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sexta-feira, 10 de maio de 2013

Philippe Corcuff: “A esquerda está em estado de morte cerebral”


Set. 2012, Philippe Corcuff (entrevista a Mathieu Deslandes) - Rue89 
Entrevista traduzida pelo pessoal da Vila Vudu


Excerto da Ata de Reunião dos tradutores: Essa entrevista não é nenhuma brastemp: muito critica e pouco propõe. Além disso, os jornalistas do Blog Rue89 creem firmemente que Hollande, na presidência da França – dado que ele não é a fascista Marinne Le Pen – seria alguma “esquerda”. Mas o entrevistado faz retrato interessante, pensado com cuidado, de uma autoproclamada esquerda não comunista (no Brasil, é a chamada “a militância” petista e inclui também os marina-silvistas “ecológicos à moda Al Gore & créditos de carbono" que, estes, são o NADA absoluto), que abunda nesses tempos pós-neoliberais ou, talvez, melhor dito, nesses tempos de neoliberalismo terminal, mas de neoliberalismo ainda sobrevivente no PSDB e na imprensa-empresa e, ativo, portanto, ainda, nas discussões sociais no Brasil (embora o entrevistado só fale da França). Então, decidimos traduzir.


Philippe Corcuff em Lyon (9/2012). Foto de Mathieu Deslandes - Rue 89
O sociólogo Philippe Corcuff  conhece bem as esquerdas: milita há 35 anos. Trocou o Partido Socialista pelos Movimento dos Cidadãos, depois pelos Verdes, de onde partiu para a Liga Comunista Revolucionária (LCR), que se converteu em Novo Partido Anticapitalista (NPA). Novamente decepcionado, diz que talvez se una à Federação Anarquista. Frequenta também a Associação pró-Taxação das Transações financeiras e pela Ação Cidadã (ATTAC), altermundista, e o sindicato Unitários Solidários Democráticos [orig. Solidaires Unitaires Démocratiques, SUD-Education].

Mathieu Deslandes
Mantendo-se conectado a todos os ambientes militantes que pôde atravessar, Corduff alarma-se, há meses, com o embrutecimento intelectual dos militantes. Da experiência, extraiu um livreto, “A esquerda está em estado de morte cerebral?” [Orig. La Gauche est-elle en état de mort cérébrale? éd. Textuel), que essa semana chegará às livrarias.

Em sua sala, no Instituto de Estudos Políticos de Lyon, descreve o quadro mental da “esquerda à Hollande”, dos “esquerdistas do esquerdismo”, e suas patologias mentais. Explica por que os think tanks são total fracasso, por que “os indignados trazem alguma esperança”, milita para que a política aprenda com o RAP e que ouse tentar, que ouse experimentar.

Rue89 : Qual o papel das ideias, na reconquista do poder [na França], pela esquerda?

Antonio Gramsci
Philippe Corcuff: Instalou-se um “esquemão”, ligado a uma determinada leitura super simplificada de Antonio Gramsci, pensador marxista: a ideia de que a conquista do poder político teria de, antes, passar por uma fase de hegemonia cultural ou intelectual.

Minha hipótese caminha na direção exatamente oposta, para a situação atual: a esquerda só conseguiu vencer eleitoralmente, quando já estava em estado de decomposição intelectual.

Rue89 : O “sonho francês” de François Hollande, nesse caso, foi o quê?

Philippe Corcuff: Confundem-se hoje ideias e slogans de marketing, na discussão política. Ideias têm a ver com trabalho intelectual. Na tradição da esquerda, é confrontar os preconceitos, criticar as ideias feitas e os lugares-comuns, buscar distanciar-se de qualquer sinal de imediatismo, reformular frases, estabelecer relações entre diferentes dimensões... É precisamente tudo que já praticamente não se encontra, ou encontra-se cada vez menos.

Discutem-se, praticamente sempre, ideias apenas empilhadas umas sobre as outras, mas nada é retrabalhado, nada é pensado. E a publicidade e o jornalismo-que-há arrancam daí slogans lisos e consensuais.

Rue89 : Desde quando a esquerda está nesse estado de morte cerebral, como você diz?

Pierre Moscovici
Philippe Corcuff: É resultado de várias evoluções misturadas.

