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domingo, 14 de dezembro de 2014

Como Hitler, em 1932: Ministro alemão Steinmeier convoca o “big business” alemão

6/12/2014, [*] Johannes Stern, World Socialist Website
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Frank-Walter Steinmeier, MRE da Alemanha
No discurso de abertura de um Fórum Econômico (27-29/11/2014) organizado pelo jornal conservador Süddeutsche Zeitung, o Ministro de Relações Exteriores da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, convocou empresários e lideranças do empresariado alemão a apoiar o avanço alemão na direção de converter-se em potência mundial.

A reunião não aconteceu no Dusseldorf Parkhotel, mas no Hotel Adlon de Berlim. Na plateia não estavam Fritz Thyssen e Gustav Krupp von Bohlen und Halbach, mas o presidente executivo da Thyssen-Krupp, Heinrich Hiesinger e outros pesos pesados atuais do big business alemão. E, claro, o Ministro Frank-Walter Steinmeier, de Relações Exteriores [membro do “alto tucanato” alemão, o PSDA, Partido da Social Democracia da Alemanha (NTs)], não é Adolf Hitler.

Mesmo assim, a fala de Steinmeier fez lembrar o discurso de Hitler no Clube Industrial de Dusseldorf, dia 26/1/1932. Como Hitler, que estava a poucos passos de tornar-se o capo(Führer) dos alemães, Steinmeier apelou diretamente essa semana ao big business alemão, para que apoiasse o avanço da Alemanha rumo à posição de potência mundial. Explicitamente convocou o big business a apoiá-lo na direção de uma política exterior militarista, contrária ao que deseja o povo alemão.

O programa de Steinmeier faz lembrar muito a ânsia por poder ilimitado para a Alemanha que se acreditava que já fosse coisa do passado. “A Alemanha deve conduzir a Europa a conduzir o mundo”. Deve “europeizar a Rússia”. E deve “multilateralizar os EUA” – exigiu Steinmeier, citando um ensaio que permaneceu publicado durante meses no website do Ministério de Relações Exteriores da Alemanha. E acrescentou: “Nada de pensar pequeno!”.

É impossível não ver as implicações desse discurso. A volta da Alemanha a esse tipo de política exterior agressiva acompanha exatamente as mesmas linhas do que se viu na primeira metade do século XX. As elites alemãs voltam a ver como “missão” delas dominar a Europa, para tornar-se potência mundial. E hoje, como antes, esse programa do imperialismo alemão implica confronto contra a Rússia e contra os EUA.

“Europeizar a Rússia” significa nada menos que subordinar a Rússia a uma Europa controlada pela Alemanha. “Multilateralizar os EUA” significa contestar os EUA como hegemon mundial. Em outras palavras, a política exterior da Alemanha vai-se desenvolver no futuro cada vez mais crescentemente em oposição às duas potências contra as quais o país já guerreou duas guerras mundiais.

Hotel Adlon em Berlim
Depois dos crimes do regime nazista, as elites alemãs voltam, pelo menos por hora, ainda tentando apresentar um terceiro programa para “assumir o poder mundial”, como se algum poder vindo do exterior estivesse sendo imposto aos alemães. Todos os dias, protestou Steinmeier no Hotel Adlon, “a expectativa de maior envolvimento que a Alemanha vive, encontra a oposição de nossos parceiros no exterior”. Na sequência, convocou “um grande grupo de especialistas em questões internacionais”, para que formulasse “as expectativas da política externa alemã”.

Das várias respostas que recebeu, Steinmeier destacou uma, intitulada “Destino da Alemanha: conduzir a Europa a conduzir o mundo”. Nasceu na pena do professor indiano Kishore Mahbubani, da Universidade Nacional de Cingapura, país de partido único.

Das principais demandas de Mahbubani, Steinmeier disse, em tom rude: “E sabem quem disse isso? Não é francês, não é norte-americano. Quem disse isso para nós foi um professor indiano”.

