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domingo, 1 de julho de 2012

A vida privada de Assange usada para tentar ocultar o grande triunfo de WikiLeaks


1/7/2012, Patrick Cockburn, The Independent
Traduzido pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu

Patrick Cockburn
A partir do momento em que Julian Assange conseguiu evitar a prisão, buscando refúgio na embaixada do Equador em Knightsbridge, escapando assim de ser extraditado para a Suécia, e provavelmente, em seguida, para os EUA, os jornalistas, colunistas e comentaristas britânicos tornaram-no alvo da mais escandalosa agressão. Parecem babar de ódio, enquanto repetem os mais mesquinhos “exemplos” de uma pressuposta grosseria, pressuposto egoísmo e aparência pressuposta “péssima”, como se o que dizem fosse verdade e, por ser escrito pelos que escrevem, como se tratasse de crimes imperdoáveis.

O que se lê na imprensa britânica fala, uma vez mais, muito mais do convencionalismo e do instinto de manada dos formadores britânicos de opinião, do que de Assange. O que passa sem ser noticiado, em toda a cobertura, é o quase inacreditável sucesso do fundador de WikiLeaks, que conseguiu publicar documentos do governo dos EUA, os quais, publicados, permitiram que muitos, em todo o mundo, começassem a saber como realmente agem seus governos. Que os eleitores conheçam, precisamente, esse tipo de fato é a alma da democracia, porque os eleitores têm de ser bem informados, para que consigam eleger representantes que de dediquem a fazer “governo do povo, pelo povo e para o povo”.

Graças a WikiLeaks, a opinião pública teve acesso a mais informação sobre o que fazem pelo mundo os EUA e seus aliados do que nunca antes, em toda a história da imprensa ocidental. O único momento semelhante a esse que me vem à mente foi a publicação, pelos bolcheviques vitoriosos em 1917, de tratados secretos, incluindo planos da Grã-Bretanha e da França, para ocupar o Oriente Médio [1].

Julian Assange
Paralelo mais fácil foi a publicação dos Papéis do Pentágono, graças a Daniel Ellsberg em 1971, que revelaram as sistemáticas mentiras do governo Johnson sobre o Vietnã. Como se fez contra Assange, Ellsberg foi massacrado pela imprensa e pelo governo dos EUA, que o ameaçou com as mais severas penas.

Aspecto extraordinário da campanha contra Assange é que jornalistas, colunistas e “especialistas” sentem-se perfeitamente livres para publicar milhares de palavras sobre alegadas faltas de Assange, sem que se leia qualquer indignação contra os crimes de Estado, infinitamente mais graves, que WikiLeaks revelou ao mundo.

Os críticos e os leitores que concordam com eles deveriam, antes de falar, assistir a 17 minutos de um filme divulgado por WikiLeaks, filmado pela tripulação de um helicóptero Apache, sobre um bairro na parte leste de Bagdá, dia 12/7/2007. Mostra a tripulação do helicóptero matando, a rajadas de metralhadora, pessoas que se veem no solo, e que os soldados norte-americanos dizem supor que fossem guerrilheiros armados. Examinando o filme, não consigo ver arma alguma. O que teria sido tomado por arma, em mãos de um dos mortos, foi depois identificado como câmera de filmagem que estava sendo usada por Namir Noor-Eldeen, jovem fotógrafo da agência Reuters, morto, com o motorista também a serviço da Reuters, Saeed Chmagh. O vídeo mostra o helicóptero voltando para um segundo ataque, dessa vez contra uma caminhonete que parou para recolher os cadáveres e os feridos. O motorista dessa caminhonete também foi morto, e duas crianças foram feridas. "Há-há-há! Acertei eles!” – grita, em triunfo, um dos soldados norte-americanos. “Olhem só os filhos da puta mortos!”

