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quinta-feira, 28 de junho de 2012

Pepe Escobar – “E aí, meu irmão, cadê você?*”


26/6/2012, Pepe Escobar, Asia Times Online  - THE ROVING EYE
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Pepe Escobar
O mundo árabe e, de fato, o mundo inteiro, esperava ansiosamente para saber o que diria o novo presidente do Egito, recém eleito, quadro da Fraternidade Muçulmana (FM), Mohammed Mursi, em matéria de política externa, no discurso da vitória.

Clima de anticlímax. Do Egito, falou só de passagem (que respeitará “seus acordos internacionais” – expressão em código, referindo-se aos acordos de Camp David, de 1979, com Israel. Telavive e Washington que não se preocupem. Quanto à rua árabe, pode continuar preocupada.

Lacônico, Mursi parece ter evitado o grande problema. Mas nesse ambiente volátil, ccntrolado de facto pelo orwelliano Conselho Supremo das Forças Armadas, aparelho da ditadura militar egípcia, é como se a FM tivesse dito que não pensará duas vezes, se tiver de jogar os palestinos debaixo de um ônibus lerdo, se esse for o preço para manter-se no poder.

Pois nem isso bastou para acalmar a direitosfera nos EUA – com os cães raivosos de sempre pontificando sobre como o presidente Barack Obama “perdeu” o Egito, como se os EUA estivessem às vésperas de serem soterrados sob uma tempestade de areia movida a al-Qaeda.

As'ad AbuKhalil
Mais uma vez, coube ao blogueiro Angry Arab, As'ad AbuKhalil, introduzir algum muito necessário bom-senso na discussão. As'ad escreveu que:

“... as eleições, no mundo árabe, ficaram resumidas a uma disputa entre o dinheiro saudita e o dinheiro do Qatar”.

E, no Egito, a Casa de Thani, do Qatar venceu.

É sempre importante lembrar que a Casa de Saud e a FM vivem empenhadas em furiosa discussão sobre o significado do Islã puro. A política exterior do Qatar é apoiar a FM, sempre que possível. Do ponto de vista de Doha, a vitória é imensa: há hoje um islamista, na presidência da nação-chave no mundo árabe. Todos os islâmicos comprometidos, do Maghreb a Benghazi, e de Teerã a Kandahar, também têm motivos de júbilo.

Paralelamente, o candidato oficial à presidência dos EUA, a União Europeia, Israel, a Casa de Saud e o Ancient Regime egípcio – o ex-general da Força Aérea do Egito, Ahmed Shafik – perderam. Assim também, em teoria, a contrarrevolução no Egito, perdeu. Não. De fato, não. Ainda não.

Só os ingênuos terminais acreditarão que o orwelliano Conselho Supremo das Forças Armadas governa de facto o Egito sem consultar Washington e a Casa de Saud, a cada passo. Antes de Mursi ser oficialmente declarado vencedor, houve um acerto por trás das cortinas – noticiado em Ahram Online [1].

O acerto CSFA-FM resume-se a Morsi ter sido obrigado a aceitar trabalhar “segundo os parâmetros definidos pelo CSFA”. Implica que o aparelho da ditadura militar mandará em Mursi e mandará no parlamento. Só depois de sacramentado esse acerto, Mursi foi “legitimamente anunciado como presidente eleito”.

Droga! Apostamos no cavalo errado

Mohamed Mursi
A Casa Branca cumprimentou devidamente Mursi – e cumprimentou também o Conselho Supremo das Forças Armadas, aparentemente sem escolher lado. Mas Washington apressou-se a lembrar que o governo egípcio “deve continuar a cumprir o papel de pilar da paz, segurança e estabilidade regionais” (expressão em código equivalente a “nem pensem em rediscutir Camp David”. A Casa Branca também prometeu “manter-se ao lado do povo egípcio”. Com amigos desse tipo, o “povo egípcio” – metade do qual está passando fome – tem, garantido, um luminoso futuro.

Salomônico, Obama telefonou a Mursi e Shafiq, à FM e ao CSFA. Só ingênuos terminais acreditariam que o governo dos EUA tivesse algum temor de que Shafiq – seu candidato preferido – fosse declarado presidente. Por falar em Shafik, ele já não está no Egito: teve de fugir, coberto de infâmia, já na 3ª-feira, quando o Procurador Geral do Egito iniciou processo para investigar seus imundos negócios, durante os oito anos em que serviu como ministro civil da Aviação do governo Mubarak.

