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terça-feira, 28 de maio de 2013

Obama: a vitória na Síria já lhe escapou

21/5/2013, Jeremy Salt*, Al-Ahram Online, Cairo
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Jeremy Salt* é professor associado de História e Política do Oriente Médio, na Bilkent University, em Ancara, Turquia.


A realidade – que não aparece nos veículos da imprensa-empresa mundial – é que as forças “rebeldes” estão já em colapso e que o regime de Assad impôs-se contra as gangues armadas por estrangeiros que invadiram a Síria. Assad e seu governo estão vencendo a guerra. Assim sendo, o que fará o ocidente?

Por mais que repita que “todas as opções estão sobre a mesa”, Barack Obama já tenta claramente se afastar de qualquer envolvimento mais profundo na Síria, agora que já se vê que só um ataque direto, intervenção com ocupação militar, conseguirá derrubar o governo de Damasco. Só nos últimos meses, as gangues armadas perderam milhares de homens. Embora o conflito ainda se prorrogue por algum tempo, não há dúvida, entre os especialistas, de que o Exército Sírio está já muito próximo de controlar completamente o levante.
Maaz al-Khatib

Os patrocinadores dessa aventura estão em total confusão. Como antes, a Coalizão Nacional Síria já implodira, agora também o Conselho Nacional Sírio já implodiu. Maaz al-Khatib já é voz apenas marginal. Ghassan Hitto é o único ser no planeta a ostentar o título de Primeiro-Ministro de um comitê. Toda essa gente é causa completamente perdida.

No mundo real, não no mundo dos delírios, há um vídeo de horror em que se vê um comandante “rebelde” que corta o peito e come, ou pelo menos morde, o coração de um soldado morto. Discute-se se seria um pulmão, talvez o fígado. Os jornais parecem inseguros; dão a impressão de que seria importantíssimo identificar com precisão o exato órgão mastigado. Longe de tentar negar a autoria do ato canibalesco, o perpetrador assume e apropria-se dele e vangloria-se de como retalhou, em pedaços, vários cadáveres de shabihas”. Vídeo a seguir: 


O canibalismo parece ser a mais recente inovação, mas a verdade é que não há o que os psicopatas armados das incontáveis gangues não tenham feito dentro da Síria. Ou, talvez, não se devesse chamar de psicopatas homens capazes de fazer o que fizeram? Afinal, quem mais se deixaria arregimentar para guerra tão absolutamente sem sentido, além de psicopatas? 

O autodefinido Exército Sírio Livre diz que caçará o homem que arrancou o coração do soldado. Ótimo. Que cace também os “rebeldes” cortadores de gargantas e “rebeldes” degoladores em geral. Que cace os “rebeldes” que assassinaram funcionários públicos, antes de jogar os cadáveres pelas janelas do prédio dos correios em Al-Bab. E aproveite para caçar também seus próprios companheiros de armas que deliberadamente jogam carros-bomba contra civis.

Ghassan Hitto
E que não se esqueça de caçar os assassinos do Imã e de 50 fiéis que rezavam numa mesquita em Damasco. E, ainda, os estupradores e sequestradores, inclusive os chechenos que sequestraram dois bispos ainda mantidos em cativeiro em Aleppo, enquanto os líderes cristãos dos governos ocidentais fingem que nada têm a ver com aquilo. Na caçada dos bandidos que macularam a gloriosa reputação do "Exército Sírio Livre", aliás, nem é preciso procurar muito longe, porque há inúmeros bandidos bem ali, nas próprias fileiras. Provas não faltam. A imprensa tem vasta coleção de macabros vídeos nos telefones celulares e câmeras de mão, imagens de rostos muito facilmente identificáveis, porque eles se orgulham muito do que fizeram e querem exibir-se para o mundo. Essa é a gente que a Arábia Saudita e o Qatar dedicaram-se a armar pesadamente, e carregaram de dinheiro, para que tomassem a Síria.  

Essa é a realidade por trás da narrativa de ficção e mentiras que a empresa-imprensa global distribuiu para o mundo ao longo dos últimos dois anos. Nenhum jornalismo: só a regurgitação de cada mentira, de cada exagero, de cada distorção produzida por “ativistas” e pelo chamado Observatório Sírio de Direitos Humanos, de Londres – segundo o qual o “regime” sírio estaria sempre a ponto de desabar, várias vezes por dia; e todas as atrocidades eram sempre, sempre, obra dos soldados sírios. Exceto por alguns poucos artigos assinados recentemente por Robert Fisk, praticamente nenhum veículo de nenhum grande grupo da imprensa-empresa comercial no mundo ocidental noticiou eventos e comentou o conflito do ponto de vista do exército e do governo da Síria.

