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domingo, 25 de setembro de 2011

Verdades ainda ocultas

 

Publicado em 25/09/2011 por *Mário Augusto Jakobskind

A Câmara dos Deputados aprovou a Comissão da Verdade depois de um acordo generalizado com todas as correntes políticas e muito mais ainda nos bastidores. Do jeito que está posta, a Comissão corre o risco de se tornar uma Comissão de meia verdade ou mesmo de mentira.

Ela terá dois anos para realizar seu trabalho. Sete integrantes serão escolhidos para levar adiante o que se propõe e mais 14 servidores auxiliarão nos trabalhos. Já se fala que um dos indicados poderá ser Fernando Henrique Cardoso, pode-se imaginar o resto. Além do mais, sabe-se lá por qual motivo, ficou estabelecido que serão apurados (ou “apurados” entre aspas) as violações dos direitos humanos entre 1946 e 1988, um tempo muito extenso, quando o o motivo da criação da Comissão são os fatos graves ocorridos a partir do golpe civil militar de 1 de abril de 1964. A dotação orçamentária para o trabalho ficará por conta da Casa Civil

Em outros países onde aconteceram Comissões da Verdade, como no Uruguai, por exemplo, o número de investigadores era pelo menos cerca de 30 vezes mais e o tempo para o desenvolvimento do trabalho bem maior. Na África do Sul os acusados reconheciam publicamente os erros cometidos durante o regime do apartheid e assim sucessivamente.

No campo dos direitos humanos o Brasil ficou para trás, Enquanto nossos vizinhos já instalaram comissões do gênero há uns 20 anos, por aqui o parto foi difícil e pode estar nascendo algo para inglês ver, isso sem falar que ninguém será punido porque o Estado brasileiro entende que a lei da Anistia de 1979, sancionada em plena ditadura pelo último general de plantão, é a que vale.

Mesmo violações dos direitos humanos ocorridas depois da anistia assinada por João Batista Figueiredo não foram investigadas como deveriam ser e muito menos alguém foi punido. Os jornalistas argentinos Norberto Haeberger e Horacio Domingo Campiglia desapareceram no aeroporto do Galeão, hoje Tom Jobim, em 12 de março 1980, portanto depois da anistia. O mesmo aconteceu com Mónica Pinus Binstock, Lorenzo Ismael Viñas e o padre Jorge Oscar Adur, não no Rio, mas no Estado do Rio Grande do Sul. 

Todos eles despareceram depois da promulgação da lei de anistia, de setembro de 1979, e no âmbito da Operação Condor. Os responsáveis não foram localizados e a impunidade prevaleceu. Nos casos em questão não se pode alegar como justificativa para a impunidade a lei da anistia.

O historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira, quando esteve preso no Cenimar (Centro de Investigações da Marinha), testemunhou a presença de agentes norte-americanos nas dependências daquele organismo da repressão. Quantos brasileiros passaram por lá e qual teria sido a participação de agentes estadunidenses?

E é preciso que os brasileiros saibam os nomes das empresas que finaciaram a repressão para ver que fim levaram as mesmas depois da democratização e se por acaso hoje bancam candidaturas nos pleitos nacionais e regionais.

São perguntas sem respostas até agora e uma Comissão da Verdade para valer poderia responder. Será que vai se ter oportunidade agora de se esclarecer tais fatos com a Comissão recém-aprovada na Câmara dos Deputados e que vai ser votada também no Senado?

Em termos de manipulação da informação, mais uma vez O Globo se supera. Em matéria sobre a participação do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad na Assembleia Geral das Nações Unidas há um trecho assinalando que ele “voltou a por em dúvida o Holocausto”. Mas ao se ler o restante da “informação” do maior jornal do Rio, constata-se que não há referências à negativa propriamente da tragédia da II Guerra Mundial, mas sim o questionamento de se usar o Holocausto “para dar apoio a Israel na opressão contra os palestinos”.

Não é só Ahmadinejad que tem essa opinião, mas muitos outros que não questionam a existência do Holocausto e sim o seu uso político. É o caso do sociólogo estadunidense Immanuel Wallerstein e o linguista Noam Chomsky, dois importantes pensadores, inclusive de origem judaica.

Na verdade, a direita de Israel, cuja política levou o país ao isolamento, aproveita o sentimento de repulsa natural ao Holocausto para justificar a ação política que levou ao impasse com os palestinos. Figuras como o primeiro-ministro israelense Benyamin Netanyahu e o ministro do Exterior Avigdor Lieberman são exemplos mais notórios de truculência política que querem posar como vítimas, mas na verdade são algozes.

Mahmoud Abbas pediu na Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas o ingresso da Palestina como membro efetivo na entidade. Um pleito justo e que está atrasado no tempo mais de 60 anos. Como resposta obteve a negativa de Barack Obama e ameaças de Netanyahu.

O primeiro ministro israelense ocupou a tribuna da Assembléia e discursou de forma hipócrita falando em paz e negociações quando se sabe que cerca de 500 mil israelenses ocupam terras palestinas e impedem que o novo Estado seja criado.

Netanyahu mente, porque no fundo ele não quer a paz, ou melhor, quer a submissão dos palestinos em terras que sofram solução de continuidade,  exatamente por causa dos assentamentos.

Aqui no Brasil, políticos sem bandeiras, como o senador e ex-motorista do guerrilheiro Carlos Marighela, Aloisio Ferreira Nunes, criticaram a presidenta Dilma Rousseff pela posição favorável ao pleito palestino. Se Dilma falasse ao contrário e se alinhasse com Barack Obama seria criticada pela oposição também. É o tipo de posicionamento de quem realmente não tem bandeira.

