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quinta-feira, 19 de abril de 2012

Experimentar, experimentação*



15/4/2012, Judith Revel, UniNomadE 2.0
Traduzido e enviado pelo pessoal da Vila Vudu


Judith Revel
Se o tema da “experiência” sempre foi objeto de alentados debates teóricos, e se a palavra é reconhecida como parte do vocabulário da filosofia, a noção de “experimento, experimentação” é por muitos motivos muito menos fácil de usar – salvo quando se refere àquele tipo de interrogação filosófica específica, epistemológica, que analisa os modos de funcionamento e as práticas científicas. Mas o que acontece quando se tenta introduzir uma noção como a de “experimento, experimentação”, na reflexão política? 

Para o senso comum, uma política digna do nome é quase sempre o exato oposto do que poderia implicar a experimentação, se a experimentação – bem longe do significado que tem para a pesquisa científica, onde se refere a um eficaz mecanismo de validação e/ou invalidação das hipóteses – é, ao contrário, uma tentativa, uma sondagem, um bricolage. Em resumo: é como o passo incerto de quem avança, tateante, sobre terreno desconhecido, tentando ver melhor até que ponto seria realmente possível aventurar-se. 

Por que temos tanta dificuldade para imaginar que a reflexão e a prática política podem ser objeto de experimentação? E, se pudesse acontecer, o que seria, de fato, um experimento, uma experimentação? 

Nossa incerteza deriva, provavelmente, do fato de que a experimentação tenha ficado prisioneira de uma velha ideia, em virtude da qual temos sempre de reconhecer nossos limites: para bem agir, é preciso antes de tudo, conhecer; e para conhecer, é preciso ter traçado uma linha de separação entre o que nos foi concedido possuir pela consciência, e o que, ao contrário, de modo algum pode ser posto como objeto. 

Quantas vezes consideramos a experimentação como espécie de refugo do que seria “racional” e denunciamos o idealismo, o irrealismo. Fizemos isso em nome de um pragmatismo que logo se converteu em senso comum daquela economia de homens e mulheres que se chama “a arte de governar”. Denunciamos a experimentação como risco inútil, como por em perigo nossas certezas mais necessárias, como a subversão de uma ordem que pré-estabelecemos: por que andar tateando, onde nos podemos apoiar na presença que nos dá segurança, das referências, das linhas, das redes conceituais e dos pontos fixos? Em resumo: fizemos da experimentação o exato oposto do que é geralmente imposto como objeto da política: uma boa gestão das coisas existentes, ou, em outras palavras, uma aceitação baseada nas necessidades do mundo. Demos aos cientistas a tarefa de experimentar no campo da pesquisa fundamental, mas o fizemos de tal modo que nossa existência concreta – ficasse, paradoxalmente, protegida.

A separação das três perguntas: “o que posso conhecer?”, “o que devo fazer?” e “e o que me é dado esperar?”, tão familiares aos leitores de Kant, continua a irrigar o pensamento contemporâneo. Conhecer, agir e esperar implicam três distintos espaços de reflexão. Pois tentemos pensar na direção contrária. Conhecer, agir, esperar: embora não queiramos que se sobreponham, a disjunção entre as três aponta, precisamente, como numa imagem em negativo, a longa via – mas sempre possível – da experimentação política; porque, se a experimentação ainda pode ter algum sentido para a pólis, é exatamente esse: conhecer, agir, esperar, num só gesto; saber, modificar e inventar juntos.

Michel Foucault, no fim da vida, voltou ao sonho louco de fazer valer na nossa vida – quer dizer, tanto na prática da filosofia como nos gestos cotidianos a partir dos quais construímos nossa existência – exatamente essa experimentação. E o fez, num jogo muito irônico, em comentário a um texto de Kant.

Mas não do Kant das três Críticas; e, sim, de um texto em que Kant, fascinado pela incisiva ruptura que representava, na metade dos 700, o pensamento das Luzes, tentava dizer, a seu modo, o que o século estava tentando inventar.