O discurso de Steinmeier é notável não só porque volta a falar da Alemanha “líder do mundo”. O discurso manifesta também, abertamente, um programa imperialista. No centro dele, estava a conclusão de que num mundo cada vez mais crescentemente dominado por conflitos nacionais, os interesses globais da Alemanha já não podem ser buscados por meios exclusivamente econômicos: a busca exige também política externa e força militar.

Na abertura de sua fala, Steinmeier disse que não acontecia por acaso que, “no final desse turbulento ano de 2014”, ali estava ele, inaugurando um congresso de empresários, com “discurso assumidamente sobre política exterior”. Em toda sua “biografia política” – disse Steinmeier – “não me lembro de qualquer outro momento em que número tão alto de crises internacionais, em tantos pontos do mundo, de tantos e tão diferentes tipos, nos assaltassem simultaneamente, como hoje”.  

Kishore Mahbubani
O Ministro de Relações Exteriores da Alemanha pintou quadro da situação global que faz lembrar fortemente o mundo de antes da IIª Guerra Mundial. Mundo no qual prevalece “a luta por mais influência e mais dominação”, “crise é o novo estado de normalidade”, claras “rachaduras e divisões” nos aguardam e “há espanto ante as diferenças entre estados, povos e culturas”. Mesmo “no contato com nossos parceiros mais próximos, especialmente os EUA”, o “debate público é dominado por diferenças e oposições, sem qualquer referência a pontos comuns a todos”.

Economicamente, vê-se uma “volta a fronteiras nacionais fortificadas”, desde a crise financeira e econômica de 2008. Esse desenvolvimento é desafio tanto para a política econômica como para a política externa, sobretudo para a Alemanha – disse o ministro. A “recessão da globalização” ameaçada pela “economia orientada para a exportação”, enquanto “o auge das contradições” torna fracas e inservíveis “as ferramentas dos diplomatas”.

Disso tudo Steinmeier concluiu que é do interesse do big business alemão apoiar uma política externa mais agressiva, ainda que, no curto prazo, implique desvantagens econômicas.

O “primeiro passo para a recuperação” tem de vir da “consciência dos que já perceberam que nós, alemães, não temos como nos manter alheios à crise da ordem global! Onde consigamos fazê-lo, nós – políticos e líderes empresariais – temos de arrancar nós mesmos, os alemães, do pensamento insular e das nossas ilhas de conforto e apatia!”. Os que reconheçam essa urgência imediata, que “deem também o passo seguinte: como o país mais fortemente conectado em rede, nós dependemos de uma ordem mundial pacífica e sob o império da lei. Temos também de trabalhar a favor disso! Não só na Europa, mas em todo o planeta”.

(...)

Steinmeier insistiu, ante os representantes do big business que o crescimento da Alemanha na direção de tornar-se potência global não pode ser bem-sucedido só através de meios comerciais pacíficos: “A globalização econômica, só ela, não assegura qualquer convergência política (...). Mais BMWs nas ruas de Moscou e mais fábricas da Volkswagen em áreas metropolitanas da China não levam necessariamente a maior espaço político de convergências”.

Crimeia em festa pós-plebiscito de 16/3/2014
Os empresários, pois, devem, sim, se engajar nas sanções que o ocidente está impondo à Rússia. “Mediante a anexação da Crimeia [atenção: o ministro alemão mente. Não houve “anexação”, em nenhum sentido da palavra. A população da Crimeia votou, em plebiscito, e aprovou, por maioria gigante, a reintegração da Crimeia à Federação Russa (NTs)] e suas ações no leste da Ucrânia, a Rússia violentou a “lei internacional e pôs em perigo a ordem mundial sob o império da lei” e assim “violentou os pilares de nossa segurança e de nosso bem-estar”. As potências ocidentais reagiram com sanções “que também têm alto preço econômico que nós mesmos temos de pagar”. O “preço de deixar a Europa sob ameaça permanente é contudo muito superior” e as sanções, portanto, obram a favor dos interesses das empresas e dos empresários” – na avaliação de Steinmeier.

