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sábado, 11 de abril de 2015

Os Mitos do Excepcionalismo dos Estados Unidos da América


Excepcional na saúde, na educação e no sistema de aposentadoria?


8/4/2015, [*] Jack RasmusCounterpunch
Exceptional in Health, Education & Retirement?
Traduzido por Emex, que nos ajuda do Canadá
Enviado pelo pessoal da Vila Vudu





Um dos elementos da ideologia cultural nos Estados Unidos reza que este país é, de alguma forma, excepcional comparado a outros; uma excepcionalidade positiva em vários aspectos, que distingue os Estados Unidos de todos os outros países.

Excepcional na saúde, na educação e no sistema de aposentadoria?

De forma um tanto perversa, há algo de verdade nisso. Os Estados Unidos são excepcionais no sentido em que é a única economia avançada no mundo que não consegue fornecer atenção médica universal para seus cidadãos.

Este país tem um sistema de saúde imensamente parasitário, concebido para fazer dinheiro, dominado por companhias de seguro multibilionárias que sugam US$ 1 trilhão por ano dos bolsos dos consumidores estadunidenses só para burocracia, e por cadeias de hospitais-empresa que sugam mais US$ 900 bilhões por ano.

Neste sistema, que tem o pessoal médico mais bem pago do mundo, companhias farmacêuticas cobram US$ 94 000 dólares por medicamentos para tratar alguém com hepatite C (ou seja, US$ 1.125 dólar por comprimido) e cobra de pacientes de US$ 4.000 aUS$64 000 por mês por drogas contra o câncer. Os Estados Unidos gastam mais de US$ 3 trilhões por ano com seu sistema de saúde, e essa despesa continua aumentando.

Isso significa 18% de um PIB anual de 17,4 trilhões de dólares; de cada 5 dólares gastos seja em que for, quase 1 dólar terá sido gasto com o sistema de saúde. É a maior despesa em sistema de saúde do mundo industrial. E o resultado desse gasto maciço é que este país ocupa o 39º lugar em mortalidade infantil, o 42º lugar em mortalidade adulta e o 36º lugar em esperança de vida. Sim, os Estados Unidos são um país excepcional no que tange ao sistema de saúde.

E também é um país excepcional quanto à educação. Super endividados, seus universitários vêm se tornando servos da ordem social da saúde, controlada por banqueiros e administradores super-remunerados; essa dúvida supera os US$ 1,1 trilhões só no ensino superior, a maior dívida educacional per capta do mundo.

Quatro anos de faculdade custam entre US$ 30.000 e US$ 60.000, ou seja, estamos falando apenas da graduação. E já não há mais significativos programas de capacitação profissional para aqueles que não podem pagar uma faculdade.

Enquanto isso, 70% dos professores universitários são trabalhadores precários, recebem salários miseráveis e não têm benefícios sociais. Isso também é “excepcional”, suponho.

Os trabalhadores estadunidenses são os que têm as maiores jornadas de trabalho do mundo industrial, as férias mais curtas (em média 7 dias por ano) e paira sobre eles a ameaça da miséria quando se aposentem ou não mais possam trabalhar.


As pensões da seguridade social alcançam uma média de apenas US$ 1.100/mês; as poupanças–aposentadoria privadas (chamadas planos 401k) alcançam em média menos de US$ 50.000/ano no caso dos trabalhadores na faixa dos 60 anos ou em vésperas de se aposentar; a maioria dos trabalhadores estadunidenses vive na base do cheque especial e não têm poupanças. Não é de espantar que o segmento da força de trabalho estadunidense que mais cresce é formado de idosos entre 65 e 74 anos, já que muitos aposentados voltam a trabalhar para que possam chegar ao fim do mês.

Entre os países de economias avançadas, os Estados Unidos têm a mais extrema e crescente desigualdade de renda. Os executivos das corporações estadunidenses recebem em média 400 vezes mais que a média dos trabalhadores da empresa (em 1980, recebiam “apenas” 35 vezes mais). É a maior disparidade de renda do mundo industrial.

O riquíssimo 1% dos lares (praticamente todos especuladores) ganhou não menos de 95% de todo o crescimento da renda líquida nos Estados Unidos desde 2010. Contraponha-se isso aos 65% durante os anos George W. Bush, 2001-2007, e aos 45% durante o período Clinton nos anos 90. É bem verdade que isso não é uma exceção à regra, já que o pagamento da força de trabalho vem declinando consistentemente tanto na Europa quanto no Japão.

