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terça-feira, 28 de maio de 2013

Obama: a vitória na Síria já lhe escapou

21/5/2013, Jeremy Salt*, Al-Ahram Online, Cairo
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Jeremy Salt* é professor associado de História e Política do Oriente Médio, na Bilkent University, em Ancara, Turquia.


A realidade – que não aparece nos veículos da imprensa-empresa mundial – é que as forças “rebeldes” estão já em colapso e que o regime de Assad impôs-se contra as gangues armadas por estrangeiros que invadiram a Síria. Assad e seu governo estão vencendo a guerra. Assim sendo, o que fará o ocidente?

Por mais que repita que “todas as opções estão sobre a mesa”, Barack Obama já tenta claramente se afastar de qualquer envolvimento mais profundo na Síria, agora que já se vê que só um ataque direto, intervenção com ocupação militar, conseguirá derrubar o governo de Damasco. Só nos últimos meses, as gangues armadas perderam milhares de homens. Embora o conflito ainda se prorrogue por algum tempo, não há dúvida, entre os especialistas, de que o Exército Sírio está já muito próximo de controlar completamente o levante.
Maaz al-Khatib

Os patrocinadores dessa aventura estão em total confusão. Como antes, a Coalizão Nacional Síria já implodira, agora também o Conselho Nacional Sírio já implodiu. Maaz al-Khatib já é voz apenas marginal. Ghassan Hitto é o único ser no planeta a ostentar o título de Primeiro-Ministro de um comitê. Toda essa gente é causa completamente perdida.

No mundo real, não no mundo dos delírios, há um vídeo de horror em que se vê um comandante “rebelde” que corta o peito e come, ou pelo menos morde, o coração de um soldado morto. Discute-se se seria um pulmão, talvez o fígado. Os jornais parecem inseguros; dão a impressão de que seria importantíssimo identificar com precisão o exato órgão mastigado. Longe de tentar negar a autoria do ato canibalesco, o perpetrador assume e apropria-se dele e vangloria-se de como retalhou, em pedaços, vários cadáveres de shabihas”. Vídeo a seguir: 


O canibalismo parece ser a mais recente inovação, mas a verdade é que não há o que os psicopatas armados das incontáveis gangues não tenham feito dentro da Síria. Ou, talvez, não se devesse chamar de psicopatas homens capazes de fazer o que fizeram? Afinal, quem mais se deixaria arregimentar para guerra tão absolutamente sem sentido, além de psicopatas? 

O autodefinido Exército Sírio Livre diz que caçará o homem que arrancou o coração do soldado. Ótimo. Que cace também os “rebeldes” cortadores de gargantas e “rebeldes” degoladores em geral. Que cace os “rebeldes” que assassinaram funcionários públicos, antes de jogar os cadáveres pelas janelas do prédio dos correios em Al-Bab. E aproveite para caçar também seus próprios companheiros de armas que deliberadamente jogam carros-bomba contra civis.

Ghassan Hitto
E que não se esqueça de caçar os assassinos do Imã e de 50 fiéis que rezavam numa mesquita em Damasco. E, ainda, os estupradores e sequestradores, inclusive os chechenos que sequestraram dois bispos ainda mantidos em cativeiro em Aleppo, enquanto os líderes cristãos dos governos ocidentais fingem que nada têm a ver com aquilo. Na caçada dos bandidos que macularam a gloriosa reputação do "Exército Sírio Livre", aliás, nem é preciso procurar muito longe, porque há inúmeros bandidos bem ali, nas próprias fileiras. Provas não faltam. A imprensa tem vasta coleção de macabros vídeos nos telefones celulares e câmeras de mão, imagens de rostos muito facilmente identificáveis, porque eles se orgulham muito do que fizeram e querem exibir-se para o mundo. Essa é a gente que a Arábia Saudita e o Qatar dedicaram-se a armar pesadamente, e carregaram de dinheiro, para que tomassem a Síria.  