Ao mesmo tempo, o ministro alemão disse que o objetivo das sanções não deve ser “subjugar economicamente a Rússia”. É perigoso demais. “Uma Rússia desestabilizada ou mesmo já em colapso é risco muito maior para os próprios empresários e outros. Mas [conversas contra as sanções] causam grave dano à segurança da Europa”.

Steinmeier acrescentou: “Os que dizem vamos acabar com os russos! podem talvez até receber aplausos em algumas áreas, mas a verdade é que jamais acabaremos com eles. Ainda recordo, no início da crise da Ucrânia, quando o Ministro de Relações Exteriores do Canadá disse numa reunião: “Agora temos de decidir se a Rússia é amigo ou inimigo, parceiro ou opositor”. E eu disse a ele: “No Canadá, vocês talvez possam pôr a questão nesses termos. Para a Europa, a Rússia sempre será vizinho gigante, e sempre terá influência, positiva ou negativa, no nosso desenvolvimento”.

Foi golpe direto no plexo solar dos EUA. Steinmeier disse “Canadá”, mas criticou de fato Washington, que tem tomado as posições mais agressivas no conflito com a Rússia. Como seu vizinho imperialista subalterno, o Canadá apoia a política externa dos EUA, que está preparada para enfrentar, até, confronto militar direto com a Rússia, para derrubar o presidente Putin e entronizar um “regime amigo” em Moscou.

A Alemanha quer pôr a Rússia na defensiva, mas não quer o colapso das relações econômicas bilaterais. Ao mesmo tempo, a Alemanha ainda não tem meios para confrontar diretamente os EUA. Mas já começa a perseguir seus interesses imperialistas de modo mais independente e mais “assumido” em relação a outras potências. Steinmeier não deixou dúvidas de que, como no passado, o futuro também pode incluir uso de força militar e guerra.

Para combater o Estado Islâmico do Iraque e Levante [ing. ISIL], disse ele, “É claro que a solução militar é uma parte das providências, e não fugimos de nossas responsabilidades. No verão, decidimos apoiar a luta e enviamos armas para a guerrilha curda Peshmerga”. Embora ainda seja vigente o princípio de “não enviar armas para áreas em conflito”, fazer política externa é escolher em várias possibilidades não perfeitas”, e “em tais casos, é preciso considerar se estamos defendendo princípios ou nos escondendo por trás deles”.

Todo o discurso de Steinmeier deixa claro que as elites governantes alemãs não querem “esconder-se por trás” de nenhum princípio ou restrição das muitas que lhes foram impostas depois da derrota na IIª Guerra Mundial. Nesse momento, preparam o novo programa de política externa alemã, que será empurrado goela abaixo do povo alemão.

Debates no SZ Economic Forum
Na conclusão de sua fala, Steinmeier referiu-se a uma pesquisa feita pela Körber Foundation, que perguntou aos alemães: “a Alemanha deve engajar-se internacionalmente com mais força que antes?” Só 38% responderam “Sim”. 60% responderam “Não, por favor, continuem contidos”.

O Ministro de Relações Exteriores da Alemanha disse, sobre esses números, o seguinte: “Esse é o golfo que separa as expectativas externas e a prontidão interna, senhoras e senhores. Temos de lidar precisamente com esse golfo. Honestamente, se fosse engenheiro, nunca construiria, de boa consciência, ponte alguma sobre esse golfo. Como político, tenho de construir a tal ponte! E seria motivo de grande felicidade para mim – se eu não estiver errado e esse for também o interesse dos senhores – se os empresários alemães me ajudarem um pouco. Muito obrigado”.

Steinmeier está claramente propondo uma aliança entre Estado e grande capital contra a população absolutamente hostil a esse caminho que leva à guerra. Como aliança, combinando os ricos e poderosos contra a maioria, é fortemente antidemocrática. Depois das experiências terríveis de duas guerras mundiais, a oposição à guerra é força de raízes muito profundas, sobretudo na Alemanha. Pois mesmo assim as elites governantes decidiram a favor de uma política de guerra. E passam a trabalhar para impô-la à população.

