segunda-feira, 2 de setembro de 2013

O momento Bush de Obama - A mentira da guerra “limitada” à Síria

2/9/2013, [*] Shamus Cooke, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Depois do exemplo líbio, a ONU ficou vacinada contra as mentiras de Obama. Por isso, a parte mais difícil, hoje, no processo de os EUA inventarem guerra contra a Síria, é começar a guerra. Depois de começada a matança, só a lógica da própria guerra imperará, o que cria instantaneamente novas dinâmicas não previstas, quase infalivelmente na direção da expansão da guerra. É muito possível que esse traço “não previsto” da guerra seja, exatamente, o que Obama tem hoje em vista.



Os ratos abandonam o navio dos ratos. Nem os mais fortes aliados de Obama aguentam o fedor das mentiras que são a ‘base’ do esforço de guerra contra a Síria. Até a Inglaterra, cuja única política exterior é perguntar, “de que altura?” quando os EUA ordenam “pule!”, optaram por não se mexer para ajudar Obama.

Também a Liga Árabe, há muito tempo usada como marionete pela política exterior dos EUA, já se dividiu. O Conselho de Segurança da ONU – depois de aprender, na Líbia, a não confiar em Obama – também se recusa a autorizar o ataque à Síria. Restou a França – ex-patrão colonial da Síria – para segurar a máscara de “importante” nação europeia a dar ao ataque o leve verniz de apoio “internacional”. Mas a insubordinação da Inglaterra certamente ecoará na opinião pública francesa, que elegeu um presidente “socialista”, presume-se, para que não metesse o país em mais um pântano de guerra dos EUA.

Carla del Ponte
Obama não ofereceu prova alguma de que o governo sírio foi responsável pelo mais recente ataque com armas químicas. Carla del Ponte, inspetora da ONU, disse claramente que os “rebeldes” apoiados pelos EUA já haviam sido responsáveis por outro ataque com armas químicas, anterior. Logo, se vale a culpa só presumida, normal seria culpar primeiro os “rebeldes”.

Apesar de outras nações terem imediatamente reconhecido no canto de guerra de Obama um plágio do que o presidente Bush já cantou e dançou para atacar o Iraque, porções significativas da opinião pública norte-americana deixaram-se seduzir pela cantoria melosa de Obama. O refrão tranquilizador que repete “ataque limitado”, que durará “horas, não dias”, teve efeito sedativo nos nervos de muitos norte-americanos, aos quais a imprensa-empresa só “informa” que a Síria precisaria só de umas palmadas porque se “comportou mal”; e, em seguida, tudo voltará ao normal. Nenhum soldado dos EUA morrerá. Coisinha pouca, praticamente nada.

Mas é claro que nenhuma ação militar dos EUA no Oriente Médio será jamais coisa pequena: sempre será ação gigante.

A cada nova guerra que os EUA inventam naquela região, as tensões sobem mais um pouco, aumentam os procedimentos de autodefesa, formam-se novas alianças locais para defender quem os EUA ataquem. Nações não alinhadas com a política externa dos EUA [leia-se: com as guerras dos EUA pelo planeta (NTs)] – e são muitas – estão desesperadas para conter a marcha sangrenta dos EUA pelo Oriente Médio. Os norte-americanos absolutamente não entendem o quanto a guerra do Iraque alterou fundamentalmente o Oriente Médio.

O governo dos EUA é profundamente odiado pela maioria da população naquela vasta porção do mundo por ter destruído o Iraque, que para muitos ali sempre foi uma orgulhosa nação árabe. Atacar outra nação no coração do Oriente Médio, com a qual milhões de árabes também se sentem profundamente ligados, gerará contrarreação massiva, gigantesca.

E nem importa o quanto o ataque seja “limitado”: bombardear nação estrangeira é ato de guerra.

Criminosos nazistas julgados em Nuremberg
(clique na imagem para aumentar)
Depois da 2ª-Guerra Mundial, o Tribunal de Nuremberg concluiu que o “supremo crime internacional” cometido pelos nazistas não foi o genocídio nem o holocausto: foi terem feito guerra de agressão, porque esse foi o crime essencial do qual derivaram todos os demais. É claro que os agressivos planos de guerra de Obama envolvem mais que lançar meia dúzia de mísseis contra alguns tanques sírios. Por isso, Obama moveu cinco destróieres da Marinha dos EUA para aquela região.