Eu estava em Bagdá quando a matança aconteceu e lembro que, no momento, nem eu nem outros jornalistas que lá estavam acreditamos no que o Pentágono informou, que todos eram guerrilheiros armados. Mas não havia como provar que o Pentágono mentira. Rebeldes armados não estariam conversando na esquina, com helicópteros dos EUA à vista. Logo se soube que havia um vídeo da matança, mas o Departamento de Defesa recusou-se terminantemente a divulgá-lo, nem quando se invocou a Lei da Liberdade de Informar [orig. Freedom of Information Act]. A versão oficial nunca pôde ser desmentida, até que o vídeo chegasse a WikiLeaks, enviado, parece, por um soldado dos EUA, Bradley Manning. WikiLeaks publicou o vídeo em 2010. [2]

Os telegramas diplomáticos que chegaram a WikiLeaks foram publicados adiante, no mesmo ano, em cinco jornais –The New York Times, The Guardian, Le Monde, Der Spiegel e El País – mas a resposta ao trabalho de Assange foi surpreendentemente mesquinha. Os jornalistas pareceram ter ficado furiosos por seu campo de caça privativo ter sido invadido por um nerd australiano, que fizera o trabalho que os jornalistas não haviam feito. Na Grã-Bretanha, o colunariato das empresas jornalísticas é clube notoriamente fechado, conservador e hostil a quem chegue de outros contextos culturais, com diferentes normas políticas.

Mas nem isso bastaria para explicar que toda a mídia planetária declarasse aberta a temporada de caça a Assange. Para que isso acontecesse, foi preciso que aparecessem acusações de que Assange seria autor de estupro na Suécia. Acusações de estupro destroem qualquer reputação, por mais frágeis que sejam as provas e mesmo que não haja prova alguma. Assange nunca conseguiu recuperar-se completamente daquelas acusações.

Quanto à sugestão de que ele estaria exagerando o risco de ser extraditado da Suécia para os EUA, é parte da caçada: quem, em sã consciência se exporia a algum acaso, mesmo que com 5% de probabilidades de deixar-se meter-se num voo para a Suécia que poderia levá-lo a sentença de 40 anos de cadeia nos EUA?

Muitos jornalistas e comentaristas agarraram-se ao argumento oficial de que os vazamentos teriam “posto vidas em risco”. Esse lobby começou a fracassar e a calar em 2011, quando funcionários do Pentágono tiveram de reconhecer, extraoficialmente, que não havia qualquer prova de que alguém tivesse sido ferido ou morto por causa dos vazamentos.

Bradley Manning
Resposta melhor seria que WikiLeaks nada revelou de realmente secreto; e que os documentos aos quais o cabo Manning teve acesso não eram classificados como secretos. Outro bom argumento de defesa ouvi de um diplomata dos EUA em Cabul, onde eu estava na época da publicação. Disse ele: “Não há segredo algum a ser divulgado por WikiLeaks, porque os “segredos” já foram vazados pela Casa Branca, Pentágono ou Departamento de Estado, que não souberam proteger os próprios documentos sigilosos, se fossem sigilosos”.

Na prática, os documentos publicados por WikiLeaks são exclusivamente e vastamente informativos sobre o que os EUA fazem e sobre o que os EUA pensam sobre o mundo no qual vivemos. Por exemplo, há um telegrama enviado da embaixada dos EUA em Cabul, em 2009, no qual o primeiro-ministro é descrito como “indivíduo paranoico e fraco, sem qualquer familiaridade com o básico da construção nacional”. [3]

Especialistas em Afeganistão comentaram que os defeitos de Karzai absolutamente não eram segredo ou novidade para ninguém. Deixaram de comentar que ali se ouvia a opinião de diplomatas norte-americanos experientes, falando sobre um homem que os norte-americanos e os britânicos estavam matando e morrendo, não para tirar do poder, mas para manter no poder.

Todos os governos são hipócritas, em maior ou menor medida, e há grande distância entre o que dizem em público e no privado.

Quando o povo exige transparência democrática em ações ou políticas gerais, o Estado e os governos fingem que enfrentam demandas por total transparência, que tornaria inviável qualquer governança efetiva.

A rapidez com que convertem demandas razoáveis em demandas alucinadas visa, quase sempre, a ocultar algum fracasso ou a defender o monopólio do poder.

Karzai e Obama
Naquele caso, os EUA desejavam manter secreta bem mais que uma opinião negativa sobre Karzai, principal aliado local dos EUA. O real segredo que os EUA desejavam manter secreto é que não tinham qualquer parceiro confiável no Afeganistão e que, portanto, a guerra contra os Talibã tinha de ser dada por antecipadamente perdida.

