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domingo, 2 de setembro de 2012

Argentina: “estados alterados”


Alejandro Bercovich, Revista Crisis, agosto 2012, Argentina
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


“Acreditar ou explodir”, eis o mote da jovem guarda de funcionários públicos que assumiram as rédeas da economia argentina, em plena crise global. Deve-se festejar que não se ouça o cacarejo dos economistas, mas não a ausência de qualquer debate social sobre o que virá [1]. Aqui oferecemos uma leitura crítica das atuais encruzilhadas políticas na Argentina e uma interpretação do movimento “La Cámpora” [2].

Alejandro Bercovich
Os argentinos estamos mais estatistas que nunca. Segundo pesquisa feita pela Universidad Di Tella depois da estatização da Repsol-YPF, a população acredita que o Estado é o principal responsável por assegurar o seu bem-estar (82,7%), por gerar empregos (81,6%), por reduzir a desigualdade entre ricos e pobres (87,3), e por prover pensões e aposentadorias (86,2%) e pela saúde pública (87,9%). Ainda mais surpreendente é que a alta porcentagem de 68,5% opine que o Estado deva ser “dono das empresas e indústrias mais importantes do país”.

Qualquer desses números seria incompreensível em países como os EUA, onde o capital é religião, a empresa privada é sacrossanta e muitos trabalhadores que perderam os empregos na crise das hipotecas podres continuam a repetir, como salmo, que “a frase que fez a grandeza dos EUA sempre foi ‘você está despedido’”.

O estrepitoso fracasso do neoliberalismo no mundo e na América do Sul sepultou rapidamente as ilusões de progresso individual que políticos e a imprensa-empresa tentaram semear durante a década dos 90s, a partir do fim do Muro de Berlim. O estilhaçamento em mil pedaços do sistema político, em dezembro de 2001, acabou por catalisar um clic na cabeça dos argentinos.

Mas, embora o kirchnerismo tenha dado carne e ossos a muitas dessas mudanças subjetivas e tenha inclusive re-estatizado – em boa parte forçado pelas circunstâncias – empresas paradigmáticas como Correio Argentino, Águas Argentinas e em seguida também as Aerolíneas Argentinas, a vontade social manifesta na pesquisa da Di Tella não teve correlato tão claramente demarcado na realidade. Nem muito menos.

Os números da Facultad Latinoamericana de Ciencias Sociales (FLACSO) sobre a cúpula empresarial argentina são lapidares. Em 1976, 38,4% do faturamento total das 200 maiores empresas do país correspondia a empresas estatais. Com a financeirização e a era do dinheiro fácil, essa proporção caiu para 28,9% em 1991, antes do tsunami de privatizações. Apenas quatro anos depois, a proporção desabou para 3,4%. E até 2001, em pleno reinado do Consenso de Washington, as empresas estatais argentinas chegaram ao fundo histórico do poço: 1,6%.

Com o kirchnerismo, o que aconteceu? Muita estrangeirização inicial, bastante argentinização posterior para mãos de grupos econômicos locais, em geral grupos próximos do Governo, mas muito pouca recuperação do peso econômico do Estado.

Em 2010, último dado disponível, a FLACSO calcula que as empresas estatais faturavam cerca de 3,5% da massa total do faturamento das maiores empresas, quase o mesmo que em 1995. Claro que neste ano somou-se a estatização da Repsol, a principal empresa do país em ativos e em vendas. E ainda falta ver o que acontece aos trens e metrô, dados em concessão a um punhado de empresas contratadas habituadas a fraudar o fisco graças a obras e subsídios.

Que o Estado volte a assumir papel de líder de investimentos é considerado indispensável por todos os economistas antineoliberais.

A razão é simples: empresas privadas não investem o suficiente para sustentar o crescimento. Nem as locais nem as estrangeiras. O investimento não chega a 25% do PIB e cresceu menos que ele durante quase todos os anos da era K. Para piorar, segundo dados do mesmíssimo Instituto Nacional de Estadística y Censos (INDEC), sete de cada dez pesos computados como “investimento” destinam-se à construção e à compra de veículos de transporte. Quer dizer: não são usados para incorporar máquinas e novas tecnológicas que poderiam melhorar e perfil produtivo e contribuir para substituir importações.

Os porta-vozes do establishment, em especial o financeiro, argumentam que a Argentina não recebe fluxos de capital estrangeiro por ter-se “isolado do mundo”, primeiro com o “calote”, depois com a manipulação de estatísticas e certos gestos de rebeldia contra o Fundo Monetário Internacional e países do G-7. O que não dizem é que esses são investimentos quase sempre de curto prazo, sem inovação tecnológica nem agregação local de valor e/ou são comercialmente deficitários, para a balança de pagamentos, dadas as importações que exigem. E que, além disso, têm, como contrapartida, a rápida saída de divisas sob a forma de dividendos.

Por outro lado, quem, em seu juízo perfeito, faria o próprio crescimento futuro depender da vontade de multinacionais europeias ou norte-americanas, naufragadas em sua pior crise desde 1930? Como evitar que essas empresas protejam primeiro o emprego em seus países, forçadas por governos que pregam o livre comércio, mas cujas economias só cresceram, quando cresciam, a golpes de protecionismo, no melhor dos casos; e de rapina semicolonial, no pior?