*Mário Augusto Jakobskind é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do seminário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de América que não está na mídia, Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE

sábado, 30 de julho de 2011

Sou TOTALMENTE, ABSOLUTAMENTE, CONTRA O MINISTRO NELSON JOBIM

Nelson Jobim, biruta...

Um ministro da Defesa que se preze precisa, em primeiríssimo lugar, defender a legislação e as convenções internacionais, criadas para manter as delicadas relações entre países com povos e, portanto, hábitos, jeito e estilo tão diferentes.

Não vou entrar aqui no mérito da legitimidade do aparato jurídico mundial. Essa discussão tem de ser feita, mas em outro momento. Não agora.

Agora quero dizer que governos e diplomatas, em especial nos pós-guerras, criaram normas de convivência entre as nações. E o ministro Nelson Jobim desconsiderou várias delas ao assinar o maldito acordo de compra de armas e “sistemas de segurança” de Israel. 

  • Não sabe o ministro que a entidade sionista não se submete ao sistema legal internacional?

  • Que Israel viola, todo santo dia, os direitos básicos do povo palestino?

  • Que roubou todas as nascentes do território desse povo, confiscando terras, construindo muros e cercas eletrificadas, controlando o uso da água roubada (86% para Israel; 14% para os palestinos, muitíssimo mais numerosos)?

  • Que destruiu o sistema de abastecimento e saneamento de Gaza, expondo quase 2 milhões de pessoas a risco de doença e morte?

  • Que também destruiu a rede elétrica da faixa costeira, obrigando Gaza a comprá-la de Israel (a um preço altíssimo) e fornecendo-a apenas durante algumas horas do dia?

  • Que impede o direito de movimentação dos palestinos em seu próprio território, com humilhantes proibições de entrada em território israelense, chekpoints, muros, cercas, arame farpado? 

Estar aqui é viver num cenário de guerra. Cenário sim, porque não há guerra, os palestinos não têm armas, não são povo violento. O cenário serve ao marketing israelense, cujos “gestores de vendas” saem pelo mundo oferecendo armas e “sistemas de segurança” testados em campo -- um diferencial estratégico no competitivo mercado bélico.

Não sabe o ministro Jobim, tão zeloso em relação a informações militares, que os “sistemas de segurança” e as armas de Israel são elaborados, testados e aperfeiçoados para reprimir a população palestina, usando-a como cobaia?

Não sabe o ministro Jobim que, agindo assim, Israel viola a 4a. Convenção de Genebra? A Declaração Universal dos Direitos Humanos (o nome correto é “do Homem”, mas me recuso a usar essa terminologia, prova de uma trágica dominação masculina sobre a mulher, o negro, o homossexual, o “diferente”, uma negação da diversidade do mundo)? O direito básico de todo ser humano, que só por ter nascido merece respeito?

O absurdo desse maldito acordo não foi questionado por ninguém, que eu saiba.

Enquanto, na Argentina, grupos de direitos humanos e pró-Palestina se opõem a que o país assine um contrato com a entidade sionista nos mesmos termos que o ministro Jobim assinou -- e obrigaram o Congresso a chamar às falas o governo de dona Cristina -- no Brasil ninguém se mexe. Nem mesmo nossos congressistas mais respeitados e combativos questionaram o acordo, segundo sei (se questionaram e eu não sei, por favor, me corrijam. Ficarei felicíssima se conhecer qualquer iniciativa contrária ao maldito acordo).

Mais: não sabe o ministro Jobim que, ao comprar armas e “sistemas de segurança” de Israel, colabora para a militarização do mundo, etapa atual da ridícula “guerra ao terror”? Que ajuda a entidade sionista a oprimir ainda mais a população palestina? Que dá suporte a uma ideologia e práticas fascistas, racistas, preconceituosas, violentas, colonialistas, expansionistas, criminosas, apoiadas na força bruta e na negação da negociação e do diálogo?

Se dependesse de mim, o ministro Jobim já estaria na rua e o comando do exército que participou dessa negociata, afastado. Todos exonerados a bem do serviço público.

Brasileiros: é vosso dinheiro que pagará os negócios do acordo. No frigir dos ovos, serão vocês os responsáveis por mais opressão ao povo palestino.

Baby (Direto da Faixa de Gaza)

quinta-feira, 14 de julho de 2011

OS FORNOS CREMATÓRIOS DE TEL AVIV

Laerte Braga

Laerte Braga

A julgar por uma nota apócrifa – sem nomes, só sigla – a CONIB (CONFEDERAÇÃO ISRAELITA DO BRASIL), não resta dúvidas que se trata de mais uma entidade laranja para atuação livre e descarada da MOSSAD – Serviço Secreto de Israel – em território brasileiro.

E do conjunto de empresas do estado terrorista de Israel que começa a controlar setores estratégicos da economia brasileira, como o de armas, por exemplo.

Israel foi uma invenção das grandes potências ao final da 2ª Grande Guerra para eximir-se de culpa pelo massacre de judeus (mas de ciganos, comunistas, negros, povos de países ocupados, homossexuais também; o holocausto não é “privilégio” dos judeus) em campos de concentração nazistas e uma forma de assegurar o controle do petróleo no Oriente Médio.

Hoje é um império nazi/sionista, aterroriza a região inteira com seu poder militar, saqueia a Palestina, comete crime de genocídio contra o povo palestino e na opinião do professor e intelectual norte-americano James Petras pôs fim à soberania dos Estados Unidos.

