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sexta-feira, 24 de junho de 2011

Caça aos Jihadis, ou caça às bruxas?


23/6/2011, MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ver também:
12/6/2011, “Militares paquistaneses ‘enquadram’ os EUA” – MK Bhadrakumar, Indian Punchline
16/6/2011, “CIA tenta amotinar o exército do Paquistão - MK Bhadrakumar, Indian Punchline
17/6/2011, Por que os militares paquistaneses prenderam quem ajudou a encontrar Bin Laden?” - Radio Free Europe - Ron Synovitz entrevista (excerto) Sebastian Gorka 

O Paquistão marcou um grande tento de propaganda e chegou à categoria de “notícia extraordinária” na consciência da mídia mundial: o Paquistão começa a se mexer contra os “Jihadis” infiltrados nas forças armadas! 

Mas a prisão do brigadeiro Ali Khan em Rawalpindi na 3ª-feia é notícia absolutamente espantosa. 

No Paquistão, os militares investem pesadamente na formação dos oficiais militares; quando alguém chega à patente de brigadeiro, ninguém duvida de que seja dos melhores, dos mais brilhantes. Por isso, a prisão de um brigadeiro da ativa, já próximo da aposentadoria, é decisão que ninguém toma sem muita reflexão. E só o comandante do exército do Paquistão Parvez Kayani tem autoridade para mandar prender um brigadeiro da ativa. 

Os militares paquistaneses estiveram nas manchetes, em todo o mundo, por se terem deixado ver como vulneráveis à infiltração por elementos islâmicos. Saleem Shehzad, editor do jornal Asia Times, foi seqüestrado, torturado e assassinado há um mês, porque publicou precisamente essa notícia. O crime horrendo foi imediatamente atribuído ao serviço secreto do Paquistão (ISI).

A prisão do brigadeiro Khan seria mensagem clara, de que Kayani afinal teria resolvido “limpar” o exército paquistanês, dos jihadis infiltrados. Toda a mídia ocidental divulgou a notícia com destaque, projetando Kayani como líder iluminado, decidido a agir com tolerância-zero contra os extremistas religiosos e o terrorismo. Até aí, o normal. Agora, a parte estranha. 

Qual a acusação contra o brigadeiro Khan? O major-general Athar Abbas, principal porta-voz dos militares, disse que Khan tem ligações “comprovadas” com o grupo Hizb ut-Tahrir [HuT]. Disse também que quatro outros majores da ativa foram interrogados sobre “supostos laços com o grupo HuT” e que essa infiltração comprometeria “toda a nação e a segurança nacional”. Deixou sugerido que a “rede” de Khan não estaria limitada ao quartel-general em Rawalpindi, onde o brigadeiro servia ao ser preso.

A dúvida está em que, sempre que se menciona o grupo HuT, imediatamente surge um grave problema de credibilidade. O fato é que o HuT é o espantalho preferido de vários países que, por um motivo ou outro, desejem lançar sobre a resistência islâmica a pecha de xenofobia ou, dito de outro modo, sempre que interesse a alguém encontrar pretexto para livrar-se de dissidentes políticos. “HuT” é uma sigla misteriosa. 

Pouca gente sabe que o grupo surgiu no início dos anos 1950s em Jerusalém (?!). Opera em dúzias de países e não é, não, nem de longe, centrado no Paquistão. Sua ideologia é utopista – querem implantar um califado mundial – e pregam meios não-violentos para chegar lá. Os seguidores são graduados, praticamente todos da pequena burguesia. Engraçado é que operavam legalmente e livremente na Grã-Bretanha e em vários outros países ocidentais até há bem poucos anos. Em Londres, os militantes reuniam-se em cafeterias e ofereciam-se para dar entrevistas à imprensa.

A referência ao “fator HuT” imediatamente dispara inúmeras suspeitas sobre a prisão do brigadeiro Khan. Segundo as investigações que o jornalista Sayyed Saleem fez e publicou, há risco de as forças armadas paquistanesas terem sido infiltradas pela al-Qaeda, sim. Poderiam estar sendo ameaçadas por grupos afiliados da al-Qaeda, sim. Mas o grupo HuT nada tem a ver com a al-Qaeda e toda sua literatura sempre criticou Osama bin Laden. 

Acusar o brigadeiro Khan de ter laços com o HuT parece ser movimento astuto dos chefes militares paquistaneses. Porque o grupo HuT tem sido acusado de antissemitismo.

Não surpreendentemente, qualquer notícia associada ao HuT torna-se imediatamente tema de noticiário em horário nobre na mídia ocidental, por causa das acusações de antissemitismo que sempre se fazem ao grupo. Na direção oposta: qualquer ser vivo que fale contra o grupo HuT é imediatamente, quase com certeza absoluta, mostrado sob luz favorável na mesma mídia ocidental. Esse parece ter sido o jogo dos militares paquistaneses, para obter do ocidente mais uma demão de tinta branca, para encobrir o sangue que suja sua imagem desde o assassinato de Sayyed Saleem. Não poderia haver cinismo maior. Mas o serviço secreto do Paquistão é mestre consumado em manobrar a mídia.

Por isso, a BBC em idioma urdu no Paquistão, onde trabalham jornalistas paquistaneses que conhecem bem os militares e sua cultura, lavraram um grande tento jornalístico ao não abraçar os releases. Decidiram investigar. 

Da investigação surgiu, como primeira descoberta, que Khan é soldado de um tipo raro – do tipo que pensa, um intelectual. Não é dado a jogar Squash nem a intrigas de caserna. Pelo que se sabe, é homem que se dedica a questões do intelecto. Várias vezes criticou os rumos das políticas do Paquistão. Incomodou muito o ditador general Pervez Musharraf que, parece, arruinou para sempre sua carreira, porque Khan, uma vez, teve a audácia de questionar a sabedoria do ditador que se alinhara à guerra conduzida pelos EUA, no Afeganistão. Mais recentemente, em reunião do alto comando no quartel-geral, em que se fazia o exame post-mortem do ataque dos helicópteros contra Abbottabad, Khan teria posto a boca no trombone. Teria dito que militares paquistaneses instalaram Osama bin Laden na cidade (militarizada) de Abbottabad e que os mesmos militares, adiante, teriam facilitado a operação dos EUA.

Sim, foi um pouco além da conta. Khan evidentemente atravessou a linha vermelha. Kayani enfureceu-se. A fala de Khan era dinamite. Mas o mais interessante é que há outros militares paquistaneses que têm a mesma opinião sobre o incidente em Abbottabad — todos convencidos de que oficiais do exército paquistanês colaboraram com os EUA. Abbottabad é história que jamais será integralmente conhecida. E Khan não podia continuar livre para discutir sua teoria. Os EUA apresentaram várias versões, enredaram-se nas próprias mentiras e acabaram por parar completamente de falar sobre a operação.

