domingo, 30 de janeiro de 2011

“O Irã monitora os acontecimentos regionais”

30/1/2011, PressTV, Teerã
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

O ministro das Relações Exteriores do Irã Ali Akbar Salehi disse que o Irã acompanha de perto os desenvolvimentos cruciais no Oriente Médio e no norte da África, sobretudo os movimentos populares que crescem ali.

“O que vemos no Oriente Médio e no norte da África são nações que são potências regionais, vigilantes, inspiradas pelo ensinamento islâmico, um despertar do islã, buscando libertar-se pelas forças populares, da dominação de poderes hegemônicos e alcançar independência real”, disse Ali Akbar Salehi, segundo fontes do ministério. 

Para o ministro do Irã, nações da Região, herdeiras de civilizações milenares, viveram por muito tempo sob a pressão de potências estrangeiras que apóiam os sionistas, “alienadas de suas verdadeiras identidades por muitos anos”. 

 Ministro das Relações Exteriores
do Irã:  Ali Akbar Salehi
“Hoje, o Egito e o povo egípcio servem-se da valiosa experiência de resistência da história contemporânea do Oriente Médio e começam a assumir o controle de seu próprio destino, exigindo o respeito que merecem pelo lugar que ocupam na Região.” 

Salehi, que recebeu um voto de confiança do Parlamento no domingo, como ministro das Relações Exteriores do Irã, anunciou também sua agenda. 

Disse que o objetivo central da política exterior do Irã é reforçar os relacionamentos com países vizinhos na Região e em todo o mundo muçulmano. 

O chanceler iraniano disse que o Irã trabalhará também para estreitar laços com países da Ásia, África, Europa e América Latina. Destacou o inabalável apoio do Irã aos movimentos da resistência palestina. 

Salehi também disse que seu ministério trabalhará aliado a outras instituições domésticas e às nações muçulmanas, na luta contra a islamofobia. No domingo, o chanceler iraniano viajou para Addis Abeba, capital da Etiópia, onde participará da cúpula da União Africana, com status de observador. 

Egito: uma ditadura nas vascas da morte

Robert Fisk

Robert Fisk - 30/1/2011, The Independent, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Os tanques egípcios, os manifestantes em delírio sentados sobre eles, as bandeiras, os 40 mil manifestantes lacrimejando e gritando vivas na Praça da Liberdade e rezando à volta dos tanques, um membro da Fraternidade Muçulmana sentado entre os ocupantes do tanque. Pode-se talvez comparar à libertação de Bucareste? Subi eu também sobre um tanque de combate, e só conseguia pensar naqueles maravilhosos filmes da libertação de Paris. A apenas algumas centenas de metros dali, os guardas da segurança de Mubarak, nos uniformes pretos, ainda atiravam contra manifestantes perto do ministério do Interior. Foi celebração selvagem de vitória histórica, os tanques de Mubarak libertando a capital de sua própria ditadura.

No mundo de pantomima de Mubarak – e de Barack Obama e Hillary Clinton em Washington –, o homem que ainda se diz presidente do Egito deu posse a um vice-presidente cuja escolha não poderia ter sido pior, na tentativa de aplacar a fúria dos manifestantes – Omar Suleiman, chefe-negociador do Egito com Israel e principal agente da inteligência egípcia, 75 anos de idade e muitos de contatos com Telavive e Jerusalém, além de quatro ataques cardíacos. Não se sabe de que modo esse velho apparatchik doente conseguiria enfrentar a fúria e a alegria de 80 milhões de egípcios que se vão livrando de Mubarak. Quando falei a alguns manifestantes ao meu lado sobre o tanque, da nomeação e posse de Suleiman, houve gargalhadas.
Protestors carry an army captain on their shoulders after he tore up a poster of Egyptian President Hosni Mubarak
Manifestantes carregam um capitão do exército sobre os ombros após ele
ter destruído um "outdoor" de Mubarak

Os soldados que conduzem os tanques, em uniforme de combate, sorridentes e às vezes aplaudindo os passantes, não fizeram qualquer esforço para apagar das laterais dos tanques os graffiti ali pintados com tinta spray. “Fora Mubarak! Caia fora, Mubarak!” e “Mubarak, seu governo acabou” aparecem grafitados em praticamente todos os tanques que se veem pelas ruas do Cairo. Sobre um dos tanques que circulavam pela Praça da Liberdade, vi um alto dirigente da Fraternidade Muçulmana, Mohamed Beltagi. Antes, andei ao lado de um comboio de tanques próximo de Garden City, subúrbio do Cairo, onde as multidões subiram aos tanques para oferecer laranjas aos soldados, aplaudindo-os como patriotas egípcios. A nomeação ensandecida e sem sentido de um vice-presidente [o primeiro, em 30 anos, e nomeação que significa que Mubarak desistiu de nomear o filho para substituí-lo no poder (NTs)] e a formação de um “novo” Gabinete sem poder algum, constituído só de velhos conhecidos dos egípcios, evidenciam que as ruas do Cairo viram e vêem o que nem os estrategistas e políticos dos EUA e da União Europeia souberam ver: que o tempo de Mubarak acabou.

As frágeis ameaças de Mubarak de que empregará repressão violenta em nome do bem estar dos egípcios quando já se sabe que a sua própria polícia e suas milícias são responsáveis pelos ataques mais violentos dos últimos cinco dias – só geraram ainda mais fúria entre os manifestantes, vítimas de 30 anos de ditadura várias vezes muito violenta. Crescem as suspeitas de que os piores ataques da repressão foram executados por milícias não uniformizadas – inclusive o assassinato de 11 homens numa vila do interior do país nas últimas 24 horas –, tentativa de dividir o movimento e criar suspeitas contra as intenções democratizantes das manifestações contra o governo de Mubarak. A destruição dos centros de comunicações por grupos de homens mascarados – que se suspeita que tenha sido ordenada por alguma agência da segurança de Mubarak – também parece ter sido obra das milícias não uniformizadas que espancaram manifestantes.

Mas o incêndio de postos policiais no Cairo, Alexandria, Suez e outras cidades não foram obra daquelas milícias. No final da 6ª-feira, a 40 milhas do Cairo, na estrada para Alexandria, havia grandes grupos de jovens em torno de fogueiras acesas no meio da estrada e, quando os carros paravam, eram assaltados; os assaltantes exigiam dólares, sempre muitos, em dinheiro. Ontem pela manhã, homens armados roubavam carros, de dentro dos quais arrancavam motoristas e passageiros, no centro do Cairo.

