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quarta-feira, 8 de abril de 2015

Porque o Ocidente está Perdendo a Guerra da Informação


Ucrânia: um museu criacionista?


27/3/2015, [*] Ivaylo Grouev, Counterpunch
Traduzido por Emex, que nos ajuda do Canadá
Enviado pelo pessoal da Vila Vudu



Uma meia-verdade é a mais covarde das mentiras
Mark Twain



Museu Criacionista - Petersburg, Kentuky
Quando acompanho a cobertura da crise ucraniana em alguns dos mais respeitáveis e principais órgãos da empresa-mídia ocidental, tenho o estranho sentimento de estar passeando num museu de história natural. Não em qualquer um, mas num museu de história natural bastante incomum – um museu criacionista. Para quem talvez não saiba, aqui vai uma notinha de causar escândalo, espalhafatosa: há mais de 30 museus criacionistas nos Estados Unidos e dois na província canadense de Alberta – berço do Partido da Reforma, hoje Partido Conservador Progressista (dois nomes bastante enganosos), no poder desde 2006.

Um dos mais novos museus criacionistas dos Estados Unidos está em Petersburg, Kentucky, uma instalação com tecnologia de ponta, de 6.500 m². Uma verdadeira maravilha da robótica, comparável ao melhor que Hollywood possa oferecer: pterodátilos animatrônicos em tamanho natural, sons realistas dos rugidos do “rei dos lagartos” — Tyrannosaurus rex — cercado por jubilosos e despreocupados robôs de filhos de Adão e Eva.

Surpreendentemente, aquele empreendimento alucinado, de 27 milhões de dólares, não dá prejuízo, nem está atirado às traças; muito pelo contrário – o tal museu das obras de Deus, incluídos eu e você e tudo que existe, já atraiu até agora mais de 715 mil visitantes de todo o mundo, cada um dos quais pagou de muito bom grado 30 dólares por ingresso [1]

Mas que paralelo pode ser feito entre o tal museu dos feitos divinos e a cobertura da crise na Ucrânia? O primeiro paralelo está nos fatos, no empenho em mostrar fatos, a própria exposição. No geral, a impressionante exposição–comprovação da obra de Deus em Petersburg é consistente com as últimas descobertas da paleontologia moderna: estão corretos o tamanho e as dimensões dos fragmentos de ossos e esqueletos; e as representações dos majestosos dinossauros são bastante críveis; com certeza, todas essas peças poderiam ser orgulhosamente exibidas em qualquer museu de ciência natural. Além disso, os filhos de Adão e Eva parecem bastante realistas e teriam lugar assegurado numa ousada estratégia de curador de museu que quisesse representar os primórdios da sedentarização humana.

O único problema é que tudo naquele museu, embora verossímil, é falso. Todos nós sabemos que o mundo não tem 5.000 anos, mas 13,2 bilhões de anos; e que humanos, amebas, orcas e a bactéria causadora de disenteria não foram criados em seis dias antes do bem merecido descanso dominical de Deus.

E onde entra a Ucrânia nisso tudo?

Tanque T-64; fabricação russa, numeração ucraniana
Como já devem saber alguns leitores, foi recentemente inaugurada no centro de Kiev uma verdadeira exposição, ao ar livre, mostrando tanques, veículos blindados, metralhadoras e veículos queimados ou parcialmente derretidos, que ali estão exibidos como se fossem provas de uma invasão russa na Ucrânia Oriental. A autenticidade das peças expostas é inquestionável – de fato, os tanques são tanques, realmente blindados; as metralhadoras são realmente metralhadoras capazes de realmente metralhar; e os carros queimados, sim, são carros. Entretanto, exatamente como no museu criacionista, o contexto é fictício, foi integralmente inventado, ou foi integralmente apagado.

Com efeito, lemos, vemos, ouvimos e ficamos profundamente traumatizados por inúmeros fatos e evidências que nos são apresentadas na cobertura da crise ucraniana que a mídia-empresa ocidental está fazendo. Vemos fotos de homens armados, soldados, casas explodidas, carros destroçados e tanques, bem como escombros de um avião de passageiros, filas de refugiados, pessoas esfomeadas, idosos vivendo em porões sem comida nem eletricidade – diversas fotos horríveis de cadáveres inteiros ou em pedaços.

Tudo isso é verdadeiro e representativo da desoladora tragédia humana que ora acontece na Ucrânia. Mas nessa narrativa geral – assim como na narrativa dos criacionistas, que expõem dinossauros provavelmente gentis como babás, posto que não havia violência no Jardim do Éden – tudo que é mostrado pela mídia-empresa ocidental é, sempre, imagem distorcida do contexto real.

Seguindo a lógica da versão do “Gênesis” by Poroshenko, o regime dito democrático liberal pró-ocidental de Kiev vai resolver todas as questões sociais, econômicas e políticas do país atormentado pela corrupção. Portanto, segundo essa narrativa, todos os fatos e exposições devem ser cuidadosamente dispostos exatamente da mesma forma como faria o curador de um museu criacionista. E exatamente como no museu criacionista, essa exposição apresenta um insuperável desafio à lógica fundamental, que deixa sem resposta a maioria das perguntas, senão todas elas.

Berkut (Força Policial da Ucrânia)
Vejamos algumas dessas perguntas. Por que as Forças Ucranianas de Polícia, conhecidas como Berkut, mataram seus próprios soldados, dia 20/2/2014? Os fatos estão aí: 18 oficiais foram mortalmente baleados e mais de uma dúzia ficaram feridos [2].

Essa pergunta foi apagada da metanarrativa, bem como todas as perguntas em torno do “incêndio acidental” de 2/5/2014 em Odessa, em que 48 pessoas (outras fontes falam de um número ainda maior) foram queimadas vivas, enquanto outras, que conseguiram pular do prédio em chamas, foram mortas a pauladas por ativistas de Maidan, na frente da Polícia, que nada fez para impedir o massacre. Por que, quase um ano depois desses eventos, a mídia-empresa ocidental ainda não fez essas perguntas ao Procurador-Geral da República ucraniana? Por que o governo ucraniano recusou-se a permitir que o Tribunal Penal Internacional investigasse esses fatos? Por que tudo isso nunca foi questionado pelos bastiões do jornalismo-empresa ocidental?

