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quinta-feira, 5 de junho de 2014

David Harvey sobre o Capital de Piketty

Maio, 2014, [*] David HarveyReading Marx's Capital with David Harvey
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Thomas Piketty e o “Capital”
Thomas Piketty escreveu um livro intitulado Capital que causou furor. Advoga a taxação progressiva e um imposto sobre a riqueza global como único modo para conter a tendência na direção de criar-se uma forma “patrimonial” de capitalismo, marcado por – como diz ele – desigualdades “aterrorizantes” de riqueza e renda. Também documenta, em detalhes dolorosíssimos e difíceis de retrucar, o modo como a desigualdade social de riqueza e de renda evoluiu ao longo dos dois últimos séculos, com especial atenção ao papel da riqueza.

Tomas Piketty também demole a visão amplamente disseminada segundo a qual o capitalismo de livre mercado distribuiria riqueza e que seria o grande instrumento para defender as liberdades e direitos individuais. O capitalismo de livre-mercado, na ausência de qualquer intervenção de redistribuição pelo Estado, como Piketty mostra, só produz oligarquias antidemocráticas. Essa demonstração gerou crises de apoplexia entre os liberais, como se viu no apoplético Wall Street Journal.

O livro tem sido apresentado como substituto do século XXI, para obra de mesmo título de Karl Marx, no século XIX. Piketty, de fato, nega que tenha tido tal intenção, o que me parece bem razoável, posto que o seu livro absolutamente não trata de capital. Absolutamente não nos diz por que aconteceu o crash de 2008 nem por que está demorando tanto para tanta gente livrar-se da dupla carga do desemprego prolongado e das milhões de casas perdidas para bancos credores. Tampouco ajuda a compreender por que o crescimento anda tão miserável nos EUA, ao contrário do que se vê na China, nem por que a Europa está aprisionada numa política de austeridade tanto quanto numa economia de estagnação.

O Capital de Karl Marx
O que Piketty, isso sim, mostra estatisticamente (e muito temos a agradecer a ele e sua equipe pelas estatísticas) é que o capital sempre tendeu, ao longo de toda sua história, a produzir níveis cada vez maiores de desigualdade. Não que seja novidade para muitos de nós. Além do mais, é essa, precisamente, a conclusão teórica a que chega Marx no Volume Um de sua versão de O Capital. Piketty sequer percebe a coincidência, o que não chega a surpreender, porque ele já disse inúmeras vezes, em resposta a acusações da imprensa-empresa de direita, de que ele seria um marxista disfarçado, que jamais leu O Capital, de Marx.

Piketty reúne muitos dados em apoio a seus argumentos. O que diz das diferenças entre renda e riqueza é útil e persuasório. E defende atentamente os impostos sobre a herança, a taxação progressiva e um imposto sobre a riqueza global na medida do possível (embora, quase com certeza, não seja politicamente viável), como antídotos contra concentração ainda maior de riqueza e poder.

Mas por que ocorre essa tendência na direção de desigualdade sempre crescente ao longo do tempo? Considerados seus dados (temperados com algumas alusões literárias a Jane Austen e Balzac), ele deriva uma lei matemática para explicar o que acontece: a acumulação sempre crescente de riqueza pelos tais famosos 1% (termo popularizado graças ao curso do movimento “Occupy”) deve-se ao simples fato de que a taxa de retorno sobre o capital (r) é sempre maior que a taxa de crescimento da renda (g). Isso, diz Piketty, é e sempre foi “a contradição central” do capital.

Mas uma regularidade estatística dessa ordem dificilmente seria explicação adequada, muito menos viraria lei. Assim sendo, que forças produzem e sustentam tal contradição? Piketty não diz. A lei é a lei e... não se fala mais nisso. Marx obviamente teria atribuído a existência de tal lei ao desequilíbrio de poder entre capital e trabalho. E é explicação que ainda se mantém em pé. O firme declínio da fatia do trabalho na renda nacional desde os anos 1970s derivou do declínio do poder político e econômico do trabalho, com o capital mobilizando políticas de tecnologias, de desemprego, de deslocalização e políticas anti-trabalho (como as de Margaret Thatcher e Ronald Reagan) para esmagar toda a oposição.

Alan Budd
Como Alan Budd, conselheiro econômico de Margaret Thatcher confessou em momento de descuido, as políticas anti-inflação dos anos 1980s mostraram-se

(...) excelente modo de aumentar o desemprego; e aumentar o desemprego revelou-se modo altamente desejável para reduzir a força das classes trabalhadoras (...) O que foi ali construído em termos marxistas foi uma crise do capitalismo que recriou um exército de reserva de mão de obra, e permitiu que os capitalistas obtivessem altos lucros desde então.

A disparidade na remuneração entre trabalhadores médios e os altos executivos−gerentes permaneceu em torno de 30:1 em 1970. Hoje já está bem acima de 300:1, e no caso da empresa MacDonalds é superior a 1.200:1.

Mas no Volume 2 de O Capital de Marx (que já se sabe que Piketty também não leu, dado que descarta o que ali leria), Marx destacou que a tendência do capital para mandar abaixo os salários chegaria, num certo ponto, a restringir a capacidade de o mercado absorver o que o capital produzisse. Henry Ford identificou esse dilema há muito tempo, quando mandou pagar US$ 5 por dia de oito horas de trabalho aos seus operários, para, disse ele, estimular uma demanda de consumo. Muitos disseram que a falta de demanda efetiva levou à Grande Depressão dos anos 1930s. Foi o que inspirou as políticas expansionistas Keynesianas de depois da IIª Guerra Mundial e resultou em algumas reduções em desigualdades de rendas (embora nem tanto nas da riqueza) em pleno forte crescimento gerado por demanda. Mas essa solução repousava sobre o relativo empoderamento do trabalho e a construção do “estado social” (termo de Piketty) que os impostos progressivos criaram.

Tudo considerado – Piketty escreve – ao longo do período 1932-1980, quase meio século, a mais alta taxa de imposto federal nos EUA foi em média 81%.

E isso de modo algum reduziu o crescimento (mais um dado dos que Piketty reuniu, que desmente crenças da direita).

Milton Friedman
Ao final dos anos 1960s, já era claro para muitos capitalistas que tinham de fazer alguma coisa contra o excessivo poder do trabalho. Daí a destituição de Keynes, arrancado do panteão dos economistas respeitáveis; a mudança para o pensamento de Milton Friedman que pensa pelo lado da oferta; a cruzada para estabilizar, quando não para reduzir impostos, para desconstruir o estado social e para disciplinar as forças do trabalho. Depois de 1980, os impostos caíram e os ganhos de capital – fonte importante de renda para os ultra ricos – foram taxados em patamar muito inferior nos EUA, o que aumentou muito o fluxo da riqueza na direção do 1% de cima. Mas o impacto sobre o crescimento, como Piketty mostra, foi desprezível. O tal “efeito contaminação” dos benefícios dos ricos para o resto (outra das crenças preferidas da direita) não funciona. Nada disso foi ditado por qualquer lei matemática: tudo aí foi sempre questão política.

Mas então o timão fez volta completa e a pergunta passou a ser: que fim levou a demanda? Piketty ignora sistematicamente essa pergunta.

Os anos 1990s fugiram de ter de responder, com vasta expansão do crédito, incluindo a extensão do financiamento de hipotecas na direção dos mercados de papeis podres. Mas a bolha resultante estava condenada a explodir, como explodiu, em 2007-8, levando abaixo os Lehman Brothers e todo o sistema de crédito. Mas os lucros e a maior concentração de riqueza privada recuperaram-se muito rapidamente depois de 2009, enquanto tudo e todos continuaram a ir mal e cada vez mais mal. As taxas de lucro dos negócios são hoje tão altas como sempre foram nos EUA. Os negócios estão sentados sobre montes de dinheiro e recusam-se a gastá-lo porque o mercado não mostra condições robustas.

Warren Buffet
A formulação, por Piketty, da lei matemática disfarça, mais do que revela, a política de classes envolvida. Como Warren Buffett observou,

(...) claro que há guerra de classe, e é a minha classe, os ricos, que fazem a guerra; e estamos ganhando.

Uma medida chave da vitória deles é a crescente disparidade de riqueza e renda do 1% do topo, em relação a todos as demais pessoas.

