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quinta-feira, 25 de julho de 2013

Soberania e sobrevivência




Adriano Benayon [*] – 24.07.2013
Texto enviado por Beatrice


1. Muitos, se não a maioria, dos que não se importam com a entrega das riquezas do País à oligarquia financeira transnacional e a seus bancos e empresas, precisam mudar de atitude. Não é uma questão de patriotada, mas de entender que sem soberania um povo fica privado de dignidade e de prosperidade e até da chance de sobreviver.

2. Se o Brasil continuar à mercê de corporações transnacionais, bancos e potências imperiais, aumentará o fosso entre a minoria, cada vez menor, dos servidores desse sistema de poder e a maioria, esmagadora e crescente, dos brasileiros que vivem em condições de vida insuportáveis. Na verdade, escravos com seu destino nas mãos do império.

3. O fosso começou a ser alargado desde 1954, logo após o golpe militar-udenista que entregou, de bandeja, o mercado do País às transnacionais, através de privilégios incríveis, mantidos e aumentados nos cinco anos de JK. Esse processo foi-se agravando e, hoje, longe de ser revertido, prossegue intensificando-se.

4. As potências anglo-americanas não apenas intervieram nos golpes de 1954 e 1964, mas também determinaram o curso político do País desde o começo dos anos 80. 

5. Neste mês a grande mídia não teve como esconder as revelações de Edward Snowden, ex-contratado terceirizado dos serviços secretos dos Estados Unidos, sobre a abrangência da espionagem eletrônica, telefônica, etc., que estes fazem, há muitos anos, dentro do Brasil. Entretanto, quase não se divulgam as ações dos serviços de outras potências, como o Reino Unido.

6. Esse controle sobre as telecomunicações nem necessitava das tecnologias de captação de informações que os EUA hoje aplicam em quase todo o mundo. De fato, o grau de traição ao País foi de tal ordem, que o Brasil ficou, em 1998, sem satélite próprio de telecomunicações, com a privatização da EMBRATEL, controlada pela MCI dos EUA.

7. Datam de longe as intervenções do governo dos EUA praticadas para abortar iniciativas capazes de contribuir para o desenvolvimento tecnológico do Brasil. Nos anos 70 e 80, os EUA vetaram a importação de componentes estratégicos pela EMBRAER e causaram o fechamento da empresa ENGESA, que fabricava blindados, ao intervir junto à Arábia Saudita para cancelar um grande contrato.

8. Em consequência do modelo instituído no Brasil a partir de 1954 - a que se atribuíram os falsos milagres de crescimento do PIB, pouco depois traduzidos em dívidas e estagnação - o poder das transnacionais sobre o mercado foi suficiente para asfixiar as empresas privadas nacionais, matando, no ovo, as possibilidades de estas desenvolverem tecnologia.

9. Entre as intervenções diretas das potências imperiais (EUA à frente), avulta ter feito explodir o míssil da missão espacial brasileira, na base de Alcântara, matando no ato seus mais de 20 membros, no momento do lançamento. Além disso, os EUA pressionaram a Ucrânia para não transferir tecnologia ao Brasil, como prevê o acordo de cooperação espacial com esse país.
 
10. Os EUA arranjaram com o governo de FHC um acordo para a cessão da base de Alcântara para lançamentos, altamente lesivo para nós, pois permite a construção de instalações e a entrada no País de equipamentos e efetivos das Forças Armadas da mais agressiva potência militar do mundo.

11. Com a saída do mega-entreguista em dezembro de 2002, esse acordo esteve, até há pouco, parado no Congresso, tendo sido agora colocado na pauta de votações do plenário da Câmara dos Deputados, o que confirma estar a atual presidenta cedendo às pressões imperiais em questões vitais para a soberania do Brasil.

12. Outros atos de submissão ocorrem com o petróleo. Pelo menos três destes terão, se não forem revertidos, consequências fatídicas para o País.

13. Primeiro, os leilões, em maio de 2013, de campos de petróleo na plataforma continental, com reservas de 19 bilhões de barris, na cotação atual, US$ 2 trilhões. Segundo: o anúncio de leilão para o campo Libra, na área do Pré-Sal, com reservas de 12 bilhões de barris. As duas medidas envolvem mais de 30 bilhões de barris. 

14. Mormente nas condições infracoloniais do sistema tributário brasileiro, leiloar petróleo para empresas estrangeiras significa dar-lhes todo ele. Fora do Pré-Sal, o Brasil só recebe 10% de royalties sobre aquilo a transnacional declarar (o que ninguém confere). Não há impostos nem contribuições sobre a exportação.

15. Os agentes pagos e os enganados dirão que o Brasil obterá grande quantidade de divisas (moeda estrangeira). Nós respondemos: quem recebe as divisas são os exportadores, as petroleiras estrangeiras.

