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segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Tumultos (financiados pelos EUA − NED) em Hong Kong


29/9/2014, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Polícia detém manifestantes com "spray"de pimenta e gás lacrimogêneo
Em Hong Kong, “grupos de estudantes” organizados tentaram ocupar prédios públicos e bloquearam algumas ruas. A Polícia fez o que qualquer Polícia faz onde essas coisas aconteçam. Usou esquadrões antitumultos, spray de pimenta e gás lacrimogêneo para impedir ocupações e desimpedir as ruas.

A imprensa-empresa “ocidental” está indignadíssima, como se governos “ocidentais” agissem de modo muito diferente.

A questão-pretexto, dessa vez, é a eleição do novo prefeito de Hong Kong, em 2017. Segundo a lei básica de Hong Kong, que foi implementada quando a Grã-Bretanha desistiu da ditadura que mantinha sobre a colônia, haverá eleições com sufrágio universal, todos podem votar, mas os candidatos ao cargo terão de ter seus nomes pré-aprovados por uma comissão especial. É o que a China prometeu fazer, e é o que os “estudantes” tentam fazer crer que seria a China, agora, a trair alguma promessa passada.

Peter Lee, codinome Chinahand escreveu brilhante coluna sobre o assunto, para o Asia Times Online. Lee cometeu só um erro, porque não considerou a possibilidade de a “manifestação” ter origem externa:

A manifestação que se autodenomina “Occupy Hong Kong” decidiu ampliar, começando com boicote às aulas e manifestações de rua organizadas pela Federação de Estudantes de Hong Kong. E eu, que nunca me intimido ante novas metáforas, digo que o governo de Hong Kong jogou gasolina ao fogaréu, com sprays de pimenta e bombas de gás contra os jovens.

Usando armas não-letais a polícia impede invasões
Quem, de fato, “decidiu ampliar”? Para mim, as “manifestações” e o correspondente noticiário “ocidental” sobre elas exalam forte odor, não de gás lacrimogêneo, mas de um conhecido e caro perfume da griffe Revolução Colorida, fabricado no “ocidente”.

Consideremos então a sempre importante fonte de tão rara fragrância. O relatório anual de 2012  da organização National Endowment of Democracy (NED) [literalmente, “Dotação Nacional para a Democracia”], que é mantida pelo governo dos EUA, que também atende pelo nome de Agência Central para Promoção de Revoluções Coloridas [ACPRC], mostra três pagamentos para Hong Kong, um dos quais surge em 2012, ausente dos relatórios anuais prévios:

National Democratic Institute (NDI) for International Affairs - US$ 460,000.00

Para promover a conscientização sobre instituições políticas em Hong Kong e reforma do processo constitucional, e para desenvolver capacidadesentre os cidadãos – especialmente entre alunos universitários –para que participem mais efetivamente no debate público sobre reforma política, o NDI trabalhará com organizações da sociedade civil sobre monitoramento de parlamentares, pesquisas e desenvolvimento de um portal Internet mediante o qual alunos e cidadãos possam explorar possíveis reformas que levem ao sufrágio universal.

Pagamentos efetuados pela NED & outras ONGs
Quer dizer que em 2012 (ainda não há números de 2013) o governo dos EUA entregou por lá quase meio milhão de dólares, para “desenvolver capacidades” de “alunos universitários” relacionadas à questão do “sufrágio universal” na eleição para o Executivo de Hong Kong. É isso.

Dois anos depois de o dinheiro começar a aparecer por lá, enviado pelo governo dos EUA, aqueles estudantes em Hong Kong saem às ruas, provocam tumultos e exigem exatamente o que o dinheiro do governo dos EUA queria ver exigido nas manchetes “jornalísticas”.

Mas... que impressionante coincidência, não é mesmo?
________________

PS (1): Não há qualquer motivo para acreditar que a maioria da população em Hong Kong apoie as demandas dos “estudantes” induzidas com dinheiro dos EUA. Hong Kong é metrópole de 7 milhões de habitantes. 10 ou 20 mil manifestantes é porção marginal da população: 0,2%.

Vestimenta padrâo, em folheto distribuído pela NED e ONGs, dos manifestantes e "black blocs" nas revoluções coloridas 
(Clique na imagem para aumentar)
PS (2): Já observamos há algum tempo que o novo esquema 2.0 para Revoluções Coloridas (vide Líbia, Síria, Ucrânia) inclui atualmente muita, muita violência:

As revoluções coloridas de antigamente converteram-se claramente em modelão para uso subsequente. Mas o conceito foi estendido para incluir vasto emprego de violência e de mercenários no “apoio” das forças “locais”; mercenários e “apoio” que vêm de fora, como armas, munição, treinamento e outras ferramentas.

