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segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Chris Hedges: O mito da “imprensa livre”

26/10/2014, [*] Chris HedgesTruthdig
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Há mais verdade sobre o jornalismo dos EUA no filme Kill the Messenger” (trailer acima)[lit. “Mate o mensageiro”. No Brasil, parece, o filme recebeu o título de “O mensageiro” – assim se prova que, no Brasil-2014, o problema de não haver aqui NENHUM jornalismo que preste é, sim, MUITO MAIS GRAVE que em outras partes do mundo (NTs)], que denuncia o processo pelo qual as imprensas-empresas dominantes desacreditaram o trabalho do jornalista investigativo Gary Webb, do que no filme Todos os homens do presidente, que celebra os feitos dos repórteres que expuseram o escândalo do [prédio] Watergate. Trailer a seguir:


As empresas-imprensa que vendem jornalismo de massa apoiam cegamente a ideologia do capitalismo empresarial. Louvam e promovem o mito da democracia norte-americana – mesmo quando o que se vê é o assassinato das liberdades civis e o dinheiro substituindo o voto. Vivem a fazer mesuras e reverências aos líderes em Wall Street, não importam a velhacaria ou o crime que tenham cometido. (...) As empresas-imprensa que vendem jornalismo de massa selecionam especialistas, sempre colhidos dentro dos centros de poder conservador, para interpretar a realidade e explicar a política. Praticamente sempre republicam press-releases, redigidos por empresas interessadas, nos “noticiários”. E todos os “buracos” que permanecem sem completar na explicação e interpretação menos comprometidas, são preenchidos com futricas sobre a vida das “celebridades”, futrica sobre a “vida dos outros”, futricas em geral, e esportes [mas, só, os esportes nos quais o dinheiro mande quase totalmente (NTs)].

A função essencial das empresas-imprensa que vendem jornalismo de massa é entreter [o que fazem quase sempre muito mal] ou repetir incansavelmente, para as massas, a versão sobre o mundo, as pessoas e os processos, que mais interesse a governos autoritários ou ao dinheiro-nu-e-cru.

A chamada “imprensa” são sempre empresas comerciais [“empresas-imprensa”] que contratam empregados dispostos, interessados e capazes de curvar-se até o chão no serviço prestado às elites [mas, sim, também há muitos jornalistas que são fascistas SINCEROS, os quais, sendo preciso, até pagariam para “noticiar” o que noticiam (NTs)] e, em seguida, promovem os próprios jornalistas-empregados como “celebridades”. E esses jornalistas-serviçais, que em alguns raros casos recebem salários milionários, convivem na intimidade do poder. São, como escreve John Ralston Saul, “hedonistas do poder”.

Quando Webb, numa série de artigos publicados em 1996 no San Jose Mercury News, denunciou a cumplicidade da CIA na operação de contrabando de toneladas de cocaína para ser vendida nos EUA, para gerar o dinheiro que financiaria o golpe da CIA contra os “Contra” na Nicarágua, toda a imprensa-empresa fez, de Webb, a pior praga jornalística de todos os tempos, no leproso do jornalismo. Vídeo a seguir:


E ao longo das gerações muitos outros leprosos foram inventados dentro do jornalismo das empresas-imprensa, de Ida B. Wells a I.F. Stone e a Julian Assange.

Os ataques contra Webb recomeçaram recentemente, em jornais como o Washington Post, desde que o filme foi lançado no início desse mês de outubro. Os novos ataques são tentativa de autojustificação. São a tentativa que a imprensa-empresa que vende jornalismo de massa faz, para mascarar a colaboração que sempre houve entre aquela mesma imprensa-empresa e a elite do poder totalitário e/ou do dinheiro-nu-e-cru.

A imprensa-empresa que vive de vender jornalismo de massa, como o resto do establishment liberal, trabalha sempre para autoencobrir sua real função, se autoaplicando uma demão de verniz de valente busca por verdade e justiça. E para manter esse mito, aquelas imprensa-empresas têm de destruir a credibilidade de jornalistas como Webb e Assange, que lançam alguma luz sobre os feitos sinistros e criminosos que se acumulam nas entranhas do império, e que se interessam mais pela verdade dos fatos, do que pela “notícia” ou pelo “furo”.

