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sábado, 13 de outubro de 2012

Sob uma fachada de liberalismo - EUA à beira do fascismo


Norman Pollack, Counterpunch, 12-14/12/2012, ed. fim de semana
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Importante assistir também
Atenção especial ao que o prof. Mangabeira diz em 11’16” (abstraindo-se, lógico, a IMBECILIDADE dos jornalistas/ entrevistadores brasileiros do GRUPO GAFE – Globo-Abril-FSP-Estadinho)

Uso a expressão “fascismo” aqui não como clichê, mas como formação histórico-estrutural enraizada principalmente no estágio desenvolvido do capitalismo, no qual a interpenetração business-governo (que o cientista político japonês Masao Maryuma chamou de “o sistema do abraço apertado”) criou classes sociais hierarquizadas de riqueza e poder muito diferentes; a militarização dos valores sociais e da estratégia geopolítica; e uma falsa ideologia de apagamento de classes, para instilar lealdade à ordem social imposta, entre os que trabalham.

De fato, todos esses fatores já estão presentes e ativos, em alto grau, nos EUA – extraordinariamente mascarados, porém, pela retórica do liberalismo, como se vê no governo Obama.

Mitt Romney
Isso posto, minha hipótese de provocação (mas nem tanto) é que, nas próximas eleições, Romney é preferível a Obama. Por quê? Em termos amplos, estamos assistindo a graus variados de sofisticação nessa corrida final rumo à linha de chegada (movimento típico do fascismo em progressão, a meio caminho entre o surgimento e a plena implantação), com Romney e os Republicanos falando a voz do fascismo plebeu; e Obama e os Democratas manifestando o fascismo em formato corporativo mais sofisticado. Tudo que se diga contra Romney é verdade, das crenças sociais darwinistas e militarismo figadal à intolerância cultural e à xenofobia e, talvez ainda pior, se se pensa o partido como um todo, mas o principal é o que não se diz: que tudo isso é negação absoluta, em todos os campos, do que se entende por democracia. (Por menos que os EUA tenham considerado ou realizado algum estágio democrático de desenvolvimento político-econômico ao longo de praticamente toda sua história!). Apoiar a candidatura de Romney envolve quem o apoie num pesadelo social de nenhum limite à riqueza (e de tudo que vem junto, da política de impostos mínimos a ataques diretos aos sindicatos e aos salários, com todo um clima antitrabalhismo disseminado na sociedade), além de cortes severos nas redes de proteção social. Tudo isso é a parte sabida, previsível, transparente do meu argumento para explicar por que Romney é preferível a Obama.  Claro que, em modalidade simplificada, de popularização, Trotsky trabalha no fundo da minha cabeça.

Barack Obama em campanha
Diferente disso, Obama é inatacável, porque goza da proteção da doutrina dos segredos de Estado (a qual, como a Segurança Nacional, é proteção que ele sempre invoca), sob a carapaça liberal que envolve todas as questões políticas, resultado do trabalho de jornalistas “marketeiros” extremamente hábeis no trabalho de “modelar” os discursos da sociedade. como Axelrod e Rhodes [1]; e de uma base eleitoral submissa, não crítica, que “ama” o presidente, e que resiste doentiamente contra qualquer exame crítico dos feitos do governo Obama. Os feitos do governo Obama só confirmam a bancarrota política, econômica e moral do Partido Democrata, que tem hoje, a diferençá-lo dos Republicanos, e como única diferença, a magnitude das mentiras e da dissimulação “jornalística”, mais hábil a favor dos Democratas. De fato, o Partido Democrata repete, em outros termos, exatamente as mesmas políticas dos Republicanos. Mas mente melhor.

Os Republicanos são sinceramente convictos nas críticas que fazem a Obama, porque são ignorantes demais para reconhecer, nos seus surtos de retórica antigoverno, que o governo Obama assume as mesmas posições dos Republicanos. E todos, gregos e troianos, dedicados a agradar a uma base eleitoral que, nos melhores casos, inclui traços de falso radicalismo, ao mesmo tempo em que se alimenta do desejo de continuar a crer nas antigas promessas Obama. Está montado o cenário de teatro para a política antidemocrática, na sua modalidade mais cruel.

A lista das traições de Obama é longa e cobre, virtualmente, toda a sua política pública, sem exceção. (Bom começo se encontra nos ensaios críticos reunidos em Hopeless  [2], perfeito quebra-gelo para os ainda desinformados e interessados em se informar).