“O que é o Iluminismo?” [1], o texto kantiano, data de 1784, cinco anos antes da Revolução Francesa. Duzentos anos depois, em 1984, Foucault, leitor de Kant, descobre o enorme valor daquele texto, no momento em que fora escrito: a tentativa de ler, no momento presente, alguma coisa de inaugural e de nova – a Razão chegada afinal à sua maturidade. Mas ele também lerá (e, provavelmente, tanto quanto discerne) a esperança de uma experimentação política, de uma exploração dos possíveis, de um desejo de liberdade selvagem (farouche) além das constrições e das determinações que a época, apesar de tudo, impõe.

Essa experimentação é aquela que o próprio Kant, depois do tumulto de 1789, quase 15 anos depois do primeiro texto, caracterizará como um desejo de revolução, quer dizer, ao mesmo tempo como uma disposição de toda a humanidade e como uma novidade irredutível às determinações históricas nas quais a revolução se dá: “não se esquece de um tal fenômeno na história da humanidade, porque revelou na natureza humana uma tal disposição, uma tal faculdade de progresso, que nenhuma política havia podido, nem com a máxima sutileza, deduzir do curso precedente dos eventos” (I. Kant, O Conflito das faculdades  [2]).

A revolução experimenta, enquanto avança tateante e abre vias inéditas. E quando ocorre de “cair na rotina” – imagem do próprio Kant; e mesmo que derive ou fracasse conscientemente, ainda assim testemunha a potência dos homens e mulheres para inventar, de dentro do próprio mundo.

A experimentação é precisamente esse questionar o campo atual dos possíveis. Bem distante da utopia – que não trabalha por dentro do “já dado” das coisas presentes –, a experimentação tenta a aposta, ao mesmo tempo em que analisa o que é, e tenta sua transformação radical. Não se trata nem de reduzir-se ao mero registro das necessidades sofridas de um mundo, nem de sonhar com outro mundo: trata-se de mudar esse mundo que há.

Uma política da experimentação é portanto a antípoda da renúncia (da qual o pragmatismo não passa, muito frequentemente, de bela máscara). Tampouco tem algo a ver com os sonhos estéreis de volta a um Éden perdido, ou da variante que promete “um futuro risonho” ou um “luminoso porvir” – em resumo, nada tem a ver com horizontes inalcançáveis e por isso sempre voltam.

Se tem de ser posta em prática, essa prática experimental da política “não deduzirá das formas do que somos o que é impossível fazer ou conhecer; mas libertará da contingência o que fez ser o que somos, a possibilidade de não o ser mais – não o fazer mais, não o pensar mais – o que somos, fazemos ou pensamos” (M. Foucault, O que é o Iluminismo? [3]). Em resumo, é uma atitude nas fronteiras do mundo, que faz de cada homem aquele que, ao mesmo tempo, diagnostica a própria situação, cartografa as próprias determinações e inventa uma diferença possível.

Assim, a política é em grande parte requalificada e pode-se quase usar os termos que Foucault usa a propósito da atitude crítica em Kant, no momento em que a crítica reveste a história: “é preciso não concebê-la como uma teoria, uma doutrina, sequer como um corpo permanente de saber que se acumula; é preciso concebê-la como uma atitude, um ethos, uma vida filosófica na qual a crítica do que somos é a própria análise dos limites postos e a tentativa de sua superação possível”.

A política como experimentação não é outra coisa que esse duplo movimento de busca e de individuação das formas e do estado presente das coisas, por um lado; e, por outro, da invenção de possíveis inéditos. Certo, a experimentação não exclui nem os erros nem os fracassos – mas a simples aceitação do que é sempre nos preserva dos horrores da história, nessa beira do tempo durante o qual, a qualquer momento, homens e mulheres, embora construídos pela história, tornam-se atores da história.

