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segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Como? Empobrecer primeiro?


Não é a primeira vez e certamente não será a última que ouvimos dos nossos digníssimos governantes declarações infelizes.

Desta feita, porém, a declaração em causa revela uma manifesta falta de sensibilidade para com os problemas sociais do país.

Supostamente a Questão Social deveria ser a causa maior de qualquer governo digno desse nome. Mas não é. Recentemente o 1º. Ministro Passos Coelho, perfeitamente alinhado com os Agiotas Internacionais representados pela Troika, brindou-nos com a supimpa declaração de que:

“Temos que empobrecer para sairmos desta situação”.

Assim mesmo. Sem pestanejar…

A História diz-nos que nenhum país cresce, empobrecendo a Força de Trabalho. Pelo contrário. Sempre que o Trabalho é devidamente compensado, a riqueza cresce e gera Desenvolvimento. O melhor exemplo do que afirmamos, é o caso da Alemanha durante o Ministério do Chanceler Otto von Bismarck, que inaugurou o Estado-providência, como forma de estimular a Economia.

Os trabalhadores alemães, como agentes produtivos, passaram a ter direitos sociais e protecção social. Além da Previdência Social, estabeleceu também programas de crédito barato à iniciativa privada para a produção de bens do consumo corrente. As infra-estruturas, as matérias-primas e a moeda estavam a cargo exclusivo do Estado.

Foi graças a esta política de intervenção estatal na Economia que a Alemanha se tornou uma potência Económica no final do Século XIX. Curioso assinalar que aquele político, considerado o Napoleão Germânico, nem sequer era marxista. Pelo contrário, foi um conservador e monárquico. Não foi, portanto, com Investimento Directo Estrangeiro e Financiamento externo, cujos operadores querem sempre, obviamente, trocar um chouriço por um porco… nem com um Estado ausente da Economia e omisso na Questão Social, como agora se defende, que a Alemanha alcançou naquela época o patamar do Desenvolvimento. A História do seu actual desenvolvimento porém, já não se conta da mesma maneira… embora as suas raízes remontem àquele século.

Os países na esfera de influência da Alemanha, como os Escandinavos, seguiram o mesmo modelo Económico. Daí que não nos admiremos de ver hoje o superior nível de vida de tais países, cujos altos Índices Humanos são os mais elevados da Europa e do Mundo, acima dos 0,950 (o máximo é 1, que ninguém até agora alcançou). E são-no, porque dedicam às despesas sociais, um valor superior a 30% do PIB, sendo a Suécia campeã, com 38,2 %.

Os USA, por exemplo, ficam-se pelos irrisórios 19,4%, embora seja ainda detentor da maior Economia Mundial, e Portugal, antes da austeridade forçada, pelos 25,5%. Significativo, o leitor não acha?

A propósito de um chouriço por um porco… o Ministro da Economia faz-nos pobres, mas de outra maneira…

No início deste mês anunciou triunfalmente um contrato de concessão com a Colt Resources para extracção de ouro numa mina no Alentejo. Questionado sobre as vantagens para a Economia Nacional, depois de falar com algum entusiasmo dos postos de trabalho que irão ser criados, informou que o país terá um retorno de 4%, acrescentando que tal valor está alinhado com o praticado no mercado, sempre este… agora na moda.

Parece até desculpa de quem é apanhado com as calças na mão…

Ora a questão que se levanta é: porque não os 100%? Porque só 4% de royalties e não mais?

Podemos até compreender que o Estado não tenha neste momento capacidade de investimento para meter ombros ao empreendimento. Mas bolas, parece-nos que estamos a entregar o ouro ao bandido…

Acerca desta questão, todavia, que consideramos de grande interesse para a nossa Economia, não vimos até ao momento ninguém levantar a voz, nem levantar, nem baixar… Porque será?

A pobreza de uma Nação não se faz apenas rebaixando o valor do Trabalho… Mais, não queremos ser impertinentes, mas perguntamos: será apenas uma coincidência a Colt Resouces ser uma multinacional canadiana do ramo e o nosso simpático Ministro ter sido até há pouco professor de Economia na Simon Frazer University, no Quebeque, Canadá? Deixamos a pergunta aos investigadores da “Teoria da Conspiração”…

Em recente conferência de imprensa, a Troika declarou que “…os salários do sector privado deverão seguir o exemplo do sector público…”. Ora, se o corte dos salários na função pública já é uma violência social, imoral até, porque tira o pão da boca a muita gente, como não o será no sector privado, mais numeroso e onde se praticam salários de miséria em muitos sectores? Além do mais, tal medida, a ser implementada, irá afundar ainda mais a curva do Crescimento Económico, que se prevê negativo em 3,5%, e logo o Défice Orçamental irá subir, mesmo que as despesas sociais não aumentem em extensão.

A coisa é tão escabrosa que até levanta vozes discordantes, de figuras insuspeitas, como Belmiro de Azevedo, grande empresário do sector do comércio de bens alimentares, para quem a austeridade e a falta de uma estratégia de crescimento da Economia não pode conduzir-nos ao “nascimento de um exército de excluídos e à miséria absoluta”.

Para se perceber que não são os salários e a produtividade dos trabalhadores portugueses que condicionam a falta de competitividade da nossa Economia, basta consultar os dados do EUROSTAT para este ano.