  1. Na saúde pública, Obama saqueou o sistema de único pagador, preparando assim o caminho para saquear também a opção pública, ao mesmo tempo em que silenciou, ou, melhor, deslegitimou todas as vozes críticas, e, simultaneamente, blindou as empresas que vendem seguro-saúde contra qualquer tipo de processo por atentado à legislação antitrustes e favoreceu as “Big Pharma”, as gigantes fabricantes de remédios.

  1. Nas liberdades civis, bom teste limite para aferir qualquer governança democrática, o Departamento de Justiça de Obama trabalhou contra os direitos de habeas corpus dos detidos; invocou a Lei Antiespionagem contra vazadores de informação verdadeira não desmentida; levou seu estado de vigilância e controle muito além de qualquer governo anterior, com sua Agência de Segurança Nacional, hoje, quase inacreditavelmente, já legalmente autorizada a ouvir por trás de qualquer porta; enquanto prossegue o tráfico de prisioneiros postos sob responsabilidade do Estado, mas que são entregues a outros estados para serem torturados; e esses “buracos negros” continuam a devorar gente; e até agências do Estado espionam (como na Federal Drugs Administration) os próprios funcionários.

  1. No militarismo, do qual não se podem excluir nem a política externa nem a política comercial; nos drones – arma que leva, para todo o planeta, a assinatura de Barack Obama – que aterrorizam cidades inteiras, que aprenderam a temer a morte que vem do céu; no poder naval ostentado do Mar do Sul da China ao Mediterrâneo; em toda uma nova geração de armas nucleares já em linha de montagem (sem qualquer ameaça de corte de orçamento); num orçamento militar que é o maior proporcionalmente, de todos os tempos; e no que já se vê como um estado de guerra permanente.

  1. Nas omissões as quais, só elas, pela ausência, dizem muito sobre os objetivos e políticas desse governo, que absolutamente não tomou providência alguma nem para criar empregos nem para impedir os despejos de famílias inteiras, nem teve qualquer ação ambiental positiva clara (nenhuma), nem tomou qualquer medida para controlar a compra e o porte de armas nos EUA; nem tomou qualquer medida para reduzir ou amenizar a miséria, nem tomou qualquer medida para impor controles aos bancos e aos grandes conglomerados da finança. Mas, afinal, nem ninguém poderia ter esperado, mesmo, qualquer regulação de bancos e finanças, porque Obama professa a mesma religião de Clinton-Rubin e aquela gente, que só creem, mesmo, no livre mercado e nos livres marqueteiros.

O que, de pior que isso, algum governo Republicano de Romney poderia fazer?

Talvez se metam em questões de casamentos de pessoas de mesmo sexo e aborto, enquanto Obama – ocupado com sua visão geopolítica de “primeiro o Pacífico” e estratégias “concretas”, só pensa em cercar a China e promover uma agenda econômica que visa, exclusivamente, a maior concentração de riqueza para as grandes corporações.

Se os Republicanos estão chegando feito neo-Talibãs, em matéria cultural, os Democratas, quase subrepticiamente, só fazem avançar a financeirização total da economia, com todas as distorções que daí advêm – cada vez menos empregos, riqueza cada vez mais concentrada e (Ah! É o calcanhar de Aquiles do capitalismo!) queda incontrolável do consumo?

Por que Romney? Porque é transparentemente um homem de Neanderthal. E sua brutalidade talvez leve legiões de norte-americanos indignados, às ruas. Enquanto a passividade de Obama e sua falsa consciência social aparecem como quase inderrubáveis.

De minha parte, ficarei em casa e não votarei nas próximas eleições.

O argumento do “dos males, o menor” é moralmente obtuso e é muito perigoso: primeiro, porque implica cumplicidade com políticas que são moralmente (e também econômica e politicamente) destrutivas; segundo, porque induz um falso moralismo, uma falsa “ética”, uma falsa “consciência social”, uma falsa “justiça”, um falso legalismo que, a cada passo, mais fará curvar qualquer consciência social lúcida e progressista e democraticamente moral.

E, se os norte-americanos se deixarem enganar e ludibriar, e aceitarem governo que zomba da democracia – cortesia dos Goldman Sachs e de gente que prega a simulação de afogamento como “método válido de interrogatório estimulado” – com Obama presidindo a rotina de pão & circo para as massas... que Deus salve os EUA.