Ao final do discurso de Steinmeier, ouviram-se fortes aplausos no salão de festas do Hotel Adlon, Berlim.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

EUA: os antolhos

24/5/2013, [*] Kishore Mahbubani, Project Syndicate 
“America’s Blinders”
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu 


Entreouvido na vendinha da Maria Xerêta na Vila Vudu: Não deixa de ser grande, enormíssima novidade, que os dois mais importantes e conhecidos dissidentes das políticas dos EUA para o mundo estejam hoje refugiados em países que, há 20 anos, NINGUÉM consideraria refúgio seguro: Julian Assange continua refugiado na Embaixada do Equador, que lhe deu asilo político; e Edward Snowden, que permanece num hotel em Hong Kong, área de influência da China, à espera de que algum país lhe dê asilo político. ISSO É NOVIDADE! 



Cingapura – É hora de começar a pensar o impensável: é bem possível que a era da dominação norte-americana em todos os negócios internacionais esteja chegando ao fim. O momento se aproxima, e é interessante saber como os EUA preparam-se para essa experiência difícil.

Ao longo das últimas décadas, a Ásia cresce e aparece, uma história bem mais complexa que algum simples rápido crescimento econômico. O que ali se vê é Região para passar por um renascimento, onde as cabeças se vão reabrindo e geram-se novos modos de ver o mundo.

O movimento da Ásia na direção de reassumir o papel central na economia global vem com tal ímpeto que é virtualmente impossível contê-lo. Embora a transformação nem sempre se possa fazer sem tropeços e dificuldades, já não é possível não ver que estamos à entrada de um século da Ásia, e que a química mundial terá de mudar muito.

Políticos e intelectuais globais têm a responsabilidade de preparar as sociedades para as mudanças globais que se aproximam. Nos EUA, a grande maioria dos políticos e intelectuais só faz fugir, o mais rapidamente que possam, dessa responsabilidade.

Ano passado, no Fórum Econômico Mundial em Davos, dois senadores dos EUA, um deputado da Câmara de Deputados dos EUA e um vice-conselheiro de segurança nacional participaram de uma mesa de discussão (que ficou sob minha coordenação) sobre o futuro do poder dos EUA. Perguntados sobre que futuro anteviam para o poder dos EUA, todos, previsivelmente, responderam que os EUA continuariam como “a mais poderosa potência mundial”. E perguntados sobre se os EUA estariam preparados para a eventualidade de se tornarem a segunda economia do mundo, responderam com evasivas.

É reação compreensível: qualquer indício de que aceita a simples possibilidade de os EUA se tornarem “número 2” equivale a suicídio político nos EUA. Políticos eleitos são obrigados, em diferentes graus, a corresponder aos sonhos dos que os elegem.

Os intelectuais, por sua vez, têm uma obrigação especial de pensar o que ninguém pensa e de dizer o que ninguém diz. No mínimo, devem considerar objetivamente todas as possibilidades, agradem ou não agradem, para preparar os cidadãos para o que inevitavelmente virá. A possibilidade de discutir ideias impopulares é traço chave de sociedades realmente democráticas.

Nos EUA, infelizmente, a maioria dos intelectuais esqueceu essa obrigação. Richard Haass, presidente do Conselho de Relações Exteriores, sugeriu recentemente que “os EUA estariam entrando na segunda década de mais um século norte-americano”. E Clyde Prestowitz, presidente do Economic Strategy Institute, também ainda repete que “esse século ainda acabará por ser mais um século norte-americano”.

De fato, se essas previsões se confirmarem, será bom para todo o mundo. Uma economia norte-americana revigorada rejuvenesceria toda a economia global. Mas esse seria um desenvolvimento para o qual ninguém precisaria preparar-se.

Contudo, se o centro de gravidade do mundo deslocar-se para a Ásia, os norte-americanos se descobrirão terrivelmente mal preparados para a nova situação. A maioria dos norte-americanos dá sinais alarmantes de não saber, de fato, o quanto o resto do mundo, especialmente a Ásia, progrediu nas últimas décadas.

