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quarta-feira, 24 de outubro de 2012

EUA: eleições 2012: “Cada norte-americano que votar será um voto a mais contra ele mesmo”


24/10/2012, Paul Craig Roberts, Institute for Political Economy
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Deus ajude Obama e Romney, se algum dia tiverem de enfrentar debate real sobre questões reais, no centro acadêmico dos alunos de Oxford, a Oxford Union. Seriam massacrados.

Os “debates” eleitorais esse ano revelaram que não só os candidatos, mas o país inteiro, estão de costas, completamente, para todos os problemas reais e seus desdobramentos perigosos. Por exemplo, ninguém se interessa por debater o fato de que, agora, cidadãos norte-americanos podem ser presos e executados sem processo e sem julgamento. Basta, para pôr fim à liberdade e à vida de um cidadão dos EUA, que o próprio governo dos EUA decida exterminá-lo. E a decisão sai de algum ramo do Executivo, sem recurso possível.

Paul Craig Roberts
Sim, os norte-americanos, caso algum se dedique a pensar sobre isso, acreditam que esse tipo de execução só atinge terroristas que bem o mereçam. Mas, se não se exigem nem provas nem devido processo legal... como se pode saber se só acontece a terroristas? Pode alguém confiar em governo que iniciou guerras em sete países baseadas em mentiras? Se o governo dos EUA mente sobre existência de armas de destruição em massa, para invadir um país... por que não mentiria sobre quem é ou não é terrorista?

Os EUA precisam debater como, por que os norte-americanos estaríamos mais seguros agora que a Constituição já não assegura a todos, sequer, o direito ao devido processo legal. Se o poder do governo não é controlado pela Constituição, quem nos governa? Cesar? Os Pais Fundadores teriam por acaso ensinado que se pode, sem medo, entregar a um Cesar a nossa segurança? O que mudou tão completamente que, hoje, os norte-americanos confiam em césares?

Se vivemos sob tal risco de ser atacados por terroristas, a ponto de a Constituição ter de ser cancelada ou substituída por incontáveis Atos Institucionais, como é possível que tantos grupos terroristas sejam mantidos em operação pelo mundo, com dinheiro e assessoria que o FBI lhes dá? Em 11 anos, nenhum dos atos terroristas acontecidos nos EUA foram atos nos quais a iniciativa tenha partido de “terroristas”!

Nos 11 anos transcorridos desde 11/9, pode-se dizer que não houve atos de terrorismo nos EUA, ou foram mínimos. O que justifica(ria) a quantidade descomunal de dinheiro que o Departamento de Segurança Nacional consome? Para quê o Departamento de Segurança Nacional mantém equipes de Resposta Especial, todas equipadas com veículos blindados, como as que se veem em:HSI Using Armored Vehicles for Training (ICE), em treinamento? (Foto abaixo).

ICE training using armored vehicles

Quem são os alvos dessas unidades militarizadas? Se onze anos de assassinatos, assaltos, invasões, organizados e ordenados pelo governo dos EUA, além do deslocamento de milhões de muçulmanos arrancados de suas casas, não provocaram atos massivos de terrorismo em território dos EUA, por que o Departamento de Segurança Nacional está criando seu próprio exército doméstico armado? Por que não há investigações no Congresso? Por que não há debates televisionados sobre esses problemas? Como é possível que um governo cujo orçamento afunda-se cada dia mais no vermelho, assuma despesas de criação, manutenção e armamento de força militar não prevista na Constituição, não regulada por dispositivo constitucional e que não atende a qualquer necessidade prevista na Constituição?

O Departamento de Segurança Nacional, não se entende por quê, acaba de criar um Departamento da Juventude Nacional [orig. FEMA Corps], como se vê em: Welcome to the FEMA Corps Inaugural Class – que bem parece fachada para objetivo mais sinistro, uma juventude hitlerista made in USA, como sugerem várias páginas na internet. 


Os aumentos massivos nas compras de munição, pelo Departamento de Segurança Nacional, estarão relacionadas à recente criação de “corpos” nacionais militarizados, para jovens entre 18 e 24 anos? Como é possível que tudo isso aconteça diante de nossos olhos... E ninguém pergunta nada? E nada se debate?


Por que Romney não perguntou a Obama por que tanto trabalha para derrubar a sentença, emitida por corte federal, que impede que cidadãos dos EUA sejam mantidos encarcerados por tempo indefinido? Será porque Romney e seus conselheiros neoconservadores aprovam a ideia de manter prisioneiros sem lhes dar direito de ser julgados?! Nesse caso, por que tanto trabalho para trocar um tirano por outro?

