Mostrando postagens com marcador David Ignatius. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador David Ignatius. Mostrar todas as postagens

domingo, 5 de outubro de 2014

Abrir os olhos para as realidades sírias

3/10/2014, [*] Robert ParryConsortium News
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O ataque químico organizado pelo "ocidente" e realizado pelos "rebeldes" na Síria assassinou mais de 1000 pessoas entre adultos e crianças
No final do verão de 2013, a Washington oficial apressava-se a “sentenciar” que o presidente da Síria Bashar al-Assad (do mal) havia disparado barragem de mísseis contendo gás sarín, e assim massacrado centenas de civis em áreas próximas de Damasco controladas pelos rebeldes.

Era inconcebível para virtualmente todas as pessoas “que contam” em Washington que pudesse haver outra interpretação para os eventos de 21/8/2013. O colunista de segurança nacional do Washington Post, David Ignatius até explicou a razão “do grande quadro” pela qual o presidente Barack Obama era obrigado a lançar bombardeio punitivo contra o governo de Assad, porque, ao usar armas químicas, o presidente sírio cruzara a “linha vermelha” de Obama.

O que será o mundo quando as pessoas começarem a duvidar da credibilidade do poder dos EUA. Infelizmente, estamos descobrindo a resposta na Síria e em outras nações nas quais os líderes já concluíram que podem desafiar os EUA já fartos de guerras, sem pagar o preço.

Usar poder militar para manter a credibilidade da nação pode soar como ideia antiquada, mas é absolutamente relevante no mundo real onde todos vivemos. Já se tornou óbvio em semanas recentes que o presidente Obama(...) precisa demonstrar que há consequências para quem cruze uma “linha vermelha” norte-americana. Sem isso, a coerência do sistema global começa a dissolver-se − escreveu Ignatiusuma semana depois do incidente do gás sarín.

Naquele momento, poucos de nós levantaram questões sobre o “pensamento de grupo” dentro da Washington oficial sobre os ataques com sarín, em parte porque não faria sentido algum, para Assad, ter convidado inspetores da ONU para examinar os locais de outros ataques com gás, que Assad atribuía à oposição, e, em seguida lançar mais um grande ataque a poucas milhas do hotel ao qual estavam chegando os inspetores.

Também ouvi de dentro da inteligência dos EUA que alguns analistas da CIA tinham as mesmas dúvidas e suspeitavam que o suposto alto número de foguetes carregados com gás sarín (que era então a principal “prova” contra as forças do presidente Assad) havia sido muitíssimo aumentado, e que o pânico entre a população poderia ter inflado as dimensões do ataque.

Mas a razão mais forte para duvidar da Washington oficial talvez fosse a muito apressada conclusão segundo a qual Assad seria culpado de tudo que já vinha acontecendo dentro da oposição síria ao longo de dois anos, a saber, a radicalização e a conversão em força jihadista sunita hiper violenta, que se preparava para ataques brutais contra civis para derrubar o governo secular de Assad e impor em Damasco um estado islamista.

A MENTIRA dos neocons começou com Rumsfeld/Bush e continuou com Obama/H. Clinton/Kerry... Até hoje!

Blindados pela propaganda

Praticamente nenhuma das pesquisas, estudos e avaliações feitas em Washington detectou essa mudança, porque estavam todos já cegos, de uma cegueira geopolítica infligida pela propaganda dos neoconservadores, que insistiam em que a única via aceitável para interpretar a guerra civil síria seria ver Assad na posição de “o bandido”, e os rebeldes na posição de “os mocinhos”.

Afinal, “mudança de regime” na Síria é item presente há muito tempo na agenda dos neoconservadores; há tanto tempo quanto é item da agenda de Israel, que quer derrubar Assad porque é aliado de Irã e do Hezbollah libanês. No início da guerra na Síria, a dura resposta de Assad ao que ele sempre chamou de “terrorismo”, mas era conhecido nos EUA como “oposição síria” havia induzido também os “liberais intervencionistas” do governo de Obama para o campo dos “mudadores de regime”.

Nesse quadro, a ideia de que algum grupo sírio rebelde extremista poderia deliberadamente matar civis, como provocação para atrair um ataque militar dos EUA contra as defesas de Assad – e assim abrir caminho para uma vitória dos rebeldes – nunca conseguiu penetrar o quadro de referências que a Washington oficial aceitava. Em agosto de 2013, a opinião dominante nos EUA ensinava que os rebeldes sírios eram forças “do bem”.