Hoje, a experimentação política está no coração de uma série de realidades, que, cada uma a seu modo, dizem da força da intuição kantiana e confirmam a justeza da análise de Foucault. Posto que a história não é imóvel, a gramática e as instituições políticas da modernidade estão em plena mudança.

Tudo se move: o conceito de cidadania e a realidade material das fronteiras nacionais, a própria representação política como cimento da democracia moderna e as formas “alargadas” da ação política coletiva (partidos e sindicatos), o sentimento de pertencimento e a definição do que chamamos de “esfera pública”, a extensão da governança estatal até espaços que teríamos provavelmente considerado, até há poucos anos, como esfera exclusiva do privado, e a emergência, bem além de qualquer simples divisão entre público e privado, de uma nova qualidade para todos os bens – nem estatais, nem privados, nem públicos, mas comuns.

Há de tudo para ser reinventado, a partir de dentro de um mundo que foi formado por quatro séculos de modernidade e que continua, ainda agora, em grande parte, moderno. Do recente fenômeno dos “indignados”, aos diferentes movimentos Occupy, das experimentações de democracia participativa às mais variadas formas de coletivos – usuários de serviços, moradores de quarteirão, trabalhadores, sem-documentos, sem-teto, sem-terra, defensores do meio ambiente... – e da copropriedade, tudo incita a repensar as vias da ação política: como tomar a palavra, como fazer-se ouvir e como ouvir os outros, como organizar-se, como tomar decisões, como fazer-se entender, como agir, como administrar uma relação de forças.

Por isso é preciso pensar hoje a experimentação: com certeza é um tatear, e muito claramente é um bricolage; mas nunca sem antes, em primeiro lugar, ter analisado localmente, pontualmente, aquilo de que se trata; nunca antes de haver compreendido de que era feito o mundo, para que se possa construir outro.

Desse ponto de vista, a experimentação é o contrário da política como sistema: faz ninho nas pequenas coisas, constrói-se de baixo para cima, ensaia e recomeça, gagueja e aprende, partilha e arrisca-se, corrige-se e reforça-se; e os seus efeitos de realidade são muito menos importantes que aquilo de que a experimentação dá testemunho: o que Foucault chamava, em tom divertido, de “o trabalho indefinido da liberdade”.



Nota de rodapé
*BRUGÈRE, F.; LE BLANC G., Dictionnaire politique à l’usage des gouvernés [Dicionário político para uso dos governados], Paris: Bayard, 2012, 505 pp.

Notas dos tradutores
[2] Pode ser lido em: O CONFLITO DAS FACULDADES
[3] Pode ser lido em: Foucault - O que é o Iluminismo

domingo, 14 de agosto de 2011

O comum em revolta

Judith Revel

12 /8/2011, Judith Revel e Toni Negri, Uninomade
(dica do Bruno Cava)
Traduzido, do inglês,  pelo Coletivo da Vila Vudu

Não era preciso muita imaginação, depois que a análise da atual crise econômica foi trazida de volta às suas causas e efeitos sociais, prever revoltas populares semelhantes a jacqueries [1]. Commonwealth [2], em 2009, já previra. O que não se esperava, ao contrário, é que na Itália a previsão fosse rejeitada no movimento. Seria previsão, como nos disseram, velha. Em vez disso, disseram, “é hora de reconstruir frentes amplas contra a crise e estabelecer, dentro dos movimentos, formas de organização-comunicação-reconhecimento para tratar da representação política”. 

