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segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Malditos “liberais”, “progressistas” patéticos

17/8/2013, [*] Tariq Ramadan, em seu blog [excerto]
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

"O caminho para a DEMOCRACIA está aberto"
Minhas recentes análises dos levantes árabes e da crise em curso na Tunísia e no Egito receberam abundante comentário crítico. Minha posição sobre os levantes árabes, a história deles e as questões que propõem, está claramente exposta em meu livro Islam and the Arab Awakening. Eventos recentes confirmaram que não errei. Quem queira esclarecimentos, que leia ou releia meu livro. (...)

Ao mesmo tempo, desenvolvi crítica detalhada da polarização dos debates entre secularistas e islamistas, particularmente no Egito e na Tunísia. Meus mais recentes escritos sobre o golpe militar levaram alguns intelectuais e ativistas anti-Mursi a me rotularem como pró-Mursi, pró-Fraternidade Muçulmana e pró-islamistas e a acionar a máquina de propaganda. Como seria bom se as coisas fossem assim tão simples. Mas é impossível, em termos decentes, criticar-me por falta de clareza quanto às ações do governo Mursi e o posicionamento ideológico da Fraternidade Muçulmana. 

Já disse uma vez, e repito, mas os apologistas “liberais” do golpe de Estado e os amigos dos militares que fingem que nada ouviram ou nada leram, e que desqualificam os oponentes, que veem como “islamistas” e “terroristas” melhor fariam se prestassem atenção à substância e tratassem de responder a várias perguntas chaves.

Os homens e mulheres que mantiveram as manifestações de rua por mais de cinco semanas estão sendo agora apresentados como “pró-Mursi,” e como membros da Fraternidade Muçulmana. É categorização tão falsa quanto tendenciosa: uma manta de mentiras cerradamente tecida pela imprensa oficial e disseminada por 80% da imprensa-empresa ocidental e suas agências-empresas noticiosas, que usam sempre as mesmas palavras, idênticas, para descrever as massivas manifestações de rua. 

De fato, os manifestantes carregam a bandeira da oposição ao golpe de Estado. Ali estão homens e mulheres que não são membros da Fraternidade Muçulmana, que não são, nem salafistas, nem islamistas. Entre eles há muitos jovens blogueiros, secularistas e coptas.

A bandeira egípcia está manchada pelo sangue de seu povo
O exército egípcio jamais saiu da cena política. Sua estratégia de repressão explica-se pela preocupação com preservar seus interesses políticos, econômicos e financeiros, e pelos laços íntimos com o governo dos EUA. Algumas capitais europeias – e Israel, é claro – claramente apreciam a estratégia dos militares. 

A condenação tímida que veio do ocidente, as palavras dissimuladas e insuficientes do presidente Barack Obama (cancelou manobras militares, confirmou a ajuda financeira e implicitamente manifestou apoio ao golpe de Estado), somada ao bombardeio por jornais, jornalistas e televisões, garantiram carta branca aos militares para deflagrarem repressão sem limite, sob o disfarce de um recém declarado “estado de emergência”. 

O ataque apenas começou; o Egito enfrentará ainda mais mortes, tortura e prisões em massa.

Aliás, nenhuma novidade. A imprensa oficial distribui mentiras e manipula a informação: são as mesmas velhas táticas de sempre. A polícia e as forças armadas alegam que estariam agindo em legítima defesa: mas usam munição viva contra manifestantes e o número de mortos é sistematicamente subestimado.

Mesquitas para onde estavam sendo levados os corpos de manifestantes assassinados foram queimadas, para destruir provas. Outras mesquitas, como al-Iman, foram cercadas, no momento em que ali se realizavam velórios.

Velório de mortos assassinados pelo exército na Mesquita al-Iman em 18/8/2013
Para liberar os corpos, famílias são obrigadas a aceitar documentos que atestam que a causa da morte seria suicídio, ou que a morte ocorreu em outra data. Novos horrores, velhos métodos. 