Ao longo do ano passado, contudo, a realidade, pelo menos em parte, afinal, começou a impor-se. O caso do gás sarín contra o presidente Assad foi praticamente desmontado pelo relatório que a ONU publicou, depois de só haver sido encontrado um único foguete com gás sarín, e de cientistas independentes terem concluído que aquele único foguete carregado com gás teria alcance máximo de cerca de dois quilômetros – o que implicava que ataque algum poderia ter partido da base síria suspeita, localizada a cerca de nove quilômetros de distância.

O repórter investigativo Seymour Hersh também soube, de fontes muito bem postadas, que a comunidade de inteligência dos EUA já começara a suspeitar de extremistas rebeldes que estariam trabalhando ao lado de setores de linha-dura, na inteligência turca [ver Was Turkey Behind Syria-Sarín Attack?].

Mas muita “gente importante” do mundo oficial nos EUA, inclusive os editores dos jornais New York Times e Washington Post, continuaram a insistir que Assad tinha de ser o responsável pelo ataque com sarín. “Noticiavam” essa opinião deles próprios, como se fosse fato estabelecido. E sabe-se que essa gente não é dada a admitir os próprios erros.

Caixas de munição chegam para a Frente al-Nusra na Síria

Uma mudança de paradigma

Ao longo do último ano porém, o paradigma de interpretação do conflito sírio começou a mudar. Em setembro de 2013, muitas forças rebeldes sírias repudiaram a oposição “moderada” e abraçaram, em vez dela, a Frente al-Nusra da al-Qaeda, força jihadista muito agressiva na qual se haviam reunido os combatentes mais efetivos contra Assad.

Então, em fevereiro de 2014, a liderança da al-Qaeda começou a falar de uma força jihadista ainda mais brutal, já chamada Estado Islâmico do Iraque e Levante [Síria] (ing. ISIS ou ISIL). Esse Estado Islâmico promoveu estratégia de indizível brutalidade, como meio para intimidar rivais e afastar os ocidentais, do Oriente Médio.

O ISIL começou a existir depois da invasão dos EUA ao Iraque em 2003, quando o jordaniano Abu Musab al-Zarqawi organizou a chamada “al-Qaeda no Iraque”, uma milícia sunita hiper violenta que atacava xiitas iraquianos e destruía suas mesquitas, espalhando uma viciosa guerra sectária por todo o Iraque.

Depois da morte de Zarqawi em 2006 – e com o afastamento de sunitas iraquianos menos extremistas – a al-Qaeda no Iraque sumiu de cena, até reaparecer na guerra na Síria, já transfigurada como Estado Islâmico e de volta também ao Iraque, numa grande ofensiva militar no verão passado.

Entre notícias de que o Estado Islâmico promove massacres e degola de reféns norte-americanos e britânicos, novamente voltou a parecer crível que haja grupos rebeldes sírios suficientemente agressivos para obter gás sarin e fazer um ataque químico perto de Damasco, matando inocentes e com o projeto de atribuir o crime ao governo do presidente Assad.

Até Ignatius do Post já parece mais cético quanto ao movimento rebelde sírio; e sobre o serviço que prestam as várias agências de inteligência dos EUA e aliados que sempre forneceram dinheiro, armas e treinamento – até a milicianos dos grupos mais extremistas.

Posto de fronteira da Turquia com a Síria

Abriram a porta

Em coluna na 5ª-feira2/10/2014, Ignatius critica não só a tal “oposição moderada” na Síria, mas também

(...) nações estrangeiras, como EUA, Turquia, Qatar, Arábia Saudita e Jordânia, que estão financiando essa mistura caótica de rebeldes armados dentro da Síria. Essas maquinações estrangeiras ajudaram a abrir a porta para que o grupo terrorista Estado Islâmico passasse a ameaçar a região.

Até Ignatius já reconheceu que a ideia de pintar a oposição síria como movimento de raízes locais, constituído de reformadores idealistas, foi erro grave. Escreveu:

Desde o início da revolta contra o presidente Bashar al-Assad em 2011, aSíria foi cenário de uma guerra por procuração que envolveu potências regionais (Turquia, Arábia Saudita e Qatar) que, todas, queriam derrubar Assad, mas também competiam entre elas como rivais regionais.