Mas há, contudo, uma dificuldade central com o argumento de Piketty. Ele repousa – no sentido de “ele depende” – numa definição errada de capital. Capital é um processo, não uma coisa. É um processo de circulação no qual o dinheiro é usado para fazer mais dinheiro quase sempre, mas não exclusivamente, mediante a exploração da força de trabalho.

Piketty define capital como o estoque de todos os bens de propriedade de indivíduos privados, corporações e governos e que podem ser comercializados no mercado não importa se aqueles ativos estão sendo usados ou não. Aí se inclui terra, imóveis e direitos de propriedade intelectual tanto quanto minha coleção de joias e peças de arte. Como determinar o valor de todas essas coisas é um difícil problema técnico para o qual não há solução unanimemente aceita.

Para calcular uma taxa significativa de retorno, “r”, temos de ter algum modo de atribuir valor ao capital inicial. Infelizmente, não há modo de atribuir-lhe valor independentemente do valor dos bens e serviços que ele é usado para produzir ou por quanto pode ser vendido no mercado. Todo o pensamento econômico neoclássico (que é a base do pensamento de Piketty) é fundado sobre uma tautologia.

Alan Grenspan
A taxa de retorno sobre o capital depende crucialmente da taxa de crescimento, porque para atribuir valor ao capital considera-se o que ele produz, não o que foi usado para produzi-lo. Seu valor é pesadamente influenciado por condições especulativas e pode ser seriamente distorcido pela famosa “exuberância irracional” que Greenspan diagnosticou como típica dos mercados de ações e de moradias. Se se subtrai moradia e propriedades imóveis – para nem falar do valor de coleções de arte dos donos de hedge funds – da definição de capital (e o argumento para incluí-las é bem fraco), nesse caso a explicação de Piketty para as crescentes disparidades em riqueza e renda cairiam de cara no chão, embora as descrições que oferece do estado das desigualdades presentes e passadas ainda se mantivessem em pé.

Dinheiro, terra, imóveis e fábricas e equipamento que não estejam sendo usados produtivamente não são capital. Se a taxa de retorno sobre o capital que está sendo usado é alta, então assim é porque uma parte do capital é tirada de circulação e, pode-se dizer, entra em greve. Restringir a oferta de capital a novos investimentos (fenômeno que testemunhamos agora) garante alta taxa de retorno sobre aquele capital que está em circulação.

A criação de tal carência artificial não é só o que as empresas de petróleo fazem para garantir suas altas taxas de retorno: é o que todo e qualquer capital faz se tiver chance. Isso é o que está na base da tendência de a taxa de retorno sobre o capital (não importa como seja definido e medido) sempre exceder a taxa de crescimento da renda. É assim que o capital garante a própria reprodução, não importa o quão desconfortáveis sejam as consequências, para o resto de nós. E é disso que a classe capitalista vive.

Há muito de trabalho valiosíssimo nas tabelas de dados que Piketty reuniu. Mas sua explicação de por que as desigualdades e as tendências oligárquicas surgem, essa, é gravemente viciada. Suas propostas, seus remédios para as desigualdades, são ingênuos, se não utópicos. E com certeza absoluta Piketty não produziu modelo operativo para o capital no século XXI. Para essa finalidade, ainda precisamos de Marx e permanecemos à espera de equivalente contemporâneo
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[*] David Harvey (Gillingham, Kent, 7 de dezembro de 1935) é um geógrafo britânico, formado na Universidade de Cambridge. É professor da City University of New York e trabalha com diversas questões ligadas à geografia urbana. Seu primeiro livro, Explanation in Geography, publicado em 1969, versa sobre a epistemologia da geografia, ainda no paradigma da chamada geografia quantitativa. Posteriormente, Harvey muda o foco de sua atenção para a problemática urbana, a partir de uma perspectiva materialista-dialética. Publica então Social Justice and the City no início da década de 1970, onde confronta o paradigma liberal e o paradigma marxista na análise dos problemas urbanos.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Django, ao diabo com toda a História


Miguel MellinoUniNômade 2.0  em 13/2/2013
Tradução ao português, de Bruno CavaQuadrado dos Loucos
Enviado pelo pessoal da Vila Vudu


1. Ni olvido ni perdón. Nem esquecimento nem perdão. Era um slogan político na Argentina dos anos 1970, dirigido contra os militares responsáveis pelo golpe de 1955, que depôs o governo democrático de Perón. O slogan pode ser útil pra compreender o sentido difundido por Django livre a respeito da escravidão e seu papel na história dos Estados Unidos: é impossível esquecer, é impossível perdoar. Este talvez seja o sentido trazido pela cena final do filme: Django, um escravo liberto das correntes, consuma seu ódio-vendeta atacando não só os patrões brancos, mas todo o sistema escravocrata das fazendas. Candyland deve ir pelos ares como um todo: ali não há nada para ser salvo, não bastaria apenas fugir ou salvar a mulher amada. Daí um filme ferozmente anti “politicamente correto”, — o que não poderia surpreender verdadeiramente quem conhece o estilo pop e corrosivo de Tarantino.


No filme, Django e Brunhilda — armados de um ódio na verve do escritor Frantz Fanon, ou seja, jamais movido por “grandes ideais” ou “retóricas progressistas”, como outros escravos célebres da história do cinema — estão inflamados de uma raiva em estado bruto, a raiva que sentem os “danados da terra”, dessa vontade em nada conciliadora ou misericordiosa. Por isso, eles se configuram como o lado avesso do casal Obama-Michele. E por isso, não admiram as críticas ao filme nos Estados Unidos; nada mais distante do clima “politicamente correto” pós-racial dos tempos de Obama, do que o ânimo rancoroso, vindicativo e punitivo de Django. A cena final também é emblemática desta estrutura particular do sentir: quando Django exerce seu ato reparatório pessoal vestido com as roupas do patrão.

Consiste nisso uma fração importante da política representacional promovida no filme: nomear a raça — inclusive com o controverso significante nigger — de maneira que... Continue lendo esta crítica

terça-feira, 19 de junho de 2012

Golpes, golpistas e “mudança de regime”: Por que não nos agradecem?


21/6/2012, Pankaj Mishra, London Review of Books, vol. 34, n. 12, pp. 19-20
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Sobre: BELLAIGUE, Christopher de. Patriot of Persia: Muhammad Mossadegh and a Very British Coup [Patriota da Pérsia: Muhammad Mossadegh e um Golpe BB (Bem Britânico], Londres: Bodley Head, 310 pp, £20.00, ISBN 978 1 84792 108 6

Não somos liberais do tipo que a CIA consegue assassinar, como Allende e Mossadegh
(Aiatolá Ali Khamenei, aos EUA, durante a revolução iraniana, em 1979)

Pankaj Mishra
Em 1890, um ativista muçulmano itinerante de nome Jamal al-din al-Afghani estava no Irã, quando o então governante iraniano, Naser al-Din Shah Qajar, entregou uma concessão de tabaco a um comerciante britânico chamado G.F. Talbot; de fato, garantiu-lhe total monopólio para comprar, vender e exportar tabaco. Al-Afghani pôs-se a protestar, tentando chamar a atenção de todos, e criticou veementemente a medida, aprovado por um coro de intelectuais seculares e de comerciantes conservadores. Para Al-Afghani, depois daquela concessão, os plantadores locais de fumo estariam para sempre entregues aos infiéis, sem qualquer defesa; disse que ali começava o fim de todos os pequenos comerciantes de tabaco. Imediatamente organizou grupos de pressão – o que foi inovação política até então jamais vista em Teerã –, que enviavam cartas anônimas às autoridades e funcionários e distribuíam panfletos e cartazes pelas ruas, conclamando os iranianos à revolta. Na primavera seguinte, houve grandes protestos de rua nas principais cidades.

Com a ajuda do telégrafo, também recentemente aparecido no Irã, as manifestações de massa que receberiam o nome de Tobacco Protest [Protestos do Tabaco] foram tão cuidadosamente planejadas e coordenadas como só voltariam a ser 100 anos depois, na Revolução Islâmica de Khomeini, quando gravadores e cassettes de fitas gravadas tiveram papel semelhante ao do telégrafo, e as mulheres participaram em massa.