Por que os EUA construíram uma rede de campos de concentração e de detenção de prisioneiros, para os quais estão contratando “especialistas em campos de concentração e detenção”, como se vê  no vídeo a seguir? 


Por que o exército dos EUA tem atualmente uma política para “implantação de programas de trabalho para civis presos e detidos em campos de concentração e detenção de prisioneiros civis, em instalações e prédios do Exército” como se vê em: Civilian Inmate Labor Program?

No vídeo a seguir lê-se matéria de Rachel Maddow, sobre o quanto Obama critica o regime dos neoconservadores Bush/Cheney por violarem a Constituição dos EUA e a legislação ordinária e, em seguida, propõe leis idênticas às que aquela dupla propôs.


Como é possível ter sido excluída dos debates a evidência de que há aviões-robôs, drones Predator, nesse momento, sobrevoando nossas casas e tetos aqui mesmo nos EUA? Qual o objetivo disso? Por que delegacias de política nas menores cidades do país, estão sendo equipadas com veículos blindados? Vi com meus olhos. Cidades floridas em comunidades muito pequenas ao norte de Atlanta, Geórgia, condomínios de casas MacMansions já têm vigilância privada militarizada com veículos blindados e armas automáticas. Equipes da SWAT, em uniformes de guerra, cobertos da cabeça aos pés andam por aí, por todos os cantos. Do que se trata? Comunidades rurais e semirrurais muito pequenas, onde jamais algum terrorista porá os pés, também já vivem armadas até os dentes. Vivem tão pesadamente armadas que poderiam ser mandadas à guerra, combater contra o 3º Reich ou o Exército Vermelho.

Todas essas perguntas põem por terra o pressuposto da perfeição moral dos EUA. É proibido debater. Afinal, se “é a economia, estúpido!”, por que não houve debate televisionado sobre economia?

Mês passado, o Federal Reserve anunciou seu “Plano 3”, QE3. Se QE1 e QE2 não funcionaram, por que alguém, inclusive o presidente do Federal Reserve, supõe que o QE3 funcionará?

Pois fato é que os totalmente irracionais mercados financeiros, que nada entendem de coisa alguma, a-do-ra-ram o QE3. Só pode ser porque esses mercados são regidos só por propaganda, boatos e desinformação, não por informações e fatos. O totalmente ensandecido mercado de ações é incapaz de tomar uma, que seja, decisão correta. As decisões são tomadas pelos doidos do mercado, operando sempre a curtíssimo prazo. A única via segura é seguir os lêmures. Essa estratégia garante que cada gerente de portfólio esteja sempre cercado de outros gerentes de portfólios e, assim, ninguém perde clientes.

Maravilhoso seria se Obama e Romney discutissem discussão real sobre como o tal Plano QE3, concebido para ajudar bancos insolventes e “grandes demais para quebrar” pode(ria) ajudar pais e mães de família, em que os dois trabalham, com renda real de há 45 anos – porque a renda real de famílias médias reais está hoje, nos EUA, nesse pé.

Como a salvação de um banco do tipo “grande demais para falir” ajuda(ria) uma família cujo emprego, ou cujos vários empregos foram exportados para China ou Índia para aumentar os lucros das grandes empresas, o desempenho dos gerentes e seus “bônus” e os dividendos dos acionistas?

Mais do que obviamente, os trabalhadores norte-americanos foram sacrificados no altar dos lucros dos mega ricos. Boa questão a debater pela televisão é: Por que os norte-americanos que trabalham foram sacrificados para aumentar os lucros dos mega ricos? Pois jamais se ouviu tal pergunta nos tais “debates presidenciais” televisionados.

No século 21, os cidadãos dos EUA tornaram-se não entes. São brutalizados pela Polícia sustentada pelos impostos que os cidadãos pagam. Os cidadãos, porque protestam contra alguma injustiça ou simplesmente porque protestam, são espancados, presos, atacados com choques elétricos e, até, assassinados. A Polícia, paga pelos cidadãos, espanca paralíticos em cadeiras de rodas, enquadram quem chame a Polícia para ajudar contra ataques de criminosos, atacam com choques elétricos até idosas e crianças de colo, atiram a sangue frio contra cidadãos desarmados que nada fizeram além de perder o controle sobre a própria vida, por causa do álcool, de drogas, ou da revolta ante a injustiça.

Norte-americanos vítimas de lavagem cerebral pagam impostos a todos os níveis do Estado para serem protegidos contra a violência gratuita, mas recebem, paga com o dinheiro deles mesmos, só violência gratuita contra eles mesmos. Todos os norte-americanos, exceto a meia dúzia de mega ricos que controlam Washington, podem ser presos e roubados de suas propriedades e de sua liberdade, sem causa alguma, bastando que alguém de dentro do Executivo deseje possuir a mulher do “acusado”, a namorada, os bens dele ou, simplesmente, acertar alguma “conta” ou afastar um rival, ou vingar-se de rival da escola, da universidade ou dos negócios.

