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segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Irã, WikiLeaks e os “Documentos do Pentágono”

21/12/2010, Kaveh L Afrasiabi, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu 

Os documentos vazados por WikiLeaks e suas ramificações globais, sobretudo no que tenham a ver com o tema sensível do impasse em torno do Irã nuclear, sugerem comparação, pelo menos em alguns aspectos, com o primeiro escândalo de vazamentos da era moderna – a publicação, no New York Times, de quantidade massiva de documentos dos EUA com análises da Guerra do Vietnã em 1971, também conhecidos como “Documentos do Pentágono” [ing. Pentagon Papers].

Enquanto Teerã e os países do grupo conhecido como “Irã-6” trabalham em Istambul para dar andamento a conversações iniciadas em Genebra em dezembro, notícias sobre nova rodada de sanções de dois tipos – unilaterais e multilaterais – em preparação nos EUA, atingem o Irã como mais um sinal da “má fé” dos norte-americanos. É como um freio no surto de otimismo no Irã pós-Genebra, que levou Saeed Jalili, negociador do Irã, a declarar que Istambul poderia assistir a uma importante alteração de cenário.

São esperanças que se podem revelar infundadas, à luz dos sinais preocupantes de que a política dos EUA para o Irã continua sem rumo, e, pior, ante a onda de vozes de fundamentalistas neoconservadores e agentes pró-Israel, que buscam desconstruir e distorcer qualquer acordo em que se possa pensar entre a Casa Branca e Teerã. Os jornais e jornalistas pró-Israel e anti-Irã estão operando a pleno vapor no Ocidente, com uma avalanche de comentários que clamam por mais violência dos EUA contra o Irã e o fim da abordagem “de vinculação” [orig. “linkage approach”] que o presidente Obama deu sinais de preferir para o processo de paz no Oriente Médio e como saída do impasse do Irã nuclear.

Graças em parte a bem orquestrada campanha baseada em leitura altamente seletiva dos documentos de WikiLeaks, que ignorou consistentemente o quanto os líderes árabes aprovavam e insistiram na abordagem “de vinculação”, a opinião pública ocidental está sendo induzida à falsa ideia de que haveria algum consenso no Oriente Médio a favor de dar-se prioridade à ameaça de um Irã nuclear, relegando-se a segundo plano o problema Israel-Palestina. Apesar de essa ideia ser falsa – como já várias vezes demonstraram especialistas como Jim Lobe, Gareth Porter e outros – o moinho da propaganda anti-Irã continua a produzir quantidades imensas de desinformação, para que os EUA sejam empurrados para o mais longe possível de qualquer acordo com o Irã e de qualquer chance de encontrar-se um fim para a crise nuclear.

O vício mortal da parte “porrete” da abordagem linha-dura
Por trás do impulso dos EUA na direção de mais e mais sanções contra o Irã está o sempre repetido argumento de que “negociações sem pressão constante não alcançarão nossos objetivos”, parafraseando William Bundy, político norte-americano, cujo nome é citado nos “Documentos do Pentágono”. De fato, os EUA parecem absolutamente incapazes de aprender com os próprios erros. Fato é que a tática de impor pressões sempre crescentes ao Vietnã do Norte, e a estratégia dos EUA, de “pressionar, para depois barganhar” e arrancar concessões de Hanói, nunca deu certo daquela vez; tudo leva a crer que tampouco dará certo contra o Irã.

Nos dois conjuntos de documentos – nos “Documentos do Pentágono” e nos documentos publicados por WikiLeaks sobre o Irã – está presente praticamente a mesma “teoria do dominó”, ou teoria muito semelhante àquela; no Vietnã, foi o medo de que o comunismo se espalhasse pela Indochina; no caso do Irã, sequer as metáforas mudaram essencialmente: fala-se do Irã como “um câncer que cresce” com “tentáculos de polvo”. São expressões que se usam para demonstrar que os poderes ‘protetores’ dos EUA são indispensáveis em todo o Oriente Médio. O almirante Mike Mullen, comandante do Estado-maior do Exército dos EUA, disse que os EUA estão “absolutamente prontos” para conter o Irã.

Todo esse agitar de sabres e táticas de pressão coincidem com a nomeação do novo ministro de Relações Estrangeiras do Irã, Ali Akbar Salehi, tecnocrata formado nos EUA. Em seu primeiro discurso no cargo, introduziu uma nota conciliatória, destacando a importância dos passos para “construir confiança”. É posição que levanta graves questões sobre os motivos dos EUA e a alegação de que estariam buscando alguma solução, não o aprofundamento da crise nuclear iraniana.

Momento paralelo revelado nos “Documentos do Pentágono” foi a catastrófica decisão, pelos EUA, em 1954 de boicotar [orig.to scuttle] as conversações de paz de Genebra que poderiam ter posto fim no conflito no Vietnã. Os “Documentos” comprovaram com abundância de evidências o “papel direto” dos EUA na pressão sobre os europeus, sobretudo sobre a França, contra “aquiescer” ao Vietnã do Norte, que levou à suspensão das conversações a qual, por sua vez, pavimentou o caminho para a total americanização da guerra, graças em parte a iniciativas belicosas extremamente agressivas do Congresso dos EUA.

De modo semelhante, hoje, à luz da pressão sobre a Casa Branca feita por vários deputados e senadores que exigem que os EUA tracem “uma linha vermelha” que imponha fim absoluto às atividades iranianas para enriquecer urânio e que os EUA não admitam nenhum tipo de acordo de troca de combustível nuclear, até que o Irã aceite implementar completamente as resoluções da ONU que visam à suspensão daquelas atividades, vê-se que, outra vez, a pressão para que os EUA evitem qualquer tipo de conversações significativas brota de várias fontes, inclusive do Legislativo. Seria de desejar que pelo menos o Legislativo soubesse melhor das suas responsabilidades na direção de salvar os EUA de outra “guerra simulacro”, que só serve aos interesses do Estado de Israel.

Segundo o jornal Le Monde, em matéria sobre os telegramas diplomáticos recentemente publicados por WikiLeaks, os israelenses apresentaram estimativas erradas sobre as armas de destruição em massa que haveria no Iraque, antes da invasão de 2003. Não seria surpresa se Telavive fizesse o mesmo, outra vez, em relação ao Irã.

Os “Documentos do Pentágono” demonizavam os franceses. Hoje, os alvos preferenciais são a União Europeia e a secretária de política exterior, Catherine Ashton. Foi denunciada em Washington por ousar assumir “papel central” nas conversações de Genebra [que reuniu o grupo “Irã-6”, no início de dezembro], e um irado ministro da Defesa de Israel Ehud Barack, que visitou Washington na semana passada, reclamou de os EUA apoiarem a União Europeia nas conversações do grupo Irã-6, mês passado.

O que todos os líderes israelenses e o poderoso lobby que defende os mesmos interesses em Washington, insistem em ignorar é que não se prevê que o Irã venha a aceitar exigências maximalistas de completa suspensão do seu programa nuclear (caro e de alto prestígio entre a população iraniana), por mais numerosos que sejam os porretes que se ergam contra ele. Não seria mais aconselhável que Washington modelasse suas políticas sobre expectativas mais realistas? Aparentemente, não.

