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segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Pepe Escobar: O Califa, pronto para se integrar à OPEP

31/10/2014, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online − The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O Califa Ibrahim ou Abu Bakr al-Baghdadi
O Califa Ibrahim líder do Estado Islâmico – codinome Abu Bakr al-Baghdadi – jamais cessa de nos surpreender, ele e, principalmente, seus poderosos apoiadores estufados de petrodólares. O Califa é, para todas as finalidades práticas, hoje, um dos “grandes do petróleo”, merecedor de ingressar na Organização dos Países Exportadores de Petróleo, OPEP. Seus bandidos takfiri/ mercenários estão – teoricamente – já há algum tempo, extraindo, refinando, embarcando e/ou contrabandeando e fechando gordos negócios que envolvem vastas quantidades de petróleo, embolsando lucros de cerca de US$ 2 milhões/dia.

Os preços do petróleo do Califa são de morrer (degolado?)! Afinal, ele está praticando a mesma estratégia de preços baixos concebida pelo pessoal que ele quer destronar em Meca, a Casa de Saud. O PIB do Califato em todo o “Siriaque” só tem um rumo a seguir: aumentar sempre.

Abdullah II da Jordânia
E, oh, que ironia! Os principais fregueses para o petróleo barato do Califa são aquele paraíso terrestre do “Sultão” Recep Tayyip Erdogan, codinome Turquia, aliado da Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN; e aquele reino do reizinho de Playstation, Abdullah II ibn al-Hussein, que se faz de país, codinome Jordânia.

Entrementes, a gigantesca, imensamente sofisticada orgia de siglas de agências militares de inteligência arregimentada pela liga “livre” EUA/OTAN simplesmente não consegue gravar/ interceptar essa zoeira.

Não surpreende, porque tampouco gravaram/ interceptaram os bandidos do Califa quando estavam tomando vastas fatias do “Siriaque” no verão, embarcados em flamantes versões de picapes cruza-desertos, naquele coruscante cartaz de propaganda de Toyotas brancas.

Quanto à “solução” do Império do Caos, de interceptar os lucros do petróleo do Califa, a única decisão tomada até agora foi bombardearem oleodutos que pertencem à República Árabe Síria, quer dizer, de fato, ao povo sírio.

Nunca subestimem a capacidade da doutrina de política externa do presidente Obama, “Não façam merda coisa estúpida”, para atingir píncaros inimagináveis de estupidez.

Ô, xeique, não dou a mínima: entra por um ouvido, sai pelo outro

E houve também o facinoroso festival de beija-mão do Secretário de Estado John Kerry ao capo da Casa de Saud, que aconteceu em Riad, mês passado.

John Kerry e o Rei Abdullah da Arábia Saudita

Nesse artigo-obra-prima, William Engdahl vai ao fundo, sem meias palavras, do suposto acordo de EUA-Sauditas “petróleo barato/bombardeie-Bashar-al-Assad/enfraqueça a Rússia”. É possível que não tenha sido acordo direto; o mais provável é Washington e Riad trabalhando juntas para objetivos comuns: mudança de regime na Síria no longo prazo; e minar ambos, Irã e Rússia, no curto prazo.

Aquele crucial gambito no Oleogasodutostão, central para a charada síria – um gasoduto que parta do Qatar para uma Síria-pós-mudança-de-regime, em vez de Irã-Iraque-Síria – não é exatamente prioridade dos sauditas, mas, sim, de um Qatar rival.

O que Kerry fez foi levar o selo de apoio da Voz do Dono à estratégia saudita de baixos preços do petróleo, pensando no curto prazo (consumidores norte-americanos nas bombas de gasolina) e, no médio prazo, pressionando os ganhos de ambos, do Irã e da Rússia. Evidentemente ninguém mais fala do fracasso da indústria norte-americana do gás de xisto (shale gas e obtido pelo criminosamente poluidor fracking [Nrc]).

Os sauditas, por sua vez, têm outras considerações chaves, dentre as quais recuperar sua fatia de mercado em toda a Ásia, onde estão localizados seus maiores consumidores. Estão perdendo mercado por causa do cru vendido com desconto pelo Irã e pelo Iraque. Assim, ambos esses países têm de ser “castigados”; além da aversão doentia da Casa de Saud contra todos os xiitas.

General John Allen
Quanto ao grande quadro na Síria, o capo de Obama para negociações com o Califa, o general John Allen, estabeleceu a tábua da lei, no jornal saudita Asharq Al-Awasat. Disse que:

Não haverá solução militar aqui [na Síria].

Disse também que:

O objetivo não é criar uma força em campo para libertar Damasco.

Tradução automática: aqueles bandidos velhos de antes, os “estamos derrotando Assad com o Exército Sírio Livre” já foram enterrados sete palmos no chão. E os bandidos novos do novo Exército Sírio Livre a serem treinados – e onde mais seria?! – na Arábia Saudita, não estão sendo vistos exatamente como santos salvadores de coisa alguma. Para todas as finalidades práticas, no cenário de médio prazo só se veem mais bombardeios norte-americanos (só bombardeiam infraestrutura síria, patrimônio do povo sírio); não se cogita de mudança de regime em Damasco; e o Califa continuará a consolidar seus ganhos.

E finalmente... o fator Hollywood

Imagine se aquela esfarrapada al-Qaeda “histórica” tivesse todos esses recursos super descolados, de propaganda e Relações Públicas! Guerreiros barbudos, de turbante, armados com velhas Kalashnikovs em cavernas no Afeganistão... tudo tão démodé! O Califa não apenas contrabandeia dezenas de milhares de barris de petróleo todos os dias sem ser perturbado, mas também usa um refém britânico, como seu correspondente estrangeiro (que deve ter-se convertido ao salafismo), e que fala diretamente de uma Kobani completamente deserta, a minutos de ser completamente capturada por um bando de takfiris e mercenários (com certeza não são mujahideen). Vídeo a seguir:


A produção é de primeiríssima. Impossível não se ver a alta qualidade da produção. A reportagem especial do Califa começa com uma longa tomada feita do alto, por um drone, da cidade de Kobani. Será drone norte-americano? [1] Terá sido capturado no Iraque? Serádrone israelense? Turco? Britânico? Os takfiris ainda não entraram na sintonia fina daLockheed Martin – ainda não.

