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sábado, 7 de janeiro de 2012

“O Hamás roubou a nossa guerra!”



Uri Avnery

7/1/2012, Uri Avnery, Gush Shalom [Bloco da Paz], Israel
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Nota introdutória: Os dois excertos de notícias inseridos previamente ao artigo são essenciais para entendimento e acompanhamento histórico sobre o que se passa entre os mais importantes partidos políticos de Gaza e Cisjordânia e como isso afeta o poder ocupante



Khaled Meshall, do Hamás: “A Primavera Árabe começou na Palestina, em 1987”
23/12/2011, Associated Press (excerto)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

CAIRO – O Hamás volta a concentrar-se nas manifestações de massa contra Israel, ao estilo dos levantes da “primavera árabe”, disse à Associated Press o estrategista político do Hamás, Khaled Mashaal, na última 5ª-feira.

Mashaal estava no Cairo, para reuniões com Mahmoud Abbas, do partido Fatah. Os dois lados unem-se agora, numa Organização para a Libertação da Palestina (OLP) reformada, para organizar as próximas eleições em 2012, em Gaza e na Cisjordânia.

“Levantes populares têm o poder de tsunamis” – disse Mashaal, falando das recentes ondas de protestos populares no mundo árabe.

“Há agora terreno comum sobre o qual a resistência popular, que é a voz e o poder do povo, pode trabalhar. Os palestinos fomos os primeiros que nos levantamos, nas ruas, contra governo opressor, quando nos levantamos contra Israel, em 1987” – disse Mashall. “Em 1987, os jovens palestinos enfrentaram, com pedradas, os soldados de Israel pesadamente armados. Adiante, o Hamás foi eleito, em eleições livres e limpas, na Cisjordânia e em Gaza.

Grupos palestinos avançam na reconciliação

25/12/2011, Osamah Radi, Omer Othmani, Xinhuanet, Pequim (excerto)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

GAZA, Dec. 24 (Xinhua) – Os palestinos deram mais um passo na direção de uma unificação histórica, com a reforma da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), como representante dos palestinos, na primeira grande reforma que está sendo pactuada entre Hamas e Fatah, desde a fundação, em 1964.

Com a reforma da OLP, o Hamas e a Jihad palestina devem unir-se à OLP, pela primeira vez. Os dois movimentos participarão das eleições para o Conselho Nacional Palestino [ing. Palestinian National Council (PNC)], o parlamento da OLP no exílio.

O anúncio foi feito em reunião na 5ª-feira, preparatória para a cúpula a ser realizada em fevereiro, da qual deve sair um governo unitário de transição, formado por membros do Fatah e do Hamas. (...)

Segundo o acordo que está sendo construído entre Hamas e Fatah, o novo PNC será eleito no próximo mês de maio, quando também devem serão eleitos presidente e deputados em data ainda não decidida. (...)

Yousef Rezqah, alto dirigente do Hamás, disse que “o Hamás esperará a eleição de um novo PNC, para unir-se formalmente à OLP. Depois das eleições para o Conselho Nacional Palestino, o Hamás analisará os programas políticos da OLP e seus compromissos. Só as eleições podem decidir o que será feito, e se os acordos que estão sendo construídos agora darão frutos ou não” – acrescentou o dirigente do Hamás.

Finalmente o artigo do Uri!

E enquanto isso, em Israel...

O vilão é o Hamás!
Não há limites na vilania do Hamás!
Essa semana, o Hamás fez algo realmente imperdoável!
 O Hamás roubou a guerra de Bibi Netanyahu!
Bibi ficou sem guerra!

Já há algumas semanas, o quase novo comandante do Exército de Israel, vem anunciando, praticamente em todas as oportunidades, que uma nova guerra contra a Faixa de Gaza “é inevitável”. Vários comandantes de tropas em torno da Faixa, repetiram sem parar esse “prognóstico”, e também seus auxiliares de campo, chamados “especialistas em questões militares”, todos dizendo a mesma coisa.

Um deles teve até uma palavra de consolo: é verdade que os foguetes do Hamás já podem atingir Telavive, mas... não se preocupem, que não será muito terrível. Será guerra curta, coisa de dois, três dias. Um dos generais israelenses acrescentou que será guerra muito mais “dura e dolorosa” (para os árabes) que [a Operação] “Chumbo Derretido 1”, quer dizer, não durará três semanas, como aquela. Bastará que os israelenses permaneçam metidos nos abrigos (os que têm abrigos), só por alguns dias.