Do ponto de vista do Irã, os documentos publicados por WikiLeaks lançam luz que não faz aumentar a credibilidade da política de “engajamento” do governo Obama, mostrando um governo que duplica a abordagem anterior “de duas vias”, disfarçando-a sob uma máscara de mudança política, ao mesmo tempo em que obra para fazer aumentar as tensões com o Irã.

“Não nos parece que os planos atualmente revelados ofereçam qualquer perspectiva de vitória clara”, lia-se nos “Documentos do Pentágono”, reproduzindo fala de George Ball, conselheiro do governo dos EUA. Pode-se dizer o mesmo, hoje, aplicado ao atual curso de ação dos EUA em relação ao Irã, todo centrado, como é, na questão da contraproliferação nuclear.

De fato, tudo que os EUA e seus aliados estão fazendo – das sanções debilitantes, à proibição de venda de armas convencionais ao Irã; de vender armamento sofisticado a países vizinhos do Irã, ameaçando o Irã com ataque militar (inclusive com ataque nuclear, se necessário) – parece condenado a gerar o efeito contrário, fazendo aumentar as preocupações com a segurança nacional no Irã e, assim, reativando a rejeição que o país sempre manifestou muito claramente contra armas nucleares. Teríamos caso exemplar de profecia que “faz acontecer” o que profetiza.

Ao mesmo tempo, tudo isso significa levantar a bandeira vermelha para os iranianos que ainda alimentavam algum otimismo quanto à possibilidade de acordo com os EUA e alados em conversações futuras. Esse otimismo começa a ser visto como ingenuidade e grave erro de avaliação das reais intenções dos EUA em relação ao Irã – se se considera a evidência de que os EUA estão colhendo enormes lucros, tanto no campo econômico quanto no campo geoestratégico, que aumentam na medida em que se mantenha o impasse na questão nuclear iraniana. Qualquer inconsistência entre as atuais esperanças de melhor diálogo com os EUA e resultados futuros muito facilmente enfraquecerá campo dos iranianos moderados mais otimistas,

Isso não implica reforçar os argumentos dos iranianos absolutamente descrentes de qualquer acordo com EUA, que lembram sempre o terrível atentado, em que suicidas-bomba explodiram uma mesquita em Chah Bahar, matando dúzias de fiéis, apenas poucos dias depois da nomeação de ministro moderado para as Relações Exteriores, o que levou o Aiatolá Khamenei a denunciar, num de seus manifestos mais fortes do últimos tempos, que o Ocidente é cúmplice das ondas de terrorismo que o Irã enfrenta.

O problema do campo radical é que tende a super simplificar as complexidades das políticas dos EUA e dos processos que levam a elas, e a não ver as tensões que dividem EUA e Israel, tanto na questão do Irã quanto no “processo de paz”. Por tudo isso, é preciso insistir numa abordagem de meio termo, moderada, em Teerã, baseada numa equilibrada combinação de otimismo e desconfiança. Hoje, o Irã está em posição bastante mais forte para as conversações de Istambul, com a Rússia apoiando “uma abordagem construtiva” e a Turquia apoiando o acordo de troca de combustível nuclear, e com a Europa já bastante mais consciente do trabalho de induzir à guerra no qual EUA e Israel ainda insistem.

“Assistimos hoje à total inversão da posição dos EUA, em relação à troca de combustível acertada em outubro de 2009”, diz um cientista político da Universidade de Teerã, que pediu para não ser identificado. “O governo Obama já abandonou o campo do razoável, nas considerações sobre o Irã. O Irã já conquistou o direito de responder na mesma moeda. O Irã pode reagir a novas sanções, fazendo cortes, também, em sua disposição de cooperar com a Agência Internacional de Energia Atômica (órgão da ONU, de inspeção de instalações nucleares)”.

Em outras palavras, há hoje possibilidade real de reviravolta de fato, para pior, no impasse nuclear, em futuro próximo; a possibilidade de obter-se algum acordo que interesse também ao Irã é cada dia menor, a menos que a Casa Branca, de algum modo, consiga desvencilhar-se das influências venenosas às quais continua submetida e que levaram às práticas desastrosas da política exterior atualmente em andamento, contra o Irã.

Esse desenvolvimento positivo tão pouco provável é condição sine quo non para que os EUA encontrem meio construtivo para responder ao discurso de Salehi, que prega ações que visam a construir confiança e possam de fato evoluir na direção da detente EUA-Irã.

Infelizmente, como o discurso belicista do almirante (“absolutamente pronto”) Mullen, feito poucas horas depois do discurso conciliatório e de clara moderação do novo ministro Salehi, deixa suficientemente claro, os EUA nada sabem da complexa arte de gerenciar conflitos. Sempre interessados, só, em manter o velho vício, de poder cada vez mais “hard” e cada vez menos “soft”, digam o que disserem, e, aliás, sem qualquer diferença desde a publicação dos “Documentos do Pentágono”. Sempre a mesma “síndrome de superpotência”.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A difícil luta de Julian Assange em mundo sem hippies

23/10/2010, Alex Moore, Blog Deaths & Taxes -  Julian Assange: Life is Hard in a World Without Hippies
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu




 Em 1971, Daniel Ellsberg vazou para a opinião pública um bloco de documentos altamente secretos, do governo dos EUA, sobre a Guerra do Vietnã, conhecido como The Pentagon Papers [Documentos do Pentágono]. Aqueles documentos comprovaram, pela primeira vez, algo de que muita gente já suspeitava: que o governo dos EUA mentia aos cidadãos. Enquanto Lyndon Johnson dizia aos cidadãos que tinha intenção de promover a retirada e a “desescalada”, os Documentos do Pentágono revelaram o que de fato o governo já estava fazendo: promovendo escalada massiva na guerra do Vietnã, e que autorizara missões de ataque também em territórios do Camboja e Laos.

Ellsberg enfrentou ameaças de prisão, de assassinado, de condenação por alta traição – o que se pode imaginar e também o inimaginável, para expor a verdade ao mundo. Conseguiu obter e divulgar a primeira evidência tangível de que o governo dos EUA mentira descaradamente aos cidadãos. Então, ninguém podia prever o que aconteceria depois daquele momento de medo e catarse.

Alguns anos depois, já ninguém pensaria em condenar Ellsberg por expor a verdade, e todos condenávamos os governos corruptos. Lembramos do incidente no Golfo de Tonkin como mais uma mentira divulgada pelo governo, não como plano que teria gorado porque teria sido denunciado por um traidor, empenhado em vazar segredos de Estado. Ellsberg, em pouco tempo, passou a ser tratado como herói, não como traidor.

Mas Ellsberg viveu numa geração de hippies – geração que valorizava a integridade e a verdade como princípio de vida –, e a revelação de Ellsberg incendiou a indignação pública como faísca em mato seco.