Ora, mesmo assim estamos aí, face a face com movimentos que se expressam, eles mesmos, em formas insurrecionais mais ou menos clássicas e estão por toda parte, detonando a velha gramática geopolítica por cujos termos ainda há quem teime em continuar pensando. O que temos, pois, é o seguinte:

Toni Negri
1) Um novo proletariado, feito de trabalhadores precários e de desempregados, que se une à classe média em crise. São sujeitos diversos que se unem na luta, por vias não usuais, exigindo, como nos países do sul mediterrâneo, formas de governo novas, mais democráticas. As ditaduras políticas dos Ben Alis e a ditadura político-econômica das farsas democráticas em que vivemos podem não ser equivalentes – apesar de, durante décadas, as segundas terem acuradamente construído, apoiado e protegido as primeiras –, mas agora a urgência de democracia radical aparece por todos os lados, e marca um comum de lutas que emerge de diferentes pontos, misturando-se e se entretecendo, umas lutas alimentando as exigências das outras

2) As mesmíssimas forças sociais, os que sofrem com as crises em sociedades com relacionamentos de classes hoje já definitivamente controlados por regimes financeiros dentro de economias manufatureiras e/ou cognitivas, movem-se em diferentes territórios (primeiro, movimentos de trabalhadores, estudantes e do precariato em termos mais gerais; agora já complexos movimentos sociais do tipo dos “acampados”) com igual determinação.

3) O ressurgimento de movimentos de pura recusa é atravessado por uma composição societal tão complexa como sempre, estratificada verticalmente (i.e. as classes médias deslizando para o proletariado excluído) e horizontalmente (i.e. em relação a diferentes setores das metrópoles, divididas entre a gentrificação e – como noticia Saskia Sassen – zonas “brasileirizadas”[3], onde as disputas entre gangues já começa a deixar marcas de balas de metralhadoras AK-47 em paredes de áreas nas quais a única – dramática, entrópica – modalidade de luta organizada é o crime organizado).

As atuais revoltas na Inglaterra incluem-se nesse terceiro tipo e são bastante semelhantes às que, há algum tempo, afetaram os banlieues (subúrbios) de Paris: uma mistura de raiva e desespero, fragmentos de auto organização e cristalizações de outros tipos (associações de vizinhos, redes de solidariedade, torcidas de clubes de futebol etc.) expressando agora a insuportabilidade de vidas em ruínas. As ruínas, com certeza desestabilizadoras, que essas revoltas deixam atrás de si não são, afinal, muito diferentes das ruínas de que são feitas as vidas diárias de tantos homens e mulheres: são retalhos e restos de vida, de um modo ou de outro.

Como se pode abrir uma discussão desses complexos fenômenos, do ponto de vista que pensa o comum? O que adiante se lê é apenas registro de uma intenção de abrir um espaço para discutir.

Em primeiro lugar e antes de tudo, parece-nos que temos de deslocar algumas interpretações que a imprensa de massa das classes governantes jogou em campo.

Aquela imprensa diz, para começar, que os movimentos que estamos discutindo têm de ser considerados, de um ponto de vista político, em sua “radical” diversidade. Ora, é óbvio que esses movimentos são politicamente diversos. Mas insistir em que sejam “radicalmente” diversos é, simplesmente, tolice. 

Esses movimentos absolutamente não são ditos “radicais” por se oporem a Ben Ali ou outros ditadores, seja qual for, ou porque denunciem a traição política de Zapatero ou Papandreou, ou porque odeiem Cameron ou não aceitem as imposições do Banco Central Europeu. Os movimentos são ditos “radicais”, na imprensa, isso sim, porque todos eles recusam-se a pagar pelas consequências da economia e da crise (Nada poderia haver, de mais errado, que considerar a crise uma catástrofe que acometeu um sistema econômico fundamentalmente sadio; nada mais terrível que a nostalgia da economia capitalista de antes da crise!), o que é o mesmo que dizer que os movimentos são ditos “radicais” porque se opõem ao vasto movimento de riquezas que ocorre hoje em benefício dos poderosos, organizados como estão sob as formas políticas dos regimes ocidentais (democráticos ou ditatoriais, conservadores ou reformistas, pouco muda...).