Enquanto as Revoluções Coloridas de antes utilizavam quase que exclusivamente meios pacíficos, o objetivo hoje é fazer correr a maior quantidade possível de sangue pelas ruas e provocar o maior dano possível à infraestrutura local, para enfraquecer as forças que se oponham-resistam contra os golpes para mudar regimes. As autoridades em Hong Kong devem preparar-se, portanto, para muito mais do que apenas “manifestações” de estudantes que “pedem democracia”.

PS (3): O National Democratic Institute (NDI) do governo dos EUA, através do qual o dinheiro foi encaminhado para lá, é o braço do Partido Democrata para campanhas pró-“mudança de regime”. Já está se intrometendo demais e financiando também várias outras organizações em Hong Kong.

Esse tipo de agente externo tem de ser contido.


[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como “Whisky Bar” ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille  (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ouvir versão em performance de Tim van Broekhuizen.


quarta-feira, 3 de julho de 2013

Manifestantes brasileiros – “O assalto ao poder: com quem e contra quem?”

28/6/2013, Jean-Luc Mélenchon, Courrier du Blog
Le Brésil en question [*]
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Jean-Luc Mélenchon
No Brasil, um potente movimento popular e jovem invade as ruas. Não tenho, cá da minha mesa em Paris, a pretensão de que saberia o que se passa nesse momento no Brasil e de que eu teria a resposta política mais certa. Mas a prática que tenho daquele continente e meu trabalho sobre os eventos que ali se veem já há 15 anos me permitem, sem temeridade, propor alguns elementos à reflexão.

Mesmo visto de bem longe, salta aos olhos o conteúdo progressista do movimento, que exige melhores serviços públicos, protesta contra a corrupção e denuncia o jogo dos jornais e redes de televisão. Essas demandas formam o tripé de base dos primeiros passos de todas as revoluções cidadãs pelo mundo. Mas, no Brasil, esse movimento aparece sob governo de esquerda, da presidenta Dilma Rousseff.

O governo Dilma, depois do governo de Lula, é parte constitutiva da onda de revoluções democráticas que atravessaram o continente. E obteve vitórias brilhantes na luta contra a pobreza. Em período recente, Dilma Rousseff deu provas de coragem e de determinação, nas respostas que deu contra manobras do império norte-americano que obra para desestabilizar o país, naquela região. Deu provas de que vê com lucidez os limites da Europa atual em geral, apesar dos movimentos eurobéats [1] do grupo social-democrata de seu partido.

Rio de Janeiro (Pozzebon)
A proposição de Dilma, para responder positivamente ao movimento em andamento nas ruas foi, na minha avaliação, completa novidade na arte da gestão de situações insurrecionais. Foi, em minha opinião, resposta perfeitamente adaptada ao que é mais necessário no momento. Não o digo pensando no interesse do partido da presidente, nem, sequer, em sua presidência. Digo-o pensando do ponto de vista do país e do futuro revolucionário do processo para o qual os governos do PT abriram caminho em 2002. A presidenta propôs convocar uma Assembleia Constituinte. Que melhor via para refundar a sociedade política e repensar seus valores e objetivos, dando ao povo o meio pra se construir politicamente? Essa proposta foi engolida pelos protestos dos especialistas constitucionalistas conservadores cabeças-de-ovo brasileiros, por um lado. E, por outro lado, pelo tiroteio que a presidente recebeu, pelas costas, de seu próprio campo. Não haverá Assembleia Constituinte. Essa é a pior notícia de todas. Adiante, tentarei explicar-me melhor.

Antes disso, temos outra discussão a fazer: o movimento que cresce com palavras de ordem hostis ao governo de Dilma Rousseff exige todo o nosso empenho. É nosso dever intelectual analisá-lo com seriedade. Afinal, se trata de compreender o que se passa, para extrair lições e, com elas, conduzir nossa estratégia.

Na emergência desse processo quase insurrecional, sabe-se que se conjugam vários parâmetros e que é perda de tempo procurar alguma causa única. Dentre as várias causas, muitas são clara e pesadamente imputáveis ao próprio governo, ao sistema do Partido dos Trabalhadores (PT), à política produtivista e extrativista ainda seguida por vários setores decisivos. Mas, para produzir reflexão útil, acho que temos de nos propor novas perguntas, tão novas, pelo menos, quanto a situação. De nada nos servirá retomar os termos habituais: “eles” fizeram pouco, “eles” foram insuficientes”. Mudemos de cantoria.