Quarenta anos depois, Julian Assange apresenta-se no cenário mundial com sua organização WikiLeaks, como um Ellsberg do século 21. É homem sem nacionalidade, e divulga, como a recebeu, pela Grande Rede, a informação que tem e deseja distribuir – retrato interessante do mundo contemporâneo. Sua organização deixa vazar documentos em escala jamais vista antes, enormemente mais ampla que as 1.000 página dos Documentos do Pentágono. O que revela, inclusive, informação nova sobre assassinatos e tortura no Iraque depois de Abu Ghraib, entre elas 66.081 mortos iraquianos civis, provavelmente ainda mais chocantes que as informações contidas nos Documentos do Pentágono. E, surpreendentemente, todos só falam sobre o homem que vazou a informação, que seria alguma coisa entre um idiota e um traidor; e ninguém comenta o conteúdo das novas informações.

Todo o noticiário sobre WikiLeaks parece concentrado sobre acusações de crime sexual que teria sido praticado pelo autor dos vazamentos na Suécia, ou sobre notícias de que o homem teria personalidade de ditador, o que teria levado vários dos voluntários que teriam trabalhado com ele a desistir da missão. Mídia alguma se dedica a repercutir o conteúdo dos arquivos vazados. Daniel Ellsberg diz ao New York Times que esperou “quarenta anos por alguém que divulgasse informação secreta em escala que realmente fizesse diferença”. Mas a verdade vazada por WikiLeaks parece não fazer diferença alguma. Fato é que, sim, o mundo mudou muito entre os anos de Ellsberg e os anos de Assange. Hoje, quando a nova informação que Assange afinal expôs ao mundo deveria ter provocado protestos de massa e clamor crescente por transparência e responsabilidade em tudo que os governos digam aos cidadãos através da mídia, a espantosa maioria dos cidadãos e absolutamente toda da mídia só faz falar de/sobre Assange, e em quase todos os casos contra Assange.

Não estou dizendo que Julian Assange não estuprou alguém na Suécia; não sei se estuprou ou não; se estuprou, deve ser condenado como todos os estupradores. O que estou dizendo é que é muito evidente o motivo pelo qual interessa à mídia e aos críticos de Assange desacreditá-lo. Ao mesmo tempo, se se considera que Assange reconheceu que manteve relações com “fãs”, mas que foram relações de sexo consensual, é também suspeitamente evidente o interesse que muitos podem ter em desacreditá-lo "em geral", apresentá-lo, em geral, como doido (além de estuprador perverso).

É possível que Assange tenha mentido sobre suas aventuras sexuais, é possível que o que dizem alguns de seus ex-funcionários tenha fundamento na realidade, e que Assange seja chefe dominador, talvez, mesmo, tirânico. Nada disso tem qualquer relação com os documentos vazados sobre a guerra do Iraque. Os norte-americanos e o mundo esqueceram já, completamente, que Martin Luther King, Jr. envolveu-se em mais de uma aventura extraconjugal. É marca grave em seu passado. Mas a vida e a obra que construiu, a mensagem de sua vida, encontraram eco numa geração inteira de norte-americanos comprometidos com o projeto da mudança social.

Assange é hoje apátrida, sem casa, à procura de um país que o receba (perdeu recentemente a cidadania sueca); e o New York Times descreve-o literalmente como “fugitivo”, depois de rápida passagem pela Islândia. Mas Assange é excluído hoje, sobretudo, porque é figura de “sem-teto ideológico”.

40 anos depois, David Ellsberg diz que sente uma espécie de “irmandade” com Assange, mas irmandade que não se vê em maior escala. Os documentos expostos por Assange não inspiram passeatas em direção a Washington nem qualquer tipo de protestos visíveis. O presidente Barack Obama, apesar de toda a retórica eleitoral sobre transparência e integridade, não elogiou Assange nem disse dele que seria um novo “campeão da verdade”. O Pentágono, de fato, não faz outra coisa que tentar silenciá-lo. E até governos estrangeiros, cujas agendas nada têm a ver com segredos militares ocultados, não se apressam em oferecer abrigo ou cidadania a Assange.

É como se Assange tivesse nascido em momento errado. Como se tivesse de esforçar-se muito para impor a verdade num mundo que já não manifesta qualquer apetite pela verdade. Sem aliados, nômade também no plano ideológico, não se sabe por quanto tempo a voz de Julian Assange conseguirá continuar a vazar fatos.

Historicamente, as principais vozes de oposição que o mundo conheceu – de Martin Luther King a Malcolm X e John Lennon – parecem sempre encontrar pela frente, mais cedo ou mais tarde, forças que as silenciam e calam.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

EUA: a mídia rendida ao Pentágono: PROSSEGUE o silêncio sobre os “Documentos do Iraque”

PROSSEGUE o silêncio sobre os “Documentos do Iraque” [1]

27/10/2010, Glenn Greenwald, Salon  em: More on the media's Pentagon-subservient WikiLeaks coverage

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O colunista John Burns do New York Times respondeu às (e reclamou das) críticas que lhe fizemos eu, Julian Assange e vários outros, contra o “perfil” [2] – grotesco, escrito à maneira dos tablóides sensacionalistas sobre “celebridades” do show business – de Julien Assange, e que o NYT destacou como parte central da cobertura, pelo jornal, do vazamento de documentos secretos sobre a guerra do Iraque. Em entrevista de autojustificação a Michael Calderone, do Canal Yahoo! News [3], Burns fez vários comentários que têm de ser examinados de perto:

Burns disse que não se lembra “de jamais, antes, ter sido alvo de campanha tão empenhada em ofendê-lo, agredi-lo e desrespeitá-lo”, e veio com a longa história dos seus 35 anos de serviços prestados ao jornalismo do Times. Contou que sua caixa de mensagem encheu-se de reclamações de professores das principais universidades “Harvard, Yale e MIT”. Algumas das mensagens serviam-se de “linguajar que acho [Burns acha] que aqueles professores não usam em casa, à mesa do jantar”.

Muito bom! Aí está boa notícia, dessas que nos enchem de entusiasmo e esperanças.

Pelo visto, outras pessoas também se sentiram indignadas ao constatar que o jornal que, mais que qualquer outro no planeta, tanto trabalhou para que os EUA atacassem o Iraque, anos depois, ao cobrir o mais impressionante conjunto de informações que o país continuava a ignorar sobre a mesma guerra... encarregou o seu mais celebrado correspondente de guerra e diretor da sucursal do jornal em Londres, para a inglória tarefa de ‘desvendar’ os escaninhos da personalidade de Julian Assange, apresentado, na matéria do NYT, como doente mental, pervertido, criminoso. Há muito, aí, para indignar muita gente!

Os EUA são informados, afinal, sobre mais de 100 mil mortos e sobre torturas a milhares de outros civis... e o NYT põe Burns em primeira página, para pintar retrato horrível, não da guerra, mas de Julian Assange! Imaginem só!

E, depois da chuva de mensagens indignadas que recebeu, todas protestando contra o retrato de Assange pintado por ele, Burns diz que, “de fato, são mensagens que só fazem comprovar o quanto se tornou amargo o discurso dos norte-americanos sobre as duas guerras.”

