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quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Do Camboja ao ISIS/ISIL: “Tudo que voe, contra tudo que se mova”

8/10/2014, [*] John Pilger, Blog de John Pilger
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O MUNDO DE HENRY KISSINGER
(por David Levine)
Ao transmitir as ordens do presidente Richard Nixon, para um bombardeio “massivo” contra o Camboja em 1969, Henry Kissinger disse: “Tudo que voe, contra tudo que se mova”. Agora, quando Barack Obama acende o pavio de sua sétima guerra contra o mundo muçulmano desde que levou para casa o Prêmio Nobel da Paz, a histeria orquestrada e as mentiras quase nos fazem sentir saudades da assassina franqueza de Kissinger.

Como testemunha das consequências humanas da selvageria aérea – inclusive a decapitação e o esquartejamento das vítimas, pedaços de corpos pendurados pelas árvores e jogados pelos campos – não me surpreende o descaso com a memória e as lições da história, mais uma vez. Exemplo eloquente foi a ascensão ao poder de Pol Pot e seu Khmer Rouge, que têm muito em comum com o Estado Islâmico no Iraque e na Síria (Levante) [ing. ISIS/ISIL]. Eles também eram medievalistas brutais, e também iniciaram uma pequena seita. Eles também foram produto de um apocalipse made-in-USA, naquele caso, na Ásia.

Segundo o próprio Pol Pot, seu movimento consistira de “menos de 5.000 guerrilheiros mal armados, incertos quanto a suas estratégia, táticas, lealdades e líderes”. Quando os bombardeiros B52 de Nixon e Kissinger começaram a trabalhar, como parte da “Operação Cardápio” [orig. Operation Menu], o maior demônio do ocidente mal pôde acreditar em tanta sorte.

Os EUA lançaram em bombas o equivalente a cinco Hiroshimas sobre o Camboja rural, durante 1969-73. Destruíam, arrasavam vila após vila, e voltavam para bombardear novamente as ruínas e os cadáveres. As crateras deixavam à vista monstruosos colares de carne humana, que se viam do céu. O terror foi inimaginável. Um ex-oficial do Khmer Rouge contou que os sobreviventes

(...) como que congelavam e punham-se a caminhar ao leu, mudos, por três ou quatro dias. Terrificadas e semiloucas, as pessoas estavam prontas para acreditar em qualquer coisa que ouvissem (...). Foi o que tornou tão fácil, para o Khmer Rouge, convencer o povo.

Uma Comissão de Investigação do Governo da Finlândia estimou que 600 mil cambojanos morreram na guerra civil que se seguiu àqueles ataques e descreveu o bombardeio norte-americano como “o primeiro estágio numa década de genocídio”. O que Nixon e Kissinger começaram, Pol Pot, o herdeiro beneficiário dos dois, completou. Ao ritmo dos bombardeios, o Khmer Rouge cresceu e tornou-se poderoso exército de 200 mil soldados.

O ISIL tem passado e presente semelhantes a isso. Muitos especialistas entendem que a invasão do Iraque ordenada por Bush e Blair em 2003 levou à morte de cerca de 700 mil pessoas – num país que jamais antes tivera história de jihadismo. Os curdos haviam feito acordos territoriais e políticos; sunitas e xiitas tinham diferenças de classe e sectárias, mas estavam em paz – eram comuns os casamentos mistos. Três anos antes da invasão, atravessei o Iraque dirigindo meu carro, sem medo. Pelo caminho, encontrei gente orgulhosa do próprio país, herdeiros de uma civilização que, para eles, era bem presente ali.

Bush e Blair - Criminosos de Guerra
Bush e Blair destruíram tudo, reduziram a cacos tudo aquilo. O Iraque é hoje ninho de jihadismo. Al-Qaeda – como os “jihadistas” de Pol Pot – colheu a oportunidade gerada pelo massacre que foi a Operação Choque e Pavor e pela guerra civil que a seguiu. A Síria “rebelde” oferecia recompensas ainda maiores, nas linhas-de-rato da CIA e dos Estados do Golfo, pelas quais corriam armas, logística e dinheiro através da Turquia. A chegada de recrutas estrangeiros seria inevitável. Um ex-embaixador britânico, Oliver Miles, escreveu recentemente:

O governo [Cameron] parece estar seguindo o exemplo de Tony Blair, que ignorou os repetidos avisos que recebeu do Foreign Office, do MI5 e do MI6, que já sabiam que nossa política para o Oriente Médio – especialmente as guerras que fizemos no Oriente Médio – havia sido o principal agente de mobilização no recrutamento de muçulmanos, para o terrorismo, na Grã-Bretanha.

O ISIS/ISIL é filho dileto dos que, em Washington e Londres, ao destruírem o Iraque, como estado e como sociedade, conspiraram para cometer um crime épico contra a humanidade. Como Pol Pot e o Khmer Rouge, o  ISIS/ISIL é mais uma mutação de um estado ocidental de terror, mantido por uma elite imperial venal que não para ante nenhuma consequência de seus atos, desde só atinjam culturas e povos que vivam bem, bem longe dela. Essa culpabilidade é tabu: não pode ser mencionada nas “nossas” sociedades.