Não surpreende que surjam “notícias” de que o exército teria encontrado depósitos de armas – que são devidamente filmados, fotografados e “exibidos” em todo o mundo. São armas que os manifestantes, sempre pacíficos, depois de seis semanas de manifestações sempre sob ameaça de intervenção militar e ameaçados de ataque, só não usaram porque não tiveram tempo...

Também horrível, a estratégia de incendiar igrejas faz lembrar o que faziam predecessores de al-Sisi: jogar os egípcios uns contra outros e apresentar “os terroristas islamistas” como inimigos dos coptas. Assim matam dois coelhos com uma cajadada: justificam a repressão, ao mesmo tempo em que seduzem corações e mentes no ocidente.

Os que se opõem ao golpe são apresentados como estúpidos: não violentos e disciplinados por semanas a fio, mesmo depois do massacre de 8 de julho, repentinamente se tornam violentíssimos, exatamente quando os militares precisavam de violência? A quem tentam enganar?

Igrejas são incendiadas pela polícia secreta de al-Sisi disfarçados de Irmãos da Fraternidade Nuçulmana
A questão central foi e é liberdade e democracia para o povo egípcio. O que se vê hoje no Egito é uma farsa e um horror. O país está agora à mercê das Forças Armadas. Agora, o Egito enfrentará execuções sumárias, prisões arbitrárias e mentiras, a partir do mais alto nível do estado.

Os generais contam com integral apoio do Ocidente, dos EUA e de Israel. Essa é a única realidade.

Todos os que, em seu ódio visceral aos islamistas, apóiam hoje os militares e a polícia que matam e reprimem algum dia terão de responder por suas escolhas. Terão também de exibir-nos suas análises, seu programa político “democrático” rabiscado na penumbra da caserna, no coração obscuro da corrupção, no olho do furacão em que hoje se debate, à deriva, todo o Oriente Médio. 

A responsabilidade deles é imensa, muito mais vasta do que o gosto amargo das palavras que usam para encorajar e justificar a repressão violenta contra cidadãos desarmados. 

Malditos “liberais”, “progressistas” patéticos.
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[*] Tariq Ramadan (árabe: رمضان); nasceu em 26 de agosto de 1962); é escritor e acadêmico suíço. Também é um Professor de Estudos Islâmicos Contemporâneos na Faculdade de Estudos Orientais da Universidade de Oxford (Instituto Oriental, Faculdade de St. Antony). Leciona na Faculdade de Teologia de Oxford; professor visitante na Faculdade de Estudos Islâmicos no Qatar e Diretor do Centro de Pesquisa de Legislação Islâmica e Ética (CILE) (Doha, Qatar). Defende o estudo e a re-interpretação de textos islâmicos e enfatiza a natureza heterogênea dos muçulmanos ocidentais.

domingo, 18 de agosto de 2013

Agentes de Sisi no Egito

17/8/2013, As’ad AbuKhalil, The Angry Arab News Service
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Militantes da Fraternidade Muçulmana assassinados pelo exército egípcio em 14/8/2013
Por mais que eu deteste a Ikhwan [Fraternidade Muçulmana], por mais que eu saiba do perigo que representam, e por mais que eu tenha apoiado a repressão relativamente limpa que Nasser moveu contra eles, e por mais que eu saiba do sectarismo da Ikhwan, não tenho, mesmo assim, qualquer dúvida de que os atos de violência contra igrejas e outros alvos esta semana (11 a 17 de ago/2013) foram perpetrados por agentes da polícia secreta de Sisi:
As'ad AbuKhalil

Também parecia haver agentes provocadores. Numa manifestação pró-Mursi, dois homens mascarados com uma metralhadora faziam-se de islamistas. Primeiro, pareciam apoiar a manifestação, tentando seduzir pessoas para suas fileiras. Depois, viraram as armas para as pessoas, que fugiam em pânico. Quem são esses homens armados? – perguntou aterrorizada, uma mulher entre os apoiadores de Mursi.
(em 17/8/2013, no New York Times em: “Blood and Chaos Prevail in Egypt, Testing Control”)