Enquanto isso, em solo, só agora Ancara afinal permitiu que 200 peshmergas do Curdistão Iraquiano – cujos líderes escorregadios têm negócios com a Turquia – atravessassem a fronteira para, em teoria, ajudar Kobani. Nem soldados, nem armas nem suprimentos são permitidos para as forças do PKK/PYD curdos que, até agora, realmente defenderam Kobani. A procrastinação sem fim, pelo sultão Erdogan, será um dia condenada, em qualquer tribunal independente, como o principal fator que possibilitou a possível queda de Kobani.

O primeiro-ministro turco Ahmet Davutoglu já apresentou, mais uma vez, as “condições” para que seu país ajude a – até agora espetacularmente inócua – campanha dos EUA contra o Califa: Kobani terá de ser libertada só por peshmergas iraquianos e por restos dos bandidos do Exército Sírio Livre que andem por lá; não, em nenhum caso, por “terroristas” (como os membros do PKK/PYD).

Mapa da região de Kobani
A verdade é que Kobani – localizada precisamente na fronteira entre o sudeste da Anatolia e o norte da Síria – é altamente estratégica. A situação em campo é terrível. Devem ainda estar lá pouco mais de mil moradores, cercados dentro das próprias casas. Para protegê-los, pouco mais de 2 mil combatentes curdos sírios, inclusive a Brigada Ishtar, de mulheres. Só 200peshmergas vindos do Curdistão Iraquiano não farão grande diferença, contra vários milhares dos bandidos do Califa, fortemente armados e contando com pelo menos 20 tanques. Não parece bem parado, embora, diferente do que ‘informa’ a reportagem do refém britânico aprovado pelo Califa, os falsos “mujahideen” ainda não tenham conseguido controlar toda a cidade.

O Califa, de qualquer modo, não parará. Absolutamente nada do que acima se comenta seria nem remotamente possível, sem a cumplicidade semiclandestina/ semideclarada dos EUA/ Ocidente, o que prova, de uma vez por todas, que o Califa é dádiva caída do céu, para alimentar a eterna Guerra Global ao Terror [ou, como Bush dizia, “Guerra Global ao Terô”] GGaT. E Dick Cheney? Por que nunca pensou nisso?

Nota dos tradutores
[1] No filme, lê-se “Drone do Exército do Estado Islâmico”. Cróóóóóóózes!
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
− Seu novo livro,  Empire of Chaos, será publicado em novembro/2014 pela Nimble Books.

sábado, 1 de novembro de 2014

De que lado está a Turquia?

24/10/2014, [*] Patrick Cockburn, LRB, vol. 36, n. 21, ed. 6/11/2014, p. 8
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Kobani - Rede Solidariedade
Durante o verão, o ISIL – Estado Islâmico de Iraque e Levante [Síria] – derrotou o exército iraquiano, o exército sírio, os rebeldes sírios e a guerrilha peshmerga dos curdos iraquianos; estabeleceu um estado que vai de Bagdá a Aleppo e da fronteira do norte da Síria aos desertos do Iraque, ao sul. Grupos étnicos e religiosos dos quais o mundo praticamente jamais ouvira falar – incluídos os iazidis de Sinjar e os cristãos caldeanos de Mosul – tornaram-se vítimas da crueldade do ISIL e de suas perversões sectárias. Em setembro, o ISIL moveu sua atenção na direção dos dois e meio milhões de sírios curdos que ganharam autonomia de factoem três cantões bem ao sul da fronteira turca. Um desses cantões, centrado na cidade de Kobani, virou alvo de assalto determinado.

Dia 6/10/2014, milicianos do ISIL haviam aberto caminho até o centro da cidade. Recep Tayyip Erdoğan previu que a cidade cairia em questão de horas; John Kerry discursou sobre a “tragédia” de Kobani, mas disse – o que jamais fez sentido algum – que a captura da cidade não seria grande significado. Uma conhecida combatente curda, Arin Mirkan, se autoimolou, lançando-se contra forças do ISIL que avançavam: o gesto foi interpretado como sinal de desespero e de derrota iminente. A seguir vídeo apresentando as mulheres guerreiras curdas em Kobani;


Arin Mirkan
Com o ataque a Kobani, a liderança do ISIL quis provar que ainda pode derrotar seus inimigos, apesar dos ataques aéreos dos EUA contra eles, que começaram dia 8/8/2014 no Iraque e dia 23/10/2014 foram ampliados para invadir também a Síria. No ataque contra Kobani, os milicianos do ISIL cantavam:

O Estado Islâmico permanece, o Estado Islâmico cresce.

No passado, o  ISIL optou – foi uma decisão tática – por abandonar batalhas que achasse que não poderia vencer. Mas a batalha de cinco semanas por Kobani já durara muito e fora muito noticiada para o mundo, para que os milicianos pudessem recuar sem perder prestígio. O apelo que tem o Estado Islâmico entre sunitas sírios, iraquianos e por todo o mundo deriva da crença de que suas vitórias são presentes divinos e inevitáveis; qualquer fracasso abala diretamente a crença de que Deus estaria lutando ao lado do ISIL.


