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sábado, 9 de fevereiro de 2013

Mokhtar Belmokhtar, a nova cara da al-Qa’eda


(e por que é muito diferente de Osama bin Laden)

24/1/2013, Robert Fisk, The Independent, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Robert Fisk
“E ele foi atingido pela frente?” Pergunta Siward, sobre seu filho morto, em Macbeth. Quer saber se as feridas de seu filho provam que ele combatia contra homens de Macbeth quando morreu, ou se – se foi ferido pelas costas – fugia da luta. Macbeth teria sido magnífico ditador no Oriente Médio, obcecado pelo poder, assassinando os inimigos, oprimindo o povo sob influência de alguma cruel, impiedosa, feroz primeira dama.

Osama bin Laden
A al-Qa’eda, nas batalhas contra o inimigo infiel – russos, norte-americanos, israelenses todos os potentados do ocidente e árabes que lutam ou lutaram a nossa luta – jamais foge. Os ferimentos de combate são parte da personalidade da al-Qa’eda.Osama bin Laden vangloriou-se para mim, pessoalmente, das cicatrizes que as balas russas deixaram em seu corpo no Afeganistão – no total, três –, e Mullah Omar, líder dos Talibã, que usou a túnica do Profeta em Kandahar, sempre se orgulhou do olho que perdeu para os inimigos. Agora aí está Mokhtar Belmokhtar, mais um que perdeu um olho na guerra contra os inimigos de Deus.

Esse Cíclope não usa nenhum tipo de venda para ocultar a ferida. Foi-lhe arrancado, o olho, por “mujahedin” pró-ocidente no Afeganistão, depois da retirada dos soviéticos? Ou voou-lhe do rosto quando “lidava mal” com explosivos durante a guerra, quando Belmokhtar e seu bando ainda eram heróis, o equivalente – como aos olhos de Ronald Reagan, certa vez – dos nossos Pais Fundadores?

Hoje se esconde no – ou cavalga pelo, se se acreditar no que se ouve – Mali. Al-Qa’eda está de volta à luta, mas esse argelino veterano de muitos combates, é intrigante símbolo do caminho pelo qual vaga hoje a ferida organização que Osama bin Laden criou. Porque o currículo de Belmokhtar no Afeganistão já foi obnubilado por sua viciosa participação nos conflitos cruéis dos anos 1990s contra o regime militar em seu próprio país. Belmokhtar nasceu na Argélia, na cidade de Ghardaia. Tem 40 anos. Já é, hoje, mais, filho da corrupção que tomou conta de tantas das milícias islamistas armadas do norte da África.

Mokhtar Belmokhtar posa para foto com a bandeira da al-Qaeda e sua Kalashnikov
Quando viajou para o Afeganistão, tinha só 19 anos; quando lutou contra os igualmente cruéis paramilitares pró-governo na Argélia, já havia aprendido que raramente as guerras terminam; que a vitória acontece quando se humilham os inimigos, não quando se consuma alguma conquista militar.

Mas Belmokhtar é filho também da história de seu país. Nasceu exatamente um ano depois que o exército colonial francês retirou-se da Argélia; nasceu e foi criado em francês: fala a língua dos velhos opressores. Sempre falou perfeito francês. Os raros ocidentais que o viram – quase todos seus prisioneiros – jamais esqueceram a fluência com que se expressa em francês.

O fuzil Kalashnikov aos pés, Belmokhtar lia ostensivamente o Corão – imagem especular de Bin Laden – como líder da al-Qa’eda no Magreb Islâmico. Depois, quando se separou, muito depois de uma aparente derrota na Argélia, tornou-se chefe dos al-Muwaqqiun bil Dima, pouco confortavelmente, mas muito assustadoramente traduzido como “Os que Assinam com Sangue”. Os que sobreviveram às atrocidades no campo de gás de In Amenas, semana passada – e, creio, também os que não sobreviveram – entenderam o que significa a tradução.

Num vídeo, Belmokhtar falou da luta contra os que não creem – vale dizer, nós, o ocidente – da importância da Lei Islâmica e sobre o projeto islamista para o norte do Mali. É esperto e experiente demais para não saber que os tormentos do Mali brotam de décadas de recusa, pelos tuaregues-berberes-arabófonos do norte, a se deixarem governar por governantes negros do sul, mas foi arrastado – como Bin Laden no Afeganistão – para uma terra onde o poder centralizado era ou fraco ou inexistente. Quando grupos de direitos humanos recordavam a ferocidade das punições islamistas – amputações, execuções, opressão das mulheres; a lista que todos conhecemos bem – Belmokhtar falou de uma Xaria que deu comida aos pobres e promoveu justiça e direitos iguais entre muçulmanos.

Andrew Lebovich
Andrew Lebovich, analista que vive em Dakar e estuda a África, chamou a atenção para o fato de que o jihadismo de Belmokhtar pode ser muito genuíno, apesar de seu envolvimento com contrabando e tráfico; e que suas declarações públicas devem ser levadas a sério e estudadas com atenção. O norte do Mali foi ameaçado “pelas nações ocidentais Cruzadas, sobretudo a França” –Belmokhtar anunciou; e os agressores serão enfrentados “na casa deles”; conhecerão “o calor das feridas” em seus próprios países; terão seus interesses atacados. Aqui, de fato, havia um alerta sobre o que aconteceria em In Amenas.

Ayman al-Zawahiri
Belmokhtar saudou o Mullah Omar, líder dos Talibã e sucessor de Bin Laden, Ayman al-Zawahiri, “o emir perseverante”. Em outras palavras, declarou sua lealdade aos princípios originais da al-Qa’eda.

Mas o problema – que nós, ocidentais, nos recusamos a compreender – é que a própria al-Qa’eda mudou. Longe vão os dias quando essa perigosa instituição exigia a criação de um califato islâmico mundial.

O Despertar Árabe – as massas populares árabes em revolta contra ditaduras – fizeram de Bin Laden, passado. Pela televisão à que assistia em Abbottabad dias antes de ser assassinado pelos norte-americanos, Bin Laden viu que ninguém, sequer um único manifestante – do Cairo a Damasco, ao Iêmen – erguia a bandeira negra da al-Qa’eda ou carregava imagens suas.