Oh! Oh! Como se... a amargura do discurso dos norte-americanos sobre duas guerras, não as guerras, fosse o problema! As pessoas estão “amargas” e “amarguradas”... sem motivo algum? Só por causa de duas guerras que se arrastam há uma década? Só porque rios de sangue de homens e mulheres inocentes estão sendo derramados e continuam a correr em vão? Só porque o Pentágono destruiu, devastou, arruinou dois países? Só porque o Pentágono disseminou pelo planeta o regime das prisões norte-americanas, de detenção e torturas, além da ocupação mais brutal? Bobagem! Por que nos deixar amargurar por tão pouco?

As pessoas que tratem, isso sim, de levantar a cabeça (e devem cuidar também de nunca escrever coisas amargas em mensagens endereçadas a John Burns).

Esse, afinal, é o único tema que realmente interessa a John Burns: John Burns.  

Fato é que o próprio Burns já explicara há alguns meses que absolutamente não havia como ele-Burns e seus iluminados e clarividentes colegas jornalistas apoiadores de guerras, quantas mais, melhor – sempre ouvidos e consultados e repetidos como especialistas que ninguém no país deveria questionar, e cujas opiniões deveriam ser seguidas sem contestação –, terem adivinhado [4] que um simples ataque ao Iraque levaria à devastadora violência e à catástrofe humanitária que se vê hoje. Ora! Ninguém nunca esperou que adivinhassem coisa alguma! Bastaria que lessem as muitas, muitas páginas que se escreveram, em todo o mundo, para alertar sobre a iminência de acontecer, no Iraque, exatamente, o que aconteceu.

Do ponto de vista de Burns, ele não “merece” insultos por e-mail, nem palavras amargas. Há aí, isso sim, uma muito amarga, sim, ironia histórica: um laureado repórter de guerra, que se lamuria, em 2010, por receber mensagens ‘amargas’, depois de ter publicado uma das colunas mais vergonhosamente enviesadas e caluniosas, mais viciosas, peça de propaganda pervertida, de destruição de reputação, que se leram no New York Times ... em vários meses.

E há mais:
O perfil de Assange que publicou, diz Burns, “é trabalho jornalístico absolutamente padrão, o mesmo padrão que usamos para qualquer história que tenha, para os EUA, importância similar àquela”. E acrescentou que “(...) o New York Times não faz jornalismo de hagiografia. Nosso negócio é oferecer aos nossos leitores o pleno contexto do qual brotam aqueles documentos” e informação confiável sobre as motivações de Assange. “Sugerir que isso seria alguma espécie de grotesco pecado de lesa-jornalismo, e pintar-me como sociopata, isso, sim, parece-me muito suspeito”.

Aqui chegamos ao xis da questão.

O que Burns escreveu sobre Julian Assange não é, de modo algum, jamais foi, “o padrão jornalístico do The New York Times”.

Quem não saiba disso, ou discorde da generalização, que encontre e exiba, por favor, qualquer artigo, um que seja, publicado no NYT e que exponha as misérias mentais, psicológicas ou de personalidade, de militar norte-americano de alta patente ou de político aliado a militares de alta patente – senador ou general ou presidente ou assessor importante, um lobbyst, que seja, aliado dos militares de alto escalão –, e que o NYT tenha publicado, com redação final costurada a partir só de diz-que-disses, boatos, calúnias e mentiras, ou opiniões buscadas, precisamente, em fontes de inimigos declarados dos militares-figurões. Não há. Nunca houve. Nunca haverá, no NYT, coluna semelhante à que Burns escreveu contra Assange, mas que centre fogo contra militar de alta patente do Pentágono.

Esse tipo de trabalho de demolição de reputação (“não está em seu juízo perfeito”, como disse, em depoimento que Burns cita sobre Assange, um rapaz de 25 que conhece Assange “de vista”) só se aplica a gente à qual os jornalistas do establishment não atribuam qualquer capacidade de influenciar os círculos do poder; pessoas sem influência direta em Washington e, sobretudo, a quem o governo dos EUA despreze.

Para a Washington-do-poder, Assange não passa de “fracassado desgraçado” [5]. O Pentágono o odeia e quer destruí-lo a qualquer custo. Assim sendo, os “jornalistas” que dependem, temem, admiram ou identificam-se com o Pentágono imediatamente adotam o mesmo ponto de vista sobre Assange e sobre seu trabalho e sobre os vazamentos. Por isso, precisamente, Burns atacou Assange tão violentamente.

Depois de publicado o meu artigo em que critiquei sua coluna, na 2ª-feira, Burns telefonou-me; não ele pessoalmente, mas o co-autor da coluna, Ravi Somaiya, que defendeu a coluna, contra o que eu publiquei. Concordei com manter a conversa off-the-record por insistência dele e assim será. Mas eu, na conversa, só fiz repetir que NUNCA HOUVE, no NYT, coluna de difamação contra figurão do Pentágono ou de Washington aliado do Pentágono, no estilo da que Burton e Somaiya assinam contra Assange.

É constatação histórica: nunca houve.

Quanto à frase de que “o NYT não faz jornalismo de hagiografia”, Burns provavelmente esqueceu o que ele mesmo escreveu sobre Sua Santidade o general Stanley McChrystal, depois de Burns haver detonado Michael Hastings pelo atrevimento de publicar na revista Rolling Stone frases do próprio general, ouvidas e gravadas, mas que voltaram, como bumerangue, contra o mesmo general falastrão. Eis o que Burns escreveu [6], ajoelhado em reverência àquele Grande Guerreiro Norte-americano:

“[o que sei] sobre o general McChrystal indica que ele é, como o artigo de Rolling Stone sugeria [7], homem de autoestima elevadíssima, confiante, pouco preocupado com convenções, mas sempre um soldado, alimentado por fé profunda nos ideais militares de “dever, honra, pátria”. Apesar de lhe ter cabido o comando no Afeganistão, que para muitos seria um cálice de veneno, o general trabalha dia e noite para resgatar a fortuna norte-americana lá investida (...) [perdê-lo] é grave infelicidade para os EUA, se se considera que foi afastado do comando um general como McChrystal, general de  coragem e decisões sempre inabaláveis (...)”.

E prossegue:

“O general George S. Patton Jr. foi considerado, em seu tempo, como o general McChrystal no Afeganistão, o melhor, o mais valoroso dos generais guerreiros dos EUA. No Iraque, pouco se sabia do general McChrystal, que lá dirigia missões super secretas, cruciais para fazermos virar a maré contra a Al-Qaeda e a guerrilha sunita, sob o comando do general Petraeus; missão que cumpriu exemplarmente, até assumir o comando no Afeganistão em junho de 2009.”

“Os jornalistas devem saber guardar suas opiniões pessoais, para preservar a visão imparcial. Mas posso dizer, sem medo de excesso, que muitos homens e mulheres que acompanharam como jornalistas o trabalho do general McChrystal como comandante no Afeganistão, ou, antes, como comandante máximo das Forças Especiais dos EUA, todos o admiravam muito. E todos se sentiram incomodados com o material publicado pela revista Rolling Stone que pôs fim a sua carreira.”