Nos EUA, hoje, a lei só serve aos poderosos, não à justiça, não há lei nem qualquer justiça. Só o poder cego, sem controle.

Que sentido tem votar, se o resultado é sempre o mesmo? Os dois candidatos, em 2012, representam interesses de Israel, não dos EUA. Os dois candidatos representam interesses do complexo militar/de segurança, do agronegócio, das empresas exportadoras de postos de trabalho, a supressão dos sindicatos e dos trabalhadores, o total desrespeito às liberdades civis e à Constituição dos EUA, exatamente o que faz um Executivo com poder sem contrapeso.

Nos EUA hoje só o dinheiro manda. Nada o confronta ou lhe põe freios. Por que votar e, pelo voto, apoiar e legitimar que continuem a explorar os próprios eleitores? Cada norte-americano que votar será um voto a mais contra ele mesmo.

Pepe Escobar: No reino dos EUA “excepcionais”


24/10/2012, Pepe Escobar, Asia Times Online  - The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Pepe Escobar
SAN FRANCISCO – Make my day, punk. Harry, o sujo  [1] – e respectivo clone – lá estavam, em horário nobre, no debate sobre “política externa” em Boca Raton, Florida, na 2ª-feira. Mas, às vezes, a coisa parecia mais ensaio trash de “American Idol”, que ode deslavada ao Excepcionalismo Americano.

Tratou-se ali, o tempo todo, só da “única potência mundial indispensável” (presidente Barack Obama), o monstruoso complexo militar-industrial-congressional-midiático bipartidário pairando sobre tudo e todos, como aqueles demônios medievais dos afrescos nascidos da imaginação dos gênios do Renascimento italiano. Tudo ali falava da Projeção Imperial dos EUA – uma espécie de efeito megaespecial vendido como se fosse luz & mágica inocentemente high-tech.

Obama e o Robô camuflado de Produto (ou o contrário) Mitt “Pastas cheias de mulheres” Romney nos dronaram, os dois perfeitamente de acordo sobre dronagem & guerra clandestina e Afeganistão, com pequena discordância sobre o Irã e o Oriente Médio Expandido. Nada de o patético moderador Bob Schieffer fazer perguntas difíceis, nada de pressionar sobre detalhes, nada de forçar para arrancar fatos dos “debatedores”. Bob Schieffer poderia ter ficado em casa assistindo ao jogo dos San Francisco Giants. No que tenha a ver com os EUA, dará na mesma se elegerem um drone para a Casa Branca.

Ainda no tema San Francisco: assisti ao debate numa casa fantástica, em Marin, com o radialista-star e ativista político Peter Collins, nós dois tão furiosos com o teatro do absurdo – que teria sido aprovado pelo mestre patafísico Alfred Jarry – que a cada dois minutos parávamos a transmissão, para protestar ou rugir de tanto rir.

Eu poderia ter dado uma de [Allen] Ginsberg e saído às ruas plácidas de San Anselmo, tarde da noite, faminto, histérico, pelado, à caça de uma dose de verdade. Mais, talvez, para Jimmy Stewart em Vertigo – exceto ser consolado por Kim Novak. Ou talvez pudesse pegar meu Errantemóvel, entrar numa de Bullitt  [2] e meter o carro num muro de No Expectations [3].  Nã-nã-não. A coisa aqui está mais para tiroteio à moda de Harry, o sujo: um punkão punkando outro punkão [4].

 Debate de 22/10/2012: Mitt Romney versus (?) Barack Obama 
Podia-se ver – e sentir – o cérebro de Romney rodando, ah! mas que dificuldade, para processar e enunciar aqueles fatos todos, sobre os tais países, ah, tão distantes, sem sinal, sequer, de que soubesse por que, droga, iniciara a frase. E isso é candidato a presidente que foi preparado, super preparado, hiper, over huber-preparado, não por só alguns meses, mas por nada menos que seis anos!

Com o presidente Obama confortavelmente instalado em seu papel de “Harry, o sujo” – e ali não era caso de cadeira vazia no palco – Mitt começou a suar profusamente e entrou em modo-surto, se não em modo-fracasso-terminal-total. Sua lenga-lenga sobre o Paquistão manterá ativada a brincadeira lá, nos serviços secretos do Paquistão, em Rawalpindi/Islamabad, por muitos anos.