Assim sendo, pode-se dizer que, doravante, o Egito seguirá dois projetos de política exterior: o da Fraternidade Muçulmana e o do Conselho Supremo das Forças Armadas. O jogo de forças dependerá de se a Fraternidade Muçulmana conseguirá restaurar o Parlamento (a Câmara Baixa) que foi dissolvido; se obtiver tantos votos num segundo turno de eleições parlamentares quantos obteve no primeiro turno (que foi anulado). Tampouco se sabe que tipo de poder terá o presidente egípcio: a nova constituição ainda não foi redigida.

Ahmed Shafik
Do ponto de vista de Washington, aconteça o que acontecer, nada alterará o rumo do dhow [veleiro] real: apoio cego a Israel, faça o que fizer; mal disfarçado apoio cego à Casa de Saud e ao Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), faça o que fizerem (incluindo repressão violentíssima contra levantes da Primavera Árabe na Arábia Saudita, Bahrain e Omã); e se alguém nos desafiar, bombardeamos ou dronamos o desgraçado, até a morte.

Do ponto de vista de Washington, a Fraternidade Muçulmana, com Mursi, pode ser declarada facilmente “contível”. Mursi não se atreverá a confrontar Israel. Morsi, muito provavelmente, dará uma de Erdogan – o primeiro-ministro da Turquia. Protestos fortes contra o brutal gulag em Gaza imposto por Telavive; apoio firme ao Hamás... mas nada que tire do lugar as relações diplomáticas e o comércio. Eventualmente, pode acontecer de a liderança israelense aceitar, finalmente, que os palestinos também são seres humanos. Mas não se recomenda a ninguém apostar nisso.

Fraternidade Muçulmana
Resta saber, nesse cenário de “dois projetos de política exterior”, que lado prevalecerá no longo prazo, a Fraternidade Muçulmana ou o Conselho Supremo das Forças Armadas. O teste crucial é o Irã. Mursi, se obtiver alguma liderança efetiva, não seguirá cegamente Washington em sua obsessão de “incapacitar” o Irã – como o Iraque foi incapacitado nos anos 1990s (o longo prelúdio antes do golpe “mudança de regime”). Vê-se uma pista do que pode estar por vir: Mursi disse à Agência de Notícias Fars, iraniana, que que que as relações Cairo-Teerã voltem ao normal. Imediatamente depois veio o desmentido do Egito, que só pode ter sido orquestrado pelo Conselho Supremo das Forças Armadas.

Olivier Roy, professor do European University Institute em Florença adverte, com razão, sobre o Egito:

Foi revolução sem revolucionários. Mesmo assim, a Fraternidade Muçulmana é a única força política organizada. (...) Sua agenda conservadora é adequada a uma sociedade conservadora, que pode acolher avanços democráticos, mas nem por isso se converteu à esquerda.” Para Roy, “a democracia não se institucionalizará no Egito, sem a Fraternidade Muçulmana. [2]

O caminho é longo e pedregoso. Mursi terá de prestar contas não só ao Conselho Supremo das Forças Armadas, mas também aos líderes extremamente conservadores da Fraternidade Muçulmana; afinal de contas, o próprio Mursi, até ontem, não passava de quadro desconhecido do grande público. Mursi sabe que confrontar o Conselho Supremo das Forças Armadas é confrontar Washington. Se tentar qualquer medida mais ousada, logo acharão um jeito de matá-lo softly, suavemente, método muito prezado pela secretária Clinton.

Mas... E se Mursi conseguir mobilizar milhões, nas ruas? Estão abertas as apostas sobre onde está, de fato, esse Irmão.

Nota de rodapé
*Orig. O Brother, Where Art Thou? [lit. “Irmão, onde estais?”] é título de filme dirigido pelos irmãos Coen, 2002, adaptação da Odisseia, no “sul profundo” dos EUA; três fugitivos de uma prisão procuram um tesouro escondido, perseguidos, incansavelmente, pelos guardas e por vários outros tipos de “eventos”. Informações extraídas de “E aí meu irmão, Cadê você?



Notas dos tradutores
[1] 22/6/2012, Al-Ahram Online, Dina Ezzat em: A deal could be reached to end current confrontation: SCAF, Brotherhood sources.
[2] 20/1/2012, Washington Post, Olivier Roy em: A new generation of political Islamists steps forward

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Egito: A Fraternidade Muçulmana não prega “estado islâmico”

Ou: O xis da questão é sempre Israel (mas os aiatolás do Irã, que não se metam!) NTs

Fraternidade Muçulmana
9/2/2011, Hamdi Abd al-Aal, Middle East Monitor (Memo) (e outras declarações oficiais da FM) In their own words – the position of the Muslim Brotherhood
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

A Fraternidade Muçulmana – em conferência com a imprensa, no Cairo, dia 9/2/2011 – repetiu que não visa ao poder nem tem qualquer intenção de concorrer a eleições presidenciais no futuro próximo. O movimento deseja liberdade e justiça para o povo egípcio e está preparado para apoiar a nação e participar construtivamente para ultrapassar a atual crise. 