Também pela mesma razão, é claro – centenas de soldados das Forças Especiais dos EUA e “milícias treinadas” entraram na Síria dia 17/8 – como noticiou o jornal francês Le Figaro.

Destróier armado de mísseis movendo-se para a costa Síria
Especulou-se que a real intenção no ataque contra a Síria seria ampliar a ajuda que Obama tem dado as “rebeldes”, que vêm recebendo massiva ajuda norte-americana na forma de armas, treinamento e dinheiro, já – como noticiou o New York Times – há quase dois anos, mas provavelmente há mais tempo.

É fato que já não se discute que as milícias islâmicas extremistas são a força mais ativa e poderosa na oposição ao governo de Assad; se o governo for deposto, os extremistas islamistas estarão no poder.

Se for lançada campanha “limitada” agora, é absolutamente certo que, adiante, mais bombas norte-americanas virão, porque os extremistas apoiados pelos EUA precisarão de muito mais apoio para derrotar Assad. Para alterar o atual equilíbrio de forças entre os “rebeldes” de Obama já praticamente derrotados pelo exército sírio e o governo de Assad, será necessária campanha massiva de bombardeamento, semelhante à que se viu na Líbia.

Não se deve esquecer a cadeia de eventos na Líbia: depois que os “rebeldes” líbios apoiados pelos EUA começaram a ser derrotados, Obama serviu-se da “ingenuidade” da ONU e declarou que seria preciso “ação imediata” para evitar um massacre de milhares de líbios. A ONU estupidamente acreditou e aprovou uma resolução em termos vagos, sobre “responsabilidade de proteger civis”, [1] que Obama imediatamente usou como pretexto para furiosa guerra de agressão e “mudança de regime”: lançou milhares de bombas sobre a Líbia, com seus jatos bombardeiros que mataram indiscriminadamente militares e civis e destroçaram a nação líbia.

O excelente livro de Vijay Prashad Arab Spring, Lybian Winter, cobre em profundidade aquele conflito.

Vijay Prashad apresenta seu livro "Arab Spring, Lybian Winter"
Depois do exemplo líbio, a ONU ficou vacinada contra as mentiras de Obama. Por isso, a parte mais difícil, hoje, no processo de os EUA inventarem guerra contra a Síria, é começar a guerra.

Depois de começada a matança, só a lógica da própria guerra imperará, o que cria instantaneamente novas dinâmicas não previstas, quase infalivelmente na direção da expansão da guerra. É muito possível que esse traço “não previsto” da guerra seja, exatamente, o que Obama tem hoje em vista.

Por exemplo, qualquer analista militar que esteja em pleno gozo das faculdades mentais espera que a Síria defenda-se. E a Síria pode defender-se com mais eficácia que a Líbia ou o Iraque. O povo norte-americano não está preparado para a resistência dos sírios, porque, até agora, só foi “informado” de que a Síria aceitará submissa o “castigo”, talvez, no máximo com alguns “protestos”.

Mas a Síria tem sistemas avançados de armamentos, e será perfeitamente legal e razoável que o país agredido defenda-se – bombardeando, por exemplo, um destróier da Marinha dos EUA, ou, talvez, Israel – que seguramente estará envolvida, em algum nível, no assalto contra a Síria e, portanto, é alvo militar legítimo. E Israel já várias vezes bombardeou território sírio nos últimos seis meses.

Danos provocados pelo bombardeio de Israel em Dama, Síria (5/5/2013)
É possível que Obama esteja tentando provocar reação forte da Síria, o que dará aos EUA uma razão pública “real” para escalar a guerra. Qualquer ataque contra a Síria tem também a possibilidade de envolver o Irã no conflito, porque Irã e Síria têm entre eles um pacto de defesa mútua. E esse pode ser o objetivo “de fundo” de Obama: provocar o Irã para que se envolva militarmente, de modo que os EUA tenham afinal o pretexto de que precisam para expandir a guerra para o Irã, que há anos está na mira dos belicistas norte-americanos.

Se a pressão internacional e doméstica forçar Obama a limitar-se, de fato, a um ataque “simbólico” contra o qual a Síria não retalie, então a política exterior dos EUA terá sofrido humilhação histórica, mostrando à vista de todos o declínio do poderio norte-americano no mundo. Mas mesmo um ataque “cirúrgico” cria precedente muito perigoso, abrindo a porta para ataques mais amplos no futuro; esse precedente será inevitavelmente reaberto com qualquer ataque, mesmo “cirúrgico” no futuro próximo.