É preciso começar a informar os norte-americanos sobre uma verdade elementar, matemática: com 3% da população mundial, os EUA já não podem dominar o resto do mundo, pela suficiente razão de que os asiáticos, que são 60% da população mundial arrancaram-se da miséria em que viviam.

Mas a crença fundamentalista de que os EUA seriam o único país virtuoso, o único farol de luz em mundo escuro e instável, ainda modela o pensamento e a visão de mundo de muitos norte-americanos. O fracasso dos intelectuais norte-americanos, que não conseguiram abalar essa fé nacionalista fundamentalista – e não conseguiram modificar a atitude frequente entre os cidadãos norte-americanos, de arrogância baseada na ignorância – perpetua ali uma cultura de subserviência e de bajulação da chamada “opinião pública”.

Interessante é que, por mais que os norte-americanos só se interessem por notícias boas, o crescimento da Ásia não é, de modo algum, uma má notícia. Para entender, basta ver que os países asiáticos absolutamente não visam a dominar o ocidente; querem é copiar o ocidente. Querem construir suas próprias classes médias fortes e dinâmicas, para alcançar o longo período de paz, estabilidade e prosperidade que foi apanágio do ocidente, por tanto tempo.

A transformação social e intelectual profunda pela qual passa a Ásia certamente a empurrará, da liderança econômica, à liderança política global. A China, que em vários sentidos ainda é sociedade fechada, preservou a abertura no plano das ideias. Mas os EUA, que em vários sentidos são sociedade aberta, acabaram por converter-se em sociedade de pensamento conservador, fechado, de autorreferência. Com a classe média asiática preparada para saltar dos 500 milhões de pessoas hoje, para 1,75 bilhão de seres humanos em 2020, já é impossível para os EUA continuar a negar por muito mais tempo, obstinadamente, as novas realidades da economia global.


O mundo está posicionado para iniciar uma das mais dramáticas trocas de poder que jamais se viu na história da humanidade. Para se preparar para a transformação, os norte-americanos têm de abandonar as ideias já desgastadas e liberar o que até hoje foi considerado impensável. Esse é o grande desafio que os intelectuais públicos terão de enfrentar, mais dia menos dia, nos EUA.


[*] Kishore Mahbubani é Reitor da Lee Kuan Yew School of Public Policy na National University of Singapore. Ele é autor de: The Great Convergence: Asia, the West, and the Logic of One World (Trad.: A grande convergência: Asia, Ocidente, e a lógica do mundo unificado).

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Sim, podemos: pensadores e filósofos não europeus


19/2/2013, Walter Mignolo, Al-Jazeera, Qatar 
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Walter D. Mignolo
Os artigos de Santiago Zabala e Hamid Dabashi publicados em Al Jazeera trazem à discussão uma das questões cruciais do século 21: a revisão dos processos de re-ocidentalização (com a volta de modos ocidentais de pensar, do Cristianismo ao Liberalismo e ao Marxismo) e de desocidentalização e descolonização em todas as esferas da vida, da política, economia, religiões, estética, conhecimento e subjetividade.

A discussão concentra-se, principalmente, nas duas últimas questões. Começou com o artigo de Zabala sobre o papel do filósofo, no qual celebrava Slavov Zizek. Em resposta, Dabashi tratou do significado diferencial entre os nomes de filósofos ocidentais e os países nos quais filósofos não europeus ou vivem ou “estudaram em academias dos EUA ou da Europa”.

As respostas de Zabala a Dabashi enfatizaram o renovado, refrescante comunismo de Zizek. De minha parte – afinal, sou pensador descolonial limítrofe – concentro-me em questões que emergem nas fronteiras da discussão.