Infinitamente mais terrível foi o vandalismo contra o Museu Nacional do Egito. Depois que a polícia abandonou o serviço de segurança do museu, houve invasão de saqueadores e vândalos, que roubaram ou destruíram peças de 4 mil anos, múmias e peças de madeira esculpida de valor inestimável – barcos, esculpidos com todos os detalhes e a tripulação, miniaturas magníficas, feitas para acompanhar os faraós na viagem pós-morte. Vitrines que protegiam trajes milenares foram quebradas, os guardas pintados de preto arrancados e depredados. Outra vez, é preciso registrar que há boatos de que os próprios policiais destruíram o museu, antes de fugir na 6ª-feira à noite. Lembrança fantasmagórica do museu de Bagdá em 2003. Bagdá foi pior, a destruição foi mais total, mas mesmo assim foi terrível o desastre do museu do Cairo.

Em minha jornada noturna da Cidade 6 de Outubro até a capital, tive de diminuir a velocidade várias vezes, porque a estrada está cheia de restos de veículos queimados. Havia destroços e vidros quebrados pela estrada, e muitos policiais armados, com rifles apontados para os faróis do meu carro. Vi um jipe semidestruído. Os restos do equipamento da polícia antitumulto que os manifestantes expulsaram da cidade do Cairo na 6ª-feira. Os mesmos manifestantes que, ontem à noite, formavam círculo gigantesco em torno da Praça da Liberdade para rezar. Gritos de “Allah Alakbar” trovejavam pela cidade no ar da noite.

Há também quem clame por vingança. Uma equipe de jornalistas da rede al-Jazeera encontrou 23 cadáveres em Alexandria, aparentemente assassinados pela polícia. Vários tinham os rostos horrivelmente mutilados. Outros onze cadáveres foram encontrados no Cairo, cercados por parentes que gritavam por vingança contra a polícia.

No momento, Cairo salta em minutos da alegria para a mais terrível fúria. Ontem pela manhã, andei pela ponte do rio Nilo e vi as ruínas do prédio de 15 andares onde funcionava a sede do partido de Mubarak, que foi incendiado. À frente, um imenso cartaz pregava os benefícios que o partido trouxe ao Egito – imagens de estudantes formados bem sucedidos, médicos e pleno emprego, promessas que o governo de Mubarak sempre repetiu e jamais cumpriu em 30 anos – emoldurados pela fuligem, semiqueimados, pendentes das janelas enegrecidas do prédio. Milhares de egípcios andavam pela ponte e pelos acessos laterais para fotografar o prédio ainda fumegante – e muitos saqueadores, a maioria velhos, que tiravam de lá mesas e cadeiras.
Anti-Mubarak protesters in Cairo yesterday climb on an army tank
Manifestantes anti-Mubarak  sobre um tanque do Exército
na sexta-feira, 28/01/2011
  
No instante em que uma equipe de televisão escocesa preparava-se para filmar as mesmas cenas, foi cercada por várias pessoas que disseram que não tinham o direito de filmar os incêndios, que os egípcios são povo orgulhoso que não roubaria nem saquearia. O assunto foi discutido várias vezes ao longo do dia: se a imprensa teria ou não o direito de divulgar imagens sobre essa “libertação”, que veiculassem ideias menos dignas do movimento. Mesmo assim, os manifestantes mantinham-se cordiais e – apesar das declarações acovardadas de Obama, na 6ª-feira à noite – não se viu nenhum, nem qualquer mínimo sinal de hostilidade contra os EUA. “Tudo que queremos, tudo, exclusivamente, é que Mubarak vá-se daqui, que haja eleições que nos devolvam a liberdade e a honra” – disse-me uma psiquiatra de 30 anos. Por trás dela, multidões de jovens limpavam o leito da rua, removendo restos de veículos e barreiras postas nas intersecções e esquinas – releitura irônica do conhecido ditado egípcio, de que os egípcios nunca varrerão as próprias ruas.

A alegação de Mubarak, de que as atuais demonstrações e atos de delinqüência – a combinação foi tema do discurso em que Mubarak declarou que não deixaria o Egito – seriam parte de um “plano sinistro” é evidentemente o núcleo de seu argumento, na tentativa de não perder o reconhecimento mundial. 

De fato, a própria resposta de Obama – sobre a necessidade de reformas e o fim da violência – foi cópia exata de todas as mentiras que Mubarak sempre usou para defender seu governo durante 30 anos. Os egípcios riram de Obama – inclusive no Cairo, depois de eleito – quando exigiu que os árabes abraçassem a liberdade e a democracia. Mas até essas aspirações sumiram completamente quando, na 6ª-feira, Obama assegurou seu desconfortável e incomodado apoio ao presidente egípcio. O problema é o de sempre: as linhas do poder e as linhas da moralidade em Washington jamais convergem quando os presidentes dos EUA têm de lidar com o Oriente Médio. A liderança moral dos EUA cessa de existir quando há confronto declarado entre o mundo árabe e Israel.

E o exército egípcio, desnecessário lembrar, é parte da equação. Recebe de Washington mais de 1,3 bilhão de dólares de auxílio anual. O comandante desse exército, general Tantawi – que casualmente estava em Washington, quando a polícia tentava esmagar os manifestantes – sempre foi muito amigo, pessoal, íntimo, de Mubarak. Não é bom sinal, parece, pelo menos no futuro imediato.

Assim, a “libertação” do Cairo – onde houve notícias, ontem à noite, de saques no hospital Qasr al-Aini – ainda tem a andar, até a consumação. O fim pode ser claro. A tragédia ainda não acabou.

Egito: a morte de uma ditadura

Robert Fisk

Robert Fisk - from Cairo - The Independent, UK

Traduzido pelo Coletivo Política para Todos  

Os tanques egípcios, com manifestantes sentados sobre eles, bandeiras, 40.000 pessoas que choravam e incentivavam os soldados na Praça da Liberdade, enquanto rezavam em volta deles alguns membros da Fraternidade Muçulmana sentados entre os “passageiros” dos tanques. Será que poderíamos comparar esta cena com a libertação de Bucarest? Assentado sobre um dos tanques fabricados nos EUA, lembramo-nos dos maravilhosos filmes “hollywoodianos” da libertação de Paris. Alguns metros adiante, a polícia de Mubarak, com seus uniformes negros, disparavas balas assassinas contra a multidão que cercava o Ministério do Interior. Era a celebração de uma vitória selvagem e histórica: os mesmos tanques de Mubarak estavam libertando a capital de sua própria ditadura.


Anti-Mubarak protesters in Cairo yesterday climb on an army tank


Na farsa do mundo de Mubarak – e de Barack Obama e Hillary Clinton em Washington – o homem que ainda se diz “Presidente do Egito” realizou a mais absurda eleição de um vice-presidente visando acalmar a fúria dos manifestantes. O “eleito” foi Omar Suleiman, o chefe dos negociadores egípcios com Israel e um antigo agente de inteligência, homem de 75 anos e com muitos anos de convivência e visitas a Tela Aviv e Jerusalem, bem como alguns infartos do miocárdio… Como este elemento vai compreender  e controlar a raiva e o desejo de liberdade de 80 milhõ0es de egípcios está além da nossa imaginação. Quando comentei com  manifestantes que estavam próximos de mim esta novidade, começaram a rir-se.

