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sábado, 1 de março de 2014

Aos poucos, a resposta do Kremlin vai-se tornando mais visível

27/2/2014, The Saker, The Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

The Saker

Русские долго запрягают, но быстро едут
Ditado russo:  Os russos demoram para selar o cavalo. Mas depois que montam, andam depressa.

Mapa linguístico da Ucrânia
Ao longo dos últimos dias, os eventos na Ucrânia entraram em fantástica aceleração e houve vários eventos simultâneos. Vou tentar apontá-los um a um.

  • Em Kiev, os líderes da insurgência assumiram controle total do Parlamento e imediatamente aprovaram leis que revogam o status de língua oficial para o idioma russo.
  • Os líderes políticos foram à Praça Maidan para obter a aprovação dos membros propostos para o novo governo.
  • Exatamente como a sra. Nuland ordenou, Iatseniuk ficou com o cargo de primeiro-ministro.
  • Na própria Praça Maidan, aparecem profundas diferenças entre partes, que agora se opõem entre elas, da multidão.
  • O neonazista líder das “forças de segurança Maidan” e um dos fundadores do Partido Liberdade, Andrei Parubii, tornou-se chefe do Conselho de Segurança.
  • O líder do Setor Direita (Pravy Sektor) neonazista, Dmitri Iarosh, é agora Delegado-chefe do Conselho de Segurança.
  • O resto do novo governo é, a maioria, de apoiadores do ex-presidente Yushchenko, em outras palavras: leais agentes dos EUA.
  • O novo regime dissolveu a polícia antitumultos e, assim, liquidou a última força que restava ainda capaz de manter a lei e a ordem nas regiões controladas pelos insurgentes. Agora reina a lei das gangues, nua e crua.
  • A moeda está em queda livre. Iatseniuk diz que são necessários $35 bilhões imediatamente, para evitar um calote. A dívida total é de $170 bilhões.
  • Nas áreas controladas pelo novo regime, estão acontecendo “expropriações” (roubos e assaltos) por toda a parte; a rua é governada pelos bandidos.
  • Yanukovich foi retirado da Ucrânia por forças da segurança russas (mais sobre isso, adiante).
  • O Parlamento do Tartaristão e o Congresso Mundial dos Tártaros apelou aos tártaros da Crimeia, basicamente para parar a merda toda (disseram em termos mais polidos). Honra e glória, à sabedoria dessas duas organizações!
  • Homens armados, não identificados, tomaram o prédio do Parlamento da Crimeia às 4h da madrugada, só para assegurar que, dessa vez, os membros eleitos daquele Parlamento pudessem entrar e reunir-se. Uma bandeira russa foi hasteada no topo do prédio do Parlamento.
  • O governador de Carcóvia, Mikhail Dobkin, renunciou ao cargo, para concorrer à presidência da Ucrânia, nas eleições de 25 de maio.
  • O Parlamento da Crimeia assumiu as funções do governo central e anunciou um referendo sobre o futuro da Crimeia, marcado para 25 de maio.
  • O recém-eleito prefeito de Sebastopol reuniu-se com o Comandante-em-chefe da Frota do Mar Negro. Os dois declararam que não será tolerada nenhuma violência, seja de que tipo for.
  • Novas milícias populares de defesa formaram-se na Crimeia, com número estimado entre 5 mil e 15 mil membros, organizados em brigadas. Estão controlando todas as principais estradas e no momento estão filtrando o tráfego de quaisquer “visitantes” provenientes das áreas controladas pela insurgência.
  • ·Membros importantes do Parlamento russo visitaram a Crimeia para manifestar apoio à população local e reunir-se com parlamentares da Crimeia.
  • Na Rússia, as opiniões estão divididas sobre o que fazer: Vladimir Zhirinovksy e seu partido LDPR dizem que a Rússia deve ficar de fora e não dar um único rublo aos ucranianos. Os comunistas querem que a Rússia leve a questão ao Conselho de Segurança da ONU. O Partido “Só Rússia” (mais “moderado”) está manifestando pleno apoio ao povo da Crimeia e diz que a Rússia tem de intervir e ajudá-lo. Feitas as contas, a tomada do governo por neonazistas em Kiev parece estar despertando uma mistura de desgosto e fúria, que pressionará o Kremlin para que faça alguma coisa.
Assim sendo... E o Kremlin? De fato, acho que começo a discernir o que me parece ser uma estratégia de resposta em várias camadas, que o Kremlin porá em andamento, todas as camadas simultaneamente:

1) No plano da legislação vigente:

Yanuk
Ao retirar Yanuk do país e permitir que se refugiasse na Rússia, o Kremlin deixou claro que o presidente legitimamente eleito da Ucrânia estará fisicamente disponível para desafiar qualquer e todas as decisões do novo governo, do Parlamento controlado pelos insurgentes e do governo nacionalista fascista. É evidente que Yanuk está politicamente morto, mas, em termos da legislação vigente, continua a ser extremamente poderoso e ator importante que tem de ser mantido vivo.

2) No plano ucraniano:

O (agora ex-) governador da Carcóvia, Mikhail Dobkin, fez “discreta” viagem à Rússia e voltou com a decisão de renunciar ao cargo de governador, para concorrer à presidência. 

Mikhail Dobkin
À primeira vista, a ideia de participar de eleições controladas pelos fascistas pode parecer estúpida, mas repense: em primeiro lugar, no caso totalmente improvável de uma eleição que seja pelo menos 50% decente, ele quase com certeza será eleito (a maioria dos ucranianos não apoia os fascistas). 

Segundo, se a eleição for “manejada”, Dobkin, candidato, poderá questioná-la. 

Terceiro, pelo simples fato de concorrer, ele pode forçar a imprensa controlada pelos fascistas (sobretudo a TV) a dar-lhe tempo de televisão no ar para responder à propaganda nacionalista fascista. Assim, tudo considerado, é movimento astuto.

3) Na Crimeia – nível político:

Mapa geofísico da Crimeia
Para a Crimeia, eu diria que é assunto resolvido: em maio, se tornará estado independente. Esse estado terá alternativas abertas para ele. Se, por algum milagre inesperado e basicamente impossível, Dobkin for eleito presidente, a Crimeia pode aceitar um statu quo ante [lat. “estado em que as coisas estavam antes”], mas com o claro entendimento de que aquele será arranjo federativo do qual a Crimeia poderá separar-se a qualquer momento. Se algum dos doidos nacionalistas for “eleito”, nesse caso a Crimeia romperá todos seus laços com a Ucrânia e se unirá à União Econômica com Rússia, Bielorrússia, Cazaquistão e Armênia, como estado independente.

4) Na Crimeia – nível de segurança:

A Rússia usará a força para defender a Crimeia se for necessário. A solução preferível é ajudar as autoridades locais a defenderem-se, elas mesmas, fornecendo fundos, armas (se necessárias), expertise (se necessária), inteligência (se necessária), etc.. Mas em praticamente todos os casos, nada disso será necessário, simplesmente porque tudo isso pode ser fornecido pela Frota do Mar Negro, com base ali mesmo. No máximo, os ucranianos nacionalistas podem mandar para lá as gangues de bandidos que já usaram em Kiev.

102º Destacamento independente Spetsnaz da Marinha da Rússia
Por outro lado, a Frota do Mar Negro pode mobilizar a 810ª Brigada Independente de Infantaria Naval, o 382º Batalhão Independente de Infantaria Naval e, até, o 102º Destacamento independente Spetsnaz da Marinha [emblema, na imagem], o que significa algo entre 1.300-1.400 soldados de elite, todos eles oficiais super treinados, com longa experiência de combates, apoiados por artilharia, força aérea, blindados, etc.. De fato, minha expectativa é que as autoridades locais e as forças policiais (inclusive os Berkut da polícia antitumulto local e as milícias populares de defesa) serão suficientes para conter qualquer “visitante” da insurgência que apareça por lá, sem precisar de qualquer ajuda da Frota do Mar Negro. Em resumo: a insurgência ucraniana jamais controlará a Crimeia.

