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quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Ismail Haniyeh, do Hamás: “Os EUA começam a ter de ouvir uma nova linguagem”


22/11/2012, Al-Jazeera, Qatar
Hamas leader Ismail Haniyeh has thanked Egypt's leader Mohamed Morsi for his ceasefire efforts
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ismail Haniyeh
A vitória em Gaza é clara. É chegada a hora do Egito e da região.

Os EUA começam a ter de ouvir uma nova linguagem.

Nos congratulamos com nosso povo palestino por essa vitória.

Agradecemos ao Egito e ao seu presidente fiel, Mohamed Mursi.

Agradecemos aos que nos forneceram armas para essa guerra – especialmente o Irã.

Netanyahu errou ao analisar as circunstâncias estratégicas. A ocupação tentou agressão contra região já em transformação, que se vai livrando dos governos pró-Israel.

Agradecemos ao Egito e à inteligência egípcia, pelos esforços incansáveis até o cessar-fogo.

Esse cessar-fogo é bom acordo, como base para pôr fim às agressões contra Gaza. O núcleo de todos os problemas é a ocupação.

Conclamo todos a respeitarem o acordo de cessar-fogo e a implementá-lo. Nós nos manteremos integralmente comprometidos com o acordo de cessar-fogo, enquanto o inimigo também se mantiver comprometido com o mesmo acordo, e acompanharemos, com o Egito, o cumprimento dos termos do cessar-fogo.

domingo, 24 de junho de 2012

Hamás festeja "possível" vitória de Mursi, no Egito


21-27/6/2012, Khaled Amayreh (de Ramallah), Al-Ahram Weekly, n. 1103, Cairo
Traduzido pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu

ATUALIZAÇÃO às 11h30 de 24/6/2012: Mohamed Mursi, da Fraternidade Muçulmana, é declarado vencedor das eleições no Egito [CNN, pela televisão]

Khaled Amayreh
Os palestinos islâmicos, que acompanharam de perto durante a semana o desenrolar das eleições no Egito, reagiram com grande entusiasmo à possível vitória do candidato da Fraternidade Muçulmana Mohamed Mursi, sobre seu adversário secular, Ahmed Shafik, último primeiro-ministro do governo deposto de Hosni Mubarak.

Antes das eleições, dirigentes do Hamás limitaram-se a comentários apenas “diplomáticos” sobre os acontecimentos políticos no Egito, dizendo que se mantinham igualmente distanciados de todos os atores políticos na arena egípcia. Mas já era evidente, nas entrelinhas das declarações oficiais, o partido e o candidato preferidos do Hamás e de outros grupos islâmicos na região.

O Hamás é “filho” político da Fraternidade Muçulmana, com a qual sempre manteve laços estreitos e vitais. Alguns dos principais nomes do Hamás têm cidadania egípcia, como Mahmoud Al-Zahhar, cuja mãe é egípcia.

A mãe do presidente do Parlamento Palestino, Aziz Duweik, atualmente preso em Israel, sem acusação ou julgamento, também é egípcia, o que o qualifica para obter a cidadania egípcia, segundo leis recentemente aprovadas.

Muitos líderes políticos palestinos islâmicos também estudaram, graduação e pós-graduação, no Egito.

Em Gaza, palestinos distribuem doces, sob uma bandeira do Egito, 
frente a um cartaz com foto do candidato da Fraternidade 
Muçulmana no Egito, Mohamed Mursi.
Na Faixa de Gaza, centenas de jovens palestinos tomaram as ruas para celebrar a esperada vitória de Mursi, depois que o candidato da Fraternidade Muçulmana foi à televisão e declarou vitória nas eleições presidenciais. Outros distribuíram doces e trocaram abraços de congratulações.

É vitória da Palestina, tanto quanto vitória do Egito. Esperamos que, com presidente islâmico na chefe do maior e mais poderoso estado árabe, Israel terá de ser menos arrogante” – disse Mohamed Amr, ativista do Hamás em Hebron, no sul da Cisjordânia.