As tropas do exército, em uniformes de campanha, rindo e até aplaudindo os manifestantes, não fizeram nenhum movimento para barrar os “graffiti” que a multidão havia pintado sobre os tanques. “Fora Mubarak” e “Teu regime está acabado”, aparecia em cada um dos veículos leves de combate ((VLC) que percorriam a ruas do Cairo. Em um desses VLCs que dava voltas na Praça da Liberdade estava um dos dirigentes da Fraternidade Muçulmana, Mohamed Beltagi. Mais cedo, passou um comboio de blindados que estava estacionado perto do subúrbio de Garden City, enguanto as pessoas abriam caminho entre as máquinas e levavam laranjas para os soldados, aplaudindo e chamando-os de “patriotas egípcios”. Logo após a destrambelhada eleição do vice de Mubarak e designação de comparsas para um governo sem Poder, as ruas do Cairo demonstraram que os líderes dos EUA e da União Europeia nã0 entenderam nada. Acabou-se.
Protestors carry an army captain on their shoulders after he tore up a poster of Egyptian President Hosni Mubarak

Os débeis esforços de Mubarak ao declarar  que se debe cessar a violência, quando sua própria polícia de segurança foi responsavel, nestes últimos 5 dias pelos atos mais cruéis, que inflamaram ainda mais a fúria daqueles que passaram 30 anos sob sua sanguinária ditadura. Prova disso são as suspeitas de que muitos dos saques estão sendo praticados pela Polícia Civil, bem como o assassinato de 11 homens em área rural 24 h antes, para destruir a integração dos manifestantes que estão sacando Mubarak do Poder. A destruição de grande número de Centrais de Cominicações por parte de homens com o rosto coberto, que foram dirigidos de alguma maneira, também levantou suspeitas, surgindo a ideia de que os responsáveis seriam os mesmos policiais que haviam atacado os manifestantes. Os incêndios na Delegacias de Polícia no Cairo, Alexandria e Suez bem como em outras localidades não foram obras da Polícia. À ultima hora desta sexta-feira multidões de jovens tocaram fogo ao longo de toda a estrada para Alexandria.

Infinitamente mais terrible foi o vandalismo praticado contra o Museu Nacional do Egito. Após a polícia abandonar o local, os saqueadores arrombaram a porta principal do edificio pintado de vermelho e destruíram estatuas dos Faraós de 4.000 anos de idade., múmias, e impresionantes barcos de Madeira que foram originalmente construídos para acompañar os reis em suas sepulturas. Novamente, devemos dizer, que circularam rumores de que a Polícia foi a causadora desses vandalismos antes de ter abandonado o Museu nesta sexta-feira à noite. Tudo parece recordar o saque do Museu de Bagdá (Iraque) pelas tropas invasoras. O saque não foi tão grave como o do Iraque, mas o desastre arqueológico é irremediável.

Os manifestantes se reuniram à noite, em círculo, para orar na Praça da Liberdade. E fazer promesas de vingança. Uma equipe de reportagem da Al Jazeera encontrou um local com 23 cadáveres em Alexandria, aparentemente assassinados pela polícia. Muitos desses mortos tinham seus rostos horrivelmente mutilados. Outro 11 defuntos foram descobertos em um local do Cairo, Os familiares que se congregaram em volta de seus restos ensanguentados, prometiam represálias contra a Polícia.

O Cairo, hoje, troca o riso pela mais pura raiva em questão de minutos. Ontem (sexta-feira, 28/01/2011) pela manhã cruzei a ponte sobre o Nilo para ver várias ruínas de uma das sedes do partido de Mubarak (PND). Bem em frente via-se um “outdoor” que promovia as “bondades” do Partido Nacional Democrata, as promesas que Mubarak não cumpriu em 30 anos. “Tudo o que queremos é a saída de Mubarak, novas eleições e nossa liberdade e honra”, me disse um jovem psiquiatra de 30 anos.

A denúncia de Mubarak de que estas manifestações são parte de um “plano sinistro” está  no cerne do pedido de reconhecimento internacional de seu governo. De fato, a resposta de Obama foi uma cópia fiel de todas as mentiras que Mubarak utilizou durante tres décadas para defender seu regime. O problema é o habitual: as linhas do Poder e da Moralidade não chegam e unir-se quando os presidentes dos EUA tem que se ocupar do Oriente Médio. A liderança moral dos EUA desaparece quando tem que se ver e confrontar o mundo árabe com o mundo israelense. E o exército egípcio é parte desta equação. Recebe 1,3 bilhões de dólares anuais de ajuda estadunidense. O Comandante do Exército, e amigo pessoal de Mubarak, o General Mohamed Tantawi, estava em Washington enguanto a Polícia tratava de reprimir os manifestantes.

O final pode ser claro. A tragédia ainda não terminou.

sábado, 29 de janeiro de 2011

A multidão contra o ditador

Robert Fisk
Egito em erupção 

29/1/2011, Robert Fisk, The Independent, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Pode ser o fim. Com certeza é o começo do fim. Em todo o Egito, dezenas de milhares de árabes enfrentaram gás lacrimogêneo, canhões de água, granadas e tiroteio para exigir o fim da ditadura de Hosni Mubarak depois de mais de 30 anos.

Enquanto Cairo mergulha em nuvens de gás lacrimogêneo dos milhares de granadas lançadas contra multidões compactas, era como se a ditadura de Mubarak realmente andasse rumo ao fim. Ninguém, dos que estávamos ontem nas ruas do Cairo, tínhamos nem ideia de por onde andaria Mubarak – que mais tarde apareceria na televisão, para demitir todos seus ministros. Nem encontrei alguém preocupado com Mubarak.
Eram dezenas de milhares, valentes, a maioria pacíficos, mas a violência chocante dos battagi – em árabe, a palavra significa literalmente “bandidos” – uniformizados sem uniforme das milícias de Mubarak, que espancaram, agrediram e feriram manifestantes, enquanto os guardas apenas assistiam e nada fizeram, foi uma desgraça. Esses homens, quase todos dependentes de drogas e ex-policiais, eram ontem a linha de frente do Estado egípcio. Os verdadeiros representantes de Hosni Mubarak. 

Num certo momento, havia uma cortina de gás lacrimogêneo por cima das águas do Nilo, enquanto as milícias antitumultos e os manifestantes combatiam sobre as grandes pontes sobre o rio. Incrível. A multidão levantou-se e não mais aceitará a violência, a brutalidade, as prisões, como se essa fosse a parte que lhe coubesse na maior nação árabe do planeta. Os próprios policiais pareciam saber que estavam sendo derrotados. “E o que podemos fazer?” – perguntou-nos um dos guardas das milícias antitumulto. “Cumprimos ordens. Pensam que queremos isso? Esse país está despencando ladeira abaixo.” O governo impôs um toque de recolher noite passada. A multidão ajoelhou-se para rezar, à frente da polícia.