Essa é a realidade por trás da narrativa de ficção e mentiras que a empresa-imprensa global distribuiu para o mundo ao longo dos últimos dois anos. Nenhum jornalismo: só a regurgitação de cada mentira, de cada exagero, de cada distorção produzida por “ativistas” e pelo chamado Observatório Sírio de Direitos Humanos, de Londres – segundo o qual o “regime” sírio estaria sempre a ponto de desabar, várias vezes por dia; e todas as atrocidades eram sempre, sempre, obra dos soldados sírios. Exceto por alguns poucos artigos assinados recentemente por Robert Fisk, praticamente nenhum veículo de nenhum grande grupo da imprensa-empresa comercial no mundo ocidental noticiou eventos e comentou o conflito do ponto de vista do exército e do governo da Síria.

Bashar al-Assad
Jornalistas eram conduzidos através da fronteira por grupos “rebeldes” e só faziam repetir o que os tais “rebeldes” (eventualmente, canibais) lhes contavam. É como acreditar em tudo que escreviam os “jornalistas” incorporados às tropas do exército dos EUA, como se o que relataram fosse o que realmente acontecia no Iraque. E, também como no Iraque, repetem agora a mesma propaganda sobre “armas químicas”.

Até que, afinal, a mentira sucumbiu e a realidade apareceu. Quem está em colapso não é o governo de Assad, mas os “rebeldes”. Daqui em diante, só a intervenção militar armada e direta, com coturnos em solo, conseguirá salvar os “rebeldes”. Mas, com o governo sírio já contando com sólido apoio dos russos... Não será fácil pôr coturnos norte-americanos em solo sírio. Obama continua pressionado para “fazer mais”, mas não dá qualquer sinal de interesse em deixar-se sugar ainda mais para o fundo do pântano criado pelos seus “rebeldes” na Síria. E outros não darão nem meio passo, se os EUA não marcharem à frente. A Alemanha já se declarou contra qualquer envolvimento; a Áustria disse que já está fornecendo armas aos “rebeldes”, o que a Grã-Bretanha gostaria de ter feito, e que, antes do fim do embargo na União Europeia, que terminará dia 31 de maio em curso, é violar leis internacionais.

Recep Tayyp Erdogan
Essa semana, todos os holofotes concentraram-se sobre o Primeiro-Ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, e a viagem que fez a Washington para discutir a Síria com Barack Obama. A Turquia teve papel central no desenrolar do conflito sírio. Arábia Saudita, Qatar e Líbia forneceram dinheiro e armas, mas foi a Turquia, cujo território ficou aberto para a mobilização de gangues armadas que cruzavam a fronteira para depor o “regime”. Erdogan não se afastou um passo da posição que assumiu contra Bashar Al-Assad há mais de dois anos. O único caso claro de uso de arma química em ataque foi o composto de cloro embalado numa ogiva e disparado contra um posto do Exército Sírio em Khan Al-Assal, que matou vários soldados e civis. Mas Erdogan continua a repetir que foi o Exército Sírio que usou armas químicas e que, ao fazê-lo cruzou a tal “linha vermelha” que Obama inventara. Perguntado, pouco antes de partir para Washington, se apoiaria a implantação de uma zona aérea de exclusão, respondeu: “Desde o início diríamos que sim”.

Semana passada, carros carregados com mais de uma tonelada de C4 e TNT foram explodidos na província de Hatay, na cidade fronteiriça de Reyhanli. Foram mortas, no mínimo, 51 pessoas. A destruição foi massiva. Prédios da administração municipal e dúzias de lojas ficaram soterrados nos escombros. Na sequência, carros com placas sírias foram destruídos e refugiados sírios atacados por grupos da região, enfurecidos. Enquanto destruíam, amaldiçoavam Erdogan. A atrocidade seguiu um padrão já familiar aos sírios: uma primeira explosão e em seguida, quando as pessoas se aproximam para socorrer os feridos da primeira explosão, a segunda bomba, para aumentar o número de vítimas.

Apesar de o governo turco ter declarado que teria sido trabalho de um grupo terrorista que colaboraria com a inteligência (mukhabarat) síria, só as gangues armadas ou um dos governos que as apoia teria algum motivo para cometer tamanha violência. O Exército Sírio está cercando os “rebeldes”, o “conselho dos traidores” baseado em Doha já implodiu, e norte-americanos e russos estão sentando para conversar. Aquele ataque foi claramente planejado e executado para atrair a Turquia diretamente para o conflito, através da fronteira.