E não é só isso: a mídia-empresa ocidental também prefere não cobrir fatos que contradigam a lógica desse “Gênesis” by Poroshenko. Permanecem cuidadosamente ocultados todos os nomes dos que ordenaram e admitiram e, pois, são responsáveis pelo bombardeio de grandes centros urbanos como Donesk, Luhansk, Mariopol, Kramatorsk, Slovyansk.

O assassinato de mais de 40 pessoas em Odessa
Como também não se sabe quem autorizou o uso de armas proibidas pela Convenção de Genebra, como fósforo branco e bombas de fragmentação. A mídia-empresa ocidental mostra pouco interesse em fazer as perguntas necessárias sobre a natureza da famosa Operação Antiterrorista (ATO, acrônimo em inglês), que usou artilharia pesada, aviação e tanques contra a população civil de Donetsk e Luhansk – 6,8 milhões de pessoas, população maior que a população total dos três estados Bálticos (Letônia, Estônia e Lituânia) [3].

Em vez de saudável jornalismo investigativo e respectivas boas respostas, oferecem-nos imagens dramáticas. Seja como for, a técnica é a mesma, para o “jornalismo” ocidental e para os criacionistas do Kentucky: apagar o contexto. Não apenas se publicam fotos de inexistentes tanques russos cruzando a fronteira ucraniana, tão inverossímeis quantos Adão e Eva no paraíso de bondosos dinossauros, mas, também, as tais fotos são longamente discutidas no plenário do Congresso dos EUA (as fotos mostram tanques russos, mas quando cruzaram a fronteira com a Geórgia, em 2008).

E o mesmo se vê sobre o avião holandês, mostrado em fotos em que Putin aparece ao lado de imagens das vítimas.

Mas silêncio total, e a empresa-mídia ocidental completamente apática, em tudo que tenha a ver com as gravações da caixa preta do MH17, divulgadas cinco dias depois do desastre. Em todos os casos, a resposta é sempre a mesma, não importa qual seja a pergunta: a culpa é de Putin.

Vladimir Putin, personalidade do ano 2007
De fato, Putin se tornou o “queridinho” da mídia ocidental: nos EUA, foi tema de 5.771 matérias; 8.929 na Alemanha, e 5.209 no Reino Unido, só em 2014 [4]. É grande cobertura, pela empresa-mídia. Nesse roteiro bíblico, o recentemente eleito presidente Poroshenko tem o papel do mocinho, e o presidente Putin é o bandido. De repente, Putin sofre da mais grave síndrome de múltipla personalidade jamais vista, reencarnando ao mesmo tempo Stálin, Hitler e o famoso “Jihad John” do ISIS (como se sabe, graças à CNN, o mistério foi esclarecido: o degolador máster é Putin) [5].

Mas a demonização sem precedentes do Presidente da Federação Russa não é evento isolado, sendo consistente com a difamação de Saddam Hussein (“O carniceiro de Baghdad”), de Muammar Gaddafi (“Homem-cão raivoso”), de Slobodan Milosevic (“O carniceiro dos Bálcãs”). Todas essas campanhas de demonização foram lançadas pouco antes do início das campanhas militares dos EUA no Iraque, na Líbia e na Iugoslávia.

Tanto para a empresa-mídia ocidental, apologista do Gênesis by Poroshenko, quanto para os criacionistas, espaço, tempo e lógica merecem pouca consideração. Os criacionistas comprimiram o Mesozoico, que começou há 252 milhões de anos e terminou 66 milhões de anos depois, em apenas alguns milhares de anos. A empresa-mídia serve-se da mesma técnica, para período muito mais curto. Em 2007, a personalidade do ano para a revista Timefoi Putin. Sete anos depois, o mesmo Putin virou Hitler [6].

Putin, personalidade do ano 2007 virou Hitler
O que é notável na atual “Guerra de informação” é o quanto o contexto-zero da empresa-mídia ocidental vem-se tornando violento e implacável em sua sempre desmentida fabulosa inventividade.

Para consolidar o mito–Putin, a mais recente manchete diabólica proclamando “Putin matou meu filho!” pode não ser suficientemente dramática. Logo inventarão algo mais espetacular, como “Putin matou o filho de Deus!”, plenamente aceitável no “ambiente criacionista” em que vegeta a empresa-mídia ocidental, quando longos períodos de tempo podem ser facilmente comprimidos sem nenhum questionamento.

Com efeito, Putin pode muito bem viajar no tempo para a Palestina do Ano 0, ir até o Gólgota montado num amigável pterodátilo, perfurar o desidratado corpo de Cristo, e no caminho de volta fazer uma parada em Munique em 1938 para tomar café da manhã com Hitler. Exagero? Claro que sim. Como são exageros a história dos pterodátilos gentis e a lógica do curador do museu ao ar livre de Kiev, que exibe tanques “russos”, mas com NIV (números de identificação de veículos) ucranianos.

A empresa-mídia ocidental tem dito meias- verdades e mentiras descaradas, mostrando o novo regime de Kiev como “democrático” e os “rebeldes” como terroristas. A natureza dessa “propaganda” mais parece pregação de um tele-pastor evangélico de San Antonio, Texas, que reportagem publicada por veículos tidos como respeitáveis da empresa–mídia, alguns dos quais de reconhecida tradição. Esta é uma das razões pelas quais toda essa empresa–mídia está rapidamente perdendo credibilidade, além de fatias de mercado.

Em contraste, a blogosfera vem bombando, quando o tema é a crise ucraniana, ao oferecer reportagens alternativas, vídeos, testemunhos do front e, mais importante ainda, análises de conteúdo alternativas e contexto.

Imprensa criacionista
Há nítido apetite por reportagens diferenciadas e por fatos crus em primeira mão, bem como por análises críticas que contradigam a metanarrativa oficializada. Agências midiáticas como RT estão visando especificamente a esse tipo de audiência que não para de crescer no Ocidente, na Europa e nos EUA. Não surpreende que RT seja hoje o segundo canal estrangeiro mais visto nos Estados Unidos (depois da BBC World News) e a rede social número um nas maiores metrópoles como Nova Iorque, Los Angeles, Chicago e Washington. Sua difusão global alcança a impressionante marca de 700 milhões de telespectadores [7].