A impressão que se tem é que Burns escreveu em posição de sentido, batendo continência a uma fotografia do general. Talvez estivesse ajoelhado. O único leve sinal de algum tipo de crítica aparece como infiltrado: McChrystal “tropeçou catastroficamente” [8], ao confiar num “perdedor desgraçado”, jornalista out, excluído do establishment, não-coroado, safado, vagabundo, como Michael Hastings, que não sabe respeitar, o idiota – ou que não se rendeu –, às leis de preservação de generais que os Verdadeiros Jornalistas sempre usam nos exercícios de veneração que chamam de “cobertura do Pentágono”. E apesar de haver escrito 2.700 palavras carregadas de elogios a McChrystal, Burns não faz qualquer referência a coisinhas como o envolvimento de McChrystal no escândalo Pat Tillman, nem a tortura generalizada no Iraque em prisões sob seu comando, até que um leitor escreveu e perguntou-lhe. Então, Burns tocou nesses tópicos, o suficiente, só, para desmentir tudo. O jornalismo de Burns, sempre que escreve sobre McChrystal é exemplar, é a definição, de hagiografia jornalística. (...)

“Hagiografia” é exatamente o que faz a mídia do establishment nos EUA na cobertura dos políticos mais poderosos e dos líderes militares. E a mesma mídia reserva toda a vilania mais ativa contra os desprezados pelos poderosos de Washington. Julian Assange é hoje o odiado da vez.

A agenda da grande mídia nos EUA submete-se tão completamente à agenda do Pentágono, e a cobertura que estão dando aos documentos vazados por WikiLeads é tão pífia, vários grandes jornalistas, respeitados nacionalmente, já começaram a desmentir jornais e jornalistas, muitos deles sem omitir nomes.
John Parker, ex-repórter militar e professor do Centro Knight de Especialização em Jornalismo – Cobertura de Atividades Militares da University of Maryland, escreveu e publicou ontem uma carta excepcional, que merece ser lida → “A atenção que a “grande” mídia nos EUA não deu aos “Documentos do Iraque” não deveria surpreender ninguém” , 26/10/2010, Romenesko Letters, John Parker.


Notas de Rodapé:

[1] Sobre o mesmo tema, ver também blog redecastorphoto, em; Assange – WikiLeaks, ao vivo, pro entrevistador, ontem à noite:    , WikiLeaks divulga arquivo secreto da Guerra do Iraque  e WikiLeaks: novas imagens dos crimes americanos no Iraque (em inglês). Matéria do The Independent de Londres, traduzida, no blog redecastorphoto, em: WikiLeaks: A vergonha dos EUA exposta. 

[2] O artigo comentado está em WikiLeaks Founder on the Run, Trailed by Notoriety  (em inglês)

[3] A entrevista pode ser vista e ouvida em:  NY Times reporter defends profile of WikiLeaks’ Assange (em inglês)

[4]
O artigo citado está em: The "nobody could have known" excuse and Iraq (em inglês)

[5] O artigo está em: Pentagon Sees a Threat From Online Muckrakers (em inglês)


[7] Comentado em: The Formula. (em inglês)

Carta: A atenção que a “grande” mídia nos EUA não deu aos “Documentos do Iraque” não deveria surpreender ninguém

26/10/2010, Romenesko Letters, John Parker, leitura indicada por Glenn Greenwald, pelo Twitter: RT @Will_Bunch - " Todos os jornalistas devem ler essa carta amarga de um ex-correspondente militar, sobre o silêncio da mídia sobre os documentos WikiLeaks-Iraque”  e ggrenwald
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

A triste nenhuma cobertura (“Infelizmente, os noticiários de televisão ignoram os arquivos WikiLeaks sobre o Iraque”) sobre o vazamento por WikiLeaks de informação não censurada sobre eventos que devem ser de conhecimento público é incômoda e perturbadora, mas é exatamente o que sempre aconteceu, historicamente, na grande mídia comercial dos EUA.

Uma vastíssima maioria de carreiras de jornalistas que cobrem o Pentágono, quase rotineiramente acabam no mesmo beco sem saída: ao longo do tempo, todos acabam por ser cooptados por uma mistura de medo e catatonia – efeito de viver tão próximos do mais poderosamente ficcionalizado aparelho de violência da história da humanidade –, sob o fascínio das mentes militares mais altamente treinadas do mundo, agudíssimas, concentradíssimas, focadas só, só, no dever. Cada alto oficial sempre arrasta atrás de si os próprios assessores de imprensa e seletos periodistas. É vergonha para qualquer jornalista que trabalhe no Pentágono jamais ter sido escolhido para dar testemunho, em primeira mão, isento e equilibrado, da impecável competência de seus comandantes. Não se fala, lá, sobre nada disso. Como não se fala tampouco do patriotismo inato e inabalável dos jornalistas ‘de dentro’ e que já levou vários bons jornalistas a abandonar – justificadamente, segundo o próprio juízo deles – a obrigação profissional de tratar todas as fontes com as mesmas doses de respeito e desconfiança.

São muitos os repórteres militares (na internet, nas televisões, nos jornais) que simplesmente já trocaram o dever profissional de fiscalizar o poder, pela ilusão de que seriam parte do poder. Exemplo disso é Tom Gjelten.

Entrevistado por um colega da National Public Radio (NPR), dia 22/10, sobre os documentos vazados essa semana por WikiLeaks, o diálogo foi o seguinte (transcrito da entrevista):

Robert Siegel: E a reação sobre os documentos vazados?
Gjelten: Bem. É claro. O Pentágono está compreensivelmente furioso, como se enfureceram também quando os documentos do Afeganistão vazaram. Dizem que a decisão de divulgar aqueles documentos foi presunçosa, subversiva. Dizem – e concordo enfaticamente [negritos meus] com eles – que o período do Iraque coberto por esses documentos já foi fartamente noticiado. Dizem que os documentos nada esclarecem e não melhoram o conhecimento que já havia sobre aqueles eventos.

Aí está, preto no branco. Gjelten aluga a própria credibilidade de jornalista “neutro” ao Pentágono. Quem não creia no Pentágono, talvez creia no jornalista... Sou jornalista há décadas, tempo demais para não ver o que Gjelten fez. Ele foi furado. Então, ligou o modo “quem-tem-cu-tem-medo” [ing. CYA (Cover Your Ass (CYA) or Cover Your Own Ass (CYOA) mode] e a primeira coisa que disse aos seus comandantes-editores foi “É tudo notícia velha”.

Mas, depois de o New York Times e outras grandes redes de notícias terem cansado de comentar as revelações contidas nos documentos recém-vazados por WikiLeaks, Gjelten dedica-se a redigir briefings perfeitos, brilhantes, com notícias que rouba do trabalho de outros jornalistas, e que repete, sempre que o Pentágono tem de falar ‘ao vivo’.

Gjelten, outros jornalistas do Pentágono e a parte informada da opinião pública muito teriam a ganhar se assistissem ao documentário “O marketing do Pentágono”[1], de 1971.