Em diferentes momentos, essas três nações forneceram dinheiro e armas a grupos sunitas rebeldes, armas que acabaram nas mãos de extremistas. (...) Os EUA, Arábia Saudita e Jordânia uniram forças em 2013 para treinar e armar rebeldes moderados num campo de treinamento mantido pela CIA, na Jordânia. Mas esse programa jamais foi forte o suficiente para unificar as quase 1.000 brigadas espalhadas pelo país. A desorganização resultante ajudou a desacreditar a aliança rebelde conhecida como Exército Sírio Livre.

Os comandantes sírios rebeldes têm também alguma culpa por esta estrutura em cacos. Mas o caos foi gravemente piorado pelas potências exteriores que trataram a Síria como playground para seus serviços de inteligência. Essa intervenção cínica faz lembrar intervenções semelhantes que muito contribuíram para devastar o Líbano, o Afeganistão, o Iêmen, o Iraque e a Líbia, em guerras civis assemelhadas. (...)

David Ignatius
A história de como a Síria foi convertida em centro de pilotagem para agências de inteligência rivais, foi-me explicada por fontes aqui [em Istambul] e em Reyhanli, área de ação rebelde na fronteira turco-síria. Esforços externos para treinar e armar rebeldes sírios começaram há mais de dois anos em Istanbul, onde um ‘centro de operações militares’ foi criado, primeiro, num hotel próximo ao aeroporto.

Figura chave era um agente do Qatar, que ajudou a armar os rebeldes líbios que depuseram Muammar Gaddafi. Trabalhando com os qataris havia altos funcionários das inteligências turca e saudita. Mas a unidade interna das operações de Istambul acabou quando turcos e qataris começaram a apoiar grupos islamistas, que eles consideravam mais agressivos.

Aqueles jihadistas realmente surgiram como combatentes mais valorosos, mais duros – e o sucesso deles foi como um ímã para atrair mais apoio. Os turcos e qataris insistem que não apoiaram intencionalmente o grupo extremista Frente al-Nusra ou o Estado Islâmico. Mas armas e dinheiro enviado para brigadas islamistas mais moderadas acabaram em mãos desses grupos terroristas, e turcos e qataris fizeram-se de cegos.

Quanto ao crescimento desses radicais, Ignatius cita uma fonte da inteligência árabe, que disse ter “alertado um funcionário do Qatar, que respondeu: “Enviarei armas para a al-Qaeda, se ajudar a derrubar Assad”. Essa determinação de derrubar Assad a qualquer custo provou-se muito perigosa. “Os grupos islamistas cresceram e ficaram cada vez mais fortes, e o Exército Sírio Livre só fez enfraquecer cada vez mais” – recordou a fonte da inteligência árabe.

É hora de revelar a verdade sobre o gás sarín

Baseados nessa informação, a ideia de haver extremistas anti-Assad capazes de usar gás sarín – possivelmente com ajuda da inteligência turca, como Hersh denunciou – e lançar um ataque de pura provocação, com o objetivo de conseguir que o exército dos EUA destruísse o exército de Assad e abrisse caminho para uma vitória dos rebeldes já começa a fazer pleno sentido.

Afinal de contas, lá em Washington, a estratégia de propaganda de culpar Assad só convenceu os sempre influenciáveis neoconservadores que, em agosto de 2013 empurraram adiante o caminhão dos que pregavam “guerra-já” e forçaram ao silêncio qualquer um que duvidasse da versão segundo a qual Assad seria sempre “culpado de tudo”.

Israel assumiu a mesma posição sobre a Síria, aceitando até a vitória dos extremistas da al-Qaeda, se necessário para derrubar Assad e ferir seus aliados iranianos.

Michael Oren, Embaixador de Israel nos EUA
Em setembro de 2013, o então embaixador de Israel nos EUA, Michael Oren, disse ao Jerusalem Post em entrevistaque:

O maior perigo para Israel é o arco estratégico que se estende de Teerã a Damasco e a Beirute.

E via o regime Assad como pedra de apoio daquele arco...