Os trabalhadores estadunidenses têm apenas 6 meses de seguro-desemprego com menos de um terço de seus salários. Já os trabalhadores alemães têm dois anos de seguro-desemprego e recebem treinamento profissional para sua reinserção laboral. Sim, mas os Estados Unidos têm mais porta-aviões que os alemães!

Sim, os Estados Unidos são um país excepcional. Seus trabalhadores são os mais enfermos, endividados, sobrecarregados, inseguros e os mais temerosos pelo futuro em todo o mundo industrial desenvolvido.

Os Estados Unidos também são um país excepcional na medida em que tem mais gastos militares que todas as economias desenvolvidas somadas. O verdadeiro “orçamento de guerra” dos Estados Unidos alcança US$ 1 trilhão anuais, mais que os anunciados US$ 650 bilhões para o Pentágono, embutidos de diversas formas em seu orçamento econômico anual. Os Estados Unidos têm mais de 1000 bases militares em todo o mundo e supera amplamente qualquer outro país do mundo em envolvimentos bélicos; e ainda espia seus próprios cidadãos e cidadãos de outros países, muito mais que todas as arapongas do mundo somados. São os Estados Unidos “excepcionais”? Pode apostar que são mesmo.

O mito do excepcionalismo econômico estadunidense

Outra alegação frequente para o “excepcionalismo estadunidense” é sua economia.
O Japão está provavelmente em sua quarta recessão desde 2009. A Eurozona oscila entre recessões de dois em dois anos. Mas a economia estadunidense está plenamente recuperada. É o que nos dizem. E ela está crescendo maravilhosamente, enquanto o resto do mundo fica pra trás. Ou pelo menos é assim que reza a cartilha ideológica.


Os “execepcionalistas” gostam de referir-se às taxas de crescimento do PIB do último verão de 2014, à criação de 200 mil empregos por mês e ao crescimento ininterrupto do mercado de ações e obrigações como provas evidentes do tal excepcionalismo. Mas quando olhamos de perto os tão propalados 5% de crescimento do PIB do terceiro semestre de 2014 e os dados mais recentes do começo de 2015, vemos que não há nada de excepcional na economia estadunidense.

No longo prazo, ela cresce apenas a metade do que crescia nas décadas passadas.  
Nos últimos seis anos, taxas trimestrais de 4-5% são seguidas, meses depois, de desmoronamentos do PIB e até de resultados negativos. Com efeito, isso aconteceu quatro vezes desde 2009, caracterizando uma recuperação econômica ioiô: primeiro semestre de2011, quarto semestre de 2012, primeiro semestre de 2014 e tudo indica ser o caso para o primeiro semestre de 2015.

O ioiô econômico estadunidense, sua trajetória de gangorra, nada tem de especial ou excepcional. O mesmo tem acontecido na Europa e no Japão, onde os níveis mais baixos são semelhantes ou inferiores àqueles verificados na economia estadunidense nos últimos cinco anos. Se o crescimento econômico estadunidense atinge picos de cerca de 4% ocasionalmente, desmoronando em seguida para 0% ou menos, a média de crescimento dos últimos 5 anos tem sido de 1.7%. Isso é a metade da média normal de crescimento após períodos de recessão. Japão e Europa alcançam ocasionalmente picos de 2%, mas depois atingem taxas negativas, entrando numa genuína recessão.

A única diferença entre os ioiôs das recuperações dessas três economias está nos níveis de elevação e queda. Em outras palavras, não há nada de excepcional ou economicamente diferente entre elas.

A comparação dos 5% de crescimento econômico temporário do período Julho-Setembro de 2014 com o provável 1% (ou menos) de janeiro-março de 2015 – essa taxa só será divulgada em maio- mostra que um fator isolado interveio no verão de 2014 para que atingíssemos aquela taxa de 4-5%. Mas esse fator isolado foi anulado nos primeiros três meses de 2015. Subtraia semelhantes fatores isolados dos últimos nove meses e teremos provavelmente menos de 1% no recente trimestre. Há uma breve explicação para isso.