  • Há, para começar, um movimento contínuo de profissionalização política e, nele, os recursos intelectuais são cada vez menos valorizados. Por exemplo: até há poucos anos, Pierre Moscovici,  que tinha imagem de intelectual, pôs-se a explicar ao jornal Libération  que não, que era homem de aparelho. Como se fosse melhor negócio, para ele, expor-se como apparatchik que como intelectual.
  • Há também o movimento de tecnocratização. Os tecnólogos participam cada vez mais da definição do que seja a política. Passaram a ocupar, simultaneamente, o posto de alto funcionário do Estado, o mais alto cargo político e ocupam também uma parte do poder econômico. Assim se forjou uma visão particular, muito fragmentada. A realidade foi recortada e surgem casos ditos “técnicos”: “a imigração”, “o emprego”, “o déficit no orçamento”, “a delinquência”... Segmentam-se os problemas, sem estabelecer qualquer relação entre eles. Examinam-se pequenos trechos das grandes engrenagens sociais, e ignora-se a totalidade.
    François Hartog
  • Em seguida, não surgiu nenhum corpo teórico englobante que substituísse o marxismo, em declínio a partir do início dos anos 1980s. Não lastimo a ausência do peso muito exclusivo que se dava às referências marxistas nos anos 50-70, mas a ausência de qualquer teoria totalizante, englobante, que, sim, o marxismo oferecia.
  • Por último, o que o historiador François Hartog  chama de “presentismo” [orig. “le présentisme”]. As sociedades tradicionais tinham, para referência, o passado; as sociedades modernas (no sentido de “o Iluminismo”) voltavam-se para o futuro, mediante o progresso; hoje, uma espécie de presente perpétuo substituiu tudo isso, sem apoio nem no passado nem no futuro, para avaliar o que acontece. De fato, a política está convertida, cada dia mais, numa esquete de marionetes do imediatismo.
Rue89 : E por que lhe parece grave?

Philippe Corcuff: É grave, se se considera a história da esquerda, que sempre foi a luta, ao mesmo tempo, por justiça e por verdade. O mundo sobreviveu ao fim dos dinossauros, a esquerda bem pode sobreviver ao sumiço do trabalho intelectual dentro dela mesma, mas haverá uma perda, que já se constata na própria definição do que conhecíamos como “a esquerda”.


Rue89 : E os think-tanks que pululam fora da Academia? Não criaram material de pensamento?

Philippe Corcuff: Mantiveram-se e mantêm-se sempre num domínio limitado: dos intelectuais segmentados por expertise e pela lógica programática. Só fazem elaborar “respostas aos problemas” da “escola”, da “imigração”, do “déficit de orçamento”, só respostas a “problemas”, sem qualquer reflexão sobre o quadro geral onde cada “problema” se insere.

Isso não basta, para que a esquerda reelabore o que chamo “os programas” [lit. os softwares (NTs)] da crítica social e da emancipação, quero dizer, os modos de formular as questões, antes de começar a pensar em respostas.

Rue89 : Como você definiria o quadro intelectual da esquerda no governo [da França]?

Anthony Giddens
Philippe Corcuff: Apesar de os socialistas franceses rejeitarem a palavra, o quadro intelectual, ali, é social-liberal. O sociólogo Anthony Giddens,  intelectual farol da “terceira via” britânica defendida por Tony Blair, disse bem claramente:

  • havia a social-democracia que defendia o Estado social;
  • houve Thatcher, com o neoliberalismo que atacava o Estado social; e
  • veio o social-liberalismo, que ficou entre os dois anteriores.

Essa esquerda à Hollande entende que a globalização neoliberal e o recuo do Estado social são fatos consumados, são irremediáveis e irreversíveis. Contenta-se com arranjos societais justos, mas limitados (como o casamento homossexual, por exemplo, uma causa que, no fundo, é a consagração do casamento burguês mais conservador). Hollande, especificamente, defende os quadros da Educação nacional e, em certa medida, dos funcionários da Polícia e do Judiciário, mas o restante dos serviços públicos estão já na lógica dos “cortes” e mais “cortes” neoliberais.

François Hollande
Como nada disso pode ser claramente assumido, o que se vê é o distanciamento entre os discursos e as práticas.

Rue89 : Como você definiria o quadro intelectual dos “esquerdistas da esquerda”?