Assange e WikeLeaks não desmascararam alguma incoerência, na opinião de um ou outro embaixador. Desmascararam a duplicidade de julgamentos para justificar a insistência dos EUA em prosseguir guerras fracassadas, nas quais morrem dezenas de milhares. Informações recentes mostram que esse tipo de segredo e o sigilo oficiais, com a ajuda empenhada de jornalistas “incorporados” às tropas, muitas vezes geram exatamente os resultados que se esperam deles.

No Iraque, nos meses anteriores à eleição presidencial de 2004 nos EUA, muitas embaixadas estrangeiras em Bagdá sabiam e informavam que os EUA só controlavam porções ínfimas de território, em país hostil. Mas o governo Bush conseguiu persuadir do contrário os eleitores norte-americanos: que estaria combatendo e vencendo uma batalha para instalar a democracia, contra os restos do regime de Saddam Hussein e seguidores de Osama bin Laden.

O controle da informação pelo Estado e a capacidade de manipular a informação, servindo-se para isso da imprensa-empresa, tornam sem sentido, na prática, o direito democrático de votar. Por isso os povos precisam muito de gente como Assange: para dar sentido, novamente, ao voto democrático.
 
Notas dos tradutores


[1] A publicação desses tratados secretos foi dos primeiros atos do governo revolucionário bolchevique. Foram publicados dia 17/11/1917, por ordem de Trotsky, então Comissário do Povo para Assuntos Internacionais. Em 26/2/1922, o New York Times publicou matéria sobre eles em: EUROPE'S SECRET TREATIES. Em resumo acessível hoje dessas notícias, lê-se: “Desconfiança reina na Europa. Rússia revela os Tratados Secretos. Confiança nos EUA segue inabalável”.

 

[2] Os que não conheçam podem comprovar assistindo as cenas terríveis no vídeo que se segue:


[3] WikiLeaks “Diplomatic Cables”, Tuesday, 07 July 2009, 13:29 - S E C R E T SECTION 01 OF 03 KABUL 001767/ SIPDIS EO 12958 DECL: 07/03/2019 / TAGS PGOV, PREL, AF SUBJECT: KARZAI ON THE STATE OF US-AFGHAN RELATIONS – The Guardian, UK, em: US embassy cables: Karzai feared US intended to unseat him and weaken Afghanistan

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Daniel Elsberg: “Precisamos conhecer imediatamente os “Documentos do Pentágono”, do Iraque, Afeganistão, Paquistão, Iêmen e Líbia”

40 anos depois do vazamento dos “Pentagon Papers” do Vietnã

Daniel Ellsberg
13/6/2011, Daniel Ellsberg, Guardian, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

A liberação e divulgação online da versão original integral dos Pentagon Papers (“Documentos do Pentágono”) – o relatório de 7 mil laudas, super secreto, elaborado pelo Pentágono, sobre as decisões tomadas pelos EUA no Vietnã no período 1945-67 – acontece agora, 40 anos depois que entreguei aquele mesmo relatório a 19 jornais e ao senador Mike Gravel (exceto os volumes sobre negociações, que só entreguei à Comissão de Relações Exteriores do Senado dos EUA). Gravel protocolizou no Congresso o material que lhe entreguei e mais tarde publicou praticamente tudo, em livro editado pela Beacon Press. 

Somado ao que a imprensa divulgou e a uma edição da imprensa oficial do governo dos EUA que foi pesadamente editada, mas coincide em boa parte com a edição do senador Gravel, praticamente todo aquele material já está à disposição da opinião pública e de estudiosos desde 1971. (Os volumes que contêm relatórios das negociações foram liberados há alguns anos; o Senado, se não o próprio Pentágono, deveria ter divulgado tudo, no mínimo, logo depois do final da guerra, em 1975.)

Em outras palavras, o fim do sigilo de todo aquele material chega com 36-40 anos de atraso. Mas, infelizmente, aquele estudo ainda chega em hora oportuna. Os EUA estão outra vez afogados em guerras – sobretudo no Afeganistão –, em situação espantosamente semelhante ao conflito de 30 anos no Vietnã, e ainda não há informação e análise comparáveis àquelas, que ajude os cidadãos a entender como e por que nos metemos lá e o que o futuro nos reserva.

