Mostrando postagens com marcador David Meyer. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador David Meyer. Mostrar todas as postagens

sábado, 10 de agosto de 2013

Espionagem generalizada já ameaça todo um importante setor da economia dos EUA

9/7/2013, [*]  Jon Queally, Commondreams 
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Silent Circle, empresa provedora de serviços de e-mail encriptados seguiu o movimento de sua concorrente Lavabit que, na 5ª-feira anunciou que decidia deixar de operar, depois de receber ordens do governo dos EUA para entregar dados privados e mensagens de e-mails de seus clientes – um dos quais se acredita que seja Edward Snowden.

Edward Snowden
Apoiadores da liberdade para a Internet e que lutam por proteger a privacidade dos usuários estão chocados, mas já manifestaram seu agradecimento pela ação que veem como uma empresa provedora de serviços seguros que opta por defender os direitos de seus clientes, mesmo que ao preço de ter de fechar a empresa, acossada pela violência, que consideram inconstitucional, do governo dos EUA.

A Agência Reuters noticiou:

[O fundador do provedor Lavabit disse que] decidiu “suspender as operações”, mas que está proibido de discutir os eventos das seis últimas semanas que levaram àquela decisão.

O período corresponde ao da divulgação de informações secretas, por Edward Snowden, consideradas fontes de matérias jornalísticas que explicam em detalhes as operações de espionagem eletrônica, pela Agência de Segurança Nacional dos EUA.

Kurt Opsahl
Dada a força impressionante que o governo está mobilizando para obter e-mails e registros dos provedores de serviços, força que se aplica por meios legais e ilegais, é estimulante constatar que empresas provedoras optam por agir na direção de conter a capacidade de o governo invadir a privacidade dos usuários – disse num postado Kurt Opsahl, da Electronic Frontier Foundation.

Na 5ª-feira à tarde, Lavar Levinson, fundador do provedor Lavabit, distribuiu declaração em que explica por que o servidor será fechado:

Companheiros usuários,

Fui forçado a tomar uma difícil decisão: tornar-me cúmplice de crimes contra o povo dos EUA, ou encerrar quase dez anos de trabalho duro e fechar minha empresa Lavabit. Depois de muito pensar, atenta e profundamente, decidi suspender as operações. Gostaria de poder partilhar com vocês todos os eventos que me levaram a ter de decidir como decidi. Não posso. Entendo que vocês merecem saber o que está acontecendo – a Primeira Emenda deveria garantir-me o direito e a liberdade de falar sobre situações como a que estou vivendo. Infelizmente, o Congresso já aprovou leis que decidem de outro modo.

Na situação em que estão as coisas hoje, não posso partilhar as experiências pelas quais passei durante as últimas seis semanas, embora já por duas vezes tenha pedido autorização para fazê-lo, como ordena a lei.

O que acontecerá agora? Já começamos a preparar a papelada necessária para continuar a lutar a favor da Constituição dos EUA, numa Corte de Apelação. Decisão favorável dessa Corte de Justiça pode permitir-nos ressuscitar Lavabit como empresa norte-americana.

Essa experiência ensinou-me lição muito importante: se o Congresso não agir, ou se não se criar logo um forte precedente jurídico, recomendo MUITO SERIAMENTE que ninguém confie seus dados privados a nenhuma empresa que tenha qualquer tipo de laços com os EUA.

Atenciosamente,
Ladar Levison
Proprietário e Operador, Lavabit LLC
_________________

Spencer Ackerman
É raro ver um provedor de serviços de e-mail optar por fechar sua empresa e sair dos negócios, para não ceder no campo dos próprios valores – disse Opsahl. – Deve ter sido decisão duríssima para Ladar Levison, mas ele se manteve fiel ao próprio negócio, que oferecia sobretudo privacidade, acima até dos lucros. E também é decisão que afeta terrivelmente os usuários, alguns dos quais perderam um tipo de acesso a e-mail que já não encontrarão em lugar algum.

Como escreveu Spencer Ackerman, do The Guardian,

[Edward] Snowden seria usuário do provedor Lavabit. Uma mensagem de e-mail distribuída por esse provedor e que se acredita que tenha sido enviada por Snowden convidava vários jornalistas para uma conferência de imprensa, em meados de julho, no aeroporto Sheremetyevo em Moscou.

E Glenn Greenwald, também do The Guardian, escreveu:

Glenn Greenwald
O mais assustador, sobre o fechamento do provedor Lavabit que os proprietários acabam de anunciar é que a empresa está proibida por ordem judicial, até de discutir as ordens judiciais que recebeu, o processo judicial que está construindo para defender-se e os procedimentos judiciais a que foi submetida. Em outras palavras, o proprietário da empresa, cidadão norte-americano, entende que seus direitos constitucionais e os direitos constitucionais de seus clientes estão sendo violados pelo governo dos EUA, mas foi proibido de falar sobre isso.