Mas aquela inevitável vitória do ISIL em Kobani não aconteceu. Dia 19/10/2014, revertendo a política na qual os EUA vinham investindo, os aviões norte-americanos passaram a entregar armas, munição e remédio aos que defendiam a cidade. Sob pressão dos EUA, a Turquia anunciou no mesmo dia que garantiria salvo conduto aos guerrilheiros curdos iraquianos da guerrilha peshmerga para saírem do norte do Iraque e se deslocarem para Kobani; hoje, esses guerrilheiros curdos já recapturaram parte da cidade.

Washington percebeu que, dada a retórica de Obama sobre um seu plano para “degradar e destruir” o ISIL, e com eleições para o Congresso que acontecerão dentro de apenas um mês, os EUA não podiam admitir que os terroristas colhessem mais uma vitória. E nesse caso especial, a vitória muito provavelmente seria comemorada com o massacre, diante de câmeras de televisão, montadas do lado turco da fronteira, de todos os curdos sobreviventes.

Quando o sítio começou, o apoio aéreo que os EUA deram aos que defendiam Kobani foi pouco mais que mínimo; com medo de ofender a Turquia, a força aérea dos EUA evitara qualquer associação com combatentes curdos em solo. Em meados de outubro, a política mudou, e os curdos passaram a fornecer aos norte-americanos informações detalhadas sobre alvos em terra, o que possibilitou que os ataques aéreos norte-americanos destruíssem tanques e artilharia do ISIL. Antes, os comandantes do ISIL haviam conseguido esconder com eficácia seu armamento e dispersar as próprias forças terrestres. Até ali, das 6.600 missões de ataques aéreos, só 632 haviam atingido algum alvo em terra. Mas, na campanha para tomar Kobani, os comandantes do ISIL tiveram de concentrar as forças em posições identificáveis, e tornaram-nas vulneráveis. Num período de 48 horas, houve cerca de 40 ataques aéreos norte-americanos, alguns a menos de 50 metros da linha de frente curda.


Não foi só o apoio aéreo que fez a diferença. Em Kobani, pela primeira vez o ISIL enfrentou inimigo declarado – as Unidades de Defesa Popular (YPG) e seu braço político, o Partido da União Democrática (PYD) – os quais, sob aspectos importantes, assemelham-se. O PYD é o ramo sírio do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que desde 1984 luta por autodeterminação para os 15 milhões de curdos turcos. Como o ISIL, o PKK combina comprometimento ideológico fanatizado com expertise e talento militares, acumulados ao longo de muitos anos de guerra de guerrilhas. Originalmente de ideologia marxista-leninista, o PKK tem comando vertical e busca monopolizar o poder dentro da comunidade curda, tanto na Turquia como na Síria. O líder do partido, que está preso, Abdullah Ocalan, é objeto de poderoso culto à personalidade, e distribui instruções de comando da prisão onde é mantido, numa ilha turca no Mar de Marmara. A liderança militar do PKK opera de uma fortaleza nas Montanhas Qandil, no norte do Iraque, uma das maiores fortalezas naturais que há no planeta (“Estamos aqui há mais de mil anos”, The Independent). A maioria dos combatentes, estimados em 7 mil, retiraram-se da Turquia, nos termos de um acordo de cessar-fogo em 2013, e hoje se movimentam de acampamento para acampamento nos vales e gargantas profundas das Qandil. São fortemente disciplinados e apaixonadamente dedicados à causa do nacionalismo curdo. Graças a isso conseguiram manter-se vivos ao longo de 30 anos de guerra contra o gigantesco exército turco, sempre capazes de se recompor apesar das perdas devastadoras que têm sofrido. Como o ISIL, o PKK, também enfatiza o martírio: combatentes mortos são enterrados em cemitérios super protegidos e muito bem cuidados, sempre no alto das montanhas, as sepulturas marcadas por pedras tumulares elaboradas.

Lá há imagens de Ocalan por todas as paredes: há seis, sete anos, visitei um abrigo do PKK nas Qandil e vi, na encosta da montanha, uma enorme imagem de Ocalan construída com pedras coloridas. É das raras bases de guerrilheiros, em todo o planeta, que pode ser vista do espaço.

Abdullah Ocalan

Síria e Iraque estão cheios de exércitos e milícias que não combatem contra ninguém que possa responder ao fogo, mas o PKK e seus afiliados, o PYD e as YPG, são diferentes. Frequentemente criticados por outros curdos como grupo stalinista e antidemocrático, eles pelo menos construíram e mantêm capacidades para defender as próprias comunidades. A sequência de vitórias do Estado Islâmico contra forças superiores, no início desse ano, só aconteceu porque combatiam contra soldados, como os do exército iraquiano, absolutamente desmoralizados, com a moral em frangalhos, mal armados, sem munição e, até, sem comida, resultado da ação de comandantes corruptos e incompetentes; aqueles soldados, ou muitos deles, estão sempre prontos a desertar.

Quando alguns milhares de milicianos do ISIL invadiram Mosul em junho, estariam, em teoria, desafiando 60 mil soldados e policiais iraquianos. O verdadeiro número provavelmente mal alcança 1/3 disso: os demais não passavam de nomes em listas, com os oficiais embolsando os soldos; ou existiam mesmo, mas só porque pagam metade de seus soldos aos comandantes, em troca de jamais terem de aparecer nem por perto de acampamentos militares. A situação pouco melhorou nos quatro meses seguintes, depois da queda de Mosul dia 9/6/201.

