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segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Malditos “liberais”, “progressistas” patéticos

17/8/2013, [*] Tariq Ramadan, em seu blog [excerto]
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

"O caminho para a DEMOCRACIA está aberto"
Minhas recentes análises dos levantes árabes e da crise em curso na Tunísia e no Egito receberam abundante comentário crítico. Minha posição sobre os levantes árabes, a história deles e as questões que propõem, está claramente exposta em meu livro Islam and the Arab Awakening. Eventos recentes confirmaram que não errei. Quem queira esclarecimentos, que leia ou releia meu livro. (...)

Ao mesmo tempo, desenvolvi crítica detalhada da polarização dos debates entre secularistas e islamistas, particularmente no Egito e na Tunísia. Meus mais recentes escritos sobre o golpe militar levaram alguns intelectuais e ativistas anti-Mursi a me rotularem como pró-Mursi, pró-Fraternidade Muçulmana e pró-islamistas e a acionar a máquina de propaganda. Como seria bom se as coisas fossem assim tão simples. Mas é impossível, em termos decentes, criticar-me por falta de clareza quanto às ações do governo Mursi e o posicionamento ideológico da Fraternidade Muçulmana. 

Já disse uma vez, e repito, mas os apologistas “liberais” do golpe de Estado e os amigos dos militares que fingem que nada ouviram ou nada leram, e que desqualificam os oponentes, que veem como “islamistas” e “terroristas” melhor fariam se prestassem atenção à substância e tratassem de responder a várias perguntas chaves.

Os homens e mulheres que mantiveram as manifestações de rua por mais de cinco semanas estão sendo agora apresentados como “pró-Mursi,” e como membros da Fraternidade Muçulmana. É categorização tão falsa quanto tendenciosa: uma manta de mentiras cerradamente tecida pela imprensa oficial e disseminada por 80% da imprensa-empresa ocidental e suas agências-empresas noticiosas, que usam sempre as mesmas palavras, idênticas, para descrever as massivas manifestações de rua. 

De fato, os manifestantes carregam a bandeira da oposição ao golpe de Estado. Ali estão homens e mulheres que não são membros da Fraternidade Muçulmana, que não são, nem salafistas, nem islamistas. Entre eles há muitos jovens blogueiros, secularistas e coptas.

A bandeira egípcia está manchada pelo sangue de seu povo
O exército egípcio jamais saiu da cena política. Sua estratégia de repressão explica-se pela preocupação com preservar seus interesses políticos, econômicos e financeiros, e pelos laços íntimos com o governo dos EUA. Algumas capitais europeias – e Israel, é claro – claramente apreciam a estratégia dos militares. 

A condenação tímida que veio do ocidente, as palavras dissimuladas e insuficientes do presidente Barack Obama (cancelou manobras militares, confirmou a ajuda financeira e implicitamente manifestou apoio ao golpe de Estado), somada ao bombardeio por jornais, jornalistas e televisões, garantiram carta branca aos militares para deflagrarem repressão sem limite, sob o disfarce de um recém declarado “estado de emergência”. 

O ataque apenas começou; o Egito enfrentará ainda mais mortes, tortura e prisões em massa.

Aliás, nenhuma novidade. A imprensa oficial distribui mentiras e manipula a informação: são as mesmas velhas táticas de sempre. A polícia e as forças armadas alegam que estariam agindo em legítima defesa: mas usam munição viva contra manifestantes e o número de mortos é sistematicamente subestimado.

Mesquitas para onde estavam sendo levados os corpos de manifestantes assassinados foram queimadas, para destruir provas. Outras mesquitas, como al-Iman, foram cercadas, no momento em que ali se realizavam velórios.

Velório de mortos assassinados pelo exército na Mesquita al-Iman em 18/8/2013
Para liberar os corpos, famílias são obrigadas a aceitar documentos que atestam que a causa da morte seria suicídio, ou que a morte ocorreu em outra data. Novos horrores, velhos métodos. 