Um esforço de guerra fraco, dessa vez, tornará o governo Obama ainda mais faminto por guerras da próxima vez, porque nenhum império deixa-se simplesmente apagar da face da Terra sem arrastar na própria queda um oceano de sangue humano.

Barack Obama disfarçado de
Barack Obama!
Se Obama atacar a Síria agora, ouviremos menos mentiras do que quando Bush atacou o Iraque, porque Obama, Prêmio Nobel da Paz, teve a audácia de envenenar, com suas mentiras, o terreno no qual, 50 anos antes, na Marcha sobre Washington, em 1963, falava Martin Luther King, Jr. Ali Obama cantou loas ao grande pacificador, enquanto planejava sua guerra contra a Síria.

Obama já arruinou muito rapidamente sua credibilidade, à moda Bush. Meteu na prisão alertadores como Chelsea Manning – cujo único crime foi revelar crimes de guerra. Agora, prepara um crime de guerra ainda maior contra a Síria. Sua presidência consome-se em fogo e sangue com impressionante rapidez, num incêndio que pode arrastar o país inteiro.

No sábado, 31/8, fez-se um dia internacional de protesto contra a guerra à Síria.

Mais militantes antiguerra que se manifestem nos EUA talvez consigam afundar, sem nenhum tiro, o navio da guerra de Obama. 

[*] Shamus Cooke é trabalhador de Serviço Social, sindicalista e escritor ligado a Workers Action.



Nota dos tradutores

[1] Nesse debate, a presidenta Dilma Rousseff do Brasil, no discurso de abertura do Debate Geral da 66ª Assembleia Geral das Nações Unidas, dia 21/9/2011, em NY, falou de outro conceito, infinitamente mais importante: “a responsabilidade ao proteger”.
Esse conceito está hoje espantosamente apagado de todos os debates na imprensa-empresa no Brasil, dado que foi apagado na imprensa-empresa dos EUA, de onde tudo se copia no RIDÍCULO “jornalismo” brasileiro. A presidente Dilma disse, dentre outras coisas importantíssimas: 


O mundo sofre, hoje, as dolorosas consequências de intervenções que agravaram os conflitos, possibilitando a infiltração do terrorismo onde ele não existia, inaugurando novos ciclos de violência, multiplicando os números de vítimas civis. Muito se fala sobre a responsabilidade de proteger, pouco se fala sobre a responsabilidade ao proteger. São conceitos que precisamos amadurecer juntos.

domingo, 1 de setembro de 2013

Que vida dura, dos trilhonários do AIPAC!


Os judeus dos EUA empurram Obama para a guerra

1/9/2013, Andrey Melekhov, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Barack Obama, estafeta do AIPAC
A vida é coisa esquisita! Sobretudo se você é trilhonário norte-americano do Comitê EUA-Israel de Assuntos Públicos, American Israel Public Affairs Committee (AIPAC). Por um lado, você quer ficar cada vez mais rico. Por isso os EUA usam tão freneticamente as campanhas militares de curto prazo, sempre vitoriosas: para lembrar a todos quem é o patrão do mundo. E nesse campo, o capital reunido no AIPAC não se dá jamais por satisfeito: a super produção é proibida; o que eles produzem tem de ser consumido, para ser rapidamente reposto, vale dizer, armas e munição. São rápidos, por isso nos planos para consumir armas e munição redundante, além de fazer seu show pelo mundo, em regiões ricas em petróleo, gás e outros itens.

Meio sempre útil e à mão para consumir bombas e até caríssimos Tomahawks e fazer baixar os estoques no mundo é despejá-los sobre a cabeça de aborígenes tolos o suficiente para não ver quais são os interesses dos EUA.

Por outro lado, se você é norte-americano trilionário membro do AIPAC, você é obcecado defensor de Israel. (...)

Há aí um paradoxo: os israelenses dependem dos EUA, façam o que fizerem, mas todos os dias, e cada vez mais, vão-se tornando vítimas da ganância e das ambições de seus patrícios co-norte-americanos do AIPAC que consideram os EUA exclusivamente como instrumento do gerenciamento financeiro global. É o que os eventos na Síria comprovam.