(...) Sempre quisemos que Bashar Assad partisse. Em matéria de bandidos, sempre preferimos bandidos que não fossem apoiados pelo Irã, a bandidos apoiados pelo Irã.

Disse que era assim, mesmo no caso dos bandidos não apoiados pelo Irã serem apoiados pela al-Qaeda.

Assim sendo, o perigo que advém dos extremistas sunitas já foi rebaixado, e o foco volta a ser derrubar Assad. Não surpreende que tenha havido tanta “surpresa” nos think-tanks da Washington oficial, quando o Estado Islâmico abriu nova frente no Iraque e expulsou de lá o exército iraquiano treinado pelos EUA. Mais uma vez, os neoconservadores conseguiram manter os olhos dos norte-americanos absolutamente cegos para uma verdade inconveniente.

Mas os neoconservadores ainda não acertaram as contas que têm a acertar, pelo impressionante fiasco na Síria, que eles ajudaram a criar. No momento, estão ocupadíssimos reescrevendo a narrativa: começaram a acusar Obama de ter esperado demais para armar os rebeldes sírios; e a insistir para que Obama, em vez de bombardear alvos do Estado Islâmico na Síria, passe a atacar a força aérea síria e crie uma zona aérea de exclusão, para que os rebeldes possam marchar sobre Damasco.

A temeridade enlouquecida de tal estratégia deveria ser óbvia para todos. Mas, se Obama tivesse sucumbido às demandas dos que queriam intervenção no verão de 2013 e atacasse o exército de Assad, talvez tivéssemos hoje a al-Qaeda ou o Estado Islâmico no controle de Damasco. [Ver Consortiumnews.com,  Neocons’ Noses into the Syrian Tent].  

Melhor fará Obama se romper o sigilo que veda o acesso aos relatórios de inteligência dos EUA sobre o ataque com gás sarín dia 21/8/2013, incluindo as manifestações de discordância de vários analistas da CIA que não consideraram demonstrada a responsabilidade de Assad. Essa informação lançaria luz consideravelmente nova sobre como a ação de serviços de inteligência turcos e árabes — com a ajuda de neoconservadores – tornou possível o surgimento e o crescimento do Estado Islâmico.
____________________

[*] Robert Parry é um jornalista investigativo norte-americano. Recebeu Prêmio George Polk de Reportagem Nacional em 1984 por seu trabalho na Associated Press sobre o caso Irã-Contras quando descobriu envolvimento de Oliver North. Trabalhou como correspondente em Washington para a Newsweek. Em 1995 fundou o ConsorctiumNews, um espaço de noticiário liberal online dedicado ao jornalismo investigativo. De 2000 a 2004, trabalhou para agência Bloomberg. Parry escreveu vários livros, incluindo Lost History: Contras, Cocaine, the Press & “Project Truth” (1999) e Secrecy & Privilege: Rise of the Bush Dynasty from Watergate to Iraq (2004).