Resultado do ataque a Reyhanli (Turquia) tentando levar  à intervenção direta na Síria
O ataque contra Reyhanli aconteceu uma semana depois que Israel lançou uma série de ataques selvagens contra a Síria. Não foi simples ataque de um míssil. Dois ataques em três dias, durando cada um várias horas, com bombardeio cerrado em torno de Damasco, sugerem fortemente que o objetivo era provocar resposta dos sírios, o que abriria a porta para guerra generalizada, na qual até o Irã poderia ser atacado. Israel alegou que o alvo seria um carregamento de mísseis destinados ao Hezbollah, mas, embora um centro de pesquisa e uma fábrica militar de produção de alimentos tenham sido atingidos, não se viu nem sinal de que algum míssil tivesse sido destruído. Os ataques revelaram-se fracasso político e estratégico. Imediatamente, na sequência, Putin aplicou “uma carraspana” em Netanyahu e o castigou, ou fornecendo ou ameaçando fornecer à Síria mísseis antiaéreos avançados S300. Só a insuperável arrogância do governo israelense explica que tenha insistido que outros ataques viriam, se necessários, e que destruiriam o governo sírio, caso houvesse retaliação.

Bill Keller
Obama está agora sob pressão doméstica para “fazer mais”. Em Washington, os mesmos que clamavam por guerra contra o Iraque clamam pela ampliação do conflito na Síria. O senador Bob Menendez, empenhado apoiador de Israel, como virtualmente todos os congressistas, apresentou projeto de lei que autoriza o governo dos EUA a fornecer armas aos “rebeldes” (como se os EUA já não estivessem fazendo exatamente isso clandestinamente, diretamente ou usando a Arábia Saudita e o Qatar).

O ex-editor do New York Times, Bill Keller, apoiou abertamente a guerra do Iraque e agora quer também que os EUA armem “os rebeldes” e “defendam os civis ameaçados de ser massacrados dentro das próprias casas” na Síria. Não fala, é claro, dos civis massacrados pelas gangues já armadas.

O Washington Post acabou por ter de admitir que o Exército Sírio está em marcha vitoriosa para controlar o conflito, mas nem por isso desiste de tentar mudar o rumo dos acontecimentos: 

“E se os EUA não intervierem na Síria?” pergunta em editorial, para poder responder-se, o jornal a ele mesmo: a Síria será fraturada, partida em várias áreas sectárias; a Frente Jabhat Al-Nusra assumirá o controle no norte e “remanescentes do regime” ficarão com faixas na parte oeste. A guerra sectária se espalhará e alcançará o Iraque – como se isso já não tivesse acontecido, consequência da invasão norte-americana – e o Líbano. Armas químicas cairão em mãos erradas, “o que provavelmente forçará Israel a intervir, para impedir que cheguem às mãos do Hezbollah ou da Al-Qaeda”. E, se os EUA não intervierem logo, para impedir que tudo isso aconteça, Turquia e Arábia Saudita “poderão concluir que os EUA já não são aliado confiável”.

Há outras respostas muito mais prováveis àquele “o que acontecerá”. O Exército Sírio expulsará do território sírio os “rebeldes” sobreviventes; e Bashar resultará ainda mais popular do que antes, depois de ter enfrentado com sucesso o maior desafio que se impôs ao Estado sírio em toda a sua história. Haverá eleições em 2014. Bashar será eleito presidente com 75% dos votos. Essa, pelo menos, é a previsão da CIA.

RecepTayyp Erdogan (E) e Barack Obama (D) na Conferência de Imprensa de 16/5/2013
Erdogan chegou a Washington também desejando que Obama “faça mais”, mas é mais do que claro que o presidente dos EUA não quer fazer coisa alguma, muito menos, mais. A imprensa-empresa turca noticiou que Obama dissera que Assad “tem de” sair [orig. “must”], mas não foi o que Obama disse. Obama escolheu muito atentamente cada palavra. Na conferência de imprensa ao lado de Erdogan, ele não disse que Assad “tem de” sair; disse que Assad “precisa” [orig. “needs”] ir e “precisa” transferir o poder para um corpo transicional. É diferença absolutamente importante. Pessoalmente, Obama não quer chegar ao fim de seu governo afundado numa guerra impopular, que os EUA não vencerão, guerra que, além do mais, pode muito rapidamente extrapolar o plano regional e converter-se em crise global.