Nesse junho de 2011, os EUA precisam, não de “Documentos do Pentágono” sobre o Vietnã, mas de “Documentos do Pentágono” sobre o Iraque, o Afeganistão, o Paquistão, o Iêmen e a Líbia.

É praticamente impossível que obtenhamos essa informação, que talvez nem exista, ou não, pelo menos, no formato compreensível e útil dos documentos sobre o Vietnã. Seja como for, os documentos sobre o Vietnã são substituto surpreendentemente útil para a informação que não temos hoje, e não há dúvida de que precisam ser conhecidos com a máxima profundidade possível.

Sim, as línguas e as etnias que os EUA não entendem são diferentes no Oriente Médio, das que encontramos no Vietnã; o clima, o terreno, as emboscadas possíveis são também muito diferentes. Mas, como os “Documentos do Pentágono” explicam muito bem, os EUA empenham-se outra vez, também no Afeganistão, em localizar e destruir guerrilhas e guerrilheiros nacionalistas, ou em tentar convencê-los a não atacar invasores e forças ocupantes estrangeiras (dessa vez, os EUA) e a parar de resistir contra déspotas locais corruptos, gananciosos, traficantes de drogas ou armas, que os EUA apóiam. 

Como no Vietnã, quanto mais soldados enviarmos e quanto mais inimigos os EUA matarem (além de civis inocentes), mais soldados perderemos e mais os guerrilheiros encontrarão solidariedade e apoio das populações locais – porque é a presença dos EUA, as operações secretas e não secretas, o apoio que os EUA dá a regimes sem qualquer legitimidade, que facilitam e dão força ao recrutamento de forças de resistência.

Quanto a Washington, os relatórios de repetidas decisões de ‘aprofundar’ a guerra que se leem nos “Documentos do Pentágono” são como versão antecipada do livro que Bob Woodward publicou ano passado Guerras de Obama [1], sobre as longas discussões que antecederam a decisão do presidente Obama, de triplicar o efetivo militar dos EUA no Afeganistão. (O livro de Woodward também é baseado em vazamento de informação altamente secreta. Infelizmente, toda aquela informação só veio à luz depois de as decisões terem sido tomadas, e sem a documentação oficial correspondente – que Woodward ou suas fontes muito bem fariam se entregassem imediatamente a WikiLeaks.)

Nesses dois conjuntos de relatórios secretos de duas guerras, separadas por 40 anos e um mundo de distância, leem-se sobre os mesmo objetivos autorreferentes, que interessam ao presidente e aos congressistas, de manter viva uma guerra que os EUA não podem vencer e jamais vencerão. O principal desses objetivos é não agir de modo a que os rivais políticos possam acusá-los de ‘fraqueza’, ou de ter perdido uma guerra que só alguns generais ensandecidos e irracionalmente ambiciosos ainda supõem que possam vencer. Se se somam as realidades da política e do campo de combates, vê-se que o futuro é sempre um mesmo impasse sangrento, sem fim – a menos que e até que, sob pressão popular, o Congresso ameace cortar o suprimento de dinheiro (como em 1972-73) e force o executivo a uma retirada negociada.

Para motivar os eleitores e o Congresso a nos arrancar dessas guerras presidenciais, precisamos conhecer, imediatamente, os “Documentos do Pentágono” sobre as guerras do Oriente Médio, e precisamos conhecê-los imediatamente. Não daqui a 40 anos. Não depois, sequer, de mais dois ou três anos de envolvimento em guerras injustificadas, injustificáveis e que os EUA não vencerão.

Contudo, nada sugere que os norte-americanos tenhamos acesso a esses documentos com a necessária urgência. Os vazamentos não autorizados, pela página WikiLeaks, do ano passado, são os primeiros, em 40 anos, que se aproximam à escala de vazamentos dos “Documentos do Pentágono” (e até os superam, na quantidade e no tempo que cobrem). 

Infelizmente porém, a corajosa fonte desses relatórios secretos, de material de campo – o cabo Bradley Manning é o único acusado, embora não haja até agora qualquer prova de que seja o autor dos vazamentos – não teve acesso às decisões secretas dos altos escalões, às avaliações, recomendações e decisões de comando político e militar de alto nível.