Philippe Corcuff : É o que chamo, provocativamente, de “pensamento Le Monde Diplo”. Não penso especificamente no jornal mensal Le Monde diplomatique, das raras publicações da imprensa-empresa comercial que resistiu à virada neoliberal de 1983. Mas já se passaram 30 anos! E, pouco a pouco, aqueles esquemas maniqueístas viraram rotina de pensamento.

Havia “o mal” (o mercado, o individualismo) e “o bem” (o Estado, o coletivo e, cada vez mais a nação, sob o tema da “desglobalização”). E a luta entre o bem e o mal favoreceria “o mal” por causa “da mídia”, grande “o mal”, que aliena e embrutece todo mundo – exceto, evidentemente, os senhores desse específico discurso, sempre preservados por obra e graça do Espírito Santo!

Esse “pensamento Le Monde Diplo” não se caracteriza tanto pela indignação ou pelo engajamento. O que ele faz é, ininterruptamente “se lamentar”, lastimar-se, deplorar que as coisas não sejam... o que não são. Os automatismos de hiper-simplificação dessa doxa crítica têm ecos na Front de Gauche, no grupo Attac, no Novo Partido Anticapitalista (NPA) – no qual milito – na esquerda do Partido Socialista, entre os ecologistas... Mas, sobretudo, entre grande número de simpatizantes “críticos”.

O pensamento “lamentativo” é pensamento paralisante, que, hoje, é dos principais obstáculos à reconstrução intelectual das esquerdas. Por exemplo: a esquerda, hoje, jura por todos os santos ante a dupla fé de que ‘tudo será diferente’ quando o mundo livrar-se do “individualismo” e der jeito “na mídia dominante”.

O que se vê aí, operante, nesse caso, é uma das manifestações de uma patologia intelectual que atravessa todas as esquerdas: o essencialismo, quero dizer: ver o mundo através de essências, de entidades homogêneas e estáveis. Fala-se de “os muçulmanos”, de “a Europa”, “a mídia”, “os EUA”, “Israel”, “Venezuela”... como se fossem essências imutáveis.

E ninguém cuida de observar que, na realidade, só há contradições, lógicas diversas, mais ou menos variadas, resistências, transformações. O livro de Alain Badiou sobre Sarkozy é tipicamente essencialista: fez do sarkozysmo uma essência atemporal: um “transcendental Pétainista”.

Philippe Corcuff  em Lyon (9/2012). Foto de Mathieu Deslandes - Rue 89
Rue89 : Como você chegou à conclusão de que as teorias da conspiração também são característica que atravessa todos os campos de pensamento da esquerda?

Philippe Corcuff: No que tenha a ver com análise dos meios de comunicação e das relações internacionais, dei-me conta de que havia esquemas muito presentes entre os militantes e simpatizantes de esquerda, em total contradição com os esquemas das ciências sociais nesses domínios.

No quadro conspiracional/conspiracionista, o principal, de tudo que acontece, é fruto de manipulações conscientes e ocultadas de algumas elites. Ora, tudo que aprendi nas Ciências Sociais, de Marx a Bourdieu, me diz que o que mais opera são limitações de estruturas não personalizadas, impessoais.

O capitalismo é Matrix ou Skynet  em Terminator: um maquinário impessoal que constrange e pouco a pouco domina o mundo. A máquina não tem piloto, ninguém a controla completamente: foi o que se viu na crise das hipotecas podres, quando alguns dos que se sentiam ‘pilotos’ foram eliminados, outros mal tiveram tempo de salvar a própria pele... A evidência de que há quem se aproveite do sistema não implica que os mesmos controlem o sistema.

Aí se vê, cara a cara, como no caso do essencialismo, outra patologia intelectual importante da esquerda.

Rue89? E há outras?

Philippe Corcuff  Uma visão implícita assombra as esquerdas: a passagem sub-reptícia do verbo pronominal reflexivo “emancipar-se”, para o verbo transitivo “emancipar” [quase sempre “o outro”].

A maioria dos que falam publicamente no campo da esquerda usam mais a primeira acepção, no caso da autoemancipação dos oprimidos, mas são quase sempre leninistas: uma vanguarda esclarecida (antiliberal, anticapitalista, laica, feminista) que deverá arrancar, da caverna para a luz, a massa que os meios de comunicação teriam alienado completamente, alienada também pelo trabalho, pelo consumo e/ou pelo Islã.