E por que a tal guerra seria inevitável? Por causa do terrorismo, estúpido! O Hamás é organização terrorista, não é?

E foi quando o líder supremo do Hamás Khaled Mash’al apareceu e disse que o Hamás passará a organizar levantes populares. Doravante, o Hamás se dedicará a manifestações não violentas, no espírito da Primavera Árabe.

E, se o Hamás abjura o terrorismo... desaparecem todos os pretextos para atacar Gaza.

Ora! E quem precisa de pretextos? O exército de Israel nunca será derrotado por estrategistas como Mash’al e seu bando. Se o exército de Israel quer guerra, o exército de Israel sempre arranja alguma guerra. Foi o que se viu em 1982, quando Ariel Sharon atacou o Líbano, num momento em que, há 11 meses, não acontecia nenhum tipo de problema da fronteira libanesa. (Depois da guerra, criou-se em Israel o mito de que teria havido forte tiroteio na véspera. Hoje, quase todos os israelenses “lembram-se” do tiroteio que nunca houve – exemplo espantoso do poder de sugestão.

E POR QUE o comandante do exército de Israel tanto quer atacar alguém?

Os cínicos diriam que todos os comandantes de exército recém nomeados precisam de guerra nova, para chamarem de sua. Mas não somos cínicos.

Dia sim, dia não, um solitário rojão é lançado da Faixa de Gaza, na direção de Israel. Raramente cai em local diferente de campos não habitados. Já há meses ninguém, em Israel, é ferido por aqueles rojões, produzidos em casa.

A sequência regular é sempre a mesma: o exército israelense imediatamente realiza uma “liquidação predefinida” [orig.“targeted liquidation”] de militantes na Faixa de Gaza. O motivo é, sempre, que aqueles predefinidos “terroristas” imediatamente liquidados tentaram atacar cidadãos de Israel. E como o exército de Israel adivinha os planos deles? Ah! O exército de Israel sabe ler pensamentos.

Imediatamente depois de aqueles mortos serem mortos, o grupo militante no qual militava cada morto entende que seja seu dever vingar seus mortos e cada grupo lança um rojão ou morteiro, às vezes dois, às vezes três. O que “não pode ser tolerado pelo exército de Israel”... e assim vai.

Depois de cada episódio desse tipo, recomeçam em Israel, as ameaças de guerra. Como dizem deputados e senadores dos EUA, nas palestras que fazem no Comitê Norte-Americano Israelense de Relações Públicas, o AIPAC: “Nenhum país pode admitir que seus cidadãos fiquem expostos a rojões!”.

Evidentemente, claro, a Operação Chumbo Derretido não foi motivada pelos rojões palestinos: os motivos foram outros e mais sérios.

O Hamás começa a ser aceito e começa a integrar-se à comunidade internacional. O primeiro-ministro da Cisjordânia, governada pelo Hamás eleito, Isma’il Haniyeh, está viajando pelo mundo árabe e muçulmano, apesar de Israel tê-lo mantido por muito tempo como que cercado, e calado, em Gaza – uma espécie de cerco da Faixa de Gaza. 

Mas hoje o Hamás já entra e sai do Egito, porque a Fraternidade Muçulmana – organização-mãe, da qual nasceu o Hamás – já é praticamente o governo, no Egito.

Muito pior: o Hamás aproxima-se perigosamente de unir-se à Organização para a Libertação da Palestina, com o que passará a integrar o governo palestino. Não pode ser! Israel tem de tomar alguma providência. Por exemplo... Atacar Gaza! Obrigar o Hamás a pegar em armas, outra vez! Obrigar o Hamás a voltar a ser organização extremista. 

Não satisfeito com ter privado Israel de sua guerra – “o Hamás roubou a nossa guerra!” – Khaled Mash’al planeja outras ações sinistras. 