Não surpreende que surjam “notícias” de que o exército teria encontrado depósitos de armas – que são devidamente filmados, fotografados e “exibidos” em todo o mundo. São armas que os manifestantes, sempre pacíficos, depois de seis semanas de manifestações sempre sob ameaça de intervenção militar e ameaçados de ataque, só não usaram porque não tiveram tempo...

Também horrível, a estratégia de incendiar igrejas faz lembrar o que faziam predecessores de al-Sisi: jogar os egípcios uns contra outros e apresentar “os terroristas islamistas” como inimigos dos coptas. Assim matam dois coelhos com uma cajadada: justificam a repressão, ao mesmo tempo em que seduzem corações e mentes no ocidente.

Os que se opõem ao golpe são apresentados como estúpidos: não violentos e disciplinados por semanas a fio, mesmo depois do massacre de 8 de julho, repentinamente se tornam violentíssimos, exatamente quando os militares precisavam de violência? A quem tentam enganar?

Igrejas são incendiadas pela polícia secreta de al-Sisi disfarçados de Irmãos da Fraternidade Nuçulmana
A questão central foi e é liberdade e democracia para o povo egípcio. O que se vê hoje no Egito é uma farsa e um horror. O país está agora à mercê das Forças Armadas. Agora, o Egito enfrentará execuções sumárias, prisões arbitrárias e mentiras, a partir do mais alto nível do estado.

Os generais contam com integral apoio do Ocidente, dos EUA e de Israel. Essa é a única realidade.

Todos os que, em seu ódio visceral aos islamistas, apóiam hoje os militares e a polícia que matam e reprimem algum dia terão de responder por suas escolhas. Terão também de exibir-nos suas análises, seu programa político “democrático” rabiscado na penumbra da caserna, no coração obscuro da corrupção, no olho do furacão em que hoje se debate, à deriva, todo o Oriente Médio. 

A responsabilidade deles é imensa, muito mais vasta do que o gosto amargo das palavras que usam para encorajar e justificar a repressão violenta contra cidadãos desarmados. 

Malditos “liberais”, “progressistas” patéticos.
____________________


[*] Tariq Ramadan (árabe: رمضان); nasceu em 26 de agosto de 1962); é escritor e acadêmico suíço. Também é um Professor de Estudos Islâmicos Contemporâneos na Faculdade de Estudos Orientais da Universidade de Oxford (Instituto Oriental, Faculdade de St. Antony). Leciona na Faculdade de Teologia de Oxford; professor visitante na Faculdade de Estudos Islâmicos no Qatar e Diretor do Centro de Pesquisa de Legislação Islâmica e Ética (CILE) (Doha, Qatar). Defende o estudo e a re-interpretação de textos islâmicos e enfatiza a natureza heterogênea dos muçulmanos ocidentais.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Sim, podemos: pensadores e filósofos não europeus


19/2/2013, Walter Mignolo, Al-Jazeera, Qatar 
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Walter D. Mignolo
Os artigos de Santiago Zabala e Hamid Dabashi publicados em Al Jazeera trazem à discussão uma das questões cruciais do século 21: a revisão dos processos de re-ocidentalização (com a volta de modos ocidentais de pensar, do Cristianismo ao Liberalismo e ao Marxismo) e de desocidentalização e descolonização em todas as esferas da vida, da política, economia, religiões, estética, conhecimento e subjetividade.

A discussão concentra-se, principalmente, nas duas últimas questões. Começou com o artigo de Zabala sobre o papel do filósofo, no qual celebrava Slavov Zizek. Em resposta, Dabashi tratou do significado diferencial entre os nomes de filósofos ocidentais e os países nos quais filósofos não europeus ou vivem ou “estudaram em academias dos EUA ou da Europa”.

As respostas de Zabala a Dabashi enfatizaram o renovado, refrescante comunismo de Zizek. De minha parte – afinal, sou pensador descolonial limítrofe – concentro-me em questões que emergem nas fronteiras da discussão.