Bashar al-Assad
Jornalistas eram conduzidos através da fronteira por grupos “rebeldes” e só faziam repetir o que os tais “rebeldes” (eventualmente, canibais) lhes contavam. É como acreditar em tudo que escreviam os “jornalistas” incorporados às tropas do exército dos EUA, como se o que relataram fosse o que realmente acontecia no Iraque. E, também como no Iraque, repetem agora a mesma propaganda sobre “armas químicas”.

Até que, afinal, a mentira sucumbiu e a realidade apareceu. Quem está em colapso não é o governo de Assad, mas os “rebeldes”. Daqui em diante, só a intervenção militar armada e direta, com coturnos em solo, conseguirá salvar os “rebeldes”. Mas, com o governo sírio já contando com sólido apoio dos russos... Não será fácil pôr coturnos norte-americanos em solo sírio. Obama continua pressionado para “fazer mais”, mas não dá qualquer sinal de interesse em deixar-se sugar ainda mais para o fundo do pântano criado pelos seus “rebeldes” na Síria. E outros não darão nem meio passo, se os EUA não marcharem à frente. A Alemanha já se declarou contra qualquer envolvimento; a Áustria disse que já está fornecendo armas aos “rebeldes”, o que a Grã-Bretanha gostaria de ter feito, e que, antes do fim do embargo na União Europeia, que terminará dia 31 de maio em curso, é violar leis internacionais.

Recep Tayyp Erdogan
Essa semana, todos os holofotes concentraram-se sobre o Primeiro-Ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, e a viagem que fez a Washington para discutir a Síria com Barack Obama. A Turquia teve papel central no desenrolar do conflito sírio. Arábia Saudita, Qatar e Líbia forneceram dinheiro e armas, mas foi a Turquia, cujo território ficou aberto para a mobilização de gangues armadas que cruzavam a fronteira para depor o “regime”. Erdogan não se afastou um passo da posição que assumiu contra Bashar Al-Assad há mais de dois anos. O único caso claro de uso de arma química em ataque foi o composto de cloro embalado numa ogiva e disparado contra um posto do Exército Sírio em Khan Al-Assal, que matou vários soldados e civis. Mas Erdogan continua a repetir que foi o Exército Sírio que usou armas químicas e que, ao fazê-lo cruzou a tal “linha vermelha” que Obama inventara. Perguntado, pouco antes de partir para Washington, se apoiaria a implantação de uma zona aérea de exclusão, respondeu: “Desde o início diríamos que sim”.

Semana passada, carros carregados com mais de uma tonelada de C4 e TNT foram explodidos na província de Hatay, na cidade fronteiriça de Reyhanli. Foram mortas, no mínimo, 51 pessoas. A destruição foi massiva. Prédios da administração municipal e dúzias de lojas ficaram soterrados nos escombros. Na sequência, carros com placas sírias foram destruídos e refugiados sírios atacados por grupos da região, enfurecidos. Enquanto destruíam, amaldiçoavam Erdogan. A atrocidade seguiu um padrão já familiar aos sírios: uma primeira explosão e em seguida, quando as pessoas se aproximam para socorrer os feridos da primeira explosão, a segunda bomba, para aumentar o número de vítimas.

Apesar de o governo turco ter declarado que teria sido trabalho de um grupo terrorista que colaboraria com a inteligência (mukhabarat) síria, só as gangues armadas ou um dos governos que as apoia teria algum motivo para cometer tamanha violência. O Exército Sírio está cercando os “rebeldes”, o “conselho dos traidores” baseado em Doha já implodiu, e norte-americanos e russos estão sentando para conversar. Aquele ataque foi claramente planejado e executado para atrair a Turquia diretamente para o conflito, através da fronteira.