Os principais veículos noticiosos dos EUA, inclusive meu ex-patrão, o New York Times, que publicou que haveria “praticamente nenhuma prova” do que Webb escrevera – funcionaram como cães de guarda à porta da CIA. Pouco depois da publicação da série em 1996, oWashington Post dedicou quase duas páginas inteiras para atacar o que Webb escrevera. OLos Angeles Times publicou três artigos que, todos eles, atacavam Webb e o que ele escrevera. Foi capítulo sujo, repugnante e vergonhoso, do jornalismo nos EUA. Mas de modo algum foi o único da mesma categoria. Alexander Cockburn e Jeffrey St. Clair, em artigo de 2004, Como a Mídia e a CIA mataram a carreira de Gary Webb, detalharam toda a dinâmica daquela campanha nacional de difamação [campanha de difamação de um jornalista profissional, por um lado; mas, por outro lado, campanha de autodesmoralização de todo o próprio jornalismo das imprensa-empresas(NTs)].

Alexander Cockburn
O jornal de Webb, depois de publicar um mea culpa para toda a série de artigos, demitiu-o. Webb não voltaria a conseguir trabalhar novamente como jornalista investigativo e, às vésperas de perder a casa onde morava, suicidou-se em 2004. Sabemos, em boa parte por causa de uma investigação no Senado, conduzida pelo então senador John Kerry, que Webb sempre esteve certo. Mas Webb não foi perseguido por ter ou não ter razão, porque, é claro, os bandidos que perseguiram Webb sempre souberam que ele tinha razão. Webb foi perseguido porque expôs a CIA como bando de bandidos traficantes de armas e de drogas. E porque expôs também toda a imprensa-empresa que vende jornalismo de massa, quando depende de fontes oficiais de dinheiro e, por isso, vive como serva covarde do grande dinheiro. E pagou por isso.

Se a CIA introduziu centenas de milhões de dólares em drogas nas periferias de grandes cidades dos EUA, para fazer dinheiro para pagar por uma guerra ilegal na Nicarágua, o que dizer da legitimidade de toda essa gigantesca organização clandestina? O que dizer da chamada “guerra às drogas”? O que dizer da dureza e da indiferença do governo dos EUA em relação aos mais pobres, sobretudo os pretos mais pobres, que estão no olho do furacão docrack epidêmico? O que dizer de operações militares clandestinas, realizadas sem que a opinião pública saiba?

Todas essas eram, precisamente, as perguntas que as elites do dinheiro, as elites do poder, e seus serviçais na imprensa-empresa, tinham de silenciar a qualquer custo.

A imprensa-empresa é pasto para a mesma mediocridade, o mesmo corporativismo, o mesmo carreirismo, que a universidade, os sindicatos, as artes, o Partido Democrata e as instituições religiosas. Penduram-se todos no mesmo mantra de autopromoção, que os apresenta como se fossem imparciais e objetivos, e assim justificam a subserviência deles ao grande dinheiro e ao poder (qualquer poder). A imprensa-empresa escreve e fala – diferente dos acadêmicos que discursam para eles mesmos, naquele velho jargão de teólogos medievais – para ser ouvida e compreendida pela opinião pública. E por essa razão a imprensa-empresa é mais poderosa e mais diretamente controlada pelo grande dinheiro ou por estados autoritários.

A imprensa-empresa tem papel chave na disseminação da propaganda do pensamento do grande dinheiro ou de estados totalitários. Mas, para que essa propaganda tenha eficácia, a imprensa-empresa tem de manter para ela mesma a ficção de independência e de integridade. É indispensável que as verdadeiras intenções, nesse caso, permaneçam ocultas.