Estamos vivendo um terremoto político de proporções históricas. É a primeira vez que temos presidente islâmico em país árabe. Os efeitos psicológicos e a repercussão psicológica e política desse envento serão imensas, de longo alcance” – disse Amr.

Ismail Haniyeh
Ismail Haniyeh e Moussa Abu Marzouk foram os primeiros dirigentes do Hamás a congratular-se com a Fraternidade Muçulmana pela vitória. Ambos manifestaram esperanças de que o Egito, sob a presidência de Mursi, saberá assumir posição mais firme em relação a Israel.
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Haniyeh, primeiro-ministro do governo do Hamás em Gaza, saudou as eleições como “verdadeiro casamento democrático”; disse que espera que o Egito alcance logo a estabilidade política e a prosperidade econômica. Acrescentou que o povo palestino deposita grandes esperanças no triunfo da revolução egípcia.

O Hamás tem, de fato, boas razões para otimismo, com a ascensão da Fraternidade Muçulmana à presidência do mais importante estado árabe.

Para começar, o Hamás tem certeza de que o Egito, no governo de Mursi, não chantageará o grupo islâmico e os palestinos em geral, a aceitar acordos com Israel que não interessam aos palestinos, como tantas vezes aconteceu durante o reinado de Mubarak, quando o governo egípcio era usado – pelos EUA – como garrote, para obrigar a Autoridade Palestina a fazer concessões a Israel. De fato, a grande maioria dos palestinos sempre consideraram o governo de Mubarak mais como ameaça, do que como aliado da causa palestina. Os que acalentavam alguma esperança foram afinal desiludidas na campanha genocida de Israel contra Gaza, há mais de três anos (“Operação Chumbo Derretido”/ing.: Operation Cast Lead).

Em segundo lugar, o Hamás, que sofreu terrivelmente por causa dos esforços do governo de Mubarak para sufocar economicamente a Faixa de Gaza e, dentre outras medidas violentas, construiu um muro (profundo o suficiente para tentar bloquear a rede de túneis que atravessam a fronteira e é vital para o abastecimento da população da Faixa de Gaza) na fronteira Gaza-Sinai, espera que, com Mursi na presidência, estará acabada a “política” de cerramento das fronteiras e bloqueio a Gaza.

Em terceiro lugar, o Hamás espera que o Egito, doravante, passe a conectar seu compromisso com o Acordo de Paz de Camp David ao modo como Israel se relacione com os palestinos. Vários dirigentes da Fraternidade Muçulmana já se manifestaram favoráveis a essa conexão.

Em quarto lugar, o Hamás espera – e provavelmente já trabalha com essa possibilidade real, no planejamento estratégico dos próximos passos – que o Egito se mostrará mais atento e compreensivo em relação à posição do Hamás vis-à-vis seu adversário local, o Fatah.

Mohamed Mursi, vencedor - Fraternidade Muçulmana
No passado, o regime de Mubarak  sempre foi visto como tendencioso a favor do Fatah, nas conversações de reconciliação e de constituição da frente de unidade nacional palestina, patrocinadas pelo Egito.

O Fatah ainda não comentou oficialmente os resultados das eleições no Egito, à espera do anúncio oficial no Cairo. Porta-vozes do Fatah têm dito que o presidente Mahmoud Abbas não tem preferências em relação às eleições no Egito. Mas, entre os quadros intermediários e inferiores do Fatah, o sentimento era de consternação e, mesmo, de indignação, ante a possível vitória de Mursi. E comentário publicado na página internet do Departamento de Cultura e informação do Fatah dizia que “agora a Fraternidade Muçulmana será desmascarada”. (...)

O autor do comentário, Yehia Rabah, obviamente ignorava que a Fraternidade Muçulmana foi eleita e não usurpou qualquer direito que não lhe caiba por decisão dos eleitores. Rabah continua: “O exército é o único partido qualificado no qual os egípcios podem confiar para garantir a paz e a segurança”.