Esses homens e mulheres embrutecidos pelo trabalho, essas mulheres com véus embrutecidas pelo patriarcado, as prostitutas embrutecidas pelos cafetões, e eu, profeta feminista, as conduzirei das trevas à luz...

Rue89: E como se sai disso?

Philippe Corcuff: Os partidos políticos têm cada vez menos relações, para se revigorarem, com os movimentos sociais – e é no que deu a hegemonia da visão tecnocrática –, ou com os intelectuais seriamente críticos.

Quando estão à procura de ideias, escolhem ou tecnocratas especialistas num ou noutro domínio, ou intelectuais “de televisão” – os Alain Minc, Jacques Attali, Bernard Henry-Levi, Caroline Fourest... – Quer dizer: procuram gente que fala de tudo com aplomb sem saber coisa alguma de coisa alguma.

As universidades populares alternativas são experiências interessantes, mas apresentam-se mais como locais de difusão de recursos críticos, que como locais de elaboração.

Grupos como o Conselho Científico de ATTAC  e a Fundação Copérnico  oferecem a contraexpertise útil para enfrentar cenários tecnocráticos, mas, para fazê-lo, correm o risco de continuar prisioneiros de uma visão segmentada das coisas.

Há também revistas interessantes (Multitudes, Vacarme, ContreTemps, Agone, Réfractions, EcoRev’, La Revue des livres...), mas nem sempre conseguem evitar o fechamento intelectualista. Tem havido algum contato e interações com grupos de ação – entre Vacarme e Act Up, entre Multitudes e a coordenação dos trabalhadores precários e intermitentes da Ile-de-France, entre ContreTemps e o Novo Partido Anticapitalista – mas as interações mais produtivas só duraram pouco tempo.

Sinto também que muitos esperam que surja “o grande pensador”. Não me parece coisa que se deva desejar, se se pensa de uma perspectiva democrática. Alguns grandes intelectuais franceses desempenharam (como Foucault, Bourdieu, etc.) e podem ainda desempenhar certo papel, mas isso, para mim, não é o principal : os programas [no sentido de softwares, orig. les logiciels] da esquerda não podem ser reinventados só por uma casta de intelectuais profissionais.

Sonho com clubes nos quais os militantes dos movimentos sociais, pesquisadores, políticos de partido, artistas possam dialogar, e nos quais podem desenvolver-se ideias renovadas, a partir de uma relação crítica com tradições que cada grupo traga.

Rue89 : O movimentos dos “Indignados” poderia revificar intelectualmente a esquerda, não?

Philippe Corcuff: É um pouco o que se vê na Espanha e nos EUA: há um começo de reelaboração intelectual do que é a esquerda e que aproxima novos meios militantes e meios intelectuais e culturais.

Rue89: Mas estão esboçando conceitos? Ou é só a união de categorias que, até aqui, nunca haviam trabalhado juntas?

Judith Butler
Philippe Corcuff: A visão da sociedade construída em torno da clivagem 1% versus 99% permitiu que convergissem pessoas preocupadas com moradia, os sindicalistas, militantes das minorias, teóricos do gênero, de relações pós-coloniais, marxistas, ecologistas, artistas…

Há um cadinho favorável à emergência de algo que brote simultaneamente do mais antigo e do mais novo. O movimento “Occupy” produziu uma revista: Tidal. Leem-se artigos de Judith Butler  e outros. Começaram a fazer “a quente” o que eu sonhava em fazer “a frio”, naquele clube de que falei.

Rue89: As esquerdas francesas são mais preguiçosas que outras esquerdas?

Philippe Corcuff: Diferente da Alemanha e dos EUA, a esquerda francesa é carente de cultura experimental. É ligada à valorização da política como combate (os que pensam que a política é, sobretudo, questão de ter colhões presidenciais ou revolucionários) e do centralismo estatal. Por aqui se experimenta menos, outros modos de viver, de trabalhar, de decidir, de pensar... Há algumas experiências, como Lip  e, depois, passa-se tempos e tempos falando delas.

Melhor que se afundar nas lamentações e no ressentimento do “pensamento Monde Diplo” (“é culpa da mídia, do individualismo, do Grupo de Bilderberg da Troika...”), seria lançar-se na aventura de outras práticas sociais, políticas e intelectuais.