Os USA, como gostam de urrar os mariners espalhados pelo mundo em ações terroristas contra povos que lutam pela liberdade, não é mais um país soberano. É a opinião de Petras.

O que existe na prática é um complexo terrorista. EUA/ISRAEL TERRORISMO S/A formado a partir de bancos, grandes corporações e valendo-se de setores de países outros dóceis aos interesses desse império.

No Brasil, por exemplo, os latifundiários. Também não falam, urram, grunhem. Saqueiam e matam.

E nesse complexo Israel detém o maior número de ações. Tanto da sociedade em si, como de atos terroristas.

O jornalista argentino Manuel Freytas divulgou em um site em seu país – IAR NOTÍCIAS – comentários reproduzidos mundialmente sobre as práticas terroristas do nazi/sionismo.

Os fornos crematórios de Hitler estão agora em Tel Aviv na forma de muro, de um arsenal nuclear que transforma o “país inventado” em quarta potência militar do mundo e de todo um arcabouço de bancos, empresas sob controle desses grupos.

Avançaram e dominaram os EUA. Avançam e dominam o resto do mundo. Os principais credores da Grécia na forma neoliberal de pirataria econômica são banqueiros nazi/sionistas que controlam bancos alemães e franceses (no mundo inteiro a bem da verdade).

Segundo a CONIB, em representação feita ao Ministério Público Eleitoral contra o Partido Comunista Brasileiro – PCB – a divulgação do texto do jornalista argentino configura propaganda anti semita e pede sanções, inclusive cassação do registro do Partido, por conta desse disparate calculado e pensado, parte das ações da MOSSAD no Brasil. Interferência de potência estrangeira.

Entendem os nazi/sionistas que Manuel Freytas é um “obscuro intelectual argentino” a deitar comentários anti semitas.

Já a revista VEJA transformar muçulmanos em terroristas recheada de páginas de propaganda de empresas controladas por judeus/sionistas, isso pode.

O Brasil é hoje um dos alvos prioritários do estado terrorista de Israel. Tem ação livre – MOSSAD e empresas – dentro do País, conta com a cumplicidade – por omissão – do governo federal e a simpatia dos setores de extrema direita das forças armadas – a maioria, aliás. Sem falar lógico, nos banqueiros, nas grandes corporações empresariais e entre os latifundiários.

Um ataque frontal como esse ao PCB, o mais antigo partido político do Brasil, que abrigou figuras do porte de Luís Carlos Prestes, do escritor Oswald de Andrade, de Jorge Amado, Monteiro Lobato, Carlos Drummond de Andrade, o pintor Cândido Portinari, como outros e abriga o arquiteto Oscar Niemeyer, tem o viés do nazi/sionismo demonstrado com rara felicidade pelo cineasta Stanley Kulbrick no filme DOUTOR FANTÁSTICO.

O cientista “importado” pelos EUA ao fim da 2ª Grande Guerra Mundial para “ajudar” no desenvolvimento de armas atômicas. Numa cadeira de rodas o dito cujo em meio a uma crise com a União Soviética – um dos grandes filmes da história do cinema – mantém a mão direita presa ao braço da cadeira, sem conseguir evitar, no entanto, que em determinados momentos escape e faça a saudação nazista enquanto grita HEIL HITLER.

Ben Gurion, considerado um dos “fundadores” de Israel colaborou e negociou com Hitler – documentos do WIKILEAKS mostram isso, são oficiais – durante o conflito mundial. Ele e outras figuras do sionismo mundial. Foi onde adquiriram o now know necessário aos fornos crematórios de Israel, a despeito da forma diferente e sutil dos crimes que praticam mundo afora.

Existem inúmeras resoluções das Nações Unidas condenando Israel por violações de direitos humanos, por ocupação de terras palestinas, por crimes contra a humanidade e nenhuma delas é implementada pelo simples fato que os terroristas são sócios majoritários do maior arsenal nuclear do mundo, os Estados Unidos.

Uma das imposições feitas pelo governo alemão – refém de banqueiros, como qualquer governo – para a ajuda á Grécia foi exatamente exigir do governo grego que impedisse a saída da FLOTILHA DA LIBERDADE. Iria levar alimentos, remédios e roupas aos habitantes da Faixa de Gaza submetidos a um cerco desumano e covarde, típico de nazi/sionistas.

São senhores aparentemente invisíveis do mundo, mas são. Visíveis no terrorismo como forma de implantar e expandir um império moldado no sonho de Hitler.

A representação é descabida. Não tem sentido. Um eventual processo a partir de um fato assim permitirá provar a presença de agentes da MOSSAD agindo livremente no Brasil, de toda a história da barbárie nazi/sionista contra palestinos e povos árabes. Da cumplicidade com militares (traidores) em países como o Egito, Jordânia, Arábia Saudita e outros.

Os campos de concentração nos dias atuais tomam a forma de muros (contra palestinos e mexicanos). Restam presentes em Guantánamo, território ocupado de Cuba. Em cada pedaço de terra palestina roubada por nazi/sionistas. Nos assassinatos chamados de seletivos de lideranças que se opõem ao fuhrer do dia. Em cada criança, cada mulher, cada idoso, cada homem palestino sacrificado no terror dos que vivem escondidos no manto sangrento do holocausto, como se fossem os únicos a terem enfrentado a ira nazista da Alemanha de Hitler.