Naquele documentário vê-se como, no auge da Guerra do Vietnã, o Pentágono usou dinheiro dos contribuintes contra a boa fé dos mesmos contribuintes, num esforço de propaganda para seduzir corações e mentes a favor da ideia de guerra ilimitada. 40 anos depois, as técnicas de modelagem da opinião pública são muitíssimo mais sofisticadas. As empresas jornalísticas hoje já compram e vendem, como se fosse jornalismo, qualquer notícia de ontem, desde que aprovada pelos ‘comandantes’.

Atenciosamente,

John Parker 
(Ex-correspondente militar, professor do Centro Knight de Estudos de Jornalismo Especializado - Cobertura de Atividades Militares, da University of Maryland) 

[1] Ver também  sobre o documentário The Selling of the Pentagon, 1971, CBS, 23/2/1971

Wikileaks: novas imagens dos crimes americanos no Iraque (em inglês)

Pouco depois de divulgar quase 400 mil documentos secretos sobre a Guerra do Iraque, a organizaçao Wikileaks volta com novas imagens e mostra em vídeo, imagens dos crimes de assassinato de civis denunciando novamente a estupidez das tropas americanas e da OTAN no Oriente Médio. 

Iraq's Secret War Files - Dispatches Wikileaks Special 


segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Robert Fisk: A vergonha dos EUA exposta

Trad. do PORTAL VERMELHO, 25/10/2010
Artigo traduzido do The Independent - Robert Fisk: The shaming of America


Como de costume, os árabes sabiam. Eles sabiam tudo sobre as tortura em massa, o promíscuo tiroteio de civis, o escandaloso uso do poder aéreo contra casas de famílias, os cruéis mercenários norte-americanos e britânicos, os cemitérios de mortos inocentes. Todo o Iraque sabia. Porque eles eram as vítimas.

Só nós poderíamos fingir que não sabíamos. Somente nós, no Ocidente, poderíamos rechaçar cada acusação, cada afirmação contra os norte-americanos ou britânicos, colocando algum digno general - vêm à mente o pavoroso porta-voz militar dos EUA, Mark Kimmitt, e o terrível chefe do Estado Maior, Peter Pace - a nos cercar de mentiras.

Se encontrávamos um homem que tinha sido torturado, nos diziam que era a propaganda terrorista; se descobríamos uma casa cheia de crianças mortas em um ataque aéreo dos EUA, também era propaganda terrorista, ou dano colateral, ou uma simples frase: Nós não temos nenhuma informação sobre isso.
Claro, nós sempre soubemos que eles tinham sim. E o oceano de memorandos militares que foi revelado no sábado voltou a demonstrar. A Al Jazeera tem chegado a extremos para rastrear as famílias iraquianas cujos homens e mulheres foram mortos em postos de controle estadunidenses - eu identifiquei alguns porque relatei, em 2004, o carro cravado de balas, os dois jornalistas mortos, até o nome do capitão local estadunidense - e foi o The Independent on Sunday o primeiro a alertar o mundo sobre as hordas de pistoleiros indisciplinados que eram levados a Bagdá para proteger os diplomatas e generais. Estes mercenários, que abriram caminho assassinando nas cidades do Iraque, me insultaram quando lhes disse que estava escrevendo sobre eles, em 2003.

É sempre tentador ignorar uma história dizendo que não há nada de novo. A ideia da história antiga é usada pelos governos para esfriar o interesse jornalístico, pois serve para cobrir a inatividade jornalística. E é verdade que os repórteres já tinham visto antes algo assim. A evidência de envolvimento iraniano na fabricação de bombas no sul do Iraque foi vazada pelo Pentágono para Michael Gordon, do New York Times, em fevereiro de 2007.

A matéria-prima, que agora podemos ler, é muito mais duvidosa do que a versão produzida pelo Pentágono. Em todo o Iraque havia material militar iraniano da guerra Irã-Iraque de 1980-1988, e a maioria dos ataques aos americanos foram realizados nesta fase por insurgentes sunitas.

De fato, os relatórios que sugerem que a Síria permitiu que insurgentes atravessassem seu território estão corretos. Eu falei com famílias de atacantes suicidas palestinos, cujos filhos vieram para o Iraque, a partir do Líbano, por meio da aldeia libanesa de Majdal e, depois, pela cidade nortenha síria de Alepo, para atacar americanos.
Mas, ainda que escrita em concisa linguagem militar, aqui está a evidência da vergonha estadunidense. É um material que pode ser usado por advogados em tribunal. Se 66.081 - me encantou esse 81 - é o número mais alto disponível de civis mortos, então, a cifra real é infinitamente maior, uma vez que este registro só se aplica para os civis dos quais os EUA tinham informações.

Alguns foram levados para o necrotério de Bagdá na minha presença, e foi o oficial a cargo que me disse que o Ministério da Saúde iraquiano tinha proibido os médicos de realizar autópsias dos civis levados por soldados dos EUA. Por que foi dada esta ordem? Teria algo a ver com os 1300 relatórios independentes dos EUA sobre a tortura nas instalações policiais iraquianas?

Os americanos não tiveram melhores resultados da última vez. No Kuwait, as tropas dos EUA podiam ouvir como os kuwaitianos torturavam palestinos nos quartéis de polícia depois que a cidade foi libertada das legiões de Saddam Hussein, em 1991. Até mesmo um membro da família real kuwaitiana participou de atos de tortura.

Os estadunidenses não intervieram e se limitaram somente a queixar-se à família real. Aos soldados sempre dizem que não intervenham. Depois de tudo, o que disseram ao tenente do Exército israelense, Avi Grabovsky, quando ele informou ao seu superior, em setembro de 1982, que falangistas aliados de Israel acabavam de matar mulheres e crianças? Nós já sabemos, nós não gostamos, não intervenha. Isso foi durante o massacre no campo de refugiados de Sabra e Chatila.

A citação vem do relatório da Comissão Kahan de Israel em 1983; sabe Deus o que leríamos, se Wikileaks conseguisse pôr as mãos nos arquivos do Ministério da Defesa de Israel (ou a versão síria, para o caso). Mas, é claro, naqueles dias, não sabíamos como usar um computador, muito menos escrever nele. E isso, naturalmente, é uma das lições importantes de todo o fenômeno Wikileaks.

Na Primeira Guerra Mundial, na segunda, ou no Vietnã, a pessoa escrevia seus informes militares em papel. Talvez os apresentasse triplicado, mas poderia enumerar as cópias, rastrear qualquer espionagem e evitar vazamentos. Os documentos do Pentágono estavam realmente escritos em papel. Mas o papel sempre se pode destruir, molhar, despedaçar até a última cópia.

Por exemplo, depois da guerra de 1914-1918, um segundo tenente Inglês matou um dos trabalhadores chineses que haviam saqueado um comboio militar francês. O chinês tinha ameaçado com uma faca ao soldado. Mas, durante o registro de 1930, o expediente dos soldados britânicos foi censurado três vezes, fato pelo qual não ficou do incidente maior rastro que um diário de guerra de um regimento que relatava o roubo, pelo chineses, do trem francês de suprimentos. A única razão pela qual eu estou ciente dessa morte é porque meu pai era o tenente britânico, e ele me contou a história antes de morrer. Naquele tempo não havia Wikileaks.