Gás de xisto/Súbito aumento da produção de petróleo

No começo de 2014, a produção de gás de xisto e o súbito crescimento da produção de petróleo andavam a todo vapor. Isso impulsionou a chamada Produção Industrial e boa parte do crescimento da criação de empregos. Mas quando o preço do petróleo caiu excessivamente em junho último (graças à tentativa da Arábia Saudita e seus aliados dos Emirados Árabes em levar produtores estadunidenses de gás de xisto e petróleo à falência), a explosão da produção de gás de xisto teve uma abruta interrupção. A produção industrial foi rapidamente reduzida depois do verão e continuou a decair até atingir taxas negativas em dezembro. Os empregos começaram a desaparecer. Há uma projeção de perda de cerca de 150 mil empregos no Texas, o maior produtor de gás de xisto, já no começo de 2015.

Produção fabril & exportação
  
No começo de 2015, a produção fabril e as exportações estadunidenses cresceram continuamente na medida em que o dólar permanecia baixo, avantajando o comércio externo dos Estados Unidos. Mas o colapso mundial dos preços do petróleo e os rumores de aumento da taxa de juros pelo Banco Central estadunidense levaram a um aumento de 20% do dólar, incrementado ainda mais pela flexibilização quantitativa do Japão e da Eurozona. O resultado disso foi o começo de um colapso da contribuição estadunidense de sua produção fabril e de suas exportações para o crescimento econômico do último período de 2014. Esse movimento continuou em 2015. As encomendas de produtos manufaturados vem caindo mensalmente desde dezembro de 2014.

A previdência de Obama e os gastos com a saúde

Outro fator isolado que estimulou o crescimento do PIB estadunidense em meados de 2014 foi a adesão de 9 milhões de consumidores ao novo programa de cobertura do seguro de saúde privatizado do governo, concebido para aqueles que não tinham seguro-saúde. Isso gerou uma nova despesa de consumo cujo potencial de crescimento se esgotou em 2015, sem que houvesse novos estímulos adicionais.

O fim do aumento da venda de automóveis

Outro aumento de despesa de consumo que atingiu seu ápice no último verão foi a venda de automóveis. Mas isso também chegou a seu termo, na medida em que o mercado automobilístico ficou saturado ao cabo de 4 anos. Desde dezembro, um mês normalmente muito bom para a venda de veículos, a retração do mercado tem sido contínua. Aquele breve crescimento já era.  

Gastos gerais de consumo

Os indicadores de consumo doméstico passaram ao vermelho em dezembro último. O Índice Nacional de Despesas do Consumidor declinou no período dezembro-janeiro, estabilizou-se em fevereiro e não parece ter sofrido alterações em março.

Ele vem bem equipado
Segundo a maioria dos economistas, este índice soe crescer quando os consumidores são beneficiados pela redução de preços dos combustíveis. Em vez disso, os consumidores puseram na poupança o dinheiro não gasto com combustíveis ou o utilizaram para reduzir suas dívidas (previ que isso aconteceria ainda no ano passado). As vendas no varejo, que constituem a maior parte das despesas de consumo, cresceram a taxas de 4.5% no último verão. Mas voltaram a ser negativas desde dezembro passado: 1%, -0.9%, -0.6% até fevereiro. Espera-se que em março essa taxa continue negativa. Assim sendo, os indicadores de consumo geral e no varejo passaram ao vermelho.

Gastos das empresas

No terceiro trimestre de cada um dos últimos 5 anos, as empresas vinham aumentando suas despesas e incrementando seus estoques na perspectiva de um aumento de consumo por efeito das férias e das festas de fim de ano. Mas as expectativas dessas despesas foram bastante reduzidas e as empresas reduziram seus estoques no primeiro trimestre do ano seguinte. Isso voltou a acontecer em 2015. Outro gasto empresarial, a compra de equipamentos, quase não tem crescido, atingindo apenas os 0,6% no quarto trimestre de 2014, e deverá permanecer o mesmo ou diminuir no primeiro trimestre de 2015.

Gastos do governo com a defesa

É fato conhecido e documentado que a cada ano em que há eleições nacionais nos Estados Unidos, o governo federal adia despesas no começo do ano para liberá-las no verão que antecede as eleições. Isso aconteceu em 2012, antes das eleições presidenciais, e em 2014, antes das eleições legislativas parciais. O governo também faz despesas adicionais no trimestre julho-setembro, pois os políticos tentam criar a impressão de que a economia está indo melhor do que ela realmente está no longo prazo. Isso também aconteceu no verão passado. Mas essas despesas serão contraídas no mesmo período de 2015.