Al-Afghani também escreveu ao Grande Aiatolá Mirza Hassan Shirazi em Najaf, oferecendo ao clérigo xiita enormemente popular e influente, mas alheio à vida política, uma primeiríssima lição xiita sobre o que seriam os “ajustes estruturais’que as empresas financeiras ocidentais, dali em diante, imporiam aos países pobres:

“Não sei o que faça para que entendais o que é o Banco!” – escreveu Afghani. “Banco é entregar as rédeas do governo ao inimigo do Islã, escravizar o povo àquele inimigo, render-se a ele; e entregar todo o poder e todo o domínio nas mãos do inimigo estrangeiro.”

Al-Afghani talvez exagerasse. Mas sabia bem, pelo que vira acontecer na Índia e no Egito, o quão rapidamente acontecia de comerciantes e banqueiros ocidentais aparentemente inócuos converterem-se em diplomatas e soldados. O Xá já depusera aos pés da Europa e dos imperialistas europeus ainda informais a relativa imunidade de que gozava o Irã. 

Em 1872, com os capitais do país já saqueados e com um massivo déficit no orçamento, o Xá entregara outro monopólio, dessa vez para construir estradas férreas, rodovias, fábricas, barragens e minas, a outro cidadão britânico, o Barão Reuter (fundador da agência de notícias de mesmo nome). O próprio Lord Curzon ficou boquiaberto quando, vinte anos depois, foi informado sobre os termos da concessão; descreveu-a como “a mais completa rendição de todos os recursos de um reino, entregues a mãos estrangeiras, com a qual alguém algum dia sonhou – e muito menos alguém algum dia obteve – em toda a história.” Houve protestos da Rússia, vizinha do Irã e principal concorrente da Grã-Bretanha na região, e a concessão foi cancelada; e Reuter, aliás, já tinha outros ferros aquecendo no fogo.

Ocorrida apenas oito anos depois de os britânicos ocuparem o Egito, a concessão do tabaco chamou a atenção de al-Afghani, como prática obscena. Expulso do Irã pelo Xá, al-Afghani manteve ativo fogo de barreira de cartas para todos os principais clérigos xiitas nas cidades santas da Mesopotâmia, implorando que saíssem do estado de apatia política e se mobilizassem para lutar contra o Xá. Poucos meses depois, Shirazi escreveu sua primeira carta ao Xá, sobre tema político, denunciando os bancos estrangeiros e o poder crescente que acumulavam sobre a população muçulmana; e as concessões comerciais que os europeus recebiam. O Xá, desesperado para manter o apoio que lhe dava a Ulema, enviou emissários para tentar seduzir Shirazi. O clérigo, além de não ceder, respondeu com uma fatwa – que declarava pecado de anti-islamismo o ato de fumar, até que fosse cancelado o monopólio dado aos britânico para o comércio do tabaco. O gesto foi surpreendente bem-sucedido – até o palácio do Xá foi convertido em território sem-cigarros. E o Xá afinal capitulou, aceitou as condições de uma aliança entre clérigos, intelectuais e capitais autóctones e, em janeiro de 1892, cancelou a concessão do tabaco.

Muhammad Mossadegh era, nesse momento, o filho mais velho, de nove anos, mas de inteligência precoce, de um alto funcionário da administração do Xá. Homa Katouzian, autor de uma primeira biografia em língua inglesa, atribui sua oposição consistente a “qualquer concessão a qualquer potência estrangeira” à permanência de uma memória infantil da fúria popular que varreu o Irã contra aqueles primeiros ataques europeus à soberania nacional iraniana. Mossadegh, filho de família nobre, e que, ainda criança, recebeu o título nobiliárquico de mussadiq al-saltaneh, “garantidor da monarquia”, viria a ser, por improvável que parecesse, o líder da transição no Irã, da monarquia dinástica, para a política de massas. Depois daqueles eventos da infância, Mossadegh viveria o resto da infância e toda a adolescência até chegar à idade adulta, num cenário de efervescência política que, antes daquele momento, ninguém jamais vira na Ásia.

Intelectuais e ativistas asiáticos começaram a desafiar o poder arbitrário dos imperialistas ocidentais e seus aliados nativos no final do século 19. Na primeira geração, havia agitadores e organizadores sociais polemistas, como al-Afghani, que agregaram à sua volta jovens anti-imperialistas cheios de energia, mas desorganizados, em Cabul, Istambul, Cairo e Teerã. A geração seguinte já produzia homens como Mossadegh, que foram expostos às práticas e hábitos ocidentais, ou formados e treinados em instituições de estilo ocidental, e eram talvez mais bem aparelhados para oferecer aos seus incansáveis compatriotas ideologia e políticas coerentes de nacionalismo anticolonial.

Christopher de Bellaigue
Na biografia escrita com astúcia política por Christopher de Bellaigue, Mossadegh não é o “velho tonto esperto” ou a “Xerazade birrenta” de tantas incontáveis matérias jornalísticas ou memórias, mas filho “daquela geração de asiáticos educados no ocidente que voltaram para casa, bigodes primorosamente aparados, para vender liberdade a seus compatriotas”:

“Servidores aplicados de uma mesma amante, La Patrie, esses turcos, árabes, persas e indianos liderariam os movimentos anticoloniais e transformariam o mapa do mundo”.

Mossadegh era espírito mais democraticamente orientado que Atatürk, por exemplo: de Bellaigue diz dele que foi “o primeiro líder liberal do moderno Oriente Médio ou da América”. Mas foi menos bem-sucedido que seus heróis, Gandhi e Nehru; estava próximo dos 70 anos e era hipocondríaco, quando afinal se tornou Primeiro-Ministro do Irã, em 1951.

Foi destino de Mossadegh ser liberal democrata num momento em que, como Nehru observou, vendo o modo como os navios de guerra britânicos comandavam o curso da política egípcia, “democracia em país oriental parece significar só uma coisa: mais um instrumento para exercer sobre nós o poder imperialista”.

Embora mais focados e com melhores recursos que al-Afghani, líderes moderados secularistas como Mossadegh tornaram-se vítimas fáceis dos imperialistas ardilosos. Jamais tiveram mais que uns poucos aliados “simbólicos” no ocidente; e foram desprezados no oriente, pelos fundamentalistas e linha-dura, que, adiante, assumiriam a tarefa pós-colonial de reconstruir a dignidade e força nacionais em vários locais do mundo.

O Aiatolá Khomeini, por exemplo, sempre falou com desdém de Mossadegh e de seu fracasso, por não ter cuidado de proteger o Irã contra o avanço do ocidente.

Todos, liberais e radicais iranianos sabem, de cor, muitos casos em que o país foi humilhado pelo ocidente no século 19, quando era dominado por britânicos e russos. Os eventos do início do século 20 minaram ainda mais a autonomia política do Irã, num momento em que as instituições políticas iranianas estavam sendo liberalizadas (havia parlamento recém estabelecido, como resultado da Revolução Constitucionalista de 1905-7).

Na Ia. Guerra Mundial, Grã-Bretanha e Rússia primeiro ocuparam, depois dividiram o país, para manter afastados os exércitos germano-otomanos. Nem o fim da guerra trouxe qualquer alívio. O Exército Vermelho ameaçava pelo norte, e os britânicos, já retalhando os territórios do Império Otomano, viram ali a oportunidade para anexar o Irã. Lord Curzon, então secretário do Exterior e convencido, nas palavras de Harold Nicolson, de que “Deus selecionou pessoalmente a classe superior britânica como instrumento da Vontade Divina”, impôs um acordo anglo-iraniano que, na prática, destruiu quase toda a soberania do Irã.

Conta-se que Mossadegh chorou, ao saber do acordo. Em desespero, decidiu emigrar para a Europa, com projeto para não voltar. Verdade é que Curzon, que nunca se destacou como arguto analista do humor dos nativos, subavaliara a reação local contra o acordo. O acordo foi denunciado; membros pró-britânicos do Majlis [Parlamento] foram fisicamente atacados. Ante tal oposição, Curzon endureceu ainda mais:

Essa gente tem de aprender, custe o que custar, que não sobrevivem sem nossa ajuda. Não me incomoda esfregar no chão esses narizes arrogantes”.

Apesar da dureza de Curzon, a firmeza dos iranianos fez naufragar o tal acordo por “Vontade Divina”. Mas outro acordo mais terrestre e igualmente desigual já ligava Irã e Grã-Bretanha.