Uma boa pergunta a propor, me parece, é “como o PT – se ainda houver tempo – pode repensar e encontrar, no movimento atual, algum elemento positivo para aprofundar o que o partido começava a ter, com Lula”. Essa não é discussão, nem esse é assunto reservado só aos brasileiros. Minha intuição diz que temos de aprender a pensar de outro modo nossa ação de governo. Não só em torno do nosso programa, mas também em termos de como fazer a gestão da mais longa duração.

Arcos da Lapa (RJ) - J.Cruz
Situo-me aqui como alguém que se sente muito próximo do governo do Brasil, o suficiente para não querer vê-lo se estatelar sob golpes e mais golpes de um movimento que, como se vê, une muita gente. Escolho esse ângulo de análise, para não me deixar prender na armadilha de discutir duas conhecidas linhas de crítica de esquerda que, como entendo, nos levariam ao impasse.

A primeira dessas linhas sem saída, em minha opinião, é nos deixar consumir, escrevendo o catálogo das críticas pequenas e grandes contra tudo o que não foi feito, que foi mal feito ou que não foi suficientemente feito. Falo aqui, para fugir dela, da crítica de tipo “ala esquerda”, que vive a lamentar que ela própria nunca consiga fazer coisa melhor. Essa crítica está abaixo da realidade que se vai produzindo nas ruas. Para dizê-lo bem diretamente: se, amanhã, Dilma Rousseff anunciasse a imediata construção de todas as escolas que todos exigem, duvido muito que essa “resposta” bastasse para acalmar alguém. O movimento parece já ter chegado ao ponto no qual suas reivindicações parecem inscritas num projeto muito maior do que o que se manifesta nas reivindicações pontuais. De onde vem essa dinâmica?

Vejo aí razões de efeito quase mecânico, que estão operando dentro da sociedade. Adiante, também voltarei a esse assunto.

A segunda das linhas sem saída é a que se autolimita a uma via revolucionária tradicional do século 19 e 20. Para esses, tratar-se-ia de varrer tudo, numa vassourada só, não só os avanços já conquistados pelos governos do PT (apresentados como incertos e superficiais), mas também o método democrático de conquistar e de exercitar o poder. Esse caminho me parece condenado a fracassar, fracasso cruel, que custará muito caro.

As massas populares recentemente chegadas à classe média e as massas recém saídas da miséria não parecem dispostas a desprezar suas recentes aquisições. Diferente disso, tudo leva a crer que o movimento começou e cresceu para proteger e para ampliar essas aquisições. Essa circunstância soma-se ao que a história ensina: a consciência de um movimento não lhe vem de fora para dentro. É resultado da dinâmica própria do movimento e do desenrolar de etapas que o movimento percorre até alcançar seus objetivos. É imperioso compreender esse recurso íntimo, e está na ordem do dia brasileiro.

Os fenômenos que se veem nascendo no Brasil resultam do estado da sociedade que é hoje governada por nossos amigos. Quero dizer: de uma sociedade como é hoje, em processo de se reformatar por sua própria ação. A característica de base desse processo é, essencialmente, a saída da miséria – que alcança uma grande maioria da população; a elevação do nível de educação e de saúde de muitos.

Cartazes (RJ)  Tomas Silva
A sociedade que caminha pelas ruas ante nossos olhos é a mesma que tornou possíveis as conquistas sociais dos governos do PT. Nesse contexto, o primeiro fato a registrar, na minha avaliação, é o seguinte: os movimentos de rua no Brasil não se opõem ao que foi feito. Ao contrário: os movimentos são o atestado, a prova do que foi feito. Menos pobre, mais bem educada, mais segura do que é e do que pode, uma nova geração está entrando num processo legítimo de vontade de controlar as questões públicas. Já sentiu a necessidade de influir. E identifica uma insuportável perda de legitimidade das autoridades às quais cabe fazer a sociedade funcionar bem. Estão errados? Estão certos?

Se for justa a causa do movimento, a via a adotar é assumir e pôr em prática o programa que o movimento popular trouxe à luz. Esse movimento não se oporá aos partidos progressistas, senão no caso de esses partidos se oporem a eles, ou se derem as costas ao movimento, porque não o compreendem ou porque não gostam dele, ou porque desprezam a direção que tome o próprio movimento.