No entanto, suspeito que esta grande revelação de material da guerra no Iraque tem implicações sérias para jornalistas e exércitos também. Qual é o futuro dos Seymour Hershes e do jornalismo investigativo da velha escola, que o diário Sunday Times costumava praticar? Que sentido tem enviar equipes de jornalistas para investigar crimes de guerra e reunir-se com gargantas profundas militares se, de repente, quase meio milhão de documentos secretos vão acabar flutuando na frente de alguém em um monitor?

Nós ainda não atingimos o fundo da história da Wikileaks, e suspeito que há mais do que alguns soldados americanos envolvidos nesta última revelação. Quem sabe se não chega ao topo? Em suas investigações, por exemplo, a Al Jazeera encontrou um extrato de uma conferência de imprensa de rotina do Pentágono, em novembro de 2005.

Peter Pace, o nada inspirador chefe do Estado Maior conjunto, informa aos repórteres como os soldados deveriam reagir ante o tratamento cruel de prisioneiros, assinalando com orgulho que o dever de um soldado americano é intervir se observar sinais de tortura.

Em seguida, a câmera se move até a figura muito mais sinistra do secretário de Defesa Donald Rumsfeld, que, de repente, interrompe quase num sussurro, para desespero de Pace: Eu não creio que queira o senhor dizer que os soldados são obrigados a interrompê-la fisicamente. Seu dever é denunciá-la.

Desde então, o significado desse comentário - enigmaticamente sádico à sua própria maneira - se perdeu nos diários. Mas agora o memorando secreto Frago 242 lança mais luz sobre essa conferência de imprensa. Presumivelmente enviada pelo general Ricardo Sanchez, a instrução aos soldados é: Supondo que a denúncia inicial confirme que as forças dos EUA não estavam envolvidas no abuso de prisioneiros, não se realizará maior investigação, a menos que o ordene o alto comando.

Abu Ghraib aconteceu sob a supervisão de Sanchez no Iraque. Sanchez também foi, claro, quem não pôde explicar-me, durante uma conferência de imprensa, por que seus homens mataram os filhos de Saddam Hussein em um tiroteio em Mosul, ao invés de capturá-los.

A mensagem de Sanchez, ao que parece, deve ter tido a aprovação de Rumsfeld. Da mesma forma, o general David Petraeus, tão amado pelos jornalistas norte-americanos, teria sido responsável pelo aumento dramático dos ataques aéreos dos EUA no decurso de dois anos: de 229 sobre o Iraque, em 2006, para 447 mil, em 2007. Curiosamente, os ataques aéreos dos EUA no Afeganistão aumentaram 172% desde que Petraeus assumiu o comando militar.

Tudo isso torna ainda mais surpreendente que o Pentágono agora rasgue as vestimentas porque Wikileaks poderia ter sangue nas mãos. O Pentágono tem estado manchado de sangue desde que deixou cair uma bomba atômica sobre Hiroshima em 1945, e, para uma instituição que ordenou a invasão ilegal do Iraque em 2003 - acaso o número de civis mortos não foi ali de 66 mil, de acordo com suas próprias contas, de uns 109 mil registrados? - é ridículo afirmar que Wikileaks é culpado de assassinato.

A verdade, claro, é que se este vasto tesouro de relatórios secretos tivesse demonstrado que o número de mortos era muito menor do que o que a imprensa proclamava, que as tropas dos EUA nunca toleraram a tortura pela polícia iraquiana, que raramente dispararam contra civis nos postos de controle e sempre levaram os assassinos mercenários à justiça, os generais americanos teriam entregado esses registros para a mídia, sem qualquer encargo, nas escadarias do Pentágono. Não só estão furiosos por terem quebrado o sigilo ou porque se tenha derramado sangue, mas porque eles foram pegos dizendo mentiras que nós sempre soubemos que diziam.

domingo, 24 de outubro de 2010

Os quadrilheiros-de-Nixon: hoje, estão no New York Times

24/10/2010, Glenn Greenwald, Salon - The Nixonian henchmen of today: at the NYT

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Depois que Daniel Ellsberg vazou os “Pentagon Papers” e expôs as mentiras, a brutalidade a desumanidade do que os EUA fizeram na Guerra do Vietnã, o presidente Nixon e Henry Kissinger tramaram, infames, para destruir sua credibilidade. Como se lê no resumo ricamente documentado daqueles eventos, divulgado por History Commons em: Context of 'May 1969: FBI Wiretaps Nixon Aides, Reporters at Kissinger’s Behest'


O presidente Nixon autoriza a criação de uma “unidade especial de investigação”, mais tarde apelidada de “Encanadores”, para conter e vedar todos os vazamentos pela mídia. O primeiro alvo é Daniel Ellsberg, que vazou os “Pentagon Papers” para a imprensa  (ver 13/6/1971); a equipe invadiu e saqueou o consultório do psiquiatra de Ellsberg, Dr. Lewis Fielding, na esperança de obter informação que a Casa Branca pudesse usar na campanha de difamação contra Ellsberg, para minar sua credibilidade (...).
John Ehrlichman, assessor de Nixon, comunica aos chefes dos “Encanadores” Egil Krogh e David Young (ver 20/7/1971) as instruções de Nixon sobre o autor dos vazamentos dos “Pentagon Papers” Daniel Ellsberg (ver Final de junho-julho/1971) (...). Em poucos dias, Keogh e Young entregam a Ehrlichman memorando detalhado dos resultados das investigações sobre Ellsberg e uma dúzia de amigos de Ellsberg, parentes e colegas (...).

Essa semana, WikiLeaks divulgou mais de 400 mil documentos secretos da Guerra do Iraque detalhando os horrores do assassinato em massa de civis, a cumplicidade dos EUA na disseminação da tortura no Iraque, a ocultação sistemática, pelo governo, do número de mortos, e o massacre de civis, por soldados dos EUA, sobre os quais o próprio Daniel Ellsberg disse, nos termos do que o New York Times publicou em: WikiLeaks Founder Gets Support in Rebuking U.S. on Whistle-Blowers: “muitas das mortes de civis devem ser contadas como assassinatos”.

Como seria fácil de prever que aconteceria e já está acontecendo, exatamente como no caso de Ellsberg, está em curso hoje um grande esforço, coordenado, para destruir a figura do fundador de WikiLeaks, Julian Assange, e para apresentá-lo como doente mental – tudo, com o objetivo de distrair as atenções das terríveis revelações que se leem em WikiLeaks, e para minar a capacidade da organização de Assange para continuar a expor os segredos mais sujos e os erros do governo dos EUA no Iraque. De diferente, hoje, que a campanha de difamação, hoje, não está sendo liderada por funcionários do governo, mas por membros da ‘grande’ mídia comercial. Como Tim Shorrock escreveu hoje no Twitter: “Quando Dan Ellsberg vazou os Papéis do Pentágono, os quadrilheiros de Nixon tentaram destruir sua reputação. Hoje, c/Wikileaks & Assange, quem faz o serviço sujo é a imprensa comercial”.