A grande ironia de toda a história é que Khan está sendo silenciado com acusações (inverossímeis) de “Jihadismo”, apesar de, se fez o que se diz que fez, ter cometido crime mais grave: denunciar seus superiores por associações com bin Laden. 

Segundo a interpretação da BBC-Paquistão, o único crime político de Khan é sempre acreditar (desde Musharraf), apaixonadamente, que não interessa ao Paquistão manter-se aliado dos EUA. Por isso, tanto incomodou o ditador Musharraf quanto hoje incomoda Kayani. 

Kayani repete as políticas de Musharraf e começa a punir oficiais que como Khan estejam infectados, não pelo vírus do “Jihadismo”, mas pelo vírus do antiamericanismo. 

No frigir dos ovos, a análise da BBC mostra exatamente que Kayani, comandante militar do Paquistão, é muito mais alérgico ao antiamericanismo, que ao terrorismo islâmico.


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ATUALIZAÇÃO: Em direção absolutamente oposta a essa interpretação – e com detalhado relatório-release da prisão do brigadeiro Khan “por envolvimento com o grupo HuT”, lê-se hoje em Asia Times Online matéria assinada por Amir Mir [“Islamists break Pakistan's military ranks” - Islamistas infiltrados no exército paquistanês].  

Ali, entre outras coisas, lê-se:

“Notícias da prisão do brigadeiro só chegaram à mídia quase uma semana depois de, dia 15 de junho, o New York Times noticiar que uma agência de espionagem da cúpula do exército do Paquistão havia prendido cinco informantes da CIA, entre os quais um major que teria dado informações à agência americana que levaram à casa, em Abbottabad, onde Bin Laden foi assassinado.” (...)

“A prisão de Khan por suspeita de ligações com grupos “Jihadis” apenas confirma que a luta entre islamistas e reformistas nas fileiras do exército paquistanês atingiu ponto máximo de ebulição, com os extremistas islâmicos e seus aliados entre os militares agindo em uníssono para promover sua agenda antigoverno paquistanês e anti-EUA.” 

Depois de detalhado relato de casos de Jihadis infiltrados descobertos no exército paquistanês já há vários anos, muitos dos quais já condenados à morte e executados, a matéria conclui:

“Muitos anos depois, com Musharraf já longe e Bin Laden já morto, há fortes indicações de que extremistas islâmicos continuam infiltrados também nos baixos escalões das forças armadas e envolvidos em vários ataques mortais contra instalações militares do Paquistão. Daí nasce a pergunta de um bilhão de dólares: a infiltração de Jihadis nas forças armadas do Paquistão será maior do que se teme?”

Não há dúvidas de que prossegue, ao vivo, golpe da CIA no Paquistão – que estamos acompanhando ao vivo e em português, pela primeira vez na história desse país (e da CIA).

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Daniel Elsberg: “Precisamos conhecer imediatamente os “Documentos do Pentágono”, do Iraque, Afeganistão, Paquistão, Iêmen e Líbia”

40 anos depois do vazamento dos “Pentagon Papers” do Vietnã

Daniel Ellsberg
13/6/2011, Daniel Ellsberg, Guardian, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

A liberação e divulgação online da versão original integral dos Pentagon Papers (“Documentos do Pentágono”) – o relatório de 7 mil laudas, super secreto, elaborado pelo Pentágono, sobre as decisões tomadas pelos EUA no Vietnã no período 1945-67 – acontece agora, 40 anos depois que entreguei aquele mesmo relatório a 19 jornais e ao senador Mike Gravel (exceto os volumes sobre negociações, que só entreguei à Comissão de Relações Exteriores do Senado dos EUA). Gravel protocolizou no Congresso o material que lhe entreguei e mais tarde publicou praticamente tudo, em livro editado pela Beacon Press. 

Somado ao que a imprensa divulgou e a uma edição da imprensa oficial do governo dos EUA que foi pesadamente editada, mas coincide em boa parte com a edição do senador Gravel, praticamente todo aquele material já está à disposição da opinião pública e de estudiosos desde 1971. (Os volumes que contêm relatórios das negociações foram liberados há alguns anos; o Senado, se não o próprio Pentágono, deveria ter divulgado tudo, no mínimo, logo depois do final da guerra, em 1975.)

Em outras palavras, o fim do sigilo de todo aquele material chega com 36-40 anos de atraso. Mas, infelizmente, aquele estudo ainda chega em hora oportuna. Os EUA estão outra vez afogados em guerras – sobretudo no Afeganistão –, em situação espantosamente semelhante ao conflito de 30 anos no Vietnã, e ainda não há informação e análise comparáveis àquelas, que ajude os cidadãos a entender como e por que nos metemos lá e o que o futuro nos reserva.

Nesse junho de 2011, os EUA precisam, não de “Documentos do Pentágono” sobre o Vietnã, mas de “Documentos do Pentágono” sobre o Iraque, o Afeganistão, o Paquistão, o Iêmen e a Líbia.

É praticamente impossível que obtenhamos essa informação, que talvez nem exista, ou não, pelo menos, no formato compreensível e útil dos documentos sobre o Vietnã. Seja como for, os documentos sobre o Vietnã são substituto surpreendentemente útil para a informação que não temos hoje, e não há dúvida de que precisam ser conhecidos com a máxima profundidade possível.

Sim, as línguas e as etnias que os EUA não entendem são diferentes no Oriente Médio, das que encontramos no Vietnã; o clima, o terreno, as emboscadas possíveis são também muito diferentes. Mas, como os “Documentos do Pentágono” explicam muito bem, os EUA empenham-se outra vez, também no Afeganistão, em localizar e destruir guerrilhas e guerrilheiros nacionalistas, ou em tentar convencê-los a não atacar invasores e forças ocupantes estrangeiras (dessa vez, os EUA) e a parar de resistir contra déspotas locais corruptos, gananciosos, traficantes de drogas ou armas, que os EUA apóiam. 

Como no Vietnã, quanto mais soldados enviarmos e quanto mais inimigos os EUA matarem (além de civis inocentes), mais soldados perderemos e mais os guerrilheiros encontrarão solidariedade e apoio das populações locais – porque é a presença dos EUA, as operações secretas e não secretas, o apoio que os EUA dá a regimes sem qualquer legitimidade, que facilitam e dão força ao recrutamento de forças de resistência.

Quanto a Washington, os relatórios de repetidas decisões de ‘aprofundar’ a guerra que se leem nos “Documentos do Pentágono” são como versão antecipada do livro que Bob Woodward publicou ano passado Guerras de Obama [1], sobre as longas discussões que antecederam a decisão do presidente Obama, de triplicar o efetivo militar dos EUA no Afeganistão. (O livro de Woodward também é baseado em vazamento de informação altamente secreta. Infelizmente, toda aquela informação só veio à luz depois de as decisões terem sido tomadas, e sem a documentação oficial correspondente – que Woodward ou suas fontes muito bem fariam se entregassem imediatamente a WikiLeaks.)