Criação de empregos nos Estados Unidos

A criação de empregos sempre fica em segundo plano na economia real. Após uma criação média de 200 mil empregos no ano passado (em sua maioria empregos mal remunerados, temporários e precários), apenas 126 mil empregos foram criados em março.

Essa redução também se verificou em janeiro e fevereiro. Os dados referentes ao emprego confirmam assim a tendência geral à queda no primeiro trimestre de 2015. Os defensores dos políticos certamente usarão o “mau tempo” como desculpa para os péssimos números de março. Mas o que está realmente acontecendo é que os empregos continuam a cair por razões bem reais. O “canário na mina” neste caso é o mau desempenho na produção de mercadorias; após meses de rápida redução do mercado de trabalho, este chegou a números negativos em março. Isso reflete o colapso da produção fabril, mineira e da produção de mercadorias que começou em fins do ano passado e que ainda continua. 

A ideologia do excepcionalismo

Em suma, não há nada de excepcional na economia estadunidense quando a olhamos sem viés ideológico. Ela continua em sua trajetória de gangorra dos últimos cinco anos. A economia se debilita significativamente a cada quatro ou primeiro trimestre para se restaurar parcialmente no verão seguinte. O que temos ao longo do ano é uma média de crescimento econômico em torno de 1,8%, ou seja, a metade do normal histórico. E não há nada de excepcional nisso. O Japão e a Europa têm o mesmo fraco desempenho, abaixo do normal.

O PIB estadunidense cresce a uma média de 1.8%, contra 0,5 na Europa e 0% no Japão. Isso confere alguma excepcionalidade à economia estadunidense? Não exatamente. Ainda há 20 milhões de desempregados nos Estados Unidos; grosso modo o mesmo que na Eurozona. Isso não é excepcional. Os preços estão estagnados nos Estados Unidos e caminham para a deflação, que também se faz presente na Europa e no Japão. O investimento real está em declínio nos Estados Unidos, bem como na Europa e no Japão. Mais uma vez, não há nada de excepcional. E a renda média dos trabalhadores está sendo reduzida nessas três economias.



Uma das estratégias ideológicas favoritas das elites e das classes dominantes consiste em convencer as classes trabalhadoras de que elas são excepcionais, ou seja, que a situação delas pode não ser maravilhosa e pode até estar declinando, mas pelo menos não é tão ruim quanto as outras.

A coisa poderia ser pior. Veja como estão os pobres trabalhadores de tais ou tais países. A coisa aqui pode não estar tão boa, mas não está tão ruim assim. Não é mesmo?  

O apelo ao excepcionalismo é apenas um estratagema a mais para que as classes trabalhadoras aceitem a deterioração de suas condições; é apenas uma ferramenta ideológica para imobilizar o povo, para que este aceite sua realidade como um destino. Querem que os trabalhadores acreditem que sua cada vez mais deteriorada qualidade de vida não é tão ruim assim. Mas ela é o que é.
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[*] Jack Rasmus é autor do livro, Systemic Fragility in the Global Economy, publicado por Clarity Press, 2015; e de Epic Recession: Prelude to Global Depression, Pluto Press 2010, e Obama’s Economy: Recovery for the Few, Pluto Press, 2012. 
Seu blog: jackrasmus.com.
Este artigo foi primeiramente publicado em TeleSur.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Depois da Marinha e do Exército, a Força Aérea dos EUA também corta as bolsas de estudo para militares


12/3/2013, Charlie Reed e Jennifer H. Svan, Stars and Stripes
Excerto traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido no Beco da Fome da Vila Vudu: Os EUA, abrindo o bico... Imagine que você é soldado da “única superpotência”, está no deserto do Sudão ou do Afeganistão e recebe um e-mail do comando, nos gabinetes com ar condicionado, em Washington, informando que acabôsse-o-que-era-dôce... Pois é. Aconteceu.
Taí! Em matéria de detonar os EUA por dentro, os Republicanos são muuuito mais eficientes que o PSDB-Br: detonaram as bolsas de estudo, mas salvaram os cortes de impostos da era Bush só para os ricos. “PSDB?!” Que PSDB?! “Papa”? Que papa?! Papa Who?!

Charlie Reed
Depois da Marinha e do Exército, a Força Aérea dos EUA também já cancelou todas as bolsas de estudo para militares, por causa dos cortes no orçamento federal.

