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domingo, 18 de setembro de 2011

O outono árabe: “3 grandes desafios para os levantes árabes”


17-18/9/2011, Esam Al-Amin, Counterpunch 
(ed. fim de semana)
(do autor, distribuído para tradução em todo o mundo, pela Rede Internacional Tlaxcala de Tradutores)
Esam Al-Amin comunica-se pelo endereço: alamin1919@gmail.com

Com a queda do quartel-general de Muammar Gaddafi em Bab Al-Aziziyyah em Trípoli, dia 23/8, a Líbia tornou-se o terceiro país em que o ditador de muitos anos foi deposto, depois da Tunísia e do Egito, onde caíram Zein-al-bedin Ben Ali e Hosni Mubarak, no início do ano.

Atentado fracassado para matar Ali Abdullah Saleh do Iêmen, dia 3/6, manteve mais esse ditador fora do país, recuperando-se de ferimentos, na Arábia Saudita. Simultaneamente, ampliaram-se as manifestações pacíficas de dezenas de milhares de iemenitas em várias cidades e províncias do país, exigindo que parentes e protegidos de Saleh deixassem o governo.

Na Síria, Bashar Al-Assad resiste há mais de seis meses, enfrentando protestos populares diários e mantém-se no poder para salvar seu regime cada dia mais enfraquecido e isolado.

Apesar disso, os levantes populares que varreram grande parte do mundo árabe, enfrentam três dificuldades cruciais. Como os diferentes lados em cada cenário político lidarem com essas questões cruciais determinará o futuro de suas respectivas sociedades, que passam por revoluções populares genuínas e mudanças nas lideranças, pela primeira vez em décadas.

Problemas prevalentes que em geral acompanham grandes agitações sociais, como caos político, relativa insegurança, corrupção endêmica e graves dificuldades econômicas na vida diária são sintomas de questões maiores. Não podem ser efetivamente enfrentadas até que se resolvam os grandes desafios nacionais.

Embora cada país viva suas próprias condições locais e circunstâncias específicas, há vários fatores comuns nos levantes da primavera árabe. Há, especialmente, três principais desafios intrincados que persistem nas revoltas árabes desde o início.

1. Os revolucionários não chegaram ao poder

São raras as revoluções populares, porque enfrenta a tarefa gigantesca de estabelecer uma nova ordem política e socioeconômica na sociedade, baseada na vontade do povo.

Revoluções bem sucedidas em geral dão poder aos revolucionários para instituir a nova ordem, primeiro mediante o desmonte da ordem velha, com desenraiza mento de seus apoiadores e aderentes. As revoluções America, francesa, soviética, cubana e iraniana são bons exemplos de sistema que foi realmente deixado para trás, limpado de seus remanescentes e substituído por nova ordem.

Mas as revoluções tunisiana e egípcia foram abortadas. Pouco antes de terem realmente conseguido derrubar os ditadores, nos dois países as alavancas do poder foram assumidas por gente que, ou participara do antigo regime ou não abraçara com suficiente espírito de compromisso os objetivos das revoluções populares.

Na Tunísia, por exemplo, partidários e afilhados de Ben Ali ou de seu predecessor Habib Bourgiba mantiveram o controle da vida política, e em algumas instâncias ainda viram aumentar o seu poder. Apresentam-se, apesar dos currículos tenebrosos, como salvadores da revolução popular. Assim, muitos dos funcionários associados ao execrado ministro do interior e à polícia secreta mantiveram os postos e reorganizaram seus feudos.

No Egito, o Conselho Supremo das Forças Armadas [ing. Supreme Council of the Armed Forces (SCAF)] repaginou-se e apresentou-se como salvador da revolução; mas, à medida que foi assumindo o controle do país, muitos dos revolucionários e das demandas populares foram ou adiadas ou instituídas com muita relutância, sempre sob intensa pressão das ruas.

Ao tomar o poder, depois da renúncia forçada de Mubarak, o conselho militar prometeu período de transição de não mais de seis meses, depois do qual haveria eleições livres e limpas. Desde então, as eleições já foram duas vezes adiadas, e agora não há data prevista para eleições parlamentares ou presidenciais.