A crença nas hierarquias

Hamid Dabashi
A resposta de Hamid Dabashi ao artigo de Zabala sobre o papel do filósofo contribuiu para a circulação do texto em áreas da opinião pública nas quais, sem aquela resposta, o texto não teria circulado. A resposta de Dabashi foi uma reflexão sobre o parágrafo inicial do artigo sobre Zizek que Zabala publicou:

Há hoje muitos filósofos ativos e importantes: Judith Butler nos EUA; Simon Critchley na Inglaterra; Victoria Camps na Espanha; Jean-Luc Nancy na França; Chantal Mouffe na Bélgica; Gianni Vattimo na Itália; Peter Sloterdijk na Alemanha; e, na Eslovênia, Slavoj Zizek, para não falar de outros que trabalham hoje no Brasil, Austrália e China.

Santiago Zabala
A estratégia de Dabashi acompanha seu argumento: não menciona os nomes dos autores dos artigos. Esse silêncio de Dabashi traz para o procênio o significado dos nomes. Sua resposta é um signo, dentre muitos, de que nós, no planeta, vivemos uma mudança de época, mais que uma mudança a mais numa época de mudanças. A mudança de época é anunciada, na esfera do conhecimento, no processo de desencadear-se de uma cadeia de efeitos longamente duradouros, de diferenças epistêmicas coloniais e imperiais.

Nesse quadro, os nativos norte-americanos têm sabedoria, os anglo-americanos, ciência; os africanos têm experiência, os europeus, filosofia; o Terceiro Mundo tem Cultura e o Primeiro Mundo tem Ciências Sociais, inclusive antropologia que estuda as culturas do Terceiro Mundo; chineses e indianos têm tradições, os europeus, modernidade; o Islã vive em mundo de religião; os europeus, no secularismo.

Essas crenças já se foram, para número crescente de intelectuais, pensadores e ativistas não europeus. Para mim, essa é a principal afirmativa implícita no artigo de Dabashi.

O que pensadores não europeus pensam

Slavoj Zizek
Li o artigo de Zabala sobre o papel do filósofo, não porque estivesse interessado em Zizek (que não me interessa), mas porque era artigo de Santiago. Participamos de várias conferências nos últimos três anos, assistimos às falas um do outro, conversamos, mantemos ativa correspondência por e-mail e trocamos artigos.

O que leio, da filosofia continental, não leio à procura de luzes que me auxiliem a enfrentar questões de histórias não europeias, mas porque me interessa saber o que “eles” estão pensando, quais as preocupações “deles”, em que “eles” andam envolvidos.

Consumo a maior parte do meu tempo envolvido com pensadores não europeus. É a partir da orientação e da luz desses pensadores que, quando necessário, aproximo-me de filósofos europeus. Exemplo desse relacionamento é meu contato com A leftist Plea For “eurocentrism”  (1998).

Li esse artigo, não porque tivesse sido escrito por Zizek, mas porque tratava de eurocentrismo. É problema que me interessa sempre e profundamente; em segundo lugar, interessa-me o que tenham a dizer as pessoas que enfrentem a questão do eurocentrismo. Como pensador não europeu, meus sentidos reagiram logo à primeira frase do artigo de Zizek: 

Quando alguém diz eurocentrismo, qualquer intelectual pós-modernista de esquerda que se autorrespeite tem reação tão violenta quanto a de Joseph Goebbels quando ouvia a palavra cultura – pega logo a pistola, urrando acusações de imperialismo cultural eurocentrista proto-fascista. Mas será possível imaginar uma apropriação, pela esquerda, do legado político europeu?

Discuti esse artigo com mais detalhe noutro lugar. Aqui, me interessa destacar um só ponto. Minha resposta àquele parágrafo, publicada, é a seguinte: 

Quando alguém diz Eurocentrismo, nenhum intelectual descolonizante que se autorrespeite tem reação violenta como a de Joseph Goebbels à cultura – de pegar uma pistola urrando acusações de imperialismo cultural eurocentrista proto-fascista.

Intelectual descolonizante que se autorrespeite, recorrerá a Frantz Fanon: “Agora, camaradas, é chegada a hora de decidir mudar de lado. Tirar de nossas costas a imensa sombra noturna que nos envolveu e sair para a luz. Que o novo dia que está raiando nos encontre determinados, ilustrados e resolutos. Nesses termos, meus irmãos, como não compreender que temos coisa melhor a fazer, que seguir os passos da Europa?”