Não são sub-produto do III Reich. São o IV Reich.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Petróleo saudita: músculos para a Palestina

Lawrence Davidson

20/6/2011, Lawrence Davidson, Consortium.News
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Lawrence Davidson é professor de História na West Chester University na Pennsylvania. É autor de Foreign Policy Inc.: Privatizing America’s National Interest; America’s Palestine: Popular and Offical Perceptions from Balfour to Israeli Statehood; e Islamic Fundamentalism.
Ver também:
-- 10/6/2011, “EUA pró-Israel: favoritismo fracassado”, Turki al-Faisal, Washington Post, EUA 
18/6/2011, 18/6/2011, Uri Avnery, Gush Shalom [Bloco da Paz], Israel Negar! Não aceitar! Dizer NÃO!
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Os sauditas não estão gostando do que têm ouvido do presidente Barack Obama, sobretudo ‘instruções’ que, aos olhos de Riad, parecem extremamente perigosas, como dizer aos sauditas e ao resto dos governantes árabes, que se antecipem aos movimentos de protesto popular e promovam reformas democráticas.

Os sauditas não têm qualquer tradição democrática além do conselho consultivo das tribos. Antes de serem reis e príncipes, são xeiques do deserto. Por isso, os conselhos de Obama soam como fala de aliado de muito tempo que, de repente, os aconselhe a render-se. Na tradição beduína, líderes fortes não se rendem sem luta.

Os sauditas já manifestaram por várias vias, sua decepção com Washington. Uma dessas vias foi enviar tropas para ajudar a monarquia do Bahrain (mais um xeique que se autodenomina rei) e apoiar a reação fascista que o regime impunha com violência contra a maioria xiita.

Os sauditas são sunitas wahhabitas, o ramo mais conservador do islamismo, e pouco se importam com o destino dos xiitas, que consideram heréticos. Os sauditas suspeitam que os xiitas do Bahrain estejam sendo orquestrados pelo Irã (que os sauditas muito temem, como potência xiita emergente na região).

Riad vê o terror no Bahrain como necessário e útil – por mais que muitos, em todo o mundo, inclusive eu, interpretemos como violência injustificável o modo como os sauditas encaminharam a questão do Bahrain.

Uma segunda via pela qual os sauditas já demonstraram o quanto estão frustrados com os discursos de Obama é denunciar a hipocrisia de Washington. Semana passada, o príncipe saudita Turki al-Faisal publicou no Washington Post um importante documento, bem arrazoado, sob o título de “EUA pró-Israel: favoritismo fracassado” - 10/6/2011, Turki al-Faisal, Washington Post, EUA; em português.  
Turki foi embaixador saudita nos EUA e no Reino Unido e foi chefe da inteligência saudita. Embora esteja hoje fora do governo (motivo pelo qual, provavelmente, assina o artigo publicado nos EUA), o que lá se lê pode ser considerado manifestação direta de sentimentos e pensamento do governo saudita. E o que diz Turki?

1. Referindo-se a Obama, no discurso sobre o Oriente Médio, Turki escreve que “[Obama] chamou a atenção de governos árabes para que abraçassem a democracia”, mas, simultaneamente, nada disse na direção de exigir os mesmos direitos de autodeterminação para os palestinos – apesar de o território palestino estar ocupado pela mais forte potência militar da região.” 

2. Turki descreve como “deprimente” ver o Congresso dos EUA aplaudir quando se negavam “aos palestinos os direitos humanos mais básicos”, durante recente visita do primeiro-ministro de Israel Binyamin Netanyahu ao Congresso norte-americano. 

3. Considerados em conjunto, os dois eventos – os EUA aplaudirem os israelenses por negarem direitos humanos básicos aos palestinos, ao mesmo tempo em que Obama exige que os mesmos direitos humanos básicos sejam respeitados no resto do mundo árabe, são, do ponto de vista dos sauditas, indicação clara de que “os planos de paz inventados por EUA e Israel já se revelaram inviáveis e o conflito Israel-Palestinos continuará perfeitamente sem solução à vista, enquanto as políticas dos EUA continuarem a dar injustificável prioridade aos interesses de Israel”. 

4. Assim sendo, “na falência de quaisquer negociações produtivas, é chegada a hora de os palestinos deixarem de lado EUA e Israel e buscarem reconhecimento internacional do estado palestino diretamente na ONU.” Nesse movimento, serão firmemente apoiados pela Arábia Saudita.

Os sauditas erraram no Bahrain, mas acertaram integralmente na Palestina. E o recado não para aí. Pode-se dizer que Turki de fato ‘jogou a luva’, em declarado desafio a Obama e aos EUA.

5. “Os políticos norte-americanos não se cansam de repetir que Israel é seu ‘aliado indispensável’. Logo aprenderão que há outros atores na região – além da rua árabe – que podem ser aliados, se não muito mais, pelo menos igualmente ‘indispensáveis’”. 

“Haverá consequências desastrosas para as relações EUA-Sauditas, se os EUA vetarem na ONU o reconhecimento do estado palestino”.

Deve-se considerar que não há qualquer base legal para esse veto, na Assembleia Geral da ONU. Mas o governo Obama pode dificultar muito as coisas, simplesmente torcendo braços e apertando gargantas em número suficiente, entre as nações que dependem de Washington, para conseguir que votem “Não” ao reconhecimento do estado palestino.

Foi exatamente o que o governo Truman fez em 1948, para conseguir o número de votos necessários para aprovar o reconhecimento do estado de Israel (por pequena diferença). Será muito triste ironia, se o governo Obama recorrer à mesma tática, para, outra vez, derrotar os palestinos.