A guerra no país vizinho já tem dois anos, mas nunca, até agora, ameaçou diretamente a segurança de Israel. Porém, no instante em que Washington tornou pública sua intenção de usar força militar e fazê-lo a favor (imaginem só!) dos arqui-inimigos de Israel – os islamistas – imediatamente os cidadãos israelenses, que têm lastimável experiência de outras aventuras dos EUA, puseram-se a comprar máscaras antigás e preparar abrigos antibombas e calafetar janelas e verificar o funcionamento dos sistemas de alarme para o caso de ataque químico.

O AIPAC diz que: “O estado judeu é nosso único aliado e o único país do mundo cujos cidadãos estão recebendo máscaras antigás em massa”. Quer dizer, todos têm de defender Israel. É fácil ver que o AIPAC está preocupadíssimo. Mas nenhum judeu israelense jamais teria de cheirar o perfume das especiarias asiáticas através dos filtros de uma máscara antigás, se os trilionários do AIPAC não metessem o nariz em tudo, pelo mundo, e se não usassem seus Tomahawk para meter-se em assuntos de outros países, fingindo que administram conflitos que eles mesmos provocaram.

O paradoxo mais espantoso nessas circunstâncias é que os israelenses sempre estiveram expostos, como agora estão, ao risco de se tornarem vítimas de armas químicas, caso aliados dos EUA – os islamistas – decidissem usá-las, como as usaram agora, recentemente. (Ninguém concebe que governantes sírios se exporiam ao risco de ter de encarar um tribunal internacional, acusados de crimes contra a humanidade).

Amos Yadlin
A situação não poderia ser mais favorável para os radicais islamistas que acorrem à Síria, respondendo à convocação dos EUA para defenderem “a democracia”. Quando tiverem lançado um ou dois ataques com gás sarin contra Israel, então terão criado, para o ocidente, o contexto indispensável para derrubar o governo legal da Síria, por ação militar. Simultaneamente, os mesmos islamistas radicais muito apreciarão assistir pela televisão aos israelenses, que eles odeiam figadalmente, nas vascas da morte...

Israel compreende isso? Que ninguém duvide: compreende perfeitamente. Os mais importantes especialistas do Instituto para Estudos de Segurança Nacional de Israel, Amos Yadlin e Avner Golov explicaram claramente, em artigo do dia 29/8/2012, intitulado “Intervenção Militar dos EUA na Síria: o interesse estratégico maior, por trás da ação punitiva” [orig. “US Military Intervention in Syria: The Broad Strategic Purpose, Beyond Punitive Action”, INSS Insight, n. 459, 29/8/2013:

O principal temor é que a ação norte-americana na Síria venha a ter consequências não esperadas que expandam o objetivo e a duração de uma operação militar. Por exemplo, qualquer operação militar contra Assad pode fortalecer as organizações jihadistas.

Avner Golov
Mas... vejam só! Os militares norte-americanos não fazem outra coisa, há dois anos, que repetir exatamente isso! Os militares norte-americanos têm alertado seguidas vezes sobre, precisamente, esse risco. [1] Além dos muitos alertas que vieram de países considerados os principais opositores ao modo como os EUA tentam implementar sua política para o Oriente Médio, Rússia e China. E de nada adiantaram tantos alertas.

Paira no ar uma impressão de que os que governam “a única potência global” são arrastados pelos próprios planos e não há o que os detenha. Não, pelo menos, com armas convencionais. Só a bomba atômica consegue impedir as agressões dos abutres norte-americanos. Por isso, precisamente, o programa nuclear iraniano tanto irrita Washington. E os trilhonários do esquizofrênico AIPAC, apesar dos temores hoje em Israel, continuam a empurrar Washington na direção do conflito armado. (...)

Assim, afinal, se pode começar a compreender melhor as declarações do AIPAC: querem atacar imediatamente a Síria, antes que o Irã construa capacidade nuclear. Seria uma lição para os persas: a tentativa síria de deter os EUA terminou como tudo termina(ria), em intervenção armada. Como se os EUA cogitassem de deixar em paz o Irã, se não construir capacidade nuclear. Aí está o exemplo do Iraque, que conta outra história.

O mundo caminha para o caos. A razão é o vai-e-vem na cabeça da elite que governa os EUA, que já começam a bater cabeça entre elas mesmas, na sanha de dominar o mundo.

Um dia, armam islamistas para derrotar a União Soviética no Afeganistão. Em seguida, são vistas em prantos sobre as ruínas das torres gêmeas destruídas por jihadistas em New York. Um dia, põem a Fraternidade Muçulmana na presidência do Egito. Em seguida o depõem, com a ajuda de um golpe militar. Agora, Washington provoca islamistas para que ataquem a Síria, sem saber, as próprias elites governantes norte-americanas, o que fazer se os seus novos “aliados” usarem o gás sarin que lhes chegou tão facilmente, para envenenar israelenses, europeus e os próprios norte-americanos.