Porta-voz da Fraternidade Muçulmana destacou que as discussões formais com o [então] governo do Egito ainda não começaram. [Falando na 4ª-feira passada] o Dr. Mohammad Mursi disse que a primeira sessão com o vice-presidente Omar Suleiman não foi discussão, apenas um primeiro contato para definir as bases de algum diálogo posterior. 

Disse também que o contato entre o vice-presidente e a Fraternidade Muçulmana não é parte do diálogo nacional formal previsto, porque o próprio Omar Suleiman admitiu que não tem poder para decidir e estava apenas tentando administrar a crise. O Dr. Mursi explicou que a Fraternidade manifestou sua opinião sobre modos pelos quais superar a crise, tentando evitar que a situação fique absolutamente incontrolável. 

Na mesma conferência com a imprensa, o Dr. Mursi, que é membro do Conselho de Orientação da Fraternidade Muçulmana, confirmou que a organização não visa ao poder político. Que a distância do poder político é princípio fundacional da Fraternidade, já declarado incontáveis vezes, e que não mudou nem mudaria conforme o quadro político no Egito. A Fraternidade Muçulmana, disse ele, está disposta a trabalhar com todos os partidos, a favor do povo egípcio. 

O Dr. Mursi reafirmou que a principal reivindicação da Fraternidade Muçulmana é a renúncia do presidente Mubarak e o fim do regime ditatorial. Disse que as manifestações populares são direito constitucional dos egípcios e que as demandas da população nas ruas são as mesmas demandas da Fraternidade Muçulmana. Observou também que a Fraternidade Muçulmana não liderou manifestações e apenas participou delas como outros grupos que existem na sociedade egípcia. As próprias manifestações já comprovam que o governo Mubarak já não é governo legítimo. Resultado disso, o governo fica obrigado a atender ao clamor popular, que exige “uma nova legitimidade democrática”. 

O porta-voz da Fraternidade Muçulmana criticou as Forças Armadas no interior do país. Disse que a Fraternidade é como o resto do povo egípcio e, como todos os egípcios, os Irmãos admiram e respeitam o exército sempre que atua para proteger o Egito – como protegeu nas manifestações da praça Tahrir. Mas em outros pontos do Cairo e no interior do país, a situação é completamente diferente; centenas de pessoas que tentavam alcançar a praça Tahrir para unir-se às manifestações, eram detidas e mantidas presas em campos de prisioneiros comandados pelo exército. Havia também elementos não identificados que atacaram os manifestantes – como aconteceu nos prédios das forças policiais. 

Há grupos interessados em semear a discórdia entre o povo e o exército egípcio. Por isso, a Fraternidade Muçulmana convoca as forças armadas a tomar o lado do povo e deter os que preparam esses ardis e cometem essas brutalidades. 

E Israel?

Perguntado sobre a posição da Fraternidade Muçulmana quanto ao destino do tratado de paz com Israel, no caso de novo governo instalado no Egito, o Dr. Mohammad Mursi respondeu que o Egito é estado maduro com instituições e Parlamento. Quando o novo Parlamento for eleito em eleições livres e limpas, o governo definirá que tratados, dos já assinados, são compatíveis com o desejo político da maioria. 

O porta-voz da Fraternidade Muçulmana criticou o ocidente, que ainda manifesta maior preocupação com o que possa acontecer à entidade sionista, mas nada faz para obrigar Israel a dar tratamento democrático e humanitário ao povo palestino que vive sob ocupação militar. 

Convocou a mídia ocidental a dar ao massacre dos palestinos a mesma atenção que dá às preocupações e ambições do exército ocupante da entidade sionista em terras árabes. 

O governo de transição 

O porta-voz da Fraternidade Muçulmana afirmou também que haverá discussões sobre o governo de transição e sobre se o movimento participará do governo ou não. Repetiu que a Fraternidade Muçulmana não tem qualquer demanda para participar do governo – que essa não é demanda que a Fraternidade algum dia tenha apresentado – e que a Fraternidade reivindica o que a Praça Tahrir reivindica: reforma completa, em todas as dimensões, da vida política no Egito. Enfatizou o apoio da Fraternidade à Associação Nacional pela Mudança, da qual o movimento islâmico é um dos fundadores. 