16. Estas venderão as divisas ao Banco Central, o qual, para pagá-las, emitirá moeda nacional (reais) em quantidade assombrosa: quando estiverem exportando 3 milhões de barris/dia = 1.080 bilhões barris/ano, serão cerca de US$ 356 bilhões, o equivalente a 150% do total das atuais exportações do Brasil. Ao câmbio de R$ 2,2 por dólar, estamos falando de R$ 783 bilhões = 3,5 vezes o atual saldo médio da base monetária.

17. Então? Ou o Banco Central emitiria moeda, e as petroleiras estrangeiras ficariam com caixa para comprar todas as empresas, bancos e propriedades que quisessem no Brasil, ou emitiria títulos da dívida pública, dentro da tradicional política de enxugar a base monetária.

18. Neste caso, aumentaria, de golpe, em 50% o estoque dos títulos da dívida pública fora do Banco Central, e cresceria em 25% o absurdo serviço da dívida, que já consome quase metade das despesas da União. Com a dinâmica da composição dos juros, a explosão não demoraria.

19. Terceiro desastre com o petróleo: a deterioração das finanças da Petrobrás, decorrente das políticas antinacionais prevalecentes na ANP e na própria estatal, desde 1997, quando da instituição da Lei 9.478.

20. Nada melhor que ter uma empresa nacional responsável pelo abastecimento do País, a qual logrou êxitos notáveis na pesquisa e exploração (descobrindo enormes reservas), em contraste com os países que se entregam ao cartel anglo-americano.

21. Ora, a política brasileira dominada por interessados na inviabilização do desenvolvimento nacional, vem minando a (ex?) estatal, fazendo reduzir sua capacidade de investimento e, ao mesmo tempo, abrindo, sem a menor necessidade, ao cartel mundial as reservas por ela descobertas.

22. Com essa fieira de inesgotáveis danos ao País:

1) ele entrega a principal fonte de energia, tendente à escassez, do mercado mundial;
2) cria terrível inflação e torna ainda mais letal a dívida pública;
3) recebe dólares, com os quais nada pode fazer no exterior (os juros lá são desprezíveis, e as potências estrangeiras não vendem ativos produtivos estratégicos);
4) com a abundância de divisas para importar, agrava a desnacionalização e a desindustrialização, suas principais desgraças estruturais.

23. Mais uma capitulação, que leva o Brasil à ruína: a volta das elevações da taxa básica dos juros, SELIC. Neste ano, ela subiu de 7,25% para 8,5%, com o que caem as possibilidades de reduzir os gastos federais de R$ 753 bilhões, de  2012, com juros e amortizações das dívidas interna e externa = 43% das despesas totais da União.

24. Não há que crer nos artifícios contábeis das “autoridades monetárias”. Elas apresentam as despesas da dívida expurgadas de correção monetária, o que não é correto: quando você paga R$ 30 reis para almoçar, você está pagando R$ 30,00 mesmo; não há razão para deduzir a variação do  IGP-M no ano.

25. Outra coisa: não computam o que é pago por meio de títulos públicos, como se não tivesse sido pago: se um aplicador resgata títulos comprados há um ano, a juros de 15% a.a., no valor de R$ 100 mi, e o Tesouro lhe paga, com novos títulos, R$ 115 mi, há que incluir esta quantia na despesa, pois o título do Tesouro vale dinheiro e, além disso, rende juros.

26. Ademais, as autoridades não incluem no total os títulos do Tesouro em poder do Banco Central, cuja maior parte circula entre o BACEN e os bancos, nas operações de mercado aberto.

27. Os brasileiros são espoliados também pelos juros bancários, a taxas muito maiores que as abusivas pagas pelo Tesouro nos títulos públicos.  O crédito de pessoas físicas e jurídicas chegou a R$ 2,4 trilhões = 54% do PIB. Se calcularmos taxa média de 30% aa., a conta dos juros, fora a da dívida pública, é quase outro tanto: R$ 720 bilhões.

28. Mais importante, além de estar na origem de todos os males da economia e das finanças, é o que vai para o exterior de lucros escondidos das transnacionais, através de diversas contas do balanço de pagamentos. Eles vêm dos altíssimos preços que elas praticam aqui dentro: é o mesmo que um imposto, só que pago pelos brasileiros às empresas transnacionais, em vez de ser pago ao governo, equivalente a outra carga tributária de 35% do PIB.

29. Do financiamento dos déficits externos resultantes das transferências em várias contas do balanço de transações com o exterior, resultou a dívida externa, e desta saiu a  dívida interna, quando faltaram divisas para servir aquela. Em função disso, os engenheiros brasileiros não têm empregos, e não se desenvolve tecnologia no País. Ademais, as pessoas ficam até sem saber para que servem as matérias primas e o preço que deveriam ter.