Ontem, Assange abandonou uma entrevista que dava à CNN e que ele supunha que discutiria o significado das revelações sobre a Guerra do Iraque, porque o ‘jornalista’ da CNN só lhe perguntava sobre boatos e futricas sobre sua vida privada, sem nenhuma pergunta sobre os documentos vazados. No Nation, Greg Mitchell assim resume a entrevista: “Assange para a  CNN: ‘Você quer falar sobre 104 mil mortos, ou sobre minha vida privada?’ A resposta da CNN não poderia ter sido mais clara: a segunda opção, sem dúvida.”



Mas o ponto mais baixo da campanha de difamação leva a marca de John Burns, do The New York Times, que assina artigo repulsivo (WikiLeaks Founder on the Run, Trailed by Notoriety) sobre Assange – carregado com todos os boatos mais sórdidos, mais imundos sobre ele – que foi (e continua lá, agora, em ) publicado com destaque no NYT, disputando atenção e espaço com o noticiário sobre os documentos vazados, e em alguns momentos, recebendo mais atenção do que as notícias. Vê-se, no link acima, da página de hoje do NYT, com a matéria sobre a vida pessoal de Assange em destaque.

Não surpreende que Burns faça hoje o papel que, em 1971, coube a Henry Kissinger e John Ehrichman.  É verdade que Burns foi excepcional correspondente de guerra no Iraque, mas isso não implica que o jornalista algum dia tenha-se posicionado contra a guerra do Iraque ou os desmandos dos EUA no Iraque. Seus relatos sempre foram de glorificação dos EUA. Por isso, aliás, até os neocons que detestam o NYT muitas vezes o elogiam (como elogiam também Michael Gordon, parceiro de Judy Miller) (...). 

Para justificar-se e justificar o discurso simplório e os mitos erros de avaliação sobre o Iraque que cometeram ele e seus colegas de mídia, Burns escreveu há dois meses – e dessa vez, mentiu, além de errar – que “poucos, praticamente ninguém, anteviu a extensão da violência que brotaria lá ou a convulsão política que aconteceria no Iraque, nos EUA e por toda parte” e que “não podíamos saber, então, embora talvez devêssemos ter adivinhado, a escala do conflito que aquela invasão desencadearia.”

A guerra do Iraque é a guerra de John Burns, e, pelo crime de ter mostrado a verdadeira face daquela guerra, Julian Assange tem de ser destruído, seu caráter enlameado, sua saúde mental convertida em peste que ameaça a sociedade. Burns – e seu co-redator Ravi Somaiya – entregam-se pervertidamente à execução da tarefa (...)

Richard Nixon e seus “Encanadores” jamais se arriscariam a entregar a jornalistas a tarefa de dedicadamente destruir a reputação de vazadores de informação secreta, suas fontes sempre tão atentamente preservadas por jornalistas. (...) Pelo que se vê hoje, ante centenas de milhares de documentos que expõem crimes e abusos os mais revoltantes – esquadrões da morte e tortura generalizada e massacre de civis, como rotina de uma guerra que Burton elogiou ao longo de anos, e que seu jornal fez, mais do que qualquer outro, o trabalho de viabilizar e tornar inevitável – John Burns e seus editores do NYT decidiram que a questão mais premente e jornalística, de todos os documentos vazados, seria: “Mas quem, afinal, é esse Julian Assange?” 

“Comportamento errático e autoritário”. “Mania de grandeza”. “Autoritarismo”. “Uma vendetta contra os EUA”. “Não está em seu juízo perfeito.” Burns já nem precisa invadir o consultório de algum psiquiatra, para decidir que Assange seria “doente mental”, perigoso subversivo em guerra contra os EUA, associado a outros subversivos e... num instante... fazem, o jornal e o jornalista, o trabalho que, antes, exigiu mobilização de todo o governo Nixon!

É claro que, mesmo para um sociopata limítrofe, como Burns, a culpa que sente por ter pregado, propagandeado e viabilizado (além de muito a ter elogiado!) uma guerra que gerou a quantidade espantosa de desgraça e sofrimento humano que se vê nos documentos vazados deve ser terrível, insuportável. A tentação de destruir o portador de verdades terríveis sempre é muito forte. Mas não importa o quanto façam Burns e o New York Times, para destruir e enlamear Assange, nada conseguirá arrefecer a culpa (nem diminuir a [ir]responsabilidade) do jornalista e do jornal. (...)

Os traços de personalidade de Julian Assange nada têm a ver com as revelações que seu trabalho trouxe a público. Nada acrescentam aos documentos, à autenticidade dos documentos – que absolutamente não se discute, e está confirmada até pela reação do governo dos EUA e do Pentágono. Dar atenção aos aspectos de jornalismo de futricas, sobre a vida pessoal de Assange só tem o efeito – e o único objetivo – de distrair a atenção dos leitores, para que não vejam a verdade que há naqueles documentos sobre aquela guerra e o papel dos EUA, além, é claro, de tentar minar ‘preventivamente’ a credibilidade de WikiLeaks, tentando impedir que mais pessoas encaminhem àquela página documentos secretos a que tenham acesso, para que sejam divulgados ao grande público.

O The New York Times, a CNN e inúmeros outros veículos da mídia comercial têm sido rápidos a oferecer-se para fazer esse tipo de serviço sujo. Servir aos interesses de um ou outro governo, aliar-se a um ou outro grupo, ao Estado ou contra o Estado, ao Exército ou a um ou outro general, e atacar, simultaneamente, os jornalistas que não façam como eles e não escrevam exatamente o que eles escrevem. Esses veículos da mídia comercial existem para fazer exatamente isso. Por isso são “jornais e jornalistas do establishment”.

Além do mais, a última coisa que esses jornais e jornalistas querem é que mais norte-americanos se apercebam do horror que foi o ataque ao Iraque, dados os muitos e muitos anos que aqueles jornais e jornalistas consumiram no trabalho de construir a necessidade da invasão do Iraque e o papel central que tiveram naquela invasão. Pelo mesmo motivo, os jornalistas do establishment também se opuseram, praticamente todos eles, a qualquer investigação sobre os crimes do governo Bush que ignoraram e não denunciaram (quando não elogiaram).

E, ao servir como versão 2010 dos Encanadores da Casa Branca – atuando como cães de guarda contra os inimigos do Pentágono – esses jornais e jornalistas sem dúvida atraem para eles mesmos quantidades astronômicas de boa vontade dos que estão no poder, o único objetivo que realmente mobiliza esses jornalistas e esses jornais.

É, sim, significativo e revelador que os John Ehrlichmans e Henry Kissingers de hoje estejam encastelados nas grandes empresas comerciais de jornalismo.

Graças a eles, a Casa Branca pode dar folga aos seus próprios especialistas em difamação e detonadores de reputações.