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domingo, 11 de março de 2012

O problema xiita da Arábia Saudita


7/3/2012, Toby Matthiesen, The Middle East Channel
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Toby Matthiesen é pesquisador associado em Estudos Islâmicos e do Oriente Médio, na Universidade de Cambridge.


Pelo menos sete jovens muçulmanos xiitas foram mortos e dezenas de outros foram feridos por forças de segurança no leste da Arábia Saudita, nos últimos meses. Embora não haja detalhes dos confrontos, e o Ministério do Interior alegue que todos foram feridos ou mortos depois de atacarem forças da segurança, em todos os casos houve protestos de massa depois dos funerais. Esses são só os eventos mais recentes da luta dos xiitas sauditas, que se arrasta por décadas, e que ganhou nova urgência no contexto dos levantes regionais de 2011 – mas que permanece em vasta medida ignorada pela imprensa local dominante e ocidental em geral.

Hilária e o Rei...
Os eventos da Primavera Árabe fizeram despertar e crescer tensões que persistem há muito tempo na Província do Leste, na Arábia Saudita. Apenas três dias depois de os protestos em larga escala começarem no Bahrain, dia 14/2/2011, começaram os protestos também na Província do Leste, distante do Bahrain apenas 30 minutos, de carro, pela ponte. Talvez não surpreendentemente, o Ministério do Interior saudita decidiu esmagar os protestos com “mão de ferro” e iniciou campanha de desqualificação-ocultação contra os protestos e os xiitas em geral. Durante o verão os protestos diminuíram, mas recomeçaram em outubro e, desde então, só têm aumentado, o que tem levado a resposta ainda mais pesada, pelas forças de segurança.

Essa resposta repressiva, com ecos retóricos diferentes, se comparada ao que se ouve sobre o regime sírio de Bashar al-Assad, impõe desafio perigoso à recente política externa dos sauditas. Os protestos populares na Província do Leste são tão legítimos quanto os protestos na Síria. Se a Arábia Saudita não responder àqueles clamores por reformas em casa, como poderá esperar merecer algum crédito quando se declara defensora da democracia na Síria? A violência na Arábia Saudita e no Bahrain deu aos regimes iraniano e sírio, assim como aos movimentos políticos no Líbano e Iraque, um útil trunfo retórico a ser usado contra seus rivais regionais.


Na Província do Leste está virtualmente todo o petróleo da Arábia Saudita, além de uma considerável minoria xiita estimada em entre 1,5 milhão e 2 milhões de habitantes, cerca de 10% da população da Arábia Saudita. O credo Wahhabi dos islâmicos sunitas que o Estado abraça na Arábia Saudita desenvolveu hostilidade especial contra os xiitas. Os cidadãos sauditas xiitas, por sua vez, há muito tempo protestam contra a discriminação de suas práticas religiosas, nos empregos públicos e no comércio, e contra a marginalização em geral.

Por décadas, grupos de oposição formados por xiitas sauditas, grupos de esquerda e islamistas, além de centenas de petições assinadas por xiitas notáveis, repetem as mesmas demandas: fim da discriminação sectária nos empregos públicos e representação nos principais setores do estado, inclusive no plano ministerial; mais desenvolvimento para as áreas xiitas; fortalecimento do judiciário xiita; e fim das prisões de xiitas por razões religiosas e políticas. Nenhuma dessas demandas, se atendida, comprometeria significativamente a posição da família real, ou ameaçaria, de qualquer outro modo, a integridade da Arábia Saudita. Atendidas essas demandas, todo o atual sistema político ganharia solidez, e seria possível pensar em atrair para o regime a solidariedade, ou no mínimo a simpatia, de 2 milhões de xiitas que vivem literalmente em cima de todo o petróleo do reino.

Desde o ano passado, as demandas passaram a incluir a libertação de nove prisioneiros políticos xiitas e a retirada do Bahrain das forças sauditas, ou pelo menos, uma solução negociada para aquele conflito, além de reformas políticas mais gerais na Arábia Saudita. O governo prometeu aos jovens ativistas que suas dificuldades seriam examinadas em abril de 2011 e, depois de um pedido de respeitados clérigos sauditas xiitas, para que suspendessem os protestos, os jovens concordaram. Mas o governo nada fez do que prometera, e respondeu com mais repressão depois do verão, embora tenha libertado alguns dos que haviam sido presos durante os protestos de fevereiro a abril de 2011. A situação, portanto, permaneceu tensa, e quando quatro xiitas foram mortos em novembro, seus funerais transformaram-se em protestos contra o regime que reuniram mais de 100 mil manifestantes.

A percepção de discriminação sistemática tem levado alguns xiitas sauditas a abraçar ideologias revolucionárias, na verdade, há décadas. Embora existam grupos pró-Irã entre os xiitas do Golfo, não são os mais poderosos entre os xiitas sauditas, e a maioria já renunciou à luta armada como instrumento político desde, no mínimo, meados dos anos 1990s. Mas a resposta repressiva do regime saudita aos protestos, e a política de concessões zero, têm oferecido campo fértil para novos grupos da oposição. Uma repetição da política xiita pós-1979, quando centenas de jovens xiitas deixaram o Bahrain e a Província do Leste da Arábia Saudita, parece possível.

Dado que os protestos no Bahrain e, sobretudo, em Qatif recebem atenção mínima dos canais de televisão que pertencem a sauditas do Golfo, como Al Jazeera e Al Arabiya, os sauditas são obrigados a assistir ao canal Al-Alande televisão, em árabe, patrocinado pelo Irã; à televisão do Hezbollah libanês, Al-Manar TV; ao canal iraquiano Ahlul Bait TV ou, cada vez mais, a outros canais de televisão pró-Assad, para obter informação sobre as regiões onde vivem. 