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

EUA-Irã versus Israel: neoconservadores em desespero

9/10/2013, [*] Jim Lobe, Information Clearing House
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Netanyahu e a imaginária bomba iraniana
WASHINGTON – A semana passada começou com furiosa denúncia, pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu de Israel, do que seria “a hipocrisia” iraniana; e terminou com probabilidade ainda menor de que Israel venha a atacar as capacidades nucleares do Irã. “Os israelenses estão hoje na pior posição, em muitos anos” – concluiu Elliott Abrams, prestigiado neoconservador que foi o principal conselheiro de George W Bush para o Oriente Médio, em artigo da revista Foreign Affairs.
Embora Israel sempre possa atacar, por iniciativa sua, as instalações nucleares do Irã,
(...) sua capacidade para fazê-lo já foi consideravelmente reduzida pelo “reaquecimento” diplomático entre o Irã e os EUA – escreveu Abrams. – Uma coisa é bombardear o Irã quando o país se mostra irrecuperavelmente recalcitrante e isolado; outra coisa bem diferente é bombardeá-lo quando boa parte do mundo, especialmente os EUA, mostra-se otimista sobre as possibilidades das conversações.
A avaliação de Abrams é partilhada por seus parceiros ideológicos que entendem que Israel será a principal perdedora, se as esperanças de uma détente entre Washington e Teerã ganharem força depois da reunião da próxima semana em Genebra entre o Irã e o P5+1 (EUA, Grã-Bretanha, França, Rússia e China, mais a Alemanha).
Michael Makovsky
A revista neoconservadora Weekly Standard descreveu como “solitária” a posição de Israel (o editorial da semana passada levava o título de “Standing Alone”), embora o editor-chefe William Kristol e o diretor do Instituto Judeu de Assuntos de Segurança Nacional, Michael Makovsky, tenham assumido tom muito mais declarado de desafio, que Abrams. Conclamaram Netanyahu a avançar nas recentes ameaças de atacar instalações nucleares do Irã, com ou sem a aprovação dos EUA.
Ninguém gosta de ouvir a verdade no campo da pacificação” – escreveram. Para eles, o presidente Obama e seu “desejo rendido, quase desesperado, de obter algum acordo [nuclear], qualquer acordo” com o Irã implicariam uma espécie de “fracasso ocidental, um colapso da vontade”, o mesmo que o ex-ministro britânico Winston Churchill lamentou, no surgimento dos nazistas alemães, nos anos 1930s.
Em tom semelhante, o principal colunista de assuntos externos do Wall Street Journal, Bret Stephens, também lamentou amargamente a situação a que Israel se via reduzida, depois do tour de force do presidente Hassan Rouhani do Irã, na ONU, na semana anterior.
Bret Stephens
Israel está hoje na desastrosa posição de ter de esperar que os linha-duras iranianos sabotem os esforços de Rouhani para negociar algum acordo – escreveu ele, pouco antes de Netanyahu subir à tribuna para denunciar a perfídia de Teerã.
O líder israelense, lamentou Stephens, já cedeu demais aos esforços diplomáticos de Obama, quando não atacou o Irã no ano passado. Dado que Washington agora se retira do mundo – o que teria ficado evidentemente comprovado quando os EUA fracassaram nas ameaças de atacar a Síria –os israelenses devem agora rebaixar as relações com Washington, o colunista exigiu; e devem agir sem levar em consideração o cronograma diplomático de Obama.
Gary Sick, especialista em Irã que trabalhou no Conselho de Segurança Nacional nos governos Ford, Carter e Reagan, disse à agência InterPress Service que as recentes manifestação dos neoconservadores, de desafio e desespero, são
(...) a prova mais convincente que vi até hoje, de que os sabotadores mais empenhados de qualquer acordo entre EUA e Irã entraram em operação defensiva.
Marcos diplomáticos
Mohammad Javad Zarif
A apenas uma semana de o ministro iraniano de Relações Exteriores, Javad Zarif sentar-se para negociar com os seus interlocutores do P5+1 em Genebra, Netanyahu e seus apoiadores em Washington vivem ambiente diplomático e político profundamente diferente do que havia há apenas cinco semanas.
Esse ambiente é definido e modelado, sobretudo, pela opinião do eleitorado norte-americano, já farto de guerras, que aparece claramente no apoio da opinião pública à decisão de Obama a favor da diplomacia, não dos mísseis, para neutralizar o arsenal sírio de armas químicas.
O fato de que o processo de desarmamento até agora transcorre muito mais suavemente do que se havia previsto desacredita ainda mais os neoconservadores, que se opuseram furiosamente ao acordo EUA-Rússia que tornou possível aquele processo e que muito falaram a favor de ataque unilateral à Síria e do apoio aos “rebeldes”, hoje cada dia mais controlados por radicais islamistas.
A impressão muito favorável que Rouhani causou nos quatro dias de blitz diplomática em New York em setembro, que culminou com o telefonema absolutamente sem precedentes de Obama, [1] criou expectativas não só de um acordo sobre o programa nuclear do Irã, mas, também, de uma possível aproximação entre os dois países, depois de 34 anos de mútua demonização.
Elliott Abrams
Em seu artigo, Abrams concedeu que a exigência de Netanyahu, de que qualquer acordo nuclear deveria impor que o Irã abandonasse completamente seu programa nuclear, já não é realista; e que teria de ser abandonada, se passasse a depender da ação de sabotagem pelos linha-duras iranianos.
Netanyahu está impondo precondições a um acordo nuclear que são muito mais duras do que as condições que o governo Obama considera negociáveis e as quais, portanto, não estão sequer sendo consideradas – escreveu Abrams.
O líder israelense deve, pois, preparar-se para aceitar um programa com limite de 3,5% de enriquecimento do urânio e número limitado de centrífugas que o Irã poderia manter, além de limites também de estoque de urânio enriquecido. E deve-se prever que as sanções sejam suavizadas nos próximos meses, mas, diz Abrams, sob a condição inegociável de que o Irã cumpra o acordo.
Enquanto isso, argumenta Abrams, ecoando a poderosa Comissão EUA-Israel de Assuntos Públicos [orig. American Israel Public Affairs Committee, AIPAC], que o Congresso dos EUA, onde o lobby israelense exerce sua maior influência, deve garantir que as sanções sejam mantidas. Mas mesmo essa já é concessão que a elite da política exterior considera a mais provável, nas negociações.
Como já antecipado na coluna de domingo no Washington Post, por David Ignatius, os elementos básicos do acordo exigirão que o Irã “limite o nível de enriquecimento de urânio (a, digamos, 5%) e seus estoques de material enriquecido” a níveis suficientemente baixos, de modo que, se Teerã “entrar em surto de produzir a bomba”, EUA e Israel preservem meses de “alerta estratégico”.
Em troca, o ocidente levantaria as sanções e aceitaria “os direitos iranianos, em princípio, ao enriquecimento”, segundo Ignatius, cujas opiniões muito frequentemente reproduzem o pensamento do establishment político.
David Ignatius
Segundo Ignatius, o engajamento de Washington com a Rússia, na questão síria e na questão nuclear iraniana, oferece “grande oportunidade estratégica” que os críticos erram ao ver como “sinais de fraqueza dos EUA ou, até, de capitulação”.
Os EUA estarão mais fortes se puderem criar um quadro de segurança no Oriente Médio que envolva o Irã e dilua a ameaça do conflito sectário entre sunitas e xiitas que ameaça a região” e que “acomode as necessidades de segurança de iranianos, sauditas, israelenses, russos e norte-americanos”.
Mas precisamente essa é a acomodação considerada anátema por Netanyahu e seus apoiadores neoconservadores, que insistem em assegurar uma posição de privilégio para Israel no Oriente Médio e calculam a oposição ao Irã por uma equação de soma-zero, em relação à qual não admitem qualquer concessão.