John Kerry (E) e Sergey Lavrov (D) na reunião de Moscou em 7/5/2013
Pesquisa recente do Instituto Pew mostrou que o povo norte-americano já não tolera guerras no Oriente Médio. E a conversa entre Kerry e Lavrov indica que, dessa vez, já deixado para trás o Acordo de Genebra de julho de 2012, os EUA estão seriamente interessados em negociar um fim para a crise na Síria, mesmo que outros não considerem ainda sequer essa possibilidade. Se há alguma ameaça a pesar contra a posição dos EUA, o mais provável é que esteja crescendo entre seus amigos e aliados.


terça-feira, 18 de outubro de 2011

Verdades e mentiras sobre a Síria

Jeremy Salt


17/10/2011, Jeremy Salt, Counterpunch
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu



Jeremy Salt é professor associado de história e política do Oriente Médio, na Universidade Bilkent, em Ankara, Turquia.


23 razões pelas quais devemos ver com desconfiança o ponto de vista ocidental sobre a insurreição na Síria.

A insurreição afunda-se em guerra civil na Síria, e é preciso pôr um freio na propaganda que escorre da imprensa-empresa ocidental, aceita sem qualquer crítica por muita gente que tem o dever de saber mais sobre o que diz. Aqui, um quadro geral de informações, a partir das quais se pode começar a discutir o que realmente está acontecendo nesse país criticamente importante do Oriente Médio.

1. A Síria é estado-mukhabarat [serviço secreto] desde que o lastimável Abdel-Hamid comandava os serviços de inteligência, como segundo governo, nos anos 1950s. O estado autoritário que brotou ao tempo do ex-presidente Hafez Al-Assad chegou ao poder em 1970 e esmagou cruelmente todos os opositores. Várias vezes, foi ou ele ou eles. A presença ubíqua do mukhabarat é fato desagradável da vida dos sírios, mas, dado que a Síria é alvo perpétuo de assassinatos e subversão que vêm de Israel e das agências ocidentais de inteligência, e várias vezes foi atacada militarmente, tem hoje grandes porções de seu território ocupadas por Israel e os inimigos da Síria não perdem ocasião para tentar agredi-la, ninguém pode dizer, sem qualquer reflexão, que o mukhabarat não seja necessário.

2. Não há dúvidas de que o núcleo inicial de manifestantes que se reuniram na Síria quer uma transição pacífica para forma democrática de governo. Tampouco pode haver qualquer dúvida de que grupos armados operando no subsolo das manifestações públicas não têm nenhum interesse em qualquer tipo de reforma. Querem, só, destruir o governo.

3. Houve manifestações muito grandes de apoio ao governo. Detesta-se tanto a violência das gangues armadas quanto qualquer interferência externa e a exploração da situação, por governos de fora e pela imprensa. Aos olhos de muitos sírios, a Síria é hoje, outra vez, alvo de uma conspiração internacional.

4. Por mais que sejam verdadeiras as acusações feitas contra as forças de segurança, as gangues armadas mataram centenas de policiais, soldados e civis, num total que se aproxima, agora, de 1.000 mortes. Os civis mortos incluem professores universitários, médicos e até, recentemente, o filho do Grande Mufti da república. As gangues armadas massacraram, emboscaram, assassinaram, atacaram prédios do governo e sabotaram linhas de trens.

5. O presidente sírio Bashar Al-Assad tem base forte e alta popularidade pessoal. Embora seja parte do sistema, erra quem o definir como ditador. Na Síria, o verdadeiro ditador é o próprio sistema. O poder mais profundamente enraizado na Síria – lá entrincheirado há 50 anos – é o establishment militar e de inteligência e, em menor grau, a estrutura de governo do Partido Baath. Essas são as forças que realmente resistem à mudança. As manifestações foram a oportunidade, para Al-Assad, de dar seu recado, de que o sistema tem de mudar – o que ele fez.

6. Confrontado às manifestações gigantes, esse ano, o governo afinal apresentou um programa de reformas. Essa evidência é descartada, sem qualquer consideração, pela oposição. Não houve sequer alguma tentativa de testar a boa fé do governo.