Sei que é paradoxal evocar um modo de avaliar positivamente, para nosso benefício, um movimento que se constrói em oposição a governo “nosso”. Meu ponto de vista só é compreensível no quadro de uma análise que parte da teoria da revolução cidadã.

A teoria da revolução cidadã não descreve um formato de uma grande noite revolucionária, primícias e apoteose eterna. Ela descreve um processo permanente que se nutre de seus próprios sucessos e fracassos e rebate sempre, inscrevendo novas questões a acertar, à medida que se amplia o campo da consciência social e política dos cidadãos. O objeto desse amadurecimento não é saber qual, dentre os partidos políticos em confronto, deve ser apoiado; nem produzir um efeito de balanceio eleitoral sob a forma de alternâncias políticas. O objeto da revolução cidadão é o exercício da soberania popular.

As pessoas que se põem em movimento querem decidir. Outro modo de dizer a mesma coisa é dizer que já não se trata de ‘permitir’ que os que hoje decidem decidam. Esses que hoje decidem estão sendo eliminados, não por razões “políticas” ou ideológicas, mas porque são vistos como incapazes para resolver os problemas que lhes cabia resolver diante da sociedade. São as duas faces da mesma moeda. A fórmula “que se vão todos!”, que se ouviu na Argentina ou o “caiam fora!” [orig. “dégage!”] repetido na Tunísia e no Egito não significava “que venham outros”.

Insisto na ideia de que a crise de autoridade traduz-se como crise de legitimidade. Nessas condições, a revolução cidadã não é uma ideologia que venha trazida por um partido, de fora para dentro, mas um produto quase mecânico da evolução da sociedade, de seu desenvolvimento educacional.

Reunião com Dilma (Brasília) -  Pozzebon
Naturalmente, o parâmetro decisivo é a parte jovem da população, na população total. E simplesmente porque, para que a sociedade entre em movimento, todos dependemos do impulso que nos venha da fração menos integrada nas rotinas do cotidiano e da reprodução do cotidiano.

O outro parâmetro de igual importância é a parte urbanizada da população. As revoluções cidadãs acontecem nas cidades, porque só aí as populações mantêm entre elas o tipo de relação de interdependência e de socialização que cria um tecido social altamente condutor e reativo. Por isso, só muito raramente se veem representadas nas revoluções cidadãs as formas tradicionais da ação operária. Sem ver aquelas formas tradicionais da ação operária nos advém, muitas vezes, uma espécie de perplexidade ante tais movimentos. O erro está também em acreditar que os assalariados só assumiriam sua identidade social no quadro de seus postos de trabalho. O conjunto das relações sociais implicadas na vida urbana não participam também, se não até mais do que o trabalho, dessa identidade social?

Por tudo isso, entendo como muito eloquente a evidência de que, nos atuais movimentos no Brasil, a fagulha que desencadeou a ação tenha sido o aumento no preço dos bilhetes de ônibus. Não é o próprio símbolo da reivindicação urbana? Não é revelador de uma condição social de classe média jovem, sem carro próprio? Aliás, foi um movimento semelhante ao que se vê hoje no Brasil, que deflagrou o processo que levou Chávez à vitória.

Para não desencaminhar o leitor, suspendo por aqui a discussão de outros aspectos estruturantes da formação da consciência cidadã – dentre os quais a existência de densas redes sociais. Mas é importante, quanto a isso, não se deixar convencer de que se trate de alguma simples comodidade técnica de “comunicação”! As redes sociais contribuem para a consciência política instantânea dos que se ligam nelas.

Em resumo, o movimento que se manifesta sob formas mais ou menos agudas e que designamos como “a revolução cidadã” é resultado de uma dinâmica autônoma cujos ingredientes, princípios de auto-organização, estão nos dados permanentes e evidentes da vida, não em alguns circunstância particular extrema que os provocariam.

Já estudei neste blog essa forma de mudança brutal na trajetória da sociedade sobre seus próprios parâmetros, que chamei de “bifurcação”. Se essa tese é bem fundada, todos os países da revolução democrática começada há quinze anos no continente, precisamente pelos resultados sociais positivos que gerem, conhecerão movimentos semelhantes aos que se observam no Brasil.

Não se os deve interpretar como incidentes de percurso, mas como bifurcações no interior do processo revolucionário – seja para prolongá-los seja para dele se separar definitivamente.