sábado, 17 de agosto de 2013

O coma egípcio doerá no império norte-americano

Plano B dos EUA para o Egito: trazer de volta o Regime de Mubarak

6/7/2013, [*] Mahdi Darius Nazemroaya, Strategic Culture [excerto]
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Protestos dos apoiadores da Fraternidade Muçulmana e de Mohamed  Mursi (ago/2013)
Apesar do que a imprensa-empresa ocidental diz, repete e “comenta”, a Fraternidade Muçulmana jamais esteve em pleno comando do Egito ou do governo egípcio. Teve sempre de dividir o poder com segmentos do velho regime e com “homens de Washington e de Telavive”. Atores chaves do velho regime foram mantidos em seus cargos, em diferentes setores do governo e corpos da administração. Até no gabinete do presidente Mursi havia gente do velho regime. As discussões sobre a lei da Xaria foram predominantemente manipuladas pelos inimigos da Fraternidade Muçulmana, sobretudo para consumo fora do país, para países predominantemente não muçulmanos e para mobilizar contra Mursi os cristãos egípcios e as correntes socialistas locais.

Mohamed Mursi
Quanto aos problemas econômicos que o Egito enfrentava, há muito tempo são resultado combinado de vários fatores: o legado do velho regime, a ganância das elites egípcias e dos militares de mais alto escalão, a crise global e o capitalismo predatório que EUA e União Europeia assestaram contra o Egito. Os que culparam Mursi pelos problemas econômicos do Egito e pelo desemprego fizeram-no ou por erro de análise ou por oportunismo e má fé. A incompetência de seu governo evidentemente não ajudou a superar as dificuldades, mas com certeza não as criou. Mursi tentava dirigir um navio que naufragava, depois de ter sido devastado economicamente em 2011 por estados estrangeiros e por financistas, agiotas, especuladores, investidores e empresas estrangeiros e locais.

Houve inegável esforço para sabotar o governo da Fraternidade Muçulmana – o que evidentemente não explica nem justifica a incompetência e a corrupção dos Irmãos. O esforço para adquirir respeitabilidade internacional mostrando-se em eventos como a Clinton Global Initiative, hóspede da Clinton Foundation, só apressou seu declínio. A hesitação para restaurar laços diplomáticos com o Irã; o antagonismo contra a Síria, o Hezbollah e seus aliados palestinos só fizeram encurtar cada dia mais a lista de amigos e apoiadores.

A Fraternidade Muçulmana deixou-se usar, praticamente sem qualquer resistência, por EUA, Israel, Arábia Saudita e Qatar, na operação para pacificar o Hamás, na tentativa de separar os palestinos de Gaza e o Bloco da Resistência.

A Fraternidade Muçulmana manteve o sítio contra Gaza e continuou a destruir os túneis usados para abastecer os palestinos com alguns itens de primeira necessidade. Talvez os Irmãos tivessem medo. Talvez tivessem pouco a dizer nessas questões. Mas o fato é que os Irmãos mantiveram as condições pelas quais os militares e os aparelhos de segurança e de inteligência do Egito puderam continuar a colaborar com Israel. Durante o governo da Fraternidade Muçulmana, grande número de palestinos desaparecia no Egito, para reaparecerem em prisões israelenses. O governo de Mursi “esqueceu” a anistia que havia dado a apoiadores da Jamahiriya líbia que buscaram refúgio no Egito.

Os EUA e Israel sempre quiseram que o Egito se consumisse olhando sempre para dentro, mantido em estado de patética paralisia. Washington sempre tentou manter o Egito como estado dependente, que sem a ajuda dos EUA racharia aos pedaços, política e economicamente. Por isso os EUA deixaram degenerar a situação no Egito, como meio de neutralizar qualquer resistência, mantendo os egípcios divididos e exauridos. Agora, porém, o golpe contra Mursi começará a assustar os EUA, como uma assombração.

Praça Tahrir (Cairo - Egito) em janeiro de 2011
Washington sentirá profundamente as repercussões do que aconteceu no Egito. A derrubada de Mursi envia mensagem muito negativa a todos os aliados dos EUA. Todos, no mundo árabe – corruptos e semicorruptos – estão hoje mais conscientes do que nunca de que nenhuma aliança com Washington ou Telavive jamais significará proteção eterna. Diferente disso começam a dar-se contar de que os que se saem melhor hoje são os que se aliaram aos iranianos e aos russos.