Como se descreve um dia que pode vir a ser página gigante da história do Egito? Os jornalistas devem abandonar as análises e apenas narrar o que aconteceu da manhã à noite, numa das cidades mais antigas do mundo. Então, aí está a história como a anotei, garatujada no meio da multidão que não se rendeu a milhares de policiais uniformizados da cabeça aos pés e e milicianos sem uniforme. 

Começou na mesquita Istikama na Praça Giza: um sombrio conjunto de apartamentos de blocos de concreto, e uma fileira de policiais especializados em controle de tumultos que se estendia até o Nilo. Todos sabíamos que Mohamed ElBaradei ali estaria para as orações do meio dia e, de início, parecia que não haveria muita gente. Os policiais fumavam. Se fosse o fim do reinado de Mubarak, aquele começo do fim pouco impressionava.

Mas então, logo que as últimas orações terminaram, uma multidão de fiéis apareceu na rua, andando em direção aos policiais. “Mubarak, Mubarak”, gritavam, “a Arábia Saudita o espera”. Foi quando os canhões de água foram virados na direção da multidão – a polícia estava organizada para atacar os manifestantes, mesmo não sendo atacada. A água atingiu a multidão e em seguida os canhões foram apontados diretamente contra El Baradei, que retrocedeu, encharcado.

El Baradei desembarcara de Viena poucas horas antes, e poucos egípcios creem que chegue a governar o Egito – diz que só veio para ajudar como negociador –, mas foi atacado com brutalidade, uma desgraça. O político egípcio mais conhecido e respeitado, Prêmio Nobel, trabalhou como principal inspetor da Agência Nuclear da ONU, ali, encharcado como gato de rua. Creio que, para Mubarak, El Baradei não passaria de mais um criador de confusão, com sua “agenda oculta” – essa, precisamente, é a linguagem que o governo egípcio fala hoje.

Aí, começaram as granadas de gás lacrimogêneo. Alguns milhares delas, mas algo aconteceu, enquanto eu caminhava ao lado dos lança-granadas. Dos blocos de apartamentos e das ruas à volta, de todas as ruas e ruelas, centenas, depois de milhares de pessoas começaram a aparecer, todas andando em direção à Praça Tahrir. Era o movimento que a polícia queria impedir. Milhares de cidadãos em manifestação no coração da cidade do Cairo dariam a impressão de que o governo já caíra. Já haviam cortado a internet – o que isolou o Egito, do resto do mundo – e todos os sinais de telefonia celular estavam mudos. Não fez diferença.

“Queremos o fim do regime”, gritavam as ruas. Talvez não tenha sido o mais memorável brado revolucionário, mas gritaram e gritaram e repetiram, até derrotar a chuva de granadas de gás lacrimogêneo. Vinham de todos os lados da cidade do Cairo, chegavam sem parar, jovens de classe média de Gazira, os pobres das favelas de Beaulak al-Daqrour, todos marchando pelas pontes sobre o Nilo, como um exército. Acho que sim, são um exército.

A chuva de granadas de gás continuava sobre eles. Tossiam e esfregavam os olhos e continuavam andando. Muitos cobriram a cabeça e a boca com casacos e camisetas, passando em fila pela frente de uma loja de sucos, onde o dono esguichava limonada diretamente na boca dos passantes. Suco de limão – antídoto contra os efeitos do gás lacrimogêneo – escorria pela calçada e descia pelo esgoto.

Foi no Cairo, claro, mas protestos idênticos aconteceram por todo o Egito, como em Suez, onde já há 13 egípcios mortos. 

As manifestações não começaram só nas mesquitas, mas também nas igrejas coptas. “Sou cristão, mas antes sou egípcio” – disse-me um homem, Mina. “Quero que Mubarak se vá!” E foi quando apareceram os primeiros bataggi sem uniforme, abrindo caminho até a frente das fileiras da polícia uniformizada, para atacar os manifestantes. Estavam armados com cassetetes de metal – onde conseguiram? – e barras de ferro, e poderão ser julgados e condenados por agressão grave e assassinato, se o regime de Mubarak cair. São pervertidos. Vi um homem chicotear um jovem pelas costas, com um longo cabo amarelo. O rapaz gritou de dor. Por toda a cidade, os policiais uniformizados andam em pelotões, o sol refletindo no visor dos capacetes. A multidão já deveria ter sido intimidada, àquela altura, mas a polícia parecia feia, como pássaros encapuzados. E os manifestantes alcançaram a calçada da margem leste do Nilo.

Alguns turistas foram colhidos de surpresa no meio do espetáculo – vi três senhoras de meia idade, numa das pontes do Nilo (os hotéis, claro, não informaram os hóspedes sobre o que estava acontecendo –, mas a polícia decidiu que fecharia a extremidade leste do viaduto. Dividiram-se outra vez, para deixar passar as milícias não uniformizadas, e esses brutamontes atacaram a primeira fileira dos manifestantes. E foi quando choveu a maior quantidade de granadas de gás, centenas de granadas, em vários pontos, contra a multidão que andava sem parar por todas as grandes vias, em direção cidade. Os olhos ardem, e tosse-se horrivelmente, até perder o fôlego. Alguns homens vomitavam nas soleiras das portas fechadas das lojas.

O fogo começou, ao que se sabe, noite passada, na sede do NDP, Partido Democrático Nacional, partido de Mubarak. O governo impôs um toque de recolher, e há relatos de tropas na cidade, sinal grave de que a polícia pode ter perdido o controle dos acontecimentos. Nos abrigamos no velho Café Riche, perto da Praça Telaat Harb, restaurante e bar minúsculo, com garçons vestidos de azul; e ali, tomando café, estava o grande escritor egípcio Ibrahim Abdul Meguid, bem ali à nossa frente. Foi como dar de cara com Tolstoi, almoçando em plena revolução russa. “Mubarak está sem reação!” – festejou ele. “É como se nada estivesse acontecendo. Mas vai, agora vai. O povo fará acontecer!” Sentamos, ainda tossindo e chorando por causa do gás. Foi desses instantes memoráveis, que acontecem mais em filmes que na vida real.

E havia um velho na calçada, cobrindo os olhos com a mão. Coronel da reserva Weaam Salim do exército do Egito, que saiu para a rua com todas as suas medalhas da guerra de 1967 contra Israel – que o Egito perdeu – e da guerra de 1973 que, para o coronel, o Egito venceu. “Estou deixando o piquete dos soldados veteranos” – disse-me ele. “Vou-me juntar aos manifestantes”. E o exército? Não se viram soldados do exército durante todo o dia. Os coronéis e brigadeiros mantêm-se em silêncio. Estarão à espera da lei marcial de Mubarak?