C. Wright Mills
Os veículos de comunicação de massa, como C. Wright Mills viu bem, são ferramentas essenciais para manter o conformismo. São eles quem dizem a leitores e telespectadores o que leitores e telespectadores são. São eles quem dizem o que leitores e telespectadores devem aspirar a ser ou a ter. Prometem que ajudarão leitores e telespectadores a “chegar lá”. Oferecem grande variedade de técnicas, conselhos e esquemas que prometem sucesso pessoal e profissional. Os veículos de comunicação de massa, como Wright escreveu, existem, primeiramente, para ajudar os cidadãos a sentirem que são bem-sucedidos e que “chegaram lá”, mesmo que não tenham chegado a lugar algum e continuem muito longe de alcançar as próprias aspirações. Usam linguagem e imagens, para manipular e formam opiniões, nunca para promover qualquer genuíno debate ou conversa democrática ou para criar espaços públicos para ação política livre e votação democrática livre e justa.

Todos já estamos convertidos em espectadores passivos do poder e do grande dinheiro, por ação dos veículos de comunicação de massa, que decidem por nós o que é verdade e o que é mentira; o que é legítimo e o que não é. A verdade não é coisa que alguém descubra. Assim está decretado pelos veículos da imprensa-empresa que vende jornalismo de massa.

O divórcio entre a verdade, para um lado, e o discurso e ação, para o outro lado – a instrumentalização da comunicação – não apenas aumentou a incidência da propaganda; ele também corrompeu a própria ideia de verdade, e, portanto, o sentido pelo qual assumimos nossas posições no mundo está destruído – escreveu James W. Carey em Communication as Culture.

A primeira e principal função dos meios de massa é superar a enorme fenda que separa as identidades idealizadas – essas que, numa cultura de mercadoria movem-se sempre em torno da aquisição de status, dinheiro, fama e poder, ou, pelo menos, das correspondentes fantasias e ilusões – e as identidades reais. E pode ser muito lucrativo inflar essas identidades idealizadas, amplamente implantadas por anunciantes e pela cultura corporativa. Dão-nos não o que nos faz falta real, mas o que desejamos. Os meios de massa permitem-nos escapar para o viciante mundo do entretenimento e do espetáculo. Acrescenta-se algum “noticiário” a essa mistura [mas “a notícia em primeiro lugar” é  sempre   mentira  (NTs); vídeo a seguir].


Nunca mais de 15% do espaço de qualquer jornal é devotado a notícias; todo o resto é devotado à mais fútil procura por algo que se chama autoatualização. No rádio e na TV a proporção é ainda mais desequilibrada.

Essa, escreveu Mills, é provavelmente a fórmula psicológica básica dos mass media hoje. Mas, como fórmula, nada tem a ver com o desenvolvimento do ser humano. É só uma fórmula de um pseudo-mundo que a imprensa-empresa inventa e mantém.

(...)

A imprensa-empresa só atacará grupos dentro da elite do poder, quando acontece de o poder dividir-se e de haver disputas dentro do círculo do poder [essa, precisamente, é a situação em 2014, no Brasil. O Partido dos Trabalhadores afinal, felizmente, instalou-se democraticamente no poder federal; e as velhas elites que ainda mantém laços muito fortes fixados dentro do poder federal, está indignada. A imprensa-empresa no Brasil, em 2014, assumiu o lado e a voz da velharia tucano-udenista perdedora (NTs)]. 

Quando Richard Nixon, eleito pelos Republicanos, e que usou métodos ilegais e clandestinos para calar a imprensa alternativa e para perseguir ativistas antiguerra e líderes negros dissidentes radicais, tentou atacar o Partido Democrata, foi quando virou alvo da imprensa-empresa. O pecado de Nixon não foi abusar do poder. Nixon viveu anos e anos abusando do poder contra vários grupos de dissidentes, sem que o Establishment se incomodasse com isso. O pecado de Nixon foi que abusou do poder contra uma facção dentro da própria elite do poder [ATENÇÃO: essa frase, com “José Dirceu” em lugar de “Nixon”, pode resumir todo o martírio ao qual a imprensa-empresa condenou, no Brasil, o ministro José Dirceu (NTs)].

Complexo Watergate às margens do Rio Potomac, Washington DC
O escândalo do edifício Watergate, mitologizado como prova do poder de alguma imprensa-empresa valente e independente, ilustra bem o quão pouco a empresa-imprensa consegue fazer, quando se trata de investigar os centros do poder.