5) Leste da Ucrânia:

É onde as coisas ficam muito mais nebulosas. Meu palpite é que o Kremlin está adotando uma atitude de “esperar para ver” em relação ao leste da Ucrânia, esperando pelo que aconteça num nível local. O princípio básico por trás da política do Kremlin é “só ajudamos os que se ajudem eles mesmos e façam por merecer nossa ajuda”. A Crimeia é exemplo perfeito dessa abordagem. Fato é que os nacionalistas têm forte presença em Carcóvia, Dniepropetrovsk ou Poltava. Assim sendo, o desenlace aí é muito mais difícil e delicado de antever.

6) Restante da Ucrânia:

Aqui, entendo que a política correta é autoevidente: primeiro, deixar que os doidos lutem entre eles até aplacarem o coração. Eles que comandem a já arruinada economia real; eles que descubram até onde conseguem sobreviver movidos só a hinos nacionalistas e gritos de “Бий жидів та москалів - Україна для українців” (Fora, judeus e russos, Ucrânia para os ucranianos). A União Europeia e os EUA que compareçam com os $35 bilhões para pagar por mais essa “revolução colorida” e evitar um calote; e, depois, eles que deem jeito de administrar esse novo regime “popular pró-ocidente”.

Então, quando o dinheiro deles acabar, é esperar que recorram ao Kremlin e peçam ajuda. Aí, basicamente, se tratará de “comprar a parte deles para tirá-los do negócio”, item a item, fábrica a fábrica, político a político, oligarca a oligarca, região por região.

Brigada neonazista do Pravy Sektor na Praça Maidan em 13/2/2014
A Rússia NADA deve a esses nazistas odiadores de russos. E nada lhes dará gratuitamente. Os nacionalistas ucranianos tentarão retaliar, sobretudo com ataques aos gasodutos russos que atravessam a Ucrânia, mas essa é estratégia inviável: ferirá, em primeiro lugar e mais fundo, a Europa; e, afinal, a Rússia construirá dois gasodutos que não passam pela Ucrânia. Eventualmente, a Ucrânia acabaria por romper com o ocidente.

Quanto à China, já está processando judicialmente o novo regime por quebra de contratos comerciais (ou, pelo menos, já há notícias disso, em algum dos noticiários que ouvi). A China seguirá a Rússia, neste caso.

7) Violência previsível no leste da Ucrânia:

A menos que ocorra um milagre, haverá muita violência nas províncias do leste da Ucrânia. No ponto em que estão as coisas hoje, não vejo qualquer intervenção militar russa para proteger a população falante de russo, que terá de defender-se, ela mesma. A Rússia garantirá:  

(a) apoio político,
(b) financeiro e, possivelmente, quantidade limitada de
(c) apoio secreto.

Por hora, pelo menos, é isso. É possível que eu tenha de corrigir/refinar essa análise.

Bandeira do Partido Svoboda
neonazista
Quanto a EUA/OTAN, não acredito que intervirão militarmente. Haverá MUITA propaganda anti-Rússia, muita propaganda pró-nacionalistas fascistas, milhões de dólares norte-americanos continuarão a encher as burras dos líderes do golpe, mas, mais cedo ou mais tarde, os EUA e seus fantoches europeus terão de se conformar ante a evidência de que fracassaram: não expulsaram da Crimeia a Frota do Mar Negro; e a Crimeia se encaminhará na direção da Rússia: será o tiro pela culatra, da “revolução colorida” que EUA e União Europeia inventaram em Kiev.