Já são 23 anos desde que esse holocausto atingiu o Iraque, imediatamente depois da Iª Guerra do Golfo, quando EUA e Grã-Bretanha sequestraram o Conselho de Segurança da ONU e impuseram “sanções” punitivas contra a população iraquiana – o que, ironicamente, reforçou a posição de Saddam Hussein. Foi como um sítio medieval. Praticamente tudo que mantém um estado moderno foi, conforme o jargão, “bloqueado” – desde cloro para produção de água potável, até lápis escolares, peças para aparelhos de máquinas de raio-X, analgésicos comuns e drogas usadas por pacientes de câncer vítimas da poeira gerada nos campos bombardeados, contaminados por urânio baixo-ativo.

Pouco antes do Natal de 1999, o Departamento de Comércio e Indústria em Londres restringiu a exportação de vacinas destinadas a imunizar crianças iraquianas contra difteria e febre amarela. Kim Howells, médico e subsecretário de Estado no governo Blair, explicou por quê:

As vacinas podem ser usadas para produção de armas de destruição em massa.

O governo britânico safou-se desse escândalo universal, porque a imprensa-empresa que distribuía “notícias” do Iraque – praticamente toda ela manipulada pelo Foreign Officebritânico – culpou Saddam Hussein por tudo.

BOMBARDEAR O IRAQUE
UMA TRADIÇÃO DOS EUA
Sob um falso “Programa Petróleo por Comida”, dito “humanitário”, pagavam US$ 100 por iraquiano, por ano. Esse valor devia pagar por toda a infraestrutura e serviços essenciais de que a sociedade precisasse, como energia e água.

Imagine – disse-me o subsecretário-geral da ONU, Hans Von Sponeck – essa ninharia, para pagar por toda a água limpa, que não havia, e o fato de que a maioria dos doentes não podia pagar por qualquer tratamento, e o trauma terrível de passar por esse tipo de necessidade dia após dia, e você poderá fazer ideia daquele pesadelo. E, não tenha dúvidas: foi tudo deliberadamente planejado. No passado, sempre me recusei a usar a palavra genocídio, mas agora é inevitável.

Desgostoso, Von Sponeck demitiu-se do cargo de Coordenador Humanitário da ONU para o Iraque. Antes dele, Denis Halliday, também alto funcionário da ONU, também se demitira.

Fui instruído – disse Halliday – a implementar uma política que corresponde à definição de genocídio: política deliberada que efetivamente matou mais de um milhão de indivíduo, crianças e adultos.

Estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância, UNICEF, descobriu que entre 1991 e 1998, no auge do bloqueio, houve 500 mil mortes “a mais”, no Iraque, na faixa etária até cinco anos. Uma repórter da TV norte-americana falou disso a Madeleine Albright, embaixadora dos EUA à ONU, e perguntou-lhe:

O preço não foi alto demais?

Madeleine Albright
Resposta de Albright:

Entendemos que valeu a pena.

Em 2007, o mais alto funcionário britânico responsável pelas sanções, Carne Ross, conhecido como “Mr. Iraque”, disse a uma comitê parlamentar, que:

[Os governos de EUA e Reino Unido] estão de fato negando a toda a população iraquiana os meios para sobreviver.

Quando entrevistei Carne Ross três anos depois, era um homem consumido pela arrependimento e pela vergonha: “Sinto vergonha” – disse ele. Ross é hoje um dos raros que dizem a verdade sobre como os governos mentiram aos cidadãos e sobre o papel decisivo que cabe à imprensa-empresa na implantação e disseminação das mentiras. “Ou passávamos aos jornalistas os factoides que recebíamos da inteligência, já limpos, ou simplesmente escondíamos todos os fatos”.

Dia 25/9/2014, uma manchete do Guardian dizia: “Ante o terror do ISIS/ISIL, temos de agir”. Esse “temos de agir” é fantasma que despertou, como um sinal de alerta: tratem de esquecer todos os fatos, lembranças, lições aprendidas, arrependimentos ou vergonha. O autor do artigo é Peter Hain, ex-ministro do Foreign Office responsável pelo Iraque durante o governo Blair. Em 1998, quando Denis Halliday revelou a extensão da tragédia e do sofrimento humano no Iraque, pelos quais o governo Blair era um dos dois principais responsáveis, Hain acusou-o, no programa Newsnight da BBC, de ser “defensor de Saddam”. Em 2003, Hain apoiou a invasão do Iraque no governo Blair, repetindo o que todos já sabiam serem mentiras. Em conferência no Partido Labour, pouco depois, descartou a invasão como “questão marginal”.