Mas, desde março, mais de 12 mil civis já foram julgados em julgamentos sumários, em tribunais militares, muito mais, até, do que Mubarak jamais fez durante trinta anos de ditadura (a ditadura de Mubarak mandou no máximo mil casos para julgamento por tribunais militares). O Comissário de Direitos Humanos da ONU criticou duramente esses tribunais militares, exigindo que o comando das SCAF ordenasse que, pelo menos metade dos casos fossem julgados em tribunais civis, não secretos.

Num episódio recente, milhares de jovens egípcios foram à rua, exigindo manifestação adequada das SCAF, no caso do assassinato, por israelenses, de cinco soldados egípcios na fronteira Gaza-Egito. Os manifestantes denunciavam que os assassinatos foram resultado de as Forças Especiais terem-se posicionado a favor de Israel e EUA, ignorando a opinião pública egípcia; e que a resposta militar foi idêntica à que se via nos tempos de Mubarak.

Em fúria, os manifestantes atacaram a embaixada de Israel no Cairo, pondo abaixo o muro de contenção, chegando à entrada principal do prédio e pondo fogo à bandeira israelense que ali encontraram. No mesmo ataque, a multidão tomou posse de milhares de documentos que expuseram o grau de cooperação entre os dois países em questões sensíveis e políticas impopulares, como a manutenção do cerco e do bloqueio de Gaza durante o governo de Mubarak. Como resposta a essa manifestação, as Forças Especiais anunciaram a reimplantação das temidas leis de emergência, da segurança, que preveem ataques massivos contra a multidão e longas penas de prisão.

Consequência disso, muitos partidos políticos, movimentos sociais e os principais candidatos à presidência do Egito, alarmados e ofendidos pela ação das Forças Especiais, ameaçaram levar milhões de manifestantes às ruas, a menos que as leis de emergência fossem suspensas e se anunciassem eleições.

Em resumo, revoluções são mudanças fundamentais na estrutura política e nas relações de poder no país, além de determinar que recursos sejam partilhados dentro da sociedade. Não se pode falar de revolução se só mudam algumas personalidades e algumas modalidades de ação.

Até agora, só se viram mudanças cosméticas e superficiais. A menos que os que lideraram as revoluções árabes, com sacrifício de seu sangue e da própria vida, sejam eleitos e cheguem legitimamente ao poder, para liderar as reformar e responder com eficácia às exigências populares, não se pode falar de mudanças genuínas.

2. O papel do Islã na sociedade 

No calor da luta pra derrubar os regimes, em cada caso, a tensão entre os movimentos islâmicos, por um lado, e as tendências seculares e liberais, por outro lado, permaneceu encoberta sob a superfície, com todas as oposições políticas unidas no objetivo de derrubar cada ditadura, em cada caso. Mas, derrubados os regimes, reemergiram velhas rivalidades, e os debates ideológicos reemergiram, gerando discordâncias e desconfianças.

Ao longo de anos, secularistas e liberais temeram que os movimentos políticos islamistas visassem a impor um estado religioso, e não dessem real importância aos princípios democráticos, por mais que falassem a favor deles. Enquanto muitos islâmicos afirmam seu compromisso com a democracia, ao mesmo tempo não deixam de acusar os opositores de preservar, como agenda oculta, a convicção de que candidatos que se apresentassem como seculares e democráticos não passassem de candidatos antirreligião e fantoches da propaganda pró-ocidente.

Essa desconfiança entre os dois lados, no Egito, cresceu tanto, que em vários casos houve graves acusações públicas dos dois lados, com grupos pregando o boicote a manifestações populares dos adversários.

O campo secular e liberal crê que os grupos islamistas sejam muito mais organizados, mais bem posicionados para vencer eleições e, assim, para fazer aprovar uma nova constituição pró-islamista. Consequentemente, iniciaram uma campanha para conseguir que as Forças Especiais emitam um decreto que se sobreponha a qualquer futura constituição, com vistas a garantir que certos princípios não sejam feridos.

Esse decreto, dito “superior à constituição”, visa a garantir que a constituição não possa jamais ser alterada. Querem também que o exército sirva como ‘protetor’ do estado contra qualquer risco de a religião invadir os negócios oficiais, mais ou menos como na Turquia, onde o exército desempenhou papel semelhante ao longo de toda a segunda metade do século 20.