O pessoal da Força Aérea no Pacífico começou a ouvir as primeiras notícias na 3ª-feira pela manhã. Em fala do comandante na Base Aérea de Yokota, o comandante do 374th Airlift Wing, coronel Mark August, disse ao pessoal que todos os pedidos de bolsas de estudo apresentados depois de 12/3 seriam rejeitados pela Força Aérea.

“Sugiro que telefonem para saber em que pé estão os pedidos de bolsas” – disse ele.

Segundo o coronel August, por causa da estrita limitação que a Força Aérea está aplicando, a educação profissional da Academia para Oficiais Não Comissionados e a Escola para Oficiais de Esquadrão também sofrerá cortes.

Os comandantes – ainda segundo August – terão de dar prioridade ao pessoal da Força Aérea já inscritos para frequentar aquelas escolas.

Um aviador fala com um representante da Grande Canyon University em uma feira de educação na Vandenberg Air Force Base, Califórnia, 16 de agosto de 2012.
Na Base Aérea em Ramstein, na Alemanha, os telefones não pararam de tocar no centro de educação, durante toda a manhã de 3ª-feira. As vozes dos que telefonavam iam da fúria à descrença: “Como assim?! Por que não posso me inscrever?!”.

“Foi, provavelmente, uma das manhãs mais alucinadas da minha carreira” – disse Keith Davis, diretor de educação e treinamento em Ramstein, que atendeu alguns daqueles telefonemas. “O que está acontecendo é inacreditável”.

A mensagem oficial de que a Força Aérea dos EUA já havia suspendido todas as bolsas e estava devolvendo todos os pedidos de assistência e bolsa para educação “chegou ontem, em horário dos EUA”, disse Davis na 3ª-feira. “Recebemos um e-mail essa manhã, do centro de educação”, informando o pessoal da Força Aérea sobre a mudança.

Quando o pessoal acordou, na manhã de 3ª-feira na Alemanha, já ninguém conseguiu apresentar novos pedidos de bolsas de estudo pelo portal da Força Aérea. Uma mensagem, no portal, dizia, em letras vermelhas: “O serviço de Assistência da Força Aérea para Bolsas de Estudo não está disponível”.

O capitão Nicholas Plante, um dos porta-vozes da Força Aérea no Pentágono, disse na 3ª-fiera que o secretário da FA Michael Donley tomou a decisão de cortar as bolsas na 2ª-feira às 17h, hora de Washington. Os oficiais dos serviços de educação da Força Aérea foram imediatamente notificados e a FA decidiu distribuir declaração na 3ª-feira, para todo o mundo, por sua página – disse Plante.

O “sequestro” [orig. Sequestration [1]], disse ele, está tendo “efeito devastador” na mobilização e na prontidão da força de trabalho. “Temos de fazer escolhas difíceis, para preservar esses tipos de coisas”.

Plante disse que a suspensão das bolsas de estudo atinge todos, inclusive a Força da Reserva e a Guarda Aérea Nacional em serviço.

Semana passada, o Exército e os Marines anunciaram movimentos semelhantes, e já se esperava que a Marinha anunciasse mudanças no programa de bolsas de estudo. (...) Nos próximos meses, a Força Aérea reavaliará o programa – disse Plante. (...)

Na base Ramstein, na Alemanha, cerca de 1.600 estudantes recebem bolsas de estudo, segundo Davis. Há cerca de 70 pedidos à espera de aprovação. (...)

“Estamos aconselhando o pessoal a não desistir da formação”, e procurar outros benefícios ainda disponíveis, como a G.I. Bill  [2] disse Plante. Os cortes não afetam a G.I. Bill. (...)


Notas dos tradutores

[1] Sequestration é um procedimento de “política fiscal” que o Congresso dos EUA adota, como medida para enfrentar o déficit de orçamento. Em termos simples; é um modo de forçar cortes de despesas em programas do governo e usar o dinheiro para reduzir o déficit. Os EUA estão hoje sob Sequestration, depois que falharam todas as tentativas de acordo entre senadores e deputados para aprovarem o orçamento do governo Obama. Sem esse Sequestration, os EUA teriam caído no que muitos chamavam de “despenhadeiro fiscal” [orig. “fiscal Cliff”] que teria eliminado todos os cortes de impostos da era Bush [via inadmissível para a maioria Republicana no Senado] e implantaria cortes generalizados em vários programas federais e nos gastos da defesa. [Essa explicação é insuficiente, mas ajuda a entender por que as forças armadas dos EUA estão fazendo os cortes nas bolsas de estudo dos militares, como se vê aí, das três armas. Valham o que valerem.