Segundo um político iraquiano, recente inspeção de uma divisão blindada do exército iraquiano mostrou “que onde devia haver 120 tanques e 10 mil soldados, só havia 68 tanques e apenas 2 mil soldados”. A seguir vídeo dos guerreiros curdos do YPG:


A guerrilha peshmerga – literalmente “aqueles que desafiam a morte” – dos curdos iraquianos, tampouco é muito efetiva. São vistos frequentemente como soldados melhores que os do exército iraquiano, mas essa é reputação que conquistaram há 30 anos, quando combatiam contra Saddam; depois daquilo pouco combateram, exceto nas guerras civis curdas. Mesmo antes de serem expulsos pelo ISIL em Sinjar em agosto/2014, observador atento da guerrilha peshmerga referiu-se a eles, depreciativamente, como “pêche melba”, que “só prestam para emboscadas nas montanhas”.

Os sucessos do Estado Islâmico foram muito facilitados não só pela incompetência dos inimigos, mas também pelas muitas divisões que se veem entre eles. John Kerry vangloria-se de ter montado uma coalizão de 60 países, todos comprometidos com lutar contra o ISIL, mas desde o início já estava muito visível que muitos importantes membros da tal “coalizão” não estavam lá muito preocupados com a ameaça-ISIL.

Quando começou o bombardeio contra a Síria, em setembro/2014, Obama anunciou, com orgulho, que Arábia Saudita, Jordânia, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Bahrain e Turquia uniam-se, todos, como parceiros militares dos EUA contra o ISIL. Mas, como os norte-americanos sabiam, todos esses são estados sunitas, que tiveram papel crucial no processo de arregimentar jihadistas para lutar contra governos eleitos na Síria e no Iraque. Foi problema político para os EUA, como Joe Biden (vice-presidente dos EUA) confessou, para grande embaraço de todo o governo, numa conversa em Harvard dia 2/10/2014.

Biden disse que:

(...) Turquia, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos haviam promovido uma “guerra por procuração entre sunitas e xiitas” na Síria e “derramaram lá milhões de dólares e dezenas de milhares de toneladas de armas”, para qualquer um que se interessasse em lutar contra Assad. Problema aí é que armas e dinheiro estão chegando diretamente às mãos da Frente al-Nusra e da al-Qaeda, e a situação está atraindo para lá jihadistas extremistas vindos de todos os cantos do mundo.

Admitiu que:

(...) os rebeldes sírios moderados, que se supunha que fossem elemento central e efetivo para a política dos EUA na Síria, não passam de força militar mínima, de fato, desprezível.

Joe Biden em Harvard en 2/10/2014
Adiante, Biden desculpou-se pelo que havia dito, mas o que disse é verdade clara e demonstrável e manifesta aquilo em que Washington realmente acredita. Depois de se mostrarem ofendidos pela franqueza de Biden, os aliados sunitas dos EUA rapidamente confirmaram os parâmetros da cooperação. O príncipe al-Waleed bin Talal al-Saud, magnata e membro da família real saudita, disse que:

(...) a Arábia Saudita não se envolverá diretamente na luta contra o ISIL no Iraque ou na Síria, porque o grupo não afeta explicitamente nosso país.

Na Turquia, Erdoğan declarou que:

(...) no que lhe diga respeito, o PKK é tão ruim quanto o ISIL.

Ficaram excluídas dessa bizarra coalizão quase todas as forças que realmente dão combate aoISIL, incluindo o Irã, o exército sírio, os curdos sírios e as milícias xiitas no Iraque. A grande confusão gerada pelas “políticas” de Obama-Kerry-Biden muito beneficiou o Estado Islâmico, como se viu num incidente no norte do Iraque, no início de agosto/2014, quando Obama enviou forças especiais para o Monte Sinjar para monitorar o perigo que ameaçaria milhares de iazidis emboscados naquele local. Etnicamente curdos, mas com religião não islamista própria, os iazidis haviam fugido de suas cidades e vilas para escapar de serem massacrados ou escravizados pelo ISIL. A seguir reportagem (60 minutos) sobre as mulheres guerreiras do PKK e YPG:


Os soldados dos EUA chegaram por helicóptero e permaneceram sempre escoltados e eficientemente protegidos por milicianos curdos uniformizados. Mas de repente, voltaram a embarcar rapidamente nos helicópteros e partiram em disparada. O motivo para a partida precipitada, como depois se revelou em Washington, foi que o oficial encarregado do destacamento norte-americano havia conversado com sua escolta curda, e descobrira que não eram os peshmerga amigos dos EUA do Governo Regional do Curdistão, mas combatentes doPKK – ainda listados como “terroristas” pelos EUA, inobstante o papel crucialmente importante que tiveram no socorro aos iazidis e em obrigar o ISIL a retroceder.

Só quando Kobani já estava à beira de ser tomada é que Washington afinal aceitou que não lhe restava alternativa, senão cooperar com o PYD: afinal de contas, o PYD era praticamente a única força efetiva que continuava a combater em solo, contra o ISIL.

E há também o problema turco. Os aviões dos EUA que atacam forças do ISIL em Kobani tinham de voar quase 2 mil km a partir da base no Golfo, porque a Turquia não autorizava que usassem a base turca em Incirlik, a apenas poucos quilômetros de Kobani. Ao não impedir que reforços, armas e munições chegassem ao ISIL em Kobani, Ankara mostrava que preferia ter o ISIL no comando da cidade: qualquer coisa lhe pareceria melhor que oPYD.

A posição da Turquia já estava clara desde julho de 2012, quando o exército sírio, pressionado por rebeldes por todos os lados, abandonou as principais áreas curdas. Os curdos sírios perceberam que, de repente, haviam obtido uma autonomia de facto e que aumentava a autoridade do PKK. Localizados quase que ao longo da fronteira com a Turquia, área estrategicamente importante para o ISIL, os curdos inesperadamente foram convertidos e atores na luta pelo poder na Síria. Não foi desenvolvimento que pudesse agradar aos turcos. As principais organizações políticas e militares dos curdos sírios eram ramos do PKK, seguindo ordens de Ocalan e da liderança militar em Qandil. Os insurgentes do PKK, que haviam por tanto tempo combatido por alguma forma de autonomia na Turquia, agora governavam um quase-estado na Síria, centrado nas cidades de Qamishli, Kobani e Afrin. Grande parte da região síria de fronteira permaneceria provavelmente em mãos dos curdos, dado que o governo sírio e seus oponentes eram ambos fracos demais para mudar esse quadro.