Nesses dois conjuntos de relatórios secretos de duas guerras, separadas por 40 anos e um mundo de distância, leem-se sobre os mesmo objetivos autorreferentes, que interessam ao presidente e aos congressistas, de manter viva uma guerra que os EUA não podem vencer e jamais vencerão. O principal desses objetivos é não agir de modo a que os rivais políticos possam acusá-los de ‘fraqueza’, ou de ter perdido uma guerra que só alguns generais ensandecidos e irracionalmente ambiciosos ainda supõem que possam vencer. Se se somam as realidades da política e do campo de combates, vê-se que o futuro é sempre um mesmo impasse sangrento, sem fim – a menos que e até que, sob pressão popular, o Congresso ameace cortar o suprimento de dinheiro (como em 1972-73) e force o executivo a uma retirada negociada.

Para motivar os eleitores e o Congresso a nos arrancar dessas guerras presidenciais, precisamos conhecer, imediatamente, os “Documentos do Pentágono” sobre as guerras do Oriente Médio, e precisamos conhecê-los imediatamente. Não daqui a 40 anos. Não depois, sequer, de mais dois ou três anos de envolvimento em guerras injustificadas, injustificáveis e que os EUA não vencerão.

Contudo, nada sugere que os norte-americanos tenhamos acesso a esses documentos com a necessária urgência. Os vazamentos não autorizados, pela página WikiLeaks, do ano passado, são os primeiros, em 40 anos, que se aproximam à escala de vazamentos dos “Documentos do Pentágono” (e até os superam, na quantidade e no tempo que cobrem). 

Infelizmente porém, a corajosa fonte desses relatórios secretos, de material de campo – o cabo Bradley Manning é o único acusado, embora não haja até agora qualquer prova de que seja o autor dos vazamentos – não teve acesso às decisões secretas dos altos escalões, às avaliações, recomendações e decisões de comando político e militar de alto nível.

Muito poucos, pouquíssimos, dos que têm acesso àquele nível de informação manifestam qualquer interesse em arriscar suas autorização de segurança e suas carreiras – e é altíssima a possibilidade de que, sob o governo do presidente Obama, sejam acusados de traição e processados –, se denunciarem ao Congresso e à opinião pública nos EUA as políticas que mesmo eles, pessoalmente, consideram desastrosas, mas que são protegidas por alto sigilo e sobre as quais todos mentem à opinião pública. 

Houve tempo em que eu também – e de modo algum fui o único – tive acesso àquele nível de informação altamente secreta, quando fui assessor especial do secretário assistente de Defesa para assuntos de segurança internacional no Pentágono, em 1964-65. (Meu superior imediato, McNaughton, principal assistente de Robert McNamara para questões do Vietnã, tinha acesso também àqueles documentos, como se lê em seu diário pessoal recentemente publicado.)

Sempre lamentei que não me tivesse ocorrido, em agosto de 1964, a ideia de divulgar os documentos aos quais tinha acesso, e que teriam exposto a mentira oficial de que teria havido ataque “inequívoco, não provocado” (que jamais houve) contra nossos destróieres no Golfo de Tonkin: são os precursores da “evidência acima de qualquer dúvida” de que haveria armas de destruição em massa (que nunca existiram) no Iraque; com essa mentira, o Congresso foi mais uma vez manipulado, e aprovou resolução que é, em tudo, idêntica à resolução sobre o Golfo de Tonkin.

O senador Morse – um dos dois únicos senadores que votaram contra a autorização inconstitucional, cheque em branco, sem data, para a guerra presidencial de 1964 –, disse-me pessoalmente que, se eu lhe tivesse oferecido os documentos-provas naquele momento (em vez de só entregá-los em 1969): “A resolução sobre o Golfo de Tonkin jamais teria sido aprovada na Comissão; e se a discussão chegasse ao plenário, teria sido derrotada.”

É um peso que carrego, e que mais ainda pesa quando penso que, em setembro [de 1964], eu já tinha uma gaveta cheia de documentos super secretos (outra vez: que lamentavelmente não foram publicados até 1971) que provavam que a promessa de Johnson, na campanha eleitoral (“no wider war”, aproximadamente, “a guerra não será ampliada”) não foi feita para ser cumprida; que os planos para descumpri-la já estavam em andamento; e que, de fato, a decisão de ampliar a guerra já estava tomada antes das eleições, uma guerra que o próprio Johnson, privada e realistamente, considerava já perdida.

Se eu ou algum dos muitos agentes que, então, conhecíamos os mesmos segredos de alto nível que eu conhecia tivéssemos agido naquele momento, em nome do juramento que fizéramos – e ninguém jamais jurou obedecer cegamente o presidente em atos ilegais, nem guardar segredo no caso de o presidente descumprir, ele, o juramento que fez; todos nós e o presidente juramos exclusivamente “apoiar e defender a Constituição dos EUA” – é bem possível que aquela guerra terrível tivesse sido evitada. Mas, para que se pudesse pelo menos esperar que assim fosse, teríamos de ter divulgado os documentos quase em tempo real, quando as decisões estavam sendo tomadas, e antes de a guerra já ter sido ampliada – não cinco, sete, sequer dois anos depois de todas as mais fatídicas decisões estarem tomadas e de a guerra já estar em andamento.

Essa é uma terrível lição que se aprende ao ler os “Documentos do Pentágono” sobre o Vietnã, agora que já sabemos o que aconteceu depois. Hoje, a todos que trabalham no Pentágono, no Departamento de Estado, na Casa Branca, na CIA (e em agências equivalentes na Grã-Bretanha e em outros países da OTAN), e que têm, como eu tive, acesso equivalente ao que eu tive, a praticamente todos os segredos, digo o seguinte:

Não cometam o erro que eu cometi. Não façam o que eu fiz. Não esperem que comece uma nova guerra no Irã, não esperem que novas bombas tenham já matado mais gente no Afeganistão, no Paquistão, na Líbia, no Iraque ou no Iêmen. Não esperem que haja novos milhares de cadáveres. Procurem imediatamente a imprensa, o Congresso, e contem a verdade, e exibam as provas das mentiras, dos crimes, as projeções internas de custos e riscos. Não esperem 40 anos, para que os documentos sejam abertos ao conhecimento público. Não esperem, sequer, os sete anos que eu esperei. Divulguem imediatamente o que tenham em mãos e todos os documentos correspondentes.

Há graves riscos pessoais. Mas é absolutamente necessário evitar uma guerra e salvar muitas vidas.