Prescientemente, comprando ações da empresa de petróleo APOC (Anglo-Persian Oil Company) em 1913, Winston Churchill já garantira que 84% dos lucros da empresa fossem remetidos à Grã-Bretanha. Em 1933, Reza Khan, soldado autodidata que se aproveitou do caos pós-guerra para chegar ao poder, fundou nova dinastia reinante (para profundo desgosto de Mossadegh) e renegociou um novo acordo com a APOC, acordo que, como logo se viu, foi notavelmente idêntico ao anterior. 

Durante a IIa. Guerra Mundial, tropas britânicas e russas derrubaram o antigo Xá, caracterizadamente pró-germânico, e coroaram Muhammad Reza, filho dele.

Durante esses anos, a política britânica foi manifestação diária, sempre repetida, do que de Bellaigue chama, sem exagerar, de “desprezo profundo pela Pérsia e pelos persas” – desprezo que explica e oferece a fagulha que incendiaria, não só o real nacionalismo iraniano, como, também, a inamovível certeza, entre os iranianos, de que a Grã-Bretanha é “força maléfica”.

Quando, em 1978, o Xá acusou Khomeini de ser agente britânico, caluniou-o da forma mais viciosa, tentando uma operação de difamação para a qual não houvesse remédio possível. Mas a acusação saiu-lhe pela culatra e gerou o primeiro grande protesto de massa contra o Xá.

A empresa APOC, rebatizada como Anglo-Iranian Oil Company, AIOC, em 1935, alcançou lucros de $3 bilhões de dólares entre 1913 e 1951, dos quais só $624 milhões permaneceram no Irã. Em 1947, o governo britânico arrecadou £15 milhões em impostos só sobre os lucros da empresa; ao governo iraniano coube só metade disso, a título de royalties. A empresa também alijou da administração os cidadãos iranianos; e impediu Teerã de fazer qualquer tipo de auditoria em suas contas.

O crescente sentimento anti-britânico finalmente obrigou Muhammad Reza a nomear Mossadegh como Primeiro-Ministro no início de 1951. Entre os nacionalistas iranianos já havia então partidos secularistas, partidos religiosos e partidos comunistas, além de partidos da esquerda não comunista. Mossadegh – o qual, como narra de Bellaigue, “foi o primeiro e único estadista iraniano a reunir em todo de si todas as linhagens nacionalistas” – tratou imediatamente de nacionalizar a indústria do petróleo.

Dezenas de milhares de iranianos saudaram, nas ruas, os funcionários enviados de Teerã para ocupar as unidades da empresa britânica em Abadan; os carros cobertos de poeira eram beijados. Um desses carros pertencia a Mehdi Bazargan, que, mais tarde, seria o Primeiro-Ministro da República Islâmica do Irã. 

O embaixador dos EUA relatou que Mossadegh era apoiado por 95% da população; o Xá confessou a Averell Harriman, diplomata que o visitava, que não se atrevera a dizer uma palavra contra a nacionalização. Mossadegh sentia-se carregado nas asas da história. “Centenas de milhões de asiáticos, depois de séculos de exploração colonial, chegaram agora à independência e à liberdade” – Mossadegh discursou na ONU, em outubro de 1951; os europeus reconheceram os direitos à soberania e à dignidade nacional de indianos, indonésios e paquistaneses. Por que continuavam a ignorar o Irã?

Foi apoiado por ampla coalizão de novos países asiáticos. Até os delegados de Taiwan, que ganharam direito a um assento na ONU à custa da República Popular da China de Mao, lembraram os britânicos de que “passou o tempo em que o controle sobre a indústria do petróleo do Irã poderia ser partilhado com empresas estrangeiras”.

Outros regimes pós-coloniais também rapidamente nacionalizariam as respectivas indústrias de petróleo, o que lhes deu controle sobre os preços internacionais e deixou as economias do ocidente expostas a choques severos. Mas a Grã-Bretanha, enfurecida com a impertinência de Mossadegh e desesperadamente carente da renda que lhe advinha do, então, maior investimento britânico no exterior, nada via e nada ouvia.

A Grã-Bretanha já não tinha meios para manter o império, mas, como de Bellaigue anota, em vários locais, “sobretudo no Irã, prosseguia o desfile dos louros de bochechas rosadas, em ternos e coletes bem cortados, como se nada houvesse mudado”. Muitos deles trabalhavam como diretores da Anglo-Iranian Oil Company – e, como um deles confessou, eram “perdidos, resmungões, mesquinhos, sem qualquer ideia comum que os unisse, confusos, acovardados, de mente estreita, caolhos”. 

Ainda convencida de que os britânicos “haviam prestado grande serviço aos iranianos por ter encontrado e extraído petróleo”, a Grã-Bretanha rejeitou uma proposta, apoiada pelos EUA, de que os lucros fossem divididos igualmente entre iranianos e britânicos; e lançou campanha devastadoramente efetiva de bloqueio contra a economia do Irã. “Se hoje nos curvarmos a Teerã, amanhã nos curvaremos a Bagdá” – como publicou o Express, na velha lógica de Curzon.

O retorno de Churchill a Downing Street em 1951 levou os neoimperialistas a endurecer ainda mais: o Daily Mail exortou o governo a “agir imediatamente, antes que a podridão se alastre”. Rapidamente foi construído um consenso anti-Mossadegh, que envolveu também os liberais. 

Em 1891, al-Afghani já contestara a imagem criada por Reuter, segundo o qual os iranianos lutariam por soberania como fanáticos religiosos; e perguntara-se se a coisa teria algo a ver com o interesse comercial britânico. Em 1951, o Observer de David Astor apenas requentava e repetia “notícias” e palavreado de Reuter, para proteger interesses britânicos. Em 1951, o jornal apresentava Mossadegh como “fanático”, “um trágico Frankenstein”... obcecado por um nacionalismo xenófobo”. 

Nas palavras de de Bellaigue: “Havia inquietação em todo o mundo branco, ante o show de má vontade oriental, de Mossadegh”. O ministério de Relações Exteriores britânico iniciou campanha de propaganda para convencer os norte-americanos da justeza da causa britânica; a imprensa dos EUA, obedientemente, alinhou-se. 

O New York Times e o Wall Street Journal compararam Mossadegh a Hitler, mesmo quando seu populismo às vezes autoritário enfrentava oposição do Parlamento, cada vez mais dividido, além de uma crescente oposição interna, de comerciantes, proprietários de terras, monarquistas, militares e clérigos de direita e extrema-direita (alguns dos quais abririam a cerca para dar passagem aos primeiros aventureiros da CIA e do MI6).

Em The US Press and Iran: Foreign Policy and the Journalism of Deference [Imprensa nos EUA e Irã: política exterior e jornalismo de deferência] (1988), William Dorman e Mansour Farhang provam que nenhum grande veículo de imprensa nos EUA jamais deu voz às queixas dos iranianos contra a AIOC. Em vez disso, o Washington Post reclamava que o povo iraniano era incapaz de manifestar “qualquer emoção de gratidão”. Anos depois, escrevendo com remorsos sobre o próprio trabalho em Teerã, o correspondente do New York Times Kennett Love, apresentaria Mossadegh como “um homem razoável” tentando atuar sob “pressões não razoáveis”. Mas o próprio Love estava sendo, então, sutilmente coagido a obedecer aos que Love descreveu depois como “meus absolutamente obtusos editores pró-establishment” em New York, e a colaborar com a embaixada dos EUA.

Já tendo inventado e proclamado o “século americano”, o Time de Henry Luce dedicou particular atenção ao Irã-mercadoria: pregou que “os russos devem intervir lá, passar a mão em todo o petróleo e declarar a Terceira Guerra Mundial”. Os britânicos, já decididos a derrubar Mossadegh, logo se puseram a explorar a crescente obsessão dos norte-americanos com o expansionismo soviético: o Irã seria bom teste de como denegrir o nacionalismo asiático: associando-o ao comunismo soviético. Encontraram audiência receptiva nos irmãos Dulles (um, secretário de Estado; o outro, diretor da CIA no novo governo de Eisenhower), em 1953.

Trabalhando com fontes persas, de Bellaigue oferece informação de primeira qualidade sobre a “Operation Ajax” – o golpe montado pela CIA/MI6 que mudou o regime de Mossadegh e implantou lá o Xá Reza Pahlavi, em agosto de 1953, como imperador (quase) inamovível do Irã. 

A história de como EUA e Grã-Bretanha destruíram todas as esperanças dos iranianos de construírem para eles mesmos um estado liberal moderno já foi várias vezes contada. Mas as lições de 1953 ainda estão longe de terem sido bem aprendidas. 

