quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Síria: Planos da Turquia e outros pensamentos confusos

1/10/2014, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Parlamento da Turquia
Sob pressão dos EUA, o Parlamento turco votará amanhã a integração do país à “coalizão” contra o Estado Islâmico. Mas será só disfarce. O verdadeiro objetivo do presidente Erdogan da Turquia é instalar regime fantoche islamista em Damasco. Eis o preço que está cobrando em troca de:

A Turquia não permitirá que membros da coalizão usem suas bases militares ou seu território na luta contra o Estado Islâmico no Iraque e Levante (ISIL), se o objetivo não incluir a derrubada do regime de Bashar al-Assad – foi o que sugeriu o presidente Recep Tayyip Erdoğan, hoje, 1/10/2014.

A Turquia de Erdogan está cooperando com o ISIL, em parte por razões ideológicas, em parte por medo de que os combatentes do ISIL na Turquia comecem a atacar dentro do país.

Erdogan está agora planejando alguma espécie de área de fronteira controlada pelos turcos na Síria, onde ele possa treinar forças anti-Síria e continuar a negociar com o Estado Islâmico longe dos olhares de observadores interessados. O mais provável falso pretexto para uma invasão turca à Síria será um túmulo que está sob proteção dos turcos, que esteve cercado por algum tempo, mas jamais foi atacado, por combatentes do ISIL:

Yeni Safak, jornal pró-governo, disse que algo como 1.100 combatentes doISIL que agora controlam mais de 1/3 do Iraque e 1/3 da Síria, estão agora em torno do santuário de Suleyman Shah, avô do fundador do Império Otomano. [...] A Turquia mantém uma guarda de honra e um destacamento de 36 soldados para proteger o túmulo, localizado a 24 km da fronteira, em território sírio.

Santuário de Suleyman Shah (Vista aérea)
Outra razão para ocupar área de fronteira dentro da Síria são as áreas controladas pelos curdos na Síria governadas pelo [partido] YPG, organização gêmea do [partido] PKK curdo, que luta por direitos para os curdos dentro da Turquia. A área em torno de Kobane está sendo agora atacada pelo Estado Islâmico, e nem Turquia nem os EUA estão fazendo coisa alguma para impedir a tomada da cidade:

Em dias recentes, o Estado Islâmico tem avançado, e a coalizão dos EUA, sem dúvida paralisada pelos medos turcos de que o YPG esteja aliado aos curdos separatistas insurgentes turcos, não veio em socorro do YPG. Quando os curdos turcos tentaram mandar combatentes para lá, foram detidos pelo governo turco que usou gás lacrimogêneo. Ontem, 3ª-feira (30/9/2014), não se via sinais de mais voluntários e nenhum dos cerca de duas dúzias de residentes que voltaram às suas casas em Kobane declararam qualquer interesse em unir-se à milícia; em torno dos que fugiram a atmosfera era de total desesperança.

Kobane, na fronteira Turquia-Síria
A Rússia alertou a Turquia para que não prosseguisse com esses planos. Moscou com certeza tem planos de contingência para ampliar o apoio à Síria, caso EUA ou Turquia ataquem o governo sírio.

Durante a semana passada, o Estado Islâmico retirou parte de seus combatentes do entorno de Damasco. Com isso, o exército sírio conseguiu ampliar a zona de proteção em torno da cidade. Mas da outra vez em que o Estado Islâmico recuou, daquela vez no noroeste da Síria, a planejada retirada foi seguida pelo grande ataque contra Mosul. A atual retirada dos arredores de Damasco é, provavelmente, preparação para outro grande ataque contra alvo maior ainda não conhecido.

A ação dos EUA contra o Estado Islâmico parece não seguir nenhuma concepção estratégica. Não tem a ver só com pouca inteligência sobre os alvos que ataca; também tem a ver com a nenhuma importância atribuída a baixas civis; é absolutamente impressionante. Se isso continuar, os EUA acabarão por ser o “lado” que todos os demais “lados” do conflito odeiam.