Qual a razão para o repentino sucesso deste concorrente tão “jovem”? A explicação está na própria concepção da propaganda ocidental, que amiúde alcança níveis adequados para jovens e idosos infantilizados ou evangélicos autoiludidos.

Claro está que nada aí augura qualquer glória, e o panorama não é nada otimista, para os tradicionais bastiões do jornalismo produzido pela empresa–mídia ocidental, cuja popularidade está caindo, sobretudo entre as pessoas de menos de 35 anos.

Naturalmente, se algum dia alguns desses veículos e respectivas empresas–mídias forem extintas, como extintos foram os dinossauros, ninguém poderá culpar algum asteroide destrambelhado.

Há muitas razões para essa extinção: a velha e escandalosa complacência com a Grande Mentira; a rejeição pervertida ao exercício de qualquer moralidade profissional e pessoal. Não esqueçamos que o mote propagandístico de Fox News “Fatos podem ser desmentidos. Opiniões não!” aplica-se a alguns, mas definitivamente não serve a todos. Por quê? Para usar uma famosa frase de Bertolt Brecht: porque “o homem tem um defeito básico: ele pensa”. 

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Notas de rodapé

[1] Creation Museum – Petersburg, Kentucky

[2] Katchanovski, Ivan. The “Snipers’ Massacre” on the Maidan in Ukraine – 20/2/2015.

[3] Rothoct, Andred. Ukraine Used Cluster Bombs, Evidence IndicatesNew York Times, 20/10/2014.

[4] Khlebnikov, Alexey. Russia is now monitoring the world’s mass media for biasRussia Direct. 25/2/2015.

[5] Jalil, Justin e J.A. Gross. Vlad the beheader: CNN apologizes for Putin gaffeThe Times of Israel, 1/3/2015.

[6] Stengel, Richard. Person of the Year 2007: Choosing Order Before FreedomTime, 19/12/ 2007.

[7] RT reaches 700MN viewers worldwideRapid TV News. 11/9/2014.

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[*] Ivaylo Grouev ensina Ciência Política na Universidade de Ottawa.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Diplomacia infantilóide e neodemonização da Rússia

24/3/2014, [*] Frank Furedi, Spiked Online e 30/3/2014, 4th Media, Pequim
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

A arrogância autista dos neodemonizadores da Rússia no ocidente é espantosa.

Vladimir Putin
Será que diplomatas e jornalistas ocidentais falam sério quando acusam o governo russo de estar lançando uma nova Guerra Fria? Será que realmente acreditam em sua própria retórica, quando dizem que Putin tem ambições expansionistas e quer reconstruir o Império Soviético?

Será que Hillary Clinton, ex-secretária de Estado dos EUA falava a sério quando disse que as ações da Rússia na Crimeia seriam semelhantes “ao que Hitler fez antes, nos anos 1930s”? Outros observadores anti-Rússia disseram também que a incorporação da Crimeia na Rússia seria análoga à anexação da Áustria pela Alemanha nazista nos anos 1930s. Será que toda essa gente acredita sinceramente na própria interpretação dos atuais eventos geopolíticos?

É sempre difícil, se não perigoso, especular sobre o processo mental que leva diplomatas poderosos e líderes políticos a dizer certas coisas. É especialmente difícil dar conta do significado da dinâmica que converteu a crise na Ucrânia em perigosa disputa internacional.

Em entrevista recente, um jornalista russo perguntou-me por que a imprensa-empresa ocidental tornara-se tão descuidada no trabalho de checar informações sobre a Ucrânia e, em geral, sobre a Rússia. Senti-me sem argumentos para responder e fui forçado a pedir tempo para pensar melhor.

Depois de analisar as declarações sobre a Ucrânia feitas por diplomatas ocidentais ao longo das duas últimas semanas, cheguei à conclusão, nada confortável, de que os motivos por trás da demonização da Rússia são decorrência de convicções sinceras. [1] Claro que há muita propaganda, distorções propositais e muita fantasia nessa campanha – mas a ‘'ideia geral'’ que a campanha manifesta foi tão profundamente internalizada por tantos no ocidente, que, agora, já constitui a realidade deles, uma espécie de para-realidade.

E o fato de que uma nova ninhada de pressupostos cruzados da Guerra Fria tenham-se autoconvencidos da ‘'verdade'’ da própria retórica pode ter consequências ainda mais desestabilizadoras do que se a campanha fosse só exemplo cínico de realpolitik à moda antiga. A realpolitik tinha o mérito, pelo menos, de ter raízes plantadas no mundo real; a atual campanha anti-Rússia, ao contrário, é baseada em confusão generalizada e, ainda pior, em autoengano.

A hitlerização infantil de Putin
Dois pesos e duas medidas

O autoengano do qual padece a atual diplomacia ocidental pode ser mais claramente percebido no modo como aplica dois pesos e duas medidas em suas avaliações dos assuntos globais. O autoengano simplório, quase infantil, do modo como o ocidente se posiciona em relação à Rússia foi-me apresentado, bem visível, em maio passado, numa visita a Budapeste. Depois de várias reuniões sobre o papel dos jovens na sociedade civil, tive oportunidade de conversar com jovens norte-americanos empregados de uma ONG que tem sede nos EUA e que trabalhavam na Rússia.

Durante a conversa, uma jovem ongueira, de Seattle, disse que muito se surpreendera ao descobrir que alguns funcionários do governo russo a tratavam como se ela fosse “agente de uma potência estrangeira”. Vários colegas dela também se mostravam muito surpresos ante o fato de eles e a ONG para a qual trabalham serem tratados pelos russos... ora bolas!... como o que eles e elas realmente são: empregados de organizações que promovem os valores norte-americanos em outros países.

Quando me mostrei surpreso ante a reação deles, e perguntei “Mas vocês não sabem que trabalham para uma organização estrangeira e, ainda mais importante, para uma organização que critica muito ativamente o governo do país onde vocês estão trabalhando?”, eles e elas simplesmente não entenderam a pergunta. Quando perguntei: “E como o governo dos EUA classificaria uma ONG russa que estivesse promovendo valores da Igreja Grego Ortodoxa nas ruas de NY”?, ninguém me respondeu.