Já em 1964, Richard Cottam, assessor político da embaixada dos EUA nos anos 1950s e, depois, professor e especialista em Irã, alertava para a evidência de que as “distorções” introduzidas por jornalistas, intelectuais e professores no que se sabe sobre a era Mossadegh beiram “o grotesco; e até que essa era possa ser analisada sob luz menos falsa, praticamente não há esperança de que os EUA construam política externa menos simplória, mais sofisticada e de melhor qualidade, para o Irã.” (E poderia ter acrescentado: para todo o Oriente Médio.) O New York Times deu destaque às renovadas esperanças imperiais, imediatamente depois do golpe que mudou o regime e derrubou Mossadegh:

“Países subdesenvolvidos e ricos em recursos aprenderam a lição, pagando o alto preço que têm de pagar todos quantos, como o Irã, se deixem tomar por nacionalismo fanático”. 

Apesar de informado muitas vezes por Kennett Love, o Times nunca fez qualquer menção ao papel protagonista que teve a CIA na “mudança do regime” de Mossadegh: aquela foi a primeira grande operação da agência, então desconhecida do grande público, de toda a Guerra Fria. Nas boas vindas que deu ao Xá, quando visitou os EUA em 1954, o Times exultava:

“Hoje, Mossadegh está onde tem de estar – na cadeia. O petróleo voltou a fluir para os livres mercados do mundo”. “E o Irã”, continuava o Times, “marcha rumo a novos e auspiciosos horizontes”. 

A imprensa-empresa nos EUA, que descrevia Mossadegh como “o Führer iraniano” aplaudia agora os projetos do Xá, de modernização faraônica. Foi resultado, pelo menos em parte, de o Xá garantir hospedagem de potentado aos figurões da imprensa-empresa nos EUA cujos nomes apareceram na lista divulgada pelos revolucionários iranianos em 1979 (Walter Cronkite, Barbara Walters, Peter Jennings e Mrs. Arthur Sulzberger).

Fortalecido por esse apoio, o antes tímido Xá começou a manifestar sintomas da síndrome que al-Afghani identificara em um dos predecessores:

“Por bizarro que pareça, não há dúvidas de que, após cada visita à Europa, o Xá aprofunda as ações de tirania contra o próprio povo”.

A imprensa-empresa nos EUA tinha pouco tempo a perder ouvindo iranianos médios. Mas os iranianos médios, já em 1953, como escreve de Bellaigue, viam os EUA como “novos cúmplices do Xá, na injustiça e na opressão”.

Empresas dos EUA ganharam fatia de 40% da produção de petróleo no Irã, depois de o regime de Mossadegh ser derrubado por golpe [“mudança de regime”]. No início da década dos 1960s, intelectuais iranianos, muitos deles forçados ao exílio, já haviam começado a pesquisar para descobrir como aconteceu de – nas palavras de Jalal al-e Ahmad, em Gharbzadegi [1] – os movimentos dos EUA terem permanecido absolutamente encobertos e ignorados, enquanto outros entravam e saiam do Irã; a ponto de “os iranianos só nos termos dado conta do que acontecera, depois de todas as torres de petróleo de empresas ocidentais já terem empalado nossa terra”.

A hostilidade dos iranianos contra os EUA só aumentou, ao tempo em que a CIA mantinha negociações regulares com torturadores e carrascos da polícia secreta do Xá. Até que a hostilidade saltou à tona, em 1979, chocando políticos e formadores de opinião nos EUA, que tentaram encontrar explicações para a revolução iraniana, como também tentaram encontrar explicações para o 11/9, em “interpretações” do Islã. 

Nenhum daqueles políticos e formadores de opinião percebeu que, como acontecera nos Protestos do Tabaco de 1891 e no levante nacionalista que levou Mossadegh ao poder, já se constituíra uma ampla coalizão nacional iraniana disposta a combater contra o Xá e seus aliados estrangeiros. 

Verdade é que, nos primeiros dias da revolução iraniana de 1979, os mossadeghistas (como Bazargan) apareciam em posição tão sólida e destacada quando seus aliados islamistas e socialistas. Mas dois fatores fizeram pender a favor dos revolucionários islamistas radicais a balança da indignação popular e do correspondente poder revolucionário: Jimmy Carter ofereceu asilo ao Xá em 1979; e só os estudantes islamistas encontraram meios para impor resposta/retaliação à altura da ofensa (e atacaram a embaixada dos EUA em Teerã).

A guerra brutal que Saddam Hussein impôs ao Irã durante oito anos, cinicamente auxiliado pelos EUA, forçou a República Islâmica a entrincheirar-se e ajudou a polir a imagem popular do Grande Satã. Sempre sob pressão, reformadores liberais que se reuniam em torno de Mohammad Khatami foram novamente enfraquecidos quando George W. Bush, repentinamente, decidiu incluir o Irã no seu “eixo do mal”. Depois disso, as invasões e ocupações pelos norte-americanos nas vizinhanças do Irã só fizeram confirmar a percepção dominante entre os iranianos de que o ocidente é incompetente e incapaz, tanto culpado do que Khomeini definiu comoistikbar i jahani (“arrogância global”).

Em nenhum momento estivemos mais próximos de guerra entre o Irã e os EUA, que nos últimos meses, com políticos e jornalistas norte-americanos atentamente dedicados a promover as sandices em tom de bravado de Binyamin Netanyahu. Praticamente não se vê sinal na “grande” mídia, nem nos EUA nem na Grã-Bretanha, de que alguém esteja prestando atenção ao trabalho de de Bellaigue e de outros notáveis intelectuais iranianos. 

Resenha do livro de de Bellaigue publicada recentemente no The Guardian insistia que “o Xá levou ao Irã prosperidade, segurança e prestígio que jamais tivera, desde o século 17”. Mahmoud Ahmadinejad – político menor, oportunista, cujo apoio vem diminuindo e que é consistentemente desaprovado pelo Supremo Líder, aparece pintado nos jornais como o próximo Hitler.

Simultaneamente os liberais ignoram os efeitos das sanções econômicas sobre os cidadãos comuns – exatamente como já fizeram nos anos 1950s – e os governantes optam por não ver que, agindo como agem, dão sobrevida a um regime já semidesacreditado. Isso, porque as sanções e o ataque obcecado pelo ocidente contra o governo iraniano reduzem (de fato, cancelam completamente) qualquer possibilidade de qualquer mudança política ou econômica no Irã – motivo pelo qual também o “movimento verde”, que se opõe ao governo da revolução popular islâmica, também se opõe às sanções econômicas impostas pelo ocidente. 

Os aiatolás parecem estar sendo hoje sustentados no poder, de fato, pelas sanções econômicas impostas pelos EUA; como os revolucionários cubanos parecem estar sendo sustentado no poder, de fato, pelo embargo econômico imposto pelos EUA. 

Mas o tempo passa e os iranianos, a cada dia, veem mais claramente exposta a hipocrisia dos EUA, que nada faz além de servir ao estado ilegal de Israel, o único estado em todo o Oriente Médio armado com bombas atômicas. Os iranianos sabem, é claro, que os EUA, em 2005, firmaram acordo nuclear com a Índia. Se há opinião que atravessa e impõe-se sobre todas as divisões políticas no Irã é a defesa do direito do Irã a manter seus programas de pesquisa nuclear. 

O ocidente aspirante a progressista e avançado é incompetente para analisar corretamente, dentre outras coisas, a força ainda não abalada do nacionalismo iraniano, provado em longos combates. Mais bizarro e perigoso é que ignoram o quanto e como a atitude do grupo e da classe dominante no Irã foi-se endurecendo e radicalizando, depois de um século de humilhações que o ocidente lhe impõe ou tenta impor. 

Em 1979, durante a crise dos reféns norte-americanos detidos no Irã, o Aiatolá Ali Khamenei, então jovem revolucionário e hoje Supremo Líder da República Popular Islâmica do Irã, disse, em resposta a ameaças dos EUA, há 33 anos:

“Não somos liberais do tipo que a CIA consegue assassinar, como Allende e Mossadegh”.

Sabia do que falava.