Resultado do ataque a Reyhanli (Turquia) tentando levar  à intervenção direta na Síria
O ataque contra Reyhanli aconteceu uma semana depois que Israel lançou uma série de ataques selvagens contra a Síria. Não foi simples ataque de um míssil. Dois ataques em três dias, durando cada um várias horas, com bombardeio cerrado em torno de Damasco, sugerem fortemente que o objetivo era provocar resposta dos sírios, o que abriria a porta para guerra generalizada, na qual até o Irã poderia ser atacado. Israel alegou que o alvo seria um carregamento de mísseis destinados ao Hezbollah, mas, embora um centro de pesquisa e uma fábrica militar de produção de alimentos tenham sido atingidos, não se viu nem sinal de que algum míssil tivesse sido destruído. Os ataques revelaram-se fracasso político e estratégico. Imediatamente, na sequência, Putin aplicou “uma carraspana” em Netanyahu e o castigou, ou fornecendo ou ameaçando fornecer à Síria mísseis antiaéreos avançados S300. Só a insuperável arrogância do governo israelense explica que tenha insistido que outros ataques viriam, se necessários, e que destruiriam o governo sírio, caso houvesse retaliação.

Bill Keller
Obama está agora sob pressão doméstica para “fazer mais”. Em Washington, os mesmos que clamavam por guerra contra o Iraque clamam pela ampliação do conflito na Síria. O senador Bob Menendez, empenhado apoiador de Israel, como virtualmente todos os congressistas, apresentou projeto de lei que autoriza o governo dos EUA a fornecer armas aos “rebeldes” (como se os EUA já não estivessem fazendo exatamente isso clandestinamente, diretamente ou usando a Arábia Saudita e o Qatar).

O ex-editor do New York Times, Bill Keller, apoiou abertamente a guerra do Iraque e agora quer também que os EUA armem “os rebeldes” e “defendam os civis ameaçados de ser massacrados dentro das próprias casas” na Síria. Não fala, é claro, dos civis massacrados pelas gangues já armadas.

O Washington Post acabou por ter de admitir que o Exército Sírio está em marcha vitoriosa para controlar o conflito, mas nem por isso desiste de tentar mudar o rumo dos acontecimentos: 

“E se os EUA não intervierem na Síria?” pergunta em editorial, para poder responder-se, o jornal a ele mesmo: a Síria será fraturada, partida em várias áreas sectárias; a Frente Jabhat Al-Nusra assumirá o controle no norte e “remanescentes do regime” ficarão com faixas na parte oeste. A guerra sectária se espalhará e alcançará o Iraque – como se isso já não tivesse acontecido, consequência da invasão norte-americana – e o Líbano. Armas químicas cairão em mãos erradas, “o que provavelmente forçará Israel a intervir, para impedir que cheguem às mãos do Hezbollah ou da Al-Qaeda”. E, se os EUA não intervierem logo, para impedir que tudo isso aconteça, Turquia e Arábia Saudita “poderão concluir que os EUA já não são aliado confiável”.

Há outras respostas muito mais prováveis àquele “o que acontecerá”. O Exército Sírio expulsará do território sírio os “rebeldes” sobreviventes; e Bashar resultará ainda mais popular do que antes, depois de ter enfrentado com sucesso o maior desafio que se impôs ao Estado sírio em toda a sua história. Haverá eleições em 2014. Bashar será eleito presidente com 75% dos votos. Essa, pelo menos, é a previsão da CIA.

RecepTayyp Erdogan (E) e Barack Obama (D) na Conferência de Imprensa de 16/5/2013
Erdogan chegou a Washington também desejando que Obama “faça mais”, mas é mais do que claro que o presidente dos EUA não quer fazer coisa alguma, muito menos, mais. A imprensa-empresa turca noticiou que Obama dissera que Assad “tem de” sair [orig. “must”], mas não foi o que Obama disse. Obama escolheu muito atentamente cada palavra. Na conferência de imprensa ao lado de Erdogan, ele não disse que Assad “tem de” sair; disse que Assad “precisa” [orig. “needs”] ir e “precisa” transferir o poder para um corpo transicional. É diferença absolutamente importante. Pessoalmente, Obama não quer chegar ao fim de seu governo afundado numa guerra impopular, que os EUA não vencerão, guerra que, além do mais, pode muito rapidamente extrapolar o plano regional e converter-se em crise global.