Muito poucos, pouquíssimos, dos que têm acesso àquele nível de informação manifestam qualquer interesse em arriscar suas autorização de segurança e suas carreiras – e é altíssima a possibilidade de que, sob o governo do presidente Obama, sejam acusados de traição e processados –, se denunciarem ao Congresso e à opinião pública nos EUA as políticas que mesmo eles, pessoalmente, consideram desastrosas, mas que são protegidas por alto sigilo e sobre as quais todos mentem à opinião pública. 

Houve tempo em que eu também – e de modo algum fui o único – tive acesso àquele nível de informação altamente secreta, quando fui assessor especial do secretário assistente de Defesa para assuntos de segurança internacional no Pentágono, em 1964-65. (Meu superior imediato, McNaughton, principal assistente de Robert McNamara para questões do Vietnã, tinha acesso também àqueles documentos, como se lê em seu diário pessoal recentemente publicado.)

Sempre lamentei que não me tivesse ocorrido, em agosto de 1964, a ideia de divulgar os documentos aos quais tinha acesso, e que teriam exposto a mentira oficial de que teria havido ataque “inequívoco, não provocado” (que jamais houve) contra nossos destróieres no Golfo de Tonkin: são os precursores da “evidência acima de qualquer dúvida” de que haveria armas de destruição em massa (que nunca existiram) no Iraque; com essa mentira, o Congresso foi mais uma vez manipulado, e aprovou resolução que é, em tudo, idêntica à resolução sobre o Golfo de Tonkin.

O senador Morse – um dos dois únicos senadores que votaram contra a autorização inconstitucional, cheque em branco, sem data, para a guerra presidencial de 1964 –, disse-me pessoalmente que, se eu lhe tivesse oferecido os documentos-provas naquele momento (em vez de só entregá-los em 1969): “A resolução sobre o Golfo de Tonkin jamais teria sido aprovada na Comissão; e se a discussão chegasse ao plenário, teria sido derrotada.”

É um peso que carrego, e que mais ainda pesa quando penso que, em setembro [de 1964], eu já tinha uma gaveta cheia de documentos super secretos (outra vez: que lamentavelmente não foram publicados até 1971) que provavam que a promessa de Johnson, na campanha eleitoral (“no wider war”, aproximadamente, “a guerra não será ampliada”) não foi feita para ser cumprida; que os planos para descumpri-la já estavam em andamento; e que, de fato, a decisão de ampliar a guerra já estava tomada antes das eleições, uma guerra que o próprio Johnson, privada e realistamente, considerava já perdida.

Se eu ou algum dos muitos agentes que, então, conhecíamos os mesmos segredos de alto nível que eu conhecia tivéssemos agido naquele momento, em nome do juramento que fizéramos – e ninguém jamais jurou obedecer cegamente o presidente em atos ilegais, nem guardar segredo no caso de o presidente descumprir, ele, o juramento que fez; todos nós e o presidente juramos exclusivamente “apoiar e defender a Constituição dos EUA” – é bem possível que aquela guerra terrível tivesse sido evitada. Mas, para que se pudesse pelo menos esperar que assim fosse, teríamos de ter divulgado os documentos quase em tempo real, quando as decisões estavam sendo tomadas, e antes de a guerra já ter sido ampliada – não cinco, sete, sequer dois anos depois de todas as mais fatídicas decisões estarem tomadas e de a guerra já estar em andamento.

Essa é uma terrível lição que se aprende ao ler os “Documentos do Pentágono” sobre o Vietnã, agora que já sabemos o que aconteceu depois. Hoje, a todos que trabalham no Pentágono, no Departamento de Estado, na Casa Branca, na CIA (e em agências equivalentes na Grã-Bretanha e em outros países da OTAN), e que têm, como eu tive, acesso equivalente ao que eu tive, a praticamente todos os segredos, digo o seguinte:

Não cometam o erro que eu cometi. Não façam o que eu fiz. Não esperem que comece uma nova guerra no Irã, não esperem que novas bombas tenham já matado mais gente no Afeganistão, no Paquistão, na Líbia, no Iraque ou no Iêmen. Não esperem que haja novos milhares de cadáveres. Procurem imediatamente a imprensa, o Congresso, e contem a verdade, e exibam as provas das mentiras, dos crimes, as projeções internas de custos e riscos. Não esperem 40 anos, para que os documentos sejam abertos ao conhecimento público. Não esperem, sequer, os sete anos que eu esperei. Divulguem imediatamente o que tenham em mãos e todos os documentos correspondentes.