A decisão que Levison tomou em relação à própria empresa foi imediatamente tomada também por outra empresa provedora de serviços protegidos, sua concorrente, Silent Circle, a qual, ontem, 6ª-feira, divulgou a seguinte nota a seus usuários:

Desenhamos nossos serviços de telefonia, vídeo e texto (Silent Phone e Silent Text) para que fossem completamente protegidos de ponta a ponta, com total criptografia para os clientes, de modo a que a exposição dos dados a nós confiados fosse nenhuma. A razão é óbvia – nada arquivamos, porque, quanto menos informação arquivarmos, melhor para vocês e para nós.

Silent Mail, por isso, foi uma espécie de guardião para nós todos. E-mails que usem os protocolos padrão de internet de modo algum oferecem as mesmas garantias de seguranças que as comunicações em tempo real. Há muitos pontos de vazamento de informação e de metadados intrínsecos nos próprios protocolos de e-mail. Mensagens de e-mails, como as conhecemos, com SMTP, POP3 e IMAP não são nem podem ser seguras.

Por isso, sempre tivemos muitos clientes interessados e usuários. Silent Mail oferece garantias semelhantes de segurança também oferecidas por outros sistemas de e-mail, e sempre entendemos que seria serviço útil e valioso.

Mas nos vemos obrigados a reconsiderar essa posição. Já pensávamos há algum tempo sobre isso, se seria boa ideia. Hoje, outro provedor de serviços seguros de e-mail, Lavabit, anunciou que está deixando de operar, “para não ser cúmplice de crimes contra o povo norte-americano.” 

Entendemos a mensagem e decidimos que o melhor para nós e fechar também nossa empresa Silent Mail, agora. Não fomos intimados, não recebemos mandados judiciais, mensagens ‘da segurança dos EUA’ nem nada semelhante, de nenhum governo. Por isso decidimos agir agora.

Já há semanas estávamos discutindo esse assunto, e as mudanças planejadas começarão na próxima 2ª-feira. Consideramos desligar o serviço, mantê-lo só para os atuais clientes e inúmeras outras possibilidades, até hoje. Melhor prevenir que remediar, e decidimos que, em matéria da segurança da empresa, a pior solução seria nada fazer.

Silent Phone e Silent Text, com a prima Silent Eyes são empresas que oferecem serviços seguros de ponta-a-ponta. Não temos dados encriptados e não arquivamos metadados das conversações dos clientes. Essas empresas continuarão como até agora. Ainda trabalhamos para encontrar vias inovadoras para efetivamente proteger as comunicações. 

Silent Mail foi excelente ideia quando surgiu. Mas aquele tempo passou.

Pedimos desculpas por qualquer transtorno ou inconveniência que venhamos a provocar, e esperamos que todos entendam que, se insistíssemos, as inconveniências poderiam vir a ser ainda mais inconvenientes.

David Meyer
David Meyer, blogueiro tech e especialista em alta tecnologia e negócios, manifestou afinal publicamente, o pensamento que está em todas as conversas, ante o que os jornais continuam a publicar: sugeriu que o programa de vigilância total do governo dos EUA terá impacto terrível sobre toda a economia digital nos EUA, com clientes preocupados com a própria privacidade, os quais afinal começam a ver que não há como resistir contra a ação das agências de espionagem dos EUA.

O fechamento de várias empresas sugere que serviços de provedores de e-mails seguros absolutamente não podem ser mantidos em território dos EUA, sem serem ameaçados de terem de trair a confiança dos clientes, em qualquer caso que lhes seja ordenado pela autoridades norte-americanasescreveu Meyer em Gigaom. 


Josh Constine
O movimento agitou os críticos que estão, cada vez mais, se fazendo ouvir sobre como os esforços de vigilância do governo dos EUA põem sob risco todos os negócios norte-americanos de alta tecnologia. As empresas já temem o movimento de fuga de clientes internacionais que tratarão de levar seus negócios para outros países, no esforço para escapar da vigilância da Agência de Segurança Nacional. Jennifer Granick, diretora de Liberdades Civis do Centro Stanford Center para Internet e Sociedade, escreveu que “o governo dos EUA, em seu frenesi de espionar tudo e todos, pode acabar por matar nossa indústria mais produtiva. Lavabit talvez seja só o canário, na mina de carvão”.

O que agora se vê é que o impacto negativo da ação de espionagem da Agência de Segurança Nacional, contra cidadãos e empresas norte-americanas, não se manifestará apenas na perda de clientes ou em empresas que fecharão suas operações, antes de serem intimadas a entregar dados que receberam em confiança, como parte do próprio negócio.