Desde o início, o principal problema do modelo de acumulação kirchnerista foi o papel protagonista que reservou a um ator que jamais teve gás, sequer, para ser coadjuvante: a burguesia “nacional”. Uma elite empresarial diversificada e rentista, habituada a viver dos juros do dinheiro, a qual, durante quase todo o século 20, investiu apenas o mínimo necessário para preservar esse status de privilégio, mandando divisas para o exterior sistematicamente nos tempos de alta, à espera da crise seguinte, que ofereceria a preço aviltado os ativos locais – terra e empresas – que logo estariam em mãos de terceiros. E que só aceitou “enterrar” capitais no país durante períodos curtíssimos e em troca de que lhe garantissem gordas taxas de rentabilidade, quase sempre à custa de direitos trabalhistas e do equilíbrio ecológico, geográfico e demográfico “nacional”.

Embora com essa limitação estrutural, a chegada de Axel Kicillof [3] ao centro do Governo, em abril desse ano, inaugurou um novo tipo de intervenção do Estado nas decisões das empresas mais importantes do país. O passo decisivo foi a estatização da maioria acionária de YPF, cujo destino dependerá das formas de associação que venha a adotar com o capital privado e de conseguir submetê-lo ao objetivo de produzir mais e ampliar o horizonte de reservas. Mas os primeiros movimentos nesse sentido aconteceram numa intervenção anterior, que passou quase inadvertida, mas que terá influência contundente na atividade econômica do próximo ano.

De que intervenção estamos falando? Da que possibilitou a aparição, com voz e voto, de representantes estatais, nas assembleias de acionistas de 42 grandes empresas, graças à re-estatização, na Argentina, em 2008, das Administradoras de Fundos de Aposentadorias e Pensões [orig. Administradoras de Fondos de Jubilaciones y Pensiones (AFJP)], que haviam sido privatizadas no governo Menem.

Representantes dos fundos de aposentadoria e pensão, evidentemente, são grandes acionistas de grandes empresas argentinas – e votam nas assembleias. Empresas como Telecom, Siderar (Techint), Petrobras Argentina, Metrogas, TGS, Pampa (Edenor), Consultatio, Gas Natural BAN; bancos como o Galicia, Patagonia, Francés e Macro; Metrovías e até a empresa-imprensa Clarín foram obrigadas a tolerar algo que jamais se vira antes.

Suas assembleias anuais começaram a receber enviados de Kicillof, o novo enfant terrible da economia; participavam de pleno direito das assembleias e exigiam a nomeação de diretores “seus”, sempre tentando remodelar algumas das decisões das assembleias de acionistas.

Nenhuma das participações herdadas das AFJP argentinas excede 25% do capital dessas megaempresas. Mas, sob a coordenação de Kicillof, os delegados do Governo forçaram a maioria dessas empresas a reinvestir porção maior de seus ganhos no país, e a fazer partilha simétrica de dividendos entre os acionistas, muitos dos quais, estrangeiros.

E como conseguiram o que conseguiram, sendo minoria? Negociando. Ameaçando não aprovar balanços – o que o mercado interpretaria como uma espécie de veto governamental ou sinal de crise no “relacionamento” com o Governo.

A revista Crisis entrevistou vários gerentes dessas megaempresas e muitos assumem, pedindo que seus nomes não sejam divulgados: nenhuma empresa que tenha de sobreviver sob regulação do Estado – como as que prestam serviços públicos e, claro, os bancos – tem qualquer interesse em tumultuar seu relacionamento com o Estado ou com o governo. Tampouco as que dependem de contrato para obras públicas. Ou as que vivem sob regime especial, ou que enfrentam barreiras de proteção aduaneira, como Techint.

“La Cámpora”

Mas, paradoxalmente, a tendência política interna que elevou Kicillof ao pedestal de consultor-estrela-ministro, onde, em outros tempos estiveram Lavagna, Peirano, Lousteau e Boudou, constitui também a principal ameaça à estabilidade do Estado nesse papel protagonista que aspira a ocupar (e que os argentinos desejam que ocupe), se o que se quer é encontrar a “saída desse inferno”, como dizia Néstor Kirchner, no início dos anos 2000.

Sim. Tanto o combustível como o lastro para esses avanços está no grupo denominado “La Cámpora” – que nasceu no funeral público do líder peronista [4] [18/12/1980 [5]]; que surpreendeu todo o mapa dos partidos na Argentina pelo crescimento explosivo; e que, hoje, desempenha o contraditório papel de juventude conservadora, guardiã do que tenha sido conquistado e, ao mesmo tempo, sempre a exigir mudanças mais radicais [6].

Em geral, até agora, a oposição tem questionado La Cámpora com argumentos que são mais de forma, que de fundo [7]. Criticou sua ostentação de riqueza, o arrivismo e uma indefinida “prepotência juvenil”, com desqualificativos que evocam o discurso de Perón contra “os imberbes” na Plaza de Mayo.

Poucos reparam no verdadeiro calcanhar de Aquiles de La Cámpora, que é também o calcanhar de Aquiles do atual processo de recuperação do papel do Estado na economia: a lógica majoritária dentro do próprio grupamento, que é voluntarista e muito pouco política, baseada em “ocupar espaços” e “usar os recursos”, adágios que são reiterados em qualquer conversa com seus membros de referência.

Essa lógica interna pode ser resumida no que disse a esse cronista um jornalista da agência Télam, recentemente incorporado, e dirigente de La Cámpora:

“O partido que vence legitimamente as eleições apropria-se de recursos do Estado, que têm de ser usados para levar adiante o programa do partido.” A tese visava a justificar a censura e o pensamento único imperantes na agência estatal de notícias a qual, para o redator das hostes de Máximo Kirchner [filho de Hector e Kristina e líder de La Cámpora], “tem de ser o braço comunicacional do Governo”.