John Kerry (E) e Sergey Lavrov (D) na reunião de Moscou em 7/5/2013
Pesquisa recente do Instituto Pew mostrou que o povo norte-americano já não tolera guerras no Oriente Médio. E a conversa entre Kerry e Lavrov indica que, dessa vez, já deixado para trás o Acordo de Genebra de julho de 2012, os EUA estão seriamente interessados em negociar um fim para a crise na Síria, mesmo que outros não considerem ainda sequer essa possibilidade. Se há alguma ameaça a pesar contra a posição dos EUA, o mais provável é que esteja crescendo entre seus amigos e aliados.


sábado, 25 de maio de 2013

Pelas costas das “Conversações de Paz para a Síria”, EUA buscam a guerra regional

24/5/2013, Bill Van Auken, Strategic Culture  
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Enquanto viajava ostensivamente pelo Oriente Médio, para discutir uma proposta conjunta de Rússia e EUA para conversações de paz entre o governo sírio do presidente Bashar al-Assad e os “rebeldes” apoiados pelo ocidente, o secretário de Estado, John Kerry, reuniu-se com aliados dos EUA, para preparar a guerra regional.

Primeiro, parou em Omã, onde Kerry reuniu-se com o Sultão reinante, um de uma cadeia de ditadores monárquicos que constitui, com Israel, o pilar de sustentação da influência norte-americana no Oriente Médio. A visita do secretário de Estado coincidiu com a assinatura de um negócio de $2,1 bilhões de dólares entre a monarquia absoluta e a empresa Raytheon Corp. para a venda de sistemas avançados de armas, incluindo unidades Avenger, mísseis Stinger e mísseis avançados de médio alcance ar-ar, parte de um anel de aço que Washington sempre buscou construir em torno do Irã.

Dali, Kerry voou para Amã, Jordânia, para encontro na 4ª-feira com os “Amigos da Síria”, a “coalizão de vontades” liderada pelos EUA que fomenta a guerra para provocar mudança de regime na Síria. É formada de Washington, seus aliados europeus da OTAN, liderada pela Grã Bretanha, Turquia, Egito e vários sultanatos e xeicados do Golfo Pérsico, incluindo os principais fornecedores de armas para as gangues anti-Assad: Arábia Saudita, Qatar e os Emirados Árabes Unidos.

Bahjat Suleiman
Enquanto a reunião acontecia na 4ª-feira, o embaixador da Síria na Jordânia organizou uma conferência de imprensa para denunciá-la como “encontro dos inimigos da Síria”:

Os que queiram ver o fim da tragédia na Síria devem parar de armar e treinar gangues de terroristas na Síria. A guerra na Síria é algo sem precedentes – disse o embaixador Bahjat Suleiman.

Representantes da Coalizão Nacional Síria, a frente anti-Assad organizada pelo Departamento de Estado dos EUA, foram convidados no último minuto para aquela reunião. Parece que ainda havia alguma dúvida sobre a possibilidade de chegarem a algum acordo sobre quem os “rebeldes” aceitariam como representante deles.

Os EUA promoveram Ghassan Hitto, empresário que vive há mais de 30 anos no Texas e é ligado à Fraternidade Muçulmana, como “premiê” de um governo de transição. Apareceram notícias cada vez mais insistentes e relatos cada vez mais claros de que havia forte oposição a Hitto, nessa função, pelas milícias sunitas sectárias que lutam em território sírio. Circularam notícias de que o “chefe de fato” da coalizão, representante dos “rebeldes”, seria George Sabra, ex-membro do Partido Comunista Sírio Stalinista.

Ghassan Hitto
Enquanto o Departamento de Estado diz que o papel de Kerry nessa reunião seria preparar as conversações de paz para a Síria – apelidadas “Conferência de Genebra 2” – sobre as quais Washington e Moscou concordaram publicamente, é evidente que a agenda real que está mobilizando e ocupando os EUA e seus aliados só diz respeito a encontrarem meios para salvar sua guerra para mudança de regime, depois que o Exército Sírio começou a infligir duras derrotas militares estratégicas às forças apoiadas pelo ocidente.

Foi o que se viu bem claramente em campo, depois de o Exército Sírio ter retomado a cidade de Qusayr, no oeste da Síria, a cerca de dez quilômetros da fronteira libanesa. A cidade, que estivera sob controle das gangues apoiadas pelo ocidente, servia como duto de passagem para armas e milicianos estrangeiros que atravessavam a fronteira do Líbano. O controle “rebelde” naquela região e arredores ameaçava separar a capital Damasco, de Aleppo e do litoral sírio.