Mas em nenhum caso EUA/EU reconhecerão qualquer tipo de autoridade pró-Rússia em nenhuma parte da Ucrânia. Por isso é possível que o país rache, como a Geórgia ou as duas Coreias. OK. Absolutamente não tirará o sono, nem da Crimeia, nem da Rússia – EUA/EU que tenham sua própria versão do Kosovo, só para variar :-)

O que lhes parece? O que escrevi faz sentido?

Muito obrigado e saudações.

The Saker

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Pepe Escobar: “Carnaval na Criméia”

28/2/2014, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Mapa político da Ucrânia e principais cidades e fronteiras - ao sul a península da Crimeia
O tempo não espera por ninguém, mas, parece, esperará pela Crimeia. O presidente do Parlamento da Crimeia, Vladimir Konstantinov, confirmou que haverá um referendo, que decidirá sobre maior autonomia em relação à Ucrânia, dia 25 de maio.

Até lá, a Crimeia permanecerá tão quente e fumegante quanto o carnaval no Rio – porque na Crimeia tudo tem a ver, sempre, com Sebastopol, o porto de atracação da Frota Russa do Mar Negro.

Se a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) é um touro, esse é o pano vermelho mãe de todos os panos vermelhos. Ainda que você esteja tentando afogar todas as suas mágoas no nirvana movido a álcool e pulando para suar todos os seus problemas no carnaval no Rio – ou em Nova Orleans, ou Veneza, ou Trinidad e Tobago – mesmo assim seu cérebro registrou que o sonho mais molhado dos sonhos molhados da OTAN é instalar um governo fantoche do ocidente na Ucrânia, para despachar de lá, de sua base em Sebastopol, a marinha russa. O arrendamento negociado do porto é vigente até 2042. Já há rumores e ameaças de que o arrendamento será cancelado.

Mapa da Crimeia com suas cidades principais e a vizinhança da Rússia
A península da Crimeia é habitada por maioria absoluta de falantes de russo. Pouquíssimos ucranianos vivem ali. Em 1954, o ucraniano Nikita Krushchev – aquele, o que bateu o sapato na mesa, na Assembleia Geral da ONU [1] – precisou só de 15 minutos para dar a Crimeia de presente à Ucrânia (então, parte da União Soviética). Na Rússia, a Crimeia é vista como russa. Nada mudará esse fato.

Ainda não estamos diante de uma nova Guerra da Crimeia – ainda não. Só um pouco. O sonho molhado da OTAN é uma coisa; outra coisa, muito diferente, é fazê-lo acontecer: tipo pôr fim para sempre à rotina de a frota russa deixar Sebastopol pelo Mar Negro, pelo Bósforo, e assim chegar a Tartus, o porto mediterrâneo da Síria. Assim sendo, sim, sim, trata-se tanto de Crimeia, quanto de Síria.

Mapa Étnico linguístico-cultural da Ucrânia atual
A nova revolução ucraniana cor de laranja, de tangerina, de Campari, de Aperol Spritz ou de Tequila Sunrise parece, até aqui, ser resposta às preces da OTAN. Mas ainda há estrada longa e sinuosa a percorrer, antes de a OTAN conseguir reencenar os anos 1850s e produzir o remix da Guerra da Crimeia original.

Chuck Hagel
No futuro à vista e previsível, seremos afogados num mar branco de platitudes. Como o El Supremo do Pentágono, Chuck Hagel, “avisando” a Rússia que fique longe do torvelinho, enquanto ministros da Defesa da OTAN lançam toda a pilha indispensável de declarações, em nenhuma das quais se lê “garantindo integral apoio” à nova liderança, e paus mandados da imprensa-empresa universal repetem sem parar que não se trata de Nova Guerra Fria, para tranquilizar a população. [2]

Dancem conforme a minha estratégia, otários

Onde está HL Mencken, quando se precisa dele? Ninguém jamais perdeu dinheiro subestimando a capacidade de mentir do sistema Pentágono/OTAN/CIA/Departamento de Estado dos EUA. Especialmente agora, quando a política para a Ucrânia do governo Obama parece ter sido subalugada à turma da neoconservadora Victoria "Foda-se a União Europeia” Nuland, casada com Robert Kagan, neoconservador queridinho de Dábliu Bush.