Nota dos tradutores
[1] Ver, sobre isso, redecastorphoto, MK Bhadrakumar, 1/10/2013, Putin ganhou a Síria, Obama muda-se para o Irã, Asia Times Online, em português. 
_________________________


[*] Jim Lobe (nascido em 4 de janeiro de 1949, em Seattle, Washington) é um jornalista americano e o chefe do escritório de Washington da IPS -Inter Press Service. Trabalhou na Foreign Policy In Focus, na Oneworld.net, na Alternet, em TomPaine.com, no Asia Times e outras publicações de notícias de internet. Lobe é mais conhecido por sua crítica da política externa dos EUA, ao militarismo americano, crítico do anti-semitismo, com especial destaque na crítica aos neo-conservadores, sua visão de mundo, sua relação com outras tendências políticas e sua influência na administração Bush.

sábado, 25 de maio de 2013

Pelas costas das “Conversações de Paz para a Síria”, EUA buscam a guerra regional

24/5/2013, Bill Van Auken, Strategic Culture  
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Enquanto viajava ostensivamente pelo Oriente Médio, para discutir uma proposta conjunta de Rússia e EUA para conversações de paz entre o governo sírio do presidente Bashar al-Assad e os “rebeldes” apoiados pelo ocidente, o secretário de Estado, John Kerry, reuniu-se com aliados dos EUA, para preparar a guerra regional.

Primeiro, parou em Omã, onde Kerry reuniu-se com o Sultão reinante, um de uma cadeia de ditadores monárquicos que constitui, com Israel, o pilar de sustentação da influência norte-americana no Oriente Médio. A visita do secretário de Estado coincidiu com a assinatura de um negócio de $2,1 bilhões de dólares entre a monarquia absoluta e a empresa Raytheon Corp. para a venda de sistemas avançados de armas, incluindo unidades Avenger, mísseis Stinger e mísseis avançados de médio alcance ar-ar, parte de um anel de aço que Washington sempre buscou construir em torno do Irã.