30. Como reagem os governos que têm fingido governar o País? Dão dinheiro e crédito barato às transnacionais e a aquinhoados em novas concessões públicas, como ocorre com o transporte, portos e aeroportos, estradas com pedágios abusivos etc.. E cortam impostos das transnacionais e outros concentradores.

31. Não reduzem, porém, os tributos que recaem sobre os cidadãos. Ao contrário, estes são onerados adicionalmente pelos sobrepreços dos oligopólios, como aponto no parágrafo 28 acima, e se exemplifica com os bens industriais, de qualidade sofrível e, amiúde, custando o dobro de seus congêneres no exterior. 
_________________


[*] Adriano Benayon Consultor em finanças e em biomassa. Doutor em Economia, pela Universidade de Hamburgo, Bacharel em Direito, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ. Diplomado no Curso de Altos Estudos do Instituto Rio Branco, Itamaraty. Diplomata de carreira, postos na Holanda, Paraguai, Bulgária, Alemanha, Estados Unidos e México. Delegado do Brasil em reuniões multilaterais nas áreas econômica tecnológica. Depois, Consultor Legislativo da Câmara dos Deputados e do Senado Federal na área de economia. Professor da Universidade de Brasília (Empresas Multinacionais; Sistema Financeiro Internacional; Estado e Desenvolvimento no Brasil). Autor de Globalização versus Desenvolvimento, 2ª ed. Editora Escrituras, São Paulo.

sábado, 6 de agosto de 2011

Um roubo de 16 trilhões de dólares (US)

Atílio A. Borón

por Atilio A. Borón

A atenção da opinião pública internacional está centrada no acordo pírrico firmado entre Barack Obama e o Congresso pelo qual o presidente compromete-se a aplicar um duro programa de ajuste fiscal, centrado no corte de gastos sociais (saúde. educação. alimentação) e infraestrutura de 2,5 trilhões de dólares, mas preservando, como exige o Tea Party, o nível atual de despesa militar e sua eventual expansão. Em troca disto a Casa Branca recebeu a autorização de elevar o endividamento dos Estados Unidos até 16.4 trilhões de dólares, número superior nuns dois  trilhões de dólares o PIB desse país. Com isto espera-se – confiando na “mágica dos mercados” – superar a crise da dívida pública e reativar a languidescente economia norte-americana.

Esta receita já foi implementada a ferro e fogo na América Latina e não funcionou, nem tão pouco na convulsionada Europa destes dias. Com este acordo a única coisa certa será o agravamento da crise e, por isso, o agravamento da belicosidade norte-americana no cenário mundial.

“Socialismo para os ricos, mercado para os pobres”

O debate da possível inadimplência dos EUA eclipsou completamente um escândalo financeiro de proporções inéditas.

Em 21 de Julho próximo passado soube-se do resultado da auditoria integral realizada pelo Gabinete Governamental de Prestação de Contas (Government Accountability Office. GAO) à Reserva Federal (Fed), o banco central dos EUA. A primeira que se pratica à referida instituição desde que foi criada em 1913.

Os resultados são espantosos: num prazo de pouco mais de dois anos e meio, entre 1 de Dezembro de 2007 e 21 de Julho de 2010, o Fed concedeu empréstimos secretos grandes corporações e empresas do setor financeiro no valor de 16 trilhões (16 x 10 12 ) de dólares, um número maior que o PIB dos Estados Unidos, o qual no ano de 2010 foi de US$14,5 trilhões e mais elevado que a soma dos orçamentos do governo federal durante os últimos quatro anos.

Não só isto: a auditoria revelou também que 659 milhões de dólares foram entregues a algumas das instituições financeiras beneficiadas arbitrariamente por este programa para que administrassem o multimilionário salvamento de bancos e corporações disposto como mecanismo de “saída” da nova crise geral do capitalismo.

Desse gigantesco total cerca de 3 trilhões foram destinados a socorrer grandes empresas e entidades financeiras na Europa e na Ásia. O resto foi destinado ao resgate de corporações estadunidenses, encabeçadas pelo Citibank, o Morgan Stanley, o Merrill Lynch e o Bank of America, dentre as mais importantes. Tudo isso enquanto a crise aprofundava até níveis desconhecidos a desigualdade econômica dentro da população estadunidense ao mesmo tempo em que afundava setores sociais crescentes na pobreza e na vulnerabilidade social.

Naturalmente. esta informação apenas mereceu um espaço completamente marginal na imprensa financeira. tanto na internacional como na norte-americana. ou nos grandes meios de comunicação dos Estados Unidos. São notícias que, como recorda Noam Chomksy, não têm porque ser conhecidas do grande público.