Este organismo de estatística da Comissão Europeia informa que o custo médio de hora de trabalho em Portugal é de 12,22 €. Na Zona Euro, esse valor é de 26,22€, ou seja, mais de 114%! Em termos de horas de trabalho por ano, os trabalhadores portugueses também estão em desvantagem, 1737 horas anuais contra 1668 horas do conjunto dos países da Zona Euro, para o sector industrial. São, portanto, menos 4%, ou seja, os trabalhadores industriais da Zona Euro trabalham menos que os portugueses e ganham mais do dobro.

A propaganda da Elite Dirigente, todavia, com muitos parvos à mistura, consegue convencer o Zé Ninguém de que é um mau trabalhador e que é o grande culpado da Crise da Dívida e do Euro.

Por outro lado, se considerarmos os salários médios anuais, Portugal fica em último lugar, sendo que a Dinamarca é o 1º deste ranking, onde o valor médio salarial anual é 2,9 vezes o valor do salário médio de um trabalhador português.

A produtividade contudo, do trabalhador dinamarquês, é pouco mais que 1,57 vezes a do trabalhador português. Significa que um trabalhador em Portugal, com a mesma produtividade daquele, recebe pelo seu trabalho menos 87% de salário médio anual!

Há, pois, uma substancial diferença entre trabalhar no “Reino da Dinamarca” e trabalhar na “República Portuguesa”.

Então das duas, uma: ou o trabalhador dinamarquês é um grande preguiçoso, por que os bens que produz são mais caros 87%, ou o empresário português é ganancioso… pois paga menos 87% do que devia pagar aos seus trabalhadores, considerando a mesma produtividade que se verifica no mundo laboral da Dinamarca.

Estamos em crer que é esta última, a ganância, a razão de tão grande disparidade. Independentemente da carga fiscal e social sobre o Capital, de que os empresários portugueses se queixam muito, serão as margens de lucro, que só os deuses conhecem… substancialmente mais altas aqui do que na Dinamarca, que retiram competitividade às nossas exportações.

Por estes números, não se compreende pois a insistência em rebaixar a remuneração do Trabalho, a menos que se pretenda transformar Portugal na China da Europa…

Esta mentalidade, infelizmente, está muito presente na nossa Sociedade há séculos.

Ainda esta semana, depois de referirmos as vantagens comparadas entre o mundo laboral português e o resto da (des)União Europeia, um dos nossos interlocutores, que tem uma mercearia de bairro, das que ainda, felizmente, existem, atalhou logo, sentenciando com o dedo em riste, que o empregado nacional quer é ganhar muito e trabalhar pouco, ao que nós, perfeitamente irritados, pois o homem não entendeu patavina do que acabáramos de esclarecer, reagimos: “Pois é, meu caro. Está-se a ver que o senhor é daqueles que ainda vive no tempo da escravatura… Bom mesmo, é trabalhar de graça, não é?”

Claro que existem bons e maus trabalhadores, como também existem bons e maus patrões. A generalização, infelizmente um mau hábito muito praticado entre nós, ao violar princípios de racionalidade e inteligência, impede a Concertação Social e o Consenso Político, tão necessários à superação da Crise.

Ponta Delgada, 20 de Novembro de 2011 

Escrito e enviado por Artur Rosa Teixeira, correspondente da redecastorphoto em Portugal, Ultramar e arrabaldes.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O teto da dívida começa a ser progressivamente revogado


Obama usa táticas de intimidação para levar os democratas a votarem o seu plano republicano para a Wall Street

 

Michael Hudson
por Michael Hudson

O salvamento melodramático da Wall Street deve ser visto como um ensaio geral para a não-crise do teto da dívida.

Apercebemo-nos de que a excitação em torno da dívida é tão melodramaticamente encenada como um combate de luta livre, quando Obama ameaça de forma gritante e vazia que se o Congresso não “enfrentar os duros desafios que são a reforma fiscal e a reforma dos direitos adquiridos”, não haverá dinheiro para pagar os cheques da Segurança Social já no próximo mês. No discurso que fez ontem (25 Julho) acerca da dívida ameaçava que “se entrarmos em inadimplência, não teremos dinheiro para pagar todas as nossas contas – como a segurança social, a reforma dos veteranos, ou os contratos que o governo assinou com milhares de empresas”.

Isto não está nem sequer perto da verdade. No entanto tornou-se a ameaça principal desde há uma semana, quando o Presidente usou praticamente as mesmas palavras quando entrevistado por Scott Pelley na CBS Evening News.

É claro que o Governo terá dinheiro suficiente para pagar os cheques mensais da Segurança Social. A administração da Segurança Social tem as suas reservas próprias – em títulos do tesouro. Eu compreendo que os advogados (como Obama e, na verdade, a maioria dos presidentes norte-americanos) raramente entendem de economia. Mas o que aqui se trata é um problema legal. O Sr. Obama compreende certamente que a Segurança Social é solvente, e que possui títulos suficientemente líquidos para assegurar os seus pagamentos durante a década vindoura. Ainda assim, Obama faz da Segurança Social o seu principal alvo.

A explicação mais razoável para esta ameaça sem fundamento reside no fato de ele procurar instaurar o pânico junto dos mais idosos para que estes alimentem esperanças de que o plano que ele tem preparado para o orçamento os possa salvar. A realidade é que estão a ser conduzidos a uma autêntica chacina econômica (tudo isto sem que uma única palavra recordando a realidade dos fatos, seja endereçada ao presidente pelo Rubiconômico secretário do Tesouro Geither, pelo presidente da Reserva Federal, Bernanke ou por quem quer que seja na administração Wall-Streetiana Democrata, anteriormente conhecida como Democratic Leadership Council).