Ouço, seguidamente me dizem: essas suas histórias de experiências são boas para os burguesinhos ‘de balada’ [orig. bobos, de bourgeois bohémien (NTs)]. Mas as pessoas que fizeram emergir as ideias de consciência de classe e de movimento operário entre 1830 e 1848 na França, viviam em situação bem mais miserável que hoje.

De fato, vez ou outra, bastam alguns dispositivos absolutamente simples, para começar a pensar e agir. Por exemplo: numa oficina, na Universidade Popular de Lyon, mandei os alunos lerem dois textos : um de Michel Onfray, um de Bernard-Henri Lévy. E os fiz discutir: 100% dos alunos “detonaram” o artigo assinado por BHL. Mas eu trocara os autores. Apenas uma ideia de experiência que mostra a dificuldade de “pensar pela própria cabeça”, na prática.

Rue89: Você escreve que seria preciso buscar o RAP, dentre outros grupos, para inventar novas linguagens políticas. Que novidade há aí, além do modismo?

Philippe Corcuff: Quando, como agora, vivemos em sociedades individualistas, as pessoas fortemente presas à própria individualidade, a maioria dos grupos de esquerda só sabem dar respostas, principalmente, coletivas. É o que chamo de hegemonia, na esquerda, do “software coletivista”.

Contudo, umas das fontes importantes de anticapitalismo, hoje, sobrevive na intimidade sonhadora e agredida das pessoas. Dei-me conta disso, ao fazer um estudo de recepção do seriado norte-americano de televisão “Ally McBeal”,  com uma centena de telespectadoras. Não raro, o ápice do autoesquecimento de si mesmo, um cerne de não egoísmo capitalista, é vivido sob a forma de uma amizade ou de um amor no qual não vigem leis de interesse. Há aí, portanto, valores anticapitalistas.

Nas letras de RAP de Keny Arkana Casey  ou La Rumeur vê-se, precisamente, pessoas que nos falam da opressão social, e, simultaneamente, do vivido individual. A linguagem política teria de conseguir associar assim os quadros coletivos e as subjetividades individuais.

Rue89: Mais ou menos o discurso de Martine Aubry sobre “o cuidar” e “o cuidado... 

Philippe Corcuff: O problema é que ali se deu uso “marketado” à coisa: ela falou um pouco, porque parecia chique, e logo mudou de assunto.

Sandra Laugier
Mas, sim, há trabalhos sobre o cuidado e o cuidar, dos quais participa minha amiga a filósofa Sandra Laugier que, sim, são apaixonantes : associam dimensões afetivas e pessoais, à questão da proteção social. Mas seria necessário que os filósofos que se interessam pelo cuidado e pelo cuidar, políticos, trabalhadores sociais, sindicalistas e militantes feministas pudessem pensar juntos.

Em todos os casos, é importante distinguir bem claramente o que é reposicionamento e realinhamento das esquerdas em face do trabalho intelectual, e o que, bem diferente, não passam de brilharecos superficiais e modismos temporários ou “marketing político”.

sábado, 14 de abril de 2012

Albert Jacquard votará em Mélenchon: “Mélenchon me lembra Brizola”


14/4/2012, entrevista a Sophie Verney-Caillat, Rue89
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Comentário da redecastorphoto: Notável a percepção do pessoal da Vila Vudu quanto a semelhança ideológica entre o grande brasileiro Leonel de Moura Brizola e o extraordinário intelectual, jornalista e político francês Jean Jaurés (1859-1914).


Albert Jacquard em casa, em Paris, dia 5/4/2012
Albert Jacquard, o geneticista “indignado de 86 anos, está lançando um livro com Stéphane Hessel (“Exija! Desarmamento nuclear total” [Exigez! Un désarmement nucléaire total] Paris: Stock). Votará em Mélenchon e decidiu divulgar seu voto.

“Estou cada dia mais fraco”, reconhece. Comparado às vezes a um “Abade Pierre” laico, Jacquard acaba de ser aposentado compulsoriamente da rádio France Culture (onde até recentemente mantinha um programa). A voz está muito fraca, e mal se ouve o que diz, mas ainda tem muito a dizer:

“Tenho ganas de gritar “nos autodesapropriemos!”. Temos de dizer a todos, no mundo, que nenhum bem da Terra pertence a alguém”.

Ainda há pouco tempo, o velho cientista foi visto nas telas de televisão, entre os manifestantes que exigiam a desapropriação  de um prédio na Rue du Dragon, para ser entregue aos sem-teto. E acaba de lançar também um livro de memórias, “Na minha juventude” [Dans ma jeunesse, Paris: Stock].