Washington não entende que é a política imperial dos EUA que empurra as nações a procurarem meios possíveis para se autodefender, inclusive armas de destruição em massa?
Washington não entende que foi a política norte-americana que fuzilou o “reset” com os russos? Ou que as contradições entre China e EUA são exacerbadas pelas tentativas norte-americanas para converter competição econômica em ação militar e confronto político?

Os EUA forçam outras nações a entrar na corrida armamentista e unir esforços para manter à distância os enlouquecidos trilhonários norte-americanos-israelenses do AIPAC. Por quanto tempo mais sobreviverá a loucura geral? O que acontecerá se mais dia,menos dia, Washington pisar “a linha vermelha” da paciência do mundo, depois de ter atropelado todas as oportunidades diplomáticas?

Ainda não aconteceu. Com isso em mente, difícil resistir à tentação de dizer ao povo dos EUA: acordem, contenham, pelo menos, esse “Prêmio Nobel [Bomba!] da Paz” aí, de vocês! Será que já não têm aí problemas que chegue? Será que o presidente eleito de vocês nada tem com que se preocupar, das dificuldades dos norte-americanos, a ponto de só pensar e falar sobre o destino da “democracia” no Oriente Médio?

E se tanto só pensa nisso, como é possível que a melhor solução que achou, até agora, seja aliar-se à Al-Qaeda, à Fraternidade Muçulmana e a outros jihadistas mantidos e armados com dinheiro dos cidadãos contribuintes norte-americanos? Se os EUA não estiverem tentando abocanhar as riquezas do Irã, que diferença fará se o Irã for nuclear ou não? E Israel, se parar de roubar terras palestinas e de matar palestinos, talvez até ainda consiga viver lá mesmo, e em paz. Se Israel sente-se ameaçada hoje, quem a ameaça são os mesmos islamistas que o presidente Obama continua a alimentar e armar à custa do minguado Tesouro dos EUA, com a incansável ajuda dos trilhonários do AIPAC.

Acordem, povos dos EUA! Ainda não é tarde demais!



Nota dos tradutores

[1] Hoje, o movimento dos Veteranos da Inteligência em Defesa da Sanidade (orig. Veteran Intelligence Professionals for Sanity) enviou carta aberta ao general Martin Dempsey, comandante do Estado-Maior das Forças Conjuntas dos EUA, em que pedem que, se os EUA atacarem a Síria, contra todos os alertas que o general encaminhou a Washington sobre os riscos dessa ação militar, o general Dempsey alegue “impedimento de consciência” para continuar naquele comando, e renuncie.

Síria: Putin lança as pombas da paz

1/9/2013, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Vladimir Putin durante sua fala de hoje, 1/9/2013 em Vladivostok
O Kremlin acaba de distribuir o texto oficial da fala do presidente Vladimir Putin sobre a crise síria. Chama a atenção que Putin falou mais demoradamente e disse muito mais do que sugerem as matérias que os jornais estão distribuindo no ocidente; e, também, que falou sobre praticamente cada um dos muitos aspectos dessa situação explosiva.

Já não há dúvidas de que Putin soube colocar-se metro e meio acima de qualquer outro governante mundial, ao assumir resolutamente uma posição de princípios morais, dado o envolvimento da Rússia na Síria, dado o vasto conhecimento que os russos têm sobre a Síria e o Oriente Médio e dado o papel que a diplomacia russa assumiu, ao insistir em salvar as conversações de Genebra-2, apesar de todas as improbabilidades.

Barack Obama
Prêmio Nobel da Paz
A questão é saber até que ponto o presidente Obama foi influenciado pelo que disse Putin, no gesto de adiar sua decisão de lançar “ataque limitado” contra a Síria – adiamento que já se vê bem claro, no movimento de requerer aprovação do Congresso dos EUA, antes de atacar.

Fato interessante é que Putin falou de Vladivostok – quase um dia inteiro “antes” do horário de Washington.

Muita coisa depende dessa questão, porque o adiamento dificultou muito, para Obama, lançar o ataque. Antes de o Congresso dos EUA reunir-se, dia 9/9/2013, acontecerá a reunião do G-20, no qual os líderes mundiais discutirão, sem dúvida alguma, a crise síria.