Secularista anti-islâmico, Rabah escreveu que o Egito sempre esteve “em melhores mãos” enquanto foi comandado com mão de ferro pelo exército, sem considerar as forças políticas populares. (...)

Quanto a Israel, a reação à eleição de Mursi foi sombria. Um deputado do Parlamento de Israel disse que “a chegada dos islamistas ao centro de poder no Egito é ameaça existencial mais grave a Israel, que as bombas atômicas do Irã”.

Alex Fishman, conhecido analista da política de Israel escreveu no jornal Yedith Aharonot, de grande circulação, que Israel terá de aprender a conviver com a perturbadora realidade de um governo hostil, no Egito, governado por islâmicos.

“Nenhum governo egípcio comandado por islâmicos eleitos conseguirá admitir que Israel continue a bombardear Gaza. O dia em que, com Mursi no governo do Egito, os aviões do Exército de Israel atacarem a Faixa de Gaza, destruindo propriedades de palestinos e matando palestinos inocentes será, muito provavelmente, o último dia em que haverá relações diplomáticas formais entre Israel e o Egito” 

domingo, 27 de maio de 2012

Gaza-2012 e o futuro da Resistência Palestina

Khaled Meshaal

Eleições no Hamás reforçam liderança de Meshaal

17-23/5/2012, Saleh Al-Naami, Al-Ahram Weekly, n. 1.098, Cairo
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ao longo de um mês, realizaram-se recentemente eleições internas no Hamás, para eleger o alto comando político e do Conselho Geral (Shura) do Partido, que reúne representantes do Hamás da Cisjordânia, da Faixa de Gaza, da Diáspora e das prisões. O Hamás elegeu também representantes para os vários Conselhos da Shura e vários comandos regionais. A questão mais candente na véspera das eleições era de que modo os resultados afetariam as decisões políticas e estratégicas do Partido para a próxima fase da luta, sobretudo no campo da resistência contra a ocupação, a reconciliação nacional e outras questões chaves. Discutia-se também se Khaled Meshaal continuaria na liderança do Partido. O resultado das eleições mostrou que a posição de Meshaal é hoje mais amplamente majoritária do que supunham alguns.

Fontes com as quais Al-Ahram Weekly teve acesso afirmam que o resultado mais significativo das eleições foi o fortalecimento da posição de Meshaal, que foi reeleito e conseguiu eleger apoiadores para várias das principais posições do comando central e de braços regionais da organização, dentre as quais as importantes posições de comando do Hamás na Faixa de Gaza.

Mahmoud al-Zahhar
É resultado muito significativo, porque vários líderes em Gaza, ao longo do ano passado, criticaram a liderança de Meshaal, especialmente Mahmoud Al-Zahhar, que jamais aceitou os mais recentes movimentos políticos de Meshaal – que aceitou o princípio da “resistência pacífica” e firmou o acordo de unidade nacional com Mahmoud Abbas, ainda presidente da Autoridade Palestina. Embora o primeiro-ministro de Gaza, Ismail Haniyeh, tenha sido eleito para a presidência do partido em Gaza, o resultado geral das eleições favoreceu mais os seguidores de Meshaal.

As Brigadas Ezzeddin Al-Qassam, braço militar do Hamás e tradicionais apoiadoras de Meshall, ganharam maior quantidade de postos políticos nas recentes eleições. Ahmed Al-Jaafari e Marwan Eissa, dois dos principais comandantes das Brigadas na Faixa de Gaza, foram eleitos; além de Rawhi Mushtaha e Yehia Al-Senwar, libertados na mais recente troca de prisioneiros entre Israel e Gaza. Ambos são mais ligados às Brigadas e braço armado do Hamás, que aos grupos considerados mais “políticos” do Partido.