Como Immanuel Wallerstein já observou, Nuland, Kagan e a gangue neoconservadora estão tão aterrorizados ante a possibilidade de a Rússia “dominar” quanto ante o surgimento de uma aliança geoestratégica que pode emergir lentamente, e bastante possível, entre a Alemanha (com a França como parceiro júnior) e a Rússia. Significaria o coração da União Europeia constituindo um contrapoder, de oposição ao abalado e oscilante poder norte-americano.

E, como atual encarnação do abalado poder norte-americano, o governo Obama é, sim, um fenômeno. Agora, estão perdidos no pântano que eles próprios inventaram, do tal “pivô”. Que pivô vem primeiro? Aquele na direção da China? Mas, nesse caso, temos de pivotear-nos, antes, para o Irã – para pôr fim à ação dispersiva, lá, no Oriente Médio. Ou quem sabe...? Talvez não.

John Kerry
Ouçam essa, a melhor, do secretário de Estado John Kerry, sobre o Irã:

Tomamos a iniciativa e lideramos o esforço para tentar ver se antes de irmos à guerra realmente poderia haver uma solução pacífica.

Quer dizer então que já não se trata de acordo nuclear a ser alcançado, talvez, em 2014. Nada disso. Agora se trata de “antes de irmos à guerra”. Trata-se de bombardear um possível acordo, para que o Império possa bombardear mais um país – outra vez. Ou, talvez, não passa de sonho molhado fornecido pelos patrões dos fantoches Likudniks.

O grande Michael Hudson especulou que um “xadrez multidimensional” poderia estar “guiando os movimentos dos EUA na Ucrânia”. Nada disso. Está mais para “se não podemos nos pivotear para a China – ainda – e se a pivotagem para o Irã vai falhar (porque desejamos que falhe), podemos nos pivotear para algum outro lugar...” Oh yes, tem aquele maldito país que nos impediu de bombardear a Síria; chamado “Rússia”. E tudo isso sobre o comando ilustrado de Victoria “Foda-se a União Europeia” Nuland. Onde está um neo-Aristófanes, para escrever a história dessas comédias?

Christiane Amanpour
E ninguém jamais esqueça a imprensa-empresa. A CNN já começou a “Amanpourear” [ref. a Christiane Amanpour; equivale aos verbos “Jaborizar (derivado de Jabor)” ou “Waackear (der. de Waack)”, em português do Brasil (NTs)] sobre o Acordo de Budapeste – e só fazem repetir que a Rússia tem de ficar fora da Ucrânia. Visivelmente, uma horda de produtores, todos com “índices” de audiência desabados, sequer se deram o trabalho de ler o Acordo de Budapeste, o qual, como o professor Francis Boyle da Universidade de Illinois lembrou “determina, isso sim, que EUA, Rússia, Ucrânia e Grã-Bretanha têm de reunir-se imediatamente, para “consulta” conjunta – e que a reunião tem de ser feita no nível de ministros de Relações Exteriores, pelo menos”.

Assim sendo, então... Quem paga as contas?

O novo primeiro-ministro da Ucrânia, Arseniy Yatsenyuk, é – e o que mais seria?! – um “tecnocrata reformador”, expressão em código para “fantoche do ocidente”. [3] Ucrânia está convertida em caso perdido (rebentado). A moeda caiu 20% desde o início de 2014. Milhões de desempregados europeus sabem que a União Europeia não tem dinheiro para resgatar o país (talvez os ucranianos devam pedir algumas dicas ao ex-primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi).

Em termos do Oleogasodutostão, a Ucrânia é apêndice da Rússia; o gás que transita pela Ucrânia para mercados europeus é gás russo. E a indústria ucraniana depende do mercado russo.