A crença nas hierarquias

Hamid Dabashi
A resposta de Hamid Dabashi ao artigo de Zabala sobre o papel do filósofo contribuiu para a circulação do texto em áreas da opinião pública nas quais, sem aquela resposta, o texto não teria circulado. A resposta de Dabashi foi uma reflexão sobre o parágrafo inicial do artigo sobre Zizek que Zabala publicou:

Há hoje muitos filósofos ativos e importantes: Judith Butler nos EUA; Simon Critchley na Inglaterra; Victoria Camps na Espanha; Jean-Luc Nancy na França; Chantal Mouffe na Bélgica; Gianni Vattimo na Itália; Peter Sloterdijk na Alemanha; e, na Eslovênia, Slavoj Zizek, para não falar de outros que trabalham hoje no Brasil, Austrália e China.

Santiago Zabala
A estratégia de Dabashi acompanha seu argumento: não menciona os nomes dos autores dos artigos. Esse silêncio de Dabashi traz para o procênio o significado dos nomes. Sua resposta é um signo, dentre muitos, de que nós, no planeta, vivemos uma mudança de época, mais que uma mudança a mais numa época de mudanças. A mudança de época é anunciada, na esfera do conhecimento, no processo de desencadear-se de uma cadeia de efeitos longamente duradouros, de diferenças epistêmicas coloniais e imperiais.

Nesse quadro, os nativos norte-americanos têm sabedoria, os anglo-americanos, ciência; os africanos têm experiência, os europeus, filosofia; o Terceiro Mundo tem Cultura e o Primeiro Mundo tem Ciências Sociais, inclusive antropologia que estuda as culturas do Terceiro Mundo; chineses e indianos têm tradições, os europeus, modernidade; o Islã vive em mundo de religião; os europeus, no secularismo.

Essas crenças já se foram, para número crescente de intelectuais, pensadores e ativistas não europeus. Para mim, essa é a principal afirmativa implícita no artigo de Dabashi.

O que pensadores não europeus pensam

Slavoj Zizek
Li o artigo de Zabala sobre o papel do filósofo, não porque estivesse interessado em Zizek (que não me interessa), mas porque era artigo de Santiago. Participamos de várias conferências nos últimos três anos, assistimos às falas um do outro, conversamos, mantemos ativa correspondência por e-mail e trocamos artigos.

O que leio, da filosofia continental, não leio à procura de luzes que me auxiliem a enfrentar questões de histórias não europeias, mas porque me interessa saber o que “eles” estão pensando, quais as preocupações “deles”, em que “eles” andam envolvidos.

Consumo a maior parte do meu tempo envolvido com pensadores não europeus. É a partir da orientação e da luz desses pensadores que, quando necessário, aproximo-me de filósofos europeus. Exemplo desse relacionamento é meu contato com A leftist Plea For “eurocentrism”  (1998).

Li esse artigo, não porque tivesse sido escrito por Zizek, mas porque tratava de eurocentrismo. É problema que me interessa sempre e profundamente; em segundo lugar, interessa-me o que tenham a dizer as pessoas que enfrentem a questão do eurocentrismo. Como pensador não europeu, meus sentidos reagiram logo à primeira frase do artigo de Zizek: 

Quando alguém diz eurocentrismo, qualquer intelectual pós-modernista de esquerda que se autorrespeite tem reação tão violenta quanto a de Joseph Goebbels quando ouvia a palavra cultura – pega logo a pistola, urrando acusações de imperialismo cultural eurocentrista proto-fascista. Mas será possível imaginar uma apropriação, pela esquerda, do legado político europeu?

Discuti esse artigo com mais detalhe noutro lugar. Aqui, me interessa destacar um só ponto. Minha resposta àquele parágrafo, publicada, é a seguinte: 

Quando alguém diz Eurocentrismo, nenhum intelectual descolonizante que se autorrespeite tem reação violenta como a de Joseph Goebbels à cultura – de pegar uma pistola urrando acusações de imperialismo cultural eurocentrista proto-fascista.

Intelectual descolonizante que se autorrespeite, recorrerá a Frantz Fanon: “Agora, camaradas, é chegada a hora de decidir mudar de lado. Tirar de nossas costas a imensa sombra noturna que nos envolveu e sair para a luz. Que o novo dia que está raiando nos encontre determinados, ilustrados e resolutos. Nesses termos, meus irmãos, como não compreender que temos coisa melhor a fazer, que seguir os passos da Europa?”