Com esse comentário, não quero discutir a avaliação de Zizek, como filósofo, feita por Zabala. O que estou dizendo é que nós, intelectuais descolonizantes, mesmo que não sejamos filósofos, “temos coisa melhor a fazer” como diria Fanon, que nos deixar envolver nas questões debatidas pelos filósofos europeus.

Relevância não é universal 

A questão levantada por Dabashi não é nova entre nós, pensadores do ex-Terceiro Mundo (ainda que muitos de nós baseados nos EUA). Ao dizer que não é questão nova, não digo, por implicação, que a resposta de Dabashi seja ultrapassada. Quero dizer que as questões de que hoje se trata foram debatidas na África, no Caribe e na América do Sul, no final dos anos 50s e nos anos 60s. Mas foram discutidas “entre nós”, não “com eles”.

Kishore Mahbubani
Agora, o diferencial de potência epistêmica começou a ser discutido entre todos “nós”, filósofos não europeus e filósofos europeus. A exceção no domínio da diplomacia foi Kishore Mahbubani, que levantou a questão em seu polêmico Can Asians Think? [Asiáticos pensam?] (1999).

Contudo, se queremos usar o termo “filosofia” para identificar pensadores, sejam europeus ou não europeus, devo dizer que, ainda que Zizek possa ser o mais importante filósofo contemporâneo, seu trabalho é menos relevante para muitos que o trabalho do filósofo jamaicano Lewis Ricardo Gordon; ou do filósofo iraniano Seyyed Hossein Nasr; ou do filósofo chinês Wang Hui; ou do egípcio Nawal El Saadawi ou do filósofo latino-americano Enrique Dussel.

E se por trás de Zizek há Derrida na filosofia continental, por trás de Gordon há Fanon na filosofia africana; por trás de Seyyed Hossein Nasr há Ali Shariati na filosofia muçulmana; por trás de Wang Hui há Liu Xun na filosofia chinesa; por trás de El Sadawi, o legado da falsafa muçulmana. E por trás de Dussel há Rodolfo Kusch na filosofia latino-americana.

A relevância não é universal; depende do universo de significação e do sistema de crenças sob o qual se determina a relevância. Temos aqui um mundo diverso de pensadores e filósofos no processo de desocidentalizar e descolonizar o legado imperial da filosofia ocidental.

A questão da filosofia no mundo não europeu jamais foi fácil. Pensadores africanos e latino-americanos com formação e treinamento em filosofia debateram, nos anos 1970s, essa questão crucial: “Há filosofia africana/latino-americana?” Seria pergunta impensável na Alemanha, nos mesmos anos.

Robert Bernasconi
Robert Bernasconi, escrevendo sobre o filósofo afro-americano Lucius T Outlaw, resumiu o dilema nos seguintes termos:

A filosofia ocidental captura a filosofia africana numa dupla armadilha: ou a filosofia africana é tão semelhante à filosofia ocidental, que não faz contribuição significativa e, efetivamente, desaparece; ou é tão diferente que suas credenciais para ser definida como genuína filosofia sempre estarão sob suspeita (Bernasconi 1998, 188; Postcolonial African Philosophy: A Critical Reader)

É o gargalo e o quebra-cabeça que atormenta pensadores com formação e treinamento acadêmico em filosofia na África, na América do Sul e no Caribe.

Comunismo é uma opção

Tudo o que acima ficou dito leva-me à questão do comunismo, foco da resposta de Zabala, e dos quatro poderosos antagonismos que – segundo Zizek – poderiam impedir a infinita reprodução do capitalismo:

1. “A ameaça sempre crescente da catástrofe ecológica”.
2. “A apropriação indevida da noção de propriedade privada, para a chamada “propriedade intelectual”.
3. “As implicações socioéticas dos novos desenvolvimentos técnico-científicos (especialmente na biogenética)”.
4. “Novas formas de apartheid, novos muros, novas favelas”.