A destruição já começa a alcançar todo um vasto setor da economia dos EUA. Hoje, a última esperança que resta, para que os EUA reformem suas práticas de espionagem interna, é que o país se dê conta de que a espionagem ilimitada fere já, gravemente, a própria economia dos EUA.
__________________________

[*] Jon Queally é editor senior do sítio Common Dreams desde 2007. Cobre vários assuntos como Política interna e externa dos EUA, Direitos Humanos e dos Animais, Mudança Climática, e outros. É também editor de opinião e trabalha diariamente na criação, seleção e gerenciamento de novos conteúdos.
Twitter: @jonqueally

domingo, 1 de janeiro de 2012

Hackers planejam lançar satélites contra a censura na rede


David Meyer

30/12/2011, David Meyer (editor de Tecnologia), BBC-Londres
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ver também

A comunidade hacker planeja pôr a Internet fora do alcance dos censores. Para isso, trabalham para pôr em órbita seus próprios satélites de comunicação. O esquema foi delineado no Congresso Caos de Comunicação, em Berlim, em agosto de 2011[1].

Os organizadores do projeto dizem que sua Rede Hacker-espacial Global [ing. Hackerspace Global Grid] também implica desenvolver uma rede de estações em terra, que fará a intercomunicação entre os satélites e as estações em terra.

Como projeto de longo prazo, trabalham para pôr na Lua um astronauta-hacker amador.

Sputinik - 50 anos depois hackers pretendem
colocar em órbita seu próprio satélite.
Amadores e aficionados já puseram alguns pequenos satélites em órbita – quase todos por curtos períodos de tempo –, mas o rastreamento dos satélites revelou-se difícil, para projetos de baixo orçamento.

Nick Farr, ativista hacker, lançou a primeira convocação, à procura de interessados em participar do projeto, em agosto. Disse que a ameaça crescente de censura à internet foi a principal motivação para esse trabalho.

“O principal objetivo é criar uma internet completamente incensurável, no espaço. Precisamos tirar a internet que conhecemos, do alcance dos censores. Para isso, é preciso pô-la fora do alcance das entidades terrestres que funcionam hoje” – disse Farr.

Além dos balões 

Farr lembrou a lei SOPA [Stop Online Piracy Act (Lei de Combate à Pirataria Online) nos EUA, como exemplo do tipo de ameaça que já existe contra a liberdade nas redes e na Internet. Se aprovada, a lei SOPA nos EUA permitirá que algumas páginas na Internet sejam bloqueadas, sob o argumento de que agridem direitos comerciais de autor.

Até agora, todas as ações e intervenções no espaço sideral têm sido prerrogativa de agências nacionais e de empresas gigantes de comunicação. Mas alguns amadores dedicados já puseram em órbita, recentemente, alguns pequenos satélites.

A Rede Hacker-espacial Global [ing. Hackerspace Global Grid][2]

Aqueles “satélites” já lançados foram postos em órbita com balões, mas é extremamente difícil rastreá-los da Terra.

Segundo Armin Bauer, 26 anos, de Stuttgart, que já trabalha no projeto da Rede Hacker-espacial Global, o principal problema são os custos do projeto.

“É perfeitamente possível rastrear os satélites a partir de bases em solo, mas em geral ninguém precisa fazer isso, porque, se você tem muito dinheiro [e usa um foguete para lançar um satélite e pô-lo em órbita], você já põe o satélite exatamente na órbita na qual você deseja que ele fique” – explicou Bauer.

Trabalhando com um prazo de 23 anos, já há a ideia de um projeto aero-hacker-espacial para pôr na Lua um hacker astronauta amador. Bauer explicou que

“É viável, mas muito ambicioso. Então pensamos: vamos começar por uma coisa menor”. 

A rede terrestre de rastreamento 

A conferência de Berlim foi a mais recente, organizada pelo “Chaos Computer Club”[3], grupo de hackers alemão que trabalha há décadas e já comprovou sua influência, não só entre os interessados em explorar ou em aprimorar a segurança dos sistemas computacionais, mas também entre amadores que exploram, como hobby, os limites dos equipamentos e programas de computação.

Quando Farr lançou sua convocação, à procura de interessados em trabalhar no projeto da Rede Hacker-espacial Global, Bauer e outros decidiram concentrar-se nos aspectos da infraestrutura de comunicação do esquema.

Bauer diz que os satélites podem garantir a comunicação, e ajudarão a pôr um amador no espaço sideral. Ele e sua equipe trabalham nessa parte do projeto com o grupo Constellation, iniciativa já existente na pesquisa aeroespacial alemã, que é, basicamente, uma rede interconectada de projeto de estudantes.