Esse é o homem que, hoje, exige “ataques aéreos, drones, equipamentos militares e outros apoios” aos que “enfrentam o genocídio” no Iraque e na Síria. Só depois seria possível “o imperativo de uma solução política”. É o mesmo que Obama tem na cabeça, quando suspende o que ele chama de “restrições” contra bombardeios e ataques por drones norte-americanos. Significa que mísseis e bombas de 300 kg podem destruir casas de camponeses, como fazem sem qualquer restrição no Iêmen, Paquistão, Afeganistão e Somália – e como fizeram no Camboja, Vietnã e Laos. Dia 23 de setembro de 2014, um míssil Tomahawk atingiu uma vila na província Idlib na Síria, matou uma dúzia de civis, entre os quais mulheres e crianças. Nenhum deles tinha bandeira preta.

No dia em que foi publicado o artigo de Hain, Denis Halliday e Hans Von Sponeck estavam casualmente em Londres e vieram visitar-me. Não estavam chocados com a letal hipocrisia de uma autoridade, mas lamentaram a inexplicável ausência de qualquer diplomacia inteligente, capaz de negociar alguma espécie de trégua. Por todo o planeta, do Norte da Irlanda ao Nepal, pessoas que se viam umas às outras como terroristas e hereges conseguiram sentar-se face a face numa mesa de negociações. Por que não agora, no Iraque e na Síria?

Como o ebola, do Oeste da África, uma bactéria chamada “guerra perpétua” já cruzou o Atlântico. Lord Richards, até recentemente comandante dos militares britânicos, quer agora “coturnos em solo”. Há uma verborragia doentia, quase sociopática, de Cameron, Obama e aquela “coalizão dos dispostos/desejantes” – e chama a atenção o estranhamente super agressivo australiano Tony Abbott – que agora prescrevem mais e mais violência, lançada de bem longe, de 30 mil pés de altitude, sobre locais onde o sangue de aventuras anteriores ainda não secou. Nunca sofreram bombardeios e aparentemente gostam tanto que querem agora bombardear também um seu potencialmente valioso aliado, a Síria. Não é novidade, como mostram arquivos vazados da inteligência de EUA e Reino Unido:

Para facilitar a ação de forças de libertação [sic] (...) deve-se fazer esforço especial para eliminar alguns indivíduos chaves [e] provocar agitação interna na Síria. A CIA está preparada, e o MI6 tentará montar pequena sabotagem e golpe de incidentes principais [orig. main [sic]] dentro da Síria, trabalhando mediante contatos com indivíduos (...) um grau necessário de medo (...)confrontos [encenados] de fronteira darão um pretexto para a intervenção(...) CIA e SIS devem usar (...) capacidades nos campos psicológico e de ação, para aumentar a tensão.

Esse parágrafo foi escrito em 1957, mas poderia ter sido escrito ontem. No mundo imperial, as coisas essenciais jamais mudam.

Roland Dumas
Ano passado, o ex-ministro de Relações Exteriores da França Roland Dumas revelou que “dois anos antes da Primavera Árabe”, fora informado em Londres de que estava já planejada uma guerra contra a Síria.

Vou lhe dizer uma coisa – disse ele, em entrevista ao canal LPC da TV francesa: Eu estava na Inglaterra, dois anos antes da violência na Síria e outros negócios. Encontrei-me com altos funcionários britânicos, que confessaram que estavam preparando alguma coisa na Síria (...). A Grã-Bretanha estava organizando uma invasão de rebeldes na Síria. Até perguntaram, embora eu já não fosse Ministro de Relações Exteriores, se gostaria de participar (...) Essa operação é velha. Foi preparada, preconcebida, planejada.

Os únicos que realmente se opõem ao ISIS/ISIL são considerados demônios sem salvação no Ocidente – Síria, Irã, Hezbollah. O obstáculo é a Turquia, “aliado” e membro da OTAN que conspirou com a CIA, o MI6 e os medievalistas do Golfo para reunir apoio para os “rebeldes” sírios, inclusive os que agora se autodenominam ISIS/ISIL. Apoiar a Turquia e sua antiga aspiração de dominação regional, com a derrubada do governo do presidente Assad, levará a grande guerra convencional e ao horrendo desmembramento do estado etnicamente mais diverso de todo o Oriente Médio.

Uma trégua – por difícil de negociar que seja – é a única via para fora desse pântano imperial; sem uma trégua negociada, as degolas continuarão. A evidência de que qualquer negociação com a Síria deva ser declarada “moralmente questionável” (como escreveu The Guardian) sugere que a pressuposição de alguma superioridade moral entre os que apoiaram Blair, criminoso de guerra, continua a ser não apenas absurda, mas perigosa.

Além de uma trégua, devem cessar imediatamente todos os embarques de equipamento de guerra para Israel; e é preciso reconhecer o Estado da Palestina. A questão da Palestina é a mais purulenta questão de toda a região, e causa muitas vezes declarada do crescimento do extremismo islâmico. Osama bin Laden disse isso, precisamente, muito claramente. A Palestina também oferece esperanças. Deem justiça aos palestinos, e começarão a mudar o mundo ao redor deles.