Notas dos tradutores

[1] David M. Axelrod: “marketeiro” de Chicago, Illinois. Foi um dos principais assessores políticos do presidente Bill Clinton e assessor político da primeira campanha eleitoral de Obama. Depois da eleição, foi nomeado, em 2008, Assessor Sênior da Presidência. Em 2011, deixou a Casa Branca para coordenar, como principal estrategista, a campanha de reeleição de Obama. É jornalista e foi editor de política do Chicago Tribune. É sócio-proprietário da empresa AKPD Message and Media e diretor da empresa ASGK Public Strategies.
David Rhodes é jornalista, hoje diretor da rede CNN, saído diretamente da Rede Fox. Um de seus filhos trabalha atualmente na campanha de reeleição de Obama.

[2] ST. CLAIR, Jeffrey;  FRANK, Joshua (Eds.) Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion [Sem esperança: Barack Obama e a política da ilusão], Counterpunch Books,

terça-feira, 17 de julho de 2012

Imperdível a entrevista do Prof. Mangabeira Unger, no Roda Viva


Enviada pelo pessoal da Vila Vudu
Entrevista realizada em: 13/07/12 19:57 - Atualizada em 16/07/12 - 23:32


Comentário entreouvido na Vila Vudu: É INDISPENSÁVEL abstrair a IMBECILIDADE dos “jornalistas” entrevistadores. Não entenderam NADA. Realmente IMPRESSIONANTE. 

Aqueles imbecis acham o Mangabeira “folclórico”. Normal. Quem JAMAIS viu a inteligência aliada à paixão política em potência forte -- e quem esteja convencido de que a própria imbecilidade é “ética” (além de bem informada, “por dentro” e naturalmente “certa”), só pode achar “folclórica” a inteligência. IMBECIS. IMBECIS.

Paulo Caruso, desenhista comentarista, esse, deve ser demitido. Melhor: deve ser mandado pra Guantánamo, pra desenhar piadinhas metidas a espertinhas, lá, o perfeito idiota.

É o “jornalismo” do grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão)! Duvidam? É só assistir, a seguir,  ao Roda Viva (acontece em 11’16”): 

“Mas, prof. Mangabeira... Romney é pior que Lula! \o/ \o/ \o/”.

sábado, 20 de agosto de 2011

Contra impostos? “Austeridade”? Por quê?!


Corey Robin

12/8/2011, Corey Robin, London Review of Books, vol. 33, n. 16
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Entreouvido na Vila Vudu:

“Pêqmepê! De tanto os panacas petistas falarem em “tucanos”, “tucanos”, porque os jornais e a televisão só dizem “tucanos”, “tucanos” – justamente para fazer esquecer que o PSDB é o Partido da Social Democracia Brasileira – até já tinha mesquecido! Pêqmepê! O PSDB é o partido da social democracia brasileira! Comé que eu fui mesquecê?!

Nenhum partido social democrata jamais prestou, no mundo, nunca! 

Em 2004 o Mangabeira Unger já ensinava em SOCIAL DEMOCRACIA: “O discurso político dominante no Brasil hoje é o da social-democracia européia. Na Europa, porém, fica cada vez mais patente a insuficiência da fórmula social-democrata para lidar com os problemas atuais. Mais razão para concluir que está errado o subtexto da política brasileira. 
O que definiu a formação da social-democracia no curso do século 20 foi o abandono da tentativa de reorganizar o Estado e o mercado em favor da adoção de políticas de redistribuição econômica e proteção social. Políticas que humanizariam as instituições que os social-democratas deixaram de criticar”

A crise da dívida pela qual passa o governo Obama é resultado da guerra e dos impostos. Não se discute que a crise vem de antes da eleição de Obama. Quando George W. Bush tomou posse em 2001, os EUA tinham excedente de $2 trilhões. Muitos acreditavam que, se o país simplesmente seguisse o rumo traçado por Bill Clinton, a dívida nacional, então de $5,7 trilhões, estaria zerada ao final da década. Bush escolheu outra via. Cortou impostos e reduziu a arrecadação em cerca de $1,8 trilhão. Declarou guerra geral ao terror e fez duas guerras específicas. Financiadas inteiramente por empréstimos – fato inédito na história dos EUA – as guerras e os gastos extras da Defesa acrescentaram $1,5 trilhão à dívida. A crise financeira e a recessão que a seguiu fizeram encolher ainda mais a arrecadação. Quando deixou o governo, Bush já havia consumido o excedente e praticamente dobrara o tamanho da dívida – foi o presidente que mais aumentou a dívida pública, em toda a história dos EUA.