O novo Conselho Geral Shura do Hamás na Faixa de Gaza inclui grande número de ex-prisioneiros recém-saídos das prisões israelenses, ligados aos grupos armados do Hamás, e que tiveram participação decisiva na negociação para a troca de prisioneiros. A presença deles, agora, no comando político do partido, também acrescenta legitimidade à posição de Meshall.

Ismail Haniyeh
A posição de Meshall saiu reforçada, também, pela evidência de que, agora, Meshall conta, no comando político do Hamás em Gaza, com líderes populares como Al-Senwar e Mushtaha, que têm laços históricos profundos com os movimentos de base do Hamás na região. Depois das eleições gerais do último mês, o Hamás é o partido mais firmemente instalado no comando político e na Shura e é um campo político coeso.

Embora Haniyeh e Al-Zahhar tenham manifestado divergências em relação às políticas de “coexistência” de Meshaal, os dois também têm disputas diretas entre eles, o que significa que a oposição pública a Meshaal diminuirá. Embora não haja informações sobre as condições nas quais se realizaram as eleições internas do Hamás na Cisjordânia, dadas as condições de forte segurança sob as quais o Hamás opera ali (vários dos líderes e membros do Hamás são ativamente caçados pelos serviços secretos israelenses), parece certo que, também na Cisjordânia, a posição de Meshall saiu fortalecida das eleições. Todos os principais nomes do Hamás na Cisjordânia apoiaram Meshaal, quando anunciou que assinara a Declaração de Doha – de Unidade Nacional – com Abbas, apesar de o acordo ter sido fortemente criticado por líderes do Hamás na Faixa de Gaza. De fato, a influência da Cisjordânia nos corpos políticos e armados do Hamas é praticamente equivalente à influência de Gaza nos mesmos corpos. Não parece haver dúvidas de que os representantes de Gaza nos conselhos da Shura apoiarão Meshaal.

Apesar de nossas fontes avaliarem que não há candidato em condições de competir contra ele pelo comando político do Hamás, ninguém duvida de que as recentes eleições internas garantirão apoio mais firme a Meshall como cabeça política do partido.

Observadores também concordam com que os sucessos de Meshaal indicam que conseguirá fazer valer suas políticas e posições dentro do grupo, sem enfrentar grande oposição interna – também em duas questões chaves.

Primeiro, a reconciliação nacional (reconciliação com a Autoridade Palestina, PA). Meshaal, como os demais líderes do Hamás na região e na diáspora, conhecem bem as violentas pressões a que Abbas está submetido, sobretudo por Israel, EUA e alguns países árabes; essas pressões praticamente paralisam Abbas e impedem que tome qualquer medida consistente para por fim à luta interna na região ocupada. Ao mesmo tempo, Meshaal entende que os interesses do Hamás serão mais bem atendidos se o Partido cerrar fileiras, porque as disputas internas drenam recursos políticos, financeiros e de segurança.

Diferente do que pensam os líderes do Hamás em Gaza, Meshaal considera que o preço a pagar para que o Hamás continue a lutar pela hegemonia política em Gaza é alto demais – porque o confronto armado contra o Fatah de Abbas arranha o prestígio internacional do partido e suas chances de buscar a solidariedade e a colaboração internacionais. Ao mesmo tempo, o confronto armado entre Hamás e Fatah dá ampla margem de manobra aos israelenses para que continuem a atacar o grupo e seus militantes armados na Faixa de Gaza.

Embora a Primavera Árabe tenha muito claramente alterado o modo como alguns estados árabes relacionam-se com o Hamás, a maioria desses estados e governos ainda se recusa a negociar com o grupo ou com seu governo (eleito) em Gaza. Além do mais, Meshaal está muito gravemente preocupado com o alto custo financeiro de manter um governo em Gaza (Haniyeh é o primeiro-ministro).