Falando em conferência de imprensa em Amã, na abertura da reunião dos “Amigos da Síria”, Kerry alertou que, se o regime de Assad não aceitasse uma solução política negociada, Washington consideraria “aumentar o apoio à oposição, para dar continuidade aos combates pela liberdade de seu país”. Com funcionários do governo dos EUA exigindo a saída de Assad como condição para qualquer acordo, tudo sugere hoje que as “conversações de paz” previstas serão induzidas ao fracasso, e serão usadas como pretexto para escalar a intervenção dos EUA na Síria.

O comentário de Kerry surge exatamente um dia depois de a Comissão de Relações Exteriores do Senado dos EUA ter aprovado, por 15 votos a favor e 3 contra, a proposta de Washington de passar a armar diretamente as milícias “rebeldes”. A CIA já está coordenando o fluxo de armas a partir dos estados do Golfo, e sabe-se que já organizou grandes embarques de armas da Europa Oriental, através de três intermediários.

John Kerry
Kerry pôs a culpa pelos reveses impostos pelo Exército Sírio às milícias delegadas de Washington, na batalha por Qusayr, na intromissão de combatentes do Hezbollah, o partido e milícia armada libanesa que sempre se manteve solidário ao governo de Assad; atribuiu a derrota, também, a um suposto apoio que o Irã estaria dando ao regime iraniano.

Semana passada, é claro, houve intervenção do Hezbollah. Intervenção muito, muito significativa. Há vários milhares de combatentes do Hezbollah em território sírio que contribuem para aumentar a violência, e nós condenamos isso – disse Kerry.

O Hezbollah não faz segredo de que tem combatentes operando em campo, mas negou que tenham tido papel decisivo nos recentes confrontos; disse que seus combatentes trabalham em operações de treinamento de autoproteção e autodefesa para cidadãos libaneses que vivem em áreas próximas da fronteira síria, para que se possam defender.

A imprensa-empresa ocidental também tem dado grande destaque ao papel do Hezbollah, embora insista em ignorar o fato de que muitos milicianos islamistas sunitas também chegaram à Síria pela fronteira do Líbano, para lutar contra o regime de Assad.

Bandeira do Hezbollah
A ameaça de que esse conflito se alastre por toda a região, convertido em guerra regional, cresce dia a dia. Em Tripoli, cidade libanesa ao norte do país, pelo menos 11 pessoas morreram, entre os quais pelo menos dois soldados libaneses, em confrontos entre milícias sunitas e libaneses alawitas que apoiam Assad. Nos confrontos, há trocas de tiros de morteiro e granadas disparadas de foguetes, o que paralisou a vida na área, impedindo o funcionamento normal de escolas, o comércio local e outras atividades.

O Departamento de Estado distribuiu declaração em que denuncia o papel do Hezbollah na Síria, que estaria “exacerbando e inflamando tensões sectárias locais”. Não se viu sinal de denúncia semelhante quando as forças islamistas tomaram Qusayr, decapitando e matando a tiros membros das importantes minorias alawita e cristã na região, e obrigando milhares a abandonar suas casas.

Em movimento que dá boa medida do desespero em que se encontra a oposição na Síria, o presidente de fato da Coalizão Nacional, Sabra, lançou uma declaração, na véspera da conferência de Amã, conclamando os EUA e seus aliados a “abrir um corredor humanitário” até Qusayr. Em outras palavras, pediu ao ocidente que lance intervenção militar direta em solo sírio.

Numa teleconferência na 3ª feira, um alto funcionário do Departamento de Defesa reconheceu:  
Uma das coisas sobre as quais falaremos aqui em Amã amanhã é o que mais tem de ser feito a respeito do equilíbrio militar em solo.

Sempre para avançar a própria agenda militarista, Washington ampliou uma campanha de propaganda em que o Irã é repetidamente acusado de responsabilidade nas derrotas impostas às forças anti-Assad na Síria. Alto funcionário do Departamento de Estado disse ao Washington Post que há forças do Irã lutando na Síria, repetindo, como se fosse fato comprovado, o que dizem, sem qualquer prova, as gangues “rebeldes”.

O Post encarrega-se de ampliar a propaganda:  
A declaração do funcionário norte-americano é reconhecimento tácito de que o conflito sírio, que já dura dois anos, já se converteu em guerra regional e já há confronto “por procuração” em solo entre EUA e Irã.