Não importa o caminho pelo qual chegamos ao ponto onde estamos: a atual crise é política, não financeira. Os EUA não estão ante a perspectiva de não mais poder tomar empréstimos por ninguém querer emprestar; as convulsões são resultado de contingências inteiramente políticas: uma lei de 1917, que exige que o Congresso autorize aumentos no teto da dívida; uma Câmara de Deputados controlada pelos Republicanos que parece sinceramente querer – também pela primeira vez na história dos EUA – impedir qualquer aumento; e um presidente Democrata que – por convicção, astúcia ou necessidade – prefere cooperar, a confrontar a oposição. Dessa convergência nasceu a ideia de que, se o Congresso não autorizasse o aumento do teto de endividamento no dia 2/8, os EUA quebrariam. Isso jamais aconteceria, em nenhum caso: os EUA tinham reservas para pagar as dívidas (e tinham arrecadação futura), e Obama antes cortaria outros gastos, e em nenhum caso o país quebraria. Mesmo assim, com a histeria e o desvario de que só Washington é capaz, fixou-se o consenso de que era preciso fazer alguma coisa, imediatamente.

Se a política não tivesse intervindo e se Obama desse ouvidos aos economistas de centro-esquerda, eis o que deveria ter feito. Primeiro, nada fazer, coisa alguma, em relação à dívida, pelo menos por hora. A dívida pode ser significativamente reduzida, bastando, para tanto, que a economia melhore. A melhor maneira de obter isso é o governo gastar, o que aumentará a dívida no curto prazo, mas a fará diminuir no longo prazo, com a arrecadação gerada pelo crescimento. Segundo, estando a economia saudável, aumentar impostos, sobretudo para os mais ricos. Como parte do PIB, a arrecadação está no nível mais baixo desde 1950. Exceto durante um curto período no final dos anos 1980s e início dos 1990s, os principais impostos marginais chegaram ao nível mais baixo, desde 1931. Impostos cobrados a empresas nos EUA são os mais baixos dentre todos os países da OECD. A ideia de que não se poderiam aumentar impostos, não só para financiar gastos necessários e desejados, mas também para reduzir o déficit, é contraintuitiva. Finalmente, reduzir os gastos militares. 

Como o jornalista de economia Doug Henwood observou, se os EUA simplesmente voltassem aos níveis de gastos de 2000 – 3,7% do PIB, bem diferentes dos atuais 5,4% –, já poderia economizar $3,6 trilhões, na próxima década, 72% a mais que economizará nos termos do acordo sobre endividamento que Obama negociou com o Congresso.

Nada disso. Obama e o Congresso tomaram o caminho inverso, pavimentado há 40 anos pela filosofia “contra impostos” da direita norte-americana. Em fevereiro de 2010, Obama nomeou uma comissão bipartidária para equilibrar o orçamento até 2015, e fazendo da redução da dívida prioridade absoluta. Depois das eleições de meio de mandato, em novembro, quando os Republicanos reconquistaram a maioria da Câmara com a ajuda do Tea Party, Obama congelou os salários dos trabalhadores federais e endossou um programa de “austeridade” ainda mais agressivo. Só cortes e nenhum aumento de impostos: não uma vez (quando, em dezembro, Obama prorrogou a validade dos cortes de impostos feitos por Bush), mas duas vezes (na primeira fase do acordo da dívida, que elimina $900 bilhões da dívida exclusivamente cortando gastos) e, agora, já quase três vezes (com a segunda fase do acordo, que eliminará mais $1,2 trilhões só em gastos... se uma comissão do Congresso não conseguir produzir pacote de aumentos de impostos e cortes de gastos até novembro). O acordo não fala de cortar gastos da Defesa – e não se sabe se os cortes são cortes ou simples taxas de crescimento mais lento, nem se e como acontecerão – mas recentes comentários de Obama e de seu secretário da Defesa sugerem que o acordo final teria sido o melhor possível, para evitar cortar benefícios.