Para refletir sobre os eventos no Brasil, gostaria de sugerir uma lista breve do que não se deve fazer. Para começar, não zombar. É verdade que a tentação está aí, depois de ouvir tudo que se disse na Europa, especialmente na França, onde as boas almas opunham, de modo caricaturesco, o bom social-democrata Lula e o odioso Chávez, comunizante. E eu acrescentaria alguns sarcasmos dirigidos a nossos próprios bons camaradas, casca grossa antigos, reconvertidos agora aos ternos e coletes da diplomacia. Como esquecer os pudores de gazela, quando se falava de organizar um encontro entre a Frente de Esquerda, ainda há pouco, quando Dilma Rousseff passou por Paris? Tiveram medo de ofender nosso bom Hollande e sua corte EUA-atlanticista [2].

Assembleia (RJ) - Wilson Dias
Longe vai o tempo em que eu era encarregado de receber Lula-candidato em Paris, quando ninguém do Partido Socialista o recebia!

Longe vai o tempo em que a sede do Partido Comunista Francês acolhia as reuniões do PT na França, porque o Partido Socialista não queria nem ouvir falar deles!

Longe vai o tempo quando os socialistas de terno e colete de hoje contavam com o dinheiro que nós recolhíamos para mandar para grupos guerrilheiros! Não se incomodavam. O bom Brasil moderado contra a Venezuela perigosíssima era invenção de propaganda. E depois? De que serviria validar aquela esquerda, se tão pouco ajudava a compreender o que acontecia?!

O prazer pueril de demonstrar que movimentos populares só acontecem entre os destinados a servir de modelo seria de bem curta duração. Se minha tese está correta, não tarda e se verá na Venezuela e em outros países o mesmo movimento que já se vê no Brasil.

ATENÇÃO: SEGUNDO ALERTA IMPORTANTE: Não cedamos à paranoia de ver no desencadear do movimento e no seu desenvolvimento o resultado de um complô da direita oligárquica local e dos EUA. Seria deixar de lado o essencial: a oportunidade que esse movimento oferece à nossa própria ação.

É evidente que a oligarquia e os EUA têm dedos nisso tudo. Mas não são o fator decisivo. Se a irrupção nas ruas de uma população hostil ao governo agrada a eles, nem por isso significa que o andamento e o rumo dos eventos lhes deem muito prazer. Nenhuma das palavras de ordem do movimento interessa aos objetivos deles. Pode-se, é claro, considerar que qualquer rejeição ao PT de Dilma Rousseff lhes interessa. Disso não há dúvida, de um ponto de vista político superficial.

Quem conhece a ferocidade de besta da direita brasileira e da imprensa no Brasil encontrará mil e um exemplos do que estão fazendo na “repercussão” dos tumultos em curso, como manifestações contra o governo Dilma. Não há como duvidar que, chegada a hora, serão rápidos a exigir “que a ordem seja restabelecida”. E acusarão Dilma por não ter protegido suas propriedades e a “liberdade de imprensa”. Basta, para isso, que vejam bancos quebrados, jornalistas perseguidos e os escritórios e estúdios da “Rede Globo” tomados como objeto de protestos.

Em resumo: se nossos camaradas encontrarem o caminho que os leve ao coração do movimento, pode-se dizer que ali mesmo terá início a revolução democrática no Brasil.

Todos devemos buscar nossas referências nessa direção e só nessa direção.

Ao dizer isso, não estou dizendo que os anos Lula e Rousseff nada tenham tido a ver com a emergência da democracia no Brasil. Digo, sim, exatamente o contrário disso!

Estou dizendo que arrancar tanta gente da miséria foi condição necessária, básica, para a renovação do país. Mas as formas revolucionárias que conhecemos, pelas quais passaram outros países, são diferentes demais do processo em curso no Brasil, para que já saibamos identificar, no percurso brasileiro, os pontos-marcos de passagem pelos quais têm de passar as transições revolucionárias.

Multidão em frente ao Municipal (RJ) - Tomas Silva
Uma Assembleia Constituinte que dê conta de novos tempos é um desses pontos-marcos a ultrapassar. Para começar, pela simples convocação e pela campanha que a precederá. Além disso, pelo desenrolar dos trabalhos, sobretudo se forem conduzidos em osmose com uma implicação popular de todos os instantes, de todas as categorias, de todos os pontos do país implicados. Tudo isso é um processo de educação popular e de politização da sociedade que decida fazê-lo e o faça em profundidade, que altera todas as rotinas e revoluciona todos os compartimentos sociais. Esse foi o método aplicado com sucesso no Equador e na Venezuela. Sua potência operacional está plenamente demonstrada. Sim: também já se conhece seu limite: a segunda reforma da Constituição na Venezuela foi um fracasso. Perdemos o referendo sobre aquela reforma.