Trata-se de pura fraude.

Obama veio para enterrar a Segurança Social, a Medicare e a Medicaid e não para as salvar. Isto tornou-se claro quando esta administração nomeou a sua Comissão para a Redução do Déficit, chefiada por inimigos declarados do senador Alan Simpson, referência do Partido Republicano no que toca à segurança social, e de Erskin Bowles, chefe de gabinete de Bill Clinton. A mais recente escolha por parte de Obama de congressistas republicanos e de democratas moderados, incumbidos de reescrever o código fiscal de forma bipartidária – para que não possa ser atacado – é nada mais do que uma manobra para fazer aprovar uma “reforma” fiscal que os representantes democraticamente eleitos dificilmente considerariam noutras circunstâncias.

O diabo está sempre nos pormenores. Normalmente os lobbyes de Wall Street têm sempre esses mesmos pormenores bem aconchegados nas pastas, que fazem chegar às mãos dos seus congressistas e senadores mais dedicados. Neste caso tem também o Presidente, que acatou os seus conselhos acerca de quem nomear para a sua administração, de forma a que estes agissem como seus lacaios na conquista do governo para a sua causa, criando um “socialismo para os ricos”.

Tal socialismo não é coisa que exista, como é evidente. Quando os governos são controlados pelos ricos chama-se oligarquia. Os diálogos de Platão mostraram claramente que em vez de vermos as sociedades como oligarquias ou democracias, deveríamos vê-las em movimento. As democracias tendem a polarizar-se economicamente (normalmente entre credores e devedores) rumo a uma oligarquia. Estas últimas tendem por sua vez para uma transformação em aristocracias hereditárias. Com o tempo as famílias dominantes lutarão entre si, e haverá uma facção que, como Clístenes em 507 a.c., tomará o povo como parte integrante, criando uma democracia, e eternizando o triângulo político.

“E precisamente isto que sucede hoje em dia. Em vez de gozarmos o que tinha sido previsto pela Era Progressista – isto é uma evolução para o socialismo, onde o governo providencia as infra-estruturas básicas da sociedade recorrendo a um mecanismo de subsídios – estamos a viver um verdadeiro retrocesso rumo a um neo-feudalismo. A diferença reside no fato de, desta vez, a sociedade não ser controlada por caudilhos militares. A finança alcançou aquilo que a força militar alcançara outrora. Em vez de estarem presas à terra, como no feudalismo, as famílias têm, hoje, a liberdade de viver onde bem entendem – desde que levem toda uma vida para pagar o empréstimo da sua casa.

Em vez de pagar um tributo sobre a terra aos conquistadores, pagamos aos bancos. Assim como o acesso à terra era uma condição fundamental para a sobrevivência das famílias durante o feudalismo, assim hoje necessitamos de acesso ao crédito, à água, aos cuidados médicos, pensões, segurança social, entre outros – sobre tudo isto temos de pagar um juro, temos de pagar taxas e rendas a uma oligarquia neo-feudal que se expande habilmente dos Estados Unidos para a Irlanda e para a Grécia.

O governo norte-americano gastou 13 bilhões de dólares em resgates financeiros desde a falência da Lehman Brothers em Setembro de 2008. No entanto, Obama alerta-nos para o fato de que, daqui a 30 anos, o déficit da Segurança Social pode chegar a 1 bilhão de dólares, e é para prevenir esse mesmo déficit que ele procura cortar nos pagamentos hoje.

Ao que parece os 13 bilhões esgotaram todo o dinheiro que o governo tinha à disposição. Os bancos e a Wall Street ficaram com o dinheiro e fugiram e já não há dinheiro suficiente para pagar a Segurança Social, a Medicare e as outras despesas do estado que os Democratas moderados e os Republicanos procuram agora cortar.

Mas não para já. Este plano servirá para esconder a atual crise, delegando os planos para uma “Comissão de Redução da Dívida 2” composta por membros do Congresso.

Finalmente temos “uma mudança em que podemos acreditar”

Afinal, a mudança acaba sempre por ser surpreendente.

A falsa crise

Normalmente uma crise é necessária para criar um vácuo para o qual são expelidos estes resíduos tóxicos. A Wall Street não gosta de crises reais – exceto quando procura ganhos fáceis, obtidos através de especulações informatizadas acerca da azáfama dos mercados. Mas quando se trata de dinheiro a sério, a ilusão da crise é preferível, melodramaticamente encenada para arrancar a maior reação emotiva da plateia, tal como um bom realizador de cinema faz quando procura montar uma boa sequência: Será que o trem que aparece a alta velocidade acabará por abalroar a mocinha que está presa aos trilhos? Ou escapará ela a tempo?

O trem é, neste caso, a dívida; sendo a mocinha a economia americana. No entanto, cedo descobrimos que a mocinha nada mais é que a Wall Street num mal disfarçada. Este exercício acaba por ser uma comédia, não lá muito divina. Obama apresenta um plano muito republicano que os republicanos rejeitam. Trata-se de uma ilusão de luta política, acabando os republicanos por dizer que Obama é socialista.