As assombrosas revelações deste relatório deveriam dar lugar a uma discussão, sobre vários temas de grande importância.

1. A extremamente desigual distribuição dos esforços requeridos para enfrentar a crise. Até agora aqueles foram trazidos pelos trabalhadores. ao passo que as grandes fortunas pessoais ou corporativas, assim como os rendimentos fenomenais dos mais ricos, foram beneficiados com reduções de impostos e resgates multimilionários dispostos por George W. Bush e ratificados por Barack Obama no acordo recente.

2. Sobre os inexistentes – ou extremamente fracos e ineficazes – mecanismos de auditoria e controle democrático sobre as políticas e decisões de uma instituição crucial para a economia norte-americana e o bem-estar da sua população como o Fed.

3. Sobre a duvidosa compatibilidade existente entre uma ordem que se autoproclama democrática e o estatuto jurídico e institucional do Fed como entidade autônoma que não tem a obrigação de prestar contas perante nenhuma instância de controle democrático.

Em relação a este último o Fed manifestou sua predisposição para “considerar muito seriamente” as recomendações do GAO, mas por não ser uma instituição governamental não pode ser forçado a aceitá-las. Apesar do seu caráter privado o Governador (Chairman) do Fed e os sete membros da sua direção são designados pelo Presidente dos Estados Unidos e sujeitos à sua confirmação posterior pelo Senado. Mas ao contrário do que pensa a esmagadora maioria da população norte-americana, o Fed não é uma agência do governo federal e sim uma corporação privada.

Em termos políticos o Fed é o partido do capital financeiro.

Sua autonomia é tão grande que não se sairia um milímetro da legalidade se as suas autoridades decidissem ignorar as recomendações do GAO ou rebelar-se abertamente contra elas. Para o Fed. não existe a prestação democrática de contas perante a comunidade e por ser uma entidade de direito privado não tem porque acatar nem sequer o estabelecido na Lei de Liberdade Informação, cuja jurisdição se estende só às instituições públicas.

Situações aberrantes existem sim: um número equivalente ao total da dívida pública estadunidense que pôs os EUA à beira da inadimplência foi desembolsado em resgates fraudulentos, secretos e muito benéficos para os beneficiados e lesivos para o contribuinte, com cujo dinheiro um banco central “independente” como o Fed financiou toda esta operação.

Cabe perguntar: independente de quem?

Conspiração de silêncio?

O escândalo revelado pela auditoria quase não teve nenhuma repercussão nos Estados Unidos.

O governador do Fed, Ben Bernanke, fez-se de desentendido e disse que no momento em que se temia uma inadimplência desse país o importante era resguardar a credibilidade do Fed e do sistema monetário estadunidense.

Apesar de o GAO ser um organismo de apoio aos trabalhos do Congresso as reações de deputados e senadores perante a divulgação do relatório foram o mais absoluto e imoral silêncio.

Até onde pudemos saber, uma das pouquíssimas vozes dissonantes foi a do senador Bernie Sanders. do estado de Vermont. Sanders é uma avis rara não só no Congresso como na política estadunidense: é um político que se declara socialista e que foi eleito como candidato independente em aliança com o Partido Democrata. única maneira de ultrapassar o asfixiante bipartidarismo imperante nos Estados Unidos. Eleito senador em 2007 com 65% dos votos, um aluvião eleitoral muito pouco frequente na política desse país, foi apoiado por diversos movimentos sociais e pequenas organizações políticas de Vermont. Sanders reagiu duramente quando o relatório foi conhecido.
Transcrevemos alguns dos parágrafos, mas destacados da declaração emitida pelo seu gabinete de imprensa, que foi praticamente ignorado por quase todos os media dos Estados Unidos. Diz o seguinte:

21 de Julho de 2011.

“A primeira auditoria integral da Reserva Federal descobriu novos pormenores assombrosos acerca de como os Estados Unidos forneceram a bagatela de 16 trilhões de dólares (US$16.000.000.000.000,00) em empréstimos secretos para resgatar bancos e empresas estadunidenses e estrangeiras durante a pior crise econômica desde a Grande Depressão”.

Uma emenda proposta pelo senador Bernie Sanders à lei de reforma da Wall Street – aprovada há exatamente um ano atrás esta semana – havia ordenado ao Gabinete Governamental de Prestação de Contas (Government Accountability Office) efetuar esse exame.

“Como resultado desta auditoria agora sabemos que a Reserva Federal forneceu mais de 16 trilhões de dólares em assistência financeira total a algumas das maiores corporações e instituições financeiras nos Estados Unidos e no resto do mundo”, disse Sanders.