Nota dos tradutores
[1] Termo pejorativo, em persa. Apareceu no título [traduzido ao inglês como] Occidentosis: A Plague from the West [Ocidentose: a praga que veio do ocidente], escrito por Jalal Al-e Ahmad e publicado clandestinamente em 1962. Em inglês tem sido traduzido por Weststruckness, Westoxification, West-struck-ness”, “Westitis” (aprox. “ocidentalhagem” / “ocidentalice” / “ocidentite”, no sentido de “canalhagem” / “canalhice ocidental”, “ocidentose” / “infecção” / “doença ocidental”.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Em livro épico-falhado sobre os Anonymous, o abismo ri de nós


13/6/2012, Quinn Norton, Wired, Threat Level blog
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Sobre: OLSON, Parmy. We Are Anonymous. Inside the Hacker World of LulzSec, Anonymous, and the Global Cyber Insurgency, New York: Little, Brown & Company, 2012, 498 pp. $26.99

Quinn Norton
Não é fácil escrever sobre os Anonymous.

É uma não-organização de “gozadores-que-viraram-ativistas-que-viraram-hackers-que-se-complicaram-feio-com-a-Polícia-no-drama-da-lei-tem-de-ser-respeitada[1] — história difícil de compreender-capturar e difícil de narrar.

Trabalhar sobre grupo clandestino caçado pela Polícia obriga a fazer escolhas não óbvias. Um dos hackers sem nome, mas citado longamente no livro We Are Anonymous  [2] de Parmy Olson, jornalista chefe da sucursal de Londres da revista Forbes, disse-me uma vez que os anons “são dissimulados por natureza” – e são. (Como sei que é a mesma pessoa? Reconheci o modo de se expressar. Depois, perguntei).

Os anons mentem, quando não há qualquer razão para mentir. Tecem longas narrações fictícias, que são uma espécie de performance artística. Depois, nas horas mais inesperadas e menos recomendáveis, dizem a mais pura verdade, destruindo-se, eles mesmos, no processo. São imprevisíveis. O furor niilista com que Olson descreve o modo de vida dos anons mais jovens atira para todos os lados, inclusive para dentro de casa, e os tiros muitas vezes espirram sobre jornalistas como Olson e eu, por motivos que nada têm de óbvios.

É impossível “seguir o dinheiro” no não-grupo dos Anonymous, ou analisar as estruturas do poder, ou buscar uma linha geral de pensamento constitutivo, num coletivo que jamais, praticamente, os tem. Mesmo assim, é preciso escolher alguns itens nos quais se creia, um por quê, um como se enquadram num quadro maior. Usam-se o contexto, as circunstâncias, os instintos mais viscerais e muito do que os hackers chamam de “engenharia social”, para extrair as evidências necessárias para escrever jornalisticamente sobre o coletivo, para cumprir nosso papel nessa história.

Que ninguém se engane: os jornalistas temos um papel nessa história. Você não pode simplesmente não se envolver. É impossível não ser parte da coisa, se a coisa usa a imprensa e todos os veículos para falar e pensar sobre ela mesma.


Por tudo isso, o que torna tão frustrante o livro We Are Anonymous  [3] de Parmy Olson é que ali a narrativa segue em frente, como se nenhuma dessas questões existisse.

Mas Olson e eu, como a professora Biella Coleman; como a ex-correspondente da rede CNN, Amber Lyon; como Brian Knappenberger, cineasta documentarista; e até como Adrian Chen, da revista Gawker, nunca conseguimos nos impedir de dar uma cara à coisa, enquanto a coisa vai-nos dando, também a nós mesmos, uma cara. Somos o veículo que o coletivo usa para se autodefinir, e sempre acabamos por guardar para nós alguma partícula (ou muito) daquilo que o coletivo se vai tornando. É sempre assim, sejam quais sejam as regras que definamos para impedir que aconteça. Somos órgão da Cabeça-de-Enxame. Somos a paisagem-de-Schrödinger da mídia, e nossas observações afetam fatalmente o resultado observado.

Por isso precisamente é vitalmente importante expor as regras pelas quais trabalhamos e nossos métodos. Que nomes dar aos que tenham nome e, mais importante, que nomes manter secretos? Para não ter de lidar com essa questão ética tão absolutamente complicada, tomei a decisão de não identificar ninguém; nomes, só dos que, como dizem os Anons, já sejam “nomefodidos” (ing. namefagged  [4] e vídeo). Olson escreve centenas de páginas sem sequer um aceno para essa questão.


Como Olson escolheu as fontes nas quais confia, e em que casos? E nem uma palavra, tampouco, sobre métodos. Suas observações não aparecem em nota ou referência, mas escondidas na narrativa. É como se ela não estivesse escrevendo o que escreve. Embora essa seja tradicional regra da escrita jornalística, no estranho caso de escrever sobre os Anonymous qualquer tentativa de fingir-se de anônimo e impessoal abala a credibilidade do/a jornalista e do jornalismo. Em ambiente no qual todas as fontes declaram que estão mentindo, o jornalista tem o dever de declarar ao mundo, abertamente, todas as suas próprias crenças e fés pessoais. O jornalista “nomefodido” é, nessa situação, a única fonte legítima de opinião que pode aspirar a ser legítima e merecer credibilidade. A isenção jornalística passa a ser aí, além de mito, erro: se o jornalista não se expõe pessoalmente, se não declara que crê no que creia... quem (e sobretudo: por quê?) precisaria acreditar em algum jornalista?

Os sistemas sociais da internet, dos quais os Anonymous são exemplo altamente evoluído, rompem as vias da causa&consequência estabelecidas. Em vez de buscar o especialista ou a mais alta autoridade presente para colher “declarações”, a alma da matéria pode estar, de fato, em qualquer palavra e nunca se sabe em qual palavra estará. Procurar a fonte “certa” ou a “melhor fonte” nos Anonymous é, frequentemente, muito mais como investigar um assassinato; e muito menos como escalar a cadeia de comando à caça de uma entrevista ou de alguma “declaração” ou do “furo”.

Mediafag
Os Anonymous expuseram os jornalistas [viados-da-mídia, mediafags, como eles dizem] como especialistas em “fala-escudo” [5]. As frases bombásticas e as declarações hiperbólicas têm de ser reproduzidas exatamente como saem das telas ou da boca de cada anon, não podem ser copiadas de jornais, depois de já convertidas em discurso indireto. E, mesmo com todos esses cuidados, ainda assim se cometem erros e publicam-se “conclusões” ou inferências que escapam a qualquer controle e entram no nosso texto jornalístico.

Um pouco disso existe em qualquer jornalismo, por melhor que seja, mas em mundo no qual nada “precisa” ser verdade, porque tudo é permitido, como o mundo dos Anons, é constante ameaça existencial a pesar sobre todo o jornalismo. Por isso, precisamente, tão poucos jornalistas dedicam qualquer legítima atenção jornalística aos Anonymous.

O jornalismo é parte de um mundo de instituições, hierarquias e tradições sociais que são codificadas por estados-nação e por empresas. Criamos leis e regras para controlar os que sejam autorizados a chegar aos assuntos que contam, para que seja possível concentrar nosso poder de fogo midiático nos pontos em que queremos que ele se concentre. O mecanismo visa a criar um mundo previsível no qual todos possamos viver a salvo (ou viver da ilusão de que ali estamos a salvo) dos caprichos da natureza. As ferramentas que há, para o jornalismo que há, foram concebidas para esse mundo – o qual, por sua vez, modelou nossa retórica e nossas narrativas. É o que explica que jornalistas gostemos tanto de identificar as pessoas pelos títulos (presidente, deputado, bispo, comandante), pela idade, pela religião ou por etnias, localizando nossos personagens numa hierarquia – para que o leitor convença-se de que o veículo que lhe fala ouviu gente “importante”, o que, por contaminação, gera a ilusão de que o leitor seria igualmente importante.

As técnicas do jornalismo contemporâneo são a teoria da história de alguns, em letra de forma, em redação esperta, compacta e rápida, para leitura veloz e superficial.

Os Anonymous rompem todos esses pactos – e são terrível dor de cabeça.

Contudo, para jornalistas forçados a escrever sobre eles, o surgimento do grupo Lulzsec – clube fechado e exclusivíssimo de uma elite de hackers que vivem e trabalham como o resto do mundo normal, embora incluídos no grande coletivo – foi como dádiva caída do céu. Afinal, ali estava o atalho para construir matéria de vasta repercussão popular. E muitos jornalistas reagiram com o previsível entusiasmo.