Há mais de 40 anos, o bombardeio do Camboja por Nixon-Kissinger gerou uma torrente de sofrimentos da qual o país até hoje não se recuperou. Vale o mesmo para os crimes de Blair-Bush no Iraque.

Com timing impecável, o último tomo da autobiografia de autoconsagração de Kissinger acaba de ser lançado, com o título satírico de World Order [Ordem Mundial]. Em resenha de desavergonhada propaganda, Kissinger é descrito como

(...) modelador chave de uma ordem mundial que permaneceu estável por um quarto de século.

Contem essa ao povo do Camboja, Vietnã, Laos, Chile, Timor Leste e outras vítimas desse “construtor de Estados”. Só quando “nós” identificarmos esses criminosos de guerra que sobrevivem ainda entre nós, o sangue começará a secar.


[*] John Pilger − nasceu em Bondi na área metropolitana de Sydney, Austrália, 9 de outubro 1939. A carreira de Pilger como repórter começou em 1958; ao longo dos anos tornou-se famoso pelos artigos, livros e documentários que escreveu e/ou produziu. Apesar das tentativas de setores conservadores de desvalorizar Pilger, o seu jornalismo investigativo já mereceu vários galardões, tais como a atribuição, por duas vezes, do prêmio de Britain’s Journalist of the Year Award na área dos dos Direitos Humanos. No Reino Unido é mais conhecido pelos seus documentários, particularmente os que foram rodados no Camboja e no Timor−Leste. Trabalhou ainda como correspondente de guerra em vários conflitos, como na Guerra do Vietnam, no Camboja, no Egito, na Índia, em Bangladesh e em Biafra. Atualmente reside em Londres.

sábado, 29 de março de 2014

Continuidade e mudança... Sempre para pior − O paradoxo Obama

28/3/2014, [*] Andrew Levine, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O IVº Reich − por Maurício Porto
Barack Obama, candidato, prometeu mudanças; eleito, só entregou continuidade, continuísmo. Mas, na sequência, tanto continuísmo provocou mudança – para pior.

Em 2008, “mudança” significava qualquer coisa que os eleitores desejassem que significasse. Como o candidato, a palavra era como uma mancha de teste Rorschach.

Muitos, provavelmente a maioria dos eleitores de Obama, não tinham sequer ideia de que tipo de mudança esperavam. Só sabiam que, no governo de George W. Bush, o país perdera dramaticamente o próprio rumo. Supunham que Obama daria algum jeito naquilo.

Alguns eleitores tinham expectativas mais específicas. Alguns pensavam que Obama varreria do país o neoliberalismo. Com um derretimento financeiro e econômico galopante, a hora parecia ter chegado, o momento parecia maduro.

Alguns esperavam que Obama restaurasse o Estado de Direito e o respeito à lei, devolvendo as coisas, no mínimo, ao que eram antes do 11/9; muitos esperavam que os criminosos de guerra da era Bush fossem levados aos tribunais.

Outros supunham que o Partido Democrata voltaria a ser mais parecido com o que fora antes de os Clintons darem cabo dele.

E por aí vai, e a lista é longa.

Claro, ninguém sabia o que “mudança” significaria para Obama. Talvez nem Obama soubesse. Não haveria como ele ser mais vago.

Mas num ponto, todos, exceto talvez o próprio candidato e seus assessores mais próximos, concordavam: Obama transformaria o regime Bush-Cheney pós-11/9, transformaria totalmente, seria outro, completamente outro.

Não poderiam ter errado mais do que erraram.

Talvez tivessem ideias diferentes; talvez Obama fosse doente do que os antigos gregos chamavam de akrasia, desejo débil. Talvez jamais tenha havido qualquer lá, por ali.

Os mais ardentes apoiadores de Obama, os que continuaram com ele quando já se tornara bem claro que nenhuma mudança viria, culparam os Republicanos; muitos ainda culpam, até hoje. Os EUA-empresa garantem-lhes palco noturno, todas as noites: chamam a coisa de MSNBC.

Mas enganam-se a si próprios. Nem ante a obstinação e determinação dos Republicanos, o governo Obama precisaria ser tão perfeitamente igual ao governo Bush-Cheney como se tornou.

George Bush e Dick Cheney
Seja como for, os elogiadores de Obama têm um ponto a seu favor: os Republicanos são realmente aplicados, realmente se dedicaram a garantir que o governo Obama fosse retumbante fracasso.

Assim, pode-se dizer que os elogiadores de Obama não são, propriamente ditos, iludidos. Apenas, que deram ao homem deles – e à oposição – demasiado crédito.

Quem lá sabe o que Obama realmente pensa sobre os assuntos do dia, ou como compreende a relação entre o que diz e suas reais intenções. A única coisa que se pode afirmar com certeza é que as palavras de Obama são vagas, sem compromisso; e que, para todos os objetivos práticos, Obama e seus companheiros Democratas são idênticos aos Republicanos.