São revoltas nascidas, no Egito, na Espanha ou na Inglaterra, da recusa à sujeição, à exploração e ao saque que essa economia preparou para a vida de vastas populações em todo o mundo, e, simultaneamente, é recusa às formas políticas mediante as quais a crise dessa expropriação biopolítica vinha sendo gerenciada. 

Isso vale também para os regimes chamados “democráticos”. Essa forma de governo só parece preferível pela aparente “civilidade” com que mascara o ataque à dignidade e à humanidade das vidas que esmaga. Mas o ‘ponto de fuga’ da representação política também já está à beira do colapso.

Argumentar que haveria – pelos critérios da democracia ocidental – diferenças radicais entre a representatividade na Tunísia de Ben Ali e na Tottenham ou Brixton de Cameron é, simplesmente, não ver as evidências: a vida foi tão violada e depauperada nos dois casos, que a única via que restou foi a explosão num movimento de revolta. Para nem falar dos mecanismos de repressão, que estão arrastando a Inglaterra de volta aos tempos da acumulação primitiva, às prisões de Moll Flanders e às fábricas de Oliver Twist. 

Ao lado dos cartazes com fotos dos jovens rebelados colados nas paredes e postes e exibidos em telões nas cidades inglesas, é preciso colar também fotos em tamanho gigante das carrancas suínas (variante dos PIGS – Portugal, Itália, Grécia e Espanha, economias do sul da Europa devastadas pela crise?) dos banqueiros e chefões das corporações financeiras que converteram comunidades inteiras em “bandidos procurados” e, simultaneamente, viram seus lucros engordarem ainda mais com a crise.

Voltemos aos jornais. Os jornais também dizem que essas revoltas são diferentes, de um ponto de vista ético-político. Haveria revoltas legítimas, como nos países do Maghreb, porque ali a corrupção de ditaduras gerou as condições de miséria. Os protestos de estudantes italianos ou dos “indignados” espanhóis ainda seriam compreensíveis, porque “é ruim ser precário”. Mas as revoltas do proletariado inglês ou francês, essas, seriam “criminosas” porque supostamente definidas por saqueio de propriedade alheia, vandalismo e ódio racial.

Tudo isso é falso, porque essas revoltas – apesar de todas as diferenças que há entre elas, que não negamos – têm uma natureza comum. Não são revoltas “de jovens”, mas revoltas que entendem as condições políticas e sociais que, cada dia mais, vastas camadas da população consideram absolutamente insuportáveis. A degradação do salário social e do trabalho foi além do limite que economistas clássicos e Marx identificaram como o mínimo necessário para a reprodução dos trabalhadores, que chamavam “salário de necessidade”. Os jornalistas, agora, se puderem, que digam que aquelas lutas foram geradas por excessos e desmandos do desejo de consumir!

Já temos aqui uma primeira conclusão. Esses movimentos podem ser definidos como “recomposicionais”. Eles realmente penetram nas populações – sejam de trabalhadores “com carteira assinada” pelo menos até hoje, sejam trabalhadores precários, desempregados ou os que até hoje só encontraram empregos irregulares, improvisações e atividades “não contabilizáveis” – exaltando seus momentos de solidariedade nas suas lutas contra a destituição.

Classes médias em declínio e o proletariado, migrantes e não migrantes, trabalhadores manuais e cognitivos, aposentados, donas de casa e jovens estão unidos na miséria e na luta contra ela. Afinal encontraram condições para uma luta em que se apresentam unidos.

Em segundo lugar, é imediatamente visível (e é o que mais aterroriza os que veem características de consumismo nesses movimentos) que não são movimentos nem caóticos nem niilistas, que não queimam e saqueiam “porque-sim”, que não querem simplesmente reforçar a potência destrutiva de algum tipo de “futuro zero”. 40 anos depois do movimento punk (que, por sua vez, apesar dos estereótipos, foi apaixonadamente produtivo), as revoltas de hoje não declaram o fim, registrado e internalizado, de todos os futuros: as revoltas de hoje querem construir o futuro. 