A história foi generosa conosco e nos ofereceu um “experimento controlado” para determinar exatamente o que realmente estava em disputa no período Watergate, quando a posição de desafio assumida pela imprensa-empresa, nos EUA, atingiu o pico. A resposta veio clara e precisa: grupos poderosos têm meios para defender-se, eles mesmos, o que não é surpresa para ninguém. Pelos parâmetros da imprensa-empresa, só há escândalo quando os direitos da própria imprensa-empresa e sua posição de poder são ameaçados – como escreveram Edward S. Herman e Noam Chomsky em Manufacturing Consent: The Political Economy of the Mass Media.

Na direção contrária, enquanto as ilegalidades e violações da ordem democrática ficam confinadas a grupos marginais ou só atinjam dissidentes de ataques militares dos EUA, ou resultam num custo difuso, imposto a toda a população, em todos esses casos, ninguém ouve nem sinal de oposição feita pela imprensa-empresa; a imprensa-empresa, toda ela, mantém-se então absolutamente muda e distante. Por isso Nixon pôde ir tão longe, amparado num falso senso de segurança precisamente porque o cães de guarda só latiram quando Nixon começou a representar ameaça contra os privilegiados.

Os abolicionistas e os que pregavam respeito aos direitos civis; jornalistas investigativos que enfureceram a Standard Oil e os proprietários dos cercados para gado em Chicago; produções de teatro radical como The Cradle Will Rock[1] que implodiram os mitos tão caros à classe governante e deram voz a pessoas comuns; os sindicatos de trabalhadores que permitiram que imigrantes, afro-americanos e homens e mulheres trabalhadores  encontrassem dignidade e esperança; as grandes universidades públicas que deram a filhos de imigrantes a chance de ter educação de alta qualidade; os Democratas do New Deal que compreendiam que uma democracia jamais estará segura se não garantir aos cidadãos padrões de vida aceitáveis e se não souber impedir que o estado seja sequestrado pelo dinheiro privado, nada disso existe mais no panorama dos EUA contemporâneos.

A desgraça de Webb foi trabalhar em tempos em que a imprensa livre e democrática já não passa de clichê, como, também, a própria democracia.

The Cradle Will Rock,como quase todo o trabalho popular que foi gerado no Projeto Federal de Teatro criado por Roosevelt no auge da Grande Depressão, deu voz aos anseios da classe trabalhadora, em vez de só repetir anseios e angústias da elite. E ali afinal se expôs a loucura da guerra, a ganância desenfreada e a desenfreada corrupção, a cumplicidade das instituições liberais – especialmente da imprensa – que assegurou proteção à elite no poder e sempre ignorou todos os abusos do capitalismo.


Na peça, o personagem Mister Mister [2] governa a cidade como uma empresa privada:

Acredito que jornais são ótimos para modelar as mentes – diz Mister Mister. – Minha indústria de aço depende realmente dos jornais!

Basta o senhor telefonar para a Redação – responde o Editor de Notícias. –Imprimiremos todas as notícias que o senhor nos der. De costa a costa, de fronteira a fronteira.

O Editor de Notícias e Mister Mister cantam em dueto:

Ah, a imprensa, a imprensa, a liberdade de imprensa.
Nunca nos tirarão nossa liberdade de imprensa!
Temos de ser livres para dizer o que nos vai n’alma...
com um da-da-di-da-da-dá e sim-sim-sim,
a favor de quem pagar mais.

— Bem me interessaria uma série de matérias sobre esse jovem, Larry Foreman, diz Mister Mister ao Editor de Notícias. 

– Sei. O tal que anda por aí fazendo agitação e organizando sindicatos – responde o Editor de Notícias. Já ouvimos falar dele. De fato, só ouvimos falar bem. Parece ser muito popular entre os trabalhadores.

– Descubra com quem ele bebe e com quem ele dorme. Vasculhem o passado dele, até achar alguma coisa que o faça parar.

– Mas o sujeito é de briga, é pura dinamite. Precisaremos de um exército para segurá-lo – responde o Editor de Notícias.