Siriaque - mapa da situação em campo (23/9/2014)
O pensamento confuso não acomete só a Casa Branca. Ao longo dos três últimos anos o jornalista David Ignatius do Washington Post fez propaganda a favor de uma “oposição moderada” unida na Síria. É o unicórnio cor-de-rosa: ainda ninguém viu. Pois hoje ele apareceu com uma nova grande ideia de como alcançar aquele seu velho objetivo – “bombardear mais cristãos e mais civis”:

Se os ataques dos EUA e outros apoiadores são vistos como ataques exclusivamente contra combatentes muçulmanos, e se fortalecerem o desprezado Assad, essa estratégia para criar uma “oposição moderada” provavelmente falhará.
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[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como “Whisky Bar”ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ouvir versão em performance de Tim van Broekhuizen.


quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Luta pelo Iraque: Saqlawiyah mostra tudo!

30/9/2014, Análise rápida, Mindfriedo, The Vineyard of the Saker –
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Nota da redecastorphoto: Através desta (e de outras não traduzidas) análises de campo fica mais que óbvio que os bombardeios dos EUA destinam-se muito mais a destruir a infra estrutura civil e militar do Iraque e da Síria do que atingir o ISIL (seus verdadeiros aliados e cúmplices). A segunda intenção é “evidenciar” a “necessidade” de “coturnos no solo” (dos EUA) e trazer mais mortes e desgraças como fazem em suas invasões mundo afora, afrontando a Carta da ONU e o Direito Internacional.
A comportamento mostrado pela “coalizão de vontades” (EUA mais ditaduras árabes, “poodles” europeus e Turquia) evidenciam que os verdadeiros alvos dos EUA−União Europeia−OTAN são: degradação completa e “mudança de regime” na Síria; destruição e balcanização completa do Iraque; futura “mudança de regime” no Irã. Não podemos esquecer que o Líbano (e o Hezbollah) também está sendo atacado pelo ISIL com a valiosa colaboração do estado genocida de Israel.

The Saker
Aqui se lê uma lista em ordem cronológica de eventos ocorridos entre meados e o fim de setembro, na base de Saqlawiyah do Exército do Iraque (Saqlawiyah localiza-se ao norte de Fallujah).

●– ISIL e combatentes sunitas seus aliados tomaram algumas poucas vilas ao norte de Fallujah;

●– Uma das cidades tomadas foi Sijir, próxima da Base Militar de Saqlawiyah;

●– O Exército do Iraque mandou 400 homens da 3ª Brigada, uma unidade de elite da SWAT, e membros da Ashaib Ahl Al Haq (Liga dos Honrados) para desocupar Sijir.

●– Forte resistência pelo ISIL obrigou os soldados a retornar à base de Saqlawiyah; há ali agora de 800 a mil homens naquela base, já quase sem suprimentos, comida e munição.

●– O ISIL captura áreas em torno da base e bloqueia a única estrada que a conecta a Saqlawiyah e começa a cercar a base. Dizem que o ataque contra a cidade foi uma armadilha preparada para o exército iraquiano e “imundície safavida” [termo ofensivo para designar os xiitas].

●– O ISIL começa a usar alto-falantes, dizendo às tropas que se rendam.

●– Uma unidade de tanques vem de Ramadi, avança para o norte e tenta romper o cerco. Os tanques avançam por um pedaço de estrada minada com explosivos improvisados, mas consegue chegar a 400 metros da base.

ISIL cercou a base de Saqlawiyah (23/9/2014)
●– Os soldados sitiados tentam aproximar-se dos tanques, mas são forçados a retroceder, pelo ISIL, que se serve de suicidas-bomba e assaltos pesados. Os soldados são forçados a voltar à base, e a coluna de tanques retrocede sobre os cadáveres dos soldados.

●– Os soldados sitiados na base fazem pedidos desesperados aos comandantes militares, que prometem ajuda e reforço aéreo, mas nada acontece. Comandantes referem-se aos pedidos repetidos feitos pelos soldados, como desnecessárias “lamúrias”, ante os ataques.

●– Militantes do ISIL vestidos com uniformes do Exército do Iraque avançam em veículos blindados, num ataque de suicidas-bomba. Os soldados que guardavam a base, ao que se sabe, abriram os portões, supondo que os blindados trouxessem suprimentos. Acontecem ataques-suicidas enormes, seguidos de pesadas emboscadas. O ISIL está controlando a base e, pelo que se sabe, restam bem poucos soldados.