A partir das indicações que se têm, os EUA estão muito isolados na opinião mundial, e Obama perceberá isso pessoalmente, no G-20. De fato, apesar da petulância de Obama ao não consultar Putin, o presidente russo revelou que discutirá a questão síria com Obama, quando se virem, em São Petersburgo, na próxima 5ª-feira [a menos, claro, que Obama se dedique a fugir de Putin, até na hora da fotografia (NTs)].

Vejamos o que Putin disse, nesse pronunciamento histórico, de Vladivostok:

A) Foi colhido de surpresa pela onda de recusa, na Europa, a aceitar tudo e qualquer coisa “de acordo com os desejos e as políticas” dos EUA. “Não esperava. Fui, de fato, colhido de surpresa por aquela reação dos europeus.” Putin observou que até a Grã-Bretanha “aliada geopolítica” dos EUA foi guiada por “interesses nacionais e senso comum” e considerações sobre a própria “soberania”. A Europa, afinal, começou a “analisar os eventos, extrair conclusões e agir de acordo com as próprias conclusões”.

B) Putin rejeitou cabalmente, como “absoluta sandice” a alegação de que o governo sírio seria responsável pelo ataque com armas químicas perto de Damasco, porque os ‘'rebeldes'’ já estavam sob pressão militar e não havia razão concebível pela qual o governo sírio ofereceria “um trunfo a quem está sempre clamando por intervenção militar estrangeira”.

C) Putin diz que a crise inteira é “uma provocação armada pelos que querem arrastar outros países para dentro do conflito sírio e querem o apoio de membros poderosos da comunidade internacional, especialmente o apoio dos EUA”. Deixou implícito que estados da região – Arábia Saudita e Turquia, em particular – tentaram arrastar os EUA para uma intervenção direta na Síria, o que o governo Obama recusou-se a fazer até agora, para grande tristeza dos “interessados”.

D) Putin pôs em dúvida a veracidade do que os EUA têm dito – e questionou a intenção por trás disso – que teriam “provas” da culpa do regime sírio. Desafiou o governo Obama a apresentar “provas”, e a deixar de recorrer ao álibi de que seria informação secreta.

E) Putin destacou que os EUA não têm “qualquer base a partir da qual possam tomar decisão tão fundamental”, de atacar a Síria.

F) Em variação notável, em homem cuja marca registrada é manter a política afastada das emoções, Putin dirigiu-se pessoalmente a Obama, para que corresponda às esperanças do mundo de que ele seja homem da paz – “Antes de tudo e principalmente, dirijo-me ao Sr. Obama não como meu colega, não como presidente e chefe de Estado, mas como homem que recebeu a honra de um Prêmio Nobel da Paz”.

G) Deixando de lado as polêmicas, Putin disse que atacar a Síria não é ato que sirva, sequer, a autointeresses dos EUA, porque esse ataque “agride todo o sistema internacional de segurança e viola os fundamentos da lei internacional”.

H) Putin conclamou Obama a pensar muito “antes de tomar decisões” e a “não ter pressa nessas coisas que podem gerar resultados completamente indesejados”.

I) Putin disse que vê o G20 como “uma boa plataforma” para discutir a crise síria, embora o grupo não seja “autoridade formal” ou “plataforma substituta” do Conselho de Segurança da ONU. Disse que espera discutir a Síria “num formato expandido”, com Obama, no G20, na próxima semana.

Reunião preparatória para Genebra-2 entre ONU-EUA-Rússia em 25/6/2013
Bem visivelmente, Putin ignorou todo o contexto do esfriamento nas relações EUA-Rússia e não mostrou ânimo de “aproveitar-se” do momento para “marcar pontos”.

Mas, é claro, Putin tem plena consciência de que é ele quem está em sincronia com a opinião mundial – incluída a opinião ocidental – sobre a questão síria, não Obama.

De fato, esse pronunciamento de Putin marca uma grande iniciativa diplomática do Kremlin, virtualmente às vésperas da reunião do G20, um importante apelo à razão e à contenção ante a situação na Síria. 