– Ótimo! Sendo assim, vai ser fácil segurá-lo – conclui Mister Mister. E o dueto recomeça:

Ah, a imprensa, a imprensa, a liberdade de imprensa.
Nunca nos tirarão nossa liberdade de imprensa!
Temos de ser livres para dizer o que nos vai n’alma... 
com um da-da-di-da-da-dá e sim-sim-sim,
a favor de quem pagar mais.
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Notas dos tradutores

[1] A peça, original de 1937, foi convertida em filme em 1997, sensacional, dirigido por Tim Robbins, com o mesmo título, em port., O poder vai dançar. Trailer oficial a seguir:


[2] Originalmente, em 1937, o personagem Mister Mister chamava-se Mister Morgan, do milionário J.P. Morgan; o nome do personagem foi depois alterado, mas nada mudou em MM, cujo banco, em 2013, aparecia ainda na lista dos dez mais (bancos) “grandes demais para falir”.
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[*] Chris Hedges, repórter laureado com Prêmio Pulitzer, mantém coluna regular em Truthdig às 2as-feiras. Formou-se na Harvard Divinity School e foi durante quase duas décadas correspondente no exterior do The New York TimesHedges é autor de 12 livros, entre os quais War Is A Force That Gives Us Meaning, What Every Person Should Know About War, American Fascists: The Christian Right and the War on America o best-seller (New York Times), Days of Destruction, Days of Revolt (2012), do qual é coautor, com o cartunista Joe Sacco. Seu livro mais recente é Empire of Illusion: The End of Literacy and the Triumph of Spectacle.

domingo, 28 de abril de 2013

É a imprensa-empresa, estúpido!


26/4/2013, Robert Parry, Consortium News
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Robert Parry
A imprensa-empresa nos EUA jamais foi “liberal”. Na melhor das hipóteses, pode-se dizer que houve períodos, em passado não muito distante, quando as grandes empresas-imprensa faziam melhor serviço, ao apresentar os fatos. E havia alguma imprensa “underground” que publicava algum material que a grande imprensa-empresa evitava.

Entreouvido na Vila Vudu: no Brasil, a imprensa-empresa jamais foi, sequer, “de centro”: sempre foi da “direita udenista mais fascista”; depois passou a ser “tucana-uspeana à moda Sorbonne & Chicago”; ultimamente, já é sionista, “opusdeizista” e “danuzaleãosista”, sempre fascista.

Segregação Racial nos EUA (anos 1950's e 1960's )
Assim, houve jornalistas que revelaram os horrores da segregação racial nos anos 1950s e 1960s; correspondentes de guerra expuseram parte da cruel violência da Guerra do Vietnã no final dos anos 1960s; algumas grandes empresas-jornais desafiaram o governo dos EUA e publicaram a história real, vazada, daquela guerra, em 1971; o Washington Post revelou uma parte (embora evidentemente não todos) dos crimes políticos de Richard Nixon em 1972-74; e o New York Times liderou a divulgação de uma parte da imunda história da CIA em meados dos anos 1970s.

Apesar de esse trabalho com certeza ofender a Direita e muitas alas do Establishment, todas aquelas matérias tiveram um elemento comum: todas eram histórias verdadeiras. Nesse sentido, não eram nem “liberais”, nem “conservadoras”, nem “centristas”. Eram jornalismo simplesmente acurado, bem feito – e contribuíram para trazer à vida outras instituições democráticas dos EUA, dos protestos nas ruas a pressão, pelos tribunais, contra quem chantageava e pressionava, com lobbies, funcionários do Estado.

História suja da CIA - Central Intelligence Agency (Serviço Secreto dos EUA)
Essa ressurgência da democracia participativa era o que os entrincheirados no poder mais temiam, fosse no sul segregacionista ou nos salões de painéis de carvalho nas paredes dos bancos de Wall Street e grandes empresas. E eles organizaram uma poderosa contra-ação, para simultaneamente (a) impedir novas “revelações” (provavelmente mais ameaçadoras a cada dia) de crimes e erros e vícios, e (b) para reassumir o controle dos canais de informação que influenciam o modo como o povo norte-americano vê o mundo.

Naquele contexto, uma das estratégias mais efetivas de propaganda sempre foi apresentar o jornalismo decente como “de esquerda” e desqualificar os jornalistas decentes como “antiamericanos”. Assim, muitos norte-americanos passariam a duvidar de qualquer informação de boa qualidade; ao mesmo tempo em que passariam a descartar a informação acurada, acusada de ter “viés político”.