●– Relatórios contraditórios sugerem que as baixas estão entre 50 (informe do governo, nada confiável) e 600; e que 200 soldados conseguiram fugir. Os soldados fugitivos passam fome já há quatro dias e estão bebendo água salgada para sobreviver; não conseguem correr.

●– O ISIL faz desfilar 30 homens vestidos em uniformes do Exército Iraquiano em Fallujah e distribui a seguinte declaração:

Com nossa fé posta em Alá, e considerados os meios e capacidades disponíveis, e por ordem do Ministério da Guerra, a Província de al-Fallujah mobilizou todos os seus destacamentos militares, defesa aérea, apoio e destacamentos de ataques aéreos, e depois de planejados e definidos os alvos, os destacamentos lançaram-se sobre os seus objetivos, que é de libertar a área de al-Sijir da imundície dos safavidas [termo ofensivo para designar os xiitas], como um primeiro passo para cercar o quartel-general da Brigada 30, localizado entre a área de al-Sijir e o subdistrito de al-Saqlawiyah.

●– O ISIL diz que matou 300 soldados iraquianos, capturou dois tanques M1A1 Abrams e um tanque russo, além de outros equipamentos saqueados da base.

●– Abadi ordena um inquérito e anuncia-se que os comandantes do Exército e da Força Aérea iraquianos são suspensos, mas os deputados no Parlamento exigem que sejam indiciados e submetidos a julgamento; e dizem que Saqlawiyah é a segunda Spyker [1] no Iraque.

●– O governo está dizendo que o ISIL usou gás venenoso e usa esse argumento para explicar por que a base caiu.

Turcos dizem que o ISIL se droga para combater
Eis algumas perguntas suscitadas pelos eventos acima listados:

1) Por que o Apoio Aéreo não apareceu nem chegaram os ressuprimentos por paraquedas ou helicópteros?
Ao longo de todo o conflito, o que se sabe é que os comandantes iraquianos têm ignorado pedidos para ressuprimento e apoio aéreo e – o que é mais chocante – sempre dão falsas esperanças aos soldados, sugerindo que a base teria recebido ressuprimento, quando nada receberam. As relações azedadas entre os comandantes de Maliki e o desejo de Abadi de substituí-los têm sido citadas também como outra desculpa para o fiasco.

2) Onde, afinal, estão caindo as bombas dos ataques aéreos dos EUA?!

Se o ISIL estava mandando número tão alto de militantes combatentes para o norte, por que os EUA não miraram os seus ataques aéreos contra eles? Ou por que não atacaram os homens do ISIL que estavam sitiando a base de Saqlawiyah?

Combatentes iazidis também reclamaram que os EUA não atacaram o armamento pesado do ISIL em Sinjar quando os iazidis estavam em luta contra eles, sequer depois que os iazidis indicaram (pintados) alvos para os norte-americanos. Os iazidis foram forçados à retirada quando ficaram sem munição, em luta que, se os planos fossem cumpridos, seria fácil vencer.

Também é muito eloquente o comportamento de soldados turcos, que impedem os curdos sírios de cruzar a fronteira para ajudar outros curdos a dar combate ao ISIL em Kobane. Assim também, os ataques norte-americanos longe de Kobane não conseguiram impedir o avanço do ISIL. Tudo isso fede a [criar a necessidade de] “coturnos em solo”.

Tropas turcas impedem curdos de combater  ISIL
3) Onde estão, em tudo isso, as tribos sunitas?

Até agora, aquelas tribos sunitas que não apoiam o ISIL ainda não se decidiram a apoiar o governo. As razões que apresentaram são que continuam os ataques indiscriminados de artilharia contra áreas sunitas populosas (Fallujah, Ramadi) e a detenção de alto número de homens sunitas. Outra razão pode ser que aquelas tribos ainda tenham dúvidas de que o governo consiga vencer a guerra ou impor-se nos territórios tomados.

4) Efetividade das milícias?