6. Turki conclui: “Nós árabes muitas vezes dissemos não à paz. E em 1967 pagamos o preço pelas muitas vezes que erramos. Em 2002, o rei Abdullah ofereceu o que viria a ser chamado de Iniciativa da Paz Árabe (...). Mas, dessa vez, são os israelenses, que dizem não à paz. Espero não estar por perto, quando os israelenses tiverem de pagar o preço pelo erro que estão cometendo.”

Seria temeridade decidir que a Arábia Saudita blefa. Turki tem bastante razão ao dizer que há outros parceiros no Oriente Médio que são mais indispensáveis para os EUA e para o ocidente em geral, que Israel. Por exemplo, qualquer dos grandes produtores de petróleo que há por lá.

Para provar o que dizem, os sauditas nem precisarão repetir o embargo do petróleo de 1973. Basta que reduzam gradual, mas ininterruptamente, o ritmo da produção, e pressionem outros produtores árabes para que façam o mesmo. Se o fizerem, o presidente Obama terá de lutar pela reeleição, em 2012, com o preço da gasolina acima de $5 o galão.

E o preço não cairá apenas por o vencedor ser algum Mitt Romney ou qualquer outro em fantasia de elefante. E pode não cair até que os palestinos recebam o direito de conseguir uma paz justa. (...)

O poder de Israel 

Contra essa referência muito clara ao poder dos sauditas, temos a mais recente chicanice de Netanyahu, primeiro-ministro de Israel.

Em conferência de imprensa em Roma, Netanyahu, estimulado pelos sorrisos de aprovação de Silvio Berlusconi, disse ao mundo que “o problema não são os ‘assentamentos’ (colônias exclusivas para judeus). A raiz do conflito é que os palestinos recusam-se a reconhecer a existência do estado judeu” [sobre isso, ver 18/6/2011, Uri Avnery, “Negar! Não aceitar! Dizer NÃO”]. 

Mais tarde,. Netanyahu elaborou: “É conflito insanável, porque não se disputa território (...). Até que os palestinos aceitem Israel, não só como país, mas como estado judeu, é impossível avançar.” 

Todos os líderes israelenses parecem ser tomados pelo delírio de inventar ilusões. Aqui, Netanyahu manifesta o mesmo delírio, tentando paralisar todo o processo de paz por efeito de suas palavras. Mas o ato de mágica engana espectadores sem qualquer memória ou perspectiva histórica. E Netanyahu consegue repetir suas bobagens sem história que as confirme, e nem por isso é desmentido. 

Mas muitos conhecem os vários fatos que Netanyahu omite. Eis alguns:

1. Em 1993, a Organização de Libertação da Palestina, liderada então por Yasir Arafat, reconheceu formalmente o estado de Israel. Naquele momento, todos sabiam exatamente o que significava “estado de Israel”. Ninguém jogava com ases tirados da manga, nem tentava introduzir na definição do estado termos jamais definidos com clareza, como o adjetivo “judeu”. 

O próprio Arafat disse depois ao jornal britânico Guardian que era “claro e óbvio” que Israel era e sempre seria judaica e que o problema dos refugiados teria de ser resolvido de modo que permitisse manter aquele traço judeu.

2. E há também informação vazada nos Palestine Papers (Janeiro, 2011), segundo a qual Mahmoud Abbas (também chamado Abu Mazen) e seus seguidores ofereceram aos israelenses absolutamente tudo que exigiram.

Como escrevi naquela época, Abbas e seus colegas “estavam dispostos a concordar com os bantustões, a ceder praticamente toda Jerusalém, a dar as costas a 99% dos refugiados, a fingir que não viam que a população de Gaza estava sendo massacrada e a servir, como aliados, à ocupação da Cisjordânia pelos exércitos de Israel.

“Ao final daquela ‘negociação’, já praticamente nada restava pelo qual valesse a pena lutar. Como o principal negociador da Autoridade Nacional Palestina, Saeb Erekat, disse aos enviado dos EUA ao Oriente Médio George Mitchell, os palestinos haviam feito tudo, exceto “converter-se ao sionismo”. Mesmo assim, os israelenses ignoraram todas as concessões feitas pelos palestinos.”

Ora, pode-se dizer que Netanyahu é homem de visão tão estreita e tão mal informado que não lembra de 1993 nem sabe do que Arafat explicou ao Guardian. Pois ainda assim teria de lembrar da capitulação tão fartamente noticiada nos Palestine Papers. Afinal de conta, aconteceu, em grande parte, sob seus próprios olhos.

E o que dizer da exigência de reconhecer o tal “estado judeu”? A única conclusão a que se pode chegar é que o primeiro-ministro Netanyahu é daqueles comediantes que depende de um ‘escada’, e que supõe que o resto do mundo, que, para ele, estaria representado no Congresso dos EUA, vive de lhe dar as ‘deixas’ sem as quais não teria como apresentar seu ‘número’. 

Contra todas esses delírios, há a realidade: a liderança política em Israel não tem qualquer interesse em fazer a paz. A paz deve ser evitada a todo custo, porque interromperá, necessariamente, o continuado roubo de terra palestina, por israelenses. Por isso, de fato, para Netanyahu, “é impossível avançar” rumo a qualquer paz.

E o vencedor? 