Na Venezuela, muitos camaradas me explicaram que esse segundo tempo nada teve a ver com o primeiro. Muito pesadamente institucionalizada, com discussões políticas opacas, o processo não teve potência para empolgar as camadas populares. Anoto aqui esse episódio, apenas para mostrar melhor que a Constituinte só é significativa se encaminhada em momento essencial e como modo insubstituível da atividade popular para refundar a nação e o próprio povo. Não leva a resultado algum se for tratada como ferramenta “ocupacional”, nem como item de barganha política.

A ideia essencial é que o povo “refunda-se”, aproprie-se da identidade coletiva dos princípios que decida implantar na Constituição e das regras democráticas que daí o povo deduza. A Constituição está no coração da estratégia da revolução cidadã e de seu desdobramento real, quando ela alcança o extremo de sua lógica.

Caminhada (RJ) - Tomas Silva
Ao propor uma Constituinte limitada a alguns temas, Dilma Rousseff, infelizmente, retirou de sua proposta a carga emocional radical. Foi contida e limitada por adversários da ideia, todos em postos influentes, precisamente quando a rua começava a ensaiar as primeiras respostas positivas!

Sem Constituinte, Dilma Rousseff ficou sem o ponto de apoio do qual muito precisa para fazer avançar o programa que a insurreição levou-lhe em mãos. Explico por quê.

O processo de ebulição que a Constituinte dispara é o ponto de apoio para o assalto social. Porque é claro, absolutamente claro, que a sociedade tem de assaltar o poder.

Não se pode esvaziar, deixar de lado a partilha das riquezas. Os sociais-democratas vivem a tentar substituir a batalha social e o assalto social ao poder, por o que chamam “batalha democrática”. Mesmo que o “prêmio” já esteja reduzido a um mínimo, que já não implique partilha alguma de riqueza alguma, ainda assim a “batalha democrática” fracassa. Nenhuma sociedade pode pretender “esquecer” essa questão, sobretudo ante a grande finança que nosso tempo tem de enfrentar. Nenhuma solução que alguma sociedade encontre para os problemas de momento, hoje, jamais implicará qualquer solução de fundo e estável, se a questão do assalto social ao poder não for discutida e encaminhada.

Mas a partilha das riquezas dispara o espírito de guerra total entre nossos adversários nas classes dominantes. Daí resulta um conflito no qual os dominantes e seus veículos e empresas-imprensa passam a combater em tempo integral em todos os fronts. As manobras mais vis, mais baixas. Nem preciso me deter nisso, porque todos aqui conhecem esse processo de cor e salteado.

A discussão que nos interessa é que método usar para replicar. A fórmula algébrica é nossa velha conhecida: não temos outro meio além de ganhar a adesão e a iniciativa popular. O que significa, concretamente, essa ideia? Significa convocar uma Assembleia Constituinte.

A mobilização para a Assembleia Constituinte permite articular duas demarches: uma, que fixa a regra do jogo democrático; e a outra, que lhe dá o conteúdo social. Sem isso, de mãos vazias, sem arma e de cima para baixo, não há nem uma remota chance de levar a cabo, com sucesso, o assalto ao poder. Não, com certeza, se só se conta, nessa luta, com um Partido e suas redes, por mais extensas que sejam.

Por isso, me parece erro grave e pesado, que o governo do Brasil tenha renunciado à ideia de uma Assembleia Constituinte no Brasil. Qualquer resposta positiva às demandas populares exige e impõe a partilha efetiva da riqueza, naquela sociedade.

Como agir, sem o peso da massa popular? Dito de outro modo: como fazer política popular de esquerda, sem relação de forças menos desigual? E quanto a construir relação de forças, a primeira pergunta que temos de responder a nós mesmos é: com quem e contra quem?



[*] Quem quiser pode ler este artigo em espanhol.

Notas dos tradutores
[1] Eurobéats (fr.) (aprox. “beatos do euro”, “eurófilos”, que batem tambor a favor do euro); em oposição semântica aos eurocéticos). Por ex.: “Os eurobéats partem do princípio que nada existia antes do euro, reinava a anarquia, andávamos de carroça puxada por burros etc.”. 
[2] Ver, sobre isso em português: 31/5/2013, redecastorphoto, Jean-Luc Mélenchon: “URGENTE. Impedir o acordo secreto entre UE e EUA (TTIP)” 

quinta-feira, 20 de junho de 2013

A direita nos protestos

Já na Av. Paulista...