7. A“notícia” de que a oposição armada contra Al-Assad só começou recentemente é total mentira. Praticamente desde o início, sempre houve soldados, policiais e civis assassinados, quase sempre sob as mais brutais circunstâncias.

8. Os grupos armados são bem armados e bem organizados. Grandes quantidades de armas têm sido contrabandeadas e chegam à Síria, por mar, vindas do Líbano e da Turquia: armas automáticas, metralhadoras, Kalashnikovs, lança-granadas, granadas de fabricação israelense e inúmeros outros tipos de explosivos. Não se sabe exatamente quem vende essas armas, mas alguém as vende e alguém paga por elas. Informações obtidas de membros das gangues armadas capturados apontam na direção do Movimento Futuro, do primeiro-ministro libanês Saad Al-Hariri. Hariri é conhecido homem dos EUA e da Arábia Saudita, com influência que avança bem além das fronteiras do Líbano.

9. Aoposição armada ao regime parece ser em larga medida patrocinada pela Fraternidade Muçulmana, ilegal na Síria. Em 1982, o governo sírio esmagou brutalmente um levante iniciado pela Fraternidade, na cidade de Hama. Houve milhares de mortos e parte da cidade foi destruída. A Fraternidade Muçulmana tem dois principais objetivos: destruir o governo Baathista e destruir o estado secular, para implantar sistema islâmico de governo. Está quase palpavelmente sedenta de vingança.

10. As gangues armadas recebem forte apoio externo, além dos já conhecidos ou indicados. Um ex-presidente e ministro das Relações Exteriores da Síria, hoje exilado, Abdel-Halim Khaddam, que vive em Paris, há anos faz campanha para derrubar o governo de Al-Assad. Recebe recursos simultaneamente da União Europeia e dos EUA. Outros ativistas exilados, dentre os quais Burhan Ghalioun, apoiado pelo Qatar como líder do “Conselho Nacional”, tem base em Istanbul. Ambos, Ghalioun e Khaddam, vivem em Paris; e ambos fazem ativo lobby contra o governo de Al-Assad na Europa e em Washington.
Como Mohamed Riyad Al-Shaqfa, líder da Fraternidade Muçulmana na Síria, Ghalioun é altamente receptivo a “intervenção humanitária” do exterior à Síria, no modelo líbio (outros são contrários a qualquer intervenção). Promover os exilados como governo alternativo é tática que faz lembrar o modo como os EUA usaram os exilados iraquianos (o chamado “Congresso Nacional Iraquiano”) antes da invasão do Iraque.

11. Acobertura que se vê na imprensa-empresa ocidental sobre os acontecimentos na Líbia e na Síria tem sido aterradora. A intervenção da OTAN na Líbia é causa de destruição massiva e de milhares de mortes. A guerra, depois da invasão do Iraque, ainda é dos maiores crimes internacionais da história, cometido pelos governos de EUA, Grã-Bretanha e França. A cidade líbia de Sirte tem sido bombardeada dia e noite há duas semanas, sem que a imprensa-empresa ocidental dê qualquer atenção à destruição descomunal e ao número de mortos que, sem dúvida, é altíssimo. A imprensa-empresa ocidental não fez qualquer esforço para confirmar relatos que chegam de Sirte, de prédios civis bombardeados e da matança de centenas de pessoas. A única explicação para isso é que a verdade, horrenda, condenaria toda a operação da OTAN.

12. Na Síria, a mesma imprensa-empresa seguiu o mesmo padrão de mal noticiar e desinformar. Ignorou ou reduziu todas as evidências dos crimes praticados pelas gangues armadas. Induziu o público a não acreditar no que o governo sírio diz e a acreditar cegamente no que dizem os “rebeldes”, que falam, muitas vezes, por intermédio de organizações de direitos humanos com sede na Europa ou nos EUA. Noticiaram-se como fatos inumeráveis mentiras, como se noticiaram sobre a Líbia e como, antes da invasão, se noticiaram sobre o Iraque. Algumas dessas mentiras, pelo menos, já foram desmascaradas.
Pessoas cuja morte foi noticiada, como assassinadas por forças de segurança, reapareceram vivas. Os irmãos de Zainab Al-Hosni disseram que ela havia sido seqüestrada por forças de segurança, assassinada e esquartejada. Esse trágico relato, repetido pelos canais de TV Al-Jazeera e Al-Arabiya dentre vários outros, sempre foi absolutamente falso. A mulher continua viva até hoje, enquanto a propaganda diz que não é ela, a viva, mas uma “dublê”. Al-Jazeera, o Guardian  britânico e a BBC têm-se destacado pelo apoio cego a qualquer um que apareça para desacreditar o governo sírio. E as principais empresas de imprensa e comunicação nos EUA seguem o mesmo padrão. Al-Jazeera, em particular, que se destacou ao cobrir a revolução egípcia, perdeu toda a credibilidade como canal de notícias independente no mundo árabe.