Como jornalista empregado da Associated Press e da revista Newsweek nos anos 1980s, conheci várias dessas táticas de jogo duro, quando cobria o governo Reagan, e o governo Reagan tentava manipular a percepção dos cidadãos, inflando o mais possível inúmeras “ameaças externas” (de Manágua a Moscou) e demonizando alguns grupos nacionais (das “rainhas do bem-estar social” aos sindicatos em geral).

Os homens de Reagan referiam-se às suas principais metas como “chutar para bem longe a Síndrome do Vietnã”, quer dizer: apagar, na população dos EUA, qualquer resistência a qualquer movimento para nos arrastar, todos, outra vez, para guerras em países longínquos, empurrados por mentiras. Assista a seguir:


A guerra nas ondas do éter

A chave para o sucesso sempre foi conseguir controlar a maior quantidade possível de veículos de mídia noticiosa – fosse pela propriedade, nesse caso com empresas cujos proprietários fossem da Direita ativa; ou com pressão sobre os executivos dos veículos de notícias para que adotassem postura mais “patriótica”; ou por intimidação direta contra qualquer um que não se alinhasse.

As táticas deram certo, funcionaram como feitiço. Foram ajudadas por uma mudança na Esquerda, que vendeu ou fechou e, no geral, desistiu, de vários dos veículos da imprensa “underground” da era Vietnã, para concentrar-se “no local”, em questões locais: “pensar globalmente e agir localmente”, dizia a palavra-de-ordem daquele momento.

Essa combinação de fatores deu à Direita e aos conservadores do Establishment domínio completo sobre a imprensa de notícias. Como um exército que controlasse os céus, a Direita e os conservadores passaram a poder fazer o que bem entendessem, para detonar qualquer um que se interpusesse, fosse político, jornalista ou cidadão. Nenhum ser humano atento mais ao fato que à versão nunca mais estaria a salvo, na noite escura que desceu sobre o jornalismo-empresa.

O sucesso da Direita pode ser aferido em diferentes momentos do processo: quando os Republicanos conseguiram esconder o escândalo dos “Contra” do Irã, em 1987 e quando o presidente George H.W. Bush disse, depois de destruir o já destroçado exército iraquiano, em 1991: “chutamos para bem longe, de uma vez por todas, a Síndrome do Vietnã”.

Síndrome do Vietnã - os EUA saíram corridos da guerra provocada por eles mesmos
A realidade da imprensa-empresa de notícias – que só fez ampliar-se durante os anos 1990s e no início do novo século – já era, então, que a Direita podia inventar qualquer tema de propaganda, convertê-lo em noticiário e ter certeza de que milhões de norte-americanos engoliriam qualquer coisa. Assim, o presidente George W. Bush conseguiu inventar mentiras para invadir o Iraque em 2003 e os jornais, proprietários e jornalistas das empresas-imprensa não apenas nada fizeram para estabelecer a verdade como, até, o ajudaram a mentir.

Vez ou outra algumas vozes emergiam na Internet e em alguns veículos de baixa circulação e audiência, para desmentir as mentiras de Bush sobre a guerra do Iraque; mas não era difícil para a grande empresa-imprensa desqualificá-los ou ignorá-los. Foi preciso que se acumulasssem os erros e fracassos de Bush na Guerra do Iraque e outras crises locais e internacionais, para que, afinal, aquela potentíssima máquina de propaganda da direita começasse a engripar.

Mas a dinâmica geral nunca mudou. Sim, a rede MSNBC – depois de fracassar na tentativa de posicionar-se tão à extrema direita quanto a rede Fox News – moveu-se um pouco à esquerda, chegou quase ao centro, e conseguiu algum sucesso de audiência com interpretações “liberais” da política doméstica (mas sem jamais desafiar abertamente e seriamente o que o Establishment mandava dizer sobre política externa).

Há também alguns sites na Internet que desafiam a sabedoria convencional e apoiam ativamente o intervencionismo dos EUA em vários pontos do mundo, mas mal sobrevivem, do ponto de vista financeiro, e tem alcance limitado na população em geral.