Por definição, o acordo a que chegaram seria politicamente viável. Por que seria viável – e outras soluções não seriam viáveis – é assunto muito discutível e ferozmente discutido. Muitos culpam os Republicanos, que quereriam encurralar o governo, para prosseguir em sua agenda de baixar impostos e minimizar gastos. Outros culpam Obama: sua sobrenatural aversão a conflitos e crença absurda na boa fé dos Republicanos e no valor do bipartidarismo. Há quem fale também das limitações que constrangem o poder do presidente nos EUA: diferente do que ocorre em sistema parlamentarista, o presidente tem de negociar com deputados da situação e da oposição cujos destinos eleitorais não estão atrelados aos do presidente. 

Há quem diga que não se pode assumir que Obama desejasse resultado substancialmente diferente do que obteve. Pode ser verdade: Obama sempre declarou seu desejo de cortar gastos do governo; talvez porque suponha que assim melhorariam suas chances de ser reeleito, ou porque embarcou nas ortodoxias neoliberais da moda ou, simplesmente, porque conviveu por tempo demais com os friedmanistas da Universidade de Chicago, Obama não é o progressista que muitos imaginaram que fosse. Obteve o acordo que obteve simplesmente porque era o acordo que desejava obter; ou, então, porque não desejava com o indispensável empenho qualquer outro tipo de acordo.

Todos esses argumentos dão a impressão de ter algo de substancial, mas se os deixamos esfriar e voltamos a eles na manhã seguinte, vê-se que, em todos, falta uma dinâmica mais profunda. 

Historicamente, crises de dívidas resultantes de guerras sempre catalisaram avanços políticos progressistas e, algumas, até precipitaram revoluções. Charles I e Louis XVI viram-se metidos em conflitos militares que seus sistemas tributários não podiam financiar. Acabaram, os dois envolvidos em confrontações fatais: Charles com o Parlamento em 1640; e Louis com os Estados Gerais em 1789. Além da motivação financeira, as revoluções que derrubaram esses soberanos alimentaram-se também das disputas que os reis tiveram de fazer para aumentar impostos e financiar suas guerras. 

Como Richard Tuck sugeriu, é possível que o próprio Charles tenha aberto a porta para a democracia na Inglaterra. Para reimplantar um antigo imposto sobre cidades costeiras (“ship money”) e com esse dinheiro financiar uma expedição naval contra os holandeses, a Coroa argumentou que a segurança da população seria o mais intocável fundamento da ação política – axioma de todos os republicanos de todos os tempos –, superior a qualquer lei ou constituição. Embora usado para justificar o absolutismo, a retórica de Charles sobre “interesses do povo” carregava importante implicação democrática subversiva: essas guerras não são minhas, são suas, de vocês, do povo, e vocês têm de fazer o possível e o impossível para que sejam guerras vitoriosas. Forças parlamentares poderiam ter contra-argumentado que, se o padrão ouro da política são os interesses e a segurança do povo, melhor seria que representantes eleitos do povo determinassem de que interesses e segurança se tratava e como preferiam vê-los defendidos.

Logo depois do 11/9, muitos liberais esperavam que a guerra ao terror inaugurasse novo capítulo na história da social democracia nos EUA, porque a conclamação ao sacrifício patriótico geraria uma ética da solidariedade social. O que se viu foi Bush capando impostos, endividar o país até o pescoço e converter a guerra ao terror em esporte nacional pela televisão, não em guerra do povo. Soberanos modernos tardios, parece, afastam suas políticas de qualquer democracia, criando exércitos mercenários e mergulhando no pântano dos mercados de crédito fácil. Como resultado, ninguém nos EUA precisa reclamar a propriedade de qualquer valor comum ou coletivo: nem de guerras nem de dívidas; nem o governo nem, com certeza, os cidadãos, cada dia mais empobrecidos e precários.

Por isso, a atual crise foi tomada pela esquerda como oportunidade para retirada e encolhimento, não como fagulha que poderia desencadear uma revolta democrática. Nessa medida, faz lembrar crises semelhantes no Terceiro Mundo ao longo dos últimos 30 anos, sempre usadas pelas elites para justificar cortes drásticos nos gastos do governo e a reestruturação de economias social-democratas. Por exemplo, também, a crise fiscal da cidade de New York em 1975, quando Wall Street pôs-se a impor políticas de “austeridade” e disciplina à social democracia nos EUA, em movimento que, para muitos, deu origem a experimentos posteriores, sempre de crescente “austeridade”, na América Latina e pelo mundo. 