Os democratas por seu lado fingem-se chocados. Muitos dizem: “Onde está o verdadeiro Obama?”, mas ao que parece, Obama revela-se um impostor republicano ao serviço da Wall Street, disfarçado de democrata. No fundo é precisamente isso que é o Democrat Leadership Council: Conselho de Democratas da Wall Street.

Não se trata de um paradoxo tão grande quanto possa parecer. Há uma razão para o fato dos democratas atuais da era pós-clinton alinharem de forma consequente na destruição do legado de Franklin Roosevelt e dos antigos democratas. Um senado dominado pelos democratas nunca aprovaria o mesmo plano de doações à Wall Street se um presidente republicano o propusesse exatamente nos mesmos termos em que o propõe hoje Obama.

Eis o que o próximo candidato presidencial republicano poderá dizer: “Vocês sabem que podemos contar com o apoio de Obama para apoiar qualquer medida que nós, republicanos, queiramos. Se não quiserem políticas republicanas então devem votar em mim para presidente, pois um congresso de maioria democrata irá certamente opor-se às medidas republicanas se formos nós a propô-las. Mas se for o Sr. Obama a propor, certamente que o congresso não resistirá a aprová-las.

A história é a mesma no Reino Unido onde o partido trabalhista é convocado a concluir a tarefa iniciada pelos conservadores, que necessitaram do novo partido trabalhista (new labour) para privatizar as ferrovias e para levar a cabo as desastrosas parcerias público-privadas para as novas linhas de metro londrinas. A história repete-se também em França onde os socialistas apoiam o programa de privatizações ditado pelo Banco Central Europeu.

A coleção de falácias habituais

Quando encontramos os governantes e a imprensa repetindo um erro econômico numa lenga-lenga incessante, é porque existem interesses maiores em jogo. O setor da finança procura convencer os eleitores de que a economia entrará em crise caso a Wall Street não obtenha o que quer – nomeadamente a desregulação e a isenção fiscal.

A primeira falácia de Obama é a de que “um orçamento de estado é como um orçamento familiar”. No entanto as famílias não podem emitir títulos de dívida (IOUs) que valem como dinheiro em todo o mundo. Apenas os governos o podem fazer: é um privilégio que os bancos gostariam de ter – o poder de criar crédito livremente a partir dos teclados dos seus computadores, cobrando juros por aquilo que é praticamente gratuito, e que os governos fazem realmente de forma gratuita. (Trata-se da Teoria de Estado do Dinheiro. Ver o blog da UMCK Economics.)

“Hoje em dia, qualquer família sabe que uma pequena dívida de cartão de crédito é algo administrável. Mas se continuarmos pelo mesmo caminho a nossa crescente dívida custar-nos-á muitos empregos e afectará negativamente a economia”. No entanto as economias precisam do dinheiro do governo para financiar o seu próprio crescimento e esse dinheiro é obtido através da contração de dívida por parte dos estados. É esta a essência do investimento contra-cíclico keynesiano desde há já meio século. E era, até aos nossos dias, a política econômica fundamental do Partido Democrata.

É verdade que durante a administração Clinton houve um superávit orçamentário. A economia sobreviveu então através do fornecimento de crédito por parte dos bancos comerciais, cobrando o juro. Para obrigar a economia a voltar a uma tal relação com a Wall Street, em vez de com o governo, este necessita de acabar com o seu déficit orçamentário. A economia terá então de escolher entre a sua própria contração e a entrega de toda a mais-valia econômica aos bancos sob a forma de uma taxa econômica pela sua criação de crédito.

Obama também procura passar a ideia de que as agências de rating são capazes de atuar como servilmente em relação aos os seus clientes, fazendo a economia pagar um juro cada vez mais alto sobre os cartões de crédito e atividades bancárias. “Pela primeira vez na história”, diz-nos Obama “a classificação triplo A do nosso país será revista em baixa, deixando os investidores de todo o mundo a duvidar de que os Estados Unidos sejam ainda um bom investimento. As taxas de juro dos cartões de crédito, hipotecas, prestações do carro, disparariam para níveis astronômicos, que se juntariam a um aumento da carga fiscal sobre o povo americano”.

A verdade é que a existência de um superávit no orçamento de estado aumentará as taxas de juro ao obrigar a economia a ficar refém do sistema bancário. A administração Obama encontra-se hoje profundamente mergulhada numa fase de retórica orwelliana.

Porque é que Wall Street necessita dos democratas de Obama para aprovar a Rubinomics 2 no Congresso

Durante o discurso de Obama tive a sensação de que já tinha ouvido tudo aquilo antes. Lembrei-me então que em 2008, o secretário do Tesouro Henry Paulson procurou contrariar o argumento de Sheila Blair, segundo o qual todos os depositantes assegurados pela FDIC (Federal Deposit Insurance Corporation) conseguiriam sair da crise de Setembro, sendo os apostadores de risco os únicos a perderem os ganhos que procuraram fazer através do crédito livre. “Se deixássemos entrar em colapso o sistema financeiro” dizia-nos Paulson no seu discurso na Biblioteca Reagan, “seria o povo americano a pagar o preço. Nunca foi um problema exclusivo dos bancos; o que sempre esteve em questão foi a manutenção da prosperidade e das oportunidades para todos os americanos".