As multidões não obedeceram ao toque de recolher. Em Suez, caminhões da polícia foram incendiados. Bem à frente do meu hotel, tentaram jogar no rio Nilo um caminhão da Polícia. Não consegui voltar à parte ocidental do Cairo pelas pontes. As granadas de gás ainda empesteiam as margens do Nilo. Mas um policial ficou com pena de nós – emoção absolutamente inexistente, devo dizer, ontem, entre os policiais – e nos guiou até a margem do rio. E ali estava uma velha lancha egípcia a motor, de levar turistas, com flores plásticas e proprietário disponível. Voltamos em grande estilo, bebendo Pepsi. Cruzamos com uma lancha amarela, super rápida, da qual dois homens faziam sinais de vitória para a multidão sobre as pontes. Uma jovem, sentada na parte de trás da lancha, carregava uma imensa bandeira: a bandeira do Egito.

Egito: manifestantes não respeitam recolher obrigatório

Apesar da repressão policial e dos violentos confrontos ocorridos na tarde desta sexta-feira no Cairo e noutras cidades, os manifestantes egípcios não desmobilizam. As autoridades detêm El Baradei em prisão domiciliar depois dele ter-se tentado juntar aos protestos.

ARTIGO | 28 JANEIRO, 2011 - 17:46

Egipto: manifestantes não respeitam recolher obrigatório
No bairro de classe alta de Mohandiseen, Cairo, pelo menos 10 mil pessoas 
manifestavam-se gritando "Abaixo Mubarak". Foto Khaled El Fiqi/EPA/LUSA.

Esta sexta-feira os protestos intensificaram-se e o Governo decretou o recolher obrigatório em três cidades, Cairo, Alexandria e Suez, que entrou em vigor a partir das 19 horas, hora local. No Cairo os manifestantes também incendiaram dois postos da polícia, enquanto em Alexandria os manifestantes deitaram fogo à sede do governo local. Segundo a Al-Jazira, há já veículos militares a entrar na praça principal da capital do Egito.

O Presidente Hosni Mubarak pediu ao exército para apoiar a polícia e fazer respeitar o recolher obrigatório, anunciou a televisão estatal. Do Cairo chegam imagens de nuvens de fumo em vários pontos da cidade.

Durante a tarde, violentos confrontos opuseram a polícia egípcia e milhares de manifestantes em frente a uma mesquita no centro do Cairo, depois da oração semanal em que participou o opositor Mohammed El Baradei.

A polícia usou canhões de água e balas de borracha para dispersar os manifestantes e bateu com bastões em alguns dos apoiadores de El Baradei, que o rodearam para o proteger, segundo a agência noticiosa norte-americana Associated Press.

El Baradei chegou a ficar retido na mesquita, cercado pela polícia, seguiu depois para casa onde agora se encontra em prisão domiciliar. O Nobel da Paz (2005) está impedido de deixar a capital do Cairo. A informação foi dada por oficias da força de segurança do Egito e divulgada pelos sites das redes de televisão Al Jazira e CNN.

O egípcio prêmio Nobel da Paz Mohamed El Baradei regressou esta quinta-feira ao seu país para se aliar à contestação ao regime do presidente Hosni Mubarak. O regresso coincidiu com o terceiro dia consecutivo de protestos que se estenderam, nesta sexta-feira, a toda a cidade do Cairo, palco de violentos confrontos entre polícia e manifestantes em vários locais, noticiaram agências internacionais.

Com um balanço de sete mortos, cinco manifestantes e dois polícias, os confrontos continuam em várias cidades.

As autoridades egípcias começaram o dia em alerta máximo e não têm escrúpulos no que toca à violência utilizada para dispersar manifestantes que não desmobilizam. Para esta sexta-feira foram convocados fortes protestos contra o regime, no chamado “dia da ira”.

Os confrontos registraram na praça de Gize, Cairo, onde depois da oração semanal em que participou o opositor Mohammed El Baradei, se juntaram cerca de duas mil pessoas. No bairro de classe alta de Mohandiseen, pelo menos 10 mil pessoas manifestavam-se gritando “Abaixo Mubarak”.

Centenas de polícias anti-motim tomaram a central praça Tahrir, depois de numa outra praça da capital egípcia, a de Ramsés, se terem registrado confrontos entre a polícia e milhares de manifestantes que ali se juntaram depois oração do meio-dia na mesquita de Al-Nur. Aí, a polícia lançou granadas de gás lacrimogêneo para dentro da mesquita, onde várias mulheres procuraram refúgio.

Há relatos de manifestações semelhantes nas cidades de Suez, onde um manifestante foi morto pela polícia com um tiro na cabeça, Alexandria e vários outras, incluindo a Al Arish, no norte do Sinai e Mansour na região do Delta do Nilo.

O acesso à Internet, ferramenta amplamente utilizada na mobilização de manifestações, continua inacessível desde a manhã e também as comunicações móveis foram interrompidas.

Entretanto, quatro jornalistas franceses foram detidos no Cairo, indicou um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros francês, Bernard Valero.

As revoltas no mundo árabe multiplicam-se

Começou na Tunísia com uma revolta social que levou à queda da ditadura de Ben Ali e está a estender-se por países do Magrebe e Médio Oriente: a onda de protestos, exigindo reformas e democracia, está a abalar o mundo árabe. A revolta está às portas do Egito, da Jordânia e do Iêmen e ameaça passar pela Argélia. Também se registram protestos no Líbano. Marrocos e Israel estão preocupados. 

Postagens anteriores:

Extraído do Esquerda.net
Enviado por Luis Leiria

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

O Hezbollah e o novo governo no Líbano. E agora?

Franklin Lamb

28/1/2011, Franklin Lamb, Al-ManarTV, Beirute
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu


Esse jornalista observador corta o cabelo aproximadamente a cada quatro meses, precise ou não. Mas hoje ganhei mais que umas tesouradas nas melenas, do meu amigo barbeiro e soldado do Hezbollah, de nome Abass ibn Ali, irmão de Hussein, nomes de dois mártires e heróis de uma batalha épica, em 680 a.C., entre muçulmanos, a Batalha de Karbala, cidade que, hoje, está em território do Iraque. A Batalha de Karbala simboliza, para os seguidores do Hezbollah e muçulmanos xiitas em geral, a vitória do bem sobre o mal e a disposição para sacrificar a própria vida na luta por justiça e pelo maior bem da família, da comunidade, da Ummah. O motivo pelo qual falo disso, é que meu barbeiro estava hoje em estado de graça, em êxtase. Disse que seu partido estava vivendo um “momento Karbala”!

Respondi que a frase podia ser interpretada de vários modos. Afinal, muitos combatentes da resistência morreram em Karbala. Abass insistiu:

“Quero dizer é que nós, o Hezbollah, somos conhecidos por espantar sionistas para bem longe do Líbano, mas o partido parece que está aprendendo também a operar na política do Líbano e da Região. É bom para nosso povo que nós criemos programas sociais e governo honesto, sem corrupção, pela primeira vez na história do Líbano. Você concorda? Não acha que estamos começando a fazer bem feitas as coisas, também no jogo político no Líbano?” Concordo. Concordo. 