David Ignatius
David Ignatius, colunista do Post diz que, enquanto muito se fala publicamente de uma conferência de paz em Genebra para o mês que vem,

(...) a batalha em solo já é tão intensa, e o pedido de mais armas [para a oposição] já tão declarado, que alguém mais cético deve começar a perguntar-se se as conversações de Genebra chegarão mesmo a acontecer.

O acordo ostensivo de Washington à iniciativa de Moscou sobre conversações de paz é só mais uma tática, para fazer avançar o projeto estratégico dos EUA na região, o mesmo projeto buscado mediante os ataques ao Iraque, Afeganistão, Líbia e, agora, à Síria. Por trás das lágrimas de crocodilo sobre as baixas entre civis, o objetivo dos EUA é sempre o mesmo que se vê subjacente à irrupção do militarismo norte-americano, há 12 anos: afirmar, por meios militares, o controle hegemonista sobre as reservas estratégicas de energia ambicionadas por potências rivais, especialmente Rússia e China.

Como o demonstra a evolução da guerra “por procuração” que os EUA travam na Síria, a sempre mesma intervenção militar predatória dos EUA aponta diretamente para conflagração mais ampla e catastrófica, que ameaça o mundo não só com uma guerra contra o Irã, mas, também, com confrontação com Rússia e China.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Norte-americano, texano, de direita, islamista e sionista... Para substituir Assad no governo da Síria?!


22/3/2013, Franklin Lamb, Al-Manar-TV, Líbano
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Franklin Lamb
Texano, de direita, islamista, sionista e fugitivo do alistamento militar na Síria... para governar a Síria? E o que mais a Casa Branca poderia desejar?

Durante todo o ano passado, nada fez mais falta que algum plano C ou D, dependendo de como você numere os planos falhados que EUA-Israel inventaram para a Síria. E essa semana, segundo funcionários do Congresso dos EUA, ambas, Telavive e a Casa Branca estão em surto, beliscando-se para garantir que não é sonho, tal a sorte que as ajudou a implantar um empresário norte-americano e conservador, Ghassan Hitto, como novo primeiro-ministro provisório da Síria.

Assegurar a posição chave para Hitto, decisão tomada no ano passado, não foi empreitada fácil e teve de ser conduzida sob sigilo. Afinal, depois de semanas de discussão, várias vezes muito intensa, entre os muitos círculos da oposição síria, Washington, Ancara, Doha e Telavive, dentre outras, deram jeito de empossar o homem deles.

Hitto era o melhor de um pacote ruim – explicou uma fonte da Comissão do Congresso cujo trabalho inclui a Síria. – Em resumo, é norte-americano, seus cerca de 30 anos por aqui faz dele um dos nossos. E não faz diferença alguma que tenha chegado ainda adolescente aos EUA, para fugir do serviço militar na Síria. Hoje, podemos contar com ele!

Maura Connely
Para a embaixadora dos EUA em Beirute, Maura Connelly, “a posse de Hitto manterá acesa a esperança. Não podemos desistir” – bem quando alguns norte-americanos já começavam a convencer-se de que o governo dos EUA padeceria de incapacidade congênita para aprender alguma coisa dos próprios erros.

A embaixadora discursou recentemente para uma delegação visitante:

Vejam tudo que conseguimos na Líbia.

Depois da visita, um dos visitantes esbravejou:

Santo Deus! Se essa mulher não fosse, sabe-se lá por quê, a favorita no gabinete de Jeff Feltman, ainda estaria servindo cafezinho na portaria do Departamento de Estado, em 2201 C St NW, Washington, DC!

Samir Geagea
Mas Maury tem fama de ser mulher bonita. É só perguntar a um de seus interlocutores mais frequentes, Samir Geagea, do partido Forças Libanesas, que ultimamente tem sido apresentado como seu confessor privilegiado.

Todos lembram que Washington instalou no poder quase uma dúzia de líbios que viviam fora da Líbia, durante os ataques àquele país, quando a OTAN lançava a operação “zona aérea de exclusão”. A maioria deles sabia mais de vários outros países do mundo, que da Líbia; alguns tiveram de servir-se de “equipamento não letal” (i.e. um GPS e mapas da National Geographic) para chegar aos locais, no oeste da Líbia, que o “ocidente” mandou que governassem.