O que acontece se os sauditas decidem, mesmo, que chegou a hora de aplicar seu imenso poder econômico para ajudar os palestinos? O poder dos comediantes israelenses bastará para competir com os sauditas? Bem, há alguns argumentos a considerar:

1. O poder dos sionistas, fora da Palestina, está confinado a apenas alguns poucos pontos. Não significa que não exista, mas significa que tem base real bem reduzida. O poder do sionismo repousa sobre duas torres gêmeas: a culpa ocidental pelo holocausto e a influência do lobby pró-Israel. Esse último, pelo menos nos EUA, aparece sob a forma de dinheiro pago a políticos e campanhas eleitorais.

Os sionistas também têm poder sobre a ‘mídia’, mas é hoje poder bem menos extensivo do que já foi. Não se sabe exatamente o quanto esse poder ‘midiático’ dos sionistas conseguiria influir, em circunstâncias em que houvesse, ativados, consideráveis contrapesos econômicos e financeiros.

2. O poder da Arábia Saudita, por sua vez, é realmente internacional-global e é poder com importantes bases econômicas bem reais. Se o preço dos combustíveis disparar, por ativa manipulação pelos sauditas e outros produtores árabes de petróleo, não há o que os sionistas possam fazer para ‘revidar’.

E, agora? O que farão os norte-americanos e os europeus? Invadir a Arábia Saudita, o Kuwait, o Bahrain, o Qatar et allii? São ideias que ocorrem a roteiristas de romances e filmes ‘de espionagem’ e só serão ‘promovidas’ por terroristas limítrofes, tipo John Bolton. Na vida real, nunca aconteceu.

Não. O novo tipo de confrontação não pode ser vencida pelos sionistas. É interessante observar que praticamente nada disso aparece discutido na ‘mídia’ norte-americana. Provavelmente, os sionistas e seus cúmplices creem que, se fecharem os olhos e ouvidos e fingirem que a Arábia Saudita não disse o que disse, a Arábia Saudita sumirá para sempre. Talvez estejam contando com energiafusion, ainda em setembro desse ano! Ou, vai-se ver, decidiram que o príncipe Turki al-Faisal blefou, pelo Washington Post.

Pessoalmente, entendo que pode ter chegado a vez da Arábia Saudita. Talvez os sauditas possam impor uma paz justa entre Washington e Telavive. Ninguém espere notícias pela ‘mídia’, mas, para ajudar os palestinos, estou disposto a pagar o preço que os sauditas resolverem cobrar, para encher o tanque! 

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Palestina: Hamás e Fatah – “A história não contada do acordo que sacudiu o Oriente Médio”

7/6/2011, Robert Fisk, The Independent, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Hamas leader Ismail Hanniyeh, right, shakes hands with senior Fatah
official Nabil Shaath during their meeting in Gaza in May
O líder do Hamas Ismail Hanniyeh, à direita, aperta a mão do dirigente senior do Fatah, Nabil Shaath durante a reunião de Gaza em maio último
Encontros secretos entre intermediários palestinos, agentes da inteligência do Egito, o ministro turco de Relações Exteriores, o presidente Mahmoud Abbas e Khaled Meshaal, líder do Hamás – uma ida secreta a Damasco, tendo de desviar da cidade de Deraa, em rebelião – levaram à unidade dos palestinos que tanto perturbou os governos de Israel e dos EUA. Em maio, Fatah e Hamás puseram fim a anos de conflitos, com um acordo crucial para alcançar o reconhecimento internacional do estado palestino.

Várias cartas detalhadas, aceitas pelos dois lados, das quais The Independent tem cópias, mostram o quanto foram complexas as negociações. O Hamás também buscou – e obteve – o apoio do presidente sírio Bachar al-Assad, do vice-presidente Farouk al-Sharaa e de seu ministro de Relações Exteriores, Walid Moallem. Entre os resultados, há um acordo feito por Meshaal para pôr fim aos ataques de foguetes do Hamás, de Gaza, contra Israel – porque a resistência passaria a ser direito exclusivo do estado – e um acordo pelo qual o estado palestino reivindica fronteiras baseadas nas fronteiras de Israel em 1967.

“Sem a boa vontade de todos os lados, o auxílio dos egípcios e a aceitação pelos sírios – além do desejo dos palestinos de unir-se, desde o início da Primavera Árabe –, não teríamos conseguido fazer o que fizemos”, disse-me pessoalmente um dos principais intermediários, Munib Masri, 75 anos. Foi Masri quem ajudou a estabelecer um ‘Fórum Palestino’ de independentes, depois de o Hamás ter alcançado extraordinária vitória eleitoral em 2006. “Sempre entendi que as divisões que se criaram seriam uma catástrofe, e passamos quatro anos andando para frente e para trás entre os vários partidos”, disse Masri. “Abu Mazen (Mahmoud Abbas) pediu-me várias vezes que mediasse os contatos. Começamos a nos encontrar na Cisjordânia. Todos participaram. Reunimos muitas capacidades.”

Em três anos, membros do Fórum Palestino viajaram mais de 12 vezes a Damasco, ao Cairo, a Gaza e à Europa e várias iniciativas foram rejeitadas. Masri e seus colegas negociaram diretamente com o primeiro-ministro Hanniyeh do Hamás em Gaza. Adotaram a chamada “iniciativa de troca de prisioneiros” de Marwan Barghouti, alto líder do Fatah, que está preso em Israel; então, com os ventos das revoluções na Tunísia e no Egito, a juventude palestina, dia 15 de março, exigiu que os partidos se unissem e pusessem fim à rivalidade entre Fatah e Hamás. Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel sempre se recusou a negociar com Abbas porque, dizia ele, os palestinos estavam divididos. Dia 16 de março, em discurso, Abbas disse que estava “pensando em ir a Gaza”. Masri, que estava presente, subiu numa cadeira e aplaudiu.