Nesse livro, explica “como se chega a ser o que se é”. E pela primeira vez escreve sobre o acidente de carro que o desfigurou, aos 9 anos. Um trem bateu no carro em que a família viajava. Morreram seus dois avós e um irmão de cinco anos, e o pai foi ferido. Eis como relata o fato:

“Um choque de fim do mundo, seguido de um silêncio que parece definitivo. Abro os olhos e me vejo, eu mesmo, de pé, no meio da estrada; desdobrado, sou ao mesmo tempo esse menino ferido, externo a ele, fixo como uma fotografia, e eu, que olha para ele, incapaz, durante um instante, de qualquer movimento ou sensação, mas obrigado a aceitar o irreparável: num instante, meu universo está revirado”.

Foi livro que “muito me custou escrever”, diz ele:

“Não sabia que escrever me libertaria. Dizer me transformou.”

Vê, na aliança com Stéphane Hessel, a ocasião de encontrar novos públicos para suas velhas ideias sobre a energia nuclear:

“Estamos suicidando a humanidade, e ninguém reage. É monstruoso”.

Albert Jacquard estará convertendo a indignação de nonagenário em programa político? Está disposto a falar, na campanha presidencial? Calma. Até agora, o utopista só decidiu em quem votará.

Rue89: Se o senhor fosse candidato, qual seria sua plataforma política?

Albert Jacquard: Seria o candidato das mutações, nunca candidato das crises. Crise não existe. Por definição, crises são passageiras, uma crise de tosse, uma crise de lágrimas... São crises, porque sabemos que passam. Hoje, para edulcorar o que estamos vivendo, fazemos como se fosse uma crise, como se fosse coisa passageira.

Hoje, de fato, vivemos uma mutação, um apelo ao renovado. O que foi bom antes, não é necessariamente bom depois. Vivemos uma ocasião extraordinária, de mudar tudo. É normal rever o sistema econômico, sanitário... Ora! E ninguém, nessa campanha eleitoral aproveita a oportunidade para definir as mutações. Os políticos têm medo da mudança, não acreditam que as coisas mudem.

A campanha eleitoral pouco fala de utopia. E fala demais em números. É uma verdadeira doença de números. 

Ligo a televisão e não passam três minutos sem que apareça uma porcentagem de aumento de alguma coisa, que logo depois diminui, como Sarkozy, dia desses, que explicava que não sei o que baixaria. Significa que só aumentará... Somos fascinados pelos números, porque se acredita que os números sejam o caminho pelo qual se chega à verdade.

Rue89: Mesmo assim, os números da dívida são uma realidade... 

Albert Jacquard: Seria ótimo que alguém definisse essa tal   “realidade”. Por que, há dez anos, ninguém falava dela? Para mim, o momento grandioso, quando nos esquecemos de todos os números, foi a Libertação: suprimiram-se vários critérios econômicos, como a inflação, e demos um jeito. O Conselho Nacional da Resistência  foi uma utopia total... realizada.

Rue89: Que lhe parecem os candidatos?

Albert Jacquard: Minha simpatia caminha, naturalmente, para François Hollande. O outro [Nicolas Sarkozy] não é homem em quem se possa confiar. É espantoso o modo como zomba desavergonhadamente de todos. Já disse de tudo, e, depois, o contrário de tudo.

Encontrei-o uma vez, pessoalmente, numa cerimônia de entrega de uma [medalha da] Légion d’honneur. Alguém apresentou-me a ele. Apertou-me a mão, e virou a cara. Poderia ter mostrado algum interesse em me conhecer, mas não. Não foi sequer cordial. Senti na atitude dele uma espécie de desprezo. Não mostra qualquer entusiasmo, nenhum.

Rue89: E Hollande?

Albert Jacquard: Também não é homem de grande fôlego. No primeiro turno, votarei em Mélenchon. Votarei em Mélenchon, apesar de sentir que meu dever seria votar em Hollande, para evitar a volta de Sarkozy. Mas sou sensível ao vigor de Mélenchon, ao modo como me faz pensar em Brizola.

Espero não cometer uma tolice, deixando que Sarkozy saia muito à frente, para o segundo turno.