Ao aproximar-se da Organização para a Libertação da Palestina, Mash’al aproxima o Hamás, também, dos Acordos de Oslo e de todos os demais arranjos já feitos entre Israel e a OLP. Mash’al já anunciou que o Hamás aceita um estado palestino nas fronteiras de 1967. Já fez saber que, esse ano, o Hamás não contestará a legitimidade da presidência palestina, o que, na prática, implica que o candidato do partido Fatah – seja quem for – será eleito sem qualquer oposição e, claro, terá legitimidade para negociar com Israel.

Tudo isso, na prática, encurrala o atual governo de Israel. E Mash’al tem alguma experiência no que tenha a ver com complicar muito a vida de Israel. 

Em 1997, o (primeiro) governo de Netanyahu resolveu livrar-se dele para sempre, em Amã. Mandou para lá uma equipe de agentes do Mossad, com a missão de assassinar Mash’al em plena rua, com um jato de veneno que não deixaria vestígios, lançado de uma lata de spray, diretamente dentro do ouvido de Mash’al. 

Mas, em vez de fazer a coisa certa, e morrer silenciosamente de causa jamais identificada, como Yasser Arafat, Mash’al mandou seus guarda-costas perseguirem os espiões do Mossad, e pegá-los vivos.

Tudo isso aconteceu na Jordânia. O rei Hussein, aliado de Israel há anos, foi imediatamente informado de tudo. E ficou furioso, por Israel ter infiltrado seus espiões, em missão de assassinato, em território jordaniano. Disse a Netanyahu que ele escolhesse: ou os espiões do Mossad seriam julgados na Jordânia onde muito provavelmente seriam condenados e enforcados, ou o Mossad que enviasse, imediatamente, o antídoto ao tal veneno, para salvar a vida de Mash’al. Netanyahu rendeu-se. E aí está Khaled Mash’al, hoje, vivo e forte[1].

Outro curioso resultado dessa malfadada aventura: o rei Hussein também exigiu de Netanyahu que o fundador do Hamás e líder supremo do movimento, Sheik Ahmad Yassin, paraplégico, que estava preso em Israel, fosse imediatamente libertado. Netanyahu também obedeceu, Yassin foi libertado (e assassinado por Israel, sete anos depois. Pouco depois, o sucessor de Yassin, Abd al-Aziz Rantissi, também foi assassinado. Khaled Mash’al, embora muito jovem, foi então escolhido para sucedê-lo, no comando político e militar do Hamás.

E Mash’al, em vez de manifestar gratidão imorredoura a Israel, aí está, a desfiar abertamente o exército israelense! Fim das ações violentas, abertura indireta para negociações de paz, até, talvez, para a solução dos dois estados! 

UMA PERGUNTA: Por que o comandante do exército de Israel tanto insiste em ter sua guerrinha em Gaza, se pode ter a guerra das guerras, contra o Irã? Não pequena operação de morticínio, mas grande guerra, guerra mesmo!

Ora, porque sabe que não conseguirá a guerra contra o Irã.

Há algum tempo, fiz algo que jornalistas inexperientes sempre fazem: apostei que Israel não atacaria o Irã. (Apostei também, justo acrescentar, que nem os EUA atacariam o Irã.)

Políticos e jornalistas experientes não apostam nem fazem esse tipo de previsão, sem deixar aberta um túnel de fuga. Sempre acrescentam um “a menos que...”. Se a aposta começa a azedar e a previsão periclita, pode-se escapar por ali.

Passei por coisa semelhante – há uns 60 anos – mas não escapei por túnel algum. Eu disse “Não haverá guerra”. Agora, o general Gantz diz a mesma coisa, com mais palavras: Israel não atacará o grande Irã; só contra a pequena, pobre, infeliz Faixa de Gaza.

Por quê? Responde-se com uma palavra: Ormuz.

Não o antigo deus persa Hormuzd, mas o pequeno estreito, entrada e saída do Golfo Persa, pelo qual passa 20% do petróleo do mundo (e 35% do petróleo transportado por oleodutos submarinos). A ideia é que nenhum governante mentalmente são (nem os apenas levemente alucinados) jamais poriam em jogo o trânsito pelo Estreito de Ormuz, cujo fechamento causará consequências catastróficas, apocalípticas.

O Irã, que não confia que todos os governos do mundo leiam essa coluna, tratou logo de explicar, com a máxima clareza possível. Fizeram manobras militares ostensivas próximas ao Estreito de Ormuz. É claro que o Irã pode, se precisar, fechar tudo, por ali.