Essa é a via pela qual Parmy Olson consegue fugir do problema de escrever sobre os Anonymous: escreveu sobre os Anonymous, sem escrever realmente sobre os Anonymous.

Seu assunto é outro: Olson escreve só sobre Lulzsec. Nas 414 páginas do livro de Olson, só se considera o coletivo mundial quando é inescapável, para explicar a formação, dentro do grande coletivo, de um pequeno grupo de seis personagens, que estiveram nas manchetes por poucas semanas no verão de 2011, atraindo atenções como nenhum outro grupo de hackers jamais atraíra.

LulzSecs
Mas nem os seis Lulzsecs são adequadamente investigados. Olson deve ter passado semanas mergulhada em postados antigos – embora nem sempre se possa saber onde encontrou os postados aos quais teve acesso nem como (nem se) fez qualquer movimento para comprovar a autenticidade do material que encontrou. Jornalistas de tecnologias, todos nós, mais dia menos dia temos de enfrentar o problema de confiar em postados ou arquivos cuja origem não se consegue rastrear com precisão, encontros em chats, e-mails repassados. Como fornicação e agiotagem [6], esse é mais um dos pecados sobre os quais todos concordamos que não nos podem paralisar, nem merecem laudas e laudas de reportagem. Mas Olson peca vezes demais. Usa, sem qualquer registro ou resguardo crítico, fontes como o Chanarchive – página que alguns /b/tards do próprio 4chan criaram para arquivar discussões que consideram particularmente interessantes.

Olson alcança velocidade de cruzeiro quando começa a contar detalhadamente a história dos Lulzsecs, narrando evento após evento sobre esse específico grupo secretivo. É quando renuncia a qualquer ambição de analisar e faz reportagem de eventos – seu forte.

Trata-se, exclusivamente, de uma conversa com Jake Davis — conhecido pelo apelido “Topiary”, o talentoso porta-voz e agente de retórica dos Lulzsecs. Nessa seção intermediária, o livro melhora dramaticamente, e é o que o livro inteiro deveria ter sido: relato jornalístico escrito por jornalista que conseguiu bom acesso até bem perto dos Lulzsecs.

Mas nem essa melhor parte do livro chega a ser bem-sucedida, porque não passa de biografia não comentada do jovem Jake Davis. A autora dá a impressão de passar adiante cada historieta que ouviu da fonte, sem qualquer análise sobre se a historieta contribui ou não para melhor compreensão do que seja o grupo e do significado do grupo. São estradas vicinais que levam a lugar nenhum e acabam de repente. E isso, num vasto exercício de acreditar em tudo que Davis diz.

Davis se autoacusa de um crime depois de outro, sem parar, em dúzias de páginas de arremedo de diálogo, mas Olson jamais se pergunta por que ele lhe estaria contando tudo aquilo. Davis admite incontáveis vezes que costuma mentir a jornalistas... E nem assim Olson lhe faz a pergunta óbvia (ou, se perguntou, não perguntou na presença de testemunhas, quer dizer, dos leitores): “E aqui, você está mentindo ou não?”

Essa é parte das razões pelas quais We Are Anonymous dá a impressão de relato mal construído, mal acabado, apesar das quase 500 páginas. Os eventos não são narrados em sequência cronológica, mas não se sabe que outra lógica rege a narrativa e, a menos que já se conheça detalhadamente os eventos ali narrados, fica-se sem saber quando aconteceu o quê. Mais um mês de edição bem feita e menos umas 150 páginas produziriam livro muito melhor.

Ataque DDoS
Por exemplo, há uma estranha repetição de historietas “técnicas”. Num desses casos, somos informados mais de uma vez que “ataque DoS é parecido com “ataque DDoS”, sem o D de “Distribuído”. Não é só a repetição: é repetir informação errada. O ataque “DoS” [Denial of Service/Negação de serviço] é, de fato, parecido com o ataque “DDoS” [Distributed Denial of Service/Negação de serviço distribuída] sem o D inicial, mas só quanto aos resultados. As técnicas são muito diferentes e exigem recursos muito diferentes.

Ataque DoS
As explicações técnicas são forçadas e repetitivas, no livro de Olson. Redigidas em tom descuidado de quem não conhece bem o idioma em que trabalha e que não se interessa por conhecê-lo melhor, para conseguir ser o mais precisa e clara que possa, as explicações técnicas são o ponto mais fraco do livro, e pintam muito mal a paisagem na qual vivem os Anonymous (inclusive os LulzSecs). Ataque DDoS significa inundar uma página-alvo com pedidos de acesso e com mensagens-lixo; é como 15 pessoas querendo passar ao mesmo tempo por uma porta giratória estreita, uma catarata de visitantes – tudo explicado num único pequeno parágrafo no capítulo 5.

Esse tipo de jornalismo desrespeita, para começar, a cultura técnica. É como popstar britânico cantar como criança africana; é sequestrar e descartar tudo que realmente faria alguma diferença. Desse tipo de atitude brotou e disseminou-se a ideia de que todos os hackers adolescentes seriam malucos de porão. É frustrante desserviço que o jornalismo presta a um grupo cada dia mais diversificado, que já tem de enfrentar não só o preconceito e a discriminação das forças da ignorância, mas também a violência policial dos estados mais repressivos, inclusive dos EUA, embora, noutros lugares, a repressão seja ainda mais violenta.

Por exemplo, tome-se a sequência de eventos, no capítulo 21, em que os LulzSecs hackearam o FBI associated Infraguard, quando Olson narra o modo como Sabu apagou o conteúdo de um servidor: “E, fácil, digitou rm -rf /*. Um código simples, mas mal afamado: quem digite esse código no back end do próprio computador apaga, de fato, tudo que haja no sistema. Nenhuma janelinha popping up para perguntar “Você tem certeza?” Aconteceu. Muitos trolls conseguiram que suas vítimas digitassem o código ou apagassem o crucial arquivo32 de sistema do Windows”.

Se você não tem nenhum saber técnico, a coisa parece bobagem. Se você tem algum saber técnico, você tem certeza de que é bobagem. “rm” é comando UNIX, não é “código”, faz command line interface (o que em nenhum caso abriria janelinhas...). E nada tem a ver com Windows. E o 32 é diretório, não é arquivo. Esse exemplo é excepcional, do pior que há no livro; mas não é caso isolado.

É exigir demais, esperar que jornalistas que escrevam sobre os Anonymous conheçam a diferença entre UNIX e Windows? Ou que saibam explicar o que é um endereço IP [Internet Protocol]? A mídia especializada, com certeza, responde que “sim”, há 15 anos; é esperar demais, nessa e em todas as demais áreas da cobertura jornalística em áreas tecnológicas. Ninguém tem qualquer direito de exigir que jornalistas entendam as complexas tecnologias sobre a quais vivam de escrever. É privilégio histórico dos jornalistas ganhar a vida escrevendo o melhor que possam sobre o que conheçam o melhor que possam. OK. Mas tem limite. Com os geeks ocupando o planeta, a ignorância vai-se tornando cada dia menos historicamente admissível.

Vivemos pressionados pelos prazos, com orçamentos cada dia mais apertados, com demandas sempre crescentes por informação atualizada. Mas, de um limite em diante, a coisa vira negligência; em seguida, cruza a fronteira e converte-se em exploração. O jornalista ser explorado não o autoriza a explorar o leitor. Estamos lendo mal o mundo. Estamos tratando mal o leitor.

Nada me faz pensar que Olson seja esse tipo de jornalista negligente e exploradora, mas é o que se vê, incorporado, no jornalismo que oferece nesse livro-reportagem. Os Lulzsecs/Antisecs atraem leitores; mesmo sem qualquer sutileza ou análise. Mas também atraem – assim como há quem diga que eles próprios procuraram por isso – jornalismo-espetáculo, de sensacionalismo, a mais antiga profissão no ramo de escrever para viver.

Todos os clichês dos postados fast-food que reagem à propaganda pelo Twitter estão presentes em We Are Anonymous. Por todos os lados, chovem apoios, disparam-se comandos de resposta-repetição, e muita gente dos e à volta dos Anonymous deve estar terrivelmente machucada, porque parecem sempre dispostos a se chutarem e se espancarem, eles mesmos, o mais que possam.

Em geral, para o bem e para o mal, esses pecados literários são deixados sem comentar, na era da moderna narrativa de não ficção. Mas, nesse caso, eles saltam à vista, pelo contraste muito visível com a linguagem vibrante dos anons que a reportagem cobre.