Todo o aparelho internacional do Hamás tem de trabalhar quase ininterruptamente exclusivamente para levantar fundos para manter o governo do Hamás em Gaza - serviços e funcionários – tarefa que se torna cada dia mais difícil, sobretudo depois que o Irã suspendeu a ajuda que dava, depois que o Hamás recusou-se a apoiar o ataque militar do regime sírio contra a oposição interna. Meshaal sempre foi responsável pelo trabalho de levantar fundos para manter o grupo e sabe bem o quanto custa manter no poder o governo do Hamás em Gaza.

Meshaal terá de mostrar agora máxima flexibilidade em todas as questões relacionadas à reconciliação nacional (por mais que saiba que, hoje, essa reconciliação seja praticamente impossível). Meshaal quer provar aos estados árabes, sobretudo àqueles nos quais a Primavera Árabe foi bem sucedida, que o Hamás é partido capaz de ser politicamente flexível, sem comprometer seus princípios, em nome de superar divisões internas. Com isso, espera passar a contar com aqueles estados, para que pressionem Abbas a aceitar as propostas do Hamás.

Simultaneamente, Meshaal espera que, com os novos estados árabes mais abertos a compreender as posições do Hamás, poderá apressar o reconhecimento oficial do partido, e expandir suas relações políticas, de modo a integrar o Hamás na ainda nebulosa, mas já nova ordem política árabe, que se vai configurando, com os primeiros passos dos novos governos surgidos da Primavera Árabe. Esse desenvolvimento reduzirá a capacidade de Israel para encurralar os palestinos e atacá-los.

Em segundo lugar, desde o início Meshaal foi um dos comandantes do Hamás que sempre se opôs a que o partido participasse de eleições e constituísse governo em Gaza – porque, como sempre disse, seria muito difícil para o partido combinar governo e resistência. Meshaal entende que ainda é cedo para que o Hamás assuma responsabilidades de governo; e entende que a situação fica ainda mais difícil, se o Hamás monopolizar o poder (o que acontece hoje, em Gaza).

Segundo fontes ouvidas por Al-Ahram Weekly, Meshaal diz, em conversas privadas, que, com o Hamás no poder em Gaza, Israel ganha uma lista imensa de alvos a atacar quando bem entenda. Acredita também que a Guerra de Gaza, em 2008, é prova disso, uma vez que qualquer instituição ligada direta ou indiretamente ao governo de Gaza tornou-se, naqueles dias, alvo “legítimo” a ser atacado por Israel.

Fato é que Meshaal e muitos outros líderes do Hamás começam a sentir os efeitos negativos de o partido estar no poder, também nas relações com outros grupos palestinos, entre os quais, a Jihad Islâmica.

Grupos da resistência palestina têm acusado o Hamás de ter abandonado a resistência em nome de permanecer no poder, sobretudo depois que se tornou evidente que o Hamás não responde imediatamente a ataques israelenses contra líderes e símbolos de outros grupos palestinos (o que se viu em confrontos recentes), por temer a retaliação dos israelenses contra instituições do governo em Gaza. Meshaal entende que é indispensável chegar a uma fórmula pela qual o Hamás possa deixar de ser governo em Gaza, sem ter de abrir mão dos recursos militares.

Os líderes do Hamás que discordam dessa análise, especialmente Al-Zahhar e, em menor escala, também Haniyeh, tornaram-se minoria no comando político do partido. Assim, Meshaal ganha agora uma oportunidade para convencer outros líderes do partido sobre a necessidade de achar alguma brecha pela qual escapar da dualidade entre governar e resistir, com o mínimo possível de danos. O resultado das eleições recentes dentro do Hamás, deram-lhe poder e legitimidade para empreender esse trabalho político – embora Meshall saiba que o sucesso depende da posição que os demais envolvidos adotem, especialmente a Autoridade Palestina e estados árabes que têm grande influência nas questões palestinas, como o Egito.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Hamás: entre a política e os princípios


Ramzy Baroud, Al-Ahram Weekly, n. 1.087, 1-7/3/2012, Cairo
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Ramzy Baroud
Apesar dos desmentidos do Hamás, trava-se luta de definição dentro do movimento islâmico palestino. O resultado dessa luta – que ainda se mantém confinada a polidas discordâncias políticas e uma ou outra disputa intelectual –, muito provavelmente mudará as feições do Hamás, se não alterar fundamentalmente também a posição do movimento numa paisagem árabe que passa por rápidas transformações.