Nota de tradução
[1] Sobre o livro, de um blog português de direita, Exílio de Andarilho:

“No seu mais recente livro, Woodward (Obama Wars) fala de Obama e da sua estratégia antiterrorista (indicando que os Estados Unidos estão preparados para receberem em casa um novo ataque terrorista) e no facto a América ter no Afeganistão uma unidade de comandos formada por cerca de 3.000 afegãos, treinados e financiados pela CIA, com a missão de limpar o país de unidades e comandos da Al Qaeda.
Mais que uma Força de Intervenção Rápida, a unidade de combate é uma unidade de guerra preemptiva autorizada pelo punho do Presidente Democrata e dirigida a cortar a atacar refúgios da Al Qaeda e dos talibã.
A revelação é muito curiosa (...). Antagonista dos métodos preemptivos da Administração Bush, durante toda a campanha eleitoral, Obama ter-se-á deixado seduzir – como realista que é – pela necessidade de sacrificar os princípios ‘bonitos’ à necessidade de resultados operacionais.
Como está bem de se ver, as unidades não estão propriamente no terreno para respeitar as leis da guerra e da paz que tanto alegram os nossos juristas internacionalistas, mas para matar terroristas
Curiosa será a explicação que Obama terá adiantado ao jornalista, para esta cedência “manifesta” aos métodos Rumsfeld com que Obama tanto se empertigou na sua campanha presidencial”

domingo, 17 de abril de 2011

Fraude e falsificação, receita do bancos nos EUA

Por Argemiro Ferreira

Bancos envolvidos na fraude
Já se teme até um novo choque imobiliário. Nos diferentes estados dos EUA, cada vez mais famílias norte-americanos enfrentam o risco de retomada de suas casas pelos bancos (entre eles, os gigantes Bank of America, Citibank, HSBC, Wells Fargo, Deutsche Bank, US Bank) por falta de pagamento de hipotecas. No domingo passado o jornalista Scott Pelley (foto abaixo, à direita) expôs no “60 Minutes” da rede CBS a questão crucial que passou a retardar a onda de retomadas em massa de casas.

Scott Pelley
Para comprá-las as pessoas tinham sido obrigadas pelos bancos a apresentar papelada rigorosamente em dia. Os bancos, no entanto, não cuidaram de sua própria papelada. Por causa do descuido são agora dezenas de milhares os casos de bancos e financeiras incapazes de localizar os documentos que provem estarem legalmente habilatados a retomar imóveis dos inadimplentes.

Ficou difícil saber quem é de fato dono de cada casa. A culpa pelo pesadelo, segundo Pelley, é a invenção em Wall Street, ainda sob a fúria desregulamentadora, dos investimentos garantidos por hipotecas – ou, na língua deles, mortgage-backed securities. Os mesmos “investimentos exóticos” que desencadearam o colapso financeiro nos EUA e continuam a criar problemas.
Também ouvida domingo passado, no final de “60 Minutes”, a própria presidente da reguladora bancária FDIC (Federal Deposit Insurance Corporation), Sheila Bair, foi enfática. Chamou a situação atual de “pervasive” – expressão que qualifica a influência nociva e perversa disseminada largamente pelos bancos.

Já atolados na lambança de fraudes e ilegalidade, os bancos ainda tropeçaram nos detalhes escabrosos devassados na reportagem da CBS. As revelações devem-se a personagem singular, Lynn E. Szymoniak. Enquanto tentava salvar a própria casa, ela fez descobertas. Wall Street usava computadores modernos para produzir a desastrosa securitização garantida por hipotecas, segundo Szymoniac, mas esqueceu de preservar documentos em papel, talvez temendo que retardassem o ritmo frenético de seus lucros.

Lynn E. Szymoniac
Ao levar Szymoniac (foto acima) ao tribunal como inadimplente, o banco credor dela teve de alegar perda dos papéis. Mais de um ano depois, misteriosamente, disse tê-los reencontrado. Não sabia que a moça, além de advogada, era investigadora de fraudes e especialista em documentos forjados (até treinara agentes do FBI). No exame dos papéis afinal apresentados pelo banco, Szymoniak achou primeiro uma discrepância de data: a compra da hipoteca pelo banco (17/10/2008) era posterior ao início do processo de retomada pelo banco (julho de 2008). Ou seja, quando o banco começou a ação de retomada não era dono da hipoteca.

Parecia sem sentido mas o que veio depois foi ainda mais estranho. Numa pesquisa online em 10 mil hipotecas, Szymoniak passou a devassar a orgia de fraudes bancárias. Havia milhares de documentos forjados. Grande número deles levava a assinatura de uma certa Linda Green como vice-presidente do banco. Green, que nunca na vida trabalhara em banco, assinava ao mesmo tempo como vice-presidente de 20 bancos.

Para Szymoniak as fraudes só podiam ser intencionais: na prática, ao encurtar caminhos e empacotar hipotecas em securities, Wall Street recorria a atalhos. Securities eram negociados e passavam de mão em mão, de investidor a investidor. E com a inadimplência de compradores, os bancos precisavam, para retomar os imóveis, exibir documentos que provassem a propriedade. “Mostre a prova de que é dono” passou a ser a resposta automática ao ataque dos bancos.

A dificuldade tornou-se então impossibilidade. Incapazes de provar a condição de donos das hipotecas, o que passaram a fazer bancos e financeiras? Optaram pela fraude múltipla e explícita. Um conjunto de procedimentos ilegais destinados a “fabricar” provas foi criado em seguida para, com elas, fundamentar-se a retomada de casas.

Linda Green
A pesquisa de Szymoniak aprofundou-se num caso específico – o da singular Linda Green (foto ao lado), que assinava como vice-presidente sem saber coisa alguma de banco. Localizada pela equipe da CBS, ela reconheceu: assinara milhares daqueles papéis. Admitiu ainda que muitas outras pessoas também contratadas assinavam o nome dela. E que qualidades especiais tinha para  ter sido escolhida? Morava na Georgia e tinha um nome curto, fácil e rápido para soletrar e escrever.

O empregador dela era a companhia DOCX, da Georgia, subsidiária da LPS, de US$2 bilhões, especializada em prestar serviços jurídicos a bancos provedores de hipoteca. Somente em 2009, devido à enxurrada de processos, a LPS resolveria fechar a DOCX, na esperança de assim por fim ao problema. Mas o estrago estava feito. Os bancos acharam ter se livrado do problema, transferindo-o para pessoas singelas e ingênuas como Green, sem consciência do que fizera a serviço deles.

A investigação de Szymoniak comprovou ainda que mais pessoas também assinavam, mesmo com letras bem diferentes, o nome de Green. A CBS chegou a elas. Muitas eram, na época em que tiveram o emprego, meras estudantes de escola secundária. Recebiam para passar horas no escritório forjando a assinatura “Linda Green”.

O jovem Cris Pendley (foto abaixo) era uma dessas pessoas. Ele explicou à equipe da CBS como fazia:  não tinha experiência bancária, só o que se exigia dele era velocidade para assinar o nome de Green o máximo de vezes possível. “Eles me garantiram antes que aquilo era estritamente legal”, disse. “Só teria de pegar a caneta e começar”. Em torno da mesma mesa dele trabalhavam ao todo 20 pessoas, todas dedicadas a igual tarefa da falsificação. Pendly chegava a fazer cinco mil assinaturas num mês.