Publicado em 20/06/2013 por Urariano Motta [*]

Recife (PE) - No momento em que esta coluna entra no ar, o trânsito no centro do Recife está parado. Os jovens nas ruas em manifestações de protesto viraram o maior carnaval fora de época em Pernambuco. A parada geral recebeu a providencial força de uma greve de motoristas de ônibus em toda região metropolitana. Natural e coerente, pois o protesto é contra o aumento das passagens, não? Não. É contra tudo. E, justiça seja feita, o mundo todo, tudo da terra aos céus precisa de mudanças, do campo à cidade, das mulheres aos homens, das crianças aos jovens, do povo ao povo. Tudo precisa de mudanças reais, radicais e na maior urgência. Pelas trombetas de toda a imprensa, tudo tem que ser agora, a hora é esta. “Vem para a rua” virou um grito de oprimidos sob o patrocínio do capitalismo.

Isso longe está de ser um fenômeno do acaso, uma aparição marginal à lógica do tempo. Se só víssemos a realidade com os olhos de hoje, seria inexplicável notar que toda a mídia esteja unida na divulgação e no apoio aos jovens nas ruas. No rádio, jornais, revistas e televisão, os caras são a juventude revoltada. Projeta-se até mesmo uma telenovela com os novos heróis, numa assimilação rápida do instante presente, numa criação inédita, pois nenhuma arte fez isso até hoje. O sistema é esperto e multiforme. Há até quem diga que a depredação de bancas de revista e lojas será um ótimo negócio para os bancos: os pequenos empresários, falidos, procurarão empréstimos a qualquer taxa de juros.

O protesto virou um happening. É a maior festa do Face. Um evento de sucesso. Mas a “juventude indignada” é mais que um movimento nascido no Facebook. Além de ser o que dele falam alguns sociólogos, quando o veem como resultado das condições sociais e econômicas do Brasil, os protestos nas ruas parecem ser, de imediato, um acúmulo da doutrinação da mídia que, à semelhança de música do hit parade, martelou denúncias diárias e frequentes do mensalão, na fúria contra os governos Lula e Dilma. Ele, o espantalho Lula/Dilma, com as suas bolsas-família, perdão, bolsa-esmola e prounis, ameaçou diminuir o poder secular da elite brasileira. Mas como pode um protesto de jovens ser conservador, pois tudo que é jovem é novo e belo, pois não? Como poderia um protesto contra o mundo se voltar contra governos à esquerda?

Pois sim. Em São Paulo, militantes de partidos políticos foram expulsos do ato na Praça da Sé. Mais, em maioria, os jovens nas ruas negam a existência de partidos políticos, quero dizer, negam o direito à existência dessas legítimas expressões da democracia. Em seu lugar, nas ruas levantam bandeiras e lemas velhos, desde a Itália e Alemanha dos anos 30: falam em “nação”, em “pátria”, quando mais próprio deveriam falar no fascínio do fascismo sobre as suas cabecinhas. O movimento, aqui e ali, tem se transformado em algo sujo e excludente, que todos conhecemos como a direita. Em página do Facebook, as múmias da ditadura aproveitam e criam um Golpe Militar 2014, com quase 5.000 pessoas. É essa a primavera brasileira?

Alegam, os velhinhos à moda paizão, que isso é a minoria, que tais ocorrências não refletem o caráter dessa coisa nova, linda e inexplicável de um movimento de massa independente. Então, como assimilar jovens universitários com bandeiras do gênero “Foda-se o Brasil”? Seria isso a revolta justa de alguém excluído dos benefícios dos últimos governos? Um programa de construção para a identidade nacional? Ou será algo mais próximo de velhíssimos fascistas que sobrevivem em peles de pouca idade, malhadas, dos grupos neonazistas ou alienados em geral que se referem a nordestinos como os mendigos do Bolsa Família? Mas isso é um fenômeno marginal, fala-se, em um movimento de mais de 100 mil em passeata, em multidões de Galo da Madrugada em pacífica reivindicação.