Império incapaz de garantir a segurança de seus sátrapas é império que, mais dia menos dia, perderá muitos dos próprios clientes e aliados, que lhe dão as costas, ou o traem. Assim como está fracassando o projeto de mudança de regime que os EUA conceberam para a Síria, assim também o “turno” norte-americano no Oriente Médio aproxima-se do epílogo.

Os que apostaram no sucesso de Washington – os reis sauditas, a Fraternidade Muçulmana, o Primeiro-Ministro turco Recep Erdogan – em breve descobrirão que deixaram-se prender no lado perdedor da equação regional do Oriente Médio...
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[*] Mahdi Darius Nazemroay é cientista social, escritor premiado, colunista e pesquisador. Suas obras têm sido publicadas internacionalmente em uma ampla série de revistas, sítios e jornais. São traduzidos em mais de vinte idiomas, incluindo alemão, árabe, italiano, russo, turco, espanhol, português, persa chinês, coreano, polonês, armênio, holandês e românico. Seus trabalhos em ciências geopolíticas e estudos estratégicos têm sido usados por vários estabelecimentos de ensino e de defesa. É convidado frequentemente por redes internacionais de notícias como analista e especialista em geopolítica no Oriente Médio.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Pepe Escobar: O “banho de sangue que não é banho de sangue” - A desgraça do Egito

15/8/2013, [*] Pepe Escobar, Russia Today
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Egípcios choram sobre os corpos envoltos em mortalhas em uma mesquita no Cairo em 15 de agosto de 2013  (Foto: AFP / Khaled Mahmoud)
O “banho de sangue que não é banho de sangue” no Egito mostrou que as forças mais linha-dura de supressão e de corrupção reinam supremas, enquanto interesses estrangeiros – a Casa de Saud, Israel e o Pentágono – apóiam a estratégia impiedosa dos militares.

Pare. Olhe as imagens. São cadáveres alinhados num necrotério improvisado. Como se justificaria esse horrendo banho de sangue no Egito?  Assista  vídeo (em inglês) a seguir. Escolha seu lado. Ou é remix egípcio da Praça Tiananmen, ou é banho de sangue que não é banho de sangue comandado pelos golpistas do golpe que não é golpe, com o objetivo de combater “o terror”.


Com certeza não foi operação para desalojar gente – como o Departamento de Polícia de New York “evacuando” o pessoal de Occupy Wall Street. Como tuitou um jornalista da [empresa] Sky, parecia mais “um vasto assalto militar contra civis desarmados” usando tudo, de tanques e gás lacrimogêneo até atiradores com armas de precisão no alto dos prédios.

Daí o grande número de mortos assassinados indiscriminadamente – o fogo cruzado de números vai de algumas poucas centenas (segundo o “governo de transição”) a pelo menos 4.500 (segundo a Fraternidade Muçulmana), incluindo pelo menos quatro jornalistas e Asmaa, 17 anos, filha de Mohamed El Beltagy, alto dirigente da Fraternidade Muçulmana.

El Beltagy, antes de ser preso, disse uma frase crucial:

Se vocês não tomarem as ruas, ele [o general Abdul-Fattah al-Sisi, líder do golpe que não é golpe que nomeou o governo de transição] fará do Egito outra Síria.

Errado. Sisi não é Bashar al-Assad. Que ninguém espere clamores ocidentais apaixonados, a exigir “ataques a alvos predefinidos” ou uma zona aérea de exclusão sobre o Egito. Sisi pode até ser ditador militar que mata o próprio povo, mas é dos “nossos” filhos-da-puta.

“O que nós dizemos é e vale”[1]

Consideremos as reações. Os letárgicos poodles da União Europeia clamaram por “moderação” e descreveram a coisa como “extremamente preocupante”. Declaração da Casa Branca dizia que o governo de transição deve “respeitar direitos humanos” – o que, parece, pode ser interpretado como dronagem equivalente à dronagem de Manning/Snowden, mas da escola Paquistão/Iêmen de direitos humanos.