Cris Pendley
Havia ainda notários, para atestar a identidade das pessoas e a autoria das assinaturas. Uma das que tinham o papel de notário explicou à CBS: “Antes eu não sabia, hoje sei. Era falso o que eu atestava como verdadeiro”. Mas os documentos resultantes da fraude foram usados. Com base neles tomavam-se imóveis com pagamentos em atraso.

“Foi prática rotineira nos últimos três anos”, contou na TV um especialista familiarizado com os procedimentos. Inundaram-se tribunais com papéis fraudados a serviço dos bancos. Algumas vezes sequer constava o nome de quem perdera a casa. Para o banco, mera irrelevância. Mas nos textos, hoje motivo de chacotas, faziam-se piadas de mau gosto, substituiam-se nomes por zombarias, etc.

Penldey revelou, envergonhado, que sua remuneração não passava de US$10 por hora de trabalho. Bem humorado e minucioso no relato franco da ação fraudulenta, contou ainda como certa vez fizera comentário jocoso com os colegas da mesa: “Temo que um dia acabemos todos numa reportagem do ‘60 Minutes’”.

Milhares de famílias que perderam as casas devido a tais fraudes não acham graça. Elas se organizam hoje em associações espalhadas pelos EUA. Nos dias atuais, toda pessoa que se torna alvo de foreclosure (retomada judicial) exige imediatamente do banco que mostre prova de propriedade. Com isso, muitas famílias ainda permanecem em suas casas.

Sheila Bair
Para a presidente da FDIC, Sheila Bair (foto ao lado), a enxurrada de ações judiciais dos compradores contra os bancos pode tornar o processo muito difícil, ao invés de melhorar a situação. E o presidente do FED, Ben Bernanke, acha que os documentos das hipotecas são tão ameaçadores para a economia americana que o governo devia forçar os bancos a pagar com um fundo especial.

O mercado de imóveis continua desestabilizado e os preços cairam nos últimos cinco meses. Sheila Bair também defende um fundo de  alguns bilhões de dólares para fazer a “limpeza”. Na proposta dela o fundo pagaria aos compradores para aceitarem a alegação de propriedade dos bancos, desistindo de novas ações judiciais. Seria menos oneroso para os bancos do que tentar recriar documentos legítimos, o que levaria mais tempo, a um custo muito maior.

Nenhum dos grandes bancos envolvidos nas fraudes concorda em falar sobre a questão. Nem a entidade deles, American Bankers Association. Para o jornalista Scott Pelley, eles estão na defensiva. Todos os Procuradores Gerais dos 50 estados planejam puní-los. Querem exigir deles US$ 50 bilhões pelos danos que causaram.

Não se sabe quantas firmas faziam para os bancos o mesmo trabalho sujo da DOCX. O FBI e vários estados investigam e esperam obter respostas. No último ano houve um milhão de retomadas de casas. Espera-se mais um milhão em 2011. E na Justiça tramitam incontáveis ações na tentativa de reverter os efeitos dos mortgage-backed securities que Wall Street manipulou e fraudou na década de 2000. “Estou muito preocupada, temendo que as coisas fiquem fora de controle, devido ao impacto trazido por esses fatos”, disse Bair.

(Clique no YouTube abaixo para ver, após comercial curto, a íntegra do “60 Minutes” da CBS)


Enviado por Beatrice

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Líbia: exposta afinal a negociata EUA-sauditas

Pepe Escobar

1/4/2010, Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Vocês invadem o Bahrain. Nós derrubamos Muammar Gaddafi na Líbia. Essa, em resumo, é a negociata acertada entre o governo de Barack Obama e a Casa de Saud. Duas fontes diplomáticas na ONU confirmaram, independentes uma da outra, que Washington, pela boca da secretária de Estado Hillary Clinton, deu sinal verde para que a Arábia Saudita invadisse o Bahrain e esmagasse o movimento pró-democracia no país vizinho, em troca de um voto “sim” da Liga Árabe para aprovar uma zona aérea de exclusão sobre a Líbia – único “fundamento” que levou à Resolução n. 1.973. 

As fontes são dois diplomatas, um europeu e outro de país BRICS; os dois falaram separadamente, a um professor e intelectual norte-americano e ao jornal Asia Times Online. Não terão seus nomes divulgados. Um dos diplomatas disse: “Por isso não era possível votar a favor da Resolução 1973. Acompanhávamos o argumento segundo o qual Líbia, Bahrain e Iêmen são casos similares; para nós, era preciso nomear missão de investigação para ir à Líbia. Mantemos nossa posição: entendemos que a resolução não é clara e pode ser interpretada na direção de mais beligerância.” 

Como Asia Times Online noticiou, é mito que toda a Liga Árabe teria aprovado a zona aérea de exclusão sobre a Líbia. Dos 22 membros plenos, só 11 votaram. Seis desses são membros do Conselho de Cooperação do Golfo, o clube de reinos/ditaduras do Golfo apoiados pelos EUA, dos quais a Arábia Saudita é o cão-chefe. A Síria e a Argélia votaram contra. A Arábia Saudita teve de dobrar apenas outros três membros, para obter o número necessário de votos presentes, e aprovar o que queria aprovar. 

Tradução: só 9, dos 22 membros da Liga Árabe votaram a favor da zona aérea de exclusão. A votação foi, de fato, operação conduzida pela Casa de Saud, com o secretário-geral da Liga Árabe Amr Moussa interessado em mostrar serviço a Washington, interessado em obter a presidência do Egito. 

E assim aconteceu que, um dia, houve um Grande Levante Árabe de 2011. E então, inexorável, desceu sobre ele a contrarrevolução comandada por EUA-sauditas. (...)

Digam o que disserem Barack Obama, Clinton e outros, nada alterará os fatos – resultado da suja dança do par EUA-Sauditas. Para saber quem lucra com a intervenção militar na Líbia, vide Não há business como a guerra-business”, Asia Times Online, 30/3/2011, em português. E acrescente àquela lista de beneficiários também a dinastia al-Khalifa no Bahrain, uma cesta sortida de fabricantes e mercadores de armas e todos os suspeitos neoliberais de sempre loucos para privatizar tudo que encontrem, na nova Líbia – até a água. E nem se falou até aqui dos abutres ocidentais que já sobrevoam a indústria de petróleo e gás da Líbia. 

Mas a mais surpreendente descoberta, de fato, é a extensão da hipocrisia do governo Obama. Pode-se dizer que nunca antes na história desse mundo vira-se governo dos EUA apresentar um descarado golpe geopolítico no norte da África e no Golfo Persa, como se fosse operação humanitária. E quanto a chamar a nova (mais uma!) guerra dos EUA contra nação muçulmana, de mera “ação militar cinética”? (...) 

Prendam os suspeitos de sempre

(...) Na Líbia, vê-se hoje um curioso desenvolvimento: a OTAN está permitindo o avanço das forças de Gaddafi ao longo da costa mediterrânea, deixando que façam recuar os “rebeldes”. Já há dois dias não há novos “ataques aéreos cirúrgicos”. 