Não é excepcionalmente grave que um camporista permita-se semelhante audácia teórica sobre a agência estatal de notícias, porque o jornalismo não deixa jamais de ser atividade econômica intimamente associada ao poder e irrelevante, além da alguma relevância que possa ter no plano simbólico e político. Muito mais nocivo foi o choque frontal entre os pais fundadores do camporismo de Aerolíneas (entre os quais, deve-se dizer, militava Kicillof) e os sindicatos de aeronautas.

Os aeronautas entenderam que os camporistas ajudaram a Direita a atacar o Estado – destacando-se que, com Marsans, o fisco também perdeu caudais de dinheiro. E o choque também expôs a incapacidade dos funcionários da jovem guarda camporista, que não conseguiram incorporar os trabalhadores na gestão estatal de um serviço público chave, para torná-lo mais eficiente, e sem que, para isso, os sindicalizados tivessem seus direitos atropelados.

Para retomar o posto de orientador do investimento e fator de peso na economia, e para avançar, plantando mourões que não possam ser muito facilmente revertidos, o Estado deve olhar-se ao contrário: sobrepondo-se a qualquer grupo governante que passe pelo poder. Tem de aferrar-se ao cumprimento de objetivos e metas e demonstrar a eficiência de novas hipóteses de gestão, que sejam transformadoras. Isso não implica entregar tudo aos tecnocratas com diplomas importados. Significa, bem ao contrário, construir novas formas de participação popular na economia e aproveitar o potencial que ainda há numa sociedade relativamente mais educada e produtiva e com inteligência social menos fraturada que a de outros países.

Para tanto, seria preciso ao mesmo tempo, procurar o modo mediante o qual os trabalhadores possam converter-se em sujeitos políticos e superar a barreira de seu desenvolvimento individual e coletivo sujeitado aos desígnios de um empresariado impotente e menos nacionalista que os do resto da região.

A classe dirigente sabe que se consome em esforços para reverter os índices de confiança na intervenção estatal que continuam a aparecer na pesquisa da Universidad Di Tella. Ou para conseguir, no mínimo, que o Estado continue a ser o que sempre foi até agora: mero garantidor de negócios e contratos. Por isso se preocupará cada vez mais com atacar com cada vez mais virulência os flancos mais fracos da até agora tímida contraofensiva estatal: a “politização” da administração pública; a ausência de meritocracia; a ineficiência e o critério de “ocupar espaços” a golpes de puro voluntarismo militante, com ética e épica mais típicas de soldados que de políticos.

Se insistir nesses vícios, La Cámpora nada conseguirá além de aplainar o caminho da restauração e da demolição do que começou a mudar dentro do Estado argentino depois que chegou ao centro do poder o ministro Axel Kicillof, seu primeiro filho pródigo [8].




Notas dos tradutores

[1] O artigo aqui traduzido pareceu-nos interessante, porque o grupo “La Cámpora” parece ser, no geral, muito semelhante ao Partido dos Trabalhadores (PT) do Brasil, apesar das muitas diferenças.

No Brasil ainda não há pensamento forte e politicamente bem articulado sobre o PT (se há, os petistas não o conhecem). O PT e os petistas não têm história, filhos (hoje, de fato, já também netos) que são do buraco negro que foram os mais de 30 anos de ditadura no Brasil, seguidos de uma “redemocratização” que nasceu “cenográfica” e assim prossegue, mais “cenográfica” e formal que real e efetiva, até hoje. Os petistas só conhecem, do PT, a história imaginada e incansavelmente repetida, desde o golpe de 1964, pelos jornais da imprensa-empresa do Grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão) e pela universidade que, no Brasil, é conservadora, quando não é, só, reacionária. 

Não é difícil ver nesse ministro Kicillof – do qual jamais havíamos ouvido falar, porque a imprensa-empresa brasileira só noticia, da Argentina, o futebol e os golpes antidemocráticos – o que bem pode ser uma versão à argentina do ministro José Dirceu.

A diferença de destino entre ambos, hoje, pode, sim, dar boa pista de outras diferenças entre a vida política na Argentina e no Brasil. Por exemplo, a imprensa-empresa argentina é ma-ra-vi-lho-sa, se comparada à brasileira – que é a pior do mundo. (E deve haver por aí mais pistas; é procurar).
Assim, entendemos que, servindo-se desse artigo como ‘roteiro’ – e começando a pensar menos pelas semelhanças e mais pelas diferenças (umas, ao que parece, superficiais; outras, talvez mais profundas, a serem ainda demarcadas e analisadas) –, talvez seja possível começar a construir reflexão de melhor qualidade histórico-política, também sobre o Partido dos Trabalhadores (PT).

[2] Pode-se ler sobre a história do movimento “La Cámpora” (que é tão odiado pela imprensa-empresa argentina, quanto pela brasileira). Para uma atualização, ver “Grupo jovem La Cámpora ganha aura de ministério no governo argentino”, 27/4/2012. Essa é matéria produzida e distribuída pelo grupo Globo e, portanto, deve ser lida com todas as reservas. Mas aproveitam-se de lá alguns nomes, a partir dos quais se pode fazer melhor pesquisa e encontrar melhor informação.

[3] Axel Kicillof é Vice-Ministro de Economia da Argentina desde 2011; foi nomeado dia 16/4/2012, com Julio de Vido, co-administrador da YPF, depois de nacionalizada.

[4] Hector Cámpora, peronista histórico, foi presidente da Argentina durante dois meses, de maio a julho de 1973, nos meses que antecederam a volta de Perón à Argentina. Foram meses de muitas lutas em toda a América Latina: Allende (que foi à posse de Cámpora) foi assassinado dois meses depois, em setembro de 1973. 

[5] O Comício da Vila Euclides aconteceu dia 13/3/1979. O PT foi fundado dia 10/2/1980.