Eles sabem que a crise que hoje os afeta não se deve ao fato de o proletariado não produzir – seja em condições de emprego e patrão, seja na condição geral de cooperação social por processos transversais de captura de valores – ou de não produzir em quantidade suficiente; eles sabem que o que está acontecendo acontece porque o fruto de sua produtividade lhes está sendo roubado; o que é o mesmo que dizer que sabem que são forçados a pagar por uma crise que não é deles; que já pagaram pela assistência médica, aposentadorias e sistemas de ordem pública... Enquanto a burguesia acumulava para a guerra e para a expropriação, aumentando seus lucros. Mas, sobretudo, eles sabem que não há caminho para sair dessa crise, até que eles mesmos, os revoltosos e rebeldes, assumam o comando dos mecanismos de poder e das relações sociais que regulam aqueles mecanismos. 

Mas, dirá alguém, esses movimentos não são políticos. Mesmo que – os críticos acrescentam – expressem posições politicamente corretas (como aconteceu em movimentos no norte da África ou nos “indignados” espanhóis), esses movimentos são preconceituosos ou rebeldes contra a ordem democrática.

Claro, diremos nós: é difícil, senão impossível, encontrar, na ordem política atual, passagens e vias pelas quais possa passar algum projeto que ataque as políticas atuais e supere a crise. Direita e esquerda são, quase sempre, idênticas. Para a direita, o imposto sobre a riqueza deve atingir ganhos de 40-50 mil euros; para a esquerda, de 60-70 mil euros: será essa a diferença? Defender a propriedade privada, ampliar as privatizações e a liberalização são itens das agendas dos dois lados. Os sistemas eleitorais estão hoje reduzidos a pura e simples seleção de delegados dos estratos privilegiados e tal e tal e tal e tal. 

As revoltas hoje atacam tudo isso: são ou não são revoltas políticas? 

São movimentos, sim, políticos, porque se posicionam em terreno constituinte, não em terreno de ‘reivindicar’. Atacam a propriedade privada porque a reconhecem como a forma do que os oprime; e insistem em constituir e autogerir a solidariedade, o bem-estar social, a educação – numa palavra, o comum, porque esse é, hoje, o horizonte para novas e velhas potências.

Evidentemente não somos estúpidos o suficiente para supor que essas revoltas produzam automaticamente novas formas de governo. O que, contudo, essas revoltas ensinam é que “o uno está cindido em dois”, que a aparente solidez compacta do capitalismo já não passa de velha fantasmagoria, que de modo algum será reunificada, que o capital é sempre esquizofrênico e que a política dos movimentos só pode localizar-se nessa fratura.

Esperamos que os camaradas que acreditavam que as insurreições fossem ferramenta fora de moda da política autonomista consigam refletir sobre o que está acontecendo. Não será por nos consumir à espera de prazos parlamentares e regimentais, mas por inventar instituições constituintes para o comum em revolta, que poderemos compreender juntos o que está por vir.



Notas dos tradutores
[1] Jacqueries ou revolta dos Jacques, foram insurreições camponesas que houve no norte da França, entre 28 de Maio e 9 de Janeiro de 1358, durante a Guerra dos Cem Anos. A designação deriva de Jacques Bonhomme, expressão idiomática francesa, de conotação paternalista, que designava genericamente um camponês e que posteriormente foi usada pejorativamente, equivalendo a "joão-ninguém". A revolta iniciou-se de forma espontânea, reflectindo a sensação de desespero em que viviam as camadas mais pobres da sociedade, depois da Peste Negra, numa altura em que a França se encontrava num vazio de poder e à mercê das companhias livres, bandos de mercenários renegados que vagueavam pelo país”.
[2] Hardt, Michael and Antonio Negri. 2009. Commonwealth. Cambridge, MA: Harvard University Press.
[3] SASSEN, Saskia (1998). Globalization and its Discontents. New York: The New Press.