“Isto é um caso claríssimo de socialismo para os ricos e individualismo nu tipo 'salve-se quem puder' para os demais”.

Esclarecimento: o Government Accountability Office (GAO) é uma agência independente e não partidária que trabalha para o Congresso dos Estados Unidos. A missão do GAO é investigar a forma com que o governo federal dispõe os dólares dos contribuintes. O chefe do GAO é Controlador Geral dos Estados Unidos e é nomeado por um período de 15 anos pelo presidente a partir de uma lista de candidatos elaborada pelo Congresso. O chefe atual do GAO é Gene L. Dodaro. o qual fora nomeado pelo presidente Barack Obama em Setembro de 2010 e confirmado no seu cargo em Dezembro desse mesmo ano ao ser aprovado no seu posto pelo Senado. (Nota de A. Boron)

Dentre outras coisas a auditoria estabeleceu que a Reserva Federal “carece de um sistema suficientemente exaustivo para tratar casos de conflitos de interesse. apesar de que existem sérios riscos de abusos neste sentido”. De fato, segundo esta auditoria, “a Reserva Federal emitiu dispensas de conflito de interesse em favor de empregados e empreiteiros privados a fim de que pudessem manter seus investimentos nas mesmas corporações e instituições financeiras que recebiam empréstimos de emergência”.

“Por exemplo; o administrador-executivo do JP Morgan Chase exercia funções na Direção da Reserva Federal de Nova York enquanto o seu banco recebia mais de 390 bilhões de dólares de ajuda financeira da parte da Reserva Federal. Além disso, o JP Morgan Chase atuava como um dos bancos de compensação para os programas de empréstimos de emergência do Fed”.

“Outra descoberta perturbadora do GAO é a que menciona que em 19 de Setembro de 2008 o senhor William Dudley, Presidente da Reserva Federal de Nova York, recebeu uma dispensa que lhe permitia conservar seus investimentos na AIG (American International Group. líder mundial no campo dos seguros) e GE (General Electric) enquanto estas companhias recebiam fundos de resgate. Uma razão pela qual o Fed não obrigou Dudley a vender as suas ações. Segundo a auditoria, foi porque tal ação poderia haver criado a aparência de um conflito de interesses”.

“A investigação também revelou que o Fed terceirizava a empreiteiros privados como JP Morgan Chase. Morgan Stanley e Wells Fargo a maioria dos seus programas de empréstimos de emergência. Estas mesmas firmas também recebiam bilhões de dólares do Fed por empréstimos concedidos a taxas de juro próximas do zero”.

Os principais beneficiários destes empréstimos – concedidos entre 1 de Dezembro de 2007 e 21 de Julho de 2010 – são os seguintes:

Citigroup: $2.5 milhões de milhões ($2.500.000.000.000)
Morgan Stanley: $2.04 milhões de milhões ($2.040.000.000.000)
Merrill Lynch: $1.949 milhões de milhões ($1.949.000.000.000)
Bank of America: $1.344 milhões de milhões ($1.344.000.000.000)
Barclays PLC (Reino Unidos): $868 mil milhões ($868.000.000.000)
Bear Sterns: $853 mil milhões ($853.000.000.000)
Goldman Sachs: $814 mil milhões ($814.000.000.000)
Royal Bank of Scotland (UK): $541 mil milhões ($541.000.000.000)
JP Morgan Chase: $391 mil milhões ($391.000.000.000)
Deutsche Bank (Germany): $354 mil milhões ($354.000.000.000)
UBS (Suíça): $287 mil milhões ($287.000.000.000)
Credit Suisse (Suíça): $262 mil milhões ($262.000.000.000)
Lehman Brothers: $183 mil milhões ($183.000.000.000)
Bank of Scotland (Reino Unido): $181 mil milhões ($181.000.000.000)
BNP Paribas (França): $175 mil milhões ($175.000.000.000)
Wells Fargo & Co. $159 mil milhões ($159.000.000.000)
Dexia SA (Bélgica) $159 mil milhões ($159.000.000.000)
Wachovia Corporation $142 mil milhões ($142.000.000.000)
Dresdner Bank AG (Alemanha) $135 mil milhões ($135.000.000.000)
Societé Generale SA (França) $124 mil milhões ($124.000.000.000)
Todos os demais: $2,6 milhões de milhões ($ 2.639.000.000.000)

Total: $16,115 trilhões ($ 16.115.000.000.000)

Nota da redecastorphoto: em português, o numeral “trilhôes” é a tradução correta de “billones” em espanhol.