A nova guerra fria no Oriente Médio está já convertida em guerra total de informação, na qual os veículos de mídia ou são a favor da oposição no Bahrain e em Qatif e a favor do regime de Assad, ou são a favor da oposição na Síria e contra os chamados protestos sectários dos xiitas no Bahrain e em Qatif.

A situação dos xiitas sauditas na Província do Leste não é novidade. O Relatório Anual do Departamento de Estado dos EUA ao Congresso sobre Liberdade Religiosa para a segunda metade de 2010, período imediatamente anterior à Primavera Árabe, registra prisões arbitrárias, fechamento de mesquitas e prisão de crentes xiitas. Telegramas diplomáticos dos EUA publicados por Wikileaks  [1] revelaram que diplomatas dos EUA, e especialmente o pessoal do consulado em Dhahran, tinham quantidade gigantesca de informação sobre as comunidades xiitas locais e escrevem, quase como obcecados, sobre agressões às quais se referem como inadmissíveis. Mas os problemas específicos dos xiitas sauditas quase nunca chegavam à pauta de reuniões com funcionários sauditas de alto nível.

Isso não se explica exclusivamente pela cerrada aliança que liga os EUA e os sauditas. Os norte-americanos às vezes partilham as mesmas desconfianças sauditas contra os xiitas do Golfo, os quais existem em vários dos regimes aliados aos EUA. A desconfiança deve-se em parte à questão do Irã, mas tem a ver também com as explosões nas Torres Khobar, um complexo residencial na cidade de Dhahran, na Província do Leste, onde residiam militares norte-americanos, incidente no qual morreram 19 militares norte-americanos. Nove xiitas permanecem presos desde 1996, acusados de pertencerem ao Hezbollah al-Hijaz, por participação naquele atentado. Foram acusados formalmente nos EUA em 2001, mas, porque as prioridades da política exterior dos EUA mudaram depois do 11/9, tornaram-se “esquecidos” – que é como os xiitas sauditas referem-se a eles. Na acusação, há referências ao envolvimento do Hezbollah libanês e do Irã no atentado, mas nenhuma prova desse envolvimento foi jamais divulgada. À época, alguns norte-americanos exigiram ataque de retaliação contra o Irã. Mas depois do 11/9, todas as acusações centraram-se contra a al-Qaeda como responsável pelo ataque às Torres Khobar, o que levantou dúvidas quanto à culpa daqueles prisioneiros xiitas.

O sigilo que cerca toda essa questão tem contribuído para aumentar a desconfiança e as suspeitas contra o estado, de parte das famílias dos prisioneiros e na comunidade saudita xiita em geral. Os manifestantes sauditas xiitas que tomaram as ruas esse ano abraçaram a causa dos nove xiitas prisioneiros. Havia cartazes com seus retratos e nomes em manifestações que pediam sua imediata libertação, nas quais os familiares dos presos tiveram papel importante. Foram a contrapartida xiita de uma campanha simultânea, à frente do Ministério do Interior em Riad, organizada por familiares dos prisioneiros políticos presos por suspeita de associação com a al-Qaeda. Mas, diferentes desses prisioneiros, os prisioneiros xiitas não acalentam qualquer esperança de serem “reabilitados” por qualquer dos vários programas governamentais, fartamente propagandeados, de des-radicalização. Parece justo exigir, no mínimo, julgamento público, exigência que tem sido repetidas vezes endossada pelas ONGs Human Rights Watch e Anistia Internacional. Mas nada semelhante a julgamento aberto parece estar incluído na agenda da política exterior dos EUA.

O comportamento da liderança saudita só empurra para a conclusão de que a repressão contra os xiitas é parte fundamental da legitimidade política dos sauditas. O estado saudita não quer alterar a posição dos xiitas e usa os protestos xiitas para intimidar a população sunita, ameaçando-a com o risco de os iranianos tomarem os campos de petróleo sauditas com a ajuda dos xiitas locais. 

Narrativas similares têm sido distribuídas pela imprensa do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) há meses – ao custo de aprofundar cada vez mais a divisão sectária nos estados do Golfo. A intervenção do CCG no Bahrain fez piorar muito as relações entre as seitas no Golfo e além dele, as quais chegam hoje a níveis de confrontação nunca mais vistos desde a Revolução Iraniana. Mas esse declarado sectarismo saudita já teve repercussões negativas também no Iraque, na Síria, no Líbano e no Kuwait. O Bahrain parece já condenado a anos de conflito sectário; as relações comunitárias já estão completamente rompidas; e o estado está desenvolvendo uma campanha que, para os ativistas xiitas, é “limpeza étnica”.

Em vez de alienar completamente os xiitas, a Arábia Saudita e o Bahrain teriam de negociar com eles um contrato social. Não o fazer levará a muitos anos de instabilidade, com resultados imprevisíveis. E nada garante que outros sauditas não sejam cooptados e estimulados pelos protestos dos xiitas, como já se viu acontecer em recente declaração-manifesto de liberais sauditas de todo o reino, denunciando a violência sectária contra os xiitas, em Qatif.

O ocidente teria de pressionar seus aliados, sobretudo a Arábia Saudita e o Bahrain, para que, de uma vez por todas, parem de matar e prender seus cidadãos xiitas, sempre os acusando de serem agentes a serviço do Irã e traidores. A alienação dos jovens xiitas cria perfeito caldo de cultura para que brote outro movimento xiita de oposição no Golfo, e reforça a posição relativa do regime iraniano. Mesmo sem qualquer ajuda externa aos manifestantes xiitas locais, a área está madura para uma volta à política tensa de relações sectárias dos anos 1980s.

Em seu próprio interesse e no interesse dos estados do Golfo, os EUA deveriam empenhar-se na direção de uma real reconciliação entre os xiitas do Bahrain e da Arábia Saudita e seus respectivos governos. Sem isso, o sectarismo acabará por dominar o Golfo, com prejuízo para todos.