Recep Tayyip Erdogan
Ancara pode não jogar como grande-mestre de xadrez na colaboração com o ISIL para quebrar o poder dos curdos, como entendem os teóricos da conspiração, mas viu a vantagem que poderia obter se deixasse o ISIL enfraquecer os curdos sírios. Essa política jamais foi exatamente muito prudente: se o ISIL conseguisse tomar Kobani, o que humilharia também os EUA, a Turquia, pressuposta aliada dos EUA seria vista como parcialmente responsável pelo desastre, depois de ter bloqueado a cidade. De qualquer modo, a mudança de curso dos turcos aconteceu em velocidade escandalosa.

Poucas horas depois de Erdoğan dizer que a Turquia não ajudaria os terroristas do PYD, já estava autorizando os curdos iraquianos a reforçar as trincheiras do PYD em Kobani.

A virada total da Turquia foi o último de uma série de erros de cálculo cometidos sobre os desenvolvimentos na Síria desde o início dos tumultos de rua, em 2011. O governo de Erdoğan deveria ter-se posicionado a favor do equilíbrio de poder entre Assad e a oposição. Em vez disso, convenceu-se de que Assad − como se fosse Gaddafi da Líbia – seria inevitavelmente derrubado do poder. Não aconteceu. E Ancara passou a apoiar grupos jihadistas pagos pelas monarquias do Golfo, entre os quais a Frente al-Nusra, afiliado sírio da al-Qaeda, e o ISIL. A Turquia teve praticamente o mesmo papel, como força de apoio aos jihadistas na Síria, que coube ao Paquistão, que apoiou os Talibã no Afeganistão.

Os estimados 12 mil jihadistas estrangeiros que hoje combatem na Síria, e que são motivo de graves preocupações na Europa e nos EUA, entraram, praticamente todos, por uma trilha que se tornou conhecida como “a rodovia dos jihadis”, que se serve dos pontos de passagem da fronteira turca, nos quais os guardas se fazem de cegos. A seguir o Hino do YPG do Curdistão sírio com fotos dos combatentes:


Na segunda metade de 2013, por pressão dos EUA sobre a Turquia, essas vias tornaram-se mais difíceis para militantes do ISIL, os quais contudo ainda atravessam a fronteira sem grande dificuldade. Ainda não se conhece muito bem a exata natureza das relações entre os serviços de inteligência turcos e o ISIL e al-Nusra, mas há fortes evidências de que, sim, há grau considerável de cooperação entre eles. Quando rebeldes sírios liderados pela frente al-Nusra capturaram a cidade armênia de Kassab em território controlado pelo exército sírio, no início desse ano, parecia que os turcos os tivessem autorizado a operar a partir do território turco. Também foi muito misterioso o caso dos 49 membros do Corpo Consular da Turquia em Mosul que permaneceram na cidade enquanto era tomada pelo ISIL; foram mantidos como reféns em Raqqa, capital síria do Estado Islâmico, depois inexplicavelmente libertados, depois de quatro meses, em troca de membros do ISIL mantidos presos na Turquia.

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Se Erdoğan tivesse optado por ajudar os curdos encurralados em Kobani, em vez de traí-los, poderia ter fortalecido o processo de paz entre seu próprio governo e os curdos turcos. Em vez disso, suas ações só geraram protestos e tumultos de rua, entre os curdos, por toda a Turquia; cidades e vilas do interior do país nas quais jamais houvera manifestações de curdos ao longo de toda a história moderna foram queimadas e morreram 44 pessoas. Pela primeira vez em dois anos a aviação militar turca atacou posições do PKK no sudeste do país.

Parece que Erdoğan jogou ao lixo uma das principais realizações de seus anos de governo: ter dado início a uma solução negociada com a guerrilha armada curda. Hostilidade étnica e violência entre turcos e curdos aumentaram imediatamente. A polícia reprimiu manifestações populares anti-ISIL, mas não interferiu em manifestações pró-ISIL. 72 refugiados que fugiram de Kobani para a Turquia, foram mandados de volta para a cidade. Cinco membros do PYD que foram capturados pelo exército turco, foram descritos como “terroristas separatistas”.

Houve surto de manifestações histéricas de apoiadores de Erdoğan: o prefeito de Ancara, Melih Gökçek, tuitou que “há gente no leste que se faz passar por curdo, mas são, na verdade, armênios ateus”. A imprensa-empresa turca, cada vez mais subserviente ou intimidada pelo governo reduziu muito a gravidade das manifestações de rua. A CNN turca, famosa por exibir um documentário sobre a vida dos pinguins, no auge das manifestações no Gezi Park, ano passado, optou por exibir, dessa vez, durante os protestos curdos, um documentário sobre a vida das abelhas. A seguir vídeo-reportagem da BBC mostrando que: “Islamic State are afraid to see women with guns”