O objetivo da OTAN é, provavelmente, chantagear também o Conselho Nacional de Transição [ing. Interim National Council (INC)] infestado de desertores líbios, inclusive um ex-ministro da Justiça Mustafa Abdel Jalil; o ex-secretário de planejamento Mahmoud Jibril; e o ex-morador de Virginia, vizinho da CIA nos EUA por 20 anos e “novo comandante militar” dos “rebeldes” Khalifa Hifter. O ingênuo, embora decente e louvável Movimento de Jovens 17 de Fevereiro – que começou o levante em Benghazi – foi completamente posto de lado. 

Aí está a primeira guerra africana da OTAN, como o Afeganistão foi a primeira guerra da OTAN no Centro/Sul da Ásia. Já firmemente configurado como braço armado da ONU, esse OTAN-Globalcop está em marcha, implementando o “conceito estratégico” que foi aprovado na cúpula de Lisboa em novembro passado vide Bem vindos ao OTANSTÃO”, 20/10/2010, Asia Times Online, em português. 

A Líbia de Gaddafi tem de ser varrida do mapa, para que o Mediterrâneo – o mare nostrum da antiga Roma – torne-se lago da OTAN. A Líbia é a única nação do norte da África não subordinada ao AFRICOM, ao CENTCOM ou a qualquer dos muitos “parceiros” da OTAN. Outras nações africanas não parceiras da OTAN são a Eritreia, A República Árabe Democrática Sawahiri, o Sudão e o Zimbabwe. 

Além do mais, dois membros da “Iniciativa Istambul de Cooperação” [ing. Istanbul Cooperation Initiative] da OTAN – o Qatar e os Emirados Árabes Unidos – combatem hoje ao lado do AFRICOM/OTAN, pela primeira vez. Tradução: parceiros da OTAN e do Golfo Persa fazem hoje guerra na África. A Europa? Provinciana demais. O Globalcop já deu as costas à Europa. 

No duplifalar oficial do governo Obama, há ditadores que podem contar com “o braço dos EUA” – por exemplo, o Bahrain e o Iêmen. Esses podem relaxar e fazer, na prática, virtualmente o que bem entenderem. Quanto aos candidatos a “alteração de regime”, na África, no Oriente Médio e na Ásia, esses, abram o olho. O OTAN-Globalcop vai pegar vocês. Com negociatas e acordos sujos, ou sem.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Bahrain: a mão (quase) invisível da contra-revolução

17/3/2011, *Nick Turse, Tom Dispatch Blog
  
Os homens que andavam pela rua pareciam homens comuns. Comuns, pelo menos, nesses dias de tumultos e protestos no Oriente Médio. Usavam tênis, calças jeans e camisetas de mangas compridas. Alguns exibiam a bandeira nacional. Muitos erguiam as mãos. Alguns exibiam dísticos de paz. Muitos cantavam “Em paz, em paz”.

À frente, os vídeos mostram soldados com coletes à prova de bala sentados na calçada à espera. Na véspera, as forças de segurança haviam forçado, com violência mortal, a dispersão dos manifestantes pró-democracia, expulsos da rotatória da Pérola na capital do Bahrain, Manama. À noite, os manifestantes voltaram, insistindo em fazer-se ouvir.

Ouve-se então, inconfundível, o crack-crack-crack de tiros, e os homens espalham-se. Muitos deles, mas não todos. Os vídeos mostram três que não conseguiram salvar-se. Um deles, em camisa azul clara e calças escuras recebeu, como se vê claramente, um tiro na cabeça. Nos instantes entre a câmera ir do corpo caído aos blindados e voltar, vê-se que se formou grande poça de sangue.

Mais tarde a organização Human Rights Watch informou que Redha Bu Hameed morreu instantaneamente, com uma bala na cabeça.

O incidente, do dia 18/2, foi um de uma série de atos de violência praticados pelas forças de segurança do Bahrain, que deixaram sete mortos e mais de 200 feridos no último mês. Jornalistas observaram que os manifestantes receberam tiros de balas revestidas de borracha e de festim, para intimidação, mas que também – como no caso do assassinato de Bu Hameed – de munição viva.

A bala que matou Bu Hameed foi paga pelos contribuintes norte-americanos e entregue às Forças de Defesa do Bahrain por militares norte-americanos. A relação que se manifesta nessa bala (e em muitas outras semelhantes) entre o Bahrain, país minúsculo, de maioria de muçulmanos xiitas governada por um rei sunita, e o Pentágono, é relação comprovadamente mais poderosa que todos os ideais democráticos norte-americanos e muito mais poderosa, também, que o presidente dos EUA.

Acompanhar a rota pela qual, balas fabricadas nos EUA chegam às metralhadoras e fuzis do ditador do Bahrain, armas usadas para matar manifestantes pró-democracia, é boa oportunidade para começar a entender as sinistras relações que unem o Pentágono e muitos ditadores no mundo árabe. Se se segue essa rota, vêem os modos pelos quais o Pentágono e aqueles países ricos em petróleo pressionaram a Casa Branca e a levaram a participar da repressão aos movimentos populares e democráticos que hoje varrem o grande Oriente Médio.

Balas e falcões linha-dura

Análise de documentos do Departamento da Defesa publicada em Tom Dispatch indica que, desde os anos 1990s, os EUA transferiram grande quantidade de material militar, de caminhões e aeronaves a peças de metralhadora e milhões de caixas de munição, para as forças de segurança do Bahrain.

Segundo dados da Agência de Cooperação para Segurança e Defesa [ing. Defense Security Cooperation Agency], braço do governo dos EUA que coordena vendas e transferência de equipamento militar para aliados, os EUA doaram ao Bahrain dúzias de itens da cota de “excesso” dos arsenais dos EUA de tanques, carros blindados para transporte de tropas e helicópteros armados. Os EUA também entregaram às Forças de Defesa do Bahrain milhares de pistolas calibre .38 e milhões de caixas de munição, desde as balas de mais alto calibre para canhões, até as menores, para pistolas e outras armas portáteis. Por exemplo, os EUA entregaram ao Bahrain balas calibre .50 – para rifles e metralhadoras – em quantidade suficiente para matar toda a população do reino (1.046.814, incluídos 517.368 estrangeiros, em 2008), um tiro por cabeça, quatro vezes. A Agência de Cooperação para Segurança e Defesa, procurada para esclarecer esses números, não respondeu a várias tentativas de contato.

Além desses presentes em armamento, munição e veículos de combate, o Pentágono, em ação coordenada com o Departamento da Defesa, também coordenou a venda ao Bahrain de itens e serviços de defesa no valor de mais de $386 milhões, nos anos 2007-9, os últimos três anos para os quais há registros. Esses negócios cobriram a compra-venda de inúmeras peças, de veículos a sistemas de armas. Só no último verão, por exemplo, o Pentágono anunciou contrato multimilionário com a empresa Sikorsky Aircraft para ‘personalizar’ nove helicópteros Black Hawk com as cores e dísticos da Força de Defesa do Bahrain.