Entrevista ao Al Manar
Em movimento político cuja velocidade surpreendeu muitos no Líbano e com visão para superar as barreiras sectárias, o Hezbollah e seus partidos aliados derrubaram o governo Hariri, sem golpe, por medidas absolutamente previstas e autorizadas pela Constituição, e impuseram o início de consultas parlamentares para formar novo governo. Não foi golpe. O Hezbollah fez funcionar os mecanismos previstos pela Constituição e conseguiu converter sua minoria constitucional em maioria constitucional, e vice-versa. 

O Hezbollah é reconhecido por dar extrema atenção aos temas políticos, que são atentamente analisados dentro do partido; é reconhecido também pela agilidade e pela flexibilidade, quando o ritmo dos eventos exige. 

Há duas semanas, quando o Partido da Resistência retirou seus 11 representantes no governo Hariri apoiado pelos EUA, o plano era indicar Omar Karami para substituir Hariri. 

Karami foi duas vezes primeiro-ministro, é fortemente pró-Síria, apoia a Resistência e defende o direito de o Hezbollah conservar suas armas. Também jamais viu qualquer possibilidade de o Tribunal Especial para o Líbano conduzir investigações sérias, isentas de influências políticas; e também não aceita que aquele tribunal indicie, sem provas e com depoimentos de testemunhas reconhecidamente falsas, quatro, talvez mais, altos membros do Hezbollah, acusando-os de terem participado no atentado que matou Hariri-pai, então primeiro-ministro.  Já próximo dos 80 anos, Karami é ativo e teria assumido o posto, se indicado formalmente. De fato, chegou a pensar que já estava lá, mas na rápida sequência de eventos, o Hezbollah optou por outro nome, Nigib Mikati, sunita, bilionário, educado nos EUA, que enriqueceu nos negócios de telecomunicações e mais ainda quando vendeu sua empresa a um megaempreendedor da África do Sul. Mikati não é próximo do Hezbollah e com certeza jamais esteve entre seus aliados. De fato, o Hezbollah, os sauditas e cada vez mais os EUA apoiam Mikati porque é tecnocrata do Banco Mundial, mais ou menos como o ex-primeiro ministro do Líbano Fuad Siniora ou Salam Fayyad na Palestina, e todos esperam que trabalhem, não para ignorar, mas ajudar a limpar a impressionante e sempre crescente corrupção dentro dos seus respectivos governos. Makati, indicado pelo Hezbollah, é conhecido como homem de posições pró-ocidente, mas moderado, eleito deputado em 2009, na lista eleitoral de Hariri, apoiado pelos EUA. Os EUA o apoiariam declarada e abertamente, se não tivesse sido indicado, antes, pelo Hezbollah, com apoio de sírios e sauditas.  

Alguns dos que se sentiram ou vencedores ou derrotados nas primeiras 48 horas depois do que o Movimento 14 de Março e o Departamento de Estado dos EUA ainda insistem em chamar de “o golpe”:

Saad Hariri e seu “Movimento Futuro” apoiado pelos EUA: São dois dos atores políticos mais claramente derrotados hoje, mas Saad Hariri ainda tem algumas alternativas importantes. Ao longo dos últimos quase dois anos, Saad Hariri ouviu da Embaixada dos EUA, que Washington desejava que “se mantivesse firme” e não criticasse o Tribunal Especial para o Líbano. 

Os EUA conceberam e construíram o Tribunal Especial dentro do Conselho de Segurança da ONU, para manter a Síria fora do Líbano e Bashar Assad fora de Damasco depois do assassinato, no Valentine Day de 2005, do primeiro-ministro Rafik Hariri e 22 outros mortos no mesmo atentado. Saad fez o que o mandaram fazer e isso, agora, custou-lhe o cargo de primeiro-ministro. 

O Hezbollah advertiu-o várias vezes de que não seria mantido como primeiro-ministro, se não se manifestasse sobre o Tribunal Especial o qual, do ponto de vista do Hezbollah. Jamais passou de embuste criado por EUA-Israel, para destruir a resistência no Líbano.

Quando a oposição parlamentar liderada pelo Hezbollah decidiu [estritamente como a Constituição ordena que se faça a troca de gabinetes] a favor do fim do Gabinete Hariri, dia 12/1/2011, Saad sabia que teria de lutar para conservar o emprego. “Mas foi traído pelos EUA e pelos sauditas que o apoiavam, além de alguns de seus amigos mais próximos e aliados políticos que também o traíram” – segundo fonte do Movimento Futuro.

Ambos, a Arábia Saudita e o governo Obama perceberam que Saad não receberia os 65 votos parlamentares necessários para manter-se como primeiro-ministro (e acertaram: Saad Hariri só teve 60 votos), e decidiram aceitar o nome indicado pela Síria, Nigab Maliki, amigo pessoal do presidente Bashar Assad. Omar Karami, embora escolhido como primeira opção, teve de ser trocado, porque também não obteria os 65 votos necessários à eleição e seu passado inclui contatos íntimos com o Irã. Os EUA e a Arábia Saudita decidiram que melhor ter a Síria outra vez com capacidade de influir no gabinete libanês, do que correr o risco de entregar todo o controle do governo diretamente ao Irã.

Saad Hariri sente-se, pois, traído pelo próprio Makati, membro de sua aliança de governo, eleito ao Parlamento em 2009 na lista eleitoral do próprio Saad Hariri. O encontro entre os dois ontem durou apenas 11 minutos e foi frio, gelado como pedra. Quando um jornalista perguntou a Hariri se trabalharia com o novo governo de Makati, Hariri respondeu: “E de que me servirá participar do novo governo?” Horas mais tarde, o Movimento 14 de Março informou Makati de que não participaria de seu governo. Mas é possível que Hariri e o 14 de Março mudem de ideia.

Os sauditas continuam insistindo com Saad Hariri, incitando-o a engolir o orgulho ferido e a cooperar com o próximo governo. Os EUA farão aproximadamente a mesma coisa, depois de superarem o susto e engolirem a pílula amarga: Jeffrey Feltman estará reunido com líderes europeus, da França inclusive, nesse final de semana.

Hoje pela manhã, tudo faz crer que Saad Hariri continue inconsolável, depois de reunião privada, ontem à tarde, com a maternal embaixadora dos EUA, Maury Connelly, E repetiu hoje que não participará de governo “indicado pelo Hezbollah.” Mas seu grupo, o Movimento 14 de Março, tenta obter alguma vantagem da desistência de Hariri e tenta forçar o primeiro-ministro designado Makati a assinar compromisso escrito de que seu governo, sob nenhuma circunstância aceitará a condição da “Resposta dos três Não” que o Hezbollah está impondo [o Hezbollah exige, como compromisso do novo governo, que o governo libanês (1) NÃO continue e financiar o Tribunal Especial; (2) NÃO forneça juízes para o Tribunal Especial; e (3) NÃO continue a cooperar com o Tribunal Especial, cancelando o Memorando de Entendimento assinado entre a ONU e o Líbano, segundo o qual poderão ser presos e extraditados os indiciados pelo Tribunal Especial. 