As milícias impediram a queda de Bagdá e detiveram o avanço do ISIL. Mas ainda têm longo caminho a percorrer, e podem vir a revelar-se inúteis nas áreas onde dominam os sunitas.

Os figurões da Liga dos Honrados [orig. Ashab Ahl al Haq] ficarão furiosos por seus homens terem sido sacrificados na base Saqlawiyah, e exigirão respostas, se não sangue, da liderança político-militar do Iraque.

Os líderes militares do Iraque, politicamente selecionados, mostraram pouco ou quase nenhum zelo ou cuidado pelos próprios homens e soldados. Talvez sejam mais perigosos que o ISIL.

Post Sciptum: (5ª pergunta, oferecida nos “Comentários” a esse postado:)

Michael Collins escreveu...

Grande postado! As perguntas vão direto ao alvo. Aí vai mais uma:

●– Se o Exército Sírio Árabe derrota os “rebeldes” em praticamente todos os confrontos (inclusive o ataque vindo da Jordânia que foi completamente esmagado), por que os EUA e sócios só têm impacto zero no avanço do ISIL?!




Nota dos tradutores
[1] O ISIS distribuiu vídeos em que mostra um massacre, no qual são executados soldados iraquianos capturados na base militar de Spyker, em Tikrit. Os vídeos circularam pelas mídias sociais, com notícias de que 1.700 pessoas teriam sido mortas, inclusive estudantes e funcionários da segurança (24/9/2014, Aydinlik em: “ISIS Chemical Attack in Iraq Kills Hundreds”. [aqui traduzido].

A política de poder da expansão do capitalismo


29/9/2014, [*] Norman Pollack, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O rótulo da KGB tem alto valor propagandístico na campanha de demonização de Putin, mas não há registro de que Putin algum dia tenha pessoalmente “ticado nome-sim nome-não”, numa lista de gente a ser assassinada por drones e ataques aéreos, como faz Obama em seu mundo cercado por bases militares.

E a KGB seria, por acaso, talvez, mais repressiva e mais assassina que a CIA ou Forças Especiais dos EUA, quando promovem “mudança de regime”? Ou mais invasiva, contra a privacidade dos cidadãos, que os programas de vigilância em massa da Agência de Segurança Nacional de Obama?

Vladimir Putin, segundo a imprensa-empresa "ocidental"
Vale tudo, para demonizar Putin, mesmo se, como hoje, a acusação é que ele viveria cercado de oligarcas – o que é muito mais a própria cara dos EUA, se se olhasse no espelho. Não preciso nem quero discutir ou explicar os negócios da plutocracia local que modelaram a economia russa pós-soviética. Sinceramente, a visão distópica de Jeffrey Sachs, que manda rasgar o socialismo em farrapos, é pior que só ideia infeliz; a aceitação operacional que essa visão recebe na Rússia é trair um Mundo Socialista que, depois da morte de Stálin, poderia ter feito avançar a democratização de largas porções da economia política internacional e mordido porção considerável do poder e do desempenho econômico dos EUA. Em vez disso, parece estar acontecendo o exato inverso.

Agora a Rússia, depois, sem demora a China, entram na alça de mira para serem politicamente enfraquecidas e na sequência politicamente desmembradas e/ou empurradas para o retrocesso econômico, porque a militarização pelos EUA do capital monopolista não tolerará oposição em sua estrutura recém definida de rivalidades intracapitalistas.

Putin e Li romperam a conexão histórica com Marx. Por isso eu, valha o que valer, quero se que veja em Rússia e China versão abastardada do capitalismo de Estado, não alguma espécie de clara opção pelo socialismo democrático. Os bilionários, os palácios de veraneio na Côte d’Azur, os condomínios que são cidades completamente privatizadas na Belgravia, arrastam aqueles países para o nível mais norte-americano de consumismo e desigualdade estrutural.

Mesmo assim, enfatizo aqui a Rússia, porque há uma diferença: Putin não saiu por aí armado para conquistar o mundo; uma Rússia estável numa ordem internacional igualmente estável parece bastar, e mantém dentro de limites estreitos quaisquer aspirações à hegemonia, se houver.