[6] Se o Partido dos Trabalhadores (PT), no Brasil-2012, exigisse “mudanças cada vez mais radicais”, aí estaria perfeita descrição também do PT.

[7] Também se aplica às críticas da oposição ao PT, no Brasil. A crítica ao comportamento dito “ético”, afinal, também é “crítica pela forma”, muito mais que por algum “conteúdo” político.

[8] No Brasil, o Ministro José Dirceu, filho pródigo do PT, nem chegou ao centro do poder: foi decapitado a caminho.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

“Nenhuma revolução nasce do governo” (2/2)


Alí Rodriguez Araque


Mario Antonio Santucho, Revista Crisis, n.5, jun-jul. 2011
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Leia antes: 10/6/2012, redecastorphoto em: “Nenhuma revolução nasce do governo” (1/2)

Entrevista com: Alí Rodríguez Araque, Ministro de Energia Elétrica da Venezuela (2/2)

Mario Antonio Santucho
Crisis: E que papel desempenha o Brasil, nesse esquema? 

Alí Rodríguez: O Brasil é um grande consumidor que pouco a pouco se foi convertendo, felizmente, em grande produtor. Ainda não está na OPEP, mas a Venezuela já o está convidando. Porque só na medida em que se possa regular o mercado petroleiro mundial, será possível manter os preços num nível adequado, que não implique carga pesada demais para os consumidores, sobretudo os países pobres. Busca-se um ponto de equilíbrio entre os dois interesses, coisa muito difícil, porque os capitalistas são de fato muito vorazes, o apetite deles não tem limites.

Crisis: Quando o Brasil acorda com os EUA priorizar a produção do etanol, para energia, por exemplo, influi nessa discussão no plano global?

Alí Rodríguez: Influi, na medida em que afeta o aumento dos preços dos alimentos, mas não no cenário do petróleo mundial. O maior competidor potencial do petróleo é o hidrogênio, recurso natural muitíssimo abundante e não contaminante. Mas os custos altíssimos ainda não permitem que se o veja como concorrente. Veja o que acontece com a energia nuclear.

O duplo poder 

O tempo de Alí Rodríguez move-se ao ritmo da crise elétrica. Nossa conversa avança aos saltos e termina de repente. Um assessor pede desculpas pela interrupção, e informa o ministro sobre a queda de uma linha de transmissão que deixou províncias inteiras na escuridão. O ministro faz algumas perguntas curtas, diagnostica a origem da falha, manda informar a presidência e redigir uma declaração oficial. Bom momento para perguntar-lhe sobre os paradoxos que marcam o “socialismo século 21”, especialmente sobre a tentativa para criar de cima para baixo o que, naturalmente, deveria emergir de baixo para cima. É incongruência não se resolve no plano da lógica e impõe limites bem definidos à experimentação.

Alí Rodríguez: “Os revolucionários devem precaver-se para não ser dogmaticamente contra a política porque a política, como todos os fatos humanos é dinâmica e sempre dominada por muitos fatores. Se você, dogmatiza a luta armada, por exemplo, você vira, no melhor caso, um quisto que pode crescer, mas não avança, que não encontra correspondente no movimento social, um mal crônico que não gera efeitos na sociedade. Nosso processo, na Venezuela, é inédito, sobretudo pelos êxitos. É tentativa, pela via eleitoral, como também aconteceu no Chile entre 1970 e 1973, mas aqui o movimento foi vitorioso nos confrontos que vieram depois das eleições, como aconteceu no golpe de estado de 2002 e no golpe das petroleiras em dezembro daquele ano.

Com a derrota do golpe militar, a oligarquia venezuelana perdeu o poder que tinha no seio das forças armadas, mas continuava a manter o grande poder econômico da PDVSA. Derrotados no golpe das petroleiras, perderam também esse poder. Mas ainda há confronto muito agudo no plano político. Por isso temos de renovar constantemente as nossas posições, porque, se você para no jogo político, você vira passado, porque o processo nunca para de mover-se.

Crisis: Conseguiram avançar na transformação produtiva do país? 

Alí Rodríguez: Um dos principais problemas que surgiram, como consequência do processo de que acabo de falar, é que a produção agrícola foi duramente afetada, o que provocou violenta migração, do campo para a cidade. Hoje, mais de 90% da população concentra-se nas cidades e há vastas áreas de território que estão desabitadas. O desenvolvimento econômico do país, entre finais dos anos 30s e começo dos 70s, foi determinado pelo violento processo de urbanização e pela demanda decorrente, por moradias. As cidades chegaram à saturação e em seguida ao declínio, que ainda não conseguimos interromper. Durante muito tempo falou-se dos limites do pequeno mercado interno, mas sem jamais explicar por que as coisas são como são.

Crisis: E como é possível sair dessa espiral que parece não ter freio?

Alí Rodríguez: Temos dois grandes assuntos a abordar: por um lado, o desenvolvimento da produção de alimentos, não só pela soberania alimentar, que já bastaria e explica a necessidade desse desenvolvimento, mas também porque, só na medida em que o campo converta-se em fator produtivo que gere demandas industriais que possam ser internamente satisfeitas, haverá desenvolvimento industrial na Venezuela. Por outro lado, uma segunda fase de reurbanização do país, questão que estamos encarando exatamente agora, com a Misión Vivienda [Missão Moradia]. A ideia é que a economia nacional acomode-se de modo a poder satisfazer as grandes demandas a serem geradas pelo objetivo de construir dois milhões de moradias em apenas 4 ou 5 anos.

Crisis: Para os governos de esquerda da região, não parece ser operar transformações profundas na sociedade. Como fazer para não se deixar assimilar pelos mecanismos do sistema político tradicional e pelas lógicas burocráticas estatais?