Mélenchon tem cabeça boa, sem dúvida. Mostra uma sinceridade que emociona, exatamente o contrário de Sarkozy. Se eu estivesse melhor, teria ido ao comício da Bastilha.

Rue89: A eleição está muito personalizada...

Albert Jacquard: É pena. É visível que todos sentimos necessidade de um grande homem. Mélenchon é um tribuno, quero dizer, é populista, mas... que mal há nisso? Por que não ouvir o povo? 

Com Sarkozy, é certo que conheceremos o horror. Com Hollande, claro, as coisas serão menos grandiosas, mas... sabe-lá! 

Rue89: O senhor continua a pregar um decrescimento com alegria?

Albert Jacquard: Sim. Ninguém perderia nada, se se suprimisse Las Vegas. Na medida em que somos uma espécie consciente, podemos desenvolver uma reflexão sobre esse tema: “Por que Las Vegas?” Quando estive pela última vez nos EUA, fiquei assustado: a costa leste do país permanece iluminada, dia e noite, sem interrupção, de New York a Boston. Para quê? Por quê? Aí está um desperdício de energia que pode acabar.

É preciso pensarmos todos juntos: quem é o dono do petróleo? A ideia de que Abu Dhabi seja dona do petróleo é ridícula. O petróleo pertence aos 7 bilhões de habitantes do planeta. Os recursos são necessariamente planetários.

Rue89: Mas, em 2009, em Copenhague, os estados não conseguiram chegar a qualquer acordo...

Albert Jacquard: Pois tentemos novamente. Os egoísmos nacionais têm de desaparecer. Estamos ainda longe disso, se se vê a Europa hoje. Seja como for, ou é o fim, com a guerra nuclear, ou temos de admitir que é hora de repensar tudo.

domingo, 8 de abril de 2012

Sim, Mélenchon faz a melhor campanha. E depois?


2/3/2012, Eric Dupin, Rue89
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Discursos de Mélenchon (vídeo e tradução) disponíveis na redecastorphoto: 
1/4/2012, em Grigny,  
6/4/2012, em Toulouse,

Jean-Luc Mélenchon à Montpellier (Hérault), 8/2/2012 (DAMOURETTE/SIPA) 

É hora de declarar: Até aqui, Jean-Luc Mélenchon faz a melhor campanha nas eleições presidenciais na França. O talento do candidato da Front de Gauche é elogiado até por um veterano comentarista político, Alain Duhamel (71 anos), que não se pode acusar de simpatia por qualquer tipo de radicalismo:

“Jean-Luc Mélenchon é grandiloquente, provocador, presunçoso, às vezes até fala de uns ou outros com desprezo, mas não há dúvidas de que é hoje o melhor orador da cena política na França. E não me lembro de melhor orador que ele, que parece herdeiro dos oradores do século 19, mas que consegue seduzir e embalar, literalmente, não só os auditórios e as praças, mas também as câmeras de televisão.”

“O rei dos comícios” 

Se Duhamel percebe o tribuno Mélenchon como criatura com passado de dois séculos, mesmo assim é obrigado a admitir que seus melhores momentos acontecem nas praças. O jornal Le Parisien consagrou recentemente o candidato da Front de Gauche, com o título de “o rei dos comícios”.

De fato, os comícios têm sido eventos impressionantes: 10 mil pessoas, dia 7/2 em Villeurbanne (Rhône), para um estranho comício em dois palcos; 8 mil no dia seguinte, em Montpellier (Hérault) [ontem, em Toulouse, foram 70 mil]. Um público misto e entusiasmado. Eleitores comunistas mais velhos, que reencontram o entusiasmo de ver a bandeira vermelha outra vez erguida, ao lado de militantes muito jovens, das origens mais diversas, todos seduzidos pelo Partido de Esquerda de Mélenchon.

Até aqui, o fervor só se traduz em lento crescimento nas pesquisas de intenção de votos (de 6,5% em meados de janeiro a 9% no início de fevereiro).

[Esse artigo é do início de março. Em “La présidentielle en temps réel  há resultados de pesquisa divulgados hoje, mas é pesquisa paga pela da revista Paris Match, que só não é pior que a revista (não)Veja, porque NÃO HÁ, no mundo nada pior que a revista (não)Veja, que é a pior revista DO MUNDO]. 

Mas deve-se prever que a dinâmica da campanha mostrará bons resultados para Mélenchon. Basta ver – por que não? – que Mélenchon já ultrapassou François Bayrou [candidato de centro-direita].