Dali, Kerry voou para Amã, Jordânia, para encontro na 4ª-feira com os “Amigos da Síria”, a “coalizão de vontades” liderada pelos EUA que fomenta a guerra para provocar mudança de regime na Síria. É formada de Washington, seus aliados europeus da OTAN, liderada pela Grã Bretanha, Turquia, Egito e vários sultanatos e xeicados do Golfo Pérsico, incluindo os principais fornecedores de armas para as gangues anti-Assad: Arábia Saudita, Qatar e os Emirados Árabes Unidos.

Bahjat Suleiman
Enquanto a reunião acontecia na 4ª-feira, o embaixador da Síria na Jordânia organizou uma conferência de imprensa para denunciá-la como “encontro dos inimigos da Síria:

Os que queiram ver o fim da tragédia na Síria devem parar de armar e treinar gangues de terroristas na Síria. A guerra na Síria é algo sem precedentes – disse o embaixador Bahjat Suleiman.

Representantes da Coalizão Nacional Síria, a frente anti-Assad organizada pelo Departamento de Estado dos EUA, foram convidados no último minuto para aquela reunião. Parece que ainda havia alguma dúvida sobre a possibilidade de chegarem a algum acordo sobre quem os “rebeldes” aceitariam como representante deles.

Os EUA promoveram Ghassan Hitto, empresário que vive há mais de 30 anos no Texas e é ligado à Fraternidade Muçulmana, como “premiê” de um governo de transição. Apareceram notícias cada vez mais insistentes e relatos cada vez mais claros de que havia forte oposição a Hitto, nessa função, pelas milícias sunitas sectárias que lutam em território sírio. Circularam notícias de que o “chefe de fato” da coalizão, representante dos “rebeldes”, seria George Sabra, ex-membro do Partido Comunista Sírio Stalinista.

Ghassan Hitto
Enquanto o Departamento de Estado diz que o papel de Kerry nessa reunião seria preparar as conversações de paz para a Síria – apelidadas “Conferência de Genebra 2” – sobre as quais Washington e Moscou concordaram publicamente, é evidente que a agenda real que está mobilizando e ocupando os EUA e seus aliados só diz respeito a encontrarem meios para salvar sua guerra para mudança de regime, depois que o Exército Sírio começou a infligir duras derrotas militares estratégicas às forças apoiadas pelo ocidente.

Foi o que se viu bem claramente em campo, depois de o Exército Sírio ter retomado a cidade de Qusayr, no oeste da Síria, a cerca de dez quilômetros da fronteira libanesa. A cidade, que estivera sob controle das gangues apoiadas pelo ocidente, servia como duto de passagem para armas e milicianos estrangeiros que atravessavam a fronteira do Líbano. O controle “rebelde” naquela região e arredores ameaçava separar a capital Damasco, de Aleppo e do litoral sírio.

Falando em conferência de imprensa em Amã, na abertura da reunião dos “Amigos da Síria”, Kerry alertou que, se o regime de Assad não aceitasse uma solução política negociada, Washington consideraria “aumentar o apoio à oposição, para dar continuidade aos combates pela liberdade de seu país”. Com funcionários do governo dos EUA exigindo a saída de Assad como condição para qualquer acordo, tudo sugere hoje que as “conversações de paz” previstas serão induzidas ao fracasso, e serão usadas como pretexto para escalar a intervenção dos EUA na Síria.

O comentário de Kerry surge exatamente um dia depois de a Comissão de Relações Exteriores do Senado dos EUA ter aprovado, por 15 votos a favor e 3 contra, a proposta de Washington de passar a armar diretamente as milícias “rebeldes”. A CIA já está coordenando o fluxo de armas a partir dos estados do Golfo, e sabe-se que já organizou grandes embarques de armas da Europa Oriental, através de três intermediários.

John Kerry
Kerry pôs a culpa pelos reveses impostos pelo Exército Sírio às milícias delegadas de Washington, na batalha por Qusayr, na intromissão de combatentes do Hezbollah, o partido e milícia armada libanesa que sempre se manteve solidário ao governo de Assad; atribuiu a derrota, também, a um suposto apoio que o Irã estaria dando ao regime iraniano.