O artigo original, em espanhol, encontra-se em: Uma estafa de 16 billones de dólares 

Esta tradução foi extraída de: Resistir

domingo, 26 de junho de 2011

Lavando cérebros de um modo polido e profissional

John Pilger

por John Pilger

Um dos livros mais originais e provocantes da última década é Mentes disciplinadas (Disciplined Minds) de Jeff Schmidt [1] (Rowman & Littlefield). “Um olhar críticos aos profissionais assalariados”, diz a capa, “e o sistema de massacre de almas que molda as suas vidas”. O seu tema é a América pós-moderna, mas também se aplica à Grã-Bretanha, onde o estado corporativo engendrou uma nova classe de administradores americanizados para dirigir os sectores privado e público: os bancos, os principais partidos, corporações, comitês importantes, a BBC.

Dizem que os profissionais são meritórios e não ideológicos. Mas, apesar da sua educação, escreve Schmidt, eles pensam menos independentemente do que não profissionais. Eles utilizam jargões corporativos como “modelo”, “desempenho”, “alvos”, “visão estratégica”. Em Mentes disciplinadas, Schmidt argumenta que o que faz profissional moderno não é conhecimento técnico, mas “disciplina ideológica”. Aqueles que na educação superior e nos meios de comunicação/informação fazem “trabalho político”, mas de um modo que não é visto como político. Ouçam um indivíduo sênior da BBC descrever o nirvana da neutralidade ao qual ele ou ela se elevaram. “Tomar partido” é anátema; e o profissional moderno sabe nunca desafiar a “ideologia incorporada do status quo”. O que importa é a “atitude certa”. [2]

Uma chave para o treino de profissionais é o que Schmidt chama “curiosidade assinalável”. As crianças são naturalmente curiosas, mas ao longo do caminho para tornar-se uma profissional elas aprendem que a curiosidade é uma série de tarefas assinalada por outros. Ao entrar no treino, os estudantes são otimistas e idealistas. Ao deixá-lo, estão “pressionados e perturbados” porque percebem que “o objetivo primário para muitos é serem suficientemente compensados por abandonarem seus objetivos originais”. Tenho encontrado muitos jovens, especialmente jornalistas novatos, que se reconheceriam a si próprios nesta descrição. Pois não importa quão indireto é o seu efeito, a influência primária dos administradores profissionais é culto político extremo da devoção ao dinheiro e à desigualdade conhecido como neoliberalismo.

O supremo administrador profissional é Bob Diamond, o presidente do Barclays Bank em Londres, que em Março obteve um bônus de £6,5 milhões. Mas de 200 administradores do Barclays levaram para casa £554 milhões no ano passado. Em Janeiro, Diamond disse no comitê do Tesouro do parlamento britânico que “o temor do remorso está ultrapassado”. Ele referia-se ao £1 milhão de milhões (trillion) de dinheiro público entregue sem condições a bancos corrompidos por um governo trabalhista cujo líder, Gordon Brown, descreveu tais “financeiros” como a sua “inspiração” pessoal.

Isto foi o ato final do golpe de estado corporativo, agora disfarçado por um debate especioso acerca de “cortes” e de um “déficit nacional”. A maior parte das premissas humanas da vida britânica está sendo eliminada. O “valor” dos cortes diz-se ser de £83 bilhões, quase exatamente o montante da tributação evitada legalmente pelos bancos e corporações. Que o público britânico continua a dar aos bancos um subsídio adicional anual de £100 bilhões em seguro gratuito e garantias – um número que financiaria todo o Serviço Nacional de Saúde – é abafado.

Assim, também, é o absurdo da própria noção de “cortes”. Quando a Grã-Bretanha estava oficialmente em bancarrota a seguir à Segunda Guerra Mundial, havia pleno emprego e algumas das suas maiores instituições públicas, tais como o Serviço de Saúde, foram montadas. Mas os “cortes” são administrados por aqueles que dizem opor-se a eles e fabricam consentimento para a sua aceitação ampla. Este é o papel dos administradores profissionais do Partido Trabalhista.

Em questões de guerra e paz, as mentes disciplinadas de Schmidt promovem violência, morte e caos numa escala ainda não reconhecida na Grã-Bretanha. Apesar da evidência incriminatória no inquérito Chilcot do antigo chefe de inteligência, general de divisão Michael Laurie, o administrador do “negócio principal”, Alastair Campbell, permanece solto, assim como todos os outros administradores da guerra trabalharam com Blair e no Foreign Office para justificar e vender o banho de sangue no Iraque.

Os meios de comunicação/informação de referência muitas vezes desempenham um papel sutilmente crítico. Frederick Ogilvie, o qual sucedeu ao fundador da BBC, Lord Reith, como diretor geral, escreveu que o seu objetivo era transformar a BBC num “instrumento de guerra plenamente efetivo”. Ogilvie teria ficado deliciado com os seus administradores do século XXI. Na corrida para a invasão do Iraque, a cobertura da BBC refletia esmagadoramente a posição mentirosa do governo, como mostra estudos da Universidade de Gales e da Media Tenor.