Examinemos mais de perto os bolsos dos novos “revolucionários” cor de Aperol Spritz. Todos os meses, a conta de gás natural importado da Rússia fica em torno de US$ 1 bilhão. Em janeiro, o país teve de despender também US$ 1,1 bilhão para pagar dívidas. As reservas em moeda estrangeira caíram, de US$ 20,4 bilhões, para US$ 17,8 bilhões. A Ucrânia tem de pagar, como pagamento mínimo da dívida, nada menos de $17 bilhões  em 2014. E tiveram até de cancelar um lançamento de $2 bilhões de eurobonds, semana passada.

O gato de Cheshire
Francamente: o presidente Vladimir Putin – codinome “Vlad, A Marreta” – deve estar rindo feito o gato de Cheshire [4]. Pode simplesmente cancelar o significativo desconto de 33% no preço do gás natural importado, que deu a Kiev, no final do ano passado. Rumores insistentes já dizem – desesperançados – que os revolucionários da revolução cor de Aperol Spritz não terão dinheiro para pagar aposentadorias e salários dos funcionários públicos. Em junho, vence uma dívida monstro, em mãos de vários credores (no total, cerca de US$ 1 bilhão). Depois disso, a coisa é mais sinistra, desolada e escura que o norte da Sibéria no inverno.

A oferta dos EUA, de $1 bilhão, é piada. E tudo isso, depois que a estratégia de “Foda-se a União Europeia” de Victoria Nuland torpedeou um governo ucraniano de transição – transição, por falar dela, negociada pela União Europeia – que teria mantido os russos a bordo, e o dinheiro deles.

Sem a Rússia, a Ucrânia dependerá totalmente do ocidente para pagar as próprias contas, para nem falar de tentar evitar o calote de todas as dívidas. O total alcança vertiginosos $30 bilhões, até o final de 2014. Diferente do Egito, a Ucrânia não pode telefonar para a Casa de Saud e pedir cataratas de petrodólares. Aquele empréstimo de US$ 15 bilhões que a Rússia ofereceu recentemente chegaria em boa hora – mas Moscou tem de receber algo em troca.

Vladimir Putin por Maurício Porto
A ideia de que Putin ordenará ataque militar contra a Ucrânia explica-se pelo quociente subzoológico de inteligência da imprensa-empresa nos EUA. “Vlad, A Marreta” só precisa assistir ao circo – o ocidente batendo cabeça para ver se arranja aqueles bilhões a serem desperdiçados num caso perdido (rebentado). Ou ao Fundo Monetário Internacional e aquela conversa sinistra de mais um monstruoso “ajuste estrutural” para mandar a população da Ucrânia de volta ao Paleolítico, de vez.

A Crimeia pode até encenar seu próprio carnaval adiado, votando não só para ter mais autonomia, mas, também, para livrar-se do tal caso perdido (rebentado). Nesse caso, Putin receberá a Crimeia de presente, grátis – à moda Krushchev. Não é mau negócio. E tudo graças àquela oh! tão estratééégica pivoteação contra a Rússia, com “Foda-se a União Europeia”.
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Notas de rodapé

Khrushchev e o sapato 
[1] A foto da primeira página do New York Times do dia 12/10/1960 mostrava Khrushchev com um sapato na mão e a manchete “Rússia novamente ameaça o mundo. Dessa vez, com o sapato do líder”. Mas, pouco depois, pessoas presentes à Assembleia Geral da ONU que se realizara na véspera corrigiram a notícia e a manchete: Khrushchev não batera com o sapato no púlpito principal, mas na própria mesa; e não para ameaçar alguém, apenas para chamar a atenção.