“Os tiros vinham de um helicóptero” [1]

Dia 14/2, reprimindo com violência o protesto que não parava de crescer, as forças de segurança do Bahrain mataram um manifestante e feriram 25. Nos dias seguintes, de agitações incessantes, chegaram à Casa Branca notícias de que as tropas que sobrevoavam as ruas num helicóptero haviam atacado a tiros os manifestantes. (Autoridades do Bahrain desmentiram; disseram que as testemunhas haviam confundido as lentes de teleobjetiva das câmeras fotográficas, com armas.) O exército do Bahrain também abriu fogo contra ambulâncias que chegavam para recolher os feridos, e contra pessoas que se aglomeravam em torno dos feridos.

“Pedimos moderação do governo” – disse a secretária de Estado Hillary Clinton, no início dos ataques no Bahrain. “Exigimos a volta a um processo que levará a mudanças reais, significativas lá para o povo”. O presidente Obama falou ainda mais claramente sobre o estado de violência no Bahrain, na Líbia e no Iêmen: “Os EUA condenam o uso de violência por governos contra manifestantes pacíficos naqueles países e onde mais ocorra.”

Começaram a surgir notícias de que, nos termos de uma lei conhecida como “Emenda Leahy”, o governo estava revisando ativamente os programas de ajuda militar a várias unidades das forças de segurança do Bahrain, para definir os que seria cortados por violação a direitos humanos. “Há evidências agora de que houve abusos”, disse um veterano assessor do Congresso ao Wall Street Journal em resposta a vídeo que mostrava a violência policial e militar no Bahrain. “A questão é saber especificamente que unidades cometeram aqueles abusos e se algum item da assistência que damos a eles foram usados por essas unidades.”

Nas semanas subseqüentes, Washington suavizou muito visivelmente o tom. Segundo matéria recente de Julian Barnes e Adam Entous no Wall Street Journal, foi resultado de uma campanha de lobby dirigida aos altos oficiais no Pentágono e no não menos poderoso Departamento de Estado comandada por emissários do rei King Hamad bin Isa al-Khalifa do Bahrain e seus aliados no Oriente Médio. No final, o lobby árabe assegurou que, no que tenha a ver com o Bahrain, a Casa Branca não cogitaria de “mudança de regime”, como no Egito e na Tunísia, e adotaria uma estratégia de futura reforma política que alguns diplomatas chamam hoje de “alteração de regime”.

Os seis estados membros do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) são, além do Bahrain, o Kuwait, Omã, o Qatar, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, todos eles com extensas relações com o Pentágono. O CCG tratou de armar a Casa Branca, jogando com medos de que o Irã pudesse beneficiar-se, no caso de o Bahrain abraçar a democracia e que, com isso, se desestabilizaria toda a região de modo adverso ao que interessa às políticas de projeção de poder dos EUA. “Começando pelo Bahrain, todo o governo andou alguns passos na direção de dar mais peso à estabilidade do que ao governo da maioria”, nas palavras de funcionário dos EUA citado pelo Journal. “Todos entenderam que o Bahrain é importante demais para cair”.

Estranha frase, tão semelhante a “grande demais para falir”, que foi usada antes de o governo resgatar a gigante AIG de seguros e os grandes grupos financeiras como o Citigroup depois do derretimento econômico global de 2008. O Bahrain é, claro, uma minúscula ilha no Golfo Persa, mas é também o ninho da 5ª Frota Naval da Marinha dos EUA, equipamento bélico considerado crucialmente importante para o Pentágono na Região. É considerado via indispensável até a vizinha Arábia Saudita, posto de gasolina dos EUA no Golfo e, para Washington, importante demais para algum dia quebrar.

O relacionamento entre o Pentágono e os países do Conselho de Cooperação do Golfo tem sido pavimentado de vários modos sobre os quais pouco se fala na imprensa norte-americana. A ajuda militar é um desses fatores. Só o Bahrain levou para casa, ano passado, $20 milhões em assistência militar dos EUA. Em área vizinha, há o raramente comentado casamento triangular entre empresas contratadas pela Defesa, os estados do Golfo e o Pentágono. As seis nações do Golfo (acrescidas da Jordânia, parceira regional) devem gastar $70 bilhões em armamento e equipamentos, em 2010, e outros $80 bilhões por ano, até 2015. Dado que o Pentágono busca onde amarrar a viabilidade financeira dos fabricantes de armas em tempos de dificuldades econômicas, os bolsos fundos dos estados do Golfo ganharam especial importância.

A partir de outubro passado, o Pentágono começou suas operações secretas de lobby, junto a analistas de finanças e grandes investidores institucionais, promovendo os fabricantes de armas e outros de seus contratados, dos quais faz compras, para garantir que se mantenham financeiramente viáveis, considerados os cortes previstos nos gastos do Departamento de Defesa. Os Estados do Golfo são outra avenida que leva ao mesmo objetivo. Diz-se que o Pentágono é um “monopsônico”, único comprador de várias empresas gigantes, mas não é completa verdade.

O Pentágono é também a única via pela qual seus parceiros árabes no Golfo conseguem comprar o mais avançado equipamento bélico que há no mundo. Atuando como intermediário, o Pentágono garante que os fabricantes de armas dos quais depende continuem financeiramente estáveis. Um negócio de $60 bilhões com a Arábia Saudita, por exemplo, no outono passada, garantiu que Boeing, Lockheed-Martin e outras megaempresas que têm contratos com o Pentágono continuem saudáveis e lucrativas, mesmo se os gastos do Pentágono forem cortados ou se começarem a encolher, nos anos futuros. A dependência do Pentágono, do dinheiro do Golfo, contudo, tem um preço. O lobby árabe não encontrou dificuldades para explicar o quanto rapidamente aquela fonte secaria, se, sem mais nem menos, começasse a acontecer por lá cascatas de revoluções democráticas.

Aspecto ainda mais significativo do relacionamento entre os estados do Golfo e o Departamento de Defesa é o sinistro arquipélago de bases que há no Oriente Médio. Apesar de o Pentágono ocultar, mais ou menos completamente, conforme consiga, a existência de várias daquelas bases, e apesar de os países do Golfo em muitos casos ocultarem das populações locais a existência daquelas bases, os EUA mantêm bases militares na Arábia Saudita, nos Emirados Árabes Unidos, em Omã, no Qatar, no Kuwait e, claro, também no Bahrain – que abriga a 5ª Frota, cujas 30 naves de guerra, entre as quais dois porta-aviões, patrulham o Golfo Persa, o Mar da Arábia e o Mar Vermelho.