Alí Rodríguez: Em 98 nós assumimos o governo, mas não o poder político. São duas coisas diferentes. Nenhuma revolução nasce do governo. Por isso ainda nem se pode dizer que essa revolução na Venezuela seja irreversível. Para que haja hegemonia, é preciso desenvolver o poder popular organizado, os Conselhos Comunais e as Comunas têm de assumir cada vez mais espaços de poder, e realmente exercitar o comando, conduzir a revolução. Se não for assim, essa revolução fracassa. Porque no nosso caso, também há um duplo poder. O Estado que temos não é o Estado para fazer a revolução, nem é ainda expressão das mudanças no país. O Estado que temos é Estado burocrático, pesado, é um obstáculo às mudanças revolucionárias na Venezuela. Só quando o povo organizado assumir o poder e governar, e comandar, e assumir a hegemonia política no país, será possível dizer que a revolução é irreversível.

Reflexos condicionados

Erika Farías
A deputada Erika Farías teve a seu cargo a responsabilidade de dar forma ao Ministério do Poder Popular. No dia seguinte, depois de entrevistar o ministro Alí, visitamos a deputada, para conhecer melhor os personagens de um Estado que se diz revolucionário, mas que só confia em bases populares auto-organizadas.

Erika conta que a construção dos Conselhos Comunais começou em 2006, com o objetivo de canalizar recursos diretamente do Executivo Nacional para os Conselhos Locais, sem a intermediação das estruturas provinciais e municipais. 

Erika Farias: Estamos falando de uma experiência que vai completar cinco anos, uma experiência recente. Não é perfeita, é claro, mas, dentro do que temos, é uma instância revolucionária. No plano nacional, há 41 mil equipes de trabalho, espalhadas por praticamente todo o país. Desde o início, criou-se um fundo de recursos que em quatro anos de governo já administrou mais de 10 bilhões de bolívares fuertes, o equivalente a mais de dois bilhões de dólares. Com o tempo, começaram a ser transferidos não só recursos econômicos, mas também técnicos, máquinas, formação, experiências de caráter científico que permitiu que os Conselhos melhorassem o trabalho e começassem a pagar a dívida social que herdamos da IV República.

Houve avanços, houve tempos de ritmo mais lento, mas a ideia de que quem tem de assumir o poder é o Poder Popular nunca saiu de nossa agenda. Pode-se dizer que nossa debilidade é a falta de partidos revolucionários. Por isso começamos e estimular a organização popular a partir do governo, o que para nós não é defeito, mas experiência que nos toca e da qual podemos aprender. Temos, isso sim, de tomar cuidado para não levar ao povo as mesmas misérias do institucionalismo burguês, porque, sim, ainda há muito disso, na Venezuela.

Crisis: Um ponto básico do pensamento revolucionário é que é impossível mudar o Estado de dentro para fora. Contudo, o que se vê na Venezuela é um governo que se propõe como motor da transformação e como artífice a partir do qual o povo está sendo mobilizado.

Erika (risos): Aí há um detalhe “engendrado”, mas, veja bem: como organizar a implosão do Estado, se não há base popular organizada? A Revolução começou com um levante militar que falhou, depois de o levante popular de 27/2/1989 também ter fracassado. O que podíamos fazer? Durante 1987, houve grande debate, para que assumíssemos a via eleitoral. A maioria adotamos essa via, o Comandante venceu as eleições e começamos, sim, a partir do Estado. O que fizemos nesses 12 anos? Devolver ao povo o poder do conhecimento, por a economia a serviço do povo, recuperar os instrumentos de governo. Uma das coisas que nós queríamos superar com a reforma constitucional era a divisão político-territorial. Por causa dela, perdemos o plebiscito de dezembro de 2007. Nos propúnhamos a modificar a organização municipal, paroquial e estatal, para que o povo começasse a exercer suas novas formas de governo. Mas não conseguimos. Fomos impedidos pela própria força do Estado que não quer morrer. 

Vê-se assim que temos uma limitação original, no fato de que a revolução na Venezuela está sendo empurrada adiante pelo Estado... Mas chegará o momento em que as próprias pessoas dirão “é hora de superar esses instrumentos e instituições velhas”. 

Em certo sentido, já está acontecendo. Apenas que nós não podemos meter os pés pelas mãos. Há instituições do Estado que ainda existem, mesmo que sem terem sentido, mas nem por isso podemos atropelá-las. Você pergunta se há uma burocracia socialista. Acho que sim, e que se manifesta dentro das próprias instituições da Revolução, inclusive na população, porque administrar dinheiro e recursos gera burocracias. Há casos nos quais se repete o que já se conhece e outros nos quais aparece algo de novo. E assim vamos andando. Não idealizamos o processo, nem temos com ele uma relação idílica. Sabemos que há problemas e não temos medo deles. Mas temos de entender que não existe socialismo num país só. Há situações na região, há coisas de que temos de cuidar, relações que temos de manter, níveis que temos de ir harmonizando. E com calma.

Crisis: Nesse contexto complexo, como você resumiria a contribuição específica das instâncias do Poder Popular?

Erika: Os Conselhos nos ajudaram muito a avançar no plano ‘micro’, porque sempre, aqui na Venezuela, se veem só os grandes problemas, mas há os problemas pequenos, quotidianos, os quais, se não são enfrentados, acabam por desgastar a força popular. São pequenos problemas dos quais o governo não se ocupa porque não os vê, não tem com vê-los, embora deva esforçar-se. Mas há núcleos de governo popular que veem os problemas porque sofrem os problemas e podem resolvê-los por seu próprio esforço.