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Nota dos tradutores

quinta-feira, 17 de março de 2011

Bahrain: a mão (quase) invisível da contra-revolução

17/3/2011, *Nick Turse, Tom Dispatch Blog
  
Os homens que andavam pela rua pareciam homens comuns. Comuns, pelo menos, nesses dias de tumultos e protestos no Oriente Médio. Usavam tênis, calças jeans e camisetas de mangas compridas. Alguns exibiam a bandeira nacional. Muitos erguiam as mãos. Alguns exibiam dísticos de paz. Muitos cantavam “Em paz, em paz”.

À frente, os vídeos mostram soldados com coletes à prova de bala sentados na calçada à espera. Na véspera, as forças de segurança haviam forçado, com violência mortal, a dispersão dos manifestantes pró-democracia, expulsos da rotatória da Pérola na capital do Bahrain, Manama. À noite, os manifestantes voltaram, insistindo em fazer-se ouvir.

Ouve-se então, inconfundível, o crack-crack-crack de tiros, e os homens espalham-se. Muitos deles, mas não todos. Os vídeos mostram três que não conseguiram salvar-se. Um deles, em camisa azul clara e calças escuras recebeu, como se vê claramente, um tiro na cabeça. Nos instantes entre a câmera ir do corpo caído aos blindados e voltar, vê-se que se formou grande poça de sangue.

Mais tarde a organização Human Rights Watch informou que Redha Bu Hameed morreu instantaneamente, com uma bala na cabeça.

O incidente, do dia 18/2, foi um de uma série de atos de violência praticados pelas forças de segurança do Bahrain, que deixaram sete mortos e mais de 200 feridos no último mês. Jornalistas observaram que os manifestantes receberam tiros de balas revestidas de borracha e de festim, para intimidação, mas que também – como no caso do assassinato de Bu Hameed – de munição viva.

A bala que matou Bu Hameed foi paga pelos contribuintes norte-americanos e entregue às Forças de Defesa do Bahrain por militares norte-americanos. A relação que se manifesta nessa bala (e em muitas outras semelhantes) entre o Bahrain, país minúsculo, de maioria de muçulmanos xiitas governada por um rei sunita, e o Pentágono, é relação comprovadamente mais poderosa que todos os ideais democráticos norte-americanos e muito mais poderosa, também, que o presidente dos EUA.

Acompanhar a rota pela qual, balas fabricadas nos EUA chegam às metralhadoras e fuzis do ditador do Bahrain, armas usadas para matar manifestantes pró-democracia, é boa oportunidade para começar a entender as sinistras relações que unem o Pentágono e muitos ditadores no mundo árabe. Se se segue essa rota, vêem os modos pelos quais o Pentágono e aqueles países ricos em petróleo pressionaram a Casa Branca e a levaram a participar da repressão aos movimentos populares e democráticos que hoje varrem o grande Oriente Médio.

Balas e falcões linha-dura

Análise de documentos do Departamento da Defesa publicada em Tom Dispatch indica que, desde os anos 1990s, os EUA transferiram grande quantidade de material militar, de caminhões e aeronaves a peças de metralhadora e milhões de caixas de munição, para as forças de segurança do Bahrain.

Segundo dados da Agência de Cooperação para Segurança e Defesa [ing. Defense Security Cooperation Agency], braço do governo dos EUA que coordena vendas e transferência de equipamento militar para aliados, os EUA doaram ao Bahrain dúzias de itens da cota de “excesso” dos arsenais dos EUA de tanques, carros blindados para transporte de tropas e helicópteros armados. Os EUA também entregaram às Forças de Defesa do Bahrain milhares de pistolas calibre .38 e milhões de caixas de munição, desde as balas de mais alto calibre para canhões, até as menores, para pistolas e outras armas portáteis. Por exemplo, os EUA entregaram ao Bahrain balas calibre .50 – para rifles e metralhadoras – em quantidade suficiente para matar toda a população do reino (1.046.814, incluídos 517.368 estrangeiros, em 2008), um tiro por cabeça, quatro vezes. A Agência de Cooperação para Segurança e Defesa, procurada para esclarecer esses números, não respondeu a várias tentativas de contato.

Além desses presentes em armamento, munição e veículos de combate, o Pentágono, em ação coordenada com o Departamento da Defesa, também coordenou a venda ao Bahrain de itens e serviços de defesa no valor de mais de $386 milhões, nos anos 2007-9, os últimos três anos para os quais há registros. Esses negócios cobriram a compra-venda de inúmeras peças, de veículos a sistemas de armas. Só no último verão, por exemplo, o Pentágono anunciou contrato multimilionário com a empresa Sikorsky Aircraft para ‘personalizar’ nove helicópteros Black Hawk com as cores e dísticos da Força de Defesa do Bahrain.

“Os tiros vinham de um helicóptero” [1]

Dia 14/2, reprimindo com violência o protesto que não parava de crescer, as forças de segurança do Bahrain mataram um manifestante e feriram 25. Nos dias seguintes, de agitações incessantes, chegaram à Casa Branca notícias de que as tropas que sobrevoavam as ruas num helicóptero haviam atacado a tiros os manifestantes. (Autoridades do Bahrain desmentiram; disseram que as testemunhas haviam confundido as lentes de teleobjetiva das câmeras fotográficas, com armas.) O exército do Bahrain também abriu fogo contra ambulâncias que chegavam para recolher os feridos, e contra pessoas que se aglomeravam em torno dos feridos.