Os EUA responderam com a arrogância de praxe, com ameaças de retaliação. A invencível Armada dos EUA logo reabrirá o Estreito, se preciso for.

Mas... Como? Qualquer super porta-aviões multibilionário pode ser facilmente inutilizado por uma bateria de mísseis terra-ar baratinhos, e, até, por barcos pequenos armados com mísseis. Imaginemos que o Irã faça o que ameaçou fazer. Os EUA mandarão para lá todo o poder de fogo de sua gigantesca Força Aérea, mais toda a invencível Armada dos EUA. Afundarão os barcos iranianos, bombardearão todas as instalações do exército iraniano. E nem assim impedirão que os mísseis do Irã continuem a chover sobre o Estreito, tornando impensável o trânsito de superpetroleiros por ali.

E depois? Restará a alternativa dos “coturnos em terra”. Os EUA terão de desembarcar no litoral e ocupar todo o território do qual os mísseis continuarão a poder ser lançados. Seria gigantesca operação de guerra. Os iranianos resistirão ferozmente, se se pensa no que houve em oito anos da guerra Iraque-Irã. E ali perto estão a Arábia Saudita e os outros estados do Golfo, que também seriam atingidos.

Teria de ser operação muito maior que a invasão do Iraque ou do Afeganistão, pelos EUA. Maior, até, que a invasão do Vietnã.

Os EUA, falidos, teriam como fazer tudo isso? Economicamente, politicamente? O exército dos EUA está hoje em condições morais, para fazer tudo isso? Fechar o Estreito de Ormuz é a solução “bomba-atômica”, a arma derradeira. O Irã não a usará contra sanções, por severas que sejam, como ameaçaram fazer. Mas a usarão, sim, se sofrerem ataque militar direto.

Se Israel atacar sozinha – “a ideia mais estúpida que jamais ouvi”, como disse o ex-comandante do Mossad – nada muda. O Irã interpretará o ataque israelense como ataque norte-americano, e fechará o Estreito. Por isso, precisamente, o governo Obama já mandou entregar em mãos de Netanyahu e Ehud Barak ordem expressa para que não empreendam nenhum tipo de ação militar contra o Irã.

O exército israelense, assim, ficou sem guerra! Nada de guerra ao Irã. Resta-lhe, como possibilidade de guerra, atacar Gaza. E, bem nessa hora, aparece o “terrorista” Mash’al, do “terrorista” Hamás, querendo estragar também a guerra contra Gaza!


Nota dos tradutores
[1] Essa história, narrada em detalhes, e leitura absolutamente fascinante, riquíssima de informação jornalística útil, é tema do livro Kill Khalid, do jornalista australiano Paul McGeough (Londres: The New Press, 2008), sem tradução para o português.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Palestina: Hamás e Fatah – “A história não contada do acordo que sacudiu o Oriente Médio”

7/6/2011, Robert Fisk, The Independent, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Hamas leader Ismail Hanniyeh, right, shakes hands with senior Fatah
official Nabil Shaath during their meeting in Gaza in May
O líder do Hamas Ismail Hanniyeh, à direita, aperta a mão do dirigente senior do Fatah, Nabil Shaath durante a reunião de Gaza em maio último
Encontros secretos entre intermediários palestinos, agentes da inteligência do Egito, o ministro turco de Relações Exteriores, o presidente Mahmoud Abbas e Khaled Meshaal, líder do Hamás – uma ida secreta a Damasco, tendo de desviar da cidade de Deraa, em rebelião – levaram à unidade dos palestinos que tanto perturbou os governos de Israel e dos EUA. Em maio, Fatah e Hamás puseram fim a anos de conflitos, com um acordo crucial para alcançar o reconhecimento internacional do estado palestino.

Várias cartas detalhadas, aceitas pelos dois lados, das quais The Independent tem cópias, mostram o quanto foram complexas as negociações. O Hamás também buscou – e obteve – o apoio do presidente sírio Bachar al-Assad, do vice-presidente Farouk al-Sharaa e de seu ministro de Relações Exteriores, Walid Moallem. Entre os resultados, há um acordo feito por Meshaal para pôr fim aos ataques de foguetes do Hamás, de Gaza, contra Israel – porque a resistência passaria a ser direito exclusivo do estado – e um acordo pelo qual o estado palestino reivindica fronteiras baseadas nas fronteiras de Israel em 1967.