É claro que aquilo que sempre esteve em questão foi a banca! Wall Street sabe que se quiser acabar com o New Deal, a Medicare, a Medicaide e com a segurança social, necessita de um presidente democrata. Um congresso de maioria democrata rejeitaria qualquer tentativa por parte de um presidente republicano que procurasse cortes tão drásticos como aqueles que Obama propõe. A oposição democrata no Congresso fica estarrecida quando é o próprio presidente Obama – o presidente liberal por excelência, o Tony Blair americano – a agir como o maior apoiador dos cortes nas prestações sociais.

Da mesma maneira que a City londrina apoiou a chegada do Partido Trabalhista ao poder, quando o Partido Conservador não se encontrava em posição de tomar medidas tão radicais como as privatizações das ferrovias e do metro londrino, também os sociais-democratas islandeses procuraram ativamente mergulhar a economia numa dívida que a tornasse refém do Reino Unido e da Holanda e os socialistas gregos lideram a corrida às privatizações e os resgates à banca, assim também nos Estados Unidos o Partido Democrata procura pôr os seus eleitores – nomeadamente os trabalhadores urbanos, as minorias raciais e os pobres, isto é, os mais afetados pelo plano de austeridade do Presidente Obama – nas mãos da Wall Street.

Assim, Obama está levando a cabo aquilo que qualquer bom demagogo normalmente faz: entregar a sorte dos seus eleitores aos financiadores da sua campanha da Wall Street. Yves Smith chamou-lhe o momento “Nixon-vai-à-China ao contrário” da presidência Obama.

Os Republicanos ajudaram ao refrear qualquer candidatura crível do seu campo à presidência. A ideia é dar margem de manobra a Obama para se deslocar cada vez mais para a direita do espectro político. De tal forma que são os Democratas os que mais põem em causa o sistema de segurança social e não os Republicanos.

Tudo isto é mais facilmente levado a cabo se existir uma constante pressão de um sentimento de pânico que começou com a TARP em Setembro de 2008. O melodrama do resgate da Wall Street deve ser visto como um ensaio-geral para a não-crise do limite da dívida.

29/Julho/2011

NR: Este artigo é anterior à aprovação pelo Congresso das medidas propostas por Obama.

Ver também Guerra e dívida , do mesmo autor sobre o mesmo assunto.
O artigo original, em inglês, pode ser lido em: The Debt Ceiling Set For Progressive Repealing.
Tradução de MQ.
Esta tradução encontra-se em: Resistir.
Adaptação ao português do Brasil: redecastorphoto

sábado, 6 de agosto de 2011

Um roubo de 16 trilhões de dólares (US)

Atílio A. Borón

por Atilio A. Borón

A atenção da opinião pública internacional está centrada no acordo pírrico firmado entre Barack Obama e o Congresso pelo qual o presidente compromete-se a aplicar um duro programa de ajuste fiscal, centrado no corte de gastos sociais (saúde. educação. alimentação) e infraestrutura de 2,5 trilhões de dólares, mas preservando, como exige o Tea Party, o nível atual de despesa militar e sua eventual expansão. Em troca disto a Casa Branca recebeu a autorização de elevar o endividamento dos Estados Unidos até 16.4 trilhões de dólares, número superior nuns dois  trilhões de dólares o PIB desse país. Com isto espera-se – confiando na “mágica dos mercados” – superar a crise da dívida pública e reativar a languidescente economia norte-americana.

Esta receita já foi implementada a ferro e fogo na América Latina e não funcionou, nem tão pouco na convulsionada Europa destes dias. Com este acordo a única coisa certa será o agravamento da crise e, por isso, o agravamento da belicosidade norte-americana no cenário mundial.

“Socialismo para os ricos, mercado para os pobres”

O debate da possível inadimplência dos EUA eclipsou completamente um escândalo financeiro de proporções inéditas.

Em 21 de Julho próximo passado soube-se do resultado da auditoria integral realizada pelo Gabinete Governamental de Prestação de Contas (Government Accountability Office. GAO) à Reserva Federal (Fed), o banco central dos EUA. A primeira que se pratica à referida instituição desde que foi criada em 1913.

Os resultados são espantosos: num prazo de pouco mais de dois anos e meio, entre 1 de Dezembro de 2007 e 21 de Julho de 2010, o Fed concedeu empréstimos secretos grandes corporações e empresas do setor financeiro no valor de 16 trilhões (16 x 10 12 ) de dólares, um número maior que o PIB dos Estados Unidos, o qual no ano de 2010 foi de US$14,5 trilhões e mais elevado que a soma dos orçamentos do governo federal durante os últimos quatro anos.

Não só isto: a auditoria revelou também que 659 milhões de dólares foram entregues a algumas das instituições financeiras beneficiadas arbitrariamente por este programa para que administrassem o multimilionário salvamento de bancos e corporações disposto como mecanismo de “saída” da nova crise geral do capitalismo.

Desse gigantesco total cerca de 3 trilhões foram destinados a socorrer grandes empresas e entidades financeiras na Europa e na Ásia. O resto foi destinado ao resgate de corporações estadunidenses, encabeçadas pelo Citibank, o Morgan Stanley, o Merrill Lynch e o Bank of America, dentre as mais importantes. Tudo isso enquanto a crise aprofundava até níveis desconhecidos a desigualdade econômica dentro da população estadunidense ao mesmo tempo em que afundava setores sociais crescentes na pobreza e na vulnerabilidade social.

Naturalmente. esta informação apenas mereceu um espaço completamente marginal na imprensa financeira. tanto na internacional como na norte-americana. ou nos grandes meios de comunicação dos Estados Unidos. São notícias que, como recorda Noam Chomksy, não têm porque ser conhecidas do grande público.