Que efeito negativo haverá contra o ISIL, se não conseguir tomar Kobani? A reputação de sempre derrotar os inimigos sofrerá um pouco, mas já demonstraram que podem sobreviver a ataques aéreos dos EUA, mesmo no caso de estarem com suas forças concentradas num só ponto. O califato declarado por Abu Bakr al-Baghdadi dia 29 de junho de 2014 continua a expandir-se: as maiores vitórias na Província Anbar asseguraram ao califato mais um quarto do Iraque. Uma série de ataques bem planejados em setembro garantiram ao ISIL o controle de terras em torno de Fallujah, cerca de 60 km a oeste de Bagdá. Um acampamento do exército iraquiano em Saqlawiyah foi cercado durante uma semana e invadido: 300 soldados do exército iraquiano foram mortos. Como no passado, o exército mostrou-se incapaz para qualquer contraofensiva efetiva, mesmo com todo o apoio dos ataques aéreos norte-americanos. Dia 2 de outubro de 2014, o ISIL lançou uma série de ataque bem-sucedidos para capturar Hit, cidade ao norte de Ramadi, deixando o governo com apenas uma única base do exército na área. Há hoje forças do ISIL muito próximas dos enclaves sunitas no oeste de Bagdá: até agora, permanecem paradas, embora todas as demais áreas sunitas do país tenham estado em torvelinho. Segundo prisioneiros do ISIL, as células do ISIL na cidade estão à espera de ordem, para entrar em ação coordenada com ataque que virá de fora da capital. É possível que o ISIL não consiga tomar toda a cidade de Bagdá, onde vivem sete milhões de pessoas (a maioria, xiitas), mas poderia tomar as áreas sunitas e gerar pânico na capital.

Nos bairros ricos, onde convivem várias religiões, como em al-Mansour, no setor oeste de Bagdá, metade dos habitantes já partiram rumo à Jordânia ou Golfo, porque não têm dúvidas de que o ISIL atacará a cidade.

Acho que o ISIL atacará Bagdá, no mínimo para ocupar os enclaves sunitas,disse um morador. Se conseguirem manter pelo menos parte da capital do Iraque, aumentará a credibilidade do que dizem, que criaram um novo estado.

Bairro de al-Mansour em Bagdá

Enquanto isso, o governo e as empresas locais de imprensa dedicam-se empenhadamente em reduzir a gravidade da situação e da possibilidade real de o ISIL invadir a capital, tentando conter a corrida rumo a áreas sunitas mais seguras no sul.

A substituição do governo corrupto e disfuncional de Nouri al-Maliki por Haider al-Abadi não fez tanta diferença quanto seus apoiadores estrangeiros gostariam de ver. Porque o desempenho do exército absolutamente não melhorou, as principais forças que estão enfrentando o ISIL são milícias xiitas. Fortemente sectárias e frequentemente criminalizadas, são elas que lutam furiosamente em torno de Bagdá para forçar o ISIL a retroceder e para expulsar a população sunita das áreas mistas. Sunitas são frequentemente aprisionados nos pontos de passagem, trocados por resgates de dezenas de milhares de dólares, mas mais frequentemente assassinados depois que o resgate é pago. A ONG Anistia Internacional diz que os milicianos, inclusive a Brigada Badr e o grupo Asaib Ahl al Haq, operam sob total imunidade; a mesma ONG acusou o governo dominado pelos xiitas de estar “acobertando crimes de guerra”.

Com o governo do Iraque e os EUA pagando grandes somas de dinheiro a empresários, comerciantes, líderes tribais [e também paga ONGs como a Anistia Internacional, Greenpeace, HRW, dentre MUITAS outras (NTs)] e a qualquer um que diga que combaterá contra o ISIL, os senhores-da-guerra locais estão novamente em alta: desde o mês de junho/2014, foram criadas de 20 a 30 novas milícias.

Tudo isso significa que os sunitas iraquianos não têm escolha, a não ser manter-se ao lado doISIL. A alternativa seria a volta dos ferozes milicianos xiitas, que desconfiam de que todos os sunitas sempre apoiam o Estado Islâmico. Precariamente recuperado da mais recente guerra, o Iraque já está sendo devastado por nova guerra.

Aconteça o que acontecer em Kobani, o ISIL não implodirá. Qualquer intervenção estrangeira só fará aumentar o nível de violência, e oposição entre sunitas e xiitas ganhará novo impulso, sem fim à vista.


[*] Patrick Cockburn (nasceu 05 de março de 1950) é um jornalista irlandês que tem sido correspondente no Oriente Médio desde 1979 para o Financial Times e, atualmente, The Independent.
Está entre os comentaristas mais experientes no Iraque; escreveu quatro livros sobre a história recente do país. Recebeu o vários prêmios por seu trabalho incluindo o Prêmio Gellhorn Martha em 2005, o Prêmio James Cameron em 2006 e o Prêmio Orwell de Jornalismo em 2009.
Cockburn escreveu três livros sobre o Iraque: One, Out of the Ashes: The Resurrection of Saddam Hussein, escrito em parceria com seu irmão Andrew Cockburn, antes da guerra no Iraque. O mesmo livro foi mais tarde re-publicado na Grã-Bretanha com o título: Saddam Hussein: An American Obsession. Mais dois foram escritos por Patrick sozinho após a invasão dos EUA e após a sua reportagem premiada do Iraque. Escreve também para  CounterPunch  e London Review of Books.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Pepe Escobar: Kobani, a charada

24/10/2014, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online − The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

YJA Star militia - As valentes mulheres de Kobani
As valentes mulheres de Kobani – onde os curdos sírios combatem desesperadamente contra o ISIS/ISIL/Daesh – estão a um passo de serem traídas pela “comunidade internacional”. Essas mulheres combatentes, além de dar combate aos bandidos do Califa, também lutam contra as agendas traiçoeiras de EUA, Turquia e da administração do Curdistão Iraquiano. Afinal, qual é o verdadeiro negócio em Kobani?

Falemos, para começar, de Rojava. O pleno sentido de Rojava – as três províncias majoritariamente curdas do norte da Síria – está exposto nesse editorial (em turco) publicado pelo ativista Kenan Kirkaya, que está preso. Para ele, Rojava é lar de um “modelo revolucionário” que desafia nada menos que “a hegemonia do sistema do estado-nação capitalista” – muito mais que apenas o “significado regional que tem para os curdos ou para os sírios ou para o Curdistão” [Ver também, sobre Rojava, “Kobani para nós”, 17/10/2014].