“Sem a boa vontade de todos os lados, o auxílio dos egípcios e a aceitação pelos sírios – além do desejo dos palestinos de unir-se, desde o início da Primavera Árabe –, não teríamos conseguido fazer o que fizemos”, disse-me pessoalmente um dos principais intermediários, Munib Masri, 75 anos. Foi Masri quem ajudou a estabelecer um ‘Fórum Palestino’ de independentes, depois de o Hamás ter alcançado extraordinária vitória eleitoral em 2006. “Sempre entendi que as divisões que se criaram seriam uma catástrofe, e passamos quatro anos andando para frente e para trás entre os vários partidos”, disse Masri. “Abu Mazen (Mahmoud Abbas) pediu-me várias vezes que mediasse os contatos. Começamos a nos encontrar na Cisjordânia. Todos participaram. Reunimos muitas capacidades.”

Em três anos, membros do Fórum Palestino viajaram mais de 12 vezes a Damasco, ao Cairo, a Gaza e à Europa e várias iniciativas foram rejeitadas. Masri e seus colegas negociaram diretamente com o primeiro-ministro Hanniyeh do Hamás em Gaza. Adotaram a chamada “iniciativa de troca de prisioneiros” de Marwan Barghouti, alto líder do Fatah, que está preso em Israel; então, com os ventos das revoluções na Tunísia e no Egito, a juventude palestina, dia 15 de março, exigiu que os partidos se unissem e pusessem fim à rivalidade entre Fatah e Hamás. Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel sempre se recusou a negociar com Abbas porque, dizia ele, os palestinos estavam divididos. Dia 16 de março, em discurso, Abbas disse que estava “pensando em ir a Gaza”. Masri, que estava presente, subiu numa cadeira e aplaudiu.

“Supus que o Hamás responderia positivamente” – Masri recorda. “Mas nos primeiros dois ou três dias depois do discurso de Abbas, a resposta foi negativa. O Hamás queria eleições imediatas e nada de diálogo.” Abbas partiu para Paris e Moscou – para mostrar desagrado, aos olhos de alguns de seus associados. Mas o Fórum não desistiu.

“Redigimos um memorando – dissemos que íamos visitar os egípcios, para nos congratular com a revolução deles. Tivemos duas reuniões com o chefe da inteligência egípcia, Khaled Orabi – o pai de Orabi foi general do exército ao tempo do rei Farouk – e nos encontramos com Mohamed Ibrahim, do departamento de inteligência.” O pai de Ibrahim tornou-se muito conhecido na guerra de 1973, quando capturou o oficial israelense de mais alta patente no Sinai. A delegação também se reuniu com assessores de Ibrahim, Nadr Aser e Yassir Azawi.

Sete membros de cada grupo palestino formaram a delegação que foi ao Cairo. Eis os nomes que, no futuro, estarão nos livros de história da Palestina: pela Cisjordânia, o Dr. Hanna Nasser (reitor da Universidade Bir Zeit e da comissão eleitoral central palestina); Dr. Mamdouh Aker (presidente da sociedade de direitos humanos); Mahdi Abdul-Hadi (presidente de uma associação política em Jerusalém); Hanni Masri (analista político); Iyad Masrouji (comerciante de produtos farmacêuticos); Hazem Quasmeh (dirige uma Organização Não Governamental) e o próprio Munib Masri.

O ‘lado’ de Gaza foi representado por Eyad Sarraj (que não pôde viajar ao Cairo por ter adoecido); Maamoun Abu Shahla (membro da diretoria do Banco Palestino); Faysal Shawa (comerciante e proprietário de terras); Mohsen Abu Ramadan (escritor); Rajah Sourani (militante árabe de direitos humanos, que não viajou ao Cairo); ‘Abu Hassan’ (membro da Jihad Islâmica, indicado por Sarraj); e Sharhabil Al-Zaim (advogado em Gaza).