Romney obviamente não estava suficientemente preparado para fazer a meia-volta-volver-total conceitual que o mandaram fazer, de falcão extremista para pomba centrista e mostrar-se – como disse e presidente do Comitê Nacional Republicano, Reince Priebus, como se fosse homem “inteligente, razoável”. Robôs, quem sabe, sonham com eleições elétricas?

O melhor que Romney conseguiu oferecer foi um “Não sou George W Bush” coreografado mal ensaiado. Ok, mas a geografia é problema tão completamente insuperável para ele, como é para Dubya/Dábliu. Os EUA – e o mundo – já sabem que “a Síria é o único aliado do Irã no mundo árabe. É a saída deles para o mar”. Quanto ao Golfo Persa, evidentemente é invenção pirada do Irã-do-mal, feito a bomba deles. Mas a coisa da “saída para o mar” – alguém aí sabe o que pensam disso Iraque e Turquia? – prosseguiu, por bom tempo.

Depois, um alto conselheiro de Romney sugeriu que “a Corte Mundial” devia prender o presidente iraniano Mahmud Ahmadinejad do Mal, como Romney sugeriu (“Devia ser condenado nos termos da Convenção do Genocídio”) e, assim, decapitar a cobra – para usar metáfora especialmente cara à Casa de Saud. Os conselheiros de Romney acreditam sinceramente que Ahmadinejad comande o show em Teerã.

Mas... E por que esperar coisa melhor? Romney passou 48 horas em contato direto, ininterrupto com Dan Senor, exemplar vivo da mais oceânica mediocridade de que há notícia por aqui, ex-porta-voz da infame Autoridade Provisória da Coalizão [orig. Coalition Provisional Authority (CPA)] de Paul Bremer, em Bagdá. Qualquer comandante Talibã analfabeto seria melhor professor.

Cruzeiro marítimo. Alguém interessado?

Mitt repetiu incansavelmente que a Rússia é a mais perigosa “ameaça” aos EUA. Não, a Guerra Fria não morreu: permaneceu em conserva criogênica. Ora... Se tomou uma surra até do professor Barack, melhor que Mitt não se meta a besta com Vladimir “Judoca Faixa Preta” Putin.

A “visão” de política externa de Romney resume-se a assediar “nossos amigos” e obrigar “nossos inimigos” a deitar-virar-os-olhinhos-e-morrer. Podem desistir: Mitt jamais explicou ou explicará como conseguirá fazer guerra ao Irã – nem quem pagará a despesa (Pequim já disse que “o cartão de crédito de vocês não foi aprovado”).

Podem esquecer também: o tal “Oh! Como ele é moderado!” moderador nem cogita de fechar sequer um, que fosse, dos mais de 900 postos e bases norte-americanas do “Império Mundial de Bases”. Mitt nunca chegará nem perto de pensar – só por pensar, que fosse – que haja alguma conexão entre zero-guerras no “arco de instabilidade” e mais dinheiro para investir na educação e na infraestrutura decadentes nos EUA.

Meu amigo Vijay Prashad, autor de Arab Spring, Libyan Winter [Primavera árabe, inverno líbio] e do inestimável The Darker Nations: A People's History of the Third World [As nações mais escuras: uma história do povo do terceiro mundo], comentou aspecto crucialmente importante. Vijay pensava sobre

....o resto do mundo – no Irã, eram 4h da madrugada, quase 6h da madrugada na Índia... Quanta gente acordada em vários países para assistir aos debates. Imaginem assistir àquele debate, do ponto de vista deles. O que viam ali nunca passou de sadismo à guisa de política externa. Nunca pararam de falar em “incapacitar”, “reduzir”, “esmagar”. Ora... nenhuma diplomacia do mundo jamais falou aquela linguagem! O tom foi de agressão. Foi tom de que fixa uma agenda segundo a qual ou o Irã faz o que os EUA mandam, ou sofrerá consequências. Ninguém, naquele debate dava sinal de saber que o outro lado – Afeganistão, Índia, Paquistão – parceiros regionais dos EUA, mantêm laços muito profundos com o Irã.

De minha parte, pensava no Grupo 1, na Liga Superior, nas reações dentro do Zhongnanhai em Pequim e no Kremlin. O pessoal ali conhece o tipo de Partido da Guerra unificado com o qual tem de lidar – e terão (obrigatoriamente) de responder à altura.

Seja como for, em poucos dias Washington terá três porta-aviões a infernizar o Irã, em águas marítimas que, segundo Mitt Romney, não existem (o Irã tem de passar pela Síria para ver o mar, remember?). Quer dizer: voltamos ao ponto de faça-o-que-mando ou faça-a-pista (por mar?).