Tenho informação de que, dentre os últimos comunicados trocados entre Bin Laden e seus seguidores no Iêmen havia o pedido de que traduzissem um artigo que escrevi para o The Independent, no qual descrevi a al-Qa’eda – depois de seu envolvimento em eventos de suicidas-bomba sunitas para matar xiitas no Iraque – como a organização mais sectária em todo o mundo. Bin Laden sempre protestou contra o papel de sua organização no banho de sangue, sectário, no Iraque. A partir daí, começou o reposicionamento da al-Qa’eda.

Abdel Bari Atwan
Abdel Bari Atwan, do jornal Al-Quds al-Arabi – que compreende melhor que ninguém o lado escuro da alma da al-Qa’eda – falou do tom “saudoso” com que Bin Laden sempre falou das montanhas Atlas do Magreb – as  Tora Bora do norte da África – e do interesse dos EUA na própria África. Muitos dos legionários de Bin Laden partiram do Afeganistão para a Argélia, o Mali, a Mauritânia, o Chad e o Níger, até para a Nigéria.

Hoje, os EUA importam tanto petróleo da Nigéria quanto da Arábia Saudita, país do qual Bin Laden é cidadão. Como Gaddafi – que Bin Laden amaldiçoou – a al-Qa’eda sabia apreciar a importância econômica da África. O próprio Bin Laden não viveu cinco anos de perigoso exílio no Sudão?

Num sentido tortuoso mas muito claro, os resultados da terrível guerra civil argelina trabalharam a favor de Belmokhtar. O presidente Bouteflika, querido amigo da França no norte da África, convocou bem-sucedido referendum que, para todos os efeitos, perdoou os combatentes islamistas, tanto quanto os torturadores de massa e esquadrões da morte do regime. Assim aconteceu que o ramo mais fraco da revolta islamista voltou para casa; e os mais duros, os que nunca perdoam, emigraram para os desertos através da fronteira da Argélia. Belmokhtar herdou uma katiba “saneada” – e uma nova versão da batalha de Bin Laden.

Desse ponto em diante, a “pureza das armas” da al-Qa’eda – e, isso, jamais se admitiu – seria dirigida, não para a esperança perdida de um califato mundial, mas para lutas que visariam a fazer curvarem-se os inimigos kafir [infiéis] do Islã. As táticas de batalha de Bin Laden permaneceriam inalteradas; só sua filosofia seria paulatinamente abandonada.

Abdulhamid Abu Zeid 
Hoje, seus combatentes – nas mãos de Belmokhtar ou de seu mais recente rival, o suposto asceta Abdulhamid Abu Zeid – lutam para humilhar os exércitos ocidentais que consigam arrastar para lutar no mundo muçulmano. Assim como qualquer soldado ocidental que fosse arrastado para o Afeganistão e Iraque foi alvo vivo, assim também, agora, cada soldado francês que pise no Mali pode virar alvo vivo.

Humilhar todos os poderosos exércitos ocidentais, forçá-los a baixar a cabeça, arrastá-los para alianças pervertidas com seus amaldiçoados aliados. Essa é, hoje, a ordem de batalha da al-Qa’eda.

Quanto mais a França – e os EUA e a Grã-Bretanha – puderem ser provocadas e empurradas a aliarem-se ao feroz governo da Argélia, ou aos assassinos reunidos no exército do Mali, maior, mais ampla, a vitória da al-Qa’eda.

David Cameron
Mas o horror de franceses e britânicos ante o massacre de reféns e também de insurgentes em In Amenas já foi, rapidamente demais, apagado da memória. Ingenuamente, David Cameron – e seguindo um script que parece ter sido redigido por Belmokhtar – proclamou que “nossa determinação é mais forte que nunca, para trabalhar com nossos aliados em todo o mundo até desentocar, até derrotar a praga terrorista”.

À parte os horrendos clichês (“desentocar”, “a praga”) – em tudo semelhantes à tediosa retórica da al-Qa’eda – Cameron efetivamente subordinou o Reino Unido ao regime assassino na Argélia. O mundo encheu-se de Macbeths.

Agora, grupos de direitos humanos começam a informar sobre assassinatos-retaliação de civis tuaregues em cidades recentemente “libertadas” pelo exército do Mali. “Diplomatas ocidentais”, esse bando de charlatães sempre tão reverenciados por nós jornalistas, dizem agora que “há muito tempo alertamos para o risco de o exército do Mali envolver-se em assassinatos-retaliação.” Pena que não telefonaram há um mês!

Jean-Yves le Drian
E lá vem o ministro francês da Defesa, Jean-Yves le Drian, a nos informar que os insurgentes de Belmokhtar “diversificaram suas táticas. Podem desaparecer a qualquer momento de qualquer cidade, ou confundem-se com a população... Estamos em guerra de guerrilha urbana, além da guerra tradicional. Quero dizer... não é fácil”. Mas... andava tão calado! Por que não contou essa, há um mês?!

A Associated Press – tenho de admitir que não é minha agência favorita, em matéria de fatos realmente acontecidos – publicou essa semana matéria brilhante, notável, assinada por Rukmini Callimachi,  um relato de como o jihadista Abdulhamid Abu Zeid, parceiro de Belmokhtar, chegou à cidade maliana de Diabaly, requisitou casas de civis, com a ajuda de veteranos do Iraque e do Afeganistão, e ali se escondeu para fugir dos ataques aéreos dos franceses; distribuiu brinquedos para as crianças, ofereceu-se para pagar aluguel, distribuiu dinheiro para comprar água e, sob a proteção de cinco combatentes armados, comeu comida importada da Argélia. “Comeu spaghetti, tomou leite em pó, leu o Corão e planejou sua guerra”.