Com esse comentário, não quero discutir a avaliação de Zizek, como filósofo, feita por Zabala. O que estou dizendo é que nós, intelectuais descolonizantes, mesmo que não sejamos filósofos, “temos coisa melhor a fazer” como diria Fanon, que nos deixar envolver nas questões debatidas pelos filósofos europeus.

Relevância não é universal 

A questão levantada por Dabashi não é nova entre nós, pensadores do ex-Terceiro Mundo (ainda que muitos de nós baseados nos EUA). Ao dizer que não é questão nova, não digo, por implicação, que a resposta de Dabashi seja ultrapassada. Quero dizer que as questões de que hoje se trata foram debatidas na África, no Caribe e na América do Sul, no final dos anos 50s e nos anos 60s. Mas foram discutidas “entre nós”, não “com eles”.

Kishore Mahbubani
Agora, o diferencial de potência epistêmica começou a ser discutido entre todos “nós”, filósofos não europeus e filósofos europeus. A exceção no domínio da diplomacia foi Kishore Mahbubani, que levantou a questão em seu polêmico Can Asians Think? [Asiáticos pensam?] (1999).

Contudo, se queremos usar o termo “filosofia” para identificar pensadores, sejam europeus ou não europeus, devo dizer que, ainda que Zizek possa ser o mais importante filósofo contemporâneo, seu trabalho é menos relevante para muitos que o trabalho do filósofo jamaicano Lewis Ricardo Gordon; ou do filósofo iraniano Seyyed Hossein Nasr; ou do filósofo chinês Wang Hui; ou do egípcio Nawal El Saadawi ou do filósofo latino-americano Enrique Dussel.

E se por trás de Zizek há Derrida na filosofia continental, por trás de Gordon há Fanon na filosofia africana; por trás de Seyyed Hossein Nasr há Ali Shariati na filosofia muçulmana; por trás de Wang Hui há Liu Xun na filosofia chinesa; por trás de El Sadawi, o legado da falsafa muçulmana. E por trás de Dussel há Rodolfo Kusch na filosofia latino-americana.

A relevância não é universal; depende do universo de significação e do sistema de crenças sob o qual se determina a relevância. Temos aqui um mundo diverso de pensadores e filósofos no processo de desocidentalizar e descolonizar o legado imperial da filosofia ocidental.

A questão da filosofia no mundo não europeu jamais foi fácil. Pensadores africanos e latino-americanos com formação e treinamento em filosofia debateram, nos anos 1970s, essa questão crucial: “Há filosofia africana/latino-americana?” Seria pergunta impensável na Alemanha, nos mesmos anos.

Robert Bernasconi
Robert Bernasconi, escrevendo sobre o filósofo afro-americano Lucius T Outlaw, resumiu o dilema nos seguintes termos:

A filosofia ocidental captura a filosofia africana numa dupla armadilha: ou a filosofia africana é tão semelhante à filosofia ocidental, que não faz contribuição significativa e, efetivamente, desaparece; ou é tão diferente que suas credenciais para ser definida como genuína filosofia sempre estarão sob suspeita (Bernasconi 1998, 188; Postcolonial African Philosophy: A Critical Reader). 

É o gargalo e o quebra-cabeça que atormenta pensadores com formação e treinamento acadêmico em filosofia na África, na América do Sul e no Caribe.

Comunismo é uma opção

Tudo o que acima ficou dito leva-me à questão do comunismo, foco da resposta de Zabala, e dos quatro poderosos antagonismos que – segundo Zizek – poderiam impedir a infinita reprodução do capitalismo:

1. “A ameaça sempre crescente da catástrofe ecológica”.
2. “A apropriação indevida da noção de propriedade privada, para a chamada “propriedade intelectual”.
3. “As implicações socioéticas dos novos desenvolvimentos técnico-científicos (especialmente na biogenética)”.
4. “Novas formas de apartheid, novos muros, novas favelas”.