[2] A Servicemen’s Readjustment Act [aprox. Lei de Reajuste de Combatentes] de 1944 (P.L. 78-346, 58 Stat. 284m), chamada informalmente de G.I. Bill [sigla informal de “Government Issue” ou “General Infantry”, designava os soldados norte-americanos da 2ª Guerra Mundial], foi lei que assegurou vários benefícios aos veteranos da 2ª GM (hipotecas mais baixas para compra de moradia, empréstimos de juros baixos para iniciar atividade comercial ou fazenda, bolsas de estudo e dinheiro para garantir o próprio sustento e outros benefícios.  

terça-feira, 12 de março de 2013

Teatro do absurdo II






Alfredo Pereira dos Santos



Sobe o pano

Cenário: um pesquisador observa, diante do computador, as mensagens enviadas pelos alunos de um curso de matemática à distância, oferecido por uma universidade pública federal.

Recorrentes nas mensagens são as reclamações sobre a falta de atenção dos professores em relação às dúvidas dos alunos. O pesquisador sabe que este é um aspecto importante que, certamente, irá merecer a atenção da universidade, mas o que lhe chama a atenção naquele momento é a maneira de escrever  dos alunos, que revela uma grande falta de conhecimento da norma culta da língua. Desse modo vai registrando os erros que encontra, fazendo observações.

Uma aluna escreve “xego no final”. Coisa estranha, comenta o pesquisador com os seus botões, como essa moça terminou o ensino médio e chegou à universidade sem conhecer o verbo CHEGAR.

De um aluno ele anota “É só mim falar o dia e hora que eu vou” e admite que o erro tem toda razão de ser num país onde até os professores dizem coisas como “pra mim fazer”, de modo que não é de se estranhar que os alunos os saiam imitando.

Pasquale Cipro Neto
Outra aluna escreve “para estar nos ajudando” e o pesquisador anota: “Até aqui a praga do gerundismo, tão denunciada pelo professor Pasquale Cipro Neto, já chegou”.

A próxima observação, de outra aluna, “Concerteza a internet nos oferece muitos vídeos bons” deixa o pesquisador sem ter o que dizer, tal a sua perplexidade. Ele passa para a mensagem de outra aluna e anota: “acho que deviam aver correção ou pelo menos o envio das resoluções para agente compreender melhor a matéria”. A estupefação do pesquisador vai aumentando, junto com a sua tristeza de começar a suspeitar de que o seu amado Brasil vai levar muitos anos para ensinar aos alunos a escrever razoavelmente bem.

O registro seguinte foi tirado da resposta de uma professora a um aluno em dúvida: “Um intervalo é um SEGUIMENTO de reta que pode incluir ou não seus extremos”. Nesse ponto o pesquisador teve ímpetos de se atirar pela janela, pois teve a confirmação do descalabro total. Uma professora que confunde SEGMENTO com SEGUIMENTO é a prova viva de que a recomendação de um ilustre gramático de que toda aula, de qualquer matéria, deve ser também uma aula de vernáculo está muito longe de ser seguida em nosso país. E o pesquisador pensa que seria de bom alvitre que as apostilas de português dadas aos estudantes novatos, contendo ensinamentos sobre verbos, substantivos e adjetivos, fossem também dadas a alguns professores. Curioso, pensa o pesquisador, eu imaginava que essas coisas de verbos e substantivos fossem aprendidas no ensino fundamental.

Luís Vaz de Camões
O próximo registro feito pelo pesquisador “A universidade deveriam ter suas próprias apostilas ou mudar para outras, pois estas oferecidas aos alunos não resolve quase nada porque os professores não seguem elas” o fez pensar no seguinte: “Precisamos tirar Camões do ostracismo”. E o fez pensar também no seguinte: “com tanto livro bom traduzido no Brasil, sem falar nos escritos por bons professores brasileiros, porque a universidade tem que ficar distribuindo apostilas aos alunos? Para que reinventar a roda? Por que não prestigiar os bons autores?”

O pesquisador até achou interessante a mensagem seguinte “SERIA INTERESANTE SE OS POLOS DE APOIO PRESENCIAL FICASSE ABERTOS NO PERIODO NOTURNO, LEVANDO EM CONTA, A DIFICULDADE DE QUEM TRABALHA DURANTE O DIA, SENDO ASSIM UM NÚMERO MOIR DE ALUNOS PODERIAM USUFLUIR DOS RECURSOS QUE O POLO TEM A OFERECER”, pois lhe ocorreu que USUFLUIR poderia ser um neologismo: USUFRUIR FLUINDO.