Nem é preciso citar muitos nomes. No final de junho de 2011, Saif el-Islam, que hoje vive como prisioneiro em Zintan, a oeste de Trípoli, disse a mim, que o entrevistei, falando da chegada em Benghazi e Misrata da “Equipe USA-UK” (como Saif referia-se aos escolhidos pela OTAN para formar governo alternativo a ser rapidamente “legalizado” como legítimo governo da Líbia):

Você, Franklin Lamb, conhece a Líbia muito melhor que aqueles estranhos!

Ghassan Hitto, norte-americano, texano, de direita, sionista e
ligado à Fraternidade Muçulmana
A “nomeação” de Hitto resolve alguns problemas imediatos para a Casa Branca, na Síria. Ou, pelo menos, é o que a Casa Branca espera.

No mínimo, Hitto é flor de estufa, cultivada nos EUA, que poderá ser reconhecido como tal pela “comunidade internacional” e em torno da qual a OTAN poderá construir num curral e cercar ali, pelo menos por algum tempo, algumas das desesperadas facções em que a oposição síria está dividida. É homem que parece disposto e interessado em receber ordens; e já se atirou, em alta velocidade, tentando aprender o que possa sobre a Síria e o jogo que já está em andamento. Um assessor do Congresso dos EUA que ajudou a rebater as críticas contra Hitto diz que:

... é esperto e aprende bem. Achamos que ele jogará o jogo.

Uma das ideias que Hitto parece já ter incorporado veio-lhe de Dennis Ross-AIPAC e diz respeito a uma “lei de isolamento político”. Se adaptada para o governo provisório de Hitto, a lei proibirá que todos que de algum modo tenham tido alguma participação no governo Assad participem do governo Hitto. A intenção da lei é eliminar todos, dos governos de Hafez e Bashar, desde os anos 1970 até hoje. “Precisamos de uma Síria completamente passada a limpo” – disse Ross a parceiros, em recente convenção do AIPAC.
 
Washington também disse a Hitto que rejeite qualquer diálogo com o governo sírio, porque neoconservadores no Congresso dos EUA não se cansam de repetir que:

... negociações com o governo Assad se arrastarão interminavelmente e podem dar tempo ao governo para erradicar bolsões de resistência e mobilizar mais ajuda da Rússia e do Irã.

Falando de negociações com o Irã, o senador do Arizona John McCain disse recentemente à rede Fox News que

... se tentarmos negociar com aquela gente (o governo do Irã), vamos perder. E insistimos nisso... Precisamos é de ação!

Há quem já esteja dizendo à Casa Branca que o mesmo raciocínio aplica-se ao governo sírio. Parece que Hitto concorda.

O mesmo assessor do Congresso disse também que:

... têm aparecido interpretações erradas da recente posição de John Kerry, segundo as quais refletiria alguma mudança notável na posição dos EUA ou seria retrocesso, contra o que Barack Obama disse sobre a importância de Al-Assad sair de lá. Obama e Hitto cantam pela mesma partitura.

John McCain (E) e Lindsey Graham (D)
Imediatamente depois de Grassan Hitto ser “nomeado”, dois senadores, insaciáveis provocadores e militantes pró-guerra, John McCain (R-Ariz.) e Lindsey Graham (R-S.C.)  serviram-se de relatórios não confirmados e conflitantes sobre amas químicas que estariam sendo usadas na Síria, para aumentar a pressão sobre o presidente Barack Obama para que aprovasse o imediato envolvimento militar dos EUA na Síria.

Deve-se tratar imediatamente de fornecer armas a grupos da oposição síria; de organizar ataques contra a Força Aérea de Assad; de instalar em solo baterias de mísseis Scud; e de estabelecer áreas seguras dentro da Síria para proteger civis e grupos da oposição – continua a declaração assinada pelos dois senadores. – Se se comprovarem os relatórios já recebidos, a trágica ironia será que já conhecemos, há muito tempo, as medidas que poderiam ter evitado que Assad usasse armas de destruição em massa.

Graham parecia até falar de um plano para incluir os EUA nas forças que deseja que invadam e ocupem a Síria: disse que:

Precisamos de um verdadeiro parceiro na Síria.

Ele e John McCain parecem ter encontrado em Ghassan Hitto o parceiro sonhado.

Para Washington e Telavive, a “nomeação” de Hitto parece ser solução para remover inúmeros obstáculos que as impedem de alcançar seus objetivos na Síria, e por várias razões.