Nas últimas duas décadas, muito tenho ouvido sobre esses quatro pontos mencionados por várias pessoas, não só filósofos mas também pensadores e militantes sérios. Não estou dizendo que Zabala estaria dizendo que Zizek seria o primeiro a pensar sobre essas questões, nem que seria muito importante que Zizek tivesse trazido essas questões para o debate filosófico europeu. De fato, seria desnecessária arrogância supor que o mundo, particularmente o mundo não europeu, careceria de que Zizek nos informasse de que o mundo está pegando fogo.

Para Zabala, “Ser comunista em 2012 não é escolha política, mas questão existencial. Os níveis globais de desigualdade política, econômica e social aos quais chegaremos esse ano, por causa da lógica capitalista de produção, não são só “muito graves”: eles ameaçam nossa existência”.

Ora, reconhecer os problemas não significa que o único meio para avançar seja o comunismo. E, como a história nos ensina, identificar o problema tampouco significa que só haja uma solução. Ou, dito ainda de outro modo: vários podem coincidir na prospectiva de um futuro global desejável; o que não implica que o comunismo seria o único modo de andar até lá.

Não há uma única solução, simplesmente porque há muitos modos de ser, o que significa diferentes meios de pensar e de fazer. O comunismo é escolha. O comunismo não é um universal abstrato.

Tariq Ramadan
Ao mesmo tempo, é necessário reconhecer que o comunismo é escolha forte, na Europa. Talvez não seja opção para migrantes da Ásia e da África (talvez seja escolha para migrantes da América Latina, sobretudo os que tenham ascendência europeia), ou talvez seja ideia a ser promovida por Tariq Ramadan (europeu muçulmano e filósofo muçulmano).

Mas na Europa, com certeza, é escolha inescapável. Afinal, o comunismo nasceu na Europa.

No mundo não europeu, o comunismo é mais parte do problema, que parte da solução. O que não significa que, se você não é comunista, no mundo não europeu, você é capitalista.

O ponto de referência nesse debate foi e continua a ser a Conferência de Bandung, convocada por Sukarno em 1955. O legado de Bandung não é nem o capitalismo nem o comunismo, mas a descolonialidade e a desocidentalização (o que significa distanciar-se tanto do comunismo quanto do capitalismo).

Caso a observar, hoje, pode ser a Bolívia. A fórmula “socialismo comunitarista” do Estado da Bolívia é rejeitada pelo CONAMAQ (Conselho Nacional de Ayllus e Markas do Qullasuyu), organização liderada por aimaras e quechuas, que trabalham para a reorganização dos ayllus e markas de Tawantinsuyu.

Não há espaço aqui para explicar o que significa tudo isso (e esse, precisamente, é problema do eurocentrismo: gastar espaço, sem explicar o que não se encaixe no interesse dos europeus, de esquerda ou de direita), mas significa, basicamente que há modo de ser baseado no comunal, a partir da perspectiva de harmonia baseada  na história das civilizações andinas, não na da civilização europeia.

Assim sendo, o fato de que Zizek e outros intelectuais europeus estejam repensando seriamente o comunismo significa que abraçam uma opção (reorientar a esquerda) dentre várias que, hoje, marcham na direção de uma ideia de harmonia que sobrepassa a necessidade de guerra; sobrepassa o sucesso e a competição que gera corrupção e egoísmo, e promove a plenitude da vida, sobre o desenvolvimento e a morte.

Frantz Fanon
Construindo um futuro harmonioso

Em resumo, a troca de ideias – nessa publicação – entre Santiago Zabala e Hamid Dabashi lança luz sobre uma questão fundamental na construção global de futuros harmoniosos. Há um paralelo entre a crescente convicção quanto ao fracasso do neoliberalismo no mundo não europeu, que acompanha a crescente convicção dos limites (e ao mesmo tempo do valor) da filosofia continental.

Sartre resumiu tudo isso no prefácio que escreveu para Os Condenados da Terra de Frantz Fanon (1961), ao dizer, falando ao público francês e europeu: “Prestem atenção, ouçam o que Fanon diz: ele já não está falando conosco”. 