Outra aluna também reclama “Eu sugiro que tenha mais tutores nas disciplinas de matemática, cálculo e pré- cálculo, para nos dar respostas mais rápida. Porque precisei de ajuda dias antes da avaliação em uma questão de matemática e não obtive respostas. E justamente ela caiu na prova, e infeslimente não conseguir resovê-la”. Como resolver uma situação dessas?

Outra aluna protesta “Estou achando os prazos muito curtos, para realização dos trabalhos de informatica. Mau terminamos um já tem outro...Precisamos de um intervalo maior” e o pesquisador não pôde deixar de reconhecer que isso é MAU.

Outra aluna diz que “Sei que são vários polos mas estou anciosa pra ver as notas das provas” e o pesquisador começa a ficar ansioso, querendo dar a pesquisa por encerrada.

O pesquisador, contudo, é obstinado, anota “pessoas que sairam da escola a bastante tempo” e fica se perguntando porque as escolas não explicam aos alunos a diferença entre o artigo A (ou adjetivo, ou pronome, etc.) e o verbo HAVER?.

Outra aluna protesta contra aulas marcadas e desmarcadas “Boa...disse tudo ! Aqui no polo toda aula da materia de matematica e pre calculo é desmarcada. E isso ja vem desde outubro do ano passado. Tivemos prova sem se quer ter 1 aula da materia, e as materias de matemática sao dificeis, igual vc disse, tem coisa que o ensino médio não ensina. Ai não tem aula, eles postam um tanto de coisa no moodle que logico que vc não vai aprender sozinho...e agente fica desse geito impurrando as coisas com a barriga. O pessoal que mora aqui ta pagando um professor particular de matematica, ou seja, agente tem faculdade e tem que pagar alguem de fora para ensinar pois so tem 1 aula a cada 1 ou 2 meses, e mesmo assim muitas sao desmarcadas. So que igual agente que não mora aqui, fica complicado,muitos moram muito longe. Ta tudo tocado essa facul a distancia!”.

Finalmente, a última reclamação desse lote da pesquisa “Por favor professor como fazer os testes se as nossas dúvidas não forem respondidas? Pra falar a verdade não consegui aprender nada de função trigonométrica. Me socorre...”.

O pesquisador encerra, deprimido, a sua pesquisa e conclui que não se pode vituperar os alunos quando a própria universidade lhes recomenda a leitura de coisas como “Segundo os autores PALLOFF & PRATT, (2004) os cursos e programas on-line não foram feitos para todo mundo” que, para ele é uma tremenda bobagem, pois não existe nada que seja feito para todo mundo.

Nelson Rodrigues
Cai o pano.

A platéia se levanta em silêncio, alguns permanecem sentados, boquiabertos diante do que acabaram de ver. Alguns derramam “lágrimas de esguicho”, expressão que vem bem a calhar, pois bem poderíamos estar diante de uma daquelas peças do Nelson Rodrigues, no estilo de “Bonitinha, mas ordinária”, “Perdoa-me por me traíres” ou “Toda nudez será castigada”.

E choram por saber que o que acabaram de ver não se trata de ficção, mas a mais pura das realidades.

Alguns, que foram sós ao teatro, caminham cabisbaixos para as suas casas. Casais fazem comentários baixinhos. Grupinhos discorrem sobre o tema da peça. Alguns falam que o grande problema é a falta de leitura. Alguém diz que “o Brasil entrou na decadência sem ter atingido o apogeu, o que é coisa inédita na história da humanidade”. Um militar reformado, que estudou no Colégio Militar diz que “a culpa é dos malditos PEIDAGOGOS de hoje”. Um outro protesta, dizendo que “milico não tem moral para falar, pois fuderam com a educação nesse país”.

Alguém lembra uma frase do Nelson Rodrigues “O grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota”. O que explicaria tudo.

Como não podia deixar de ser, aparece alguém para botar a culpa na televisão, lembrando o pedido do presidente Obama, dos Estados Unidos, feito no Congresso daquele pais, para que os pais reduzissem o tempo que os filhos ficavam em frente ao aparelho de televisão.