13. No empenho para destruir o governo sírio, a Fraternidade Muçulmana tem objetivos em comum com EUA, Israel e a Arábia Saudita, cuja paranóia contra o islã xiita chegou ao auge no levante do Bahrain. WikiLeaks revelou o quanto os EUA estavam impacientes para atacar o Irã. Alvo substituto é destruir o relacionamento estratégico que une Irã, Síria e o grupo libanês xiita Hizbullah. EUA e os sauditas querem destruir o regime Baathista dos alawitas em Damasco por razões apenas ligeiramente diferentes, mas o que conta é que querem destruí-lo.

14. Os EUA estão fazendo o máximo que podem para prender a Síria nas cordas. Estão oferecendo apoio financeiro a políticos exilados da oposição. Já tentaram (e falharam, pelo menos até aqui, graça à oposição de russos e chineses) introduzir um vasto programa de sanções, usando para isso o Conselho de Segurança da ONU. Não há dúvidas de que voltarão a tentar novamente e, dependendo do rumo que a situação tome, podem tentar, com o apoio de britânicos e franceses, impor Resolução para que se crie uma zona aérea de exclusão que abriria caminho para ataque militar.
A situação é fluida e não há dúvida de que se preparam os mais diferentes planos de contingência. A Casa Branca e o Departamento de Estado fazem, dia sim, dia não, declarações sempre mais agressivas. Em ato de provocação aberta contra o governo sírio, o embaixador dos EUA, acompanhado do embaixador francês, viajou a Hama, antes das orações da 6ª-feira. Contra tudo que já se viu do que já fizeram no passado em termos de interferência em países do Oriente Médio, é absolutamente inconcebível que EUA e Israel, com França e Grã-Bretanha, não estejam envolvidos no levante sírio, muito mais profundamente do que já é sabido.

15. Ao mesmo tempo em que dão atenção máxima à violência do regime sírio, os governos de EUA e de países europeus (especialmente a Grã-Bretanha) têm ignorado completamente a violência dirigida contra aquele regime. E a violência desses governos, é claro, contra Líbia, Iraque, Afeganistão e outros países, de tão vasta, nem cabe nesse quadro. A Turquia uniu-se a essa campanha contra o governo da Síria com grande empenho, e já foi muito mais longe do que nunca antes, contra o regime sírio.
No espaço de poucos meses, a política regional turca de “nenhum problema” com os vizinhos regionais, mudou, da forma mais incoerente. A Turquia já apoiou até o ataque da OTAN à Líbia, depois de, inicialmente, ter-se mantido à parte. Antagonizou o Irã, por sua política de apoio à Síria e ao aceitar, contra forte oposição doméstica, a instalação, em território turco, de uma base norte americana de radares e mísseis, claramente direcionada contra o Irã. Os EUA dizem que os dados recolhidos nessa base serão partilhados com Israel, que se recusa a desculpar-se pelo ataque contra o barco turco Mavi Marmara, questão que levou à beira de grave crise as relações entre Israel e Turquia. Assim, depois da política de “nenhum problema”, a Turquia abraça hoje uma política cheia de problemas com Israel, Síria e Irã simultaneamente.

16. Enquanto alguns membros da oposição síria falaram contra qualquer intervenção estrangeira, o “Exército Sírio Livre” disse que seu objetivo declarado é implantar uma zona aérea de exclusão sobre o norte da Síria. Zona aérea de exclusão não se implanta sem força, e já se viu a que resultado levou na Líbia – destruição massiva de infraestrutura, matança de milhares de civis e portas abertas a um novo período de dominação ocidental.