“Pedimos moderação do governo” – disse a secretária de Estado Hillary Clinton, no início dos ataques no Bahrain. “Exigimos a volta a um processo que levará a mudanças reais, significativas lá para o povo”. O presidente Obama falou ainda mais claramente sobre o estado de violência no Bahrain, na Líbia e no Iêmen: “Os EUA condenam o uso de violência por governos contra manifestantes pacíficos naqueles países e onde mais ocorra.”

Começaram a surgir notícias de que, nos termos de uma lei conhecida como “Emenda Leahy”, o governo estava revisando ativamente os programas de ajuda militar a várias unidades das forças de segurança do Bahrain, para definir os que seria cortados por violação a direitos humanos. “Há evidências agora de que houve abusos”, disse um veterano assessor do Congresso ao Wall Street Journal em resposta a vídeo que mostrava a violência policial e militar no Bahrain. “A questão é saber especificamente que unidades cometeram aqueles abusos e se algum item da assistência que damos a eles foram usados por essas unidades.”

Nas semanas subseqüentes, Washington suavizou muito visivelmente o tom. Segundo matéria recente de Julian Barnes e Adam Entous no Wall Street Journal, foi resultado de uma campanha de lobby dirigida aos altos oficiais no Pentágono e no não menos poderoso Departamento de Estado comandada por emissários do rei King Hamad bin Isa al-Khalifa do Bahrain e seus aliados no Oriente Médio. No final, o lobby árabe assegurou que, no que tenha a ver com o Bahrain, a Casa Branca não cogitaria de “mudança de regime”, como no Egito e na Tunísia, e adotaria uma estratégia de futura reforma política que alguns diplomatas chamam hoje de “alteração de regime”.

Os seis estados membros do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) são, além do Bahrain, o Kuwait, Omã, o Qatar, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, todos eles com extensas relações com o Pentágono. O CCG tratou de armar a Casa Branca, jogando com medos de que o Irã pudesse beneficiar-se, no caso de o Bahrain abraçar a democracia e que, com isso, se desestabilizaria toda a região de modo adverso ao que interessa às políticas de projeção de poder dos EUA. “Começando pelo Bahrain, todo o governo andou alguns passos na direção de dar mais peso à estabilidade do que ao governo da maioria”, nas palavras de funcionário dos EUA citado pelo Journal. “Todos entenderam que o Bahrain é importante demais para cair”.

Estranha frase, tão semelhante a “grande demais para falir”, que foi usada antes de o governo resgatar a gigante AIG de seguros e os grandes grupos financeiras como o Citigroup depois do derretimento econômico global de 2008. O Bahrain é, claro, uma minúscula ilha no Golfo Persa, mas é também o ninho da 5ª Frota Naval da Marinha dos EUA, equipamento bélico considerado crucialmente importante para o Pentágono na Região. É considerado via indispensável até a vizinha Arábia Saudita, posto de gasolina dos EUA no Golfo e, para Washington, importante demais para algum dia quebrar.

O relacionamento entre o Pentágono e os países do Conselho de Cooperação do Golfo tem sido pavimentado de vários modos sobre os quais pouco se fala na imprensa norte-americana. A ajuda militar é um desses fatores. Só o Bahrain levou para casa, ano passado, $20 milhões em assistência militar dos EUA. Em área vizinha, há o raramente comentado casamento triangular entre empresas contratadas pela Defesa, os estados do Golfo e o Pentágono. As seis nações do Golfo (acrescidas da Jordânia, parceira regional) devem gastar $70 bilhões em armamento e equipamentos, em 2010, e outros $80 bilhões por ano, até 2015. Dado que o Pentágono busca onde amarrar a viabilidade financeira dos fabricantes de armas em tempos de dificuldades econômicas, os bolsos fundos dos estados do Golfo ganharam especial importância.

A partir de outubro passado, o Pentágono começou suas operações secretas de lobby, junto a analistas de finanças e grandes investidores institucionais, promovendo os fabricantes de armas e outros de seus contratados, dos quais faz compras, para garantir que se mantenham financeiramente viáveis, considerados os cortes previstos nos gastos do Departamento de Defesa. Os Estados do Golfo são outra avenida que leva ao mesmo objetivo. Diz-se que o Pentágono é um “monopsônico”, único comprador de várias empresas gigantes, mas não é completa verdade.

O Pentágono é também a única via pela qual seus parceiros árabes no Golfo conseguem comprar o mais avançado equipamento bélico que há no mundo. Atuando como intermediário, o Pentágono garante que os fabricantes de armas dos quais depende continuem financeiramente estáveis. Um negócio de $60 bilhões com a Arábia Saudita, por exemplo, no outono passada, garantiu que Boeing, Lockheed-Martin e outras megaempresas que têm contratos com o Pentágono continuem saudáveis e lucrativas, mesmo se os gastos do Pentágono forem cortados ou se começarem a encolher, nos anos futuros. A dependência do Pentágono, do dinheiro do Golfo, contudo, tem um preço. O lobby árabe não encontrou dificuldades para explicar o quanto rapidamente aquela fonte secaria, se, sem mais nem menos, começasse a acontecer por lá cascatas de revoluções democráticas.

Aspecto ainda mais significativo do relacionamento entre os estados do Golfo e o Departamento de Defesa é o sinistro arquipélago de bases que há no Oriente Médio. Apesar de o Pentágono ocultar, mais ou menos completamente, conforme consiga, a existência de várias daquelas bases, e apesar de os países do Golfo em muitos casos ocultarem das populações locais a existência daquelas bases, os EUA mantêm bases militares na Arábia Saudita, nos Emirados Árabes Unidos, em Omã, no Qatar, no Kuwait e, claro, também no Bahrain – que abriga a 5ª Frota, cujas 30 naves de guerra, entre as quais dois porta-aviões, patrulham o Golfo Persa, o Mar da Arábia e o Mar Vermelho.