Sobre estadistas e construção de estados, esqueçam. Detalhes e nuances diplomáticas, esqueçam também. Ocontinuum Bushobama reina inabalável. O Irã não passa de um bando de mulás criminosos – e vamos derrubá-los, seja como for. É uma República Moderna em ação. Make my day, punk.

Tanto som e fúria... E, dia seguinte, tudo já estava esquecido. Restou sensacionalismo de tablóide e bobagens sobre quem usou a melhor gravata e as melhores respostas tipo bateu-levou.

Harry, o sujo, e seu clone, de fato, não estão dando a mínima. De volta ao batente, o empate persiste e só interessa, mesmo, a opinião daquelas senhoras indecisas de Ohio.

Collins, que tem vasta experiência de campanhas políticas, disse que “eleição muito apertada: pronta para ser roubada”. E, como se não bastasse, o que, diabos, os eleitores indecisos de Ohio entendem de saída do Irã para o mar?



Notas de rodapé
[1] Orig. Dirty Harry. É título de filme de 1971 (Perseguidor Implacável no Brasil; A Fúria da Razão em Portugal), dir. Don Siegel, no qual Clint Eastwood interpreta pela primeira vez o detetive Harry Callahan. O bordão do personagem (“Make my day, punk”) pode ser traduzido como “me ajude a ganhar o meu dia”, no sentido de “pisque um olho, mova um dedo, e eu adorarei matar você” [NTs].
[2] Bullitt (também no Brasil), Filme de 1968, estrelado por Steve McQueen.
[3]  No expectations, dos Rolling Stones, 1968.
[4] Orig.: Dirty Harry-style shootout. A punk out-punking a punk. Tradução arriscada, tentativa. Todas as correções e comentários são bem-vindos [NTs].

terça-feira, 23 de outubro de 2012

EUA-2012: O falso debate sobre política exterior


23/10/2012, Michael Brenner, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

A verdade é que o Irã foi declarado estado pária nos EUA, e está sob sanções pesadíssimas, apenas porque perdeu um prazo no processo de apresentar documentos à Agência Internacional de Energia Atômica, AIEA, documentos que, embora com atraso, foram apresentados e considerados regulares. É uma espécie de caso Al Capone (que os EUA condenaram por evasão de impostos – não por seus muitos crimes de assassinato, extorsão, jogo, tráfico etc.) ao contrário, porque o Irã jamais foi acusado de outro “crime” além do “crime” de ter atrasado a entrega de alguns documentos.
Por tudo isso, por que os cidadãos norte-americanos nos deveríamos dar por satisfeitos com um falso debate sobre “táticas” para derrotar um regime suposto-bandido, suposto-criminoso, suposto-hostil e suposto perigosíssimo?

Michael Brenner
O que se aprendeu ontem, do debate entre candidatos à presidência dos EUA, sobre política exterior? Nada de específico, nada que tivesse qualquer conteúdo ou substância. A China sequer foi lembrada durante a primeira hora de debate. Não surpreende – por três razões. São debates mais para apresentação “coreografada” de candidatos, que ocasião para declarações ponderadas (sequer para declarações sinceras!) das posições e ideias de cada um sobre questões internacionais. As palavras são usadas para projetar imagens que ressoem entre os eleitores, ou para “ganhar pontos”, não para ilustrar, para iluminar ou para persuadir pela inteligência. E assim se torna absolutamente impossível tratar, nas circunstâncias desses debates-circos televisionados, com alguma consistência, dos problemas complexos, das complexíssimas negociações e dos reais perigos aos quais está necessariamente exposto quem se proponha como única “potência mundial indispensável”.

Debate Romney (E) versus Obama (D) (22/10/2012) Política Exterior
Essa tendência é ainda mais reforçada, nas eleições de 2012, pela evidência de que nenhum dos candidatos sente-se confortável no trato de assuntos internacionais. Os saberes de Mitt Romney, nessa especialidade, cabem em meia casca de noz; só repete clichês, o que é sinal sempre eloquente de falta de capacidade para tratar temas complexos, baixa inteligência ou desinteresse – e, isso, apesar de já se estar preparando para ser presidente há, no mínimo, seis anos. Dizer que a Rússia seria a maior ameaça que pesa hoje contra os EUA é coisa de cabeça petrificada, que parou no tempo há 30 anos, no mínimo.

Quanto a Barack Obama, o tempo que habitou a Casa Branca deu-lhe a experiência de sobreviver a quatro anos cheios de surpresas e novidades, mas deixou-o absolutamente sem projeto estratégico ou qualquer noção ponderada do que sejam, hoje, os interesses dos EUA. Obama é especialista em escapar, com ginga, dos golpes. Assim prossegue, saltitando sobre a superfície das relações internacionais dos EUA.