“Esses homens passaram muito tempo discutindo com o alto escalão do serviço de inteligência do mukhabarat egípcio” – Masri lembra. “Nos encontramos com eles dia 10 de abril, mas enviamos um documento antes de viajar. Por isso o contato tornou-se tão importante. Em Gaza havia dois ‘lados’ diferentes. Falamos sobre a microssituação, sobre os gazenses presos em Gaza, sobre direitos humanos, sobre o bloqueio egípcio, sobre dignidade. Shawa dizia “sentimos como se não tivéssemos dignidade – e sentimos que a culpa é nossa”. Nadr Asr, do departamento de inteligência disse: “Vamos mudar tudo isso.” 

“Voltamos às 19h, para nos reunirmos outra vez com Khaled Orabi. Eu disse: “Escute, preciso saber, de você: a nova iniciativa agrada a vocês, um pacote que é situação de ganha-ganha para todos? O caso da Palestina continua ‘quente’ no Cairo? Ele respondeu: “É processo meio longo – mas, sim, gostamos da ideia. Vocês conseguem pressionar os dois lados, o Fatah e o Hamás, e trazê-los para o projeto? Mas, sim, trabalharemos com vocês. Procurem o Fatah e o Hamás – e tratem tudo isso como assunto confidencial.” Nós aceitamos. Fomos falar com Amr Moussa (agora, candidato à presidência do Egito pós-revolução) na Liga Árabe. De início, mostrou-se muito cauteloso – mas no dia seguinte, quando nos reunimos com a equipe dele, todos foram muito positivos. Dissemos: ‘Deem uma chance à ideia’. Dissemos que a Liga Árabe foi criada para a Palestina, que a Liga Árabe tem papel importante em Jerusalém.” 

A delegação visitou também Nabil al-Arabi, no ministério de Relações Exteriores do Egito. “Al-Arabi disse: ‘Posso chamar o ministro das Relações Exteriores da Turquia, que está no Egito?’ O ministro veio e discutimos juntos a iniciativa. Ali descobri que o ‘novo’ Egito estava muito confiante no sucesso da nossa iniciativa: eles quiseram [itálicos] discutir na presença da Turquia. Assim, discutimos todos juntos e eu voltei com os outros para Amã, às 21h.” 

O grupo foi à Cisjordânia, para relatar o que fora feito – “estávamos felizes, nunca antes nos sentíramos como naquele dia” – e informar a Azzam Ahmed (chefe do grupo do Fatah que trabalhava pela reconciliação) que o grupo se preparava para apoiar a iniciativa de Mahmoud Abbas sobre Gaza. “Tivemos sete grandes reuniões na Palestina para reunir ali todos os grupos e os independentes. Abbas já nos dera um aval presidencial. Conversei com Khaled Meshaal (líder do Hamás, que vive em Damasco) por telefone. Meshaal perguntou: ‘Abu Mazzen (Abbas) concorda com tudo isso?’ Respondi que a questão não era essa. Dia seguinte fui a Damasco com Hanna Nasser, Mahdi Abdul Hadi e Hanni Masri. Por causa dos problemas na Síria, tivemos de contornar Deraa. Tenho boa relação com Meshaal. Ele disse que havia lido o nosso documento – e que achava que valia a pena trabalhar sobre a ideia.”

O fato de que os dois lados quisessem saber o que o outro pensava da iniciativa, antes de decidir, era sinal de que persistia a desconfiança entre o Hamás e Abbas. “Meshaal perguntou-me: ‘O que diz Abu Mazzen (Abbas)?’ Eu ri e respondi: ‘Você sempre pergunta isso. Estou aqui para saber o que vocês [itálicos] querem. Nos encontramos com assessores de Meshaal, Abu Marzouk, Izzat Rishiq e Abu Abdu Rahman. Lemos e revisamos o documento do acordo durante seis horas e meia. A única coisa que não arrancamos de Meshaal foi que o governo fosse constituído por acordo. Dissemos a ele que o governo seria governo de união nacional – sob a condição que teríamos de ser capazes de organizar e realizar eleições, levantar o bloqueio de Gaza e reconstruir Gaza, que tínhamos de obedecer à lei internacional, à Carta da ONU e às resoluções da ONU. Meshaal pediu três ou quatro dias. Aceitou que a resistência só aconteceria ‘na defesa do interesse nacional do país’ – e que teria de ser ‘aqlaqi’ – ética. Os ataques de foguetes contra civis tinham de acabar. Em outras palavras: ele tinha de garantir que não haveria mais foguetes de Gaza, contra Israel.”