Rosquinhas sim, democracia não

Semana passada, manifestantes contra a monarquia do Bahrain reuniram-se à frente da embaixada em Manama, exibindo cartazes em que se lia “Parem de apoiar ditadores”, “Liberdade ou morte” e “O povo quer democracia”. Entre os manifestantes havia muitas mulheres.

Ludovic Hood, funcionário da embaixada dos EUA, segundo notícias divulgadas, ofereceu uma caixa de rosquinhas aos manifestantes. “Esses doces são boa ideia, mas esperamos que se traduzam em ações” – disse Mohammed Hassan, que usava o turbante branco dos clérigos; Zeinab al-Khawaja, uma das mulheres que liderava os protestos, disse a Al Jazeera que tinha esperança de que os EUA não se envolveriam nas lutas no Bahrain. “Queremos que os EUA não se metam. Nós podemos derrubar o regime”, disse ela.

Mas os EUA já estão profundamente envolvidos. Por um lado, dão rosquinhas. Por outro, helicópteros armados, carros blindados para transporte de tropas e milhões de balas – equipamentos que desempenharam papel importante nos recentes violentos confrontos.

Em meio à violência, a organização Human Rights Watch conclamou os EUA e outros de seus doadores internacionais a suspender imediatamente qualquer assistência militar ao Bahrain. O governo britânico anunciou que havia começado a revisar suas exportações militares, e a França suspendeu exportações de qualquer equipamento militar para o reino. O governo Obama, embora tenha iniciado revisão semelhante, não continuou. O dinheiro, que fala mais alto na política doméstica, também fala mais alto na política exterior. A campanha de lobby comandada pelo Pentágono e parceiros no Oriente Médio muito provavelmente derrotará qualquer movimento na direção de cortar exportações de armas, o que deixará os EUA, mais uma vez, em território seu velho conhecido – apoiando ditadores e governos antidemocráticos, que governam contra o próprio povo.

“Mesmo sem reexaminar todos os eventos das últimas três semanas, creio que a história acabará por registrar que, em todos os momentos na situação do Egito, nós sempre estivemos do lado certo da história” – o presidente Obama explicou depois de Hosni Mubarak, ditador do Egito, ter sido derrubado –, frase presunçosa, para dizer o mínimo, se se veem as mensagens ambíguas de seu governo, até que o fim do governo de Mubarak fosse fato consumado. Pois, em relação ao Bahrain, ninguém ouvirá, sequer, esse desanimado apoio a algum tipo de mudança.

Ano passado, a Marinha dos EUA e o governo do Bahrain organizaram imensa cerimônia para o lançamento de um projeto de construção numa área de marina, 70 acres, em Manama. Prevista para estar concluído em 2015, o projeto prevê novas instalações de porto, local para acampamento de tropas, prédios de administração, locais de alimentação, um centro recreativo, dentre outras amenidades, ao preço anunciado de $580 milhões. “O investimento no projeto da marina dará melhores condições de vida aos nossos marinheiros e parceiros da coalizão, por muitos anos futuros” – disse o tenente comandante Keith Benson, à época, do contingente da Marinha do Bahrain. “Esse projeto significa a continuidade de nossas relações e de nossa mútua confiança, da amizade e da camaradagem que ligam as forças navais dos EUA e do Bahrain.”

De fato, esse tipo de “camaradagem” parece mais poderosa que o compromisso do presidente dos EUA, de apoiar mudanças pacíficas, democráticas, naquela região rica em petróleo. Depois da deposição de Mubarak, Obama disse que “a força moral da não violência, não o terrorismo, não a matança, mas a não violência, a força moral, que tensiona hoje o arco da história em direção à justiça, mais uma vez”. O Pentágono, segundo o Wall Street Journal, decidiu tensionar também o arco da história em outra direção – contra os manifestantes pró-democracia no Bahrain. As íntimas relações que mantém com mercadores de armas e ditaduras árabes, costuradas por grandes negócios com empresas fornecedoras e bases militares semiclandestinas explicam por quê.

Funcionários da Casa Branca dizem que seu apoio à monarquia do Bahrain não é incondicional e que contam com que haverá reformas reais. Que reformas serão, depende, claro, do que o Pentágono decida. Não por acaso, semana passada, um alto funcionário dos EUA visitou o Bahrain. Não era diplomata. Não fez qualquer contato com a oposição. (Nem, que fosse, para uma foto encomendada oferecendo rosquinhas.) O secretário da Defesa Robert Gates viajou para falar como rei Hamad bin Isa al-Khalifa [na foto deste post, os dois, num encontro anterior, em 2008] e com o príncipe coroado Salman bin Hamad al-Khalifa para, disse o secretário de imprensa do Pentágono, Geoff Morrell, “reafirmar nosso apoio”.

“Estou convencido de que ambos estão seriamente comprometidos com andar em frente e promover reformas” – disse Gates, depois. Simultaneamente, reergueu o espectro do Irã. Afirmando que o regime iraniano estaria fomentando os protestos, Gates disse que “há provas claras de que o processo está sendo manipulado – sobretudo no Bahrain –, de que os iranianos procuram meios para explorar e criar problemas.”

O secretário da Defesa expressou sua simpatia por os governantes do Bahrain, que estariam “entre a espada e a montanha” e outros funcionários disseram que as manifestações de rua impossibilitavam que se entabulasse melhor diálogo com grupos moderados da oposição. “Acho que o governo precisa que todos parem, respirem fundo e abram espaço para que algum diálogo prossiga” – disse ele. No final, disse aos jornalistas que a perspectiva de os EUA manterem bases militares no Bahrain eram sólidas. “Não vejo qualquer sinal de que nossa presença venha a ser afetada, nem no curto nem no médio prazo” – acrescentou Gates.

Imediatamente depois da visita de Gates, o Conselho de Cooperação do Golfo, ostensivamente, enviou tropas sauditas para o Bahrain, para por fim aos protestos. Puxado pelo cabresto pelo Pentágono e parceiros no lobby árabe, o governo Obama jogou todo o seu peso do lado das forças antidemocráticas do Bahrain. Já não há nem o recurso de alguma ambiguidade retórica, para impedir que se veja de que lado da história, de fato, está.

Enviado pelo Blog OUTRAS PALAVRAS  
Tradução Outras Palavras/Vila Vudu

Nota de tradução
[1] “Ouviam-se manifestantes que gritavam “Estão atirando! Tiros! Tiros!”. Os militares estavam atirando. Muitos tiros – de prédios em volta, de um helicóptero e da rua em frente aos manifestantes” (New York Times, em 8/2/2011, Security Forces in Bahrain Open Fire on Protesters )

*Nick Turse é historiador, ensaísta, jornalista investigativo e editor associado do sítio Tom Dispatch.com atualmente lecionando no Harvard University’s  Radcliffe Institute. Seu ultimo livro é The Case for Withdrawal from Afghanistan (Verso Books). É também autor de The Complex: How the Military Invades Our Everyday Lives.
Pode ser seguido pelo Twitter em : @NickTurseem Tumblr, e no Facebook.