“Supus que o Hamás responderia positivamente” – Masri recorda. “Mas nos primeiros dois ou três dias depois do discurso de Abbas, a resposta foi negativa. O Hamás queria eleições imediatas e nada de diálogo.” Abbas partiu para Paris e Moscou – para mostrar desagrado, aos olhos de alguns de seus associados. Mas o Fórum não desistiu.

“Redigimos um memorando – dissemos que íamos visitar os egípcios, para nos congratular com a revolução deles. Tivemos duas reuniões com o chefe da inteligência egípcia, Khaled Orabi – o pai de Orabi foi general do exército ao tempo do rei Farouk – e nos encontramos com Mohamed Ibrahim, do departamento de inteligência.” O pai de Ibrahim tornou-se muito conhecido na guerra de 1973, quando capturou o oficial israelense de mais alta patente no Sinai. A delegação também se reuniu com assessores de Ibrahim, Nadr Aser e Yassir Azawi.

Sete membros de cada grupo palestino formaram a delegação que foi ao Cairo. Eis os nomes que, no futuro, estarão nos livros de história da Palestina: pela Cisjordânia, o Dr. Hanna Nasser (reitor da Universidade Bir Zeit e da comissão eleitoral central palestina); Dr. Mamdouh Aker (presidente da sociedade de direitos humanos); Mahdi Abdul-Hadi (presidente de uma associação política em Jerusalém); Hanni Masri (analista político); Iyad Masrouji (comerciante de produtos farmacêuticos); Hazem Quasmeh (dirige uma Organização Não Governamental) e o próprio Munib Masri.

O ‘lado’ de Gaza foi representado por Eyad Sarraj (que não pôde viajar ao Cairo por ter adoecido); Maamoun Abu Shahla (membro da diretoria do Banco Palestino); Faysal Shawa (comerciante e proprietário de terras); Mohsen Abu Ramadan (escritor); Rajah Sourani (militante árabe de direitos humanos, que não viajou ao Cairo); ‘Abu Hassan’ (membro da Jihad Islâmica, indicado por Sarraj); e Sharhabil Al-Zaim (advogado em Gaza).

“Esses homens passaram muito tempo discutindo com o alto escalão do serviço de inteligência do mukhabarat egípcio” – Masri lembra. “Nos encontramos com eles dia 10 de abril, mas enviamos um documento antes de viajar. Por isso o contato tornou-se tão importante. Em Gaza havia dois ‘lados’ diferentes. Falamos sobre a microssituação, sobre os gazenses presos em Gaza, sobre direitos humanos, sobre o bloqueio egípcio, sobre dignidade. Shawa dizia “sentimos como se não tivéssemos dignidade – e sentimos que a culpa é nossa”. Nadr Asr, do departamento de inteligência disse: “Vamos mudar tudo isso.” 

“Voltamos às 19h, para nos reunirmos outra vez com Khaled Orabi. Eu disse: “Escute, preciso saber, de você: a nova iniciativa agrada a vocês, um pacote que é situação de ganha-ganha para todos? O caso da Palestina continua ‘quente’ no Cairo? Ele respondeu: “É processo meio longo – mas, sim, gostamos da ideia. Vocês conseguem pressionar os dois lados, o Fatah e o Hamás, e trazê-los para o projeto? Mas, sim, trabalharemos com vocês. Procurem o Fatah e o Hamás – e tratem tudo isso como assunto confidencial.” Nós aceitamos. Fomos falar com Amr Moussa (agora, candidato à presidência do Egito pós-revolução) na Liga Árabe. De início, mostrou-se muito cauteloso – mas no dia seguinte, quando nos reunimos com a equipe dele, todos foram muito positivos. Dissemos: ‘Deem uma chance à ideia’. Dissemos que a Liga Árabe foi criada para a Palestina, que a Liga Árabe tem papel importante em Jerusalém.” 

A delegação visitou também Nabil al-Arabi, no ministério de Relações Exteriores do Egito. “Al-Arabi disse: ‘Posso chamar o ministro das Relações Exteriores da Turquia, que está no Egito?’ O ministro veio e discutimos juntos a iniciativa. Ali descobri que o ‘novo’ Egito estava muito confiante no sucesso da nossa iniciativa: eles quiseram [itálicos] discutir na presença da Turquia. Assim, discutimos todos juntos e eu voltei com os outros para Amã, às 21h.” 

O grupo foi à Cisjordânia, para relatar o que fora feito – “estávamos felizes, nunca antes nos sentíramos como naquele dia” – e informar a Azzam Ahmed (chefe do grupo do Fatah que trabalhava pela reconciliação) que o grupo se preparava para apoiar a iniciativa de Mahmoud Abbas sobre Gaza. “Tivemos sete grandes reuniões na Palestina para reunir ali todos os grupos e os independentes. Abbas já nos dera um aval presidencial. Conversei com Khaled Meshaal (líder do Hamás, que vive em Damasco) por telefone. Meshaal perguntou: ‘Abu Mazzen (Abbas) concorda com tudo isso?’ Respondi que a questão não era essa. Dia seguinte fui a Damasco com Hanna Nasser, Mahdi Abdul Hadi e Hanni Masri. Por causa dos problemas na Síria, tivemos de contornar Deraa. Tenho boa relação com Meshaal. Ele disse que havia lido o nosso documento – e que achava que valia a pena trabalhar sobre a ideia.”