Meshaal contou a Masri e acompanhantes que estivera com o presidente Bashar Assad da Síria, com seu vice-presidente Sharaa e com o ministro sírio de Relações Exteriores Moallem. “Disse que queria o apoio deles – mas no fim, prevaleceu a palavra do povo palestino. Estávamos muito felizes – dissemos que ‘surgiu uma pequena brecha’. Meshaal disse: ‘Nós não vamos deixar vocês sem apoio’. Dissemos que levaríamos a palavra dele ao Fatah e aos independentes na Cisjordânia, e aos egípcios. Na Cisjordânia, o Fatah chamava a iniciativa de ‘iniciativa do Hamás’ – mas dissemos que não, a iniciativa é de todos. Dois dias depois, Meshaal disse que falara com a inteligência do Egito e que eles estavam gostando do que tínhamos proposto.” 

As conversações foram bem sucedidas. Meshaal concordou com enviar dois de seus principais homens ao Cairo. A equipe de Masri esperava que Abbas fizesse o mesmo. Quatro representantes – dois de cada lado – viajaram ao Egito dia 22 de abril. Um ano antes, quando houve um impasse entre os dois lados palestinos, no Egito, o regime de Moubarak tentara criar obstáculos ainda maiores para impedir qualquer reconciliação. Meshaal chegou a reunir-se, sem qualquer resultado, com Omar Sulieman – factótum da inteligência de Mubarak e o melhor amigo de Israel no mundo árabe – em Mecca. Se alguém ainda duvidasse, ali se comprovou que Sulieman realmente trabalhava para os israelenses. Dessa vez, tudo foi mesmo muito diferente.

No dia que Abbas e Meshaal foram ao Cairo, foram os dois governos completos, exceto os dois primeiros-ministros rivais, Fayad e Hanniyeh. O Hamás declarou que, ao longo dos últimos quatro anos, os israelenses haviam roubado ainda mais terras em Jerusalém e construído mais colônias exclusivas para judeus na Cisjordânia ocupada. Meshaal irritou-se, quando supôs que não o deixariam falar do pódio, como os demais presentes – e falou, no evento. E o Hamás aceitou a fórmula sobre as fronteiras de 1967, consciente de que assim reconhecia a existência de Israel; aceitou também a referência à resistência; e também concordou em ceder mais tempo a Abbas, para mais negociações.

No momento em que o Hamás passasse a integrar o governo de união, estaria reconhecendo o estado de Israel. Mas se não integrasse o governo, ninguém reconheceria coisa alguma e não haveria acordo. “Não é justo dizer ao Hamás ‘faça isso ou aquilo’”, diz Masri. “Claro que a resistência é direito recíproco. Mas se o Hamás não se integrasse ao governo de união nacional, passaria a ser apenas um partido político, sem tribuna para dizer o que querem dizer. Os EUA portanto que se preparem para conhecer o Hamás ativo na formação do governo. Esse governo respeitará as resoluções da ONU e a legislação internacional. Essa ação tem de ser mútua. Os dos lados perceberam que, por pouco, teriam perdido o barco da Primavera Árabe. Não foi trabalho meu – foi resultado da conjunção de muitos esforços. Não fosse pela mediação dos egípcios e pela boa vontade dos dois grupos palestinos, nada teria acontecido.” No dia seguinte à assinatura do acordo, partidários do Hamás e de Abbas concordaram em parar de prender militantes de um lado e de outro.

Hoje afinal se conhece a história da unificação dos palestinos. A reação de Netanyahu, primeiro-ministro de Israel à novidade – depois de ter-se negado a negociar com os palestinos porque estavam divididos – foi decidir que não negociaria com Abbas, se o Hamás fosse integrado ao governo palestino. O presidente Obama virtualmente ignorou a iniciativa da unidade palestina. 

Mas falar de “fronteiras de 1967” implica que o Hamás reconhece a existência de Israel; e a decisão negociada sobre a resistência implica o fim dos foguetes de Gaza contra Israel. A disposição para subordinar-se à legislação internacional e às resoluções da ONU implica que a paz pode ser completada e que um estado palestino pode ser criado. Essa, pelo menos, é a opinião dos dois lados palestinos.

O mundo esperará para saber se Israel outra vez rejeitará a paz.