Assim também, Obama reproduz o velho padrão das elites políticas norte-americanas, inigualáveis, no planeta, quando se trata de não ver e de ocultar os fracassos norte-americanos (Iraque, Afeganistão), sempre à procura de estrada que não leve a lugar algum, onde as mesmas elites consigam implantar fantasias e delírios novos ou requentados, cujos slogans novidadeiros mascaram a nenhuma novidade e o nenhum rumo (para hoje, inventaram a Guerra Global ao Terror); sempre impulsivas, aquelas elites, convidando para alguma próxima guerra (hoje, convidam para a guerra ao Irã); sempre cegamente confiadas, aquelas velhas elites políticas, na fé cega de que EUAs “excepcionais” cumprem destino traçado por Deus e sempre liderarão o mundo.

Nem Obama nem Romney preocuparam-se com oferecer qualquer detalhe de precisão, qualquer qualificação, qualquer nuance crítica – sequer alguma nuance explicativa! – desse simulacro de visão histórica da história dos EUA que ensina (ria) que os EUA “devem” governar o mundo. Obama, no “Discurso do Estado da União”, em janeiro de 2012, anunciou, sem qualquer atenção aos fatos, que “America is back!” [aprox. “os EUA voltaram ao jogo!” Foi frase cunhada nos governos Reagan (1981-1989) (NTs)]. Esperava, com o anúncio, estabelecer para sempre o seu próprio reinado indiscutível, ‘rei do pedaço’, depois de vencer algumas escaramuças com gangues rivais em becos pelo mundo, todos bem distantes de Washington. E assim continuamos, os EUA, a fazer exatamente a mesma coisa, disputando escaramuças pelos becos do mundo, sempre contra adversários pobres, até hoje. É exatamente o que estamos fazendo hoje. E nenhum dos candidatos soube dizer sequer uma palavra sobre o quanto essa movimentação sem propósito nem rumo, sempre bélica, arranha o status e compromete a influência que os EUA tenham (se ainda tiverem) no resto do mundo.

Obama jamais diz palavra, tampouco, sobre o que o tal “excepcionalismo” significa em termos de mais sacrifícios para o povo dos EUA e outros povos, sobretudo quando seu governo cogita de novas intervenções do Oriente Médio Expandido. Jamais diz palavra, silêncio absoluto, sobre o quanto os norte-americanos teremos ainda de pagar por tantas guerras.

Romney, por sua vez, zomba do presidente pelo suposto pecado mortal de considerar a possibilidade de negociar com governos mais fracos (no caso presente, com o Irã) e dá seu show preventivo de músculos & armamento pesado, e fala de como tem planos para fazer & acontecer contra a China. Mas não diz palavra sobre o $1,2 trilhão do Tesouro dos EUA, bem guardado nos cofres chineses; finge que não existem.

Obama estava obrigado a não dizer mais do que o mínimo do que poderia ter dito, porque ainda carrega a responsabilidade de conduzir as relações externas dos EUA por, no mínimo, mais três meses. Por isso, teve de evitar respostas específicas sobre questões hoje em curso, o que se pode entender.

Mas... e Romney?! Romney deu-se por liberado de qualquer responsabilidade presente ou futura. Sentiu-se livre para dizer o que lhe viesse à cabeça. Sentiu-se livre para criticar Obama por uma suposta disposição para negociar diretamente com os iranianos. Sequer pensou, por um segundo, que qualquer ato do governo Obama nessa direção abriria vasta avenida para negociações futuras, que muito beneficiariam, também, se algum dia acontecerem, algum possível governo Romney.

O que, nesse ou em qualquer outro mundo, levaria alguém a acreditar que o que sai pela boca de Mitt Romney quando fala em público representaria alguma convicção refletida, se Romney é homem que se contradiz e desmente-se, que se desdiz a cada frase, homem capaz de dizer absolutamente qualquer coisa e também o contrário?!

Romney tem mentalidade de investidor/batedor de carteiras, de bucaneiro sem lei, que, hoje, só tem um objetivo: entrar na Casa Branca. Romney porá suas fichas políticas em qualquer buraco que encontre, com ares de lhe render algum lucro, com vistas àquele seu único objetivo.

Bill Keller escreveu na 2ª-feira, no The New York Times, antes do debate, sobre “o que Romney pode dizer, como comandante-em-chefe em que o país pode confiar”. [1]

Aí está, precisamente aí, o xis do problema: para que o eleitor consiga saber se Romney algum dia poderia ser comandante-em-chefe confiável, o eleitor teria de ouvir manifestação clara, objetiva, sem encenações de “midia training”, do pensamento de Romney. A ninguém interessa assistir a manifestações-shows da capacidade de Romney para repetir frases que leia nos jornais ou que o obriguem a decorar, em substituição a qualquer ideia própria que Romney não dá sinais de ter.