Nas instituições há burocracias, não burocratas

Além do enquadramento projetado pelo governo bolivariano, embora se sintam partícipes entusiastas do processo revolucionário, há quantidade enorme de coletivos, que tentam perfurar as onipresentes calosidades burocráticas. São os novos protagonistas sociais que, nos momentos de perigo, sempre fizeram a diferença. São inimigos da corrupção, mas não pelos parâmetros moralistas da oposição anti-Chávez. Para eles, a corrupção é tendência institucional permanente que tende a sufocá-los, dando forma ou privada ou estatal aos produtos da luta e da criatividade dos muitos.

Máster [Jorney Madriz] integra a rede Hip Hop Revolución [1], rede nacional de RAPeiros fundada há seis anos.

Máster e seu grupo de"rapeiros"
Máster: É preciso nos esforçar, para não acabar absorvidos na instituição. Não esqueça que se pode estar num estado revolucionário, mas o Estado não foi inventado pela revolução. É negócio inventado por outros, estruturas completamente verticais, e a revolução ainda não conseguiu quebrar a dinâmica do Estado. Ao mesmo tempo em que nós revolucionamos aquelas estruturas, elas também em parte nos vão absorvendo. Há companheiros que querem fazer mudanças de lá para cá, do Estado para cá, e acabam pondo a revolução abaixo da estrutura. Essa estrutura asfixia nosso processo, afoga o nosso modo de trabalhar, o modo como fazemos música, como nos reunimos. E não é porque o Estado seja bom ou ruim. É porque essa estrutura é alheia, nada tem a ver conosco. Essa é a luta que sempre há, sempre que trabalhamos com o Estado – e não quero ofender os funcionários do Estado, mas eles têm de aceitar a verdade. 

Picky Figueroa é um dos fundadores do núcleo endógeno “Tiuna, el fuerte”, espaço de experimentação política e cultural onde se reúnem os chamos e malandros do bairro El Valle, na periferia de Caracas, e dos bairros com mais tradição combativa.

Picky Figueroa: Há corrupção, coño, abuso de poder, é uma luta, a burocracia dá um trabalho tremendo. Atrasa todos os processos, não vê, não entendem nada. Chávez faz o possível para enfraquecer o Estado e cria organizações alternativas para que o dinheiro chegue ao povo. Entra a burocracia e cria formulários a preencher e planilhas. Temem que nos transformemos em ilha pirata, ou corrente armada. Porque Chávez também está na luta eleitoral; por isso cria exércitos, digamos assim, cria organizações gigantes. As Missões, coño, são soluções alternativas aos ministérios que não respondem nunca, mas também são exércitos de gente com necessidades comuns e, ao mesmo tempo, votos.”

Máster: Vou ser mais claro. Nós vemos o Comandante como o líder de um processo, mas, ao mesmo tempo, também o vemos como companheiro infiltrado no Estado. Chávez é um dos nossos, que se infiltrou numa estrutura perigosíssima, que, cada dia mais, trabalha para enforcá-lo. Nós temos de continuar ajudando Chávez, sempre e enquanto continue falando como nós falamos e fazendo as coisas que nós faríamos se estivéssemos no lugar dele”. 

A seguir, Máster chama os companheiros e nos convida a ouvir um dos seus RAPs [2], gravado no último disco:

Incapaces con disfraces entorpecen
pasos firmes
y ante ninguno de ellos
yo tengo por qué rendirme.
Llegará el día que mi corazón no lata
y ya no eviten mi opinión
con excusas baratas.
Y el interés que te delata:
tú, el de la corbata
si fuera tuya no gastarías tanta plata.
Y eso sólo en viáticos de menesteres,
justifique el sueldo:
¡ve, anda y cumple tus deberes!
Tú llenándote de enseres
y dándote buena vida
con aire acondicionado
cinco pisos arriba
donde el sol te pega a ti
pero no ves para la salida.
Asómate, ve la cola,
puras caras decaídas.
¿Dónde está la solución
a situaciones tan precarias
si en Información
no atiende ni la secretaria?
Necesaria es la acción
que nos rectifique
donde el sujeto aplique
el verbo que predique.
No más retraso en indisposiciones
no más burócratas en las instituciones
no a la mentira que intoxica
dentro de sus corazones
y mientras existan
ellos sabrán de mí. 



Nota dos tradutores

[1] Sobre Máster ver, logo abaixo, trecho de “Inside the Revolution: A Journey into the Heart of Venezuela” (documentário, dir. Pablo Navarrete, 2009)  e “Hip Hop Revolución”: On Culture and Revolution in Venezuela, 7/6/2012, CeaseFire.


domingo, 10 de junho de 2012

“Nenhuma revolução nasce do governo” (1/2)


Alí Rodriguez Araque

Mario Antonio Santucho, Revista Crisis, n.5, jun-jul. 2011
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Entrevista com: Alí Rodríguez Araque, Ministro de Energia Elétrica da Venezuela (1/2)

Mário Antonio Santucho
Viajamos a Caracas para entrevistar Alí Rodríguez, um dos poucos ministros do governo Chávez que tem autonomia e voo próprio, ex-guerrilheiro e profundo conhecedor da questão do petróleo. Ouvimos também Erika Farías, uma das artesãs do Poder Popular. E outras vozes, que criticam com irreverência a burocracia socialista. Voltamos com a sensação de que na Venezuela estão em andamento mudanças que, na Argentina, sequer começamos a discutir.

Alí Rodríguez Araque, hoje Ministro de Energia Elétrica da República Bolivariana da Venezuela era conhecido como “Comandante Fausto”. Foi o principal especialista em explosivos da guerrilha do Partido Revolucionário da Venezuela, lá por 1966.