Com Putin, nada há da retórica grandiloquente de Obama sobre salvar o mundo para a liberdade e a democracia; nada de orçamento militar que estrangula a sobrevivência do país e que, parece que por projeto, já destruiu a rede de proteção social; e nada, tampouco, com Putin, da expansão drástica da modernização nuclear, para tornar letal todo o estoque de armas e aperfeiçoar os meios para transporte e detonação das armas. Putin é líder mundial muito mais circunspecto que Obama e seus predecessores.

O rótulo da KGB tem alto valor propagandístico na campanha de demonização de Putin, mas não há registro de que Putin algum dia tenha pessoalmente “ticado nome-sim nome-não”, numa lista de gente a ser assassinada por drones e ataques aéreos, como no mundo cercado por bases militares em que reina Obama.

E a KGB seria, por acaso, talvez, mais repressiva e mais assassina que a CIA ou Forças Especiais dos EUA, promovendo mudança de regime? Ou mais invasiva, contra a privacidade dos cidadãos, que os programas de vigilância em massa da Agência de Segurança Nacional de Obama?

Vladimir Putin - agente da KGB
Mas, sim, oligarcas são detestáveis, não importa a nacionalidade. E o The New York Times publicou artigo assinado por Steven Lee Myers, Jo Becker e Jim Yardley, intitulado “Bancos Privados Alimentam Fortunas no Círculo Íntimo de Putin”  (ing., 28/9/2014), que lança luz sobre a ascensão de Putin ao poder e – embora os EUA insistam em ignorar o assunto e não se veja nenhuma referência ao tema na imprensa-empresa de “informação” − mesmo que seja item que muito contribuiria para demonizar Putin – lança luz também sobre os custos sociais destrutivos da PRIVATIZAÇÃO de recursos do Estado.

Quando a Rússia põe-se sistematicamente a seguir os EUA, causa dano grave ao próprio potencial e realidade humanista. Paradoxalmente, a Velha Guerra Fria refletia diferenças ideológicas; mas a Nova Guerra Fria está parcialmente apagando aquelas diferenças, embora, sim, esteja subindo as apostas, porque dentro do capitalismo esconde-se hoje besta muito mais feroz do que a que se conhecia antes de 1917 e da Revolução Bolchevique: a da competição sem trégua pela supremacia planetária.

De diferente hoje, também, que a Rússia não dá sinais de estar disposta, no governo de Putin, a entrar no jogo; como se invertesse, para parafrasear, o mote de Stálin: “capitalismo num só país”. Quanto a Obama, por que parar às portas da Rússia?

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A matéria do NYT  “denuncia” a ação do Bank Rossiya que teria apoiado Putin e agora recebeu sanções dos EUA. A matéria não é importante [mais do mesmo incansável “denuncismo” de um tipo de jornalismo que visaria a construir mercados & consumidores “éticos” (NTs)], nem confiável. [Interessantes, só, os comentários de Pollack (NTs)].

Obama é mais capitalista, que nacionalista: quando favorece JPMorgan, Chase, Boeing, etc., não mistura, embora possa deliberadamente jogar um/uma contra o/a outro/a, o banco, o banqueiro ou a empresa, e a nação. Porque a nação, para Obama, é secundária ante os interesses dos grupos que o apoiam (razão pela qual as comunidades militar e de inteligência são consideradas ferramentas indispensáveis).  

[E, adiante:] Mas os jornalistas do NYT não informam que várias das tais atividades pouco recomendáveis no Banco Rossiya aconteceram em abril, depois de as sanções já terem sido declaradas; o banco reagiu contra o regime de sanções, muito mais do que “recompensou empresários amigos”. Seja como for, o Bank Rossiya – se se desconta a retórica incendiária dos jornalistas – contribuiu para converter em bilionários “vários apoiadores de Putin, cuja influência sobre setores estratégicos da economia auxiliaram Putin a manter-se firmemente agarrado ao poder”. Parece ser verdade que, sim, a amizade com Putin alterou a distribuição da riqueza, mesmo que Putin, pessoalmente, não se tenha beneficiado.