O grupo de Saad Hariri ainda insiste que o preço para que participem do novo governo é que o governo apoie o Tribunal Especial e passe a controlar as armas do Hezbollah. Já se sabe que nada conseguirão, porque em nenhum caso o Hezbollah aceitará essas exigências.

Se Saad Hariri ficar fora do governo de Maliki, tentará converter-se em paladino do Tribunal Especial, mas perderá apoio dentro do próprio Movimento 14 de Março, a cujos membros muito interessa assumir o controle de alguns dos bons empregos no Gabinete. O Movimento 14 de Março, via Fuad Siniora, líder do bloco no Parlamento, fala muito contra as armas do Hezbollah, mas está evidentemente tentando uma barganha da qual, no momento certo, espera obter bons postos no Gabinete e no governo.

O Movimento 14 de Março joga pesado, pela batura de Jeffrey Feltman, diplomata norte-americano, um dos arquitetos da “Revolução do Cedro”, em 2005, que faz essa semana sua 62ª visita à Região, para que todos sejam informados de que “o governo dos EUA respeita a soberania, a liberdade e a independência do Líbano”, embora ninguém saiba o que significariam essas palavras, se se analisa a atuação dos EUA na Região. 

Ontem, em Paris, Feltman repetiu que “EUA e França persistem gravemente preocupados com o golpe que derrubou o governo Hariri, com ameaças e intimidação”. E insistiu em que os EUA e aliados devem pressionar para a imediata implementação das resoluções n. 1.701 do Conselho de Segurança (desarmar o Hezbollah) e 1.757 (indiciar e condenar o Hezbollah).

Jeff até poderia ser perdoado por sentir-se meio como Saeb Erekat quando, dia 21/10/2009, o hoje em breve ex-negociador “da paz”, da Autoridade Palestina, lamentou, em reunião com George Mitchell, que “A Região está escapando como grãos de areia entre nossos dedos”. Feltman, e não é a primeira vez, está sob forte pressão de Washington e Telavive para “fazer alguma coisa!”

Há muitos boatos, entre os quais que a Embaixada dos EUA seria fechada se, como se espera, os EUA e Israel lançarem campanha planetária de difamação contra o Líbano e o Hezbollah, para abrir caminho para que o Tribunal Especial divulgue os indiciamentos que Washington tem certeza de que incluirão altos comandantes do Hezbollah.

O Hezbollah tem controle pleno e direto sobre o governo libanês, inclusive no Parlamento, nos cerca de 30 votos no Gabinete e na burocracia. Ao contrário do que dizem EUA e Israel, o partido não está ‘excitado’ com a possibilidade de chegar ao governo. O Hezbollah vê-se como movimento de resistência, primeiramente, essencialmente e sempre; e muitos no partido não querem que esse “mandato limpo” seja contaminado pelas práticas nem sempre éticas e nem sempre limpas de um governo difícil como o do Líbano.

O Hezbollah trabalhará agora para implementar sua agenda de governo limpo e anticorrupção e dar àquela agenda a forma de leis, mas o partido prefere deixar a outros o trabalho sempre difícil de acomodar um vasto conjunto de seitas autocentradas e autorreferentes e seus líderes políticos. Em vasta medida, o Partido da Resistência operará através de deputados aliados, que não são membros do próprio Hezbollah. Há planos de começar a trabalhar imediatamente para aprofundar soluções para ‘as quatro grandes questões’ que todos os libaneses querem ver imediatamente equacionadas e resolvidas: água, eletricidade, poluição e tráfico, além de outras, como criar empregos e educar para a preservação do meio ambiente.

O Hezbollah quer ser visto como partido que também trabalha pelos pobres, ao mesmo tempo em que constrói o movimento de resistência. Prepara-se para abrir sua agenda legislativa doméstica, que incluirá quase todas as dez iniciativas “do bom governo” que Nabib Berri, presidente do Parlamento e aliado do Partido da Resistência entregou ontem a Makati.

O bloco de 12 membros do Hezbollah disse ao novo primeiro-ministro que favorece um governo de “parceria nacional”, nas palavras do deputado Mohammad Raad, que alertou a mídia: “O Hezbollah não impôs pré-condições [ao governo Mikati] e não aceitaremos qualquer imposição que se assemelhe a chantagem. Não pedimos cargos nem ministérios especiais e esperamos que transcorra normalmente o processo normal de formar novo governo.”

O Irã obteve os maiores ganhos políticos até aqui, porque continua a ganhar espaço para movimentar-se pela Região, sempre com olhos na Palestina.

Os EUA continuam a perder espaço e prestígio na Região, vistos cada vez mais, sobretudo depois da divulgação dos “Documentos da Palestina”, como inimigos de árabes e muçulmanos. São vistos, cada vez mais, como estado pária, porque Washington ainda não parou de promover, financiar e armar os terroristas sionistas que ocupam ainda a Palestina.

Robert Fisk: Egito, o dia do acerto de contas

Robert Fisk

Enquanto os aliados observam...
28/1/2011, Robert Fisk: The Independent, UK
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Dia de orações ou dia de ira? Todo o Egito está à espera do sabbath muçulmano hoje – para nem falar dos assustados aliados do Egito –, enquanto o envelhecido presidente do país agarra-se ao poder depois de noites de violência que já fazem os EUA duvidar da estabilidade do regime de Mubarak.

Até agora, há cinco mortos e mais de 1.000 presos, a polícia bateu em mulheres e, pela primeira vez uma das sedes do Partido Nacional Democrático reinante foi incendiada. Aqui, os boatos são perigosos como granadas de gás lacrimogêneo. Um diário do Cairo publicou que um dos principais conselheiros do presidente Hosni Mubarak fugiu para Londres com 97 malas de dinheiro; outros falam de um presidente enfurecido, que grita com os comandantes da polícia, exigindo mais força na repressão das manifestações.
Mohamed El Baradei, líder da oposição, Prêmio Nobel e ex-funcionário da ONU, retornou ao Egito ontem à noite, mas ninguém acredita – exceto talvez os norte-americanos – que venha a converter-se em ímã que dê foco aos movimentos de protesto que se alastram por todo o país.

Já aparecem sinais de que muitos, cansados do governo corrupto e antidemocrático de Mubarak, tentam persuadir os policiais que patrulham as ruas do Cairo a unir-se a eles. “Irmãos! Irmãos! Quanto eles pagam a vocês?” um grupo de manifestantes pôs-se a gritar para os policiais no Cairo. Mas ninguém negocia coisa alguma – não há o que negociar, exceto a partida de Mubarak, e o governo egípcio nada diz e nada faz, mais ou menos exatamente como nos últimos trinta anos.
Protesters clash with riot police in Suez yesterday. A police station was set alight
Repressão com canhões de água e gás lacrimogêneo
Há quem fale de revolução, mas não há ninguém para ocupar os lugares dos homens de Mubarak – jamais houve sequer um vice-presidente – e um jornalista egípcio disse-me ontem que conversou com amigos de Mubarak, preocupados com ele, presidente, isolado, solitário. Mubarak está com 82 anos e deu sinais de que se candidatará novamente à presidência – o que é ultraje para milhões de egípcios.