Evidentemente, Putin tem esperança de influenciar o cálculo de Obama e de conseguir mudar a tendência de seguir a via militar; e de, talvez, ressuscitar o processo de Genebra-2. É aposta muito ambiciosa, mas se alguém pode conseguir tudo isso, hoje, no cenário mundial, é Putin, e só ele. [1]

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Nota dos tradutores
[1] Leia também a transcrição completa da fala de Putin (em inglês).
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[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Irã, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu,Asia Times Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala

Os povos do mundo resistem

A Síria é o coração da resistência

31/8/2013, [*] Finian Cunningham, Information Clearing House
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O terrorista Barack Obama no salão oval da Casa Branca
Os EUA estão expostos aos olhos do mundo inteiro como a ameaça terrorista número 1 que pesa sobre o futuro da humanidade. Muitos sabem disso há muito tempo, mas agora já está universalmente claro.

Com os EUA preparando-se para lançar guerra aberta contra a Síria (a guerra clandestina já varre o país há 30 meses), a vasta maioria da humanidade pode afinal ver por através das décadas de falsidade e autopromoção como modelo mundial de democracia e da lei internacional. O que o mundo vê é o feio oposto disso tudo.

Os EUA são estado terrorista que tem o mais profundo desprezo pela lei internacional, a democracia e os direitos humanos. Está outra vez pronto a matar incontáveis civis em nome de suas ambições políticas egoístas e autocentradas. Essa é a definição convencionada de “terrorismo”.

Bashar al-Assad
O presidente Bashar al-Assad da Síria disse verdade profunda recentemente, quando disse que seu país enfrenta agressão por mais de dois anos, mas só agora o real inimigo mostrou a própria cara – os EUA e seus seguidores servis. Mas o estado terrorista dos EUA não se deixa ver afinal só contra a Síria. Está-se revelando como inimigo do mundo todo.

Desde as guerras passadas no Caribe, América Central, Filipinas, Vietnã e Indochina, mediante golpes e operações clandestinas no Irã, Iraque, África, aos recentes campos de matança no Afeganistão, Iêmen, Paquistão e Somália, o quadro histórico agora está completo. Todos esses conflitos e muitos outros – numerosos demais para listar aqui – integram-se numa só verdade indiscutível. Os EUA são o maior estado terrorista do mundo. Se não for contestado definitivamente, então o futuro do mundo está hoje em perigo, mais do que nunca.

Em crimes de agressão anteriores, a elite governante dos EUA podia invocar a cobertura espúria de uma “coalizão de vontades”, ou violentava a autoridade da ONU ou da OTAN. Conseguia seus objetivos mediante uso abundante de mentiras, invencionices e de uma gigantesca máquina de imprensa-empresa para dar credibilidade à mendacidade.

John Kerry
Dessa vez, graças a uma imprensa alternativa e crítica e às comunicações globais instantâneas, as mentiras norte-americanas já não funcionaram. Foram expostos em apenas alguns dias, como foi exposta também, nas últimas poucas horas a tentativa do secretário de Estado Kerry de envolver a Síria no crime das armas químicas.

New York Times, a BBC e os falastrões de sempre na imprensa-empresa ocidental a serviço da propaganda imperialista cuidaram de facilitar o golpe de Kerry e o terrorismo de estado dos EUA com manchetes bombásticas: “Kerry apresenta provas contra a Síria”. Nenhuma crítica, nenhuma pergunta, por mais que tantos tivessem tantas críticas e tantas perguntas, com muita substância.

Há alguns anos, esse tipo de pensamento de manada teria bastado para dar aos cães de guerra norte-americanos tempo suficiente para iniciar uma guerra. Hoje, não mais. Em apenas alguns minutos depois da suposta condenação definitiva inventada por Kerry, declarações, artigos, tweets e blogs já haviam desmascarado a encenação e mostravam que, exceto pela repercussão na mídia ocidental, Kerry nada tinha a dizer e nada dizia, que se aproveitasse. Mais uma risível repetição das hipérboles de antes e retórica oca. Ou, pelo nome que merece: só mais mentiras.

O povo do mundo já alcançou nível de massa crítica de rejeição contra os estados bandidos de EUA, Grã-Bretanha, França, Israel e mais alguns cúmplices.


Vimos seus intermináveis assassinatos em massa e exploração de homens e mulheres na Ásia, África e nas Américas. Somos testemunhas de como esse mínimo grupo de estados terroristas impõem à vasta maioria da humanidade sua criminalidade vil e no processo nos insultam com mentiras e justificativas grotescas. 

Vimos como esses estados bandidos roubaram terras, envenenaram águas, queimaram colheitas, destruíram moradias, assassinaram famílias inteiras com drones aéreos e drones em terra, na forma de esquadrões da morte. Cometeram todos esses crimes horríveis com mentiras e impunidade, a ponto de esses estados terroristas já operarem agora simultaneamente em mais de um país, em estado de guerra permanente e ininterrupta, levando o próprio futuro da humanidade à beira do abismo.