Semana passada, é claro, houve intervenção do Hezbollah. Intervenção muito, muito significativa. Há vários milhares de combatentes do Hezbollah em território sírio que contribuem para aumentar a violência, e nós condenamos isso – disse Kerry.

O Hezbollah não faz segredo de que tem combatentes operando em campo, mas negou que tenham tido papel decisivo nos recentes confrontos; disse que seus combatentes trabalham em operações de treinamento de autoproteção e autodefesa para cidadãos libaneses que vivem em áreas próximas da fronteira síria, para que se possam defender.

A imprensa-empresa ocidental também tem dado grande destaque ao papel do Hezbollah, embora insista em ignorar o fato de que muitos milicianos islamistas sunitas também chegaram à Síria pela fronteira do Líbano, para lutar contra o regime de Assad.

Bandeira do Hezbollah
A ameaça de que esse conflito se alastre por toda a região, convertido em guerra regional, cresce dia a dia. Em Tripoli, cidade libanesa ao norte do país, pelo menos 11 pessoas morreram, entre os quais pelo menos dois soldados libaneses, em confrontos entre milícias sunitas e libaneses alawitas que apoiam Assad. Nos confrontos, há trocas de tiros de morteiro e granadas disparadas de foguetes, o que paralisou a vida na área, impedindo o funcionamento normal de escolas, o comércio local e outras atividades.

O Departamento de Estado distribuiu declaração em que denuncia o papel do Hezbollah na Síria, que estaria “exacerbando e inflamando tensões sectárias locais”. Não se viu sinal de denúncia semelhante quando as forças islamistas tomaram Qusayr, decapitando e matando a tiros membros das importantes minorias alawita e cristã na região, e obrigando milhares a abandonar suas casas.

Em movimento que dá boa medida do desespero em que se encontra a oposição na Síria, o presidente de fato da Coalizão Nacional, Sabra, lançou uma declaração, na véspera da conferência de Amã, conclamando os EUA e seus aliados a “abrir um corredor humanitário” até Qusayr. Em outras palavras, pediu ao ocidente que lance intervenção militar direta em solo sírio.

Numa teleconferência na 3ª feira, um alto funcionário do Departamento de Defesa reconheceu 
Uma das coisas sobre as quais falaremos aqui em Amã amanhã é o que mais tem de ser feito a respeito do equilíbrio militar em solo.

Sempre para avançar a própria agenda militarista, Washington ampliou uma campanha de propaganda em que o Irã é repetidamente acusado de responsabilidade nas derrotas impostas às forças anti-Assad na Síria. Alto funcionário do Departamento de Estado disse ao Washington Post que há forças do Irã lutando na Síria, repetindo, como se fosse fato comprovado, o que dizem, sem qualquer prova, as gangues “rebeldes”.

O Post encarrega-se de ampliar a propaganda 
A declaração do funcionário norte-americano é reconhecimento tácito de que o conflito sírio, que já dura dois anos, já se converteu em guerra regional e já há confronto “por procuração” em solo entre EUA e Irã.

David Ignatius
David Ignatius, colunista do Post diz que, enquanto muito se fala publicamente de uma conferência de paz em Genebra para o mês que vem,

(...) a batalha em solo já é tão intensa, e o pedido de mais armas [para a oposição] já tão declarado, que alguém mais cético deve começar a perguntar-se se as conversações de Genebra chegarão mesmo a acontecer.

O acordo ostensivo de Washington à iniciativa de Moscou sobre conversações de paz é só mais uma tática, para fazer avançar o projeto estratégico dos EUA na região, o mesmo projeto buscado mediante os ataques ao Iraque, Afeganistão, Líbia e, agora, à Síria. Por trás das lágrimas de crocodilo sobre as baixas entre civis, o objetivo dos EUA é sempre o mesmo que se vê subjacente à irrupção do militarismo norte-americano, há 12 anos: afirmar, por meios militares, o controle hegemonista sobre as reservas estratégicas de energia ambicionadas por potências rivais, especialmente Rússia e China.

Como o demonstra a evolução da guerra “por procuração” que os EUA travam na Síria, a sempre mesma intervenção militar predatória dos EUA aponta diretamente para conflagração mais ampla e catastrófica, que ameaça o mundo não só com uma guerra contra o Irã, mas, também, com confrontação com Rússia e China.