Só quando perguntei qual seria a reação do governo do país deles, se um grupo de ongueiros de ONGs russas tivesse oferecido ajuda financeira e de pessoal para o movimento Occupy ou para o Tea Party, um dos meus interlocutores, afinal, reconheceu que eu talvez tivesse alguma razão.

O movimento Occupy Wall Street em New York City
Essa minha experiência em Budapeste mostrou-me o quanto é profunda a pressuposição autista, autorreferente, de autoperfeição, nas ações, e de retidão, nos próprios motivos, entre esses agentes que promovem valores ocidentais; a tal ponto, que jovens muito inteligentes, nem por isso, conseguiam ver que, claramente, estavam-se servindo de dois pesos e duas medidas: promover valores norte-americanos na Rússia seria “certo”; mas promover valores russos nos EUA seria “errado”. Por que pensam assim? Porque essa diplomacia de dois pesos e duas medidas é construída sobre o implícito de que haveria diferença essencial entre os países, no plano moral.

Esse pressuposto autorizaria os líderes ocidentais a “dar aulas” aos seus contrapartes estrangeiros sobre comportamentos certos e errados, aceitáveis e não aceitáveis. Diplomacia de dois pesos e duas medidas, que leva um lado a tratar o outro como se o outro lado fosse criança ou, no limite, como se fosse perfeito imbecil.

Observem, por exemplo, o à vontade com que importantes líderes políticos dos EUA e da União Europeia apareceram em Kiev, há poucas semanas, para manifestar sua solidariedade aos manifestantes golpistas.

Imaginem a reação, nos EUA e na Grã-Bretanha, se Putin ou algum alto governante russo aparecesse, distribuindo sanduíches em praças, no auge do movimento Occupy ou durante os tumultos de rua em Londres, e declarasse o apoio do governo russo aos grupos na rua. O ultraje seria cataclísmico. Mas, graças à diplomacia de dois pesos e duas medidas, com a Rússia tratada como se fosse criança, os líderes norte-americanos não veem problema algum em agir de modo que considerariam inaceitável, em outros.

Num ambiente global, onde o tráfego (tráfico?) cultural cresce sempre mais numa direção que na outra, com pequena variação e praticamente nenhuma oposição ativa, a Rússia é demonizada como sociedade atrasada e moralmente inferior, a ser condenada e, se necessário, a ser castigada, até que se modifique e aceite como seus os valores de seus críticos iluminados. E como ficam as coisas se o povo russo tiver outro padrão moral, diferente do que reina em Washington, Londres ou Hollywood? Pouco importa aos diplomatas que só sabem ver o próprio umbigo, especialistas em moral dupla, que querem-porque-querem que todos vejam o mundo como eles veem.

O ethos dos dois pesos e duas medidas é particularmente danoso no campo político. Formalmente, as elites culturais e políticas que dominam a sociedade ocidental creem nos ideais da democracia representativa. E falam da democracia representativa como pré-requisito para uma sociedade aberta.

Infortunadamente, contudo, a atual coorte de líderes ocidentais adotaram, de fato, uma atitude altamente seletiva e desonesta em relação à democracia. Entendem que eleições são maravilhosas, se eles são eleitos, ou partido ou candidato aprovado por eles. Se um partido não apreciado pelos iluminados diplomatas ocidentais vence eleições, então, para os norte-americanos, o processo democrático teria falhado; e os norte-americanos passam a trabalhar para a “mudança de regime” mediante golpe; e o golpe se torna(ria) solução legítima.

Assim, em dezembro de 1991, a Frente de Salvação Islamista obteve vasta maioria dos votos – 181 cadeiras, de 231 – no primeiro turno das primeiras eleições legislativas livres na Argélia. O exército da Argélia reagiu com cancelamento das eleições e entregou o poder a uma comissão de cinco membros não eleitos. Ouviu-se um suspiro de alívio no ocidente e – surpresa, surpresa! – nenhuma sanção foi imposta à Argélia em resposta àquele golpe de estado.

Ano passado, foi a vez de o Egito descobrir que, quando são eleitos “os errados”, o ocidente num segundo esquece seu compromisso com o princípio da democracia representativa. Outra vez, o golpe militar no Egito derrubou o islamista Mohamed Mursi; e outra vez não se ouviu qualquer pregação, pelos políticos ocidentais, em defesa das virtudes das instituições democráticas.

E assim chegamos à Ucrânia. O governo livremente eleito do presidente Yanukovich foi derrubado pelo que se conhece convencionalmente como golpe, ilegal; pois para a imprensa-empresa ocidental a coisa não passou de “desenvolvimento democrático”. Hoje, temos uma situação na qual a imprensa-empresa ocidental apresenta o novo governo ucraniano como entidade legal e, ao mesmo tempo, diz que o regime legal que realizou um referendo na Crimeia seria regime ilegal. Extraordinários dois pesos e duas medidas!

Claro, os que foram escolhidos pelo povo na Argélia, Egito e Ucrânia ao longo das décadas recentes não eram democratas agradáveis, de ideias arejadas. Nos últimos anos, os governos da Ucrânia, incluído o de Yanukovich, apresentaram poucas qualidades recomendáveis. Yanukovich, como virtualmente toda a elite política ucraniana, é membro de uma oligarquia corrupta e interesseira.

Mas, diferente de Oleksander Turchynov, que foi posto em seu lugar, Yanukovich, pelo menos, é oligarca eleito! Se os governos ocidentais agem como se não houvesse problema algum em derrubar governos eleitos que não os satisfaçam, o que aqueles governos ocidentais fazem e minar a autoridade moral da própria democracia.

Por isso na Ucrânia hoje a maior ameaça à democracia vem do comportamento dos que são cúmplices na desestabilização e no golpe que derrubou regime democraticamente eleito. Os que protestaram em Kiev tinham todo o direito de protestar e desafiar o governo. Mas, se o veredito das urnas pode ser tão facilmente desmoralizado, o maior problema é que a genuína política democrática está sendo desmoralizada. A política de dois pesos e duas medidas de Washington e da União Europeia em Kiev desmoraliza a autoridade da política democrática em toda aquela região.