A linguagem dos Anonymous é imprópria, de baixo calão, mas é deliberadamente o que é. Suas metáforas estão vivas, são criativas e efetivas, porque os anons nunca param de tentar romper a linguagem e o pensamento convencionais. De tanto querer fazer e tentar, acabaram por aprender a fazer. Quando distorcem uma imagem, distorcem como querem e o quanto querem, e para um objetivo determinado.

Anonymous IRC
Quando @AnonymousIRC se autodescreve como “cavaleiro sem cabeça montado num cavalo ASCII [7] com um halo de Gato Nyan [8] e espada de Lulz em bainha de tolerância”, a imagem é construída para fundir a cuca de quem leia. E funde. Mas é imagem construída e você vê o que é para ver. A escrita dos Anonymous encheria de orgulho o George Orwell do clássico Politics and the English Language (A política e a língua inglesa [9]), não porque obedeça aquelas regras, mas porque sabe por que e quando desobedecê-las e escapar delas. É má sorte, que a prosa de Olson tenha de expor-se ao lado da prosa dos anons.


***
Os Antisecs e, antes deles, os Lulzsecs, receberam vastíssima atenção midiática de jornalistas como Olson e eu, atenção que chegou a deixar marginalizados outros anon ops mais efetivos, que trabalhavam no apoio a movimentos da Primavera Árabe e na resistência política contra leis anti-internet, como a ACTA – mesmo no caso em que essas operações foram conduzidas pelas mesmas pessoas. Olson e eu cobrimos tudo isso, mas do jeito errado. Deveríamos, desde o início, ter sabido ver os Antisecs como uma manifestação dentre muitas, não como grupo que, afinal, poderia ser tratado pelos jornalistas como estrelas do rock, grupo que facilita muito o trabalho jornalístico.

Muitos anons, de visão mais criativa, cujo trabalho encaminhou-se para objetivos mais claros (nem sempre louváveis, mas objetivos e, sim, claros) acabaram afogados na gritaria niilista dos Antisecs e na incansável cobertura que os jornalistas lhes dávamos. Àquela altura, os Antisecs pouco nos preocupavam.


Quando, dia 3 de junho, anunciou-se que remanescentes daquele antigo exclusivo grupo de hackers haviam capturado 3 terabytes de dados do governo, inclusive material do FBI e do Departamento de Estado, a mídia deu de ombros. É excesso, dados demais. Mais dados do que alguém pode ler e, menos ainda, avaliar; e são dados inúteis, quando o noticiário diário já oferece tantas notícias péssimas. Em ambiente no qual todos sabemos que o presidente tem sobre a mesa uma lista de pessoas a serem assassinadas, entre as quais há cidadãos norte-americanos, difícil supor que um .d0x traria algo que fizesse diferença. Depois de milhões de logins e e-mails vazados e de bancos de dados invadidos, estamos em crise de fadiga de dados.

Desse oceano de vozes de Anonymous, todos experimentando novos modos de estar no mundo, as únicas vozes que se ouvem no livro de Olson são as de um pequeno grupo de hackers que sequestraram o palco onde todos deveriam poder ver uma legião; que desafiaram os valores do coletivo; e que colidiram frontalmente contra o muro da lei. Foi história que a própria mídia gerou, sem dúvida, mas não é a verdadeira história dos Anonymous. Não é, sequer, história que faça qualquer real sentido.




Notas dos tradutores

[1]  8/11/2011, redecastorphoto em: Anonymous: Introdução ao lulz, Quinn Norton,

[2]  OLSON, Parmy. We Are Anonymous. Inside the Hacker World of LulzSec, Anonymous, and the Global Cyber Insurgency, New York: Little, Brown & Company, 2012, 498 pp. $26.99.

[3]  Há crítica (preconceituosa, jornalístico-conservadora) ao mesmo livro no New York Times em: The Secret Lives of Dangerous Hackers, Janet Maslin, 31/5/2012.  
[4]  Namefag [Substantivo 2 g. Verbo necessariamente reflexivo derivado: Nomefoder-se]. Designa todos que se deem nomes próprios nos postados no 4chan. O procedimento de nomefoder-se é considerado péssimo, altamente não recomendável, embora o fórum /tg/ seja mais descontraído que outros, nos quais três postados nomefodidos levam a longos debates de mais de 300 postados, sobre os méritos e as desvantagens do anonimato na rede. A regra geral é nunca se autonomefoder, a menos que seja indispensável distinguir-se, pessoalmente, do enxame sem nomes [ing. anonymous] e separar-se do enxame (comentário dos tradutores).

[5]  Hedging language ou Verbal Hedge [fala-escudo]: Colunistas, repórteres e jornalistas em geral mostram-se cada dia mais conscientes de que há risco de serem processados por crimes que cometam ao noticiar. Resultado disso, são cada dia mais frequentes, em todos os veículos, expressões que visam exclusivamente a proteger o jornalista e a empresa para a qual trabalha, contra acusações criminais e processos por difamação e calúnia (dentre outros crimes). Às expressões que se usam para essa exclusiva finalidade defensiva, chama “fala-escudo”, porque visam a distanciar o jornalista e a empresa jornalística de qualquer compromisso com o que esteja sendo divulgado ou comentado. É onde a isenção jornalística vira arma e é usada contra o consumidor do discurso jornalístico.
Por isso, abundam hoje matérias jornalísticas em que tudo é dito “suposto”:

 

Suposta amante do executivo da Yoki deve depor segunda-feira (15/6/2012, O Estado de S.Paulo);
Foto de suposta nova camisa reserva do Corinthians vaza na internet (3/5/2012, O Estado de S.Paulo)  – e esse, aliás, é exemplo extremo de uso absolutamente absurdo, do absurdo “suposto”, porque se fica sem saber, até, o que seria “suposto”: (a) “suposta nova (camisa)” ou (b) “suposta camisa (nova)”; ou (c) “suposta (camisa nova) reserva”; ou (d) suposta (nova camisa reserva) do Corinthians)”?!

O que se vê aí é, de fato, só e sempre, o suposto jornalismo do Estadão suposto jornal [risos, risos, porque essa foi booooa!]. E “O presidente sofre de suposta doença terminal” (vários veículos, no Brasil, a propósito de doença dos presidentes Lula e Chávez). Há zilhões de exemplos, mas bastam esses, por hora.

Esse movimento discursivo de dissimulação exaure, de fato, a relevância jornalística e social de qualquer notícia.

Mas esse tipo de fala-escudo nem seria necessário, se o jornalismo, o jornalista ou o repórter realmente investigassem os assuntos sobre os quais vivem de inventar notícias. Essa fala-escudo, que mata qualquer notícia, seria desnecessária se realmente houvesse o que noticiar, em cada notícia (suposta existente, mas que não existe) que é noticiada.

Assim, se a investigação policial já estiver completada, a notícia é: “fulano será julgado por ter matado sicrano” (e não se falaria de “suposto assassino” – que é perfeito absurdo lógico e também gera objeto para processo por calúnia e difamação, dentre outros). Se já houver laudo médico, não há “suposta doença” e a notícia é outra, que não foi noticiada.

Afinal de contas, em todos os casos, o que seriam, no mundo, se existissem, uma “suposta amante”?! E/ou uma “suposta doença terminal”?! E/ou uma “suposta camisa”?! \o/ \o/ \o/ \o/.

[6]  Prôs que pensem que essas proibições-tabu religiosas só tenham a ver com “fundamentalistas muçulmanos”, acordem: deu na Bíblia (Deuteronômio 23-19: “Do teu irmão não exigirás juros [...] e Colossenses 3-5: “Exterminai, pois, as vossas inclinações carnais; a prostituição, a impureza, a paixão [...]).

[7 ASCII, American Standard Code for Information Interchange/ Código Padrão Norte-americano para Intercâmbio de Informação) é uma codificação de caracteres de oito bits baseada no alfabeto inglês. Os códigos ASCII permitem “desenhar” em computadores, equipamentos de comunicação, entre outros dispositivos que trabalham com texto. Desenvolvido a partir de 1960, grande parte dos modernos códigos de caracteres foram criados a partir do ASCII . Vê-se um dentre os quase infinitos possíveis “cavalos ASCII”.

[8  Pode ser visto em: Nyan Cat

[9]  Ensaio de 1946. Pode ser lido em português europeu em: A política e a língua inglesa