Rosquinhas sim, democracia não

Semana passada, manifestantes contra a monarquia do Bahrain reuniram-se à frente da embaixada em Manama, exibindo cartazes em que se lia “Parem de apoiar ditadores”, “Liberdade ou morte” e “O povo quer democracia”. Entre os manifestantes havia muitas mulheres.

Ludovic Hood, funcionário da embaixada dos EUA, segundo notícias divulgadas, ofereceu uma caixa de rosquinhas aos manifestantes. “Esses doces são boa ideia, mas esperamos que se traduzam em ações” – disse Mohammed Hassan, que usava o turbante branco dos clérigos; Zeinab al-Khawaja, uma das mulheres que liderava os protestos, disse a Al Jazeera que tinha esperança de que os EUA não se envolveriam nas lutas no Bahrain. “Queremos que os EUA não se metam. Nós podemos derrubar o regime”, disse ela.

Mas os EUA já estão profundamente envolvidos. Por um lado, dão rosquinhas. Por outro, helicópteros armados, carros blindados para transporte de tropas e milhões de balas – equipamentos que desempenharam papel importante nos recentes violentos confrontos.

Em meio à violência, a organização Human Rights Watch conclamou os EUA e outros de seus doadores internacionais a suspender imediatamente qualquer assistência militar ao Bahrain. O governo britânico anunciou que havia começado a revisar suas exportações militares, e a França suspendeu exportações de qualquer equipamento militar para o reino. O governo Obama, embora tenha iniciado revisão semelhante, não continuou. O dinheiro, que fala mais alto na política doméstica, também fala mais alto na política exterior. A campanha de lobby comandada pelo Pentágono e parceiros no Oriente Médio muito provavelmente derrotará qualquer movimento na direção de cortar exportações de armas, o que deixará os EUA, mais uma vez, em território seu velho conhecido – apoiando ditadores e governos antidemocráticos, que governam contra o próprio povo.

“Mesmo sem reexaminar todos os eventos das últimas três semanas, creio que a história acabará por registrar que, em todos os momentos na situação do Egito, nós sempre estivemos do lado certo da história” – o presidente Obama explicou depois de Hosni Mubarak, ditador do Egito, ter sido derrubado –, frase presunçosa, para dizer o mínimo, se se veem as mensagens ambíguas de seu governo, até que o fim do governo de Mubarak fosse fato consumado. Pois, em relação ao Bahrain, ninguém ouvirá, sequer, esse desanimado apoio a algum tipo de mudança.

Ano passado, a Marinha dos EUA e o governo do Bahrain organizaram imensa cerimônia para o lançamento de um projeto de construção numa área de marina, 70 acres, em Manama. Prevista para estar concluído em 2015, o projeto prevê novas instalações de porto, local para acampamento de tropas, prédios de administração, locais de alimentação, um centro recreativo, dentre outras amenidades, ao preço anunciado de $580 milhões. “O investimento no projeto da marina dará melhores condições de vida aos nossos marinheiros e parceiros da coalizão, por muitos anos futuros” – disse o tenente comandante Keith Benson, à época, do contingente da Marinha do Bahrain. “Esse projeto significa a continuidade de nossas relações e de nossa mútua confiança, da amizade e da camaradagem que ligam as forças navais dos EUA e do Bahrain.”

De fato, esse tipo de “camaradagem” parece mais poderosa que o compromisso do presidente dos EUA, de apoiar mudanças pacíficas, democráticas, naquela região rica em petróleo. Depois da deposição de Mubarak, Obama disse que “a força moral da não violência, não o terrorismo, não a matança, mas a não violência, a força moral, que tensiona hoje o arco da história em direção à justiça, mais uma vez”. O Pentágono, segundo o Wall Street Journal, decidiu tensionar também o arco da história em outra direção – contra os manifestantes pró-democracia no Bahrain. As íntimas relações que mantém com mercadores de armas e ditaduras árabes, costuradas por grandes negócios com empresas fornecedoras e bases militares semiclandestinas explicam por quê.

Funcionários da Casa Branca dizem que seu apoio à monarquia do Bahrain não é incondicional e que contam com que haverá reformas reais. Que reformas serão, depende, claro, do que o Pentágono decida. Não por acaso, semana passada, um alto funcionário dos EUA visitou o Bahrain. Não era diplomata. Não fez qualquer contato com a oposição. (Nem, que fosse, para uma foto encomendada oferecendo rosquinhas.) O secretário da Defesa Robert Gates viajou para falar como rei Hamad bin Isa al-Khalifa [na foto deste post, os dois, num encontro anterior, em 2008] e com o príncipe coroado Salman bin Hamad al-Khalifa para, disse o secretário de imprensa do Pentágono, Geoff Morrell, “reafirmar nosso apoio”.

“Estou convencido de que ambos estão seriamente comprometidos com andar em frente e promover reformas” – disse Gates, depois. Simultaneamente, reergueu o espectro do Irã. Afirmando que o regime iraniano estaria fomentando os protestos, Gates disse que “há provas claras de que o processo está sendo manipulado – sobretudo no Bahrain –, de que os iranianos procuram meios para explorar e criar problemas.”

O secretário da Defesa expressou sua simpatia por os governantes do Bahrain, que estariam “entre a espada e a montanha” e outros funcionários disseram que as manifestações de rua impossibilitavam que se entabulasse melhor diálogo com grupos moderados da oposição. “Acho que o governo precisa que todos parem, respirem fundo e abram espaço para que algum diálogo prossiga” – disse ele. No final, disse aos jornalistas que a perspectiva de os EUA manterem bases militares no Bahrain eram sólidas. “Não vejo qualquer sinal de que nossa presença venha a ser afetada, nem no curto nem no médio prazo” – acrescentou Gates.