O campo islâmico argumenta que haver princípios considerados “superiores à constituição” já é, só isso, prática antidemocrática. Muitos dos líderes religiosos insistem em que buscam construir estado civil, com constituição moderna e democrática, que consagre o pluralismo e os direitos civis básicos.

Apesar de os dois campos concordarem com que a Xaria deve ser a fonte básica da legislação, há diferenças de opinião sobre como esse princípio deva ser aplicado de fato, e com a amplitude de interpretação que se possa admitir, na ‘releitura’ dita ‘democrática’ da Xaria. Também na Tunísia ouvem-se discussão e pronunciamentos semelhantes, enquanto o país prepara-se para eleger uma assembleia encarregada de redigir a futura constituição do país.

Na Líbia, na luta armada entre o Conselho Nacional de Transição [ing. National Transitional Council (NTC)] e os partidários do regime de Gaddafi, os dois grupos, os seculares pró-ocidente e os campos islâmicos, cooperaram na luta para depor Gaddafi. E os dois lados lutaram juntos, durante meses, contra os soldados fiéis a Gaddafi, apesar de, internamente, nada haver que aproximasse aqueles estranhos aliados contra Gaddafi.

Os islamistas líbios acusam os secularistas pró-ocidente reunidos no Conselho Nacional de Transição de estar negociando com os países da OTAN, contra os interesses nacionais líbios. Acusam-nos também de conspirarem contra, afinal, a própria Líbia. Em julho passado, por exemplo, o comandante militar pró-secularistas da oposição líbia, general Abdelfattah Younis, foi assassinado por seus comandados de orientação islâmica, em retaliação a uma alegada associação entre o comandante e a OTAN, para atacar os grupos armados de orientação religiosa.

Falando sob condições de anonimato, veterano oficial líbio recentemente indicado como representante do Conselho Nacional de Transição num importante país europeu, afirmou que Younis costumava dar à OTAN as coordenadas das posições de membros de seu próprio contingente, para que fossem bombardeados, por considerá-los “islâmicos demais”.

Por isso, em muitas instâncias, a OTAN várias vezes declarou ter bombardeado ‘alvos errados’; esses erros podem não ter sido simples erros técnicos, mas alvos deliberadamente atacados, indicados por informações viciadas de inteligência. O mesmo veterano oficial líbio diz que mais de 70% dos ‘rebeldes’ líbios que combateram em campo são islamistas que absolutamente não apóiam a intervenção pela OTAN e forças estrangeiras na Líbia.

Imediatamente depois da queda de Trípoli, essa disputa veio à tona, quando o primeiro-ministro de facto, Mahmoud Jibril, admitiu que o Conselho Nacional de Transição não tinha pleno controle sobre seus grupos armados. Ao mesmo tempo, Sheikh Ali Sallabi, importante e respeitado líder religioso, exigiu que Jilbril e vários de seus colegas ministros renunciassem, inclusive os ministros das finanças, das comunicações e do petróleo. Todos foram acusados de serem corruptos, trabalhando a favor da ganância ocidental, que estariam “roubando a revolução líbia”.

Por sua vez, o principal comandante militar da Brigada de Trípoli, Abdel Hakim Belhaj, e Ismail Sallabi, de Benghazi, encarregados, respectivamente, da segurança e defesa dessas duas principais cidades, foram acusados por oficiais da OTAN de serem islâmicos antiocidente. Belhaj, como se sabe, foi vítima de uma das “entregas extraordinárias” da CIA (a CIA entregou prisioneiros seus a serviços secretos estrangeiros para serem interrogados [torturados] fora de território dos EUA); Belhaj foi preso pelos EUA e entregue ao serviço secreto da Líbia, e torturado, durante o governo Bush.

Em entrevista recente, o secretário da OTAN, Anders Fogh Rasmussen, alinhou-se, como era de esperar-se que fizesse, com os liberais pró-ocidente, manifestando preocupação com a possibilidade de “extremistas islâmicos” tentarem “aproveitar-se da situação” na Líbia. Sentimentos e preocupações semelhantes apareceram contra os levantes populares no Iêmen, Síria e Bahrain.

Mas o papel do Islã nessas sociedades não deveria ser fonte de tensão e discórdia entre grupos políticos. O Islã, como religião e cultura, sempre teve papel de destaque na modelagem da identidade e da história da região, há mais de mil anos. Essa herança e esse legado sempre terão papel significativo na modelagem do futuro político na região, presente na natureza democrática do estado civil.