Esse patético arremedo de diplomata, o Secretário-Geral da OTAN, Anders Fogh Rasmussen, pelo menos foi claro: “O Egito é importante parceiro da OTAN através do Diálogo Mediterrâneo”. Tradução: a única coisa que realmente nos interessa é que aqueles árabes façam o que os mandamos fazer.

Homem chora enquanto olha para um dos muitos corpos dispostos em linha, assassinados pelas forças de “segurança” egípcias ao atacarem dois acampamentos enormes em Rabaa al-Adawiya e Praça Al-Nahda no Cairo onde partidários do presidente deposto, Mohamed Mursi estavam acampados, em 14 de agosto de 2013 (Foto: AFP / Mosaab El-Shamy)
Despido de qualquer retórica – de indignação ou outra – o ponto chave é que Washington não suspenderá a ajuda anual de $1,3 bilhão para o exército de Sisi, faça ele o que fizer. Sisi, esperto, já declarou uma “guerra ao terror”. O Pentágono o apóia. E o governo Obama também já embarcou nessa – relutantemente ou não.

Vejamos agora quem está revoltado. O Qatar, como se podia prever, condenou o massacre; afinal, o Qatar estava financiando o governo de Mursi. A Frente de Ação Islâmica, braço político da Fraternidade Muçulmana na Jordânia, encorajara os egípcios a manterem o protesto para “derrotar a conspiração” organizada pelo antigo regime – de mubarakistas sem Mubarak. [2]

A Turquia – que também apóia a Fraternidade Muçulmana – exigiu que o Conselho de Segurança da ONU e a Liga Árabe agissem imediatamente para deter “um massacre”; como se a ONU e a Liga Árabe controlada pelos sauditas fossem interromper suas três horas de almoço grátis para fazer alguma coisa.

O Irã – corretamente – alertou para o risco de guerra civil. Não implica que Teerã esteja apoiando cegamente a Fraternidade Muçulmana, especialmente depois de Mursi ter incitado os egípcios a abraçarem uma jihad contra Assad na Síria. Teerã observou é que a guerra civil já está em curso.

Agora, é cuidar da matança

“Bizantino” é pouco, para explicar o jogo de passar adiante a responsabilidade. O “banho de sangue que não é o banho de sangue” aconteceu quando o “governo” nomeado por Sisi havia prometido começar a construir uma “transição” apoiada pelos militares que seria politicamente muito inclusiva.

Mas, farto já de seis semanas de protestos que denunciavam o “golpe que não é golpe”, o governo de transição mudou a narrativa e decidiu não deixar ninguém vivo para contar a história.

Segundo as análises mais bem informadas da mídia egípcia, o Vice-Primeiro-Ministro Ziad Baha Eldin e o Vice-Presidente para Assuntos Estrangeiros, Mohamed ElBaradei queriam pegar leve contra os manifestantes; mas o Ministro do Interior, General Mohammad Ibrahim Mustafa e o Ministro da Defesa – o próprio Sisi – queriam solução medieval.

O primeiro passo foi culpar preventivamente a Fraternidade Muçulmana pelo massacre – bem quando a Fraternidade Muçulmana culpava o grupo Jemaah Islamiyah por usar Kalashnikovs e queimar igrejas e postos da Polícia.

Mulher chora sobre o corpo de sua filha envolta em mortalhas em uma mesquita no Cairo, em 15 de agosto de 2013 (Foto: AFP / Khaled DESOUKI)
A principal razão pela qual o “banho de sangue que não é banho de sangue” foi deflagrado nessa quarta-feira é que a Fraternidade Muçulmana tentou invadir o eternamente temido Ministério do Interior. Ibrahim Mustafa, linha duríssima, nunca admitiria.

Os bandidos de Sisi indicaram 25 governadores provinciais, dos quais 19 são generais, bem a tempo de “recompensar” os altos escalões militares e, assim, solidificar o “estado profundo” egípcio, ou, de fato, o estado policial. E para coroar o “banho de sangue que não é banho de sangue”, os bandidos de Sisi declararam lei marcial por um mês. Nessas circunstâncias, a renúncia de ElBaradei, queridinho do ocidente, foi pouco, e nem tirou o sono de Sisi.