Imediatamente depois da visita de Gates, o Conselho de Cooperação do Golfo, ostensivamente, enviou tropas sauditas para o Bahrain, para por fim aos protestos. Puxado pelo cabresto pelo Pentágono e parceiros no lobby árabe, o governo Obama jogou todo o seu peso do lado das forças antidemocráticas do Bahrain. Já não há nem o recurso de alguma ambiguidade retórica, para impedir que se veja de que lado da história, de fato, está.

Enviado pelo Blog OUTRAS PALAVRAS  
Tradução Outras Palavras/Vila Vudu

Nota de tradução
[1] “Ouviam-se manifestantes que gritavam “Estão atirando! Tiros! Tiros!”. Os militares estavam atirando. Muitos tiros – de prédios em volta, de um helicóptero e da rua em frente aos manifestantes” (New York Times, em 8/2/2011, Security Forces in Bahrain Open Fire on Protesters )

*Nick Turse é historiador, ensaísta, jornalista investigativo e editor associado do sítio Tom Dispatch.com atualmente lecionando no Harvard University’s  Radcliffe Institute. Seu ultimo livro é The Case for Withdrawal from Afghanistan (Verso Books). É também autor de The Complex: How the Military Invades Our Everyday Lives.
Pode ser seguido pelo Twitter em : @NickTurseem Tumblr, e no Facebook.  


quarta-feira, 16 de março de 2011

Líbios e o xeque do Bahrain: “rock’n roll” de sabres

Pepe Escobar

17/3/2011, Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O ocidente “ilustrado” acaba de enviar mensagem ao povo líbio rebelde: as forças de Muammar Gaddafi terão de acabar com a raça de vocês, num mar de sangue, antes que o pessoal aqui decida alguma coisa. E mesmo que decidamos, será tarde demais. Desculpem. Foi mau. 

Quanto ao rei dos reis, teve de aumentar o gás para tomar aqueles pilares da inércia burocrática – a ONU, a União Europeia, a Liga Árabe; agora, está em marcha batida, depois de Ajdabiya já ter praticamente caído, apenas a 150 quilômetros de Benghazi, numa estrada de deserto praticamente vazia. O leste libertado da Líbia está batido, sovado e enrolado, assando, com sabre e tudo. 

Gaddafi disse que o ocidente blefava – e está ganhando a aposta. Riu do fracasso abjeto anglo-francês, que não conseguiu impor qualquer zona “no-fly” (não que a coisa o preocupasse; Gaddafi sempre preferiu artilharia pesada e tanques). Viu a inércia da Casa Branca, quando a Casa de Saud reprimiu com selvageria o “Dia de Fúria” na 6ª-feira. Registrou o silêncio da Casa Branca, quando a Arábia Saudita invadiu o Bahrain na 2ª. 

Viu logo o quanto, para Washington, é impensável qualquer mudança de regime tanto no Bahrain quanto na Arábia Saudita. E, por mais que o ocidente deseje mudança de regime na Líbia – concluiu ele –, nada arriscarão para consegui-lo. Deve ter dado uma espiada no índice democrático da Unidade de Inteligência de The Economist e lá viu que a Líbia aparece no 158º lugar, e a Arábia Saudita, no 160º. Estamos empatados – deve ter pensado: os dois temos petróleo e nem um nem outro deixaremos cair a peteca. 

Na Líbia e no Bahrain, a grande revolta árabe de 2011 parece ter chegado à linha vermelha: aqui, toda e qualquer mudança de regime pára – a Casa de Saud fica com o primeiro lugar no topo da pirâmide das ditaduras árabes, seguida pelos asseclas, os reinos e sheikados do Golfo. 

A cereja do bolo da hipocrisia é que, semana passada, os ministros de Relações Exteriores dos países do Conselho de Cooperação do Golfo declararam que o regime de Gaddafi ter-se-ia tornado “ilegítimo”. Conclamaram a Liga Árabe a “assumir suas responsabilidades e tomar as necessárias medidas para conter o banho de sangue na Líbia” – já depois de a máquina de repressão do Bahrain ter assassinado cidadãos desarmados e de a Arábia Saudita ter ameaçado fazer o mesmo. 

E que ninguém espere qualquer socorro da al-Jazeera do Qatar: a cobertura é abertamente favorável à invasão do Bahrain pelos sauditas, depois de a rede ter praticamente ignorado uma semana de protestos. Chame a coisa de “esprit de corps” de todos os membros do GCC. O rei Hamad al-Khalifa do Bahrain já implantou três meses de estado de emergência – os apoiadores insistem em não chamar de lei marcial – e autorizou os comandantes de suas forças armadas a fazer o que lhes pareça necessário para calar os protestos, podendo, inclusive, assassinar o próprio povo. 

Atenção às linhas vermelhas 

Os oficiais militares de Gaddafi também já viram de que lado continuam a soprar os ventos repressivos do deserto: bombardeio intenso e artilharia pesada os empurrarão até a terra prometida (recapturada). Por seu lado, o principal comandante militar rebelde o general Abdel Fattah Younis, ex-ministro do Interior de Gaddafi, que já tem a cabeça a prêmio (4 milhões de dólares), apostou a fazenda em que seus rastreadores localizariam as posições da artilharia e dos tanques de Gaddafi e fariam o serviço de sabotagem. Não funcionou. Recuou a linha vermelha em Adjabiya; a linha caiu no prmeiro dia. Só lhe resta defender-se desesperadamente, corpo a corpo, rua a rua – mas Gaddafi não desperdiçará infantaria: sua estratégia é bombardeio incansável até o juízo final. 

A Batalha de Benghazi é a última frente dos rebeldes. Como a estrada do mar se bifurca em Ajdabiya, a máquina de Gaddafi contornará Benghazi, tomará as cidades do leste, junto à fronteira do Egito, e dali sitiará Benghazi pelos dois lados. Há rios de sangue no horizonte. 