David Cameron
Domkey Hotey
Pois ainda assim, apesar do gangsterismo e de não haver lei que os proteja, os povos do mundo levantam-se e resistem.

Essa semana, o Parlamento britânico votou contra a arrogância do governo de Londres e não lhe permitiu continuar na relação criminosa de sempre com os norte-americanos. Na execução de crimes de guerra passados, no Afeganistão, Iraque e Líbia – para citar só esses – Washington sempre contou com os imperialistas britânicos para dar aos seus crimes um verniz de “coalizão de vontades”. Os planos do premiê britânico David Cameron de repetir o crime e apoiar Washington no bombardeio à Síria sofreram duro revés do Parlamento britânico, que não o autorizou a fazer o que tantas vezes antes os britânicos fizeram. Cameron foi forçado a recuar.

A votação no Parlamento britânico não é sinal de ética dos políticos britânicos. É, muito mais, reflexo do despertar global dos cidadãos do mundo, que afinal decidem que esse terrorismo de estado insano tem de acabar.

François Hollande
Domkey Hotey
O governo francês também recuou das bravatas belicistas de antes, e o presidente François Hollande já fala também de “solução pacífica, política, para a crise síria”. Até o primeiro-ministro fantoche, Stephen Harper, do Canadá, aliado sempre confiável de Washington, já disse que seu país não se envolverá militarmente na Síria. E há notícias de que 10 membros da aliança da OTAN – um terço do total – não apoiarão os ataques dos norte-americanos. Vários desses sempre foram tradicionais serviçais dos EUA. E, isso, sem falar dos opositores mais estridentes, como Rússia, China, Irã e a maioria das nações de Ásia, África e das Américas.

Os povos do mundo fartaram-se de assistir à elite ocidental reinante que age como terroristas que capturaram toda a humanidade como seus reféns. Essa elite não governa só o terrorismo militarista. Eles praticam terrorismo econômico, social, ecológico, com seu sistema capitalista arruinado de roubar e correr. Esse sistema alcançou seu ponto de colapso e por isso nós estamos sendo empurrados para tantas guerras – para que aquelas elites e seus fantoches políticos possam se apropriar dos últimos recursos. A solução que resta para pôr fim às guerras, é o povo derrubar o sistema econômico que os EUA e a elite ocidental ainda comandam.

Chuck Hagel
A criminalidade insana dos governantes dos EUA contra a Síria está deixando aí, à vista de todos, esse desafio histórico que toda a humanidade terá de enfrentar.
Depois da derrota parlamentar do governo Cameron na Grã-Bretanha, o secretário de Defesa dos EUA, Chuck Hagel, disse que

Nossa abordagem é continuar a buscar uma coalizão internacional que agirá em conjunto. É o objetivo do presidente Obama e de nosso governo... Seja qual for a decisão, que seja colaboração e esforço internacional.

Quase nem se acredita que esses fantoches norte-americanos possam soar tão ridículos! Esses norte-americanos iludidos parecem não estar vendo que estão sós.

As únicas “vontades” interessadas em apoiar a agressão dos EUA à Síria são Arábia Saudita e Israel. Só isso. Washington só conta hoje com as “vontades” de um regime feudal, de degoladores, e de um regime criminoso genocida pária.

Coalizão de vontades? Parece mais coalizão de assassinos.
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[*] Finian Cunningham nasceu Belfast, Irlanda do Norte, em 1963. Especialista em política internacional. Autor de artigos para várias publicações e comentarista de mídia. Recentemente foi expulso do Bahrain (em 6/2011) por seu jornalismo crítico no qual destacou as violações dos direitos humanos por parte do regime barahini apoiado pelo Ocidente. É pós-graduado com mestrado em Química Agrícola e trabalhou como editor científico da Royal Society of Chemistry, Cambridge, Inglaterra, antes de seguir carreira no jornalismo. Também é músico e compositor. Por muitos anos, trabalhou como editor e articulista nos meios de comunicação tradicionais, incluindo os jornais Irish Times e The Independent. Atualmente está baseado na África Oriental, onde escreve um livro sobre o Bahrain e a Primavera Árabe. Anima um programa semanal de variedades aos domingos, às 03:00 GMT na Rádio Bandung.