O persistente discurso de Obama a clamar por “austeridade” atualiza para 2011 o que diziam os Democratas de Wall Street durante a crise de 1975. Depois daquela crise, o partido Democrata foi reconfigurado à imagem de Wall Street [no Brasil, criou-se o PSDB, Partido da Social Democracia Brasileira, à moda FMI e Wall Street. BINGO!]

Mas há duas diferenças cruciais, hoje. Não há qualquer ameaça de os emprestadores fecharem as torneiras; emprestadores internacionais parecem perfeitamente desejosos de continuar a financiar o endividamento dos EUA. De fato, quando a Bolsa de Valores desabou depois que Standard and Poor’s rebaixou a avaliação dos EUA, dia 5 de agosto, os investidores correram a pôr seu dinheiro em bônus do Tesouro dos EUA. E onde crises anteriores provocaram resistência popular, dessa vez – por mais que a crise seja simulacro – exceto em Wisconsin e alguns outros estados, o único sinal de mobilização que se viu na esquerda, foi para rápida retirada.

Se há texto de leitura indispensável nesse momento, é O 18 Brumário de Luis Bonaparte, de Marx [1]. Não pela super repetida frase da primeira vez como tragédia, depois como farsa, mas, isso sim, pela impressionante análise, de retrovisão e previsão, do comportamento reacionário dos camponeses franceses ao longo das monarquias Bourbon e de Julho. Embora a revolução de 1789 e Napoleão tivessem libertados os camponeses da servidão, a geração que veio em seguida foi entregue, sem qualquer atenção, à dura disputa dentro do mercado da produção agrícola, contra pequenos proprietários que não lhes podiam oferecer emprego e salário. Sim, já não tinham de pagar impostos feudais aos donos da terra, mas tinham de pagar hipotecas e impostos que nenhum benefício lhes traziam. Com Napoleão III, o estado só lhes ofereceu o espetáculo imperial. Não era pouco, como Marx observou, porque, no exército, os camponeses foram “transformados em heróis, defendendo suas novas posses contra o mundo externo, glorificando a nacionalidade recém adquirida, pilhando e revolucionando o mundo. A farda era seu manto de poder estatal; a guerra, sua poesia”. A isso Marx chamou “o império do campesinato”. 

Na análise de Marx vê-se o baixo ventre da crise da dívida – de fato, das últimas quatro décadas da revolta da direita contra impostos, da Proposição 13 de Howard Jarvis em 1978, que destruiu as finanças da California ao impor estritos limites a qualquer aumento de impostos, ao Tea Party. Os liberais sempre têm dificuldade para entender esses movimentos – impostos não servem para nada que preste? – porque não veem como é pouco o que o estado, nos EUA, oferece diretamente aos cidadãos, em relação às circunstâncias econômicas em que vivam.

Desde o início dos anos 1970s, com curtos períodos de exceção, os salários dos trabalhadores estão estagnados. O que o estado ofereceu em resposta? Transporte público praticamente não existe. Nem com a “reforma” de Obama o estado oferece assistência médica ou seguro-saúde à maioria da população. Exceto nos bairros ricos, só muito raramente se encontra educação pública de boa qualidade. Nessas circunstâncias, não surpreende que os cidadãos queiram pagar menos impostos. Aí está um tipo de mudança na qual conseguem crer.

Nesse ponto, Democratas como Obama e os que o defendem, que tanto reclamam de o Tea Party ter sitiado a política norte-americana, são os únicos culpados. Durante décadas, os Democratas ajudaram a depauperar o estado norte-americano [no Brasil, a social democracia brasileira, o PSDB, fez o mesmo serviço sujo (NTs)] sempre na vã esperança de que o mercado operaria sua mágica. Por algum tempo, até que operou, enquanto o estado endividava-se sem parar. E os trabalhadores encontraram compensação para os salários estagnados, no crédito fácil e nas hipotecas a juros baixos. Na hora de pagar as dívidas, os salários – no caso dos felizardos que ainda tivessem emprego e salário – não era suficiente para pagar coisa alguma. Só restou aos assalariados clamar por menos impostos e ‘austeridade’. E o império do campesinato.



Nota dos tradutores
[1] MARX, Karl. [dez.1851-mar.1852] O 18 de Brumário de Louis Bonaparte