Diplomacia Ocidental Infantil
Diplomatas infantilóides

Qualquer pessoa que acredite no que vê e lê na mídia ocidental encontrará motivos para pensar que a Rússia seria potência expansionista e agressiva, à espera de uma chance para capturar o vizinho estado da Ucrânia. Nada mais falso. A realidade é que, apesar de uma ou outra posição nacionalista do presidente Putin, a Rússia está convertida em potência em status quo defensivo clássico. Desde a ruptura da União Soviética, a Rússia viveu um processo no qual seu poder e influência só diminuíram.

A Rússia lutou para preservar posições no Cáucaso e enfrenta movimento islamista radical muito maior que qualquer das forças que desafiam diretamente as sociedades ocidentais. E em seu front oeste, a Rússia sente-se ameaçada por pressões políticas e culturais que lhe chegam da Europa. Nessas circunstâncias, é compreensível que muitos, na elite russa, sintam que próprio tecido nacional russo esteja sendo esgarçado.

A principal realização do ocidente, especificamente da diplomacia da União Europeia na Ucrânia, foi empurrar a Rússia para posição ainda mais defensiva. A ação da Rússia na Crimeia é, pelo menos em parte, uma reação ao que os russos percebem como interferência estrangeira sistemática na Ucrânia. Mas... o que a União Europeia esperava que acontecesse, quando tentou anexar a Ucrânia à sua esfera de influência?

Stephen Cohen
Como o professor Stephen Cohen observou, esse perigoso conflito foi desencadeado:

(...) pelo temerário ultimato, em novembro, feito pela União Europeia, para que um presidente democraticamente eleito em país profundamente dividido, escolhesse entre Europa e Rússia .

O ocidente alega que já vão longe os velhos tempos do século 20, quando potências globais buscavam consolidar e dominar suas esferas de influência. Mas, desde o esfacelamento da União Soviética, o que sempre se viu foram tentativas sistemáticas para aproximar das fronteiras da Rússia, cada vez mais, a esfera de influência ocidental. A linha que dividia Leste e Oeste mudou de lugar: saiu do meio de Berlim, para a fronteira da Rússia.

Nenhum russo, hoje, dará sinais de paranoia se sentir que seu país está sendo cercado e lentamente minado por forças hostis à sua própria existência. Diplomatas ocidentais que não percebam nem isso são, esses sim, os paranoicos que já perderam completamente o contato com a realidade geopolítica.

A União Europeia e os EUA agem como se não tivessem nenhuma responsabilidade pela crise na Ucrânia e pelas tensões nas relações entre o ocidente e a Rússia. É possível que o ocidente se tenha autoenganado a tal ponto sobre os assuntos globais, que já nem consiga ver o quanto o próprio ocidente é cúmplice na atual crise. Esse autoengano delirante implica que as regras normais que regem as relações internacionais já nada regem, substituídas por “sermões” e pregações do moralismo mais oco, sempre interessado em gerar a reação mais bombástica, na mídia.

Essa corrosão da diplomacia ocidental é hoje um real perigo a ameaçar a estabilidade global. Ela mina também a autoridade moral da democracia. Num certo ponto, a política dos dois pesos e duas medidas em assuntos internacionais desmoralizará a tal ponto os ideais democráticos, que até a integridade das instituições democráticas dos próprios países agressores também ruirá, minada por dentro.
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Nota dos tradutores
[1] Impossível não lembrar Film Socialisme (Godard, 2010): “O que nunca muda é que sempre haverá fascistas. O que mudou hoje é que os fascistas são sinceros”) [aqui traduzido]. Trailer a seguir:

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[*] Frank Furedi (nascido em 1947, em Budapeste , Hungria) é Professor Emérito de Sociologia na Universidade de Kent, Reino Unido. É conhecido por seus trabalhos sobre Sociologia do Medo, Educação, Terapia pela Cultura, Paranoia Parental e Sociologia do Conhecimento.
Nos últimos anos, seu trabalho tem sido orientado para explorar a Sociologia do Risco e Baixas Expectativas. Furedi, autor de vários livros sobre o tema, mais recentemente escreveu Wasted: Why Education Isn't Educating (Continuum 2009) e Invitation to Terror: The Expanding Empire of the Unknown (Continuum 2007), uma análise do impacto do terrorismo pós 9 / 11. Suas publicações mais recentes: On Tolerance: A Defence of Moral Independence (Continuum 2011) e Authority: A Sociological Introduction (Cambridge University Press), debatendo os problemas de inter-relacionamento entre liberdade e autoridade. Ele é, segundo pesquisas, o sociólogo mais citado na imprensa britânica.

sábado, 15 de março de 2014

Trama Perigosa: Os demonizadores de Putin

14/3/2014, [*] Andrew Levine, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O que fez Putin, que seja pior, de um ponto de vista liberal, que pôr todo o planeta sob regime de vigilância 24 horas/dia, sete dias por semana? 

Putin ordenou assassinatos sem qualquer sequer remota semelhança com algum devido processo legal, como fez Obama? 

Putin deportou cerca de dois milhões de pessoas? 

Putin garantiu proteção a sequestradores e torturadores?”

Vladimir Putin, por Maurício Porto
Democratas e Republicanos passam praticamente todo o tempo uns com as unhas na garganta do outros. Razões há muitas. Mas entre elas não se incluem diferenças filosóficas ou ideológicas fundamentais. Não.

Mas essa não é a concepção dominante. A sabedoria convencional reza que haveria filosofias diferentes a separá-los – os Democratas são liberais e os Republicanos, conservadores. Talvez antigamente, num tempo remoto, as coisas tenham sido mais ou menos assim. Hoje, a briga é outra.

A concepção dominante, por um lado, dá a Democratas e Republicanos excessivo crédito. Por outro lado, insulta o liberalismo e o conservadorismo.

Ultimamente, a ideia de que Vladimir Putin é da turma dos “bandidos” passou a integrar a sabedoria convencional; nisso, Democratas e Republicanos concordam. É notável – não só porque ultimamente o hábito deles todos é discordar, mas também porque há pouco tempo tratava-se exatamente do contrário.