Acontece que Kobani – região agrícola – está no epicentro desse experimento não violento no campo da democracia, possibilitado por arranjo construído logo no início da tragédia síria, entre Damasco e Rojava (vocês não vêm com “mudança de regime” para cima de nós; e nós deixamos vocês em paz). No artigo que se lê aqui, por exemplo, argumenta-se que “ainda que só um único aspecto do verdadeiro socialismo sobrevivesse lá, bastaria para atrair para Kobani milhões de pessoas insatisfeitas com a vida que vivem”.

Na região do Rojava, todas as decisões são tomadas em assembleias populares – que são multiculturais e multirreligiosas. Em cada municipalidade o governo é exercido por três autoridades: um curdo, um árabe e um cristão assírio ou armênio, e tem de haver em todos os governos municipais pelo menos uma mulher. As minorias não curdas têm as suas próprias instituições e falam seus respectivos idiomas.

Dentre os muitos conselhos de mulheres e de jovens, há também um exército feminista, cada dia mais conhecido no planeta, o YJA Star militia (“União das Mulheres Livres”, onde a “estrela” [ing. star] do nome faz referência à deusa mesopotâmica Ishtar). Vídeo a seguir:


O simbolismo não poderia ser mais gráfico: pensem nas forças de Ishtar (deusa na Mesopotâmia) combatendo contra as forças de Isis (na origem uma deusa egípcia), agora pervertidamente “reescrita” como califato intolerante.

No jovem século XXI, são as mulheres, nas barricadas de Kobani, que lutam na linha de frente contra o fascismo.

Inevitavelmente há alguns pontos de intersecção entre as Brigadas Internacionais que combateram o fascismo na Espanha em 1936 e o que está acontecendo em Rojava, como se lê num dos raríssimos artigos sobre isso na imprensa-empresa comercial dominante no ocidente (“Por que o ocidente está ignorando os curdos sírios revolucionários?”, ing., The Guardian, 8/10/2014.

Se esses componentes não bastassem para enlouquecer completamente os wahhabistas etakfiris intolerantes (e os poderosos petrodólares do Golfo que lhes garantem patrocínio), há também o contexto político em geral.

A luta em Rojava é liderada, essencialmente, pelo PYD, que é o ramo sírio do PKK turco, os guerrilheiros marxistas que estão em guerra contra Ancara desde os anos 1970s. Washington, Bruxelas e a OTAN – sob incansável pressão dos turcos – sempre classificaram os dois partidos, PYD e PKK como “terroristas”.

Leitura atenta de Democratic Confederalism – de autoria do líder do PKK Abdullah Ocalan e livro de leitura obrigatória – mostra que a equação Stalinistas/terroristas é pura invenção manipulatória (Ocalan está confinado na prisão-ilha de Imrali desde 1999).

O PKK – e também o PYD – luta(m) por um “municipalismo libertário”. De fato, é exatamente o que Rojava vem tentando fazer: comunidades que se autogovernam mediante democracia direta, usando como pilares os conselhos, assembleias populares, cooperativas administradas pelos trabalhadores – e defendidas por milícias populares. Daí que Rojava esteja na vanguarda de um movimento mundial cooperativo econômico/ democratizante, cujo alvo máximo é ultrapassar o conceito de estado-nação.

Asya Abdullah, co-presidente do PYD
Esse experimento está em andamento politicamente no norte da Síria; mais que isso, foram os partidos PKK e PYD quem realmente conseguiu resgatar aquelas dezenas de milhares de iazidis que o ISIS/ISIL/Daesh encurralara no Monte Sinjar. Não foram as bombas dos EUA, como “mídia” e “especialistas” não se cansaram de repetir. E agora, como detalha Asya Abdullah, co-presidenta do PYD, é indispensável abrir um “corredor” para romper o cerco que os bandidos do Califa mantêm em torno de Kobani.

O jogo de poder do Sultão Erdogan

Enquanto isso, Ankara parece determinada a prorrogar a política de “muitos-muitos problemas com nossos vizinhos”.

Para o Ministro de Defesa da Turquia, Ismet Yilmaz, “a principal causa do ISIS é o regime sírio”. E o Primeiro-Ministro, Ahmet Davutoglu – que inventou a doutrina hoje defunta de “zero problemas com nossos vizinhos” – repetidas vezes confirmou que Ankara só intervirá com coturnos em solo em Kobani para defender os curdos, se Washington apresentar um “plano pós-Assad”.

E há também o tal personagem maior que a vida, o Presidente da Turquia, Tayyip Erdogan, codinome Sultão Erdogan.

Os éditos do Sultão Erdogan são bem conhecidos. Os curdos sírios devem lutar contra Damasco sob o comando daquela ficção de péssima qualidade, o reconstituído (a ser treinado - e onde mais seria?! - na Arábia Saudita) Exército Sírio Livre. Os curdos têm de esquecer qualquer tipo de autonomia; devem aceitar como cordeiros o pedido que a Turquia fez aos EUA, para que criem uma zona aérea de exclusão sobre a Síria e também uma fronteira “securitizada” em território sírio. Não surpreende que ambos, o PYD e Washington, tenham rejeitado tais demandas.

O Sultão Recep Tayyip Erdogan
O Sultão Erdogan está com os olhos postos num reboot  no processo de paz com o PKK; e quer conduzir o tal processo numa posição de força. Até aqui, sua única concessão foi permitir que os peshmergas curdo-iraquianos entrem no norte da Síria para dar contrabalançar as milícias PYD-PKK, e assim impedir que se fortaleça algum eixo anti-curdos-turcos.