Mas o problema é que, nos EUA, já ninguém sabe ver qualquer diferença, nem a importância da diferença entre mentir total e absolutamente aos cidadãos e não mentir, não, pelo menos, tão desmesuradamente quanto Romney: nem quantidades imensas de cidadãos, nem jornalistas afamados, supostos analistas e observadores espertos!

Em campanhas eleitorais, pode estabelecer-se guerra quase suicidária entre o que pense o candidato e o que pensem os conselheiros que o cercam. Mas também pode acontecer de a harmonia-de-repetição ser perfeita, total. Romney optou por cercar-se de toda a caixa de Pandora das pragas que Donald Rumsfeld, antes, oferecera a Rick Perry. São os sócios fundadores da gangue que governou os EUA durante o governo Bush, a mesma gangue que arrastou o país à tragédia e à ruína no Iraque.

E fato é que Romney passou o final de semana trancado com Dan Senor seu principal mentor político de campanha. Senor foi porta-voz de L. Paul Bremmer III na “Zona Verde”, conhecido então como possível sucessor do “Baghdad Bob” e por seus supostos vastíssimos conhecimentos de “política exterior”. [2]

Mas há também razão mais profunda que explica o modo vicioso como toda a campanha eleitoral e os dois candidatos tratam das grandes questões internacionais.

Os dois candidatos partilham a mesma idêntica inabalável certeza de que os EUA devem continuar a agir, pelo mundo, como se fossem a última e melhor esperança para a salvação da humanidade. Porque creem nesse postulado de fé, os dois candidatos dispensam-se do dever de dizer coisa com coisa aos cidadãos e dispensam-se, inclusive, do dever de dizer claramente quais, afinal, seriam os tais “interesses dos EUA” cuja “defesa” tanto custa, em vidas e em dinheiro, ao povo dos EUA. Tampouco se sentem obrigados a conciliar aqueles seus tais ambiciosíssimos interesses, apresentados aos eleitores como se fossem interesses dos EUA, com os limitadíssimos recursos do país. Nem dão qualquer atenção à urgente necessidade de reaprender, para voltar a usá-las, as artes da diplomacia. São artes absolutamente indispensáveis a quem busque a paz e a reconciliação, muito mais que guerras sem fim, miséria sem fim para os norte-americanos e degradação diária, continuada, do mais valioso patrimônio que os EUA algum dia tiveram para mostrar ao mundo: o prestígio da democracia norte-americana e alguma autoridade moral.

Pois nenhum dos dois candidatos, no debate de ontem, deu qualquer sinal de qualquer atenção à dura nova realidade dos EUA. Provavelmente entendem que dizer coisa com coisa e não mentir tão vasta e completamente seria suicídio eleitoral. Além disso, nenhum dos dois refletiu, de fato, sobre qualquer coisa, sobre implicações do que digam ou façam; nem, muito menos, cuidaram de oferecer qualquer pensamento mais sólido aos cidadãos.

Então lá ficaram, os dois candidatos... metendo goela abaixo dos eleitores um amontoado de rematadas tolices; ou só frases feitas, pensadas, exclusivamente, para nada dizerem; e nenhuma conclusão de coisa alguma. Disso se fez o debate de ontem: de nada. Fez-se, sobretudo, de nenhum respeito decente ao pensamento e à inteligência dos cidadãos dos EUA. 

É revelador também que o debate tenha começado com conversa sobre o ataque ao consulado dos EUA em Benghazi, Líbia. A questão era encontrar culpados. É fazer da política e da guerra tema de romance ou novela, tratar assuntos de guerra e política como se fossem ficção de entretenimento. Criar suspenses, atrair audiências. Ora essa! Os EUA meteram-se em guerras, literalmente, em todos os pontos mais violentos do mundo, os quais, se já não eram violentos, tornaram-se violentos depois de os EUA armados aparecerem por lá, invadindo e ocupando. Nessas circunstâncias, é claro que norte-americanos correm riscos, podem ser feridos e mortos. Por que alguém esperaria que os norte-americanos que estivessem nos últimos tempos em Benghazi, Líbia, devessem ter ou tivessem algum tipo de imunidade? Não temos imunidade alguma. Muitos norte-americanos estão morrendo nas guerras em andamento. Aí está uma verdade clara, que o debate não trouxe ao palco. Ao contrário: o debate ajudou a escondê-la.