As assombrosas revelações deste relatório deveriam dar lugar a uma discussão, sobre vários temas de grande importância.

1. A extremamente desigual distribuição dos esforços requeridos para enfrentar a crise. Até agora aqueles foram trazidos pelos trabalhadores. ao passo que as grandes fortunas pessoais ou corporativas, assim como os rendimentos fenomenais dos mais ricos, foram beneficiados com reduções de impostos e resgates multimilionários dispostos por George W. Bush e ratificados por Barack Obama no acordo recente.

2. Sobre os inexistentes – ou extremamente fracos e ineficazes – mecanismos de auditoria e controle democrático sobre as políticas e decisões de uma instituição crucial para a economia norte-americana e o bem-estar da sua população como o Fed.

3. Sobre a duvidosa compatibilidade existente entre uma ordem que se autoproclama democrática e o estatuto jurídico e institucional do Fed como entidade autônoma que não tem a obrigação de prestar contas perante nenhuma instância de controle democrático.

Em relação a este último o Fed manifestou sua predisposição para “considerar muito seriamente” as recomendações do GAO, mas por não ser uma instituição governamental não pode ser forçado a aceitá-las. Apesar do seu caráter privado o Governador (Chairman) do Fed e os sete membros da sua direção são designados pelo Presidente dos Estados Unidos e sujeitos à sua confirmação posterior pelo Senado. Mas ao contrário do que pensa a esmagadora maioria da população norte-americana, o Fed não é uma agência do governo federal e sim uma corporação privada.

Em termos políticos o Fed é o partido do capital financeiro.

Sua autonomia é tão grande que não se sairia um milímetro da legalidade se as suas autoridades decidissem ignorar as recomendações do GAO ou rebelar-se abertamente contra elas. Para o Fed. não existe a prestação democrática de contas perante a comunidade e por ser uma entidade de direito privado não tem porque acatar nem sequer o estabelecido na Lei de Liberdade Informação, cuja jurisdição se estende só às instituições públicas.

Situações aberrantes existem sim: um número equivalente ao total da dívida pública estadunidense que pôs os EUA à beira da inadimplência foi desembolsado em resgates fraudulentos, secretos e muito benéficos para os beneficiados e lesivos para o contribuinte, com cujo dinheiro um banco central “independente” como o Fed financiou toda esta operação.

Cabe perguntar: independente de quem?

Conspiração de silêncio?

O escândalo revelado pela auditoria quase não teve nenhuma repercussão nos Estados Unidos.

O governador do Fed, Ben Bernanke, fez-se de desentendido e disse que no momento em que se temia uma inadimplência desse país o importante era resguardar a credibilidade do Fed e do sistema monetário estadunidense.

Apesar de o GAO ser um organismo de apoio aos trabalhos do Congresso as reações de deputados e senadores perante a divulgação do relatório foram o mais absoluto e imoral silêncio.

Até onde pudemos saber, uma das pouquíssimas vozes dissonantes foi a do senador Bernie Sanders. do estado de Vermont. Sanders é uma avis rara não só no Congresso como na política estadunidense: é um político que se declara socialista e que foi eleito como candidato independente em aliança com o Partido Democrata. única maneira de ultrapassar o asfixiante bipartidarismo imperante nos Estados Unidos. Eleito senador em 2007 com 65% dos votos, um aluvião eleitoral muito pouco frequente na política desse país, foi apoiado por diversos movimentos sociais e pequenas organizações políticas de Vermont. Sanders reagiu duramente quando o relatório foi conhecido.
Transcrevemos alguns dos parágrafos, mas destacados da declaração emitida pelo seu gabinete de imprensa, que foi praticamente ignorado por quase todos os media dos Estados Unidos. Diz o seguinte:

21 de Julho de 2011.

“A primeira auditoria integral da Reserva Federal descobriu novos pormenores assombrosos acerca de como os Estados Unidos forneceram a bagatela de 16 trilhões de dólares (US$16.000.000.000.000,00) em empréstimos secretos para resgatar bancos e empresas estadunidenses e estrangeiras durante a pior crise econômica desde a Grande Depressão”.

Uma emenda proposta pelo senador Bernie Sanders à lei de reforma da Wall Street – aprovada há exatamente um ano atrás esta semana – havia ordenado ao Gabinete Governamental de Prestação de Contas (Government Accountability Office) efetuar esse exame.

“Como resultado desta auditoria agora sabemos que a Reserva Federal forneceu mais de 16 trilhões de dólares em assistência financeira total a algumas das maiores corporações e instituições financeiras nos Estados Unidos e no resto do mundo”, disse Sanders.

“Isto é um caso claríssimo de socialismo para os ricos e individualismo nu tipo 'salve-se quem puder' para os demais”.