George W. Bush olhou olho-no-olho de Vladimir Putin, perscrutou-lhe a alma, achou boa. Só imorredouros Guerreiros da Guerra Fria à antiga espinafravam Putin. Hoje, Hillary Clinton, fazendo eco ao consenso em toda a imprensa-empresa, diz de Putin que é um Hitler. Como todas as criancinhas de jardim de infância sabem, é o mesmo que dizer que Putin é o mal encarnado.

Quanto a isso, ela fala por todo o establishment político.

Vladimir Putin e George W. Bush, olho-no-olho
Mas liberais e conservadores verdadeiros não têm motivo algum para demonizar o presidente russo. Os liberais deveriam dar-lhes boas-vindas sob o mesmo amplíssimo guarda-chuva. Os conservadores deveriam beijá-lo.

Pois mesmo assim, Democratas e Republicanos só fazem demonizar Putin.

Dado que nenhuma diferença filosófica explica a coisa, tem de haver outra razão. Talvez... porque Putin é presidente da Rússia?

Nem norte-americanos nem europeus são geneticamente anti-russos, nem tendem a denegrir a cultura russa. Mas as respectivas elites políticas e econômicas são sensíveis a todas e quaisquer sugestões de que o sistema econômico do qual extraem tantos benefícios já não seria, como antes foi, uma bênção para todas as nações.

Isso faz da Rússia um problema para aquelas elites, na medida que, como hoje, a sabedoria convencional reza que a relação entre Rússia e o capitalismo é problemática.

Ironicamente, a relação entre o capitalismo e o conservadorismo também é (problemática). Entre capitalismo e liberalismo, não.

De fato, o liberalismo uniu-se ao capitalismo desde o Dia Um.

Houve intimidades entre ambos na Holanda e na Inglaterra já no século 16, e os dois desenvolveram-se no mesmo compasso – unidos, há muito tempo, pelos centros capitalistas na Europa do Norte e na América do Norte.

O capitalismo inicial foi, de fato, a teoria de justificação do capitalismo.

Os filósofos políticos sempre propuseram ideias sobre o que é o liberalismo, e a política liberal assumiu ampla variedade de formas.

Mesmo assim, apesar das muitas variantes, há um núcleo comum entre capitalismo e liberalismo. Como o nome sugere, tem a ver com liberdade ou libertarismo [orig. liberty or freedom]. Mais precisamente, tem a ver com visões liberais marcadamente diferentes desse valor núcleo.

A concepção de liberdade à qual mais se agarram os liberais, historicamente e conceitualmente, é individualista e negativa; os indivíduos são livres na medida em que são livres de interferências coercitivas.

Esse entendimento às vezes fundiu-se em concepções mais positivas, segundo as quais os indivíduos são livres na medida em que são capazes para fazer o que queiram fazer, e isso se uniu recentemente a compreensões menos individualistas derivadas da teoria política republicana (“r” minúsculo) do século 18.

A ideia serviu também a uma vasta faixa de elaborações filosóficas que se baseiam em noções de igualdade e justiça e em outros problemas profundos da filosofia moral.

Mas como doutrina política, a ênfase subjacente do liberalismo continuou bastante estável ao longo dos anos: o foco sempre foi e continua a ser minimizar as interferências coercitivas do estado.

O liberalismo é, pois, uma teoria do governo limitado. Nos primeiros tempos, opôs-se a teorias absolutistas segundo as quais o poder do soberano é em princípio ilimitado. E venceu essa batalha, há muito tempo.

É, pois, justo dizer que, exceto por um punhado de devotos não reconstruídos de teorias não liberais defuntas, todo mundo, hoje, é liberal. Os conservadores também são liberais.

Em termos comuns, não liberalismo e “ditadura” às vezes confundem-se. É compreensível, mas também pode desencaminhar o pensamento.

Há regimes em estados fracos ou falhados que têm características ditatoriais, e há líderes políticos que às vezes agem “ditatorialmente”.

É como a nossa empresa-imprensa norte-americana retrata Vladimir Putin. E é como alguns partidários do Tea Party, os mais excepcionalmente delirantes, retratam Barack Obama.

Como a imprensa-empresa dos EUA (e ocidental, em geral) retrata Vladimir Putin
Mas, independente do mérito desses qualificativos, o fato permanece: onde o poder soberano seja limitado por leis cogentes, só resta o liberalismo. Vale para os EUA e vale também para a Rússia.

Os primeiros liberais estavam principalmente interessados no comércio; o objetivo deles era substituir a mão invisível do mercado, pelo estado; e substituir as relações feudais de propriedade, por um regime de propriedade privada.

Agora, já se foram os velhos inimigos mercantis e feudais do liberalismo, mas seus compromissos doutrinais permanecem.

Os libertaristas [orig. Libertarians”] continuam a ecoar posições assumidas pelos primeiros liberais; a fé que tinham nos livres mercados e na propriedade privada continua inabalada. A sabedoria convencional os põe no campo conservador, mas, na realidade, são o mais liberal que é possível ser.

Liberais dominantes são menos doutrinários, ou, como reza a sabedoria convencional, são mais “pragmáticos”.

Essa palavra também tem raízes filosóficas que mantêm só vaga relação com o modo como é usada em nossa cultura política. Aí, “pragmático” significa apenas “de mente aberta” ou “flexível”.

Nesse sentido, os liberais dominantes são, em geral, pragmáticos. Nos amplos limites demarcados pelo compromisso deles com os princípios liberais, dão-se bem com qualquer coisa que funcione.

Em parte por essa razão, eles não têm qualquer interesse em promover as doutrinas econômicas liberais clássicas. Uma razão mais importante é que as principais preocupações deles não são, de modo algum, econômicas.

São advogados da tolerância e tudo que ela implica.

Esse foco nada tem de novo. Vem de antes das Revoluções Francesa e Americana.

Muitos fatores combinaram-se para converter o liberalismo numa filosofia da tolerância. A devastação trazida pelas guerras religiosas que se seguiram à Reforma Protestante foi talvez o mais importante.

A mudança na ênfase foi tão profunda e suas consequências, de tão longo alcance, que dificilmente alguém hoje, fora dos círculos libertaristas, ainda pensa que as liberdades econômicas e políticas constituem rede inconsútil.