Comprar as empresas, para escrever as notícias

Agora, tudo leva a crer que, nos próximos anos, a Direita norte-americana consolidará sua dominação sobre a imprensa-empresa de notícias. Em futuro próximo, algumas das mais conhecidas e influentes redes regionais de noticiário poderão já estar sob controle direto de ideólogos ativos da extrema direita nos EUA, como Rupert Murdoch ou os Irmãos Koch.

David e Charles Koch 
As Koch Industries, gigante de petróleo e gás, de propriedade privada, que oferece todos os recursos necessários para que Charles e David Koch financiem fartamente inúmeros think tanks libertaristas e organizações do movimento Tea Party, começam a testar a mão em ofertas para comprarem oito veículos regionais da Tribune Company, incluídos aí o Los Angeles Times, o Baltimore Sun, o Orlando Sentinel, o Hartford Courant e o Chicago Tribune, como se lê em matéria publicada no New York Times domingo passado.

Se comprarem os veículos do grupo Tribune, os Irmãos Koch Brothers ter-se-ão presenteado, eles mesmos, com mais uma importante plataforma para distribuir propaganda de extrema direita e fazer da vida política (e, provavelmente, também privada) dos adversários políticos, um perfeito inferno. Lembro, dos meus dias de repórter, cobrindo o Capitólio, do que todos os jornalistas sabiam: nada assusta mais um deputado ou senador, que a oposição obcecada do jornal regional de sua base eleitoral.

Rupert Murdoch
Outro que também deve apresentar-se para esse negócio, ou para comprar, pelo menos, o Los Angeles Times, é o magnata sionista Rupert Murdoch, que já é proprietário da rede Fox News e de poderosos jornais diários no Reino Unido e nos EUA, dentre os quais o Wall Street Journal

Do outro lado, concorrendo com esses pesos-pesados, há empresários um pouco mais liberais, de olho no Los Angeles Times, mas não se sabe se têm condições de competir com as gordas carteiras dos Irmãos Koch e Murdoch. O New York Times diz que as Indústrias Koch podem ter grande vantagem no negócio, porque comprariam, de uma vez, os oito jornais do grupo.

Alguns, no campo da Esquerda, zombam da ideia de investir na indústria “dinossauro” do jornalismo impresso e questionam o interesse, para a Esquerda, de contar com – que fosse! – pelo menos alguns desses títulos de prestígio no jornalismo dos EUA. Não há dúvidas de que, sim, muitos daqueles jornais estão em decadência, em quase todos os casos por erros de administração, de política empresarial e pela volatilidade dos dólares da publicidade.

Mas ainda são vozes influentes, que falam às populações das áreas metropolitanas interessadas em saber sobre o mundo. Os jornais também definem a pauta de discussão das TV locais e de muitos blogueiros, sobretudo dos blogueiros jornalistas. O Baltimore Sun, por exemplo, produziu a mais importante peça de jornalismo sobre os crimes contra direitos humanos no governo Reagan, na América Central; e publicou inúmeros importantes furos de bom jornalismo sobre espionagem praticada pelo governo Bush contra cidadãos norte-americanos.

Gary Webb
É verdade, sim, que vários dos grandes jornais desgraçaram-se, eles mesmo, nas últimas décadas, como o Los Angeles Times e a vergonhosa campanha que moveu contra o jornalista assassinado Gary Webb, depois que ele trouxe à tona o escândalo de “Contras” e cocaína, do governo Reagan, no final dos anos 1990s.

Mas páginas de Internet – mesmo as páginas, como este nosso Consortiumnews.com que tem declarado e forte interesse em fazer jornalismo investigativo – vivem sob a pressão da falta de recursos financeiros e de material humano para produzir esse tipo de projetos de investigação, que são caros, pelo menos com alguma regularidade.

Se não se organizarem maiores investimentos, de cidadãos e empresas honestas – seja na Velha Mídia impressa ou na Nova Mídia eletrônica, para que se produza jornalismo de melhor qualidade – os EUA continuarão a navegar para o fundo do poço, num mundo de ficção, interesses escusos, paranoia de Direita e fatos falsificados. E isso é grave risco para todo o planeta.