Quando Nikita Sergeevich entrou no salão, estava cercado de jornalistas; um deles pisou no seu calcanhar e arrancou-lhe o sapato. Khrushchev, bastante gordo, não quis expor-se ao ridículo de procurar o próprio sapato e calçá-lo ali, em pé, à vista das câmeras. Andou então diretamente para sua mesa e sentou-se; o sapato, embrulhado num guardanapo, foi trazido por alguém e posto sobre a mesa. Naquele momento, um delegado filipino disse que a União Soviética havia ‘engolido’ a Europa Oriental, “privando-a de seus direitos civis e políticos”. A frase causou tumulto e protestos na sala. Um delegado romeno saltou em pé e pôs-se a gritar contra o diplomata filipino. Nesse ponto, Khrushchev quis intervir na discussão, mas o delegado irlandês, que presidia a discussão, não o viu. Khrushchev acenou com uma mão, depois com a outra. Sem resultado, ele pegou o sapato que ainda estava sobre a mesa e o agitou no ar. Ainda sem resultado, ele bateu o sapato, com força, na mesa. O irlandês afinal olhou na direção dele e o viu

[2] 26/2/2014, Daily Telegraph em: US and Britain say Ucrânia is not a battleground between East and West.

[3] 27/2/2014, Voice of America, em: Biden: U.S. Supports Ucrânia's New Government

[4] Cheshire Cat com a banda Blinck 182 com letra mostrada no vídeo (em inglês) a seguir:

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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política do blog Tom Dispatch e correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Rússia atropela os EUA no pôquer regional

19/12/2013, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Viktor Yanukovich (E) e Vladimir Putin (D) riem dos esforços do "Ocidente"... na Ucrânia
É possível que a Rússia tenha acabado de obter seu ganho mais significativo de toda a era pós Guerra-Fria, quando o Kremlin movimentou-se com firmeza na 3a-feira e ofereceu grande pacote de resgate à depauperada economia da Ucrânia; e pode ter dado grande salto adiante na direção de engajar aquele país na União Eurasiana, que Moscou planeja como grande organização guarda-chuva que reunirá as repúblicas ex-soviéticas.

É, sem dúvida, um dos melhores momentos de Putin do Kremlin. O caso é simples: se a Ucrânia caminhar na direção da órbita ocidental, a Rússia tem de recair na posição de defesa, em termos estratégicos; sem a Ucrânia, a União Eurasiana permanece praticamente inexistente ou gravemente inadequada; com a Ucrânia, a União Eurasiana restaura, nada mais nada menos que a União Soviética, em termos político-econômicos.

Não surpreendentemente, o Ocidente está em surto, e o humor dos velhos guerreiros da Guerra Fria não poderia ser pior ou mais feio. A Rússia está derrotando o ocidente no próprio jogo ocidental de diplomacia do talão de cheque. E nenhum tanque russo será visto nas ruas de Kiev, como em Budapeste em 1956.

Os ministros de relações exteriores da União Europeia já desceram, sem cerimônias, do alto pedestal do qual incansavelmente tentaram doutrinar a Ucrânia, pregando os valores dos direitos humanos e as vantagens da democracia liberal, e já esbravejam que estão prontos a assinar uma associação em reunião especial essa semana mesmo, se o presidente Yanukovich assim quiser. Mas já é pouco e tarde demais.

Washington também, gagueja, sem saber o que dizer. Agora, só restam ao “ocidente” os manifestantes vindos de áreas do leste da Ucrânia, reunidos na praça central de Kiev. Bastarão, para a CIA fazer deles uma revolução colorida? É o único raio de esperança que resta ao “ocidente”.

Dívida externa da Ucrânia consolidada até julho/2013
A dificuldade está em que nem os EUA nem a União Europeia tem dinheiro algum (ou a vontade política de fazer aparecer o dinheiro) para ajudar a aliviar a impressionante dívida externa da Ucrânia. A Rússia, por sua vez, está oferecendo suporte econômico de $15 bilhões; a redução de 1/3 no preço do gás natural vendido à Ucrânia; e está ajustando proporcionalmente os $2 bilhões que Kiev deve à Gazprom, de vendas passadas.