“O espírito original da Praça Tahrir está agora morto e enterrado”, como disse uma  iemenita miraculosamente ainda não assassinada pelos drones de Obama, Tawakel Karman, Prêmio Nobel da Paz.

A questão chave é saber quem lucra com um Egito super polarizado, com uma guerra civil que jogue a bem-organizada e fundamentalista Fraternidade Muçulmana contra o “estado profundo” controlado pelos militares.

As duas opções são igualmente repulsivas (além de incompetentes). Mas os vencedores locais são facilmente identificáveis: a contrarrevolução – os mubarakistas duros de matar, por exemplo; um bando de oligarcas corruptos; e, mais que todos os outros, o próprio estado profundo, ele mesmo.

Reina a repressão mais linha-dura. A corrupção reina. E reinam forças estrangeiras (como a Arábia Saudita que até agora é quem está pagando a maior parte das contas, com os Emirados Árabes Unidos).

Internacionalmente, os grandes vencedores são a Arábia Saudita (que deslocou o Qatar); Israel (porque o exército egípcio é ainda mais dócil que a Fraternidade); e – quem poderia ser?! – o Pentágono, cafetão do exército egípcio. Nem em viagem pela Via Láctea haverá quem diga que esse eixo Casa de Saud/Israel/Pentágono seria “bom para o povo egípcio”.

Nosso homem é o Xeique Al-Tortura

Recapitulemos. Em 2011, o governo Obama não disse, até o último minuto, que “Mubarak tem de sair”. Hillary Clinton queria uma “transição” liderada pelo espião-chefe e ativo da CIA, Omar Suleiman – conhecidíssimo na Praça Tahrir como “Xeique Al-Tortura”.

Repórteres correm para se esconder durante confrontos entre partidários da Irmandade Muçulmana do Egito deposto presidente Mohamed Mursi e policiais. Cairo, em 14 de agosto de 2013 (Foto: AFP / Mosaab El-Shamy)
Naquele momento, a piada que circulava em círculos seletos em Washington contava que o governo Obama já era garota-de-torcida da Fraternidade Muçulmana (aliada do Qatar). Agora, como iô-iô, o governo Obama tenta encontrar jeito de distribuir a nova narrativa – o “leal” exército egípcio, que corajosamente elimina a Fraternidade Muçulmana “terrorista”, para assim “proteger a revolução”.

Para começo de conversa, nunca houve revolução alguma; foi-se a cabeça da serpente (Mubarak), mas a serpente continuou viva e chicoteando. Agora, apareceu a nova serpente, em tudo igual à velha. Além do mais, é fácil vender à arquibancada desinformada que Fraternidade Muçulmana = al-Qaeda.

O líder supremo do Pentágono, Chuck Hagel, passou o dia 3 de julho grudado ao telefone com Sisi, enquanto acontecia o “golpe que não é golpe”. O pessoal do Pentágono quer muito que todos acreditemos que Sisi garantiu a Hagel que logo estaria por cima da carne seca. Praticamente 100% do governo, na Beltway, engoliu essa. Daí brotou a versão oficial em Washington do “golpe que não é golpe”. Tim Kaine, da Virginia, na Comissão de Relações Exteriores do Senado, até elogiou muito os Emirados Árabes Unidos e a Jordânia, aquelas democracias modelares, pelo entusiasmo com que acolheram o “golpe que não é golpe”.

É importante listar os cinco países que explicitamente endossaram o “golpe que não é golpe”. Quatro deles são petromonarquias do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG, também conhecido como Clube Contrarrevolucionário do Golfo: Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Bahrain. E o quinto é aquela monarquiazinha, a Jordânia, que o CCG quer anexar ao Golfo.