De fato, liberais dominantes em geral apoiam mercados regulados e restrições aos direitos de propriedade. Mas, para eles, essas são preocupações apenas secundárias. O principal interesse deles está em defender tais direitos e liberdades como são elaborados, digamos, na Carta de Direitos (Bill of Rights) da Constituição Norte-Americana e na Declaração dos Direitos do Homem (The Declaration of the Rights of Man).

Ainda que só para facilitar a vida deles, funcionários políticos são constantemente tentados a atropelar e pisotear essas proteções. Mas onde se mantenha o império da lei, há limites a até onde podem ir. Isso é verdade na Rússia, é verdade na União Europeia e é verdade também nos EUA.

Putin seria qualitativamente pior que líderes comuns de estados liberais? É pior que Obama? A resposta é “claro que é” ou, pelo menos, é o que nos dizem.

Afinal, como poderia alguém formado pela Faculdade de Direito de Harvard e professor de Direito Constitucional da Universidade de Chicago ser menos liberal que um ex-agente da KGB?

Mas quando se fazem as contas finais, a resposta óbvia pode já não parecer assim tão óbvia.

O que fez Putin, que seja pior, de um ponto de vista liberal, que pôr todo o planeta sob regime de vigilância 24 horas/dia, sete dias por semana? Putin ordenou assassinatos sem qualquer sequer remota semelhança com algum devido processo legal, como fez Obama? Putin deportou cerca de dois milhões de pessoas? Putin garantiu proteção a sequestradores e a torturadores?

Agradecimentos a Edward Snowden
E há a questão de Edward Snowden, na qual as ideias de Obama et alii sobre transparência e liberdade de expressão ficaram bem claras, e na qual Putin alistou-se ao lado dos anjos.

É quase um axioma que a liberdade de expressão está mais bem protegida nos EUA de Obama, que na Rússia, hoje. Mas... é verdade? Compare a imprensa - empresa norte-americana e a rede de televisão RT (Russia Today), que hoje é desqualificada como rede de propaganda de Putin.

O padrão dos comentários e comentaristas e das análises e analistas de RT é, de longe, muito superior, e há ali muito maior diversidade de pontos de vista. Se isso é rede de propaganda, então... temos de importá-la.

Diz-se que Putin teria violado a lei internacional na Crimeia. É ponto contra seu liberalismo, porque apoiar o império da lei é central para as políticas liberais.

Mas também nisso, seria Putin pior que Obama? Putin, pelo menos, não é invasor agressor serial.

Claro, é notório que os Democratas não têm espinha dorsal, e que também relutam em defender valores liberais quando um deles está na Casa Branca. Então, quando recebem ordem para demonizar, eles demonizam. Aí, não há surpresa alguma.

Mas se fossem melhores liberais, eles com certeza resistiriam à ordem. Podem não estar ao lado de Putin na Crimeia, mas teriam de considerá-lo, no mínimo, como um dos seus; um deles, que se desencaminhou. E considerariam assim, também Obama.

E há então os conservadores.

Em seu nível mais fundamental, o conservadorismo é uma forma mental que dá grande importância a conservar as coisas como sejam. Praticamente, como os liberais dão o lugar de honra à ausência de interferência do estado, assim os conservadores valorizam a estabilidade e a ordem acima de tudo.

São, portanto, avessos a mudanças, com especial atenção à conservação dos arranjos institucionais fundamentais. Mudanças são disruptivas; quanto mais radical a mudança, mais tende a ser disruptiva.

Barack Obama e Vladimir Putin
Não há dúvidas de que esse temperamento está mais disseminado nas fileiras Republicanas, que nas Democratas.

Mas como filosofia política plena, o conservadorismo praticamente não existe na cultura política dos EUA. Como poderia existir, quando o que há para conservar é inerentemente desestabilizador!

Desde o alvorecer da era cristã, os pensadores conservadores no mundo cristão apoiaram-se em noções teológicas, como a doutrina do Pecado Original, que implica apoio a instituições que mantêm a ordem mediante coerção política e moral.

Porque muitos dos primeiros colonizadores na América do Norte britânica eram refugiados religiosos, esse destaque para o pensamento conservador esteve presente na cena nos EUA desde a chegada dos primeiros europeus. Mas a situação modificou-se, e evanesceram os modos de pensar de antes do Iluminismo.

De fato, a república estabelecida depois de nossa Guerra da Independência era liberal de berço, e seus princípios fundadores foram os do Iluminismo.

Essa é a razão pela qual linhas de pensamento que tivessem implicações antiliberais demoraram a fixar-se. Outra, é que não temos passado feudal e, portanto, nenhuma memória de modos não capitalistas de viver que prestigiam a estabilidade e a ordem.

O capitalismo, afinal de contas, é sistema econômico revolucionário; derruba e reconstrói tudo que encontra. Como proclamou, em proclamação famosa, o Manifesto Comunista, sob o poder do capitalismo “tudo que é sólido desmancha-se no ar”.

Hoje os conservadores, os verdadeiros conservadores, vivem em sociedades capitalistas e, portanto, se acomodam às suas consequências desestabilizantes. Mas a tensão não pode nunca ser totalmente superada.

Essa é a razão pela qual os conservadores norte-americanos são, no máximo, fac-símiles cômicos do artigo genuíno.

Apesar disso, quase todos os Republicanos e alarmantemente muitos Democratas se dizem “conservadores”.

Não estão completamente errados, porque há pelo menos uma característica do conservadorismo autêntico que eles partilham com os conservadores genuínos.

Robert Nozick
Os conservadores contemporâneos são liberais; todos são. Mas liberais da banda autoidentificada do consenso liberal, os que levam a tolerância mais a sério do que só para o que o filósofo libertarista Robert Nozick chamou de “atos de capitalismo entre adultos que consentem”, esses liberais querem, tipicamente, que o estado seja o mais neutro possível – não só no que tenha a ver com religiões em competição e com modos de viver, mas, também, no que tenha a ver com todas as concepções do bem que estejam, seja como for, em disputa.

Para eles, o papel do estado não é promover concepções específicas do bem, mas, sim, tratar com equidade todas as concepções que estejam em confronto.