Nas últimas duas décadas, muito tenho ouvido sobre esses quatro pontos mencionados por várias pessoas, não só filósofos mas também pensadores e militantes sérios. Não estou dizendo que Zabala estaria dizendo que Zizek seria o primeiro a pensar sobre essas questões, nem que seria muito importante que Zizek tivesse trazido essas questões para o debate filosófico europeu. De fato, seria desnecessária arrogância supor que o mundo, particularmente o mundo não europeu, careceria de que Zizek nos informasse de que o mundo está pegando fogo.

Para Zabala, “Ser comunista em 2012 não é escolha política, mas questão existencial. Os níveis globais de desigualdade política, econômica e social aos quais chegaremos esse ano, por causa da lógica capitalista de produção, não são só “muito graves”: eles ameaçam nossa existência”.

Ora, reconhecer os problemas não significa que o único meio para avançar seja o comunismo. E, como a história nos ensina, identificar o problema tampouco significa que só haja uma solução. Ou, dito ainda de outro modo: vários podem coincidir na prospectiva de um futuro global desejável; o que não implica que o comunismo seria o único modo de andar até lá.

Não há uma única solução, simplesmente porque há muitos modos de ser, o que significa diferentes meios de pensar e de fazer. O comunismo é escolha. O comunismo não é um universal abstrato.

Tariq Ramadan
Ao mesmo tempo, é necessário reconhecer que o comunismo é escolha forte, na Europa. Talvez não seja opção para migrantes da Ásia e da África (talvez seja escolha para migrantes da América Latina, sobretudo os que tenham ascendência europeia), ou talvez seja ideia a ser promovida por Tariq Ramadan (europeu muçulmano e filósofo muçulmano).

Mas na Europa, com certeza, é escolha inescapável. Afinal, o comunismo nasceu na Europa.

No mundo não europeu, o comunismo é mais parte do problema, que parte da solução. O que não significa que, se você não é comunista, no mundo não europeu, você é capitalista.

O ponto de referência nesse debate foi e continua a ser a Conferência de Bandung, convocada por Sukarno em 1955. O legado de Bandung não é nem o capitalismo nem o comunismo, mas a descolonialidade e a desocidentalização (o que significa distanciar-se tanto do comunismo quanto do capitalismo).

Caso a observar, hoje, pode ser a Bolívia. A fórmula “socialismo comunitarista” do Estado da Bolívia é rejeitada pelo CONAMAQ (Conselho Nacional de Ayllus e Markas do Qullasuyu), organização liderada por aimaras e quechuas, que trabalham para a reorganização dos ayllus e markas de Tawantinsuyu.

Não há espaço aqui para explicar o que significa tudo isso (e esse, precisamente, é problema do eurocentrismo: gastar espaço, sem explicar o que não se encaixe no interesse dos europeus, de esquerda ou de direita), mas significa, basicamente que há modo de ser baseado no comunal, a partir da perspectiva de harmonia baseada  na história das civilizações andinas, não na da civilização europeia.

Assim sendo, o fato de que Zizek e outros intelectuais europeus estejam repensando seriamente o comunismo significa que abraçam uma opção (reorientar a esquerda) dentre várias que, hoje, marcham na direção de uma ideia de harmonia que sobrepassa a necessidade de guerra; sobrepassa o sucesso e a competição que gera corrupção e egoísmo, e promove a plenitude da vida, sobre o desenvolvimento e a morte.

Frantz Fanon
Construindo um futuro harmonioso

Em resumo, a troca de ideias – nessa publicação – entre Santiago Zabala e Hamid Dabashi lança luz sobre uma questão fundamental na construção global de futuros harmoniosos. Há um paralelo entre a crescente convicção quanto ao fracasso do neoliberalismo no mundo não europeu, que acompanha a crescente convicção dos limites (e ao mesmo tempo do valor) da filosofia continental.

Sartre resumiu tudo isso no prefácio que escreveu para Os Condenados da Terra de Frantz Fanon (1961), ao dizer, falando ao público francês e europeu: “Prestem atenção, ouçam o que Fanon diz: ele já não está falando conosco”.