 

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

O Mali, a França e os extremistas


18/1/2013, Tariq Ramadan, Journal du Mali
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Tariq Ramadan
O mundo observa, e a classe política francesa parece unanimemente de acordo quanto ao início de uma intervenção militar ao norte do Mali contra os “islamistas”, “jihadistas”, “extremistas”. Nada a criticar por o governo ter-se engajado sozinho, mas a decisão de iniciar ação militar foi considerada “justa”. O presidente francês, François Hollande, que parecia perdido no coração de governo confuso e desorientado, aplica belo polimento ao brasão e reconstrói para si a imagem de homem de Estado, de chefe de guerra, que quer “destruir o inimigo”, “impedi-lo de avançar”. E assim a França vê luzir no norte do Mali, afinal, a imagem de um presidente firme, forte, determinado, instalado em Paris.

É preciso começar pelo começo e assumir posição clara. A ideologia e as práticas das redes, grupos e grupúsculos de salafistas jihadistas e extremistas devem ser condenadas com absoluta firmeza. O modo como compreendem o Islã, o modo odioso como instrumentalizam a religião é abominável, os castigos físicos e corporais são absolutamente inaceitáveis.

Mais uma vez, a consciência muçulmana contemporânea internacional deve manifestar-se alto e forte para dizer e repetir que aquela compreensão e aquela aplicação do Islã são traição, são horrendas, são vergonhosas. Os primeiros a oporem-se àquilo têm de ser os muçulmanos, pessoalmente, e as sociedades majoritariamente muçulmanas. Politicamente, intelectualmente e com toda a força da consciência e do coração, sem restrições, sem concessões.

A essa firme posição de princípio, é preciso acrescentar a análise geoestratégica, e não confundir a clara posição moral, de um lado; com uma posição política ingênua, binária, simplista. Ser contra os extremistas jihadistas não implica, não, de modo algum, aceitar sem protesto a política francesa naquela região.

A expressão “estão conosco ou estão contra nós” de George W. Bush é falsa nos fundamentos e perigosa tanto na substância como nas consequências. Por trás do engajamento “nobre” da França ao lado dos povos africanos ameaçados, há algumas questões que têm de ser expostas e explicadas com clareza.

O ocidente em geral e a França em particular esqueceram aqueles povos durante décadas, sob ditaduras na Tunísia, no Egito e na Líbia, antes de porem-se a entoar loas a “revoluções”, à “primavera árabe” e à liberdade. Na Líbia, a intervenção humanitária encobriu aspectos sombrios, odores de interesses petroleiros e econômicos mal dissimulados, quando não declarados.

Amadou Toumani Touré
Poucos meses adiante, a França intervém no Norte do Mali para o bem do povo, com a única intenção declarada de proteger aquele país “amigo” do perigo dos extremistas aliados a rebeldes tuaregues. É o que dizem. Em todas as exposições políticas e midiáticas dos fatos, faltam dados econômicos e geoestratégicos – o que é grave. Nada se diz da história longa, nem da história recente, das alianças da França com vários e sucessivos governos do Mali. Tudo se passa como se a França não fizesse outra coisa além de exprimir solidariedades políticas gratuitas aos povos, generosamente, sem outra intenção ou projeto.

De fato, nos bastidores dos recentes tumultos políticos jamais deixou de haver o dedo da França, que interveio, que pressionou, que descartou os atores malineses que a perturbavam (fossem políticos ou militares), que fez alianças úteis, que participou de reuniões do governo e também de reuniões em territórios tribais, em espaços civis e militares. Amadou Toumani Touré, derrubado por um golpe de Estado dia 22/3/2012, foi enormemente fragilizado e acabou isolado após a queda do coronel Gaddafi.