Há graves riscos pessoais. Mas é absolutamente necessário evitar uma guerra e salvar muitas vidas.


Nota de tradução
[1] Sobre o livro, de um blog português de direita, Exílio de Andarilho:

“No seu mais recente livro, Woodward (Obama Wars) fala de Obama e da sua estratégia antiterrorista (indicando que os Estados Unidos estão preparados para receberem em casa um novo ataque terrorista) e no facto a América ter no Afeganistão uma unidade de comandos formada por cerca de 3.000 afegãos, treinados e financiados pela CIA, com a missão de limpar o país de unidades e comandos da Al Qaeda.
Mais que uma Força de Intervenção Rápida, a unidade de combate é uma unidade de guerra preemptiva autorizada pelo punho do Presidente Democrata e dirigida a cortar a atacar refúgios da Al Qaeda e dos talibã.
A revelação é muito curiosa (...). Antagonista dos métodos preemptivos da Administração Bush, durante toda a campanha eleitoral, Obama ter-se-á deixado seduzir – como realista que é – pela necessidade de sacrificar os princípios ‘bonitos’ à necessidade de resultados operacionais.
Como está bem de se ver, as unidades não estão propriamente no terreno para respeitar as leis da guerra e da paz que tanto alegram os nossos juristas internacionalistas, mas para matar terroristas
Curiosa será a explicação que Obama terá adiantado ao jornalista, para esta cedência “manifesta” aos métodos Rumsfeld com que Obama tanto se empertigou na sua campanha presidencial”

sábado, 1 de janeiro de 2011

O dia em que Daniel Ellsberg (“Pentagon Papers”) encontrou Paulo Coelho [1] no Twitter

(e os dois se uniram para defender Assange e WikiLeaks)

13/12/2010, The Atlantic, The Day Daniel Ellsberg Met Paulo Coehlo on Twitter
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Não passa um dia sem que eu encontre gente interessante no Twitter. Muitos desses encontros viram boas amizades ou parceiros de trabalho. Mas jamais imaginei que acontecesse o mesmo com gente realmente famosa. Isso, até eu tropeçar numa rápida troca de mensagens entre Daniel Ellsberg (o homem que vazou os “Pentagon Papers”) e o romancista brasileiro Paulo Coehlo [sic]. Depois de se encontrarem no Twitter, gravaram uma entrevista em solidariedade a Assange e de apoio a WikiLeaks. Eis aí como tudo aconteceu.


MENSAGEM NO TWITTER
When Daniel Met Paulo / by alexismadrigal,
De PAULO COELHO:
Amanhã vou assistir a “Daniel Ellsberg, o homem mais perigoso da América (filme indicado para o Oscar 2010 ) 
#wikileaks paulocoelho 8/12/2010, 23:02

MENSAGEM RESPOSTA-RETWITTADA
De DANIEL ELLSBERG:
Tomara que vc goste! RT @paulocoelho: Amanhã vou assistir a “Daniel Ellsberg, o homem mais perigoso da América "
DanielEllsberg 8/12/2010, 23:12

O homem mais perigoso da América” (a entrevista filmada, no Blog do Paulo Coelho, com o seguinte comentário:
Grande entrevista, grande homem, grande exemplo a ser seguido por todos que se preocupam com o mundo em que vivemos.

MENSAGENS DE DANIEL ELLSBERG, pelo Twitter:
Obrigado, @paulocoelho, estou honrado. Como podemos nos falar? Vamos acertar um modo de apoiar @wikileaks juntos
DanielEllsberg, 8/12/2010, 23:23
@paulocoelho e eu fizemos contato hoje. Planejamos um modo de agir juntos para apoiar @wikileaks e Assange
DanielEllsberg, 9/12/2010, 0:11

MENSAGENS DE PAULO COELHO, pelo Twitter:
“O homem mais perigoso da América” (como disse Kissinger) @DanielEllsberg e eu, vamos gravar uma entrevista, essa semana, a favor de #WIKILEAKS
Paulo Coelho, 13/12/2010, 14:42.
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Nota de tradução
[1] No original, pra quem queira procurar: “The Day Daniel Ellsberg Met Paulo Coehlo (sic) on Twitter”