A história talvez comprove, em breve, que a Casa Branca conseguiu neutralizar o jogo duplo anglo-francês – explicitamente –, de nada fazer sobre a Líbia. Gaddafi foi “terrorista”, passou ao estágio de “o nosso filho-da-puta”, agora é “um bandido”, mas é bandido que Washington conhece. Desde o início, Washington temeu um pós-Gaddafi com tintas de islamismo. Pouco importa que o governo provisório de Benghazi tenha-se revelado tribal e nacionalista. Esperto, Gaddafi investiu na versão de rebelião conduzida pela al-Qaeda porque sabia que acreditariam. Como acreditaram. 

No final, o ocidente sequer ficará com o petróleo. Gaddafi acaba de dizer à TV alemã que as empresas ocidentais – exceto as alemãs (porque a Alemanha votou contra a zona de exclusão aérea) – podem dar adeus aos anos de bonança movida a petróleo líbio. “Não confiamos naquelas empresas. Conspiraram contra nós. Nosso petróleo agora irá para os russos, os chineses, os indianos.” Em outras palavras: para os BRICSs. 

Sejamos justos: ao presidente Barack Obama dos EUA só restou a fantasia de múmia. Depois da orgia de hegemonia preventiva, unilateral, dos neoconservadores à Bush, Obama já não tinha cacife para mais uma invasão imperialista de país muçulmano. Especialmente porque a Casa Branca deve ter percebido que o capital moral dos EUA no mundo árabe já é virtualmente igual a zero. 

Sobretudo, a Casa Branca aprendeu que a China – para nem falar dos demais BRICSs – era e continua a ser contra qualquer intervenção. A China tem imensos interesses na África e não quer sacudir o bote. E, além de tudo, com déficit de um trilhão de dólares, ninguém pode meter-se em traquinagens de zonas “no-fly”: os seus eleitores, sem tostão, entendem que deveriam ser eles o objeto de socorro humanitário, não os remotos líbios. 

O futuro é sombrio. Não haverá mudança de regime. Em vez disso, haverá um tsunami de sangue. A cavalaria norte-americana não aparecerá. E todos assistiremos às imagens da al-Jazeera como ovelhas silenciosas.

terça-feira, 15 de março de 2011

Tropas sauditas invadem o Bahrain. Para os xiitas, é guerra.

M. K. Bhadrakumar

15/3/2011, Indian Punchline, *M K Bhadrakumar
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Posso agora me apresentar como adivinho profissional – mais ou menos. Dia 4 de março, no postado sobre o Bahrain, escrevi: “Como o adivinho disse a Júlio Cesar, tempos de muitos perigos aproximam-se, entre agora e os idos de março.” Bem, os idos de março são hoje. Evento tão grave quanto o assassinato de Júlio Cesar parece bater-nos à porta. Tropas sauditas invadiram o Bahrain. 

Uma cadeia de eventos está começando, com consequências de longo alcance.

Os primeiros relatos dizem que o contingente saudita consiste de mil soldados, com 150 tanques blindados, carros de transporte de tropas e veículos auxiliares. A TV Bahrain mostrou cenas do que chamou de “unidades avançadas das forças conjuntas do Escudo da Península” – indicação de que mais soldados estão a caminho. O governo do Bahrain tem um pacto de defesa de segurança mútua com o Conselho de Cooperação do Golfo, Cooperation Council for the Arab States of the Gulf, CCASG; também conhecido como Gulf Cooperation Council, GCC. Com a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos também mandaram 500 soldados. O governo do Bahrain disse que pediu ajuda militar, dados os “infortunados eventos que abalam a segurança do reino e aterrorizam cidadãos e residentes”. O governo saudita disse que “respondeu ao pedido de apoio que lhe fez o Bahrain”.

O movimento acontece depois de violentos confrontos entre manifestantes xiitas e a polícia.

Os manifestantes bloquearam a estrada que leva ao centro da cidade e principal distrito financeiro e grupos de vigia apareceram para guardar os arredores, enquanto aumentam as tensões sectárias entre os xiitas, que são 70% da população, e os sunitas.

O movimento do rei sunita, para trazer tropas sunitas de outros estados do Conselho de Cooperação do Golfo, cria situação perigosa. Os grupos da oposição xiita, em declaração, disseram que “Consideramos a entrada de qualquer soldado ou equipamento militar na área do Reino do Bahrain, terra, mar ou ar, como clara ação de ocupação. Essa real ameaça, com tropas sauditas e de outros países do Golfo, para atacar o povo desarmado do Bahrain, põe a população sob grave perigo e é ameaça de guerra não declarada, movida por soldados armados.”

Milhares de manifestantes continuam acampados na rotatória da Pérola.
É indispensável acompanhar a reação do Irã e dos EUA.

Nos EUA

Em Washington, o Departamento de Estado disse: “Conclamamos os nossos parceiros do GCC à moderação, a respeitar os direitos do povo do Bahrain e a agir de modo a mais apoiar que dificultar o diálogo”. Significativamente, nem uma palavra de crítica contra a ação militar dos sauditas.

O secretário de Defesa dos EUA Robert Gates visitou Manama na 6ª-feira. Pode-se dar por certo que Gates foi informado do movimento do governo do Bahrain de pedir intervenção de soldados do GCC. Pode-se concluir que a prioridade dos EUA é a Va. Frota (ancorada no Bahrain), e que qualquer preocupação com a democracia aparece longe, no fim da lista. Significativamente, o governo do Bahrain intensificou os ataques contra os manifestantes no fim de semana, imediatamente depois de Gates deixar Manama. 