É isso. Ignorem aqueles homens e serão derrotados na “guerra ao terror”. Façam guerra contra eles e serão humilhados. O argelino Belmokhtar compreende bem o processo. O ocidente’’ não compreende. Táticas diversificadas, diz-nos o ministro francês. Confundem-se com a população. Camuflagem. A floresta de Birnam pôs-se a caminho, rumo a Dunsinane.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

O Mali, a França e os extremistas


18/1/2013, Tariq Ramadan, Journal du Mali
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Tariq Ramadan
O mundo observa, e a classe política francesa parece unanimemente de acordo quanto ao início de uma intervenção militar ao norte do Mali contra os “islamistas”, “jihadistas”, “extremistas”. Nada a criticar por o governo ter-se engajado sozinho, mas a decisão de iniciar ação militar foi considerada “justa”. O presidente francês, François Hollande, que parecia perdido no coração de governo confuso e desorientado, aplica belo polimento ao brasão e reconstrói para si a imagem de homem de Estado, de chefe de guerra, que quer “destruir o inimigo”, “impedi-lo de avançar”. E assim a França vê luzir no norte do Mali, afinal, a imagem de um presidente firme, forte, determinado, instalado em Paris.

É preciso começar pelo começo e assumir posição clara. A ideologia e as práticas das redes, grupos e grupúsculos de salafistas jihadistas e extremistas devem ser condenadas com absoluta firmeza. O modo como compreendem o Islã, o modo odioso como instrumentalizam a religião é abominável, os castigos físicos e corporais são absolutamente inaceitáveis.

Mais uma vez, a consciência muçulmana contemporânea internacional deve manifestar-se alto e forte para dizer e repetir que aquela compreensão e aquela aplicação do Islã são traição, são horrendas, são vergonhosas. Os primeiros a oporem-se àquilo têm de ser os muçulmanos, pessoalmente, e as sociedades majoritariamente muçulmanas. Politicamente, intelectualmente e com toda a força da consciência e do coração, sem restrições, sem concessões.

A essa firme posição de princípio, é preciso acrescentar a análise geoestratégica, e não confundir a clara posição moral, de um lado; com uma posição política ingênua, binária, simplista. Ser contra os extremistas jihadistas não implica, não, de modo algum, aceitar sem protesto a política francesa naquela região.

A expressão “estão conosco ou estão contra nós” de George W. Bush é falsa nos fundamentos e perigosa tanto na substância como nas consequências. Por trás do engajamento “nobre” da França ao lado dos povos africanos ameaçados, há algumas questões que têm de ser expostas e explicadas com clareza.

O ocidente em geral e a França em particular esqueceram aqueles povos durante décadas, sob ditaduras na Tunísia, no Egito e na Líbia, antes de porem-se a entoar loas a “revoluções”, à “primavera árabe” e à liberdade. Na Líbia, a intervenção humanitária encobriu aspectos sombrios, odores de interesses petroleiros e econômicos mal dissimulados, quando não declarados.

Amadou Toumani Touré
Poucos meses adiante, a França intervém no Norte do Mali para o bem do povo, com a única intenção declarada de proteger aquele país “amigo” do perigo dos extremistas aliados a rebeldes tuaregues. É o que dizem. Em todas as exposições políticas e midiáticas dos fatos, faltam dados econômicos e geoestratégicos – o que é grave. Nada se diz da história longa, nem da história recente, das alianças da França com vários e sucessivos governos do Mali. Tudo se passa como se a França não fizesse outra coisa além de exprimir solidariedades políticas gratuitas aos povos, generosamente, sem outra intenção ou projeto.

De fato, nos bastidores dos recentes tumultos políticos jamais deixou de haver o dedo da França, que interveio, que pressionou, que descartou os atores malineses que a perturbavam (fossem políticos ou militares), que fez alianças úteis, que participou de reuniões do governo e também de reuniões em territórios tribais, em espaços civis e militares. Amadou Toumani Touré, derrubado por um golpe de Estado dia 22/3/2012, foi enormemente fragilizado e acabou isolado após a queda do coronel Gaddafi.

Região do Magreb (noroeste da África)
Parece ter pago o preço político que lhe foi imposto por suas políticas favoráveis ao Norte e por suas ideias sobre a atribuição de futuros mercados de exploração do petróleo. Os laços (várias vezes difíceis) entre a França e a organização separatista “Movimento Nacional para a Libertação do Azawad” (MNLA) não são segredo; aqueles laços levaram a que se instalasse uma fratura entre o sul e o norte do Mali, bem útil para os que se programavam para explorar riquezas minerais muito promissoras. A presença da Al-Qaeda no Magreb Islâmico (AQIM)  e a aliança que fez com as tribos tuaregues no Norte são já há três anos, e ainda mais agora, como se vê, fatores que explicam também, mas nada explicam sozinhos, a presença militar francesa na região – a qual foi afinal oficializada depois de declarada “a guerra”, há poucos dias.

A região do Sahel (hachurada) no noroeste africano é comum a vários países
O governo francês e os executivos da transnacionais de petróleo e gás sempre minimizaram o mais possível as descobertas de recursos minerais na região do Sahel entre a Mauritânia, o Mali, o Niger e a Argélia. Em certo momento, falou-se de um “milagre malinês”. Mas fato é que os dados são bem mais conhecidos e comprovados do que fazem crer as “declarações”.

Jean François Arrighi de Casanova, diretor da Total francesa para o norte da África, não hesitou em falar de “um novo Eldorado”, ante a descoberta de gigantescas jazidas de petróleo e gás. Há naquela área nada menos que cinco bacias muito promissoras. A bacia de Touadenni, na fronteira com a Mauritânia, já revelou a importância de seus recursos. A essa se acrescentam as bacias de Tamesna e de Lullemeden (na fronteira com o Niger), a bacia de Nara (perto de Mopti) e a bacia de Gao.

Reservas de petróleo no Mali ( Como os franceses são bonzinhos!)
A Autoridade para Pesquisa de Petróleo [orig. Autorité pour la Recherche Pétrolière (AUREP)] confirma o potencial do subsolo do norte do Mali (essencialmente, são reservas de gás e petróleo). O Mali, a Mauritânia, a Argélia e o Niger são os primeiros afetados e – com a queda do coronel Gaddafi – as perspectivas de exploração abriram-se para empresas francesas (à frente delas, a Total), italianas (ENI) e argelinas (Sipex, filial de Sonatrach) que já investiram mais de 100 milhões de dólares (segundo estimativas) em estudos e sondagens, apesar das dificuldades devidas à aridez da região e à segurança precária.