No espírito hacker, de sempre defender o código aberto, Bauer e alguns amigos tiveram a ideia de produzir uma rede de estações de rastreamento em terra, de baixo custo, que pudesse ser comprada ou produzida pelos próprios usuários.

Reunidas numa rede global, essas estações poderiam rastrear e localizar os satélites a qualquer momento, o que, ao mesmo tempo, tornaria mais fácil e daria mais confiabilidade à operação dos satélites, de enviar dados de volta à Terra. “É uma espécie de GPS ao contrário” – explicou Bauer.

“O GPS usa os satélites para calcular a exata localização de cada um de nós. O mesmo processo serve também para nos dizer onde estão os satélites. Podemos usar as coordenadas de GPS, mas também podemos melhorá-las, se tivermos pontos fixos, em locais perfeitamente localizados”. 

Armin Bauer
Bauer garante que a equipe já terá três protótipos de estações em terra, na primeira metade de 2012; e, no próximo Congresso de Comunicação do Coletivo Caos, em 2012, espera já poder mostrar alguns modelos em operação.

O equipamento será vendido, sem finalidades lucrativas. Bauer explica que “Nosso preço limite é 100 euros (£84) por estação em terra. É o que o pessoal nos disse que pode gastar para comprar a estação.” 

Complicações

Os especialistas dizem que o projeto do hacker-satélite é exequível, mas enfrentará limitações técnicas.

“Satélites de órbita terrestre de baixa altitude, como os que já foram lançados por amadores, não são fixos: eles se movem em órbita; em teoria, mudam de posição a cada 90 minutos” – diz o professor Alan Woodward do departamento de computação da University of Surrey.

“Não significa que não possam ser usados para comunicação, mas, obviamente, só por curtos períodos de tempo, só enquanto nós os vemos. É difícil ver como esses satélites poderiam ser ligados numa rede viável de comunicação, porque a comunicação aconteceria “com saltos”, mesmo que se reunisse uma constelação de estações de rastreamento em terra”. 

Esse problema pode ser evitado, se os hackers conseguirem pôr seus satélites em órbitas geoestacionárias acima do Equador. Com isso, os satélites acompanhariam o movimento da Terra e estariam como que imóveis, vistos da Terra. Mas isso criaria outro problema.

“Os satélites estarão tão distantes da Terra, que haverá atraso considerável na recepção dos sinais, o que pode interferir em alguns aplicativos de Internet” – disse o professor Woodward. – Mas ainda uma interessante dimensão legal no projeto, porque o espaço sideral não é governado por cada país “abaixo” dele. Por isso, sim, em teoria, o espaço sideral pode ser lugar ideal onde fazer prosperar todas as comunicações ilegais. O corolário, nesse caso, é que cada país tomaria a lei nas próprias mãos e neutralizaria os satélites.” 

A necessidade de construir conhecimento 

Até hoje, satélites foram considerados
caros demais para grupos amadores
Além da rede de rastreamento em solo, outros aspectos da Rede Hacker-espacial Global estão sendo explorados, entre os quais o desenvolvimento de novos objetos eletrônicos que possam sobreviver no espaço, e de veículos de lançamento, para começar.

Segundo Farr, o “único motivo” que inspira a ideia de uma Rede Hacker-espacial Global é o conhecimento. Diz que muitos presentes ao Congresso do Coletivo Caos lembraram que desde a Missão Apollo 17, em 1972, ninguém mais for posto em órbita terrestre.

“Essa comunidade [hacker] pode, afinal, dar algum sentido à ideia de pôr a humanidade de volta no espaço sideral” – disse Farr. – “Nosso objetivo é voltar ao ponto em que estávamos nos anos 1970s. Os hackers não entendem por que, se já tínhamos a tecnologia necessária para nos pôr no espaço desde antes de muitos de nós termos nascido, nunca mais voltamos para lá. Muitos se sentem ofendidos, excluídos”. 

Perguntado sobre se não os preocupam as implicações de segurança da ideia de haver hackers ativos também no espaço sideral, Farr disse que o único problema é “haver quem se interesse tanto por censurar nossa internet.” 

“Os hackers só se interessam por garantir informação livre e aberta” – acrescentou Farr.

– “Nós acreditamos que a comunicação é um dos direitos humanos básicos”. 



Notas dos tradutores
[1]  Veja o programa do “Encontro do Coletivo Caos, realizado em agosto de 2011.
[2]  Leia o Projeto e veja  uma lista de “tarefas abertas”, para quem se interesse em trabalhar junto com o Coletivo Caos.
[3]  Ver 14/11/2011, “30 anos de hacking político”.