Campeão dos anti-LePen

Mélenchon já pode festejar uma grande vitória na disputa contra Marine Le Pen. Lançar ataque violento e frontal contra o Front Nacional (e os que, na UMP [de Chirac] e às vezes também no Partido Socialista [de Hollande] só pensam no “voto útil”) foi decisão estratégica maduramente avaliada. A candidata da extrema-direita, ao que se vê, caiu na armadilha das provocações que lhe fez a Front de Gauche de Mélenchon, e recusou-se a comparecer ao debate promovido pelo canal France 2 de televisão, dia 23/2.

Alexis Corbière, dirigente do Parti de Gauche, que faz parte “de uma geração que começou a militar em meados dos anos 80, e sempre sofreu com a presença da Frente Nacional de Le Pen na paisagem política francesa”, comemora:

“[Marine Le Pen] lhe virará o rosto, mas Jean-Luc não vai afrouxar. No plano midiático, é terrível para ela. A grande força da extrema direita que virava a cara a qualquer discussão nos anos 80s, 90s e 2000, está calada, agora, frente à Frente de Esquerda. Para nós, é vitória total.”

Mélenchon explica, em seu blog, como a escolha de atacar o adversário na questão dos direitos da mulher, onde a temática da igualdade social entra em flagrante contradição com a divisão tradicional entre sexos com a qual trabalha a extrema direita (a questão do aborto, dentre outras), é estratégia calculada:

“A brecha que abrimos para entrar na questão da igualdade entre homens e mulheres [discutir o caso do transgênero] permitiu-me ir ao coração da cortina de fumaça que mascara as contradições do que a direita diz. Nosso interesse tático é deixar a direita lá onde está, nesse “entre dois” asfixiante para o discurso da FN. Porque a tática deles, de buscar a respeitabilidade, separou-os dos militantes da direita ativa e dos meios sociais para obter votos, sem lhes dar qualquer vantagem no campo da direita, que só tem Sarkozy.”

O único, à esquerda do Partido Socialista

O moderatismo assumido de Hollande, apimentado, vez ou outra, com piscadelas à esquerda, abriu espaço para a candidatura Mélenchon. Contra o “voto útil”, a candidatura Mélenchon está atraindo o voto tático dos eleitores socialistas pouco confiantes e constantemente decepcionados pelo que ouvem do candidato do Partido Socialista. A candidatura Mélenchon ancora-se também e sobretudo numa tradição da esquerda comunista que permanece bem viva na França, apesar da marginalização do Partido Comunista Francês (PCF). O programa de Mélenchon, que circula desde setembro do ano passado, ousa repor as questões fundantes dessa tradição histórica:

“Nosso programa prevê estender a propriedade pública, desenvolvendo os serviços públicos. Promove novas apropriações sociais pela nacionalização das grandes alavancas da ação econômica, industrial e financeira. Propõe formas descentralizadas da propriedade social. E assim visa a sistematizar o recurso à economia social e solidária.”

Contudo, apesar de ter formação trotskista (versão lambertista), Mélenchon não encarna apenas o novo rosto do comunismo francês. A crítica do produtivismo e do consumismo que o Parti de Gauche trouxe, na nova formação com as cores vermelho e verde, acrescenta ao melenchonismo um componente ecológico que não está lá só como verniz superficial. Parte do eleitorado “verde” que se frustrou com Eva Joly, pode reencontrar novo alento, em Mélenchon.

Patriota e franco-maçon, Mélenchon aplica-se também em fazer vibrar a corda republicana. Seus comícios encerram-se sempre ao som de A Internacional, mas sempre seguida da Marselhesa – o que tem suscitado algumas discussões entre seus amigos.

A fraca notoriedade dos candidatos da NPA e do Partido da Luta Operária, contribui também para atrair para Mélenchon os votos de boa parte do eleitorado da extrema esquerda. Desta vez, Mélenchon é o único a ocupar o espaço à esquerda do Partido Socialista. Ora, aí havia 13,8% dos eleitores, em 2002; e apenas 9% em 2007, apesar da lembrança do 21 de abril. Significa que Mélenchon terá de ultrapassar a barreira dos 10% [hoje está com mais de 15% das intenções de voto], para transformar seus talentos políticos e oratórios em real bom desempenho nas urnas.