Ainda mais patético que alguns ditos liberais egípcios, alguns esquerdistas, alguns nasseristas e sortimento variado de progressistas que defenderam a sede de sangue de Sisi, foi o vira-casaca Mahmoud Badr, fundador do Tamarrod – o movimento que liderou as demonstrações massivas que levaram à derrubada de Mursi. Em 2012, esconjurava a Arábia Saudita. Depois do golpe, prostrou-se em homenagem. Esse, pelo menos, sabe quem paga as contas.

E há também Ahmed al-Tayyeb, o Grande Imã de al-Azhar, o Vaticano do Islã sunita. Disse que “Al-Azhar (...) não sabe dos métodos usados para dispersar os protestos, só vimos o que a televisão mostrou.” Sandice. Ele várias vezes elogiou Sisi.

Partidários da Irmandade Muçulmana, do deposto Presidente Mohamed Mursi, retiram ferido durante confrontos com a polícia do Cairo na Praça Mustafa Mahmoud após forças de segurança dispersarem manifestantes em 14 de agosto de 2013 (Foto: AFP / Str)
Bato meus cílios... e você desaba

Não há outro modo de dizer isso: do ponto de vista de Washington, os árabes que se matem uns os outros até o dia do Juízo Final, e tanto faz que sunitas matem xiitas, xiitas matem sunitas, jihadistas contra secularistas, camponeses contra urbanizados, egípcios contra egípcios. A única coisa que conta são os acordos de Camp David; e ninguém tem licença para antagonizar Israel.

Assim sendo, está ótimo que os subalternos de Sisi em coturnos tenham pedido que Israel mantenha seus drones próximos da fronteira, para que possam prosseguir em sua “guerra ao terror” no Sinai. Para todas as finalidades práticas, Israel governa o Sinai.

Mas cancelou-se uma entrega de F-16s ao exército de Sisi. Na vida real, todas as vendas de armas dos EUA no Oriente Médio têm de receber “autorização” de Israel. Pode-se, portanto, conjecturar que Israel – pelo menos por hora – ainda não está muito segura sobre quais são, de fato, os planos de Sisi.

É muito instrutivo ler o que pensa Sisi sobre “democracia” – e escreveu quanto estudava no War College, nos EUA. O homem é essencialmente islamista – mas, acima de tudo, anseia pelo poder. E os Irmãos da Fraternidade Muçulmana interpuseram-se no caminho dele. Tiveram de ser aniquilados e descartados.

A “guerra ao terror” de Sisi é provável sucesso estrondoso como slogan de Relações Públicas, para legitimar sua candidatura a um mandato popular. Está tentando aparecer na foto como um novo Nasser. É Sisi o Salvador, cercado por um bando de Sisi-zetes. Um colunista escreveu no jornal Al-Masry Al-Youm que Sisi nem precisa ordenar: é só ele “bater os cílios”. A campanha Sisi-para-presidente já está em andamento.

Quem conheça os ditadores cabeça-de-lata que os EUA promoveram na América Latina nos anos 1970s sabe farejá-los de longe. Não é Salvador. Não passa de um Al-Sisi-nêitor, Al-Sisi-no – mais um inglório ditador cabeça de prego, onde meu colega Spengler definiu, sem meias palavras, como uma república de bananas, sem bananas.



[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (“The Roving Eye”) no Asia Times Online; é também analista e correspondente das redes Russia TodayThe Real News Network TV e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu, no blog redecastorphoto.

Livros
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Notas dos tradutores
[1]Orig. what we say goes. A expressão aparece em discurso de Bush Pai, de 1/2/1991:

Quando vencemos, e venceremos, teremos ensinado a um ditador perigoso e a todos os tiranos tentados a seguir suas pegadas, que os EUA temos uma nova credibilidade e que o que nós dizemos é e vale, e que não há lugar para agressão sem lei no Golfo Persa e nessa Nova Ordem Mundial que buscamos criar”. A expressão também aparece, em 2007, em título de livro de Chomsky (What We Say Goes: Conversations on U.S. Power in a Changing World – Interviews with David Barsamian, New York: HenryHolt/Metropolitan Books, October 2007).


[2] 16/6/2013, redecastorphoto em: Mubarakismo sem Mubarak: A luta pelo Egito, Joseph Massad, Counterpunch, traduzido.