O amigo povo malinês vale bem que a França o defenda, seu sangue, sua liberdade e sua dignidade, sobretudo se se sabe que, acessoriamente, o trabalho implicará farta sobremesa em gás e petróleo. Os recursos minerais do norte do Mali não são fantasia, nem são miragem. Miragem é, isso sim, a descolonização.

Ninguém pode negar a existência de grupos extremistas violentos e radicalizados que constroem e disseminam compreensão pervertida e inaceitável do Islã. É verdade e já o dissemos: é necessário condená-los. É preciso ver e mostrar que esses grupos adotam estratégias políticas contraditórias, além da muito suspeita tendência a aparecerem e se instalarem exatamente onde haja recursos minerais em disputa. Lá estavam, no Afeganistão (numa área imensamente rica de petróleo, gás, ouro, lítio...) e agora, outra vez... Não se entende por que os “loucos” extremistas aparecem agora instalados no Sahel malinês, para ali aplicar sua “xaria” desumana e tão pouco islâmica. No Sahel desértico!

É preciso dizer e repetir, para que não reste qualquer dúvida. Não se contesta que esses grupúsculos de islamistas existam. Mas é preciso explicar inúmeros detalhes de como seus grupos podem ter sido infiltrados (os serviços de informação USAmericanos, e também os europeus, já admitiram o uso de táticas de infiltração e de agentes provocadores ou instigadores). Os pontos onde os grupos islamistas instalaram-se e seus métodos de operação podem bem ter sido orientados, induzidos. Já se viu acontecer durante o governo de George W.Bush, vê-se agora outra vez no Mali, o quanto “terroristas” podem ser úteis.

Um chefe malinês falou de seus problemas, em nossa mais recente visita à região: “Temos ordem de exterminá-los, de destruí-los, mesmo que estejam desarmados. Não fazer prisioneiros! Fazemos de tudo para enlouquecê-los e empurrá-los para o radicalismo”. Espantosa estratégia de guerra!

O jornal Le Canard Enchaîné noticia que o aliado francês, o Qatar, teria assinado um acordo com a empresa Total – para as explorações no Sahel – e, paradoxalmente, daria também apoio logístico e financeiro a grupos radicais, como os “insurgentes do MNLA (independentistas e laicos) e os movimentos Ansar Dine, AQIM e MUJAO”. Caso tudo isso seja comprovado... haveria aí alguma contradição descabida? Ou seria modo de estimular a ação dos pirômanos extremistas, até o ponto em que se torne necessário, urgente, inadiável chamar os bombeiros (franceses)?

Uma divisão de funções, tão eficaz quanto cínica.

O mundo observa, e a recente captura de reféns na Argélia mobilizará ainda mais fortemente sentimentos nacionais em apoio à operação militar. Reféns USAmericanos, ingleses, noruegueses, etc. e tudo em solo da Argélia: o contexto extravasa da França. O povo do Mali rejubila-se, na maioria, muitos não são ingênuos: a França amiga é mais amiga sempre de seus interesses; e o seu modo de intervir seletivamente (na Líbia ou no Mali, mas não na Síria ou na Palestina) nada tem de novidade. A política enviesada da “France-Afrique” acabou, nos dizem, e as colonizações políticas e/ou econômicas já são cinza; raiou a liberdade; “soou a hora da dignidade das nações e da democracia”! É indispensável, pois, aderir beatamente a essa hipocrisia generalizada.

É preciso denunciar os extremismos, condenar ações extremistas e a instrumentalização da religião e das culturas, mas chega afinal o dia quando se tem também de olhar cara a cara as responsabilidades. Olhar cara a cara a responsabilidade dos Estados africanos e árabes que esquecem os princípios elementares da autonomia e da responsabilidade política (além do respeito e da dignidade de seus povos). Olhar cara a cara as elites africanas e árabes, e nós todos, que somos tão altamente incapazes de propor uma visão clara da independência política, econômica e cultural. Olhar cara a cara os povos que se deixam arrastar por emoções populares e miragens de “potências amigas”. Olhar cara a cara nós mesmos, todos, políticos, intelectuais e cidadãos preocupados com manter a dignidade e a justiça nos países do Sul. É preciso olhar firmemente o espelho da nossa responsabilidade decisiva quanto ao que se passa sob nossos olhos.

A “destruição” dos extremistas jihadistas do norte do Mali não é nem promessa, nem garantia de liberdade para o povo do Mali; é, isso sim, no longo prazo, uma forma, sofisticada, de nova alienação. Contudo, nunca como hoje as forças de resistência dos países do “Sul Global” (com os movimentos políticos e engajados do norte), nunca como hoje, dizíamos, essas forças encontraram melhor oportunidade para abrir novos horizontes e abrir novas trilhas da direção da própria liberdade.

Nada se vê hoje além dessa euforia, a celebração, ou então o silêncio, a ação libertadora da França e da “comunidade internacional” que unanimemente apoia a França. Como se o Oriente Médio e a África tivessem aceito ser submissos ante os últimos cartuchos lançados por esse ocidente que agoniza, ferido por suas dívidas, suas dúvidas e as crises econômicas, políticas e identitárias que o atravessam.

O melhor serviço que a África pode prestar a ela mesma, e ao ocidente, é não curvar-se à nostalgia e aos delírios de poder do ocidente, mas resistir-lhes com dignidade, com coerência, em nome dos valores que o próprio ocidente e a própria França defendem quase tanto quanto traem, diariamente, sob o peso de suas políticas de mentira e hipocrisia, na América Latina, na África, como na Ásia.

O norte do Mali é revelador. Ali se vê em ação o que mais medo nos deve causar: um povo que canta sua liberdade política à qual aparece associado um novo desenvolvimento econômico. E há políticos ou intelectuais africanos ou árabes que aplaudem o que veem (conscientes ou inconscientes, ingênuos, arrivistas ou interesseiros).