O fato de que os dois lados quisessem saber o que o outro pensava da iniciativa, antes de decidir, era sinal de que persistia a desconfiança entre o Hamás e Abbas. “Meshaal perguntou-me: ‘O que diz Abu Mazzen (Abbas)?’ Eu ri e respondi: ‘Você sempre pergunta isso. Estou aqui para saber o que vocês [itálicos] querem. Nos encontramos com assessores de Meshaal, Abu Marzouk, Izzat Rishiq e Abu Abdu Rahman. Lemos e revisamos o documento do acordo durante seis horas e meia. A única coisa que não arrancamos de Meshaal foi que o governo fosse constituído por acordo. Dissemos a ele que o governo seria governo de união nacional – sob a condição que teríamos de ser capazes de organizar e realizar eleições, levantar o bloqueio de Gaza e reconstruir Gaza, que tínhamos de obedecer à lei internacional, à Carta da ONU e às resoluções da ONU. Meshaal pediu três ou quatro dias. Aceitou que a resistência só aconteceria ‘na defesa do interesse nacional do país’ – e que teria de ser ‘aqlaqi’ – ética. Os ataques de foguetes contra civis tinham de acabar. Em outras palavras: ele tinha de garantir que não haveria mais foguetes de Gaza, contra Israel.”

Meshaal contou a Masri e acompanhantes que estivera com o presidente Bashar Assad da Síria, com seu vice-presidente Sharaa e com o ministro sírio de Relações Exteriores Moallem. “Disse que queria o apoio deles – mas no fim, prevaleceu a palavra do povo palestino. Estávamos muito felizes – dissemos que ‘surgiu uma pequena brecha’. Meshaal disse: ‘Nós não vamos deixar vocês sem apoio’. Dissemos que levaríamos a palavra dele ao Fatah e aos independentes na Cisjordânia, e aos egípcios. Na Cisjordânia, o Fatah chamava a iniciativa de ‘iniciativa do Hamás’ – mas dissemos que não, a iniciativa é de todos. Dois dias depois, Meshaal disse que falara com a inteligência do Egito e que eles estavam gostando do que tínhamos proposto.” 

As conversações foram bem sucedidas. Meshaal concordou com enviar dois de seus principais homens ao Cairo. A equipe de Masri esperava que Abbas fizesse o mesmo. Quatro representantes – dois de cada lado – viajaram ao Egito dia 22 de abril. Um ano antes, quando houve um impasse entre os dois lados palestinos, no Egito, o regime de Moubarak tentara criar obstáculos ainda maiores para impedir qualquer reconciliação. Meshaal chegou a reunir-se, sem qualquer resultado, com Omar Sulieman – factótum da inteligência de Mubarak e o melhor amigo de Israel no mundo árabe – em Mecca. Se alguém ainda duvidasse, ali se comprovou que Sulieman realmente trabalhava para os israelenses. Dessa vez, tudo foi mesmo muito diferente.

No dia que Abbas e Meshaal foram ao Cairo, foram os dois governos completos, exceto os dois primeiros-ministros rivais, Fayad e Hanniyeh. O Hamás declarou que, ao longo dos últimos quatro anos, os israelenses haviam roubado ainda mais terras em Jerusalém e construído mais colônias exclusivas para judeus na Cisjordânia ocupada. Meshaal irritou-se, quando supôs que não o deixariam falar do pódio, como os demais presentes – e falou, no evento. E o Hamás aceitou a fórmula sobre as fronteiras de 1967, consciente de que assim reconhecia a existência de Israel; aceitou também a referência à resistência; e também concordou em ceder mais tempo a Abbas, para mais negociações.

No momento em que o Hamás passasse a integrar o governo de união, estaria reconhecendo o estado de Israel. Mas se não integrasse o governo, ninguém reconheceria coisa alguma e não haveria acordo. “Não é justo dizer ao Hamás ‘faça isso ou aquilo’”, diz Masri. “Claro que a resistência é direito recíproco. Mas se o Hamás não se integrasse ao governo de união nacional, passaria a ser apenas um partido político, sem tribuna para dizer o que querem dizer. Os EUA portanto que se preparem para conhecer o Hamás ativo na formação do governo. Esse governo respeitará as resoluções da ONU e a legislação internacional. Essa ação tem de ser mútua. Os dos lados perceberam que, por pouco, teriam perdido o barco da Primavera Árabe. Não foi trabalho meu – foi resultado da conjunção de muitos esforços. Não fosse pela mediação dos egípcios e pela boa vontade dos dois grupos palestinos, nada teria acontecido.” No dia seguinte à assinatura do acordo, partidários do Hamás e de Abbas concordaram em parar de prender militantes de um lado e de outro.

Hoje afinal se conhece a história da unificação dos palestinos. A reação de Netanyahu, primeiro-ministro de Israel à novidade – depois de ter-se negado a negociar com os palestinos porque estavam divididos – foi decidir que não negociaria com Abbas, se o Hamás fosse integrado ao governo palestino. O presidente Obama virtualmente ignorou a iniciativa da unidade palestina. 

Mas falar de “fronteiras de 1967” implica que o Hamás reconhece a existência de Israel; e a decisão negociada sobre a resistência implica o fim dos foguetes de Gaza contra Israel. A disposição para subordinar-se à legislação internacional e às resoluções da ONU implica que a paz pode ser completada e que um estado palestino pode ser criado. Essa, pelo menos, é a opinião dos dois lados palestinos.

O mundo esperará para saber se Israel outra vez rejeitará a paz.