O atual Hamás já é diferente do inicial, constituído por uma liderança local em Gaza, em dezembro de 1987, em resposta ao primeiro levante popular palestino. Uma das primeiras declarações que circularam, assinada pela ala militar do movimento, então recém constituída (homens com o rosto coberto, armados com porretes de madeira e latas de tinta spray), manifestava a natureza daqueles tempos políticos:

“O que aconteceu a vocês, oh senhores do Egito? Dormem agora, na hora em que é assinado o tratado de Camp David, tratado da vergonha e da rendição? Terá morrido o zelo nacional? Acabou-se o orgulho, enquanto os sionistas diariamente perpetram crimes tão graves contra o povo e as crianças?”

Embora a diferença de poder entre Israel e os palestinos tenha permanecido em vasta medida inalterada, o Hamás converteu-se, de um braço palestino local da Fraternidade Muçulmana do Egito, em manifestação e tour de force dentro da sociedade palestina. Tornou-se também importante ator regional, visto por EUA e Israel como membro do campo radical no Oriente Médio (os outros membros seriam o Irã, a Síria e o Hezbollah). Enquanto Irã e Síria eram demonizados por apoiar e reforçar a resistência palestina e libanesa contra Israel, o Hamás e o Hezbollah resistiram com sucesso contra as aventuras militares de Israel em Gaza e no Líbano.

Mas as revoluções árabes forçaram uma significativa transformação nas relações de poder na região. Símbolos há muito tempo da influência do ocidente na Tunísia, no Egito e no Iêmen foram violenta e decisivamente apeados do poder, embora representantes deles ainda lutem para manter a antiga posição e o antigo poder. O campo moderado foi sacudido no âmago pela derrubada de Hosni Mubarak, o qual, por três décadas, diligentemente defendeu uma fortaleza pró-EUA, em troca de salário fixo. Os eventos dramáticos que sacudiram o mundo árabe exigiram ação rápida, uma espetacular disputa por influência – fosse para reprimir, onde a mudança fosse considerável inaceitável, ou para explorar os levantes genuínos, autóctones, nos casos em que a mudança oferecesse oportunidade para acumular pontos.

A Síria é o grande exemplo desse segundo caso. Para equilibrar o jogo de ganhos e perdas de poder, a derrubada de Mubarak só se completaria com a derrubada do presidente sírio Bashar Al-Assad. Só assim o jogo voltaria a um estado de normalidade – especialmente se se considera a diminuição da influência dos EUA na região, depois que se retirarem do Iraque. Infelizmente para a Síria, o conflito rapidamente se redesenhou, nos termos da política regional. A horrível violência na Síria está sendo contextualizada dentro de perigosos paradigmas que incluem intervenção pela OTAN e a insistência, por alguns países árabes, em transformar a guerra civil em jogo de soma zero.

O Hamás, que sobreviveu com sucesso às rivalidades internas, às guerras de Israel e ao isolamento internacional, viu-se ante seu mais crucial dilema desde as eleições parlamentares de janeiro de 2006. Por um lado, a chamada Primavera Árabe levara à ascensão flagrante (e prevista) das forças políticas do islamismo – das quais o Hamás é parte constitutiva. Por outro lado, ela renovou, de modo pouco claro, o equilíbrio político de toda a região.