Assim, no que tenha a ver com alcançar os objetivos das revoluções árabes, os dois campos políticos devem comprometer-se com os princípios do governo democrático e respeitar o desejo do povo, sem que um grupo tente impor sua visão ao outro.

3. O papel das potências estrangeiras 

Não há dúvidas de que a Primavera Árabe colheu de surpresa o ocidente. Nos primeiros dias dos levantes na Tunísia e no Egito, os EUA e a Europa apoiaram os ditadores que lá havia, antes de, pouco convincentemente, passar a manifestar apoio aos que lutavam para derrubá-los.

Na Líbia, o ocidente rapidamente posicionou-se contra Gaddafi, tentando aproveitar a oportunidade e empurrar a revolução na direção de implantar-se lá um regime favorável ao ocidente, em país riquíssimo em recursos naturais. Simultaneamente, potências ocidentais, principalmente os EUA, movimentaram-se nos bastidores, com a Arábia Saudita e outros países do Golfo, tentando salvar a ditadura de Saleh, protegendo-o contra as massivas manifestações de protesto que agitavam todo o Iêmen.

Os principais objetivos que sempre moveram as políticas do ocidente contra o Oriente Médio ao longo de 60 anos não mudaram. São elas: (1) controlar o acesso ao petróleo e a outros recursos naturais, aos portos e às fortunas gigantescas de umas poucas famílias do Golfo; (2) garantir proteção militar a política a Israel – nação ocupante e perene causa de insegurança e instabilidade na região; e (3) preservar a estabilidade regional, para assegurar acessibilidade plena aos mercados da região, mercados de compra de armamento e de outros produtos oferecidos por grandes corporações econômicas multinacionais.

Assim sendo, a tentativa, pelo ocidente, de manter as políticas das ditaduras que havia na região, é indiscutível. Quando o governo egípcio levantou o bloqueio de Gaza, em meados de maio, logo surgiram os primeiros senadores e deputados dos EUA, a declarar que a ajuda militar dos EUA poderia ser suspensa, e que estavam ameaçadas as relações EUA-Egito, pressionando o comando militar egípcio a reverter a decisão anterior e voltar a fechar a passagem de Rafah, o que foi feito três dias depois. 

Na decisão de manter a ajuda militar dos EUA ao Egito, o Congresso dos EUA – desconsiderando completamente o desejo do povo egípcio – incluiu uma cláusula humilhante, que exigia que “o secretário de Estado do Egito declare que o Egito não é controlado por organização terrorista estrangeira”, e que declarasse que o Egito “está tomando as providências necessárias para localizar e destruir a rede de contrabando e túneis entre o Egito e a Faixa de Gaza”. Exigiu ainda que o Egito usasse o dinheiro da ajuda militar oferecida pelos EUA “em programas para melhorar a segurança das fronteiras e atividades no Sinai, esperando que os militares egípcios continuem comprometidos com manter e implementar o Tratado de Paz entre Israel e Egito”. 

Na essência, a principal preocupação dos políticos dos EUA e de outros governos ocidentais é saber como manter os países do Oriente Médio presos à órbita de influência dos EUA, e manter controle sobre aquelas economias, como mandam o FMI, o Banco Mundial e as grandes empresas transnacionais. O Congresso dos EUA já previu em orçamento cerca de 120 milhões de dólares para “promover a democracia” no Egito e na Tunísia, dinheiro suficiente para influenciar, com impacto real, o resultado das eleições – o que será interferência direta em assuntos internos de nações soberanas.

A continuação da interferência externa nos negócios internos das nações do Oriente Médio, principalmente nos países nos quais os cidadãos já declararam o que desejam e tomaram as ruas para derrubar ditadores, continuará a indispor a opinião pública, no mundo árabe, contra o ocidente. Por causa dessa interferência sem justificativa democrática, é de duvidar-se que os EUA e outros países ocidentais tenham qualquer respeito ou trabalhem para honrar a vontade do povo árabe e sua luta por liberdade e autodeterminação.

domingo, 14 de agosto de 2011

O comum em revolta

Judith Revel

12 /8/2011, Judith Revel e Toni Negri, Uninomade
(dica do Bruno Cava)
Traduzido, do inglês,  pelo Coletivo da Vila Vudu

Não era preciso muita imaginação, depois que a análise da atual crise econômica foi trazida de volta às suas causas e efeitos sociais, prever revoltas populares semelhantes a jacqueries [1]. Commonwealth [2], em 2009, já previra. O que não se esperava, ao contrário, é que na Itália a previsão fosse rejeitada no movimento. Seria previsão, como nos disseram, velha. Em vez disso, disseram, “é hora de reconstruir frentes amplas contra a crise e estabelecer, dentro dos movimentos, formas de organização-comunicação-reconhecimento para tratar da representação política”. 

Ora, mesmo assim estamos aí, face a face com movimentos que se expressam, eles mesmos, em formas insurrecionais mais ou menos clássicas e estão por toda parte, detonando a velha gramática geopolítica por cujos termos ainda há quem teime em continuar pensando. O que temos, pois, é o seguinte:

Toni Negri
1) Um novo proletariado, feito de trabalhadores precários e de desempregados, que se une à classe média em crise. São sujeitos diversos que se unem na luta, por vias não usuais, exigindo, como nos países do sul mediterrâneo, formas de governo novas, mais democráticas. As ditaduras políticas dos Ben Alis e a ditadura político-econômica das farsas democráticas em que vivemos podem não ser equivalentes – apesar de, durante décadas, as segundas terem acuradamente construído, apoiado e protegido as primeiras –, mas agora a urgência de democracia radical aparece por todos os lados, e marca um comum de lutas que emerge de diferentes pontos, misturando-se e se entretecendo, umas lutas alimentando as exigências das outras

2) As mesmíssimas forças sociais, os que sofrem com as crises em sociedades com relacionamentos de classes hoje já definitivamente controlados por regimes financeiros dentro de economias manufatureiras e/ou cognitivas, movem-se em diferentes territórios (primeiro, movimentos de trabalhadores, estudantes e do precariato em termos mais gerais; agora já complexos movimentos sociais do tipo dos “acampados”) com igual determinação.

3) O ressurgimento de movimentos de pura recusa é atravessado por uma composição societal tão complexa como sempre, estratificada verticalmente (i.e. as classes médias deslizando para o proletariado excluído) e horizontalmente (i.e. em relação a diferentes setores das metrópoles, divididas entre a gentrificação e – como noticia Saskia Sassen – zonas “brasileirizadas”[3], onde as disputas entre gangues já começa a deixar marcas de balas de metralhadoras AK-47 em paredes de áreas nas quais a única – dramática, entrópica – modalidade de luta organizada é o crime organizado).

As atuais revoltas na Inglaterra incluem-se nesse terceiro tipo e são bastante semelhantes às que, há algum tempo, afetaram os banlieues (subúrbios) de Paris: uma mistura de raiva e desespero, fragmentos de auto organização e cristalizações de outros tipos (associações de vizinhos, redes de solidariedade, torcidas de clubes de futebol etc.) expressando agora a insuportabilidade de vidas em ruínas. As ruínas, com certeza desestabilizadoras, que essas revoltas deixam atrás de si não são, afinal, muito diferentes das ruínas de que são feitas as vidas diárias de tantos homens e mulheres: são retalhos e restos de vida, de um modo ou de outro.

Como se pode abrir uma discussão desses complexos fenômenos, do ponto de vista que pensa o comum? O que adiante se lê é apenas registro de uma intenção de abrir um espaço para discutir.

Em primeiro lugar e antes de tudo, parece-nos que temos de deslocar algumas interpretações que a imprensa de massa das classes governantes jogou em campo.

Aquela imprensa diz, para começar, que os movimentos que estamos discutindo têm de ser considerados, de um ponto de vista político, em sua “radical” diversidade. Ora, é óbvio que esses movimentos são politicamente diversos. Mas insistir em que sejam “radicalmente” diversos é, simplesmente, tolice. 

Esses movimentos absolutamente não são ditos “radicais” por se oporem a Ben Ali ou outros ditadores, seja qual for, ou porque denunciem a traição política de Zapatero ou Papandreou, ou porque odeiem Cameron ou não aceitem as imposições do Banco Central Europeu. Os movimentos são ditos “radicais”, na imprensa, isso sim, porque todos eles recusam-se a pagar pelas consequências da economia e da crise (Nada poderia haver, de mais errado, que considerar a crise uma catástrofe que acometeu um sistema econômico fundamentalmente sadio; nada mais terrível que a nostalgia da economia capitalista de antes da crise!), o que é o mesmo que dizer que os movimentos são ditos “radicais” porque se opõem ao vasto movimento de riquezas que ocorre hoje em benefício dos poderosos, organizados como estão sob as formas políticas dos regimes ocidentais (democráticos ou ditatoriais, conservadores ou reformistas, pouco muda...).

São revoltas nascidas, no Egito, na Espanha ou na Inglaterra, da recusa à sujeição, à exploração e ao saque que essa economia preparou para a vida de vastas populações em todo o mundo, e, simultaneamente, é recusa às formas políticas mediante as quais a crise dessa expropriação biopolítica vinha sendo gerenciada. 

Isso vale também para os regimes chamados “democráticos”. Essa forma de governo só parece preferível pela aparente “civilidade” com que mascara o ataque à dignidade e à humanidade das vidas que esmaga. Mas o ‘ponto de fuga’ da representação política também já está à beira do colapso.

Argumentar que haveria – pelos critérios da democracia ocidental – diferenças radicais entre a representatividade na Tunísia de Ben Ali e na Tottenham ou Brixton de Cameron é, simplesmente, não ver as evidências: a vida foi tão violada e depauperada nos dois casos, que a única via que restou foi a explosão num movimento de revolta. Para nem falar dos mecanismos de repressão, que estão arrastando a Inglaterra de volta aos tempos da acumulação primitiva, às prisões de Moll Flanders e às fábricas de Oliver Twist. 

Ao lado dos cartazes com fotos dos jovens rebelados colados nas paredes e postes e exibidos em telões nas cidades inglesas, é preciso colar também fotos em tamanho gigante das carrancas suínas (variante dos PIGS – Portugal, Itália, Grécia e Espanha, economias do sul da Europa devastadas pela crise?) dos banqueiros e chefões das corporações financeiras que converteram comunidades inteiras em “bandidos procurados” e, simultaneamente, viram seus lucros engordarem ainda mais com a crise.

Voltemos aos jornais. Os jornais também dizem que essas revoltas são diferentes, de um ponto de vista ético-político. Haveria revoltas legítimas, como nos países do Maghreb, porque ali a corrupção de ditaduras gerou as condições de miséria. Os protestos de estudantes italianos ou dos “indignados” espanhóis ainda seriam compreensíveis, porque “é ruim ser precário”. Mas as revoltas do proletariado inglês ou francês, essas, seriam “criminosas” porque supostamente definidas por saqueio de propriedade alheia, vandalismo e ódio racial.

Tudo isso é falso, porque essas revoltas – apesar de todas as diferenças que há entre elas, que não negamos – têm uma natureza comum. Não são revoltas “de jovens”, mas revoltas que entendem as condições políticas e sociais que, cada dia mais, vastas camadas da população consideram absolutamente insuportáveis. A degradação do salário social e do trabalho foi além do limite que economistas clássicos e Marx identificaram como o mínimo necessário para a reprodução dos trabalhadores, que chamavam “salário de necessidade”. Os jornalistas, agora, se puderem, que digam que aquelas lutas foram geradas por excessos e desmandos do desejo de consumir!

Já temos aqui uma primeira conclusão. Esses movimentos podem ser definidos como “recomposicionais”. Eles realmente penetram nas populações – sejam de trabalhadores “com carteira assinada” pelo menos até hoje, sejam trabalhadores precários, desempregados ou os que até hoje só encontraram empregos irregulares, improvisações e atividades “não contabilizáveis” – exaltando seus momentos de solidariedade nas suas lutas contra a destituição.

Classes médias em declínio e o proletariado, migrantes e não migrantes, trabalhadores manuais e cognitivos, aposentados, donas de casa e jovens estão unidos na miséria e na luta contra ela. Afinal encontraram condições para uma luta em que se apresentam unidos.

Em segundo lugar, é imediatamente visível (e é o que mais aterroriza os que veem características de consumismo nesses movimentos) que não são movimentos nem caóticos nem niilistas, que não queimam e saqueiam “porque-sim”, que não querem simplesmente reforçar a potência destrutiva de algum tipo de “futuro zero”. 40 anos depois do movimento punk (que, por sua vez, apesar dos estereótipos, foi apaixonadamente produtivo), as revoltas de hoje não declaram o fim, registrado e internalizado, de todos os futuros: as revoltas de hoje querem construir o futuro. 

Eles sabem que a crise que hoje os afeta não se deve ao fato de o proletariado não produzir – seja em condições de emprego e patrão, seja na condição geral de cooperação social por processos transversais de captura de valores – ou de não produzir em quantidade suficiente; eles sabem que o que está acontecendo acontece porque o fruto de sua produtividade lhes está sendo roubado; o que é o mesmo que dizer que sabem que são forçados a pagar por uma crise que não é deles; que já pagaram pela assistência médica, aposentadorias e sistemas de ordem pública... Enquanto a burguesia acumulava para a guerra e para a expropriação, aumentando seus lucros. Mas, sobretudo, eles sabem que não há caminho para sair dessa crise, até que eles mesmos, os revoltosos e rebeldes, assumam o comando dos mecanismos de poder e das relações sociais que regulam aqueles mecanismos. 

Mas, dirá alguém, esses movimentos não são políticos. Mesmo que – os críticos acrescentam – expressem posições politicamente corretas (como aconteceu em movimentos no norte da África ou nos “indignados” espanhóis), esses movimentos são preconceituosos ou rebeldes contra a ordem democrática.

Claro, diremos nós: é difícil, senão impossível, encontrar, na ordem política atual, passagens e vias pelas quais possa passar algum projeto que ataque as políticas atuais e supere a crise. Direita e esquerda são, quase sempre, idênticas. Para a direita, o imposto sobre a riqueza deve atingir ganhos de 40-50 mil euros; para a esquerda, de 60-70 mil euros: será essa a diferença? Defender a propriedade privada, ampliar as privatizações e a liberalização são itens das agendas dos dois lados. Os sistemas eleitorais estão hoje reduzidos a pura e simples seleção de delegados dos estratos privilegiados e tal e tal e tal e tal. 

As revoltas hoje atacam tudo isso: são ou não são revoltas políticas? 

São movimentos, sim, políticos, porque se posicionam em terreno constituinte, não em terreno de ‘reivindicar’. Atacam a propriedade privada porque a reconhecem como a forma do que os oprime; e insistem em constituir e autogerir a solidariedade, o bem-estar social, a educação – numa palavra, o comum, porque esse é, hoje, o horizonte para novas e velhas potências.

Evidentemente não somos estúpidos o suficiente para supor que essas revoltas produzam automaticamente novas formas de governo. O que, contudo, essas revoltas ensinam é que “o uno está cindido em dois”, que a aparente solidez compacta do capitalismo já não passa de velha fantasmagoria, que de modo algum será reunificada, que o capital é sempre esquizofrênico e que a política dos movimentos só pode localizar-se nessa fratura.

Esperamos que os camaradas que acreditavam que as insurreições fossem ferramenta fora de moda da política autonomista consigam refletir sobre o que está acontecendo. Não será por nos consumir à espera de prazos parlamentares e regimentais, mas por inventar instituições constituintes para o comum em revolta, que poderemos compreender juntos o que está por vir.



Notas dos tradutores
[1] Jacqueries ou revolta dos Jacques, foram insurreições camponesas que houve no norte da França, entre 28 de Maio e 9 de Janeiro de 1358, durante a Guerra dos Cem Anos. A designação deriva de Jacques Bonhomme, expressão idiomática francesa, de conotação paternalista, que designava genericamente um camponês e que posteriormente foi usada pejorativamente, equivalendo a "joão-ninguém". A revolta iniciou-se de forma espontânea, reflectindo a sensação de desespero em que viviam as camadas mais pobres da sociedade, depois da Peste Negra, numa altura em que a França se encontrava num vazio de poder e à mercê das companhias livres, bandos de mercenários renegados que vagueavam pelo país”.
[2] Hardt, Michael and Antonio Negri. 2009. Commonwealth. Cambridge, MA: Harvard University Press.
[3] SASSEN, Saskia (1998). Globalization and its Discontents. New York: The New Press.