Contudo, o grande levante árabe não pode ser facilmente administrado, ou apropriado, com omissões e advertências, como deixa claro um diálogo no programa Today, da BBC, de 16 de Maio. Com o seu celebrado profissionalismo, concentrado em discursos corporativos, John Humphrys entrevistou um porta-voz palestino, Husam Zomlot, a seguir ao massacre de Israel de manifestantes desarmados no 63º aniversário da expulsão ilegal do povo palestino dos seus lares.

Humphrys: ... não é surpreendente que Israel tenha reagido do modo o fez?

Zomlot: ... estou muito orgulhoso e satisfeito [eles estavam] se manifestando pacificamente só para... realmente chamar atenção para os seus 63 anos de infortúnio.

Humphrys: Mas eles não se manifestaram pacificamente, esse é o meu ponto...

Zomlot: Nenhum deles... estava armado... Opuseram-se a tanques, helicópteros e F-16s israelenses. Você não pode sequer começar a comparar a violência... Isto não é uma questão de segurança... [os israelenses] sempre falham em tratar com um assuntos puramente político, humanitário e legal...

Humphrys: Desculpe interrompê-lo, mas... se eu marcho dentro da sua casa agitando um cassetete e lançando-lhe um pedra então isso seria uma questão de segurança, não seria?

Zomlot: Desculpe-me. Segundo resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas, aquelas pessoas estavam marchando para as suas casas; elas têm os direitos sobre os seus lares; é sua propriedade privada. Vamos então por as coisas em pratos limpos de uma vez por todas...

Foi um momento raro. Por as coisas em pratos limpos não é um “objetivo” administrativo.

23/Junho/2011

[1] Jeff Schmidt foi editor da revista Physics Today durante 19 anos, até que foi despedido por ter escrito Disciplined Minds . Para encomendá-lo clique em Rowman & Littlefield Publishers Inc.

[2] Desde a publicação deste livro as coisas agravaram-se. Agora os meios de comunicação/informação que se proclamam como “referência” proíbem os profissionais que neles trabalham de exprimirem opiniões independentes fora dos mesmos (blogs, sítios web ou quaisquer outros meios de informação). Tais proibições estão mesmo fixadas nas suas respectivas normas internas. Anula-se assim a separação entre o trabalho feito para um patrão e a vida pessoal do assalariado. Este, na sua vida privada, está politicamente castrado: fica impedido de manifestar-se em público a fim de conservar o emprego.

O artigo original, em inglês, encontra-se em: Brainwashing the polite and professional way
Esta tradução foi extraída de: Resistir

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Déficits de Destruição Maciça

Quase todo o déficit é o resultado de três coisas: a guerras do Afeganistão e do Iraque; os cortes nos impostos na era Bush e a recessão. A solução é: terminar as guerras, permitir que os cortes fiscais expirem, e restaurar um crescimento robusto.
Por Christopher Hayes, The Nation

60% dos americanos apoiam “gastos públicos adicionais para criar emprego e estimular a economia”, e 38% opõem-se.
60% dos americanos apoiam “gastos públicos adicionais para criar emprego e estimular a economia”, e 38% opõem-se.

Se prestou atenção a esta última década, não ficará surpreendido por saber que as elites políticas nacionais estão a caminho de uma discussão destrutiva, arcaica e desarticulada sobre o futuro da nação. Mas mesmo para o baixos padrões do sistema de Washington, o crescente pânico da dívida governamental é chocante.

Primeiro, os fatos. Quase todo o déficit deste ano e aquele projetado a curto e médio prazos são o resultado de três coisas: a guerras do Afeganistão e do Iraque; os cortes nos impostos na era Bush e a recessão. A solução para a nossa situação fiscal é: terminar as guerras, permitir que os cortes fiscais expirem, e restaurar um crescimento robusto. O nosso déficit estrutural a longo prazo requer um controle da inflação no sistema de saúde, como o que sistema de pagamento único faz.

Contudo, agora enfrentamos uma crise de desemprego que ameaça lançar-nos num longo e feio período de baixo crescimento, uma espécie de década perdida que causará uma miséria tremenda degradando o capital humano do país, minando uma geração de jovens trabalhadores e esburacando a conta do governo no banco. A melhor hipótese que temos de nos livrar deste cenário é mais investimento público para tornar a economia saudável. Esta pode estar viva, mas não significa que esteja em boas condições. Existe uma razão para continuarmos a tomar antibióticos mesmo quando já nos sentimos melhor.