Esclarecimento: o Government Accountability Office (GAO) é uma agência independente e não partidária que trabalha para o Congresso dos Estados Unidos. A missão do GAO é investigar a forma com que o governo federal dispõe os dólares dos contribuintes. O chefe do GAO é Controlador Geral dos Estados Unidos e é nomeado por um período de 15 anos pelo presidente a partir de uma lista de candidatos elaborada pelo Congresso. O chefe atual do GAO é Gene L. Dodaro. o qual fora nomeado pelo presidente Barack Obama em Setembro de 2010 e confirmado no seu cargo em Dezembro desse mesmo ano ao ser aprovado no seu posto pelo Senado. (Nota de A. Boron)

Dentre outras coisas a auditoria estabeleceu que a Reserva Federal “carece de um sistema suficientemente exaustivo para tratar casos de conflitos de interesse. apesar de que existem sérios riscos de abusos neste sentido”. De fato, segundo esta auditoria, “a Reserva Federal emitiu dispensas de conflito de interesse em favor de empregados e empreiteiros privados a fim de que pudessem manter seus investimentos nas mesmas corporações e instituições financeiras que recebiam empréstimos de emergência”.

“Por exemplo; o administrador-executivo do JP Morgan Chase exercia funções na Direção da Reserva Federal de Nova York enquanto o seu banco recebia mais de 390 bilhões de dólares de ajuda financeira da parte da Reserva Federal. Além disso, o JP Morgan Chase atuava como um dos bancos de compensação para os programas de empréstimos de emergência do Fed”.

“Outra descoberta perturbadora do GAO é a que menciona que em 19 de Setembro de 2008 o senhor William Dudley, Presidente da Reserva Federal de Nova York, recebeu uma dispensa que lhe permitia conservar seus investimentos na AIG (American International Group. líder mundial no campo dos seguros) e GE (General Electric) enquanto estas companhias recebiam fundos de resgate. Uma razão pela qual o Fed não obrigou Dudley a vender as suas ações. Segundo a auditoria, foi porque tal ação poderia haver criado a aparência de um conflito de interesses”.

“A investigação também revelou que o Fed terceirizava a empreiteiros privados como JP Morgan Chase. Morgan Stanley e Wells Fargo a maioria dos seus programas de empréstimos de emergência. Estas mesmas firmas também recebiam bilhões de dólares do Fed por empréstimos concedidos a taxas de juro próximas do zero”.

Os principais beneficiários destes empréstimos – concedidos entre 1 de Dezembro de 2007 e 21 de Julho de 2010 – são os seguintes:

Citigroup: $2.5 milhões de milhões ($2.500.000.000.000)
Morgan Stanley: $2.04 milhões de milhões ($2.040.000.000.000)
Merrill Lynch: $1.949 milhões de milhões ($1.949.000.000.000)
Bank of America: $1.344 milhões de milhões ($1.344.000.000.000)
Barclays PLC (Reino Unidos): $868 mil milhões ($868.000.000.000)
Bear Sterns: $853 mil milhões ($853.000.000.000)
Goldman Sachs: $814 mil milhões ($814.000.000.000)
Royal Bank of Scotland (UK): $541 mil milhões ($541.000.000.000)
JP Morgan Chase: $391 mil milhões ($391.000.000.000)
Deutsche Bank (Germany): $354 mil milhões ($354.000.000.000)
UBS (Suíça): $287 mil milhões ($287.000.000.000)
Credit Suisse (Suíça): $262 mil milhões ($262.000.000.000)
Lehman Brothers: $183 mil milhões ($183.000.000.000)
Bank of Scotland (Reino Unido): $181 mil milhões ($181.000.000.000)
BNP Paribas (França): $175 mil milhões ($175.000.000.000)
Wells Fargo & Co. $159 mil milhões ($159.000.000.000)
Dexia SA (Bélgica) $159 mil milhões ($159.000.000.000)
Wachovia Corporation $142 mil milhões ($142.000.000.000)
Dresdner Bank AG (Alemanha) $135 mil milhões ($135.000.000.000)
Societé Generale SA (França) $124 mil milhões ($124.000.000.000)
Todos os demais: $2,6 milhões de milhões ($ 2.639.000.000.000)

Total: $16,115 trilhões ($ 16.115.000.000.000)

Nota da redecastorphoto: em português, o numeral “trilhôes” é a tradução correta de “billones” em espanhol.

O artigo original, em espanhol, encontra-se em: Uma estafa de 16 billones de dólares 

Esta tradução foi extraída de: Resistir

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Barack Obama: “O presidente que se rende”

Mehdi Hasan

1/8/2011, Mehdi Hasan, The New Statesman, UK  
Traduzido pelo coletivo da Vila Vudu

O “acordo” de Obama não é acordo: é capitulação. E havia alternativas.

“Conseguimos 98% do que queríamos” – disse o Republicano John “o lado escuro da força” Boehner, presidente da Câmara de Deputados, sobre o acordo da dívida firmado entre Obama e os Democratas e Republicanos do Congresso.

No resumo feito pela BBC [1], o acordo inclui:

* Cortes de 900 bilhões nos gastos do governo, divididos entre gastos da Defesa e outros gastos;

* Criação de um “supercomitê” bipartidário no Congresso, para recomendar outros 1,5 trilhões de dólares de gastos a serem cortados ao longo de 10 anos, contados a partir de novembro; e

* Cortes em áreas chaves, entre as quais, defesa e educação, a serem implantados automaticamente, se o supercomitê não conseguir construir acordo.

Barack Obama
É difícil não concordar com Boehner. Obama começou por pedir aumento “limpo” no teto de $14,2 trilhões para o endividamento; depois, passou a pedir que houvesse cortes correspondentes nos impostos e nos gastos. Nada conseguiu. Sequer conseguiu que os doidos do Tea Party aceitassem abolir a isenção de impostos sobre jatos privados! [2]

O déficit no orçamento dos EUA será pago pelos mais pobres. Eis o que se lia na página Hedgefund.net [3]:

“Administradores e gerentes de empresas de hedge e derivativos, como muitos outros no mundo dos investimentos, respiraram aliviados quando o presidente Barack Obama anunciou no domingo à noite, um acordo provisório para elevar o teto do endividamento dos EUA”.

