada. Esse muro, que viria a servir de modelo para outros sete muros construídos depois, é uma barricada de blocos de concreto de quase 4m de altura. Clérigos da Universidade Al-Ahzar formaram cordões humanos frente ao muro, para impedir que a multidão o derrubasse.  

A área em frente ao muro tornou-se área de risco para mulheres dia 25 de novembro, depois que a jornalista Caroline Sinz da televisão francesa foi atacada por uma gangue, arrastada para a Praça Tahrir, despida e agredida sexualmente. O muro foi afinal derrubado por manifestantes nos protestos liderados pelos Ultras [torcida organizada do time Ahly, de futebol], dia 2 de fevereiro, contra o Ministério do Interior, a polícia e o Conselho Superior das Forças Armadas.

17 de dezembro: surge o muro da rua Qasr El-Aini 

Ao final dos confrontos na rua Mohamed Mahmoud, manifestantes iniciaram protesto pacífico, sentados no chão, na rua Magles El-Shaab, em frente ao prédio do Gabinete, em protesto contra a indicação, pelo SCAF, de Kamal El-Ganzouri, para o posto de primeiro-ministro. Na noite de 15 de dezembro, forças de segurança sequestraram Aboudi Ibrahim, 19, que participava dos protestos, porque, segundo testemunhas, tentou recuperar uma bola de futebol que caíra à frente da Assembleia Popular. Quando Aboudi foi solto, nas primeiras horas do dia 16 de dezembro, era evidente que havia sido violentamente espancado. Manifestantes furiosos enfrentaram o exército, o que resultou em o exército evacuar a manifestação, ainda na mesma manhã. Os manifestantes transferiram-se para a rua Qasr El-Aini. Militares e civis passaram a jogar grandes pedaços de pedra arrancados das calçadas contra os manifestantes, além de peças e móveis de escritório e até urina, dos andares superiores dos prédios próximos. Na luta que daí decorreu, os militares e policiais das CSF usaram munição real e metralhadoras. O confronto estendeu-se até o dia 20 de dezembro, e resultou na morte de mais de 14 manifestantes.

Foi então construído o muro na rua Qasr El-Aini, para impedir o acesso de manifestantes aos prédios do Parlamento e do Gabinete. A construção começou depois de o exército evacuar com extrema violência a praça, na tarde de 17 de dezembro. Queimaram-se as tendas armadas na praça Tahrir – e os manifestantes recuaram até Zamalek. A batalha continuou, com manifestantes e o exército trocando pedradas por cima do muro. Um manifestante escalou o muro e pôs-se a dançar sobre ele, sob o fogo cruzado das pedradas.

19 de dezembro – Surgem os muros das ruas Sheikh Rehan e Youssef El-Guindy

Na madrugada do dia 19 de dezembro, por volta das 3h30, soldados do exército e policiais das CSF apareceram à entrada da mesquita Omar Makram, do lado da praça Tahrir. Depois de atirar na direção da praça e pôr abaixo as tendas ainda remanescentes, as forças de segurança usaram fogo pesado e gás lacrimogêneo para manter os manifestantes à distância, enquanto eram erguidos os terceiro e quarto muros. Um deles foi construído na rua Sheikh Rehan, paralela à rua Magles El-Shaab; o outro, na rua Youssef El-Guindy, logo depois da esquina de Sheikh Rihan. Os blocos foram dispostos como uma barricada entre a praça Tahrir e a rua lateral que dá acesso aos prédios do Ministério do Interior, quartel-general das CSF, um pouco mais a leste.

5 de fevereiro – Surgem os muros das ruas Fahmy, Mansour e El-Felaky 

Foram convocadas manifestações de rua para a 5ª-feira, 2 de fevereiro, depois do massacre no estádio de futebol em Port Said, quando morreram mais de 70 torcedores do Ahly (“Ultras”). A população culpou as forças de segurança pelas mortes, por não terem impedido que se alastrassem as brigas entre torcidas rivais. A manifestação reuniu-se em frente ao Ministério do Interior, órgão que controla a polícia; houve cantos contra o ministério e o Conselho Superior das Forças Armadas, identificado como superior e responsável final pelo massacre de torcedores. A polícia usou, de início, munição revestida de borracha e gás lacrimogêneo contra a multidão, ataque que começou às 18h45 e deu início a cinco dias de batalhas esporádicas que se espalharam por todas as ruas da vizinhança.

No domingo, às 3h da madrugada, os militares e a polícia começaram a construir mais três outros muros nas ruas que partem da rua Mohamed Mahmoud e levam até o prédio do Ministério do Interior, com o que o prédio resultou completamente cercado de muros. Manifestantes tentaram impedir a construção do muro da rua Mansour, e foram atacados com veículos militares blindados.

Quando o dia raiou, grupos que se autoidentificaram como moradores da área começaram a fazer cordões humanos frente aos muros, para impedir que os manifestantes se aproximassem, até que o último muro estivesse construído na rua El-Felaky. Nos combates iniciados imediatamente depois disso, morreram 12 manifestantes, e a multidão foi forçada a recuar até a praça Bab El-Louq e, mesmo, até a rua Hoda Sharaawy, rua residencial, porque os muros bloqueavam todas as vias de saída.

6 de fevereiro – a Rua Noubar 

Na noite de 5 de fevereiro aconteceram alguns dos ataques mais violentos pelas forças de segurança. Com os três muros já construídos nas ruas Fahmy, Mansour e Felaky, os combates foram empurrados para o oeste, na direção da praça Bab El-Louq e para a área do centro do Cairo. Manifestantes documentaram a presença de atiradores distribuídos nos prédios e uso excessivo de gás lacrimogêneo, enquanto os caminhões percorriam as ruas em várias direções, perseguindo os manifestantes que tentavam proteger-se. Nas primeiras horas do dia 6 de fevereiro, as CSF começaram a construir mais um muro na rua Noubar, paralelo aos outros três muros, o que fechou o conjunto de muros em volta do ministério. À noite, um grupo não identificado de civis, que se apresentaram como residentes na área de Abdeen, apareceram com armas de mira telescópica e, segundo testemunhas, uma metralhadora. Todo esse armamento foi usado contra os manifestantes. Dois manifestantes morreram nesses confrontos, que continuavam nas primeiras horas do dia 7 de fevereiro.