Em resposta a uma pergunta sobre a seriedade das discussões [previstas, antes da renúncia de Mubarak e de o Conselho Superior das Forças Armadas assumir o governo], o Dr. Essam al-Iryan, do Conselho de Orientação da Fraternidade Muçulmana e principal porta-voz da Fraternidade Muçulmana, disse que foram à reunião com os que [então] tentavam administrar a crise, para expor com clareza as demandas do povo na praça. Disse que a revolução popular já derrubara o regime e, naquele momento, tentava construir mecanismos para fazer a transição pacífica do poder no Egito.

O Dr. Al-Iryan criticou a ideia de que o Egito não estaria preparado para a democracia, enfatizando que o que se viu na praça Tahrir é a melhor resposta àquela declaração. A Fraternidade Muçulmana, disse ele, é como qualquer egípcio que estava na praça, exigindo liberdade e justiça. 

Golpe de Estado 

A frase do vice-presidente Omar Suleiman, para quem o Egito estaria diante de uma escolha entre o diálogo ou um golpe de Estado, foi criticada pelo Dr. Mohammad Sa’d al-Katatani, também membro do Conselho de Orientação da Fraternidade Muçulmana: “Todos os egípcios só terão a ganhar com governo livre e democrático”, disse ele. “E naquela discussão, a Fraternidade Muçulmana destacou que o povo na praça queria evitar um banho de sangue e assegurar a participação de todos, inclusive da juventude.” Outras demandas, acrescentou, são o fim do regime egípcio, a dissolução do Parlamento e do Conselho Consultivo, a alteração dos artigos mais controvertidos da Constituição e a imediata libertação de todos os prisioneiros políticos. 

O Dr. al-Katatani disse que a Fraternidade Muçulmana se reserva o direito de abandonar as discussões, se perceber que não são discussões sérias. O movimento quer identificar os parâmetros do novo governo e, simultaneamente, rejeitar qualquer modalidade de intimidação contra os manifestantes. 

Nas palavras do Dr. Essam al-Iryan, a Fraternidade não desistirá da sua principal exigência – a renúncia do presidente. Disse que o presidente deve renunciar, porque é seu dever sacrificar o cargo em nome do respeito à opinião manifesta de 80 milhões de egípcios. 

E mais Israel!

Quanto aos medos que o ocidente manifesta sobre o Islã, o Dr. al-Iryan disse que o ocidente cria dúvidas e suspeitas sem qualquer razão de ser, porque os principais líderes políticos ocidentais querem proteger a entidade sionista. De fato, o Islã sempre garante a todos a liberdade de culto e credo e não admite que se imponham crenças a outras pessoas. 

Alguns dos mais importantes princípios do Islã são a necessidade de as civilizações e os povos cooperarem para maior felicidade de todos; a liberdade com igualdade de todos; e a justiça social. A Fraternidade Muçulmana é contrária a qualquer tipo de Estado religioso, porque o Islã é contra esse tipo de organização social. Mas o movimento prega a criação de um Estado civil que tenha o Islã como referência moral. 

E os aiatolás que não se metam!

Quanto às declarações que se ouviram no Irã e no ocidente, sobre o apoio da Fraternidade Muçulmana à revolução egípcia, o Dr. Mursi disse que a organização não é responsável pelo que digam representantes de outros Estados, sejam quais forem. A Fraternidade Muçulmana não admitirá que nenhum Estado estrangeiro interfira nas questões internas do Egito. O Egito vive uma revolução popular e ninguém se pode declarar inspirador da ou responsável pela revolução egípcia, além do próprio povo do Egito. 

Completando, o Dr. Mohammed Biltaji disse que basta olhar para a Praça Tahir, para ver que a revolução está sendo conduzida por muçulmanos, cristãos, jovens, todos os grupos da sociedade, não só pela Fraternidade. “É a revolução do Egito”, disse com firmeza. “O povo na Praça Tahrir são egípcios e são eles os legítimos demandantes de suas legítimas demandas.” 

Perguntado sobre os passos que a Fraternidade planeja encaminhar para apressar a renúncia do presidente e do regime, o Dr. Mursi respondeu que não há meios específicos para obrigar o regime a participar de diálogo sério. “Não é questão simples”, disse ele, “porque esse regime corrupto está entrincheirado em seus bastiões políticos, mas o povo que já arrancou do regime qualquer legitimidade é capaz de levar todo o regime à renúncia, com firmeza, paciência e resistência, sem se afastar de seus princípios democráticos.” 

E sempre Israel!

Para o Dr. Mursi, as acusações de que o Hamás “iniciou a revolução egípcia” são grave insulto ao Egito e seu povo”. Essa mentira foi posta em circulação pela mídia estatal e pelo aparelho de segurança. “Como poderiam os palestinos, em luta e sitiados, como vivem em Gaza, manipular 80 milhões de egípcios?”