Os defensores de Obama reagiram contra críticas ao presidente, perguntando sem parar “e que alternativa havia?” “Qual seria a SUA alternativa?”

Ora, ora... Para início de conversa, como diria Jack o Estripador, “Eu não teria começado por aí.”

Paul Krugman dá alguns detalhes [4]:

“O presidente, dessa vez, tinha alternativas? Sim.
Primeiro, podia e devia ter exigido o aumento no teto de endividamento em dezembro. Perguntado sobre por que não o fez, respondeu que tinha certeza de que os Republicanos agiriam responsavelmente. Grande ideia!
E mesmo depois, o governo Obama poderia ter recorrido à manobra legal de desconsiderar o teto de endividamento, usando qualquer de várias opções. Em circunstâncias ordinárias, teria sido passo extremo. Mas ante a realidade do que já estava acontecendo, a saber: a declarada chantagem, praticada por um partido que, afinal de contas, só controla a Câmara e não controla o Senado, teria sido perfeitamente justificável.
No mínimo, o presidente Obama poderia recorrer a qualquer de várias manobras legais para fortalecer sua posição. Fez? Não. Desde o início o presidente descartou todas essas possibilidades.”

Como escreveu Robert Reich [5], professor e ex-secretário do Trabalho dos EUA (governo Bill Clinton):

“Mas outra parte da resposta está com o presidente – e sua incapacidade para, ou nenhuma vontade de, usar a tribuna para informar os norte-americanos sobre a verdade e mobilizá-los para fazer o que tem de ser feito.

Barack Obama é dos homens mais eloquentes e mais inteligentes que jamais habitou a Casa Branca, o que torna ainda mais intrigante e frustrante para nós o seu fracasso, ao escolher não contar aos eleitores a história de nossa geração. Muitos dos que votamos nele em 2008 (inclusive eu) fomos seduzidos pelo poder de suas palavras e de sua visão de América – seu discurso na convenção dos Democratas em 2004, sua autobiografia e, depois, seu livro de política, o que disse sobre racismo e outros temas decisivos durante a campanha.

Todos nos entusiasmamos à perspectiva de um presidente educador – um “educador-em-chefe” que usaria a tribuna para explicar o que aconteceu nos EUA nas últimas décadas, para onde temos de andar e por quê.

Mas o homem que ocupa o Salão Oval desde janeiro de 2009 é alguém completamente diferente – é homem que parece navegar sem bússola, não se entende para onde; tático que um dia anda numa direção, dia seguinte volta atrás, um dia para a esquerda, dia seguinte para a direita, fazedor de ‘acertos’ dentro dos círculos do poder, que jamais explica seus compromissos à rua nem, jamais, fala de seus objetivos maiores.

No discurso de posse, Obama alertou que “a nação não prosperará enquanto só favorecer os prósperos”. Privadamente, diz entender que a crescente concentração de renda e riqueza no ponto mais alto da pirâmide roubou da classe média o poder de compra de que precisaria para manter ativa a economia. E que isso distorceu a política norte-americana.

Sabe perfeitamente bem que a Grande Recessão fez desaparecer $7,8 trilhões no valor das moradias, esmagou os ovos no ninho,  eliminando a poupança que permitiria que a classe média continuasse a consumir apesar da queda real no valor dos salários. – E que a quebra no consumo é diretamente responsável pela anêmica ‘recuperação’ que se vê.

Mas, em vez de explicar isso ao povo norte-americano, Obama une-se à ala mais reacionária dos Republicanos para oferecer ao povo uma farsa, uma falsa redução do déficit público, e envolve-se numa patética encenação de penas arrepiadas com os Republicanos... deixando crescer o suspense e a angústia nacional, sobre se o teto do endividamento seria ou não aumentado.

Obama sequer se deu o cuidado de explicar aos cidadãos por que a redução do déficit, de repente, se converteu em prioridade econômica de seu governo. Aos cidadãos, só restou concluir que os Republicanos devem ter razão... e que reduzir o déficit poderá (só deus sabe como!) reviver o crescimento da economia e criar empregos.”

E então surge Bill Clinton [6], Bubba em pessoa, hoje cedo, para dizer o que teria feito se ainda estivesse na Casa Branca:

“O ex-presidente Bill Clinton diz que, fosse ele, teria invocado a chamada opção constitucional para elevar o teto do endividamento “sem hesitar; e teria obrigado as cortes a me processarem”, para impedir o calote, no caso de Congresso e Presidente não chegarem a algum acordo antes do prazo final de 2 de agosto”.

Mas Obama fugiu de usar a 14ª Emenda [7]. Talvez, como Reich sugere, porque:

“Obama simplesmente não tem coragem de contar a verdade. Quer ser visto mais como adulto responsável, do que como resistente. Por isso acaba sempre se deixando prender nas situações – a mais recente, o imbróglio do teto de endividamento – às quais teria de responder. E nunca é o líder que modela as situações, desde o primeiro passo.
Obama não consegue mobilizar os EUA, em outras palavras, porque sempre tenta adaptar-se à ideia dominante. Isso não é presidir.” 



Referências