Ao mesmo tempo, o sultão Erdogan sabe que ISIS/ISIL/Daesh já recrutou cerca de 1.000 portadores de passaporte curdo – e continua a recrutar. Seu pesadelo complementar é que a mistura tóxica que está devastando o “Siriaque” acabe, mais cedo que tarde, por respingar fortemente dentro das fronteiras turcas.

Vejam aí esses bárbaros, nos nossos portões! [1]

Os bandidos do Califa Ibrahim já telegrafaram sua intenção de massacrar e/ou escravizar toda a população civil de Kobani. Mas Kobani, per se, não tem qualquer valor estratégico para o ISIS/ISIL/Daesh (o que até o Secretário de Estado dos EUA, John Kerry, disse semana passada; na sequência, previsivelmente, se desmentiu). Mas esse muito persuasivo comandante do PYD  sabe muito claramente da ameaça que é o ISIS/ISIL/Daesh.

Kobani não é essencial, se comparada a Deir ez-Zor (onde há um aeroporto que abastece o Exército Árabe Sírio), ou a Hasakah (onde há campos de petróleo controlados pelos curdos com a ajuda do Exército Árabe Sírio). Em Kobani não há nem aeroporto, nem campos de petróleo.

Por outro lado, a queda de Kobani geraria imensa propaganda positiva extra para a já muito propagandeada empreitada do Califa – ampliando a percepção de um exército vencedor, sobretudo entre portadores de passaporte da União Europeia e potenciais recrutas, além de estabelecer uma base sólida muito próxima da fronteira turca.

Essencialmente, o que o Sultão Erdogan está fazendo é combater contra, simultaneamente, Damasco (no longo prazo) e os curdos (no médio prazo), enquanto, de fato, vai dando passe livre (no curto prazo) ao ISIS/ISIL/Daesh. Na verdade, adiante, por essa via, o jornalista turco Fehim Tastekin tem razão: treinar rebeldes sírios “moderados” inexistentes na − oh!como-é-tão − democrática Arábia Saudita, só levará à paquistanização da Turquia.Remix – mais uma vez – do cenário que se viu durante a jihad afegã dos anos 1980s.

E como se tudo isso já não estivesse confuso que chegue, numa virada de jogo – e deixando de lado até seu dogma “terrorista” – Washington está agora mantendo uma entente cordialecom o PYD. O que gera dor de cabeça extra para o Sultão Erdogan.

Esse dá-e-tira entre Washington e o PYD ainda não está definido. Mas já há alguns fatos em campo e mostram tudo: mais bombardeios pelos EUA, mais armas lançadas pelos EUA (inclusive grandes lançamentos falhados, caso no qual as armas acabam caindo praticamente na cabeça dos bandidos do Califa). Vídeo a seguir:


Há um fato que não deve ser subestimado. Tão logo o PYD passou a ser mais ou menos “reconhecido” por Washington, o presidente do PYD, Saleh Muslim, tratou de encontrar-se com Masoud Barzani, o ambicioso líder do Governo Regional do Curdistão [orig. Kurdistan Regional Government (KRG)]. Foi quando o PYD prometeu uma “partilha do poder” com ospeshmergas de Barzani, no governo do Rojava.

Curdos sírios que foram obrigados a deixar a Síria e autoexilar-se na Turquia, e que apoiam oPYD, não podem retoornar; mas os curdos iraquianos podem entrar e sair à vontade. Esse perigoso acordo foi negociado pelo chefe de inteligência do KRG, Lahur Talabani. Esse Governo Regional do Curdistão (KRG), detalhe crucialmente importante, dá-se muito bem com Ankara.

Assim se pode afinal ver com mais clareza o jogo de Erdogan: ele quer que os peshmerga – que são ferozes inimigos do PKK – assumam a vanguarda contra o ISIS/ISIL/Daesh e assim abalar a aliança PYD/PKK. Mais uma vez, a Turquia lança curdos contra curdos.

Rojava - Curdistão sírio
Washington, por sua vez, está manipulando Kobani para legitimar completamente – em tom “humanitário”, tipo “responsabilidade de proteger” – sua cruzada contra ISIS/ISIL/Daesh. Nunca é demais lembrar que toda a coisa começou com uma barragem de “inteligência” distribuída por Washington, sobre um grupo completamente inventado, chamado Corassão, que estaria preparando um novo 11/9. Como se podia adivinhar que aconteceria, o Corassão sumiu completamente do noticiário.

No longo prazo, o poder norte-americano é gravíssima ameaça contra a experiência de democracia direta em andamento em Rojava, que aos olhos de Washington sempre será interpretada como – Deus nos proteja! – uma volta do comunismo.

Kobani é hoje pois um peão crucial num jogo impiedoso manipulado por Washington, Ankara e Arbil (ou Irbil ou Erbil). Nenhum desses atores quer que floresça o experimento de democracia direta em andamento em Kobani e Rojava, que se expanda e que comece a ser divulgado por todo o Sul Global. Há altíssimo risco de que as mulheres de Kobani, se não forem escravizadas, sejam amargamente traídas.

E tudo fica ainda mais horrível, quando o ISIS/ISIL/Daesh é visto como o que essencialmente é: uma tática diversionista, uma armadilha para o governo de Obama. O que os bandidos do Califa realmente almejam é a província Anbar no Iraque – que em grande parte já controlam – e o crucial cinturão que protege Bagdá. Os bárbaros estão nos nossos portões – não só nos portões de Kobani, mas também nos portões de Bagdá.
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Nota dos tradutores
[1] Orig. Watch those barbarians at the gates. Pode haver alguma referência metafórica a um filme para a televisão (1993) de mesmo título. Trailer a seguir:

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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan,  Nimble Books, 2009. 
− Seu novo livro,  Empire of Chaos, será publicado em novembro/2014 pela Nimble Books.