Nada, aí, é surpreendente; comem no mesmo cocho. O antagonismo entre eles é tático, não estratégico, nem ideológico.

De fato, o racismo modela as atitudes Republicanas, além de outras ansiedades de status e convicções ideológicas básicas. Os Democratas, no geral, são gente mais simpática. Mas, no fundo, os dois partidos só querem vencer as próximas eleições. Para eles, o negócio sempre é quem consegue mais bem servir ao 1%.

São péssimas notícias para os 99% de nós, cujos interesses e bem-estar não poderiam estar mais entregues às traças. Mas isso é o de menos. Quando nossos “líderes”, não importa o partido, põem os olhos em pontos bem além de nossas (cada dia mais policiadas e militarizadas) fronteiras, todo o planeta padece.

Ainda assim, seria de esperar que houvesse alguma, qualquer, pouca, que fosse, competência na Casa Branca e em todo o establishment da Política Externa dos EUA, proporcional à magnitude das tarefas. O que se constata de mais impressionante é que essa expectativa foi negligenciada igualmente, por governos Republicanos e Democratas, já há um quarto de século.

James Baker
Quando James Baker e Brent Scowcroft deixaram o governo, quem, em sã consciência, suporia que teriam sido os melhores de tudo que viria depois deles? E, ainda antes, quem suporia que os dias de Zbigniew Brzezinski e Henry Kissinger seriam vistos como uma Idade de Ouro, quando gigantes marchavam sobre a face do planeta?

Barack Obama, como Bill Clinton e George W. Bush antes dele, puseram um bando de imbecis sem-noção, encarregados de lançar o peso dos EUA contra todo o mundo. Não é surpresa que, agora, a coisa toda já esteja desabando sobre a cabeça deles mesmos.

No caso de Bush, a loucura foi de tal ordem que até o cachorrinho de Bush poderia consertar alguma coisa. Mas então veio o presidente da “mudança” para dar andamento ao servicinho de antes.

Resultado disso, as vítimas do império sofreram um enormidade, mas, até agora, o império sobrevive sem arranhões. Grande demais para falir. Mas, ah, sim, até para isso, há limites.

O governo Obama extrapolou esses limites duas vezes. E duas vezes Vladimir Putin salvou Obama.

Putin salvou Obama de ser arrastado para uma guerra catastrófica contra o Irã, e Putin salvou-o de fazer naufragar os EUA envolvidos na guerra na Síria.

Mas o arqui-inimigo dos EUA não promete ter a mesma serventia, quando os gênios do Departamento de Estado e do Conselho Nacional de Segurança miram suas maquinações contra a própria Rússia.

O establishment de política exterior de Putin supera o de Obama em todos os campos e medidas. No instante em que deixar de interessar a eles ajudar a salvar Washington, a boa sorte de Obama acabará num minuto (hora de Nova York ou de Moscou, tanto faz).

Era melhor no tempo de Bush-Cheney? Não era. Mas o mundo mudou – em parte, porque as políticas de Obama nunca mudaram. Por isso, na maior parte, aquelas mesmas políticas são hoje mais tóxicas do que foram nos dias de Bush-Cheney.

Nesse sentido, até que mudamos, afinal de contas. Mas quando se fazem as contas, vê-se que estaríamos melhor, se tivéssemos conseguido menos do mesmo, em vez de mais do mesmo, como temos hoje.

Bush e Cheney atropelaram o devido processo legal e os direitos de privacidade, em nome da segurança. Com eles no poder, as limitações Constitucionais eram apenas pequeno inconveniente que eles se sentiam a vontade para ignorar.

Edward Snowden
Também para Obama. Mas, ao dar prosseguimento ao trabalho dos dois que o precederam, Obama piorou qualitativamente, tudo. Graças a Edward Snowden, temos hoje ideia de como era ruim e de como ficou muito pior.

Não sabemos o quanto de terrorismo foi contido, se algum terrorismo, de fato, foi contido, por Bush e Cheney – ou por Obama. O que, sim, sabemos, é que eles aumentaram muito a oferta de terroristas possíveis. Para isso serve invadir países dos outros; para isso serve aterrorizar populações civis, lançando sobre elas morte e desgraça.

Obama fez aumentar muito o nível do terror, mesmo que talvez tenha reduzido o nível geral de violência bélica.

Seus antecessores também usaram assassinos profissionais e drones. Mas, na quantidade, preferiram soldados e bombardeiros. No geral, faziam a coisa à moda antiga.

Obama, o candidato da paz, manteve todas aquelas guerras; escalou, até, algumas delas por algum tempo – o suficiente para repaginar as ocupações do Iraque e do Afeganistão.

Mas Obama deu preferência ao assassinato clandestino – a maioria dos assassinatos cometidos por Obama foram cometidos por assassinos mascarados e por drones. Com isso, Obama modificou a postura dos militares norte-americanos. De um ponto de vista moral, ficaram piores do que eram.