Região do Magreb (noroeste da África)
Parece ter pago o preço político que lhe foi imposto por suas políticas favoráveis ao Norte e por suas ideias sobre a atribuição de futuros mercados de exploração do petróleo. Os laços (várias vezes difíceis) entre a França e a organização separatista “Movimento Nacional para a Libertação do Azawad” (MNLA) não são segredo; aqueles laços levaram a que se instalasse uma fratura entre o sul e o norte do Mali, bem útil para os que se programavam para explorar riquezas minerais muito promissoras. A presença da Al-Qaeda no Magreb Islâmico (AQIM)  e a aliança que fez com as tribos tuaregues no Norte são já há três anos, e ainda mais agora, como se vê, fatores que explicam também, mas nada explicam sozinhos, a presença militar francesa na região – a qual foi afinal oficializada depois de declarada “a guerra”, há poucos dias.

A região do Sahel (hachurada) no noroeste africano é comum a vários países
O governo francês e os executivos da transnacionais de petróleo e gás sempre minimizaram o mais possível as descobertas de recursos minerais na região do Sahel entre a Mauritânia, o Mali, o Niger e a Argélia. Em certo momento, falou-se de um “milagre malinês”. Mas fato é que os dados são bem mais conhecidos e comprovados do que fazem crer as “declarações”.

Jean François Arrighi de Casanova, diretor da Total francesa para o norte da África, não hesitou em falar de “um novo Eldorado”, ante a descoberta de gigantescas jazidas de petróleo e gás. Há naquela área nada menos que cinco bacias muito promissoras. A bacia de Touadenni, na fronteira com a Mauritânia, já revelou a importância de seus recursos. A essa se acrescentam as bacias de Tamesna e de Lullemeden (na fronteira com o Niger), a bacia de Nara (perto de Mopti) e a bacia de Gao.

Reservas de petróleo no Mali ( Como os franceses são bonzinhos!)
A Autoridade para Pesquisa de Petróleo [orig. Autorité pour la Recherche Pétrolière (AUREP)] confirma o potencial do subsolo do norte do Mali (essencialmente, são reservas de gás e petróleo). O Mali, a Mauritânia, a Argélia e o Niger são os primeiros afetados e – com a queda do coronel Gaddafi – as perspectivas de exploração abriram-se para empresas francesas (à frente delas, a Total), italianas (ENI) e argelinas (Sipex, filial de Sonatrach) que já investiram mais de 100 milhões de dólares (segundo estimativas) em estudos e sondagens, apesar das dificuldades devidas à aridez da região e à segurança precária.

O amigo povo malinês vale bem que a França o defenda, seu sangue, sua liberdade e sua dignidade, sobretudo se se sabe que, acessoriamente, o trabalho implicará farta sobremesa em gás e petróleo. Os recursos minerais do norte do Mali não são fantasia, nem são miragem. Miragem é, isso sim, a descolonização.

Ninguém pode negar a existência de grupos extremistas violentos e radicalizados que constroem e disseminam compreensão pervertida e inaceitável do Islã. É verdade e já o dissemos: é necessário condená-los. É preciso ver e mostrar que esses grupos adotam estratégias políticas contraditórias, além da muito suspeita tendência a aparecerem e se instalarem exatamente onde haja recursos minerais em disputa. Lá estavam, no Afeganistão (numa área imensamente rica de petróleo, gás, ouro, lítio...) e agora, outra vez... Não se entende por que os “loucos” extremistas aparecem agora instalados no Sahel malinês, para ali aplicar sua “xaria” desumana e tão pouco islâmica. No Sahel desértico!

É preciso dizer e repetir, para que não reste qualquer dúvida. Não se contesta que esses grupúsculos de islamistas existam. Mas é preciso explicar inúmeros detalhes de como seus grupos podem ter sido infiltrados (os serviços de informação USAmericanos, e também os europeus, já admitiram o uso de táticas de infiltração e de agentes provocadores ou instigadores). Os pontos onde os grupos islamistas instalaram-se e seus métodos de operação podem bem ter sido orientados, induzidos. Já se viu acontecer durante o governo de George W.Bush, vê-se agora outra vez no Mali, o quanto “terroristas” podem ser úteis.

Um chefe malinês falou de seus problemas, em nossa mais recente visita à região: “Temos ordem de exterminá-los, de destruí-los, mesmo que estejam desarmados. Não fazer prisioneiros! Fazemos de tudo para enlouquecê-los e empurrá-los para o radicalismo”. Espantosa estratégia de guerra!