Vai ficando tarde, o cansaço e o sono vão chegando, uns pensam “que se foda o mundo que eu não me chamo Raimundo”. Outros já estão com a vida ganha, já saíram da escola há muito tempo, os filhos estão criados, o problema não lhes diz respeito. Um outro se lembra que no dia seguinte vai ter que arranjar dinheiro para pagar a conta de luz, que está atrasada. Alguém pensa no encontro marcado para o dia seguinte. Ademais, há que se pegar cedo no batente, no outro dia.

Boa noite, até amanha, durmam bem.

E assim caminha a humanidade.


domingo, 10 de março de 2013

Teatro do absurdo


Alfredo Pereira dos Santos

Cenário: laboratório de informática de um pólo de ensino a distância de uma universidade federal. Dia de prova de matemática.

A prova versará sobre temas como equações exponenciais, logaritmos e trigonometria, coisas que antigamente eram aprendidas no ensino fundamental e médio mas que hoje a universidade precisa ensinar, pois os alunos conseguem passar no vestibular sem as ter aprendido.

Teorema de Pitágoras
Uma aluna diz a um colega que está completamente por fora da matéria e pede ajuda. Em todos os demais ramos da matemática do ensino médio essa aluna apresenta as mesmas dificuldades. 

No meio da explicação aparece o “Teorema de Pitágoras”. A aluna em dúvida não conhece o teorema e diz que vai anotar o seu enunciado numa folha de papel. Ao se aproximar o fim da anotação ela pergunta:

-- Hipotenusa se escreve com I ou com H?

Desce rápido o pano. A platéia chora. Chora principalmente porque sabe que não se trata de ficção, mas de uma história real.

Pitágoras de Samos
Os espectadores saem e alguns, em grupos, se põem a falar sobre o futuro da personagem. Conseguirá ela superar as suas dificuldades e levar o curso a bom termo? Uns dizem:

-- Deus queira que ela consiga.

Pessimistas dizem:

-- Impossível, será muito difícil para ela recuperar o tempo perdido. Eu acho que ela vai desistir.

Um outro concorda e pergunta:

-- De fato, se ela tem dificuldades agora o que não dizer de quando chegar a hora de aprender Limites, Derivadas e Integrais?.

Um terceiro aventa a hipótese da universidade “baixar o nível”, facilitando a vida dessa aluna. Nada de novo sob o Sol, pois não dizem que até o Instituto Rio Branco e o Instituto Militar de Engenharia “baixaram o nível”, gerando o protesto de alguns? Um outro diz:

-- Eu já vi esse filme antes, com o aluno chegando ao terceiro período mas devendo matérias de períodos anteriores em que não consegue ser aprovado. De reprovação em reprovação ele acaba desistindo.

Alguém diz que: “

-- É um absurdo que uma universidade federal permita o ingresso de uma pessoa sem condições, para massacrá-la, gerando frustração e sofrimento.

As comparações surgem, inevitavelmente. Um espectador, que já esteve em Cuba quatro vezes e duas na China, fala sobre o sistema educacional daqueles países. Diz que:

-- O sistema educacional da China é o melhor do mundo e na média, os médicos cubanos são melhores do que os brasileiros, pois o ensino médio de lá é muito melhor do que o daqui, de modo que os alunos chegam à escola de medicina com muito mais base em química, física, biologia e matemática.

Ressalta que:

-- Cuba forma médicos aos borbotões e que é dessa quantidade que surge a qualidade.

Alguém pergunta:

-- Porque as nossas autoridades educacionais não vão ver o que está acontecendo em matéria educacional em Cuba e na China?

Um outro responde:

-- São realidades diferentes!

Procuram-se culpados e responsáveis. A ditadura militar de 1964 aparece como ré, por diversas ações e omissões. Alguém exclama:

-- São os famigerados acordos MEC-USAID!

A classe política é também arrolada no processo.

Um coronel diz que:

-- O Brasil não tem jeito, pois esse é o nosso KARMA.

Um professor universitário aposentado diz que:

-- O Brasil não deu certo e não vai dar .

Não falta quem diga que:

-- Os culpados são os alunos, que não querem nada com os livros.

Pais também são culpados:

...pois deixam os filhos muito tempo vendo televisão.

As opiniões se sucedem, as horas passam, o cansaço sobrevém e cada um vai para sua casa dormir. O tempo está bom e amanhã vai dar praia. Pela tarde tem jogo no Maracanã e à noite tem o FANTÁSTICO. Depois é dormir que segunda-feira é dia de batente.

E La Nave Va - Catherine Burg