Não é segredo que, sem o apoio financeiro do Irã, o Hamás teria dificuldades terríveis para operar na Faixa de Gaza depois do bloqueio israelense em 2007. E Damasco garantiu ao Hamás uma plataforma política, que deu ao movimento islâmico um nível indispensável de liberdade para divulgar suas ideias e aliviar boa parte da pressão que se acumulava sobre seus líderes sitiados em Gaza e na Cisjordânia. Abandonar os próprios aliados, por causa do discurso político cada vez mais polarizado (e sectário) na região de modo algum é ou poderia ser decisão fácil. E aqui está o impasse em que se encontra o Hamás.

O realismo político é inegavelmente oportunista. A reputação do Hamás entre seus apoiadores foi preservada mediante um atento e cuidadoso equilíbrio entre o oportunismo político e princípios ideológicos de motivação religiosa. Mas nenhum equilíbrio passa incólume por tempos revolucionários, por maior que seja a habilidade dos timoneiros. Uma série de acordos feitos entre o Hamás e o Fatah – entre os quais o histórico acordo de Doha, de 6 de fevereiro – foram atribuídos à reformatação das alianças regionais: Mahmoud Abbas e o Fatah sofreram grave golpe com a derrubada de Mubarak, e o futuro do Hamás na Síria pareceu cada dia mais sombrio, dada a escalada da violência.

Apesar de os palestinos clamarem pela reconciliação entre os partidos rivais, fato é que os repetidos episódios da unificação mais incriminavam os dois partidos, quanto menos urgentes se iam tornando o acordo regional e a resistência contra Israel, se confrontados às exigências da política regional. A deriva do Hamás rumo a um novo campo prosseguiu com espantosa velocidade. Os líderes do Hamás em Damasco, e também em Gaza, partiram em tours regionais, na esperança de forjarem novas alianças para o ex-marginalizado movimento de resistência. E, noutra reviravolta, os líderes exilados do Hamás emergiram repentinamente como agentes da política dos moderados. Brian Murphy e Karin Laub explicam assim a nova terminologia:

“O principal líder do movimento no exílio, Khaled Meshaal, quer que o Hamás seja parte do mais amplo crescimento político do Islã (...). Para isso, o Hamás precisa de novos amigos, como os ricos estados do Golfo que estão em guerra contra o Irã”. [1]

Escrevendo no Daily Star libanês, Michael Broning, diretor do think-tank alemão, com sede em Israel, Fundação Friedrich-Ebert-Stiftung, concorda:

“Meshaal passa a representar uma força de mudança”, diz ele, enquanto o primeiro-ministro de Gaza, Ismail Haniyeh “representa a ala conservadora da liderança do Hamás em Gaza”. E uma abertura de ampla conversão apresenta-se como “desacordos internos no Hamás”, o qual “tem jogado a liderança da diáspora contra o governo do Hamás em Gaza”.

Não por acaso, o artigo de Broning leva o título de “Engajar os moderados do Hamás e testar sua nova flexibilidade”. [2]

Alguns analistas, entre os quais Broning, têm especulado amplamente sobre o futuro do movimento. A imprensa anda cheia de matérias sobre “as manobras” do Hamás ­­– seja porque compelido pela necessidade política, ou impulsionado pelo triunfo ideológico das forças islamistas na região.

É possível que o Hamás se esteja reinventando, ou talvez esteja simplesmente tentando sobreviver à tempestade. De um modo ou de outro, o contexto político das manobras do Hamás vai rapidamente abandonando seu espaço tradicional (a ocupação israelense) e entrando numa nova dimensão, que considera a região como um todo. Embora o Hamás possa argumentar, com razão, que a sobrevivência exige mudanças políticas calculadas, é mais difícil explicar que, tão rapidamente, a politicagem regional atropele as prioridades nacionais.

De fato, a linha que separa política e princípios pode, às vezes, ser muito tênue.




Notas dos tradutores
[1]  9/2/2012, Karin Laub e Brian Murphy, “Hamas drifting away from longtime patron Iran”, Associated Press
[2]  24/2/2012, "Engage Hamas' moderates and test their newfound flexibility", The Daily Star, Beirute.