Agora, o terror já não é só o último recurso dos humilhados; agora, já é também primeira escolha de um exército super equipado, mais mortífero que todos os demais exércitos do mundo somados.

Ao assumir a coisa no ponto em que Bush e Cheney a deixaram, esse laureado do Prêmio Nobel pôs à solta o equivalente funcional de um exército de suicidas-bombas, lançando partes imensas do mundo muçulmano num perpétuo reino de terror.

Os drones de Obama são especialmente daninhos.

Drone MQ-1
Por um lado, porque são ainda piores que suicidas-bombas, porque aterrorizam mais eficientemente populações civis. Gente comum pode evitar locais que suicidas-bombas tendem a escolher como alvos; mas ninguém consegue pôr-se a salvo daqueles drones.

E, de um ponto de vista moral, matar com drones é, visivelmente, crime pior. Suicidas-bombas dão a vida pela própria causa. No fim do dia de trabalho, os operadores de drones norte-americanos jantam em casa com a família.

Os "operadores" não assistem o enterro de civis no Paquistão (principalmente velhos, mulheres e crianças) assassinados pelos drones dos EUA
Os seus superiores, os que ordenam a matança, esses, envolvem-se ainda menos. Quem decide quem morrerá é Obama; seus funcionários decidem onde e quando; os sub-dos-subs apertam os botões. Quanto mais altos na cadeia de comando, mais eles têm cara de satisfeitos consigo mesmos.

Em questões ambientais, Obama também piorou as coisas, só por ter prosseguido nas políticas de nada fazer dos predecessores. Enquanto isso, as mudanças ecológicas continuam e rapidamente todos os perigos só fazem aumentar.

O governo Obama introduziu algumas poucas mudanças para melhor: por exemplo, nos padrões de emissões de gás carbônico. Mas nada fez contra as grandes causas do aquecimento global. Assim, a cada ano que passa, aproximam-se os pontos sem volta; alguns já ficaram para trás.

E há também a tendência, em Obama, de aprofundar os danos iniciados pelos predecessores, o que Obama consegue mediante políticas de implementação mais efetivas.

Mas o que Obama mais faz é falar e engambelar quem o ouça. Por exemplo: Obama falou muitas vezes a favor da reforma das leis da imigração; sim, mas... o recorde de deportações de Obama é muito superior ao de Bush. Contra o trabalho organizado, também, Obama fez muito mais que Bush.

Em linha semelhante, Obama jamais disse uma palavra que não fosse a favor da transparência no governo e da importância de uma imprensa crítica vigorosa. Quem o ouça falar, pensará que é o melhor amigos dos vazadores. Sim, mas, também nesse quesito, Obama tem sido pior que Bush e Cheney ou, na verdade, pior que todos os presidentes antes dele, exceto talvez, Richard Nixon.

O homem fala como papagaio. Não diz coisa com coisa. Claro, nas questões domésticas, ele tem lá suas razões, prestem ou não. Mas no front diplomático, parece não haver sequer uma linha de pensamento coerente por trás do que ele diz; nem ele nem sua equipe, nada, sequer alguma vaga ideia.

Por isso o mundo hoje é ainda mais perigoso do que quando Obama assumiu.

O problema não é só que a Guerra ao Terror, e sua continuação no governo Obama, tenha sido estupendamente contraproducente; que criou e reuniu terroristas muito mais depressa do que os assassinos profissionais e os drones e os “coturnos em solo” conseguiam matá-los.

Já se vai tornando claro também que as guerras Bush-Obama desestabilizaram toda a região – da Líbia ao Paquistão e ultimamente, sob o “comando” de Obama, também das margens do Tigre ao Mar Mediterrâneo.

O Leste da África, áreas muçulmanas muito distantes, no Oceano Pacífico, também foram incendiadas, e estão hoje em situação pior que antes.

O Irã como potência regional, cercado de bases dos EUA
As guerras do governo Bush-Obama também reforçaram o papel do Irã como potência regional. Seja isso bom, ou mau, é claro que esse jamais foi o objetivo dos EUA e de Israel.

Claro, o sem-noção total é faca de dois gumes. A América Latina muito se beneficiou do fato de os EUA estarem metidos simultaneamente em vários pântanos no Oriente Médio.

Enquanto Bush e Obama olhavam para outro lado, floresceram movimentos populares na Nicarágua, no Equador, na Bolívia e no Uruguai. E também o Brasil e a Argentina começam a deslocar-se para a esquerda.

E, apesar de várias tentativas desde o 11/9 – a mais recente está ainda em andamento nesse momento – os EUA não conseguiram derrubar o governo democraticamente eleito da Venezuela. A guerra sem fim que os EUA fazem contra Cuba está hoje mais perdida que antes.

Ao sul dos EUA, os ataques do 11/9 – ou, melhor dizendo, a reação dos EUA àqueles ataques – foram, pode-se dizer, um presente de Deus.