São profundas as implicações práticas de insistir no excepcionalismo dos EUA. No caso do Irã, por exemplo. O fracasso (muito provável) das sanções como instrumento para forçar a República Islâmica a ajoelhar-se e render-se ao que os EUA desejam já praticamente sem dúvida alguma arrastará os EUA para mais guerras – uma guerra cujas repercussões farão Iraque e Afeganistão parecer incidentes sem importância (exceto, como sempre, para os mortos e suas famílias).

Pois nem a ameaça de nova guerra e guerra terrível que pesa sobre os EUA foi suficiente para que um – um só dos candidatos, que fosse, um, pelo menos! – introduzisse, no debate, o tema da paz: os dois candidatos só fizeram repetir e repetir frases feitas sobre “a ameaça iraniana” e o risco de “os mulás” virem a ter bomba atômica. O que se viu no debate foi absoluta concordância a favor de mais guerra – embora haja diferenças “espetacularizadas”, quase que só cenográficas, nas táticas.

É compreensível que assim seja, porque essa foi a visão construída e divulgada para os EUA pela máquina de propaganda dos dois presidentes – de Bush e de Obama – já há uma dúzia de anos. Essa máquina de propaganda domina completamente a imprensa, todos os veículos e meios, os centros de estudos e pesquisas, os think tanks e os políticos em geral. Quando reina a opinião única, praticamente já ninguém se dá conta de que a tal opinião única pode não passar de um amontoado de tolices ou de um amontoado de mentiras.

Debates políticos televisionados têm de ser tratados como coisa mais séria. Também os postulados de fé da opinião única (que é opinião única também entre jornalistas e especialistas acadêmicos) têm de ser objeto de discussão.

Afinal, depois do desastre que foram as “conclusões técnicas” e as “opiniões de especialistas” e as “avaliações jornalísticas” que arrastaram os EUA para o Iraque, já parece mais que justo, adequado e oportuno que os cidadãos exijam melhores debates, que se alimentem de e ofereçam ao público melhores “conclusões técnicas”, melhores “opiniões de especialistas” e melhores “avaliações jornalísticas”. Por que tantos ainda insistem em arrastar os EUA para mais guerra? O que se viu no debate de ontem prova que essa pergunta permanece sem resposta.

Os dois candidatos concordavam 100% com a ideia de que o Irã “é” estado criminoso. Isso é delírio! Não há lei em lugar algum do mundo, nem da ONU nem de qualquer organização reconhecida, segundo a qual o Irã pudesse ser definido como estado criminoso.

Até hoje, o Irã só foi acusado e condenado por uma infração técnica de algumas das obrigações que teria como signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear, quando o Irã deixou de informar a Agência Internacional de Energia Atômica sobre uma etapa de suas atividades nucleares – e eram atividades civis. Logo depois de autuado, o Irã atualizou as informações que devia à AIEA; e sua situação voltou a ser absolutamente regular.

A verdade é que o Irã foi declarado estado pária nos EUA, e está sob sanções pesadíssimas, apenas porque perdeu um prazo no processo de apresentar documentos à AIEA, documentos que, embora com atraso, foram apresentados e considerados regulares. É uma espécie de ‘'caso Al Capone'’ (que os EUA condenaram por evasão de impostos – não por assassinato, extorsão, jogo, tráfico etc.) ao contrário – porque o Irã jamais foi acusado de outro “crime” além do “crime” de ter atrasado a entrega de alguns documentos.

Por tudo isso, por que os cidadãos norte-americanos nos deveríamos dar por satisfeitos com um falso debate sobre “táticas” para derrotar um inexistente regime suposto-bandido, suposto-criminoso, suposto-hostil e suposto perigosíssimo?

Muito melhor do que nos pormos a discutir aquela encenação, é tratarmos de discutir o que se pode ainda fazer para evitar guerra cataclísmica. Entre as poucas possibilidades que ainda restam sempre há a possibilidade de tentar um acordo, em termos que satisfaçam os dois lados e não apaguem do mundo as legítimas preocupações do Irã com sua própria segurança. Por que essa solução não poderia ser sequer citada?! Por que não serviria?!

Ninguém que entenda que líderes de repúblicas democráticas têm o absoluto dever de ser claros e explícitos sobre os porquês e os para quês de arrastarem os EUA para novas guerras que não interessam a nenhum cidadão norte-americano pode declarar-se satisfeito com o que foi impingido ontem à noite a toda a nação norte-americana, como se fosse debate sobre política externa.



Notas de rodapé

[1]  21/10/2012, NYTimes, Bill Keller em: Presidential Mitt

[2]  Há vídeo-matéria sobre ele, de 22/9/2012, Crooks & Liars,  em: Mrs. Greenspan Gives Bush's Baghdad Bob, Dan Senor Time to Pretend He's Credible on Foreign Policy [NTs] a seguir: