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segunda-feira, 7 de maio de 2012

“Au Revoir” Sarkozy


O que podemos aprender com a experiência francesa.

Juliana Medeiros
Por Juliana Medeiros

Acompanho com interesse o processo eleitoral na França desde 2007, quando Sarkozy concorreu com Ségolène Royal. Esta, por sinal, ex-mulher do socialista François Hollande, eleito hoje presidente.

Já naquela época me assustou a vitória do presidente Nicolas Sarkozy falando de proteção às “origens e tradições” da França, contra uma candidata que falava em “integração, solidariedade e pluralismo”. 

Pode parecer distante, mas acompanhar os debates entre candidatos na França é uma grande lição para nós brasileiros. Recomendo a quem tiver interesse, buscar os textos dos discursos (alguns disponíveis em português na internet) dos candidatos François Hollande, Jean-Luc Mélenchon – ver abaixo - Marine Le Pen e do agora derrotado Nicolas Sarkozy. Com todas as demonstrações de intolerância e xenofobia dos dois últimos, a corrida eleitoral francesa é uma aula de democracia, soberania e de autonomia do seu povo.

Não posso afirmar com certeza se isso acontece da mesma forma em outros países da Europa porque não acompanho seus processos eleitorais tão de perto, mas acredito que seja parecido, principalmente se observada a escolaridade média do europeu.

Esse indicador social faz com que nenhum candidato na França possa prescindir de uma profunda formação política, do conhecimento detalhado das políticas públicas contidas em suas propostas, do domínio do discurso – não como mera ferramenta de retórica eleitoreira – mas sim de convencimento de um público que conhece sua história e que contextualiza essa história com o mundo em que vive, econômica e socialmente. E isso considerando que os candidatos falam hoje, em grande parte, para... Continue lendo è


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quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Caminha a Líbia para uma batalha final?


24/8/2011, Juliana Medeiros [da fronteira da Líbia], blog Substantivu Commune
Enviado pelo pessoal da Vila Vudu
A repórter Juliana Medeiros viajou à Líbia acompanhando a delegação brasileira

Grande dica do Blog Maria Frô


Delegação brasileira: Miguel Mello (cinegrafista), Alzimara Bacellar (Confederação de Mulheres), Deputado Brizola Neto, Deputado Protógenes Queiroz, jornalista e escritor Robinson Pereira, jornalista Mário Jakobskind (representando a ABI), o advogado Felipe Boni de Castro, a jornalista Juliana Medeiros e o repórter fotográfico Sérgio Alberto

Na última segunda-feira a OTAN iniciou uma pesada intensificação dos ataques diários à Líbia, país que vem sofrendo uma guerra civil interna com o apoio massivo de aviões da coalizão estrangeira em uma situação jamais vista na história humana, até agora.

Depois de definitivamente ter sido colocada no mapa pela mídia internacional, mas não exatamente pelo reconhecimento obtido na ONU em 2007 como o maior IDH do continente africano, a Líbia parece caminhar para uma batalha final.

No entanto, algumas perguntas são necessárias: com a maior parte da população armada até os dentes, um povo que gostaria de se libertar de “mais de 40 anos de ditadura” estaria resistindo por quase seis meses? Ou é factível que um exército de um país de pouco mais de 6 milhões de habitantes (equivalente à população do Rio de Janeiro), poderia resistir sozinho à artilharia aérea de pelo menos 5 países aliados da OTAN?

Para os membros da delegação brasileira que estiveram próximos à fronteira do país e foram impedidos de atravessarem a rodovia que liga a Tunísia à Líbia, em função dos ataques, foi fácil perceber que os grupos opositores já teriam encerrado os conflitos não fosse o apoio da OTAN – que inclui o fornecimento de armas pesadas aos rebeldes – e as sucessivas transferências de valores dos EUA para o banco do CNT – Conselho Nacional de Transição. Conselho que não representa a unidade dos opositores, notadamente pelo brutal assassinato do comandante militar rebelde causada por seus próprios comparsas.

O bombardeio que destruiu a única via de acesso – para entrar ou sair do país – utilizada pela imprensa, médicos, transporte de alimentos, combustível e demais itens de abastecimento, iniciaram a estratégia de levar a Líbia ao isolamento, através do aumento da pressão em direção à capital Trípoli.

O derramamento de sangue ocorre agora com a chancela da ONU e a campanha midiática internacional, que tenta confundir a opinião pública – com seus correspondentes baseados em Israel e imagens da "festa" em Benghazi sendo reportadas como se fossem em Trípoli – associando o que acontece na Líbia com o ocorrido na Tunísia ou Egito, para que os espectadores acreditem de que se trata unicamente de uma guerra contra um “ditador que está há 40 anos no poder”.  Mas o que acontece na Líbia não passa por aí.

Não há um movimento popular que esteja em busca de melhores condições sociais no país que tem a maior renda per capita da África, em torno de 16.000 dólares e a ausência total de impostos. O que há é uma estratégia com detalhes de bastidores ainda não totalmente esclarecidos, mas que envolve com certeza, a promessa negociada com países interessados na exploração das riquezas líbias sem a interferência de Gaddafi, que exigia contratos com cláusulas bem menos interessantes para países acostumados a levarem vantagem nesse tipo de negociação comercial internacional.

Ainda que haja entre os rebeldes grupos legítimos que apóiem a mudança no país, é evidente agora que estes que avançam no deserto e para outras cidades além de Trípoli já não se comunicam com o que seria um manifesto do povo pela liberdade, seja ela de qualquer espécie. A começar pelo fato de que compõem a massa de opositores, presidiários de todos os tipos libertados de cadeias que foram abertas pelos rebeldes, mercenários de vários lugares do mundo e soldados do Qatar que se juntaram por terra à eles, vestidos como civis.

O ataque coordenado que busca tomar a capital iniciou-se de forma orquestrada entre a OTAN e grupos que chegaram a Trípoli rapidamente em dois aviões emprestados pelas forças estrangeiras, vindos de Benghazi. Outros vieram com destacamentos de soldados Qatarianos pelo mar, em três barcos que aportaram no litoral de Trípoli - vigiado há meses por porta-aviões americanos. E, o mais espantoso, aproveitaram o momento da oração que quebra o jejum no final do dia, como acontece durante todo o mês de Ramadan, pegando a população desprevenida.

O presidente Barack Obama, em plena campanha para 2012, certamente estava em vias de arranjar uma saída rápida para a guerra, ainda que fosse silenciar sobre a morte de mais de 1300 civis em 12 horas de combate. A via diplomática (e mais improvável) chegou a ser sinalizada por uma ligação há alguns dias do presidente americano para o russo Mededev. Alguns analistas chegaram a acreditar que uma retirada seria eminente. No entanto, para um país que não conseguiu se retirar de um Iraque devastado após mais de 6 anos de ocupação, seria ingenuidade admitir essa possibilidade.

Outra notícia, a mais absurda do ponto de vista humanitário, foi a de que uma entidade de direitos humanos com o apoio da ONU iniciou a retirada de todos os estrangeiros da Líbia nos últimos dias, para que o genocídio programado não se transformasse em um incidente diplomático ainda maior.

Alguns veículos já anunciam a queda de Muammar Gaddafi ou sua rendição ou ainda sua fuga  do país com a família. Porém, o mais provável é que ele encare de frente, com seus aliados, a sangrenta batalha e somente saia da Líbia se o matarem. Morte que agora parece próxima com o anúncio do CNT e OTAN de uma recompensa (!) para quem realizar o feito, em outra inédita manifestação de abuso das prerrogativas do direito internacional em situações de guerra, com a complacência da ONU.