As duas capitais creem que Hitto possa ajudar a pôr fim entre as lutas internas que agitam a oposição ao regime de Assad e que levaram a situação atual. Embora Hitto não seja um Mohamed Mursi, tem inclinações que o aproximam da Fraternidade Muçulmana; e os Irmãos o apoiaram, sabendo que era o preferido de Washington. Em Washington, vários acreditam que Hitto possa neutralizar a Fraternidade. Circulam notícias de que a Casa Branca teria dito à União Europeia que:

... a CIA recomendou Hitto para conter os doidos daquele círculo; e Hitto pode, além de outras possibilidades, ajudar na formação de um bloco internacional apoiado pelos EUA para livrar-se dos grupos salafistas na Síria. 

O adestramento-treinamento de Ghassan já começou. Foi nomeada uma “equipe de aconselhamento” para doutriná-lo até que creia com fé fundamentalista na “mensagem”; e o homem está recebendo curso intensivo sobre o que fazer e quais arapucas evitar. Espera-se que aprenda a partir da experiência dos erros já cometidos na Líbia, no Egito e no Iraque.

Ghassan já recebeu sinais de que, se quer ser mais do que Primeiro primeiro-ministro “provisório” da Síria, terá de aprender rápido, adaptar-se rapidamente ao “manual”, comportar-se como aluno aplicado e, sobretudo, jogar para o time. “Não queremos saber de outro Hugo Chávez por aqui” – como Ghassan ouviu recentemente em Istambul, dias antes de anunciar a própria candidatura.

Os homens da CIA encarregados do treinamento de Hitto entregaram-lhe o script; Hitto leu atentamente. Na primeira fala pública, disse logo que reconhece a tarefa muito difícil que o aguarda. Prometeu prover os serviços que já não há para muitos sírios. Prometeu também eleições livres e justas na Síria, num governo pós-Assad.

John Kerry
John Kerry diz-se pronto a trabalhar com Hitto. Kerry disse a membros do Congresso dos EUA, há dois anos, que conhece e respeita Bashar al-Assad. Disse uma vez ao deputado ultra sionista Barney Frank, que “não podemos lidar com ele como lidamos com os canadenses”. Em declaração privada, Kerry disse a funcionários da Comissão de Relações Exteriores do Senado que “gosto de Bashar; podemos confiar muito mais nele, que nos israelenses. Ele é bom”. Kerry, adiante, mudou de tom. E há quem dê hoje tratos à bola, tentando quantificar o apoio que dará a Hitto.

Hitto dá sinais de estar ansioso por ambos, e pronto para começar. No início dessa semana, em discurso em Istambul, insistiu que sua prioridade é utilizar “todos os meios concebíveis” para derrubar ao presidente Bashar al-Assad e “entregar a ajuda de que carece desesperadamente o atormentado povo sírio”. Washington entende que essa ajuda desesperada e carecida rapidamente incluirá armas.

Seja como for, a Casa Branca e Telavive sabem que será tarefa hercúlea construir alguma legitimidade para algum governo comandado por Hitto, porque ele não conta sequer com apoio de membros importantes de sua própria coalizão. Recebeu 35 de 49 membros presentes à votação. Mas 15 outros membros não votaram: alguns “ausentados” por suborno, e vários que se retiraram, como protesto contra conhecidos laços que ligam Hitto à Fraternidade Muçulmana e ao Qatar.

Disse Haitham al-Maleh, um veterano da oposição síria:

Há muito tempo apoio a ideia de formar governo alternativo, mas votei em branco, porque não havia nenhum candidato de dentro da Síria. Só votaria em primeiro-ministro que tivesse vivido na Síria.

Disse al-Labwani, outro membro da coalizão:

O governo agora proposto é controlado pela Fraternidade Muçulmana e pelo governo do Qatar. Permaneceremos na oposição contra esse governo e não lhe daremos legalidade. Democracia tem de vir da terra e do povo, não de um “conselho” no qual os EUA e o Qatar votam.

Segundo um assessor da Comissão de Relações Exteriores do Senado dos EUA, quando ainda presidida por Kerry,

... muitos sírios veem com desconfiança e suspeita a indicação de Hitto, feita por nós. Desde que o nome de Hitto foi anunciado, já ouvi figuras do movimento sírio nacionalista e de vários grupos de comunidades minoritárias criticar essa ação dos EUA.

Parece que Washington, Doha e Telavive, tentam infiltrar o seu homem, na Síria. Já “elegeram”. Logo saberemos o que os sírios dirão dessa “eleição”.