Depois da derrota, dedicou-se a estudar o problema do petróleo, enquanto exercia mandato de deputado da oposição. Adiante, apoiou a revolução chefiada por Hugo Chávez de 1992 e participou na campanha eleitoral de 1998. Quando Hugo Chávez chegou ao governo, Alí Rodríguez assumiu o Ministério de Energia; depois, foi secretário-geral da Organização de Países Exportadores de Petróleo (OPEP), organismo chave no sistema político global.

Teve de deixar a OPEP para dirigir a Petróleos de Venezuela SA (PDVSA), durante os dias da guerra selvagem dos trabalhadores do petróleo em dezembro de 2002, conflito digno de filme de ação, que por um triz não mata a galinha de ovos de ouro.

Superada a crise, foi nomeado Chanceler. Agora é outra vez ministro de Energia de um país no qual há abundância de gasolina, mas os apagões de eletricidade são quase diários.

Como se tudo isso fosse pouco, assumirá em breve o posto de secretário-geral da UNASUR [1], cargo vago desde a morte de Néstor Kirchner.

A sustentação do modelo chavista supõe uma aliança entre o mais baixo e o mais alto do emirado caribenho.

O Poder Popular envolve boa parte do ativismo social disseminado por todo o território venezuelano. Enquanto isso, nas altas cúpulas dos edifícios institucionais, um punhado de quadros militantes procuram a chave para fazer funcionar o mecanismo infernal do Estado mais cheio de manhas e entraves de toda a América Latina.

Entre um nível e o outro, não há mediações orgânicas ou políticas que funcionem de modo estável e eficaz. A articulação assume a forma fluida e viscosa do dinheiro que emana do petróleo e derivados.

Ninguém melhor que Alí Rodríguez para explicar-nos como funciona essa caixa negra que bombeia recursos, mas também ideologia; o verdadeiro resseguro do processo revolucionário, mas, ao mesmo tempo, a pior de suas fraquezas.

Alí Rodríguez: “Quero deter-me num problema chave: a questão da renda. Não no sentido convencional em que se usa a palavra, como um ganho, ou como lucro, mas como exercício monopolístico, feito pelo proprietário dos recursos naturais de que se trate. Hoje parece fenômeno novo, que recoloca a natureza da renda, já não em escala nacional, mas em escala planetária.

Do meu ponto de vista, a chave está em que a Venezuela não depende do mercado interno para auferir essa renda. A renda do petróleo é renda pela qual o povo venezuelano não paga. Aqui, a gasolina é presente do Estado (não sei se você já encheu o tanque). Chega-se a ponto de, se o sujeito enche o tanque de uma van 4 X 4, gasta mais na gorjeta que deixa no posto, que na gasolina que leva no tanque.”

Crisis: Se entendi bem, o preço da gasolina nos postos é metade do que custa produzir a gasolina...

Alí Rodríguez: O que interessa é que a renda nós a recolhemos de fora, porque o presente interno é um custo que os produtores acrescentam no preço mundial. Por outro lado, já nem é mais a OPEP quem fixa os preços, porque opera aí um fenômeno típico do capitalismo atual: quando o capital financeiro, como ocorre nos grandes países industrializados, já não tem muito espaço no âmbito produtivo, procura, para reproduzir-se, o âmbito especulativo, nas bolsas de valores. No caso do petróleo, formou-se uma bolsa de valores à qual os especuladores vão e compram contratos futuros de petróleo. Quando há muita compra de contratos, porque se sente que possa haver um aumento de preço, ou se antecipa algum problema de abastecimento, ou as reservas caem, o preço do petróleo sobe artificialmente. E esses aumentos de preços não pesam no nosso mercado externo. Por isso digo que o conflito não acontece aqui. É um conflito internacional que a OPEP enfrenta, por um lado, e, por outro, é problema para a Agência Internacional de Energia (IEA), onde se reúnem os grandes consumidores.

Para os consumidores, o ideal é que a renda seja zero, como acontecia na Venezuela, no modelo e na prática neoliberal. Porque o capitalista vê como erro que alguém, pelo fato de ser proprietário de um recurso natural, imponha aos compradores uma contribuição que afeta os seus lucros que deveriam provir, teoricamente, só da produtividade.

Mas os países produtores de petróleo já aprendemos um pouquinho, pois sabemos quanto o capitalista investidor aceita pagar como nosso lucro justo (se é que existe) e quanto aceitam que seja a participação dos proprietários do recurso natural.

Crisis: E como reagiram as potências consumidoras?

Alí Rodríguez: Se você lê as memórias de Henry Kissinger, você encontra lá uma intenção muito clara na sua convocação para a reunião dos países industrializados, da qual nasceu a IEA, em 1974. Vínhamos do embargo imposto pelos árabes petroleiros, que fez disparar exponencialmente o preço do petróleo. A intenção era rachar a OPEP e traçar uma estratégia para explorar províncias petrolíferas no Mar do Norte, onde, por causa dos custos altíssimos, não valia a pena extrair. Mas quando o preço subiu, de 2 dólares para 40 dólares, então, sim, o Mar do Norte tornou-se rentável.

Pode-se dizer que os países produtores pagaram, então, pela arrogância do pecado adolescente de supor que os valores chegariam ao céu e lá permaneceriam para sempre. Não funciona assim.

Foi quando voltou o carvão, que havia sido deslocado pelo petróleo, incorporou-se a energia nuclear e a OPEP diminuiu no mercado. Dos dois terços que ocupava antes, passou a ser apenas um terço.