E os conservadores, por sua vez, os conservadores genuínos, são ainda fiéis, ou tão fiéis quanto ainda são nas modernas sociedades pluralistas, a concepções particulares do bem; as concepções, que estejam de acordo com seus compromissos filosóficos subjacentes.

Os liberais, é claro, também têm concepções do bem; mas as veem como questões, exclusivamente, de consciência individual. Os conservadores tendem a usar o poder do estado para promover as concepções que eles prestigiem.

Nesse aspecto, os automodelados conservadores norte-americanos são parecidos com os liberais.

Mas... Putin não está sendo acusado precisamente desse “crime”, pelos que o chamam de ditador? E, quanto a isso, as concepções de bem que Putin é acusado de promover não são basicamente as mesmas defendidas pelos que o demonizam?

Robert NozickSe se ouve o que dizem Republicanos e Democratas nos EUA, Putin estaria comandando o espetáculo a serviço dos clérigos russos reacionários – seja por razões oportunistas ou porque crê na conversa enrolada deles ou pelos dois motivos. Mas por que isso é problema para políticos norte-americanos, especialmente, dentre esses, para os automodelados conservadores? Exceto por platitudes teológicas sem relevância política, que variam, nossos teocratas nativos fazem sempre exatamente a mesma coisa.

Conservadores verdadeiros deveriam, pois, abraçar Putin, não demonizá-lo; abraçá-lo, e não só por suas declaradas simpatias pré-Iluminismo.

Sempre pessimistas quanto à natureza humana, os verdadeiros conservadores tendem a favorecer estilos políticos autoritários e diplomacia dura, realista. Gostam de líderes fortes, e desprezam moralizadores que falam à toa, sem rumo – como os que hoje fazem a política externa dos EUA.

Num ponto, acertam: internacionalistas liberais – sobretudo do tipo “interventor humanitário” – são mais perigosos.

Mas, assim sendo, por que demonizar Putin, por ser o exato tipo de líder que os verdadeiros conservadores admiram?

É eloquente que um dos menos ridículos, vaidosos, ocos e presunçosos participantes da recentemente concluída Conferência da Ação Política Conservadora [orig. Conservative Political Action Conference (CPAC)] em Washington, de fato, embora entre grunhidos de protestos, concordou com isso.

Rudolph Giuliani
Rudolph Giuliani aproveitou a cena para desancar Obama, elogiando a liderança de Putin. Em vez de vagar sem rumo de uma situação para outra, como Obama, Putin, disse Giuliani, sabe exatamente para onde anda.

Como outros grandes líderes conservadores do passado – o primeiro nome que vem à mente é Charles de Gaulle – Putin aborda a política e a diplomacia como um jogo de xadrez, considerando toda a situação mais ampla e antecipando o movimento correto, já com várias jogadas de vantagem.

E assim, quando interessa ao seu objetivo, Putin salva Obama, como fez quando Obama se autoencurralou de tal modo que, sem a intervenção de Putin, teria metido os EUA na guerra da Síria – com prejuízo para todos os demais envolvidos.

Ou, quando é o que melhor atende seus próprios interesses, Putin pode impor-se como superior até ao presidente dos EUA, inobstante o fato de que os EUA tenham a carta mais alta.

Sob a tenda conservadora, há ainda lugar, evidentemente, para um tipo de grandeza que falta completamente na ala liberal do grupo liberal maior.

Grandeza, mas não bondade. Quanto a isso, como em praticamente tudo mais, George W. Bush errou. Hillary Clinton erra também.

Putin é hoje o mais perto que há dos grandes líderes conservadores do passado. Os conservadores deveriam louvá-lo por isso. Mas a ravina que separa os verdadeiros conservadores e os automodelados conservadores que há hoje por aí é vastíssima; é como se fossem espécies diferentes.

Mas, apesar disso, a pergunta permanece: por que Putin está sendo demonizado?

Atrevo-me a sugerir que o fato de Putin ser presidente da Rússia tem muito, não apenas pouco, a ver com isso.

Gore Vidal
Mesmo no país que Gore Vidal chamou de Estados Unidos da Amnésia, ainda há registros de que, há um século, os russos fizeram a história andar avante; e aquela avançada levou-os a se libertarem do sistema capitalista.

Os comunistas que lideraram a Revolução Russa passaram então a organizar e supervisionar a construção de uma ordem ostensivamente socialista, sem precedentes na história. Foi esforço de valentes – num país economicamente atrasado e contra a mais incansável oposição de inimigos imensamente mais fortes.

Tragicamente, o que aqueles comunistas fizeram converteu-se no que não era. Sete décadas depois, ruiu.

Mas o comunismo – na Rússia e, depois, na Europa Oriental e na China – foi presença viva durante grande parte do século 20; seus efeitos na política e seus reflexos na política foram profundos.

Mesmo num país e num tempo em que estados e regiões com tendência aos Republicanos são chamados de “vermelhos”, a memória do comunismo persiste, em algum nível.

Putin não é menos pró-capitalista que qualquer outro liberal, e é o melhor e mais fino líder conservador que há no mundo de hoje. (...) Mas a memória do comunismo persiste em nossa consciência coletiva.

Assim, quando um presidente da Rússia torna-se obstáculo na trilha norte-americana, o império contra-ataca. O primeiro passo é demonizar o presidente russo. E se há coisa que o establishment da política externa e a servil imprensa-empresa nos EUA fazem bem feito é demonizar gente.

Demonizar Putin pode ser útil, no curto prazo, para os tacanhos servidores do ‘bipartidarismo’ imperial.

Mas estão enfrentando alguém muito mais competente e aplicado que eles, e já estão chegando a região em que a água lhes cobre a cabeça. É uma trama cínica e perigosa, da qual pode advir dano incalculável. 
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[*] Andrew Levine é professor sênior do Institute for Policy Studies, e autor de THE AMERICAN IDEOLOGY (Routledge) e POLITICAL KEY WORDS (Blackwell), bem como de muitos outros livros e artigos em filosofia política. Seu livro mais recente é In Bad Faith: What’s Wrong With the Opium of the People. Foi professor de Filosofia) na University of Wisconsin-Madison e professor pesquisador (filosofia) na University of Maryland-College Park. Foi também co-autor de Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion (AK Press).