A hipocrisia e a covardia dos interesseiros espelha a hipocrisia e a manipulação das “grandes potências”.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Pepe Escobar: “Arde, queima, padece o Afeganistão africano”


18/1/2012, Pepe Escobar, Asia Times Online –The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Pepe Escobar (2011 Russia Today TV)
(De Londres). Não há quem não ame o rugido de um jato de combate Mirage 2000 francês, logo de manhã cedinho. Tem perfume delicioso de... café da manhã neocolonial ao molho Hollande. Perfeito “molho à areia movediça”.

Aparentemente, seria mamão com açúcar. No Mali vivem 15,8 milhões de pessoas – com PIB per capita de apenas US$1.000/ano e expectativa média de vida de 51 anos – num território duas vezes maior que o da França (que tem PIB per capita de $35 mil e subindo). Mas quase dois terços do território do Mali estão sob ocupação de islamistas de diferentes grupos pesadamente armados. Capítulo seguinte? Bombardeie, mon chou, bombardeie.

Mapa político do Mali e fronteiras. A parte norte/nordeste (hachurada em vermelho claro) está ocupada pelos rebeldes
Assim sendo, sejam todos bem-vindos à mais nova guerra africana: jatos Mirage e helicópteros Gazelle franceses da base francesa no Chad, mais uma esquadrilha de Rafales que decolam da França, bombardeando sem parar muçulmanos “jihadistas do mal” no norte do Mali. Business is good. O presidente François Hollande da França passou a terça-feira em Abu Dhabi acertando a venda de 60 Rafales àquele país que é caso exemplar de democracia do Golfo, os Emirados Árabes Unidos (EAU).

O ex-frouxo Hollande – já hoje vivendo as delícias da nova imagem de “resoluto”, “determinado” & “durão” – alcançou pleno sucesso no negócio de venda dessas armas para bombardear/incinerar islamistas na savana e tentar dar cabo deles lá mesmo, antes que embarquem com passagem só de ida Bamako-Paris para bombardear-incinerar a Tour Eiffel.

Há soldados das Forças Especiais Francesas em operação em campo no Mali desde o início de 2012.

O Movimento para a Libertação de Azawad (NMLA) liderado pelos tuaregues, por um de seus líderes, diz-se agora “a postos para ajudar” a ex-potência colonial, apresentando-se como mais confiável como fonte de conhecimento e informações sobre o terreno e a cultura locais que as futuras forças de intervenção da CEDEAO (Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental).

Os jihadistas-salafistas no Mali arranjaram imensíssimo problema para eles mesmos: escolheram mal o campo de batalha. Estivessem eles na Síria, estariam recebendo quantidade infindável de armas, bases logísticas, um “observatório” com sede em Londres, horas e horas de vídeos em YouTube e irrestrito apoio diplomático, gentilmente a eles ofertados pelos suspeitos de sempre – EUA, Grã-Bretanha, Turquia, as petromonarquias do Golfo e – oui, monsieur – a França, há muito tempo.

Mapa do Mali com as áreas controladas pelos jihadistas e o locais atualmente bombardeados pela intervenção França - OTAN
Mas optaram pelo Mali... o que lhes valeu imediata chuva de golpes do Conselho de Segurança da ONU, o qual – mais rápido que um selecionado de super-heróis Marvel – autorizou que a França se pusesse à frente da guerra contra eles (no Mali, não na Síria). Seus vizinhos da África Ocidental – parte do bloco regional ECOWAS (Economic Community Of West African States, trad. Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental) – receberam um ultimato (no final de novembro) para comparecerem, trazendo um plano de guerra. Sendo ali a África, nada aconteceu – e os islamistas continuaram avançando até a semana passada, quando Paris, afinal, decidiu aplicar-lhes boa porção de molho Hollande.

Nem um estádio de futebol repleto dos melhores xamãs da África Ocidental conseguirão impor ordem sobre um bando disparatado – e terrivelmente empobrecido – de países, para organizar em curto prazo um exército de intervenção, ainda que a aventura seja totalmente paga pelo ocidente, exatamente como o exército liderado por Uganda que combate a rede al-Shabaab na Somália.

Para completar o quadro onde nada é fácil, os jihadistas-salafistas são imensamente ricos, cortesia da explosão do contrabando de cocaína da América do Sul via Mali para a Europa, além do tráfico de seres humanos. Segundo o escritório da ONU para Controle de Drogas, 60% de toda a cocaína que chega à Europa passa pelo Mali. Aos preços das ruas de Paris, são mais de 11 bilhões de dólares.

Turbulência à frente

O general Carter Ham, comandante do Comando Norte - Americano, o Pentágono na África, AFRICOM, há meses vem alertando sobre crise gravíssima. Chamemos de profecia que se faz, ela mesma, acontecer. Mas o que está, de fato, acontecendo no que o New York Times arcaica e astutamente chama de aquelas “longas e turbulentas trilhas do Sahara”?(Ver em: French Strikes in Mali Supplant Caution of U.S.)  

Amadou Touré
Tudo começou com um golpe militar em março de 2012, apenas um mês antes das eleições presidenciais no Mali, que depôs o então presidente Amadou Toumani Touré. Os golpistas justificaram o golpe, dizendo que seria resposta a incompetência do governo que não dava combate aos tuaregues.

No comando do golpe apareceu um capitão Amadou Haya Sanogo, velho amigo íntimo do Pentágono; a intimidade incluiu quatro meses de um curso básico de treinamento, do qual Sanogo emergiu como oficial de infantaria, em Fort Benning, Georgia, em 2010. Sanogo foi criado, essencialmente, pelo AFRICOM, sob um esquema regional que incluía o programa Parceria do Contraterrorismo Tans-Sahara do Departamento de Estado com a Operação “Liberdade Duradoura” do Pentágono. Desnecessário dizer que em todo esse negócio de “liberdade”, o Mali entrava como “firme aliado” – e parceiro no contraterrorismo – para combater (pelo menos em teoria) a Al-Qaeda no Maghreb Islâmico [em ing.: al-Qaeda in the Islamic Maghreb (AQIM)].