No Irã

A reação do Irã também foi cheia de nuanças. O ministério das Relações Exteriores ridicularizou, retoricamente, a visita de Gates a Manama, mas a reação à intervenção dos sauditas foi bem discreta no plano do encarregado de assuntos do Oriente Médio e Golfo Persa Amir-Abdollahian. Pode ser apenas uma primeira reação. Mas, de fato, só disse que a intervenção saudita pode vir a complicar ainda mais a situação. Nada de avisos ou ameaças nem exigências de imediata retirada dos sauditas.

Teerã não questiona a legalidade da ação, como os EUA não questionaram. Mas Teerã, pelo menos, chama atenção para as consequências políticas. Os iranianos preferiram esperar para ver, dado que nada têm a perder; não se cogita de intervenção iraniana no Bahrain. O Irã não quer confrontar o GCC. São os parâmetros tradicionais da política regional do Irã. As relações entre Irã, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Bahrain sempre foram problemáticas; e há boas relações com o Qatar, Omã e Kuwait. 

O Irã tem tido muito trabalho para manter laços cordiais com os Estados do Conselho do Golfo.

Mas o Irã tem tudo a ganhar, em termos políticos, se a intervenção saudita detonar a ira dos xiitas na Arábia Saudita e no Kuwait, ou se a situação se converter em pântano que ameace tragar os sauditas no Bahrain. Ao mesmo tempo, Teerã não quer sobre si a acusação de ter despertado sentimentos xiitas sectários. Toda a propaganda de Teerã está centrada no “despertar islâmico” do povo árabe. Divisões sectárias, nesse momento, absolutamente não interessam ao Irã, que não quer ver-se arrastado por um dos lados dessas divisões, o que diminuiria seu prestígio regional.

Outra vez, Teerã entende que as tensões sectárias no Bahrain interessam aos governos sunitas no Golfo Persa, para subjugar as populações majoritariamente xiitas. Pode-se antever que os EUA também têm interesse em deter a revolta popular a favor de mudança de regime. Sobretudo, o Irã está firmemente decidido a agir como potência regional “responsável”, o que reforça a diplomacia iraniana em outras frentes no relacionamento com o ocidente.

Feitas todas as contas, um complexo conjunto de equações estão em movimento – um banquete para qualquer observador que estude a política do Oriente Médio. (...)

O cenário mais provável é que as tensões no Bahrain, Arábia Saudita e Iêmen – o “Triângulo Xiita”, pode-se dizer – se retroalimentem umas as outras nas próximas semanas ou meses, processo sempre exacerbado pela “luta de baixa intensidade” – pelo menos por enquanto – em Omã e no Kuwait.

Enquanto isso, um quadro intrigante apareceu no plano geopolítico: os EUA parecem estar testando a profundidade do lago, com vistas a abrir um canal de alta confiança com Teerã.

A Jordânia anunciou que o rei Abdullah teria manifestado interesse em encontrar-se com Mahmoud Ahmedinejad em Amã ou em Teerã, para “discutir vias que reforcem laços bilaterais em bases claras, de tal modo que sirvam aos interesses dos povos, questões islâmicas, de segurança e sobre a estabilidade na região”. Bravo!

Os laços entre Teerã e Amã estão em estado de congelamento profundo. Para Teerã, Abdullah não passa de lacaio dos EUA. Por outro lado, Abdullah é o resolvedor-de-problemas preferido, que Washington sempre usa quando precisa, em missões delicadas. Abdullah é craque nessa função. Tem credenciais inigualáveis: conversa e negocia com Israel e sobrevive, por causa do apoio dos EUA (e dos sauditas); e o rei Abdullah adora o fato de que a Jordânia goze de prestígio muito superior ao que corresponderia ao peso que tenha na política regional. Tudo isso considerado, o que estaria acontecendo? O mais provável é que os EUA estejam avaliando as reais probabilidades de virem a ter “um diálogo” com Ahmedinejad. 

Não há dúvida de que os EUA já perceberam que, no torvelinho que varre o Oriente Médio, o comportamento do Irã tem sido de perfeita contenção, confinado só na retórica. Isso deve ter encorajado os EUA a testar as possibilidades de um novo modus vivendicom o Irã, de tal modo que os dois lados consigam avaliar melhor o quanto podem confiar um no outro, na abordagem do torvelinho regional. 

Falando em termos amplos, os EUA sabem perfeitamente (a) que o Irã é hoje um dos pilares da estabilidade regional; (b) que a influência do Irã na região cresceu muitíssimo; e (c) que, em termos regionais, Israel foi empurrada para absoluto isolamento.

Evidentemente, no interior do governo iraniano com suas muitas divisões e subdivisões, há muitos grupos poderosos que se oporão ao diálogo com Abdullah nesse momento e que acusarão Ahmedinejad por essa “traição”. Olharão com muita suspeita a possibilidade de que a força de Ahmadinejad aumente, no caso de se iniciarem contatos EUA-Irã.

Sem dúvida, para quem observe o Irã, aí está rara oportunidade para sondar a personalidade enigmática de Ahmedinejad, a qualidade de suas relações com o Supremo Líder Ali Khamenei e o poder que tenha para fazer calar seus detratores e levar avante a ideia de um encontro com Abdullah. Até aqui, Ahmadinejad enfrenta só algumas críticas do Parlamento. Como reagirá a Guarda Revolucionária? E o establishment religioso xiita? São questões pertinentes. Em outras ocasiões, os linha-dura conseguiram deter quaisquer simpatias de Ahmadinejad em relação aos EUA. 

Mas se Ahmadinejad encontrar-se com o rei Abdullah da Jordânia, sem dúvida alguma haverá mudança massiva na correlação de forças na Região. 

Embaixador*M K Bhadrakumar foi diplomata de carreira; serviu no Ministério de Relações Exteriores da Índia. Ocupou postos diplomáticos em vários países, incluindo União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão, Kuwait e Turquia.