O jornal Le Canard Enchaîné noticia que o aliado francês, o Qatar, teria assinado um acordo com a empresa Total – para as explorações no Sahel – e, paradoxalmente, daria também apoio logístico e financeiro a grupos radicais, como os “insurgentes do MNLA (independentistas e laicos) e os movimentos Ansar Dine, AQIM e MUJAO”. Caso tudo isso seja comprovado... haveria aí alguma contradição descabida? Ou seria modo de estimular a ação dos pirômanos extremistas, até o ponto em que se torne necessário, urgente, inadiável chamar os bombeiros (franceses)?

Uma divisão de funções, tão eficaz quanto cínica.

O mundo observa, e a recente captura de reféns na Argélia mobilizará ainda mais fortemente sentimentos nacionais em apoio à operação militar. Reféns USAmericanos, ingleses, noruegueses, etc. e tudo em solo da Argélia: o contexto extravasa da França. O povo do Mali rejubila-se, na maioria, muitos não são ingênuos: a França amiga é mais amiga sempre de seus interesses; e o seu modo de intervir seletivamente (na Líbia ou no Mali, mas não na Síria ou na Palestina) nada tem de novidade. A política enviesada da “France-Afrique” acabou, nos dizem, e as colonizações políticas e/ou econômicas já são cinza; raiou a liberdade; “soou a hora da dignidade das nações e da democracia”! É indispensável, pois, aderir beatamente a essa hipocrisia generalizada.

É preciso denunciar os extremismos, condenar ações extremistas e a instrumentalização da religião e das culturas, mas chega afinal o dia quando se tem também de olhar cara a cara as responsabilidades. Olhar cara a cara a responsabilidade dos Estados africanos e árabes que esquecem os princípios elementares da autonomia e da responsabilidade política (além do respeito e da dignidade de seus povos). Olhar cara a cara as elites africanas e árabes, e nós todos, que somos tão altamente incapazes de propor uma visão clara da independência política, econômica e cultural. Olhar cara a cara os povos que se deixam arrastar por emoções populares e miragens de “potências amigas”. Olhar cara a cara nós mesmos, todos, políticos, intelectuais e cidadãos preocupados com manter a dignidade e a justiça nos países do Sul. É preciso olhar firmemente o espelho da nossa responsabilidade decisiva quanto ao que se passa sob nossos olhos.

A “destruição” dos extremistas jihadistas do norte do Mali não é nem promessa, nem garantia de liberdade para o povo do Mali; é, isso sim, no longo prazo, uma forma, sofisticada, de nova alienação. Contudo, nunca como hoje as forças de resistência dos países do “Sul Global” (com os movimentos políticos e engajados do norte), nunca como hoje, dizíamos, essas forças encontraram melhor oportunidade para abrir novos horizontes e abrir novas trilhas da direção da própria liberdade.

Nada se vê hoje além dessa euforia, a celebração, ou então o silêncio, a ação libertadora da França e da “comunidade internacional” que unanimemente apoia a França. Como se o Oriente Médio e a África tivessem aceito ser submissos ante os últimos cartuchos lançados por esse ocidente que agoniza, ferido por suas dívidas, suas dúvidas e as crises econômicas, políticas e identitárias que o atravessam.

O melhor serviço que a África pode prestar a ela mesma, e ao ocidente, é não curvar-se à nostalgia e aos delírios de poder do ocidente, mas resistir-lhes com dignidade, com coerência, em nome dos valores que o próprio ocidente e a própria França defendem quase tanto quanto traem, diariamente, sob o peso de suas políticas de mentira e hipocrisia, na América Latina, na África, como na Ásia.

O norte do Mali é revelador. Ali se vê em ação o que mais medo nos deve causar: um povo que canta sua liberdade política à qual aparece associado um novo desenvolvimento econômico. E há políticos ou intelectuais africanos ou árabes que aplaudem o que veem (conscientes ou inconscientes, ingênuos, arrivistas ou interesseiros).

A hipocrisia e a covardia dos interesseiros espelha a hipocrisia e a manipulação das “grandes potências”.