Já é cada dia mais evidente que, pelo menos num sentido, também foram presente de Deus para o resto do mundo. As manobras contraproducentes dos EUA contra o mundo muçulmano levaram a um beco sem saída os planos de EUA e União Europeia para levar as fronteiras do “ocidente” até as portas da Rússia e para cercar a Rússia com bases da OTAN.

Esse plano foi posto em andamento nos tempos de Clinton. A Rússia então não estava em posição de poder oferecer muita resistência – não naquele momento, quando cleptocratas governavam o país, e a maioria da população russa padecia dificuldades econômicas, desemprego e perda de serviços públicos, resultados da restauração, na Rússia, de um sistema econômico antiquado.

O sucesso dos EUA−Europa (principalmente, a Alemanha), no desmembramento da Iugoslávia, serviu então como prática e estímulo. Com o novo milênio chegando, o futuro parecia aberto para eles.

World Trade Center, 11 de setembro de 2001
Mas então veio o 11/9 e as prioridades mudaram. Hoje, parece que estão mudando outra vez, para trás.

Evidentemente os sétimos céus da política exterior dos EUA convenceram-se de que, além de prosseguirem contra o Oriente Médio, a Ásia Central e o subcontinente indiano, é hora de meterem também a Rússia, de volta, na alça de mira.

Tudo isso pode ter a ver também com o petróleo, pelo menos em alguma medida; mas o petróleo não é o fator principal. E vai bem além das exigências de comandar algum império global ou tornar o mundo seguro – ou ainda mais seguro – só para os capitalistas ocidentais.

Os capitalistas ocidentais não precisam de nenhum tipo de renascimento do fascismo europeu e do antissemitismo europeu. Nem eles precisam, nem nós precisamos. Tampouco, nem eles nem nós precisamos de movimentos à Al-Qaeda brotando por todo o Oriente Médio, ou pelo centro e sul da Ásia.

Mas as políticas de nossos “líderes” levaram todos a isso. Desnecessário dizer que chegaram onde não lhes interessava chegar. Mas, sendo assim, o que, afinal, eles têm em mente? Bobagem procurar. Nada têm em mente que seja, sequer remotamente, coerente; o mais provável é que absolutamente não saibam o que fazem.

Mesmo assim, seguem “em frente”. Com os velhos “satélites” soviéticos já pendurados nos EUA e na Europa, a única coisa que lhes resta é levar a União Europeia e a própria OTAN para dentro da própria velha União Soviética.

A ideia é ridícula, risível, e não só porque a Rússia é hoje muito mais poderosa do que foi nos anos 1990s. Se o império Americano não estivesse em mãos tão incompetentes, nada disso estaria acontecendo.

Derrubar governos recalcitrantes nunca foi difícil para os serventes do império. Os velhos métodos foram aperfeiçoados, primeiro, na América Latina. Depois da IIª Guerra Mundial, foram aplicados no resto do mundo.

A fórmula é simples: invista dinheiro pesado em criar o caos. Depois, no momento adequado, apoie com discrição golpes de estado locais, perpetrados por fregueses ou simpatizantes.

É exatamente o que estão fazendo nesse momento – até aqui sem sucesso – na Venezuela.

Mas, até hoje, os “líderes” dos EUA sempre tiveram o bom senso de manter suas maquinações confinadas nas esferas de influência dos EUA ou em áreas periféricas que não gerassem graves preocupações de segurança para as grandes potências.

Depois da IIª Guerra Mundial, não havia grande potência maior que a União Soviética. Era aceitável encorajar dissidentes lá e na Europa Oriental. Mas nenhum “líder” norte-americano seria suficientemente doido para falar em “mudança de regime”; não, é claro, com a possibilidade de desencadear uma guerra nuclear. O papel de Eisenhower no Levante da Hungria em 1956 foi, nesse sentido, exemplar.

A Rússia pós-1991 ainda era capaz de reduzir o planeta a poeira. Assim sendo, até Bill Clinton mostrou algum bom senso. Foi levado pelas circunstâncias – mas não ao ponto de total temeridade. E safou-se.

É pouco provável que sua esposa tenha tido muito a ver com os planos de ampliar a União Europeia ou de levar a OTAN para a fronteira da Rússia. Não parece tampouco que fosse item de sua lista-de-supermercado quando foi Secretária de Estado do governo Obama.

Hillary Hitler
Mas Hillary Clinton pula, lépida, em qualquer vagão que passe por ali. E, sim, já abraçou abertamente a causa. Em sua alocução de estreia, já logo declarou que Vladimir Putin “é Hitler”.

Frase idiota. Mas, se se considera a fonte, perfeitamente esperável.

Obama foi além dessa, nas imbecilidades. Falando na Bélgica, depois de reunir-se com líderes do G-7 (mais, e agora menos, 1), não teve vergonha nem de insultar o presidente da Rússia: disse que não passa (ria) de líder de potência regional cujas ações manifestam fraqueza. Falou como maluco. Obama chamou Putin, de fraco. Como consegue ainda olhar a própria cara no espelho?