Sim, com tais extremos, é minoritária a expressão do fascio. Mas há uma imensa massa despolitizada onde tais apelos impressionam. Numa pesquisa empírica, que os órgãos de melhor método poderão confirmar, perguntem aos revoltados da hora quais os problemas do Brasil. A maioria vai declarar que o maior deles é a corrupção. Em cartazes, todos vemos nas passeatas “Cadê a Dilma da guerrilha?”. Vídeos no YouTube com falas de carinhas moças chamam para as ruas com “Vamos parar a roubalheira do governo... Vamos parar com essa palhaçada do governo do Brasil... O Inimigo é o Governo”.  

A terra é fértil para a pregação de coisas antigas em rostinhos e corpos jovens. Esse é o dado novo, que se desconfiávamos não adivinhávamos. O gigante acordou, o gigante de nossas consciências acordou. Chega de afagos demagógicos.
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Urariano Motta [*] é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas(Recife, Bagaço, 1997). Este ano lançou o romance O filho renegado de Deus (Recife-Bertrand-Brasil, 2013).


Enviado por Direto da Redação

sábado, 29 de outubro de 2011

A Obra Prima da hipocrisia


Protagonizada por Barack Obama e Hillary Clinton (The Liers)


“A Mentira tem pernas curtas e cassetetes longos” ou “Eu não vou me mover”



Enviado por Raul Longo e Sonia Montenegro

domingo, 9 de outubro de 2011

Julian Assange - Manifestação contra a guerra do Afeganistão

8/10/2011, Julian Assange, Londres [fala transcrita e traduzida]
Harry Fear.TV -  Julian Assange- OCT Antiwar Mass Assembly
Enviado pelo pessoal da Vila Vudu


Que bela multidão, é a multidão que sempre me alegra ver. É estimulante ver tanta gente que partilha os valores que me são caros.

Quero falar-lhes sobre um tema: o que podemos fazer sobre essa guerra, porque a realidade é que Margaret Tatcher tinha razão: já não há sociedade. O que há é elite da polícia transnacional, que controla o mundo, saqueia o mundo, servindo-se do dinheiro dos contribuintes.

Para combater aquela elite, já não temos de pedir: temos de tomar. Temos de formar e fortalecer nossas próprias redes, de nossos valores partilhados e força, que podem enfrentar aquelas elites que formaram uma aliança, mãos nas mãos, com seus interesses de favorecer guerra, que sugaram o dinheiro dos EUA e de tantos países, e o mandaram para a Somália, para o Paquistão, para o Afeganistão e mergulharam aquele dinheiro em sangue humano.

Não preciso falar da guerra, que vocês todos conhecem bem, de imagens de refugiados de guerra, da barbárie da guerra, de mortes, mais de 115 mil no Iraque, e muitas mortes mais, mantidas em segredo pelos EUA, que não contam os civis mortos. Em vez disso, quero dizer a vocês o que me parece que sejam as guerras, e o que temos de fazer para que não aconteçam mais. 

Na democracia, ou no tipo degradado de democracia em que vivemos, as guerras sempre são resultado de mentiras. Na guerra do Vietnã, a pressão para que os EUA se envolvessem foi resultado do incidente no golfo de Tomkin: uma mentira. A guerra do Iraque, já se sabe, é resultado de uma mentira. As guerras na Somália: resultado de mentiras. A segunda guerra mundial e a invasão alemã na Polônia, resultado de mentiras cuidadosamente construídas. São guerras inventadas pela mídia. Em todos esses casos, houve uma mídia dedicada a criar guerras. 

Perguntemos nós mesmos, à mídia complacente, que é praticamente toda a mídia-empresa no mundo: por quantas mortes é responsável cada jornalista? Qual o número médio de mortes que resultaram da ação de cada jornalista? 

Quando entendermos que as guerras são resultado das mentiras que os jornalistas dizem ao público nos EUA, no Reino Unido e em toda a Europa e em outros países, saberemos quem são os criminosos de guerra: não são só os generais, nem só os políticos, nem os soldados. São os jornalistas. Jornalistas são criminosos de guerra. 

E por que digo que não nos podem levar a um estado de desespero? Porque a realidade que criam para nós, é realidade criada por mentirosos. É criada por gente próxima do poder que se esperava que a imprensa fiscalizasse. Sou otimista. Porque, se a guerra é criada por mentirosos, é realidade que pode ser desconstruída e reposta, com verdade. Se a guerra pode ser criada por mentiras, a paz pode ser criada pela verdade. 

Portanto, nossa tarefa, a tarefa de vocês, é descobrir a verdade: saiam daqui, metam a mão no pacote inteiro, descubram a verdade e a distribuam ao mundo.