Amadou Haya Sanogo
Ao longo dos últimos anos, o jogo de Washington foi sendo elevado à categoria de uma das Belas Artes. Durante o segundo governo de George W. Bush, as Forças Especiais estiveram muito ativas ao lado dos tuaregues e de argelianos. Durante o primeiro mandato de Obama, começaram a apoiar o governo do Mali contra os tuaregues.

Uma opinião pública desavisada passará os olhos pelos jornais de Rupert Murdoch – por exemplo, no The Times of London – e no que escreve um suposto correspondente da Defesa – que lá aparecerá pontificando à vontade sobre o Mali, sem jamais escrever uma palavra sobre a guerra do Mali ser a guerra da Líbia que volta, como chicote que chicoteia o lombo do chicoteador.

Muammar Gaddafi
Muammar Gaddafi sempre apoiou o desejo de independência dos tuaregues; desde os anos 1960s, a agenda do NMLA sempre foi separar o Azawad (região no norte do Mali), do governo de Bamako.

Depois do golpe de março de 2012, o NMLA parecia estar no comando. Plantaram a própria bandeira em alguns poucos prédios do governo e, dia 5/4/2012, anunciaram a criação de um novo país tuaregue independente. A “comunidade internacional” os menosprezou e, poucos meses depois, o NMLA já havia sido completamente marginalizado para todas as finalidades práticas, mesmo em sua própria região, por três outros grupos – os três islamistas: Ansar ed-Dine (“Defensores da Fé”); o Movimento por Unidade e Jihad no Oeste da África [orig. Movement for Unity and Jihad in West Africa (MUJAO); e a al-Qaeda no Maghreb Islâmico [orig. al-Qaeda in the Islamic Maghreb (AQIM)].

Conheçam os jogadores

Abu Zaid al Kuwaiti
O NMLA é movimento tuaregue laico, criado em outubro de 2011. Prega que a separação do Azawad permitirá melhor integração – e desenvolvimento – para todos os povos da região. Os combatentes do núcleo duro são tuaregues, os quais Gaddafi cuidou de integrar ao seu exército. Mas há também rebeldes que não entregaram as armas depois da rebelião tuaregue de 2007-2008, e alguns desertaram do exército do Mali. Os que retornaram ao Mali depois de Gaddafi ter sido assassinado por “rebeldes da OTAN” na Líbia, trouxeram muito armamento pesado. Parte considerável desse armamento pesado acabou, sim, em mãos dos próprios “rebeldes da OTAN” – islamistas apoiados pelo ocidente.

Mokhtar Belmokhtar
A al-Qaeda no Maghreb (AQIM) é o ramo norte-africano da Al-Qaeda, que jura fidelidade ao “Doutor”, Ayman al-Zawahiri. Os dois principais líderes da AQIM são Abu Zaid e Mokhtar Belmokhtar [ver: Islamistas “do Mali” matam 3 e fazem 41 reféns na Argélia], ex-membros do grupo linha-duríssima de islamistas argelinos, os Salafistas Para Pregação e Combate [orig. Salafist for Predication and Combat (SGPC)]. Belmokhtar fez a jihad no Afeganistão nos anos 1980s.

Abu Zaid aparece como uma espécie de “Jerônimo” (codinome: Osama bin Laden) do norte da África, sob a indispensável bandeira negra e uma Kalashnikov sempre bem à vista, ambas, nos vídeos pelos quais se manifesta. Mas o líder histórico é Belmokhtar. E o problema é, sim, Belmokhtar, conhecido pela inteligência francesa como “O Incapturável”; recentemente, Belmokhtar uniu-se ao Movimento por Unidade e Jihad no Oeste da África, MUJAO.

Os combatentes do Mujao vieram de todo o Magreb e  do Sahel
Os combatentes do MUJAO são todos ex-combatentes da Al-Qaeda no Maghreb Islâmico, AQIM. Em junho de 2012, o MUJAO expulsou o Movimento para a Libertação de Azawad (NMLA) e tomou a cidade de Gao – onde imediatamente passou a aplicar os piores aspectos da lei da Xaria. Essa semana, os Rafales franceses bombardearam várias vezes a base do MUJAO. Um dos porta-vozes do MUJAO ameaçou, com todas as formalidades necessárias, em nome de Alá”, responder àqueles ataques com ataque contra “o coração da França. 
E, para terminar, o grupo Ansar ed-Dine é grupo de tuaregues islamistas, organizado ano passado e comandado por Iyad ag Ghali, ex-comandante do NMLA, que se autoexilou na Líbia. Converteu-se ao salafismo por ação da pregação – ou inevitavelmente – de pregadores paquistaneses no norte da África; em seguida manteve longos contatos diretos com vários emires da al-Qaeda no Maghreb Islâmico, AQIM. Interessante observar que, em 2007, o presidente Touré do Mali, nomeou Ghali cônsul do Mali em Jeddah, Arábia Saudita. Foi depois devidamente expulso, em 2010, porque se aproximara demais de islamistas radicais.

Me arranje aí “um pouco mais de terrorismo”

Ninguém no ocidente se pergunta por que o golpe chefiado por Sanogo, amigo do Pentágono, terminou com quase 2/3 do território do Mali sob controle de islamistas que impuseram a Xaria mais linha duríssima em Azawad – especialmente em Gao, Timbuktu e Kidal, um catálogo macabro de execuções sumárias, amputações, apedrejamentos e destruição dos santuários em Timbuktu. Como é possível que a mais recente rebelião dos tuaregues tenha sido sequestrada por umas poucas centenas de islamistas linha super dura? E nem adianta perguntar aos drones dos EUA, que são mudos.