Bank Rossiya
Como paradigma do desenvolvimento capitalista, porém, lá está a transformação, de socialismo burocrático para capitalismo de Estado, com ou sem o papel de vanguarda entregue ao círculo presumido íntimo de Putin. (Bem provavelmente, o mesmo conjunto geral de dinâmicas históricas também se aplica à China, de Mao a Li; mas o capitalismo clientelista parece estar mais claramente identificado na China que na Rússia).

Se a Rússia tivesse conseguido fazer uma transformação pacífica depois do fim da União Soviética, em mundo no qual o capitalismo não tivesse sido veículo para dominação internacional, talvez – só talvez! – o resultado poderia ter sido uma economia mais genuinamente mista, depilada de bilionários e de favoritos do governo.

Não aconteceu. Na matéria do NYT [se se varrem os não-ditos e subentendidos de propaganda], os jornalistas acertam, no essencial geral, quando escrevem que:

Putin chegou ao poder prometendo eliminar, “como classe”, os oligarcas que haviam acumulado fortunas descomunais – e, para o modo de pensar do novo presidente, excessiva parcela de poder político – durante o governo do predecessor de Putin, Boris N. Yeltsin, no caos pós-comunista dos anos 1990s. Em vez disso, o que se viu foi o surgimento de uma nova classe de magnatas, homens de sombrias origens soviéticas que devem a Putin a vasta riqueza que acumularam e que, em troca, lhe garantem total fidelidade política.

Lamentavelmente, bancos sempre serão bancos. O Bank Rossiya (como disse Willie Sutton: “roubo bancos porque é lá que está o dinheiro”), é resultado do talento para o empreendedorismo, de gente como Yuri Kovalchuk, presidente e maior acionista, “físico por formação acadêmica, às vezes chamado “o Rupert Murdoch da Rússia”, pelo papel que teve na coordenação e arquitetura dos interesses do seu banco, na “mídia'’. Recorre também a “sombrias estruturas corporativas”, como empresas em paraísos fiscais, como as Ilhas Virgem britânicas. Quanto aos acionistas, foi gratificante ver na lista o nome de Sergei Roldugin, violoncelista que usou seu investimento no banco para converter um palácio do século XIX em São Petersburgo, em “casa da música e academia para formação de músicos clássicos” (o exemplo-propaganda vai aqui, grátis).

Não se discute o clientelismo – o NYT cita vários exemplos, além de enorme quantidade de oligarcas conhecidos associados ao banco. “Conexões de negócios”, escrevem os jornalistas do NYT, “tornaram-se conexões profundamente pessoais” [também com] “Putin, que, com sete empresários, muitos dos quais acionistas do Bank Rossiya, formaram [em 1996, o que os jornalistas não esclarecem], uma cooperativa de casas de verão, dachas, chamada Ozero [“lago”], no nordeste de São Petersburgo”.  

Dashas Ozero, S. Petersburgo (Google Earth)
(clique na imagem para aumentar)
Mas... e tudo isso será, como esbravejam os críticos, “cleptocracia legalizada”? A discussão seria longa e desinteressante e inconclusiva. Para reduzir ao que importa, basta dizer que o fator pessoal aparece bem separado das considerações de Estado, na cabeça de Putin.

Um daqueles oligarcas, Gennady Timchenko, que negocia petróleo e investe no Bank Rossiya (e que está hoje sob sanções impostas pelos EUA), explicou que:

(...) nunca lhe ocorreria questionar o presidente da Rússia sobre suas políticas na Ucrânia, fosse qual fosse o custo delas para empresas como as suas. “Seria impossível”, disse ele ao NYT, referindo-se ao presidente da Rússia formalmente pelo primeiro nome e nome do pai. Vladimir Vladimirovich age com vistas a defender os interesses da Rússia, sempre, em qualquer situação. Ponto. Parágrafo. Não faz concessões. Nem jamais passaria por nossa “cabeça discutir essas coisas”.

Essa fala é extremamente importante.

O capitalismo de estado não é necessariamente a interpenetração de empreendimentos, empresas, empresários e governo, que tantas vezes apresentei em artigos para CounterPunch em que examinava as dinâmicas estruturais que estão levando os EUA para a fase fascista do capitalismo avançado.