A dura verdade, porém, é que, exceto pela força policial brutal e um exército escandalosamente dócil – o qual, aliás, não apoia a indicação de Gamal, filho de Mubarak – o governo está impotente. Essa é revolução pelo Twitter e revolução pelo Facebook, e a tecnologia, já há muito, derrubou as regras da censura.

Os homens de Mubarak parecem ter perdido toda a noção de iniciativa. Os jornais do partido governista vêm carregados de falsas ilusões autoimpingidas, empurrando as vastas manifestações de rua para os rodapés, como se bastasse a diagramação para esvaziar as ruas – e como se, de tanto esconder os fatos, conseguissem convencer-se de que as manifestações não existiram.

Mas ninguém precisa dos jornais, para ver o que não deu certo. A sujeira das ruas e das favelas, os esgotos a céu aberto e a corrupção de todos os funcionários do estado, as prisões sobrecarregadas, as eleições risíveis, o vasto, esclerosado edifício do poder, tudo isso, afinal, arrastou ou egípcios para as ruas das cidades.

Amr Moussa, presidente da Liga Árabe, observou ponto interessante, na recente reunião de cúpula dos líderes árabes no resor tde Sharm el-Sheikh, no Egito. “A Tunísia não está longe de nós”, disse ele. “Os árabes estão quebrados”. Mas... será que estão? Um meu velho amigo contou-me história assustadora sobre um egípcio pobre, que lhe disse que não tinha interesse algum em arrancar os líderes corruptos das fortalezas superprotegidas onde vivem no deserto. “Hoje, pelo menos, sabemos onde eles moram” – disse o homem. O Egito tem hoje mais de 80 milhões de habitantes, 30% dos quais com menos de 20 anos. E perderam o medo.

Protesters in Cairo yesterday, demanding that President Hosni Mubarak is removed from power
30% da população é de jovens de menos de 30 anos. O desemprego é elevado  
Nas manifestações, observa-se uma espécie de nacionalismo egípcio – mais do que algum islamismo. 25 de janeiro é Dia Nacional da Polícia – dia em que se homenageia a força policial que morreu em combate contra o exército britânico em Ishmaelia – e o governo não poupou discursos, para dizer à multidão que estariam traindo os próprios mártires. A multidão gritou “Não. Os policiais que morreram em Ishmaelia eram valentes, nada a ver com os policiais de hoje.”

Mas o governo não é completamente cego. Há uma espécie de inteligência na gradual liberação da imprensa e das televisões, nessa pseudodemocracia em cacos. Os egípcios ganharam uma lufada de ar fresco, o suficiente para respirarem, para que se acalmem e calem-se, e voltem à docilidade de sempre, nessa terra de pastores. Pastores e agricultores não fazem revoluções, mas quando são amontoados aos milhões nas grandes cidades, nas favelas, nas casas e nas universidades em ruínas, que lhes dão diplomas, mas não dão trabalho, alguma coisa pode ter acontecido.

“Os tunisianos ensinaram aos egípcios o que é poder orgulhar-se do que se faz” – disse-me ontem outro jornalista egípcio. “São inspiração para nós, mas o regime egípcio é mais esperto que o de Ben Ali na Tunísia. Lá foi preservada uma semente de oposição, ao não meterem na cadeia a Fraternidade Muçulmana, mas, ao mesmo tempo, dizerem aos EUA que o grande inimigo seria o Islã, e que Mubarak ali estava para proteger os EUA do “terror” – mensagem que os EUA sempre gostam de ouvir já há dez anos”.

Há vários indícios de que o poder no Cairo percebeu que algo estaria para acontecer. Ouvi de vários egípcios que dia 24 de janeiro já havia soldados arrancando cartazes de Gamal Mubarak dos muros das favelas – para evitar mais provocações. Mas o alto número de prisões, a violência policial – que espancou homens e mulheres pelas ruas – e o virtual colapso da Bolsa de Valores no Cairo mais sugerem pânico, que astúcia política.

Um dos problemas foi criado pelo próprio regime; foram sistematicamente afastados do poder todos que tivessem algum carisma, mandados para o interior, castrando politicamente qualquer possível oposição verdadeira, muitos, diretamente para a prisão. Hoje, EUA e União Europeia dizem ao regime que ouçam o povo – mas que povo? Onde estão as vozes de liderança?

Riot police at a demonstration in Cairo yesterday. More protests are
expected today
A repressão é violenta

O levante no Egito não é – embora possa vir a converter-se em – levante islâmico, mas, além do grito em massa de milhões de egípcios que despertam de décadas de humilhação e fracassos, só se ouve nas manifestações o discurso de rotina da Fraternidade Muçulmana.

Quanto aos EUA, a única coisa que parecem capazes de oferecer a Mubarak é uma sugestão de reformas – conversa que os egípcios ouvem há muito tempo. Não é a primeira vez que a violência toma conta das ruas do Cairo, é claro. Em 1977, ouve manifestações imensas de gente que pedia comida – eu estava no Cairo, e vi multidões famintas, de mortos de fome –, mas o governo de Sadat conseguiu controlar a revolta mediante preços mais baixos e muitas prisões e tortura. Também houve motins nas forças policiais – um deles reprimido a ferro e fogo pelo próprio Mubarak. Mas, agora, está acontecendo algo de diferente.

Interessante de observar, não há nenhuma animosidade contra estrangeiros. Várias vezes aconteceu de a multidão proteger jornalistas e – apesar do vergonhoso apoio que os EUA garantem aos ditadores no Oriente Médio – nenhuma bandeira dos EUA foi queimada. Já se vê que há aí alguma novidade. Talvez a multidão que amadurece – e descobre que vive sob um governo que é, ao mesmo tempo, senil e imaturo.

Ontem à noite as autoridades egípcias cortaram todos os serviços de internet e de transmissão de texto por celulares, na tentativa de impedir que os manifestantes se organizassem através de redes sociais. A medida foi tomada no mesmo momento em que uma unidade policial de elite, de forças antiterrorismo, recebeu ordem para tomar posição em pontos estratégicos em toda a capital, preparando-se para o que se estima que sejam as maiores manifestações até agora, previstas para hoje.

Dentre os pontos estratégicos selecionados pelas forças antiterrorismo está a Praça Tahrir, cenário das maiores manifestações até agora. Facebook, Twitter, YouTube e outros sites de contato social tiveram papel vital nos protestos no Egito, exatamente como na Tunísia, para manter os manifestantes em contato e planejar a movimentação dos grupos.