Além disso, foram assinados acordos comerciais pelos quais Moscou faz várias concessões para aumentar as exportações ucranianas para o mercado russo. Está marcada para o final do mês uma reunião de cúpula do Conselho da União Eurasiana; vale a pena verificar se os desenvolvimentos de ontem efetivamente se convertem em processo de integração do espaço pós-soviético, sob a liderança de Moscou.

E há, claro, um “ângulo chinês” nisso tudo. Yanukovich fez visita de quatro dias a Pequim e há sinais de que a China também se ofereceu para ajudar a Ucrânia. O relato chinês da reunião entre Yanukovich e o presidente Xi Jinping tinha cheiro de relações estratégicas em construção, o que terá consequências importantes para a política eurasiana. Interessante: na viagem de volta de Pequim, Yanukovich encontrou-se rapidamente com Putin em Sochi, presumivelmente para informá-lo das suas conversas com Xi e deixar claro que mantém o acertado com Moscou.

Ainda é cedo demais para dizer se o padrão de coordenação Rússia-China nas questões do Oriente Médio pode repetir-se noutros pontos. Sabe-se que os laços que a Rússia está desenvolvendo com o Vietnã auxiliam indiretamente a China, ao manter os EUA à distância; e, por outro lado, os laços entre China e Ucrânia ajudariam a criar espaço para que a China não tenha de depender tanto do ocidente, o que, de certo modo, também interessa a Moscou.

Os presidentes da Ucrânia e China, Viktor Yanukovick (E) e Xi Jinping (D), em 5/12/2013
De fato, a Índia tem muito o que aprender da abordagem russa para a integração da região eurasiana. Como “Big Brother”, a Rússia fez o possível e mais um pouco para cortejar o “Pequeno Irmão” ucraniano. A economia russa também tem seus próprios desafios, mas Moscou encontrou meios para fazer sacrifícios e montar um pacote de resgate para a economia ucraniana, mostrou disposição para ceder fatia substancial da própria renda da exportação de energia para a Ucrânia e, ainda, oferecer acesso preferencial às exportações ucranianas, apesar da concorrência que podem vir a criar para a indústria e agricultura russas. Tudo isso, porque Moscou decidiu que é vital para os interesses russos de longo prazo que a Ucrânia permaneça país amigo, mesmo que haja um preço a pagar em dinheiro. É desafio semelhante ao que a Índia enfrenta no Nepal ou Sri Lanka ou Maldivas.

Um segundo ponto é que se se estuda mais atentamente a diplomacia russa para a Ucrânia, não é, tampouco, jogo de soma zero, em que um lado ganha tudo e o outro só perde. A Ucrânia permanece livre, mesmo hoje, para exercer seus direitos soberanos de desenvolver laços com a União Europeia. Além disso, Moscou reconhece que porções consideráveis do povo ucraniano está fascinado pela Europa ocidental, e essa é questão legítima de padrões de vida, e por que outros (inclusive russos) não quereriam boa vida? A Rússia concede que a Europa não pode ser partida e que a União Europeia tem interesses legítimos na Ucrânia.

No que tenha a ver com geopolítica, não há analogias completas, mas é inevitável que se comece, na Índia, a pensar sobre a Índia e seus vizinhos menores, ante o crescimento da China. Moscou também tem seus medos maniqueístas de um “colar de pérolas” [de bases militares]. Mesmo assim, conseguiu pensar racionalmente e está claramente orientada para o que realmente faz diferença: a expansão da OTAN para a Ucrânia, o que poria os exércitos da Aliança Atlântica bem ali, na soleira da porta da Rússia. Não se cogita tampouco de permitir que os EUA instalem seu sistema de defesa de mísseis em território ucraniano. Por outro lado, rodear as questões sem nada fazer tampouco ajuda, uma vez que laços amistosos com a Ucrânia também ajudam a Rússia a manter presença efetiva na região do Mar Negro, dos Bálcãs e na Europa Central como um todo, e, claro, no Transcáucaso.  




[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Times Online, Strategic Culture, Global Research e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.