A retórica oficial do governo (“liderar pela retaguarda”) de Obama 2.0 sobre o tema soa, de fato, como delírio futurista: o bombardeio pelos franceses poderia “mobilizar jihadistas” em todo o mundo e levar a – e queriam que levasse a quê?! – ataques no ocidente. (Ver também em: French Strikes in Mali Supplant Caution of U.S.) [1]

Forças francesas aerotransportadas por aviões ingleses para o Mali
Mais uma vez, a velha boa Guerra Global ao Terror [orig. Global War on Terror (GWOT)] é a serpente que morde o próprio rabo.

Hilária Clinton
Não há como entender o Mali, sem examinar o que está acontecendo na Argélia. O jornal argelino El Khabar arranha só a superfície dos fatos, observando que “ao recusar-se categoricamente a uma intervenção – e dizer ao povo da região que seria perigoso”, Argel “abriu os céus da Argélia aos Mirages franceses”.

A Secretária de Estado, Hillary Clinton esteve em Argel em outubro passado, para organizar uma espécie de arremedo de exército ocidental-africano de intervenção. Hollande esteve em Argel em dezembro. Oh yes, oui-oui, a coisa esquentou mês a mês por ali!

Voltemos pois ao professor Jeremy Keenan, da Escola de Estudos Orientais e Africanos [orig. School of Oriental and African Studies (SOAS)] da Universidade de Londres, e autor de The Dark Sahara (Pluto Press, 2009) e de The Dying Sahara (Pluto Press, 2013).

Jeremy Keenan
Em artigo publicado na edição de janeiro de New African, Keenan escreve:

A Líbia foi fator catalisador da rebelião Azawad, não alguma causa subjacente. De fato, a catástrofe que se vê em curso no Mali é o resultado inevitável do modo como a Guerra Global ao Terror foi introduzida no Sahara-Sahel pelos EUA, mancomunados com agentes da inteligência da Argélia, desde 2002.

Em síntese, Bush e o regime argelino, ambos, estavam carentes, como Keenan diz, de “um pouco mais de terrorismo” na Região. Argel precisava disso como meio para obter armas de melhor tecnologia. E Bush – ou os neoconservadores por trás dele – precisavam também disso para criar o front sahariano da Guerra Global ao Terror, com a militarização da África como principal estratégia para controlar mais recursos energéticos, sobretudo o petróleo, pensando em, assim, derrotar os massivos investimentos chineses. Essa é a lógica subjacente que levou à criação do AFRICOM em 2008.

A inteligência argelina, Washington e os europeus usaram aplicadamente a al-Qaeda no Maghreb Islâmico (AQIM), infiltrando-se na liderança do grupo, para dali extrair “mais terrorismo”. Enquanto isso, a inteligência da Argélia ia configurando os tuaregues como “terroristas” – o pretexto perfeito para criar a Iniciativa de Contraterrorismo Trans-Sahariana de Bush, e a Operação Flintlock [2] do Pentágono – manobras militares trans-Sahara.

Os tuaregues sempre assustaram muito o povo da Argélia, que não conseguiam nem imaginar o sucesso de um movimento nacionalista no norte do Mali. Afinal, a Argélia sempre viu toda a região como seu quintal.

Região original dos Tuaregs (hachurada)
Os tuaregues – população nativa do Sahara Central e do Sahel – são 3 milhões. Mais de 800 mil vivem no Mali, menos no Niger, com pequenas concentrações na Argélia, em Burkina Faso e na Líbia. Houve nada menos de cinco rebeliões tuaregues no Mali desde a independência em 1960, três outras no Niger e muita turbulência na Argélia.

A análise de Keenan é absolutamente correta ao identificar o que aconteceu ao longo de 2012, com os argelinos meticulosamente destruindo a credibilidade e o impulso político do NMLA. Sigam o dinheiro: ambos, Iyad ag Ghaly do grupo Ansar ed-Dine e Sultan Ould Badi do MUJAO, são muito íntimos da agência de inteligência argelina, o DRS. Os dois grupos, de início, eram grupos bem pequenos.

De repente, chegou um tsunami de combatentes da al-Qaeda no Maghreb Islâmico. Essa é a única explicação de por que os tuaregues do NMLA foram, em apenas poucos meses, neutralizados politicamente e militarmente, em seu próprio território.

Reúnam os combatentes da liberdade de sempre

Susan Rice
A posição de Washington, liderando “pela retaguarda” aparece ilustrada nessa conferência de imprensa no departamento de Estado, em que fala Susan E. Rice, embaixadora dos EUA à ONU. Em resumo, o governo do Mali em Bamako pediu que os franceses chegassem e baixassem o porrete. E assim foi feito.

Não. Não foi bem assim. Quem supuser que “bombardeie a al-Qaeda” é o que estaria acontecendo no Mali, vive no mundo de Oz. Para começar, usar terroristas islâmicos para sufocar movimentos indígenas de independência é “tática” que consta de todos os manuais históricos da CIA/Pentágono.

Além do mais, o Mali é crucialmente importante na visão que o AFRICOM e o Pentágono têm para todo o MENA (Middle East-Northern África / Oriente Médio-Norte da África). Meses antes do 11/9, tive o privilégio de atravessar o Mali por estrada – e pelo rio Niger – e andei por lá, especialmente em Mopti e Timbuktu, com os deslumbrantes tuaregues, que me ofereceram um curso intensivo sobre o noroeste da África. Vi os pregadores wahhabi e pregadores paquistaneses por toda parte. Vi os tuaregues sendo expelidos passo a passo. Vi um Afeganistão em produção. E não era difícil seguir o dinheiro, enquanto bebericava chá no Sahara. O Mali tem fronteiras com a Argélia, a Mauritânia, Burkina Faso, Senegal, Costa do Marfim e Guiné. O espetacular delta interno do Niger fica no Mali central – ali, ao sul do Sahara. Mali jorra ouro, urânio, bauxita, ferro, manganês, estanho e cobre. E – o Oleogasodutostão passa por ali! – há muito petróleo não explorado no norte do Mali.

Já em fevereiro de 2008, o vice-almirante Robert T Moeller dizia que a missão do AFRICOM era proteger “o fluxo de recursos naturais da África para o mercado global”; sim, e fez a conexão crucial rumo à China: estaria “desafiando interesses dos EUA”.