Ainda que Vladimir Vladimirovich não seja exatamente Tolstoy reencarnado, mesmo assim vê-se, em Putin, que o capitalismo na Rússia é mais russo, que nua-e-cruamente capitalista.

Os EUA sempre foram e permanecem puristamente capitalistas, impondo as mais repressivas políticas domésticas (vigilância massiva, clima de hostilidade contra os trabalhadores, o trabalhismo e o trabalho, vasta disparidade na distribuição da riqueza) e também as mais violentas políticas externas (guerra, intervenção, luta pela hegemonia) para tentar dar sustentabilidade ao capitalismo purista dos EUA. Essa é diferença muito grande entre Rússia e EUA, com os EUA declarando intolerável que a Rússia, talvez hoje ainda mais que sob a forma soviética, coloque outros fatores acima e por cima do capitalismo como os EUA o praticam: como sistema integralmente agressivo-expansivo, sem parar ante nenhum obstáculo em seu avanço global.

Foi fácil opor-se e condenar o socialismo. É menos fácil opor-se e condenar essa formação política nacionalista-capitalista que se vê hoje na Rússia de Putin, porque a simples existência dessa formação dentro do capitalismo já obriga a ver outras potencialidades, dentre as quais, que, mesmo no capitalismo, há meios para garantir melhor atenção e melhores condições de vida para os próprios cidadãos, do que o que se vê hoje nos EUA.


Oligarcas do círculo íntimo de Putin
(print screen recortado do NYTimes)

Na sequência, reproduzo meu “Comentário” ao artigo do NYT, mesma data:

Excelente documentação. Mas análise efetivamente e realmente comparativa mostra o quê? Que o capitalismo de empresários-cupinchas (oficialmente chamado “capitalismo clientelista”) está vivo e em ótimas condições tanto na Rússia como no Ocidente. Criticar o ocidente pelos mesmos mal-feitos soa estranho, porque os mesmos pressupostos valem igualmente para EUA e Rússia. Os EUA vivem hoje a fingir as mesmas puras convicções de algum anticomunismo, como na Primeira Guerra Fria (não há como negar que já estamos na Segunda), quando, na verdade os EUA invejam muito o sucesso capitalista da Rússia.

Os EUA atacam Putin como a raposa ataca uvas que não pode alcançar. O que foi o ‘resgate’ dos bancos norte-americanos “grandes demais para quebrar”, se não o capitalismo mais clientelista? O que é o íntimo relacionamento entre o Pentágono e as grandes empresas do complexo industrial da Defesa, se não o capitalismo mais clientelista? Não é preciso que algum líder, no caso Putin, ou exiba ou não exiba ele, pessoalmente, a doença. O capitalismo clientelista pode ser e é SISTÊMICO, nos EUA. E Obama mantém-se passivo e deixa aumentar a enorme clivagem, que só cresce, nos EUA, na distribuição da riqueza.

Putin pode dizer e comprovar que não enriqueceu no capitalismo clientelista de empresários-banqueiros-cupinchas e, na verdade, aceito sem dificuldade seu argumento de que suas políticas são motivadas por considerações geopolíticas e geoestratégicas, não por o que deseje um ou outro banqueiro ou oligarca.

Os EUA e Obama podem dizer o mesmo? Como poderiam, se não fazem outra coisa além de obrar servilmente a favor dos interesses de empresários e empresas norte-americanas por todo o planeta, armados até os dentes e matando sem parar, especialmente, hoje, no Oriente Médio?

O negócio das sanções chega a ser engraçado: folha de parreira que nem esconde o plano ambicioso dos EUA para conter, isolar e enfraquecer a Rússia – na sequência, como já disse, atacarão a China – com os EUA cada vez mais desesperados para recuperarem o trono na estrutura global.   

Com a ascensão de Rússia e China, os EUA que tratem de aprender a partilhar o poder. Será isso, ou o colapso.
__________________

[*] Norman Pollack é o autor de “The Populist Response to Industrial America”  (Harvard) e “The Just Polity” (Illinois), Guggenheim Fellow e professor emérito de História na Michigan State University. Seu último livro, Eichmann on the Potomac, foi publicado por CounterPunch/AK Press, no outono de 2013.