No entanto, os tambores dos histéricos do déficit, abafados pelo seu pânico moralista, crescem a cada dia. A julgar pelo horário e pelos vídeos online, o Festival Aspen Ideas deste ano foi uma orgia ao ar livre de queixas anti déficit. O festival deu uma boa perspectiva das preocupações das elites e o fato de seu fórum de abertura contar com a presença de Niall Ferguson, Mort Zuckerman e David Gergen não é bom sinal. Também não augura nada de bom o painel designar-se “Emergência Fiscal Eminente dos EUA: como equilibrar as contas.” Esta atitude não se resume nos críticos. Os dirigentes da comissão fiscal da administração Obama designaram o déficit projetado de “cancer”.

A histeria chegou a tal ponto que os senadores republicanos (juntamente com o senador Democrata, Ben Nelson) impediram uma extensão do subsídio de desemprego porque não seria compensada por cortes na despesa. Reparem que o custo da extensão para pessoas suficientemente azaradas para serem apanhadas na pior recessão desde há 30 anos era de 35 bilhões de dólares. A lei aumentaria a dívida em 0,3%.

Isto parece tudo sinistramente familiar. A conversa – se é que se pode chamar isso – sobre déficits faz lembrar a conversa sobre a preparação da invasão do Iraque. De um dia para o outro, o que era antes aceitável para o sistema – Saddam Hussein – tornou-se inaceitável, uma crise tão urgente como esta que “pessoas sérias” foram convocadas para darem as suas ideias sobre como lidar com a situação. Uma vez que o ônus da prova mudou daqueles que favoreciam a guerra para aqueles que se opunham a ela, o debate perdeu-se.

Estamos na mesma posição no que respeita à dívida. Entre uma taxa oficial de 9,5% de desemprego e uma contração global, não deveríamos falar de déficits a curto prazo. Contudo, nestes dias, entrar para o clube dos “sérios” significa não um plano para reduzir o desemprego, mas um plano para lidar com o ataque invísivel, imaterializado e internacional ao dólar por parte dos especuladores.

Talvez o aspecto mais notável da defesa da Guerra do Iraque foi o seu falso pretexto. Nunca foi acerca da armas de destruição maciça (ADM) como admitiu Paul Wolfowitz. As ADM foram “aquilo com que toda a gente concordava.” O mesmo acontece com o déficits. Os conservadores e os neoliberais não se importam realmente com os déficits; importam-se com a austeridade, com extirpar o Estado Previdência e redistribuir a riqueza para os de cima. É esse o objectivo. Déficits são apenas um denominador comum, as ADM desta crise artificial. O senador John Kyl do Arizona, numa entrevista à Fox, admitiu exatamente isto. Todos os novos aumentos nos gastos têm de ser contrabalançados, disse ele, mas “nunca se deve ter de contrabalançar o custo da decisão de cortar os impostos para os Americanos.” Aqui está.

Lembrem-se que a Guerra do Iraque poderia ter sido evitada se mais congressistas democratas se tivessem oposto a ela. Em vez disso, muitos dos que sabiam que toda a empresa era um desastre colossal, cederam perante à pressão da direita e dos falcões. Esse erro está sendo repetido. Apesar do reconhecimento por parte dos economistas da Casa Branca da necessidade de estímulos perante o alto desemprego, o New York Times noticiou que os estrategistas políticos, David Axelrod e Rahm Emanuel, decidiram que o público não tem inclinação para o aumento da despesa. “O meu trabalho é relatar qual é a opinião pública,” explicou Axelrod. Posteriormente, surgiu no programa da ABC, This Week, com uma bandeira branca dizendo que o presidente continuaria a pressionar para uma extensão do subsídio de desemprego. Todavia, omitiu a ajuda aos governos estatais que estavam originalmente incluídos na carta presidencial de Junho ao Congresso pedindo um novo pacote de estímulos.

No entanto, ainda há esperança: o público não está tão obcecado com o déficit como os de Washington. De acordo com a sondagem USA Today/Gallup, 60% dos americanos apoiam “gastos públicos adicionais para criar emprego e estimular a economia”, e 38% opõem-se. A sondagem Hart Research Associates publicada em Junho mostrou que dois terços dos cidadãos estão a favor da continuidade das prestações aos desempregados. Há pouco apetite pela “reforma das pensões”, mais conhecida como “cortes na Segurança Social”.

A lição da Guerra do Iraque é que a longo prazo, boa política e boas políticas não podem ser separadas. Se a Casa Branca está tentada a apoiar más políticas no curto prazo porque lhe parece ser menos arriscado politicamente, deveria telefonar a Kerry e perguntar-lhe como é que foi para ele na época da invasão Iraque.

Julho de 2010
Tradução de Sofia Gomes
Artigo original
Esquerda.net