Mas... e como consegue olhar alguém de frente, depois de acusar Putin de ter violado a lei internacional? Obama é inacreditável.

Será que a ideia de reviver as políticas da era Clinton é ideia de Obama? Ou se devem culpar eminências secundárias como John Kerry, ou aqueles horrendos “interventores humanitários” que Obama cobriu de poderes? Seja a culpa de quem for, a ideia de gerar riscos de segurança nacional para a Rússia é a pior ideia que alguém teve, nos EUA, desde o dia em que George W. Bush, caído em desgraça, saiu da Casa Branca.

Se Obama era dito “menos ruim” que John McCain em 2008, era, precisamente, porque se dizia não cúmplice desse tipo de ideia. Se se observa a inclinação que McCain manifesta hoje de não se envergonhar de exibir a própria temeridade tresloucada, Obama & McCain fazem, isso sim, perfeita dupla.

Seja como for, já está claro que EUA e União Europeia – e os nacionalistas ucranianos cujo golpe encorajaram – perderam tudo, pelo menos num item: nada e ninguém desfará a incorporação da Crimeia à Rússia.

Vladimir Putin
Com todos os erros e falhas, Putin e sua equipe são tão absolutamente melhores que Obama e sua gangue, que, a partir do momento em que se organizam para agir, os russos sempre se saem melhor, mesmo que tenham de jogar com cartas mais fracas.

Felizmente, os russos não são só mais espertos: também são mais sábios. Sabem quando não forçar a própria boa sorte; por isso, esperemos, saberão lidar com opositores tão totalmente sem-noção, sem rumo e sem vergonha quanto os que lhes apareceram agora.

Por isso, é bem provável que os EUA nos safemos de mais essa. Os perigos que Obama et. alii lançaram sobre o mundo, quando resolveram meter as garras na Ucrânia, continuarão, provavelmente, contidos.

Diferente dos EUA, a Rússia tem interesses legítimos de segurança nas repúblicas ex-soviéticas. Obama e sua gangue são, portanto, como crianças brincando com fósforos. Os russos, como tudo indica, também sabem resistir a provocações imbecis.

Porque, sim, os russos foram provocados. E continuarão a ser provocados. Obama pode, sim, decidir pôr fim às provocações, mas, até aqui, só tem feito o contrário.

Nos últimos dias, a animosidade anti-Rússia parece já ter ultrapassado todos os muros de Washington. E para onde andem Democratas e Republicanos, atrás deles segue toda a imprensa-empresa. Os suspeitos de sempre estão ocupadíssimos, tentando provocar o máximo dano possível, com a maior velocidade possível.

Nunca mais, desde a invenção da Guerra do Iraque, viu-se tanta propaganda de promoção dos erros e loucuras do governo dos EUA, como agora. A National Public Radio (NPR) está excepcionalmente insuportável. Eu, pessoalmente, já não suporto ouvir aquilo, nem para manter uma vozinha de fundo, enquanto trabalho.

Se os russos não morderem a isca e não descerem ao nível de Obama, as consequências são terríveis.

E o futuro não será melhor, se não morderem nem descerem. A equipe Obama faz o que bem entende com tanta frequência, que quanto mais fazem, mais querem fazer.

Portanto, se não forem detidos, as provocações continuarão, cada dia mais perigosas. Há outras repúblicas ex-soviéticas por lá; e não se pode esquecer que Obama ainda comicha de vontade de pivotear-se “na direção da Ásia”.

Em outras palavras, Obama também está olhando na direção da China. É terrível. Tampouco nisso, vê-se qualquer sinal de prudência naquela cabeça.

É grave ironia – e patética ironia – que a melhor esperança dos norte-americanos para evitar as piores consequências das políticas de Bush-Obama seja hoje um conservador russo, homem-forte liberal – presidente com inclinações autocráticas, mas, também, político consistente e competente, com senso histórico, suficientemente esperto e sábio para não se pôr a cometer loucuras armadas pelo planeta. Não é o melhor que se pode esperar da democracia. Apenas mostra o quanto a democracia norte-americana está distante da democracia ideal.

Mas, com presidente incompetente, sem vergonha e sem noção – e sistema político tão corrupto e degradado que já não garante a mudança para a qual os eleitores votam – o que temos hoje nos EUA é o máximo de “hope” e de “change” que sobrou para nós.



[*] Andrew Levine é professor sênior do Institute for Policy Studies, e autor de THE AMERICAN IDEOLOGY (Routledge) e POLITICAL KEY WORDS (Blackwell), bem como de muitos outros livros e artigos em filosofia política. Seu livro mais recente é In Bad Faith: What’s Wrong With the Opium of the People. Foi professor de Filosofia) na University of Wisconsin-Madison e professor pesquisador (filosofia) na University of Maryland-College Park. É co-autor de Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion (AK Press).