17.Se o governo sírio cair, todos os baathistas e todos os alawitas serão caçados até o último sobrevivente. Em governo dominado pela Fraternidade Muçulmana, regredirá o status de todas as minorias e das mulheres.

18. Mediante à “Lei [norte-americana] da Transparência na Síria” e mediante as sanções já impostas pela União Europeia, os EUA tentam destruir a Síria há 20 anos. Destroçar qualquer unidade entre estados árabes unificados e criar linhas de separação etno-religiosas são objetivos de Israel há décadas. Onde vai Israel, os EUA naturalmente seguem. Os frutos dessa política podem ser vistos no Iraque, onde se criou estado que só é independente no nome para os curdos, e onde a constituição, escrita pelos EUA, separa o povo iraquiano em curdos, sunitas, xiitas e cristãos, destruindo o laço lógico do nacionalismo árabe. O Iraque nunca mais conheceu um momento de paz, desde que os britânicos entraram em Bagdá em 1917.
Na Síria, divisões etno-religiosas (árabes muçulmanos sunitas, curdos muçulmanos sunitas, druzos, alawitas e várias seitas cristãs) tornam o país vulnerável. É o mesmo plano para enfraquecer o país e promover a discórdia sectária com eventual desintegração como estado árabe unificado, que os franceses tentaram originalmente impedir que se formasse nos anos 1920s.

19. Destruir o governo baathista na Síria seria vitória estratégica de valor inestimável para EUA e Israel. O arco central do relacionamento estratégico entre Irã, Síria e o Hezbullah estaria destruído; o Hezbullah ficaria geograficamente isolado, com um governo muçulmano sunita hostil, ao pé da porta; e o Hezbullah e o Irã estariam mais expostos a ataque militar pelos EUA e Israel. Por acaso ou não, a “Primavera Árabe”, do modo como evoluiu na Síria, pôs nas mãos de EUA e Israel uma alavanca que pode levá-los a conseguir o que querem.

20. Um governo da Fraternidade Muçulmana no Egito ou na Síria não será necessariamente hostil aos interesses dos EUA. Desejoso de mostrar-se membro respeitável da comunidade internacional e outro bom exemplo de “islamismo moderado’, o mais provável é que um eventual governo egípcio dominado pela Fraternidade concorde com manter o acordo de paz com Israel, enquanto possa (quer dizer, até que outro ataque massivo de Israel contra Gaza ou contra o Líbano torne o tal acordo absolutamente insustentável).

21. Um governo da Fraternidade Muçulmana na Síria seria aliado da Arábia Saudita e hostil ao Irã, ao Hezbullah e aos xiitas do Iraque, sobretudo aos aliados do líder xiita Muqtada Al-Sadr. Falaria muito a favor da causa palestina e da libertação das Colinas de Golan, mas, na prática, suas políticas dificilmente seriam diferentes das do governo que a Fraternidade luta hoje para destruir.

22. O povo sírio tem todo o direito de exigir e ter democracia, mas desse modo e a esse preço? Mesmo hoje, o caminho a seguir é o fim da matança e o início de negociações para reformas, não violência e ameaças de dividir o país. Infelizmente, a violência, não qualquer acordo negociado, é o que muita gente deseja dentro da Síria, e muitos governos que assistem e esperam pela melhor oportunidade também querem mais violência. Nenhum sírio tem qualquer coisa a ganhar nesse quadro, pensem hoje o que pensarem.
A Síria está sendo arrastada para uma guerra civil sectária, talvez com intervenção estrangeira, e com certeza para o caos, em escala ainda maior do que hoje se vê. Não haverá rápida recuperação, se o estado entrar em colapso ou for destroçado. Como o Iraque, e provavelmente também como a Líbia, olhando a situação presente, a Síria mergulharia em um torvelinho de sangue que se poderia arrastar por muitos anos. Também como o Iraque, seria atirada para fora do ring, como estado incapaz de defender interesses árabes, o que significa, claro, que só seria capaz de defender interesses dos EUA e de Israel.

23. Assim, tudo considerado, que interesses esse tipo de resultado atenderia?