Depois, por o petróleo ser a maior reserva de energia do mundo, voltou a recuperar espaço. Hoje, tem 40% do mercado. E, dentre os países produtores reunidos na OPEP, os que têm as maiores reservas são a Venezuela e a Arábia Saudita. O Iraque também. Isso é fonte de tensão tremenda em todo o planeta.

Crisis: O que, concretamente, é discutido nessas instituições?

Alí Rodríguez: O conflito parece girar em torno de um mero matiz lexical, que consiste em não falar mais de “recursos naturais” e só falar de “recursos energéticos”; depois, já não se pode nem dizer “recursos energéticos”: só se fala diretamente de commodities, para criar a fantasia de que o petróleo seria mercadoria como qualquer outra. Mas o debate vai além disso, porque não se refere só ao petróleo, mas também aos direitos que os Estados têm sobre seus recursos naturais.

A Amazônia é um exemplo. Os grandes países insistem em que a Amazônia pertenceria à humanidade e exigem ter livre acesso. E eu pergunto: por que eles não dão livre acesso a toda a humanidade, ao conhecimento? Por que não eliminam todos os sistemas de patentes, por exemplo, para que os grandes produtos do conhecimento humano sejam bem comum de toda a humanidade?

Esses são os grandes debates que estão postos no mundo hoje. E temos de voltar a estudar os clássicos. O problema da renda foi muito bem teorizado pelos clássicos: Ricardo, Adam Smith e Carlos Marx.

Crisis: Mas os clássicos, especialmente o marxismo, pensavam que eliminar os interesses rentistas era progressista.

Alí Rodríguez: No tempo de Marx, o conflito acontecia porque os donos da terra cobravam a renda dos camponeses e dos burgueses; consequentemente, quem pagava por essa renda eram os operários. Por isso, se forma uma aliança entre camponeses, burgueses e operários contra o rentista, que era a base de sustentação da estrutura feudal.

Nosso caso é muito diferente, porque não extraímos renda alguma no plano interno. Só extraímos renda dos grandes consumidores, quer dizer, dos países imperiais. O que era válido no tempo de Marx, já não se aplica hoje. Estamos ante um problema de soberania de países em processo de desenvolvimento. Se se tira o petróleo da Venezuela, todos sabemos o que acontecerá.

Por isso, o desafio é desenvolver outros fatores de produção e, principalmente, aumentar a produtividade do trabalho. Isso implica melhorar as condições de vida da população, a saúde, a alimentação, para que as pessoas possam aprender e assimilar e, consequentemente, aumentar seu poder criativo.

Crisis: E quais são os obstáculos que impedem os avanços nessa direção?

Alí Rodríguez: O problema da Venezuela se resume em três grandes paradoxos: os ingressos superam amplamente a produtividade; por isso, temos uma capacidade de compra que supera amplamente a capacidade produtiva do país (e essa é a raiz estrutural da inflação na Venezuela).

Enquanto não corrigirmos isso, continuaremos a ter inflação, sem conseguir levá-la ao ponto ao qual queremos que vá.

E em terceiro lugar, temos ingressos que superam amplamente a capacidade gerencial do país. – Digo-lhe, desde já, que não supera apenas a capacidade gerencial do setor público, o eterno culpado de tudo. Aqui, o setor privado tampouco tem capacidade gerencial para administrar os ingressos.

Crisis: Uma dificuldade para fazer o management da abundância...

Alí Rodríguez: O problema é, sempre e definitivamente, o destino da renda, muito mais que a origem da renda. A renda nada é senão uma parte da mais-valia global, gerada pelo processo produtivo em escala mundial. Até há pouco tempo, os grandes capitalistas apropriavam-se do grosso dessa renda. Mas não só eles. Sobrou alguma coisa para que o Estado venezuelano passasse a investir diretamente e surgiu o capitalismo de Estado mais forte da América Latina. E ainda restava algo, a menor parte, para manter tranquilos os trabalhadores.

Na Venezuela, os aumentos salariais não foram, historicamente, motivados pelo conflito capital/trabalho. Sempre foram resultado de decretos do Executivo ou leis do Congresso.

Isso influenciou o desenvolvimento da consciência de classe dos trabalhadores, gerou uma burocracia sindical muito forte, casta sindical tremenda, que tende a reproduzir-se na defesa de seus próprios interesses.

Crisis: É verdade que a chegada de Chávez ao governo da Venezuela influiu para que a OPEP voltasse a ser organismo político capaz de impor os preços no comércio petroleiro global?

Alí Rodríguez: Consequência das políticas neoliberais aplicadas na Venezuela, aplicou-se aqui uma política orientada a privatizar a indústria petroleira e a aumentar indiscriminadamente a produção.

Isso nos punha em constante violação das quotas estabelecidas na OPEP. O sistema de quotas foi criado precisamente para evitar uma concorrência daninha entre os membros.

À medida que a Venezuela começou a violar as quotas, a Arábia Saudita também passou a produzir mais, o que gerou uma guerra de preços.

Coube a mim participar das negociações na nova OPEP e foi uma queda de braço muito violenta, mas chegamos a um acordo de cavalheiros (digamos assim) na reunião em Haia, em 1999, cumprimos o acordo e a OPEP recuperou a solidez interna. Depois, houve a segunda reunião de Cúpula na Venezuela, e não há dúvidas de que as políticas do presidente Chávez contribuíram para o fortalecimento da OPEP e ajudaram a conjurar o perigo de uma ruptura, que teria sido um banquete para os grandes consumidores.

Crisis: E que papel desempenha o Brasil, nesse esquema?

[continua]



Nota dos tradutores
[1] Ver 4/6/2012, Banca & Negócios em: “Rodríguez Araque: Unasur combatirá la pobreza”