Aviões-espiões do AFRICOM “observaram” o Mali, a Mauritânia e o Sahara durante meses, em tese à procura de terroristas da AQIM; a coisa toda foi supervisionada pelas Forças Especiais dos EUA, parte da Operação Creek Sand secreta, com base no vizinho Burkina Faso. Esqueçam: não se vê ali ninguém fardado: todos são – e o que mais seriam? – empresas privadas contratadas para espionar e não usam uniforme.

Carter Ham
Mês passado, na Brown University, o general Carter Ham, comandante do AFRICOM, deu mais um forte empurrão na “missão de fazer avançar interesses de segurança dos EUA em toda a África”. Agora se trata – com atualizações – da Estratégia Nacional dos EUA na África, assinada por Obama em junho de 2012. Os objetivos (convenientemente muito vagos) dessa estratégia são “reforçar instituições democráticas”; estimular “o crescimento econômico, comércio e investimentos”; “promover a paz e a segurança”; e “promover oportunidades e desenvolvimento”.

Na prática, é a militarização à moda ocidental (com Washington “liderando pela retaguarda”) versus o sempre ativo movimento de sedução / investimentos chineses orientado para a África. No Mali, o cenário ideal para Washington seria um remix do Sudão: exatamente como a recente divisão em Sudão do Norte e Sudão do Sul, o que criou dor de cabeça estratégica extra para Pequim. Por que não dividir o Mali ao meio, para melhor explorar suas riquezas naturais? Não esqueçam: até a independência em 1960, o Mali chamava-se Sudão Ocidental.

Já no início de dezembro o Pentágono trabalhava sobre o “conceito” de uma guerra “multinacional” no Mali.

Molho Hollandês
A beleza do negócio todo é que, embora com exército multinacional “por procuração”, financiado pelo ocidente, apoiado pelo Pentágono, já entrando em ação “no terreno”, são os franceses os encarregados de regar a terra, no Mali, com o letal molho Hollandês (nada como uma ex-colônia “em convulsão” para fazer babar os ex-colonizadores). O Pentágono sempre pode continuar usando seus discretos aviões-espiões P-3 e os drones-espiões Global Hawk que têm base na Europa, e adiante, para transportar tropas da África Ocidental e dar-lhes cobertura aérea. Mas secreto, tudo secreto, super super sigiloso.

Mr. Inferno Geral já levantou a cabeçorra, em tempo recorde, mesmo antes de os 1.400 (e aumentando) coturnos franceses entrarem em modo de ofensiva.

Um comando do MUJAO (não da al-Qaeda no Maghreb Islâmica, AQIM, como foi noticiado), comandado pelo – e quem mais seria? – “incapturável” Belmokhtar, invadiu um campo de gás no meio do deserto do Sahara argelino, a mais de 1.000 km ao sul de Argel, mas a apenas 100 km da fronteira líbia, onde prenderam e fizeram reféns muitos ocidentais (e alguns japoneses); operação de resgate lançada na 4ª-feira pelas Forças Especiais da Argélia foi – para dizer o mínimo – uma gigantesca confusão, da qual resultaram (já confirmados até agora) pelo menos sete reféns estrangeiros e 23 argelinos mortos.

O campo de gás está sendo explorado pela British Petroleum, pela Statoil e pela Sonatrach. O MUJAO denunciou – e o que mais denunciariam? – a nova “Cruzada” francesa e o fato de que os jatos de guerra franceses são, hoje, donos do espaço aéreo da Argélia.

No que tenha a ver com a volta do chicote no lombo do chicoteador, só vimos, até agora, os hors d'oeuvres. E não ficará confinado ao Mali. Convulsionará a Argélia, em breve o Niger – fonte de mais de um terço do urânio que faz funcionar as usinas nucleares francesas e todo o Sahara-Sahel.

Assim sendo, esse novo, que mal começa a ser cevado, mega-Afeganistão na África será bom para os interesses neocoloniais franceses (por mais que Hollande repita que só se interessa por “paz”); será bom para o AFRICOM; dará grande impulso aos “Jihadistas Antes Conhecidos como Rebeldes da OTAN”; e será, com certeza, ótimo para a infinita Guerra Global ao Terror, devidamente rebatizada como “operações militares cinéticas”.

Django, liberto de suas cadeias, estará totalmente em casa. E o Oscar de Melhor Canção vai para o continuum Bush-Obama: Não há negócio como o negócio do terror. Legendado em francês, bien sur.



Notas dos tradutores

[1] A matéria, já citada, do NYTimes leva o título-arapuca de French Strikes in Mali Supplant Caution of U.S. [trad.: Ataques franceses no Mali desconsideram (e/ou suplantam e/ou derrubam, derrotam) a cautela norte-americana]  .

[2] Flintlock  designa uma pequena pedra de sílex (sílex pirômaco), que, atritada, “gera faíscas a 3.000° C, tornando fácil construir fogo em qualquer clima, em qualquer altura, até mesmo sob tempestades e neve”. Era o mecanismo disparador de um tipo antigo de arma de fogo, a pederneira.
O sílex, como se sabe, é usado desde a Idade da Pedra, para fazer pontas afiadas de flechas e machados. Muitas armas de sílex, pré-históricas continuam até hoje a ser encontradas na África, datadas do Paleolítico (“Idade da Pedra Lascada”).
O nome escolhido para essa operação pela qual os EUA planejam levar guerra à África é, bem traduzido e explicado, uma confissão de culpa; é manifestação linguística, também, da mais detestável arrogância racista eurocêntrica à moda Washington.
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Contribuição dos commons da Vila Vudu, acrescentada pelos tradutores, por sua conta e risco. A luta continua.

A seguir som de “Umbabarauma. Ponta de lança africano” ( Jorge Benjor e Mano Brown):  


Sobre os tuaregues, o Brasil só sabe o que aprendeu de Jorge Benjor. Mas, não se sabe por quê, não se encontra gravação de Jorge Benjor no YouTube.
Vai aí um “Tuereg”com Lulu Santos:

Vale também a (maravilhosa) gravação de Gal Gosta (só som)