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segunda-feira, 14 de abril de 2014

Conflicts Fórum − Comentário semanal de 28/3 a 4/4/2014

13/4/2014, Conflicts Forum
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Barack Obama no Palais des Beaux Arts (Bozar) em Bruxelas em 26/3/2014
Observamos, semana passada, que, repentinamente, todas as questões chaves da política externa do presidente Obama para o Oriente Médio azedaram – às vésperas de rápidas visitas do presidente e de seu secretário de Estado à região. É como se a truculência contra os EUA se tivesse tornado contagiosa. E é possível que, em certo sentido, tenha virado, sim, contagiosa: para muitos líderes na região – vista de pontos de vista muito diferentes – a disparidade (o racha num status quo fortemente implantado, e forças nihilistas desencadeadas por aquele racha) tornou-se grande demais para deixar passar. Disparidade entre (a) as realidades no Oriente Médio que o oriente experimenta e (b) a realidade virtual de um entendimento ocidental sobre os mesmos eventos, mas filtrado por uma ótica do Iluminismo.

O ponto aqui é que tudo isso continua – embora cada realidade particular e os “males” a ela associados sejam muito diferentes, conforme o líder do Oriente Médio que se considere. Dito de forma mais simples: os estados ocidentais estão sendo vistos como tendo pouco a oferecer, quando todo um “sistema” (o sistema árabe) está visivelmente ruindo e perdendo pedaços da própria substância – e quando o medo predomina.

Assim sendo, ao final de intensa ação diplomática pelos EUA, o que mudou? A resposta é: pouco.

Barack Obama e o Rei Abdullah jantam em 28/3/2014
O presidente Obama foi jantar com o rei Abdullah: foi como casal que não se entende, tentando salvar um casamento fracassado. Mas, apesar de todas as belas palavras e as reclamações de rotina, com o casal forçado a controlar a irritação, o resultado é claro: não haverá divórcio (por enquanto), só separação – a visita de Obama “serviu como remendo, não como cura para o mal-estar entre os dois países”. Manterão comportamento decoroso em público, mas, “no privado”, cada um fará o que bem entender – são livres para escolher outros “namorados”, se conseguirem.

Na esfera israelense-palestina, é claro que nem israelenses nem palestinos veem ou desejam a solução atualmente em discussão (“dois estados”), tanto quanto o mediador, John Kerry, quer que eles a vejam e desejem. O mediador ser mais empenhado e mais entusiasmado por sua própria solução que qualquer dos protagonistas de um conflito, jamais, em toda a história, foi bom sinal. O discurso convencional indica que o “processo” estaria no fim, mas o fim absolutamente não parece provável.

Mohammad Dahlan
A fórmula dos “dois estados”, que já tem 20 anos, foi um objetivo (no sentido de sugerir a possibilidade de um segundo estado viável e independente) por algum tempo, mas os dois atuais líderes, por razões de autointeresse, precisam, mesmo, mais de “processo”, que de solução. O que parece realmente mais provável é que um “processo” no qual a posição de negociação dos palestinos vai sendo diariamente fatiada, como salame, em troca de pequenas recompensas (por exemplo, a libertação de prisioneiros), acabe levando à derrubada daquela liderança. Os palestinos jamais estiveram tão fracos, com autoestima mais baixa, tão carentes de cartas viáveis para jogar; e é difícil ver como algum “processo-em-nome-do-processo” possa prosseguir indefinidamente. Haverá um “golpe palaciano” (como aconteceu a Yasser Arafat).

O mais frustrante é que provavelmente o “agente” a ser financiado pelo exterior para fazer o serviço será Mohammad Dahlan.

Wendy Sherman
E as negociações sobre o Irã vão-se tornando cada dia mais semelhantes às negociações palestinas: “processo-em-nome-do-processo” – como os conservadores da oposição no Irã previam, desde o início, que aconteceria. Declarações de altos funcionários do governo dos EUA sugerem que a tal “solução” não será tão ampla como inicialmente sugerida, e que não se verá o fim de todas as sanções contra o governo iraniano – algumas (ou muitas) sanções permanecerão: “pela primeira vez Wendy Sherman sugeriu a possibilidade de resultado bem distante de completo e claro, para o processo”. Parece que o governo dos EUA (como no caso das conversações palestinas) dá-se por satisfeito com fazer um gesto simbólico – esboçar apenas algum “mapa do caminho” a ser passado adiante para o próximo governo – em vez de enfrentar a substância da questão, o que obrigaria a superar intensa oposição política dentro dos EUA, e seria provavelmente motivo de luta política dentro do governo Obama.

A Síria também parece, na sequência do tête-a-tête Obama-Abdullah, mais um caso de quanto mais a coisa muda, mais a coisa permanece como antes...

David Ignatius “noticia”, em linguagem notavelmente vaga, que o presidente Obama parece disposto a ampliar a ajuda clandestina à oposição síria, mas só para pressionar o presidente Assad a negociar mais seriamente. Políticos em Washington sabem, é claro, que mandar mais alguns sacos de armas para “moderados” que ninguém vê é, sim, gesto oco.

No Oriente Médio (e no Afeganistão) pouco
David Ignatius
mudou por efeito de uma semana de diplomacia; e na Ucrânia, parece que os EUA estão sendo gradualmente levados na direção de desescalar; e de aceitar uma modalidade de sistema federal frouxo, não alinhado, que garantirá autonomia substancial para, parece, três distintas regiões ucranianas.

Contudo, é isso – a Ucrânia e as relações entre EUA e Rússia – que mantém o maior potencial para levar mudanças ao Oriente Médio. Embora o presidente Obama esteja claramente tentando em surdina desescalar com o presidente Putin, o esforço tem seus oponentes. Além dos bem conhecidos guerreiros da guerra fria dentro do próprio governo Obama, o experiente correspondente da Defesa britânica, Richard Norton Taylor, escreveu que “as ações de Putin na Crimeia acertaram um tiro no braço da OTAN, disse um ex-secretário da Defesa da Grã-Bretanha, refletindo a preocupação disseminada sobre o futuro da aliança militar ocidental”.

 Norton Taylor
“A preocupação era que, com as operações patrocinadas de combate da OTAN no Afeganistão aproximando-se do fim esse ano” – continua Norton Taylor – “a aliança venha a ficar sem ter o que fazer, e que os membros europeus ocidentais façam ainda mais cortes em seus orçamentos de defesa. A esperança no quartel-general da OTAN é que a Crimeia e a Ucrânia chacoalhem os governos membros, tirando-os do que os funcionários da OTAN veem como atitude de complacência. Depois de muita angústia sobre a função da OTAN depois do Afeganistão, a crise da Crimeia aparece como chance de dar novo objetivo à aliança” – disse o Professor Malcolm Chalmers do Royal United Services Institute, think-tank com sede em Londres. E acrescentou: “Se Putin atacar território de algum membro da OTAN, como a Polônia ou a Latvia, outros estados da OTAN, inclusive a Grã-Bretanha, ficarão obrigados a responder militarmente”.

Claro que não há nenhuma possibilidade realista de a Rússia empreender esse tipo de ação, mas a Ucrânia continua a ser estado altamente instável e volátil. Se as coisas piorarem na Ucrânia, se irromper conflito civil naquele país, pode acontecer de a Rússia ficar sem alternativa, exceto intervir para proteger os russos étnicos. Nesse caso, a OTAN e o lobby da Defesa com certeza se servirão desse pretexto para arrancar até o último dólar possível para aumentar os gastos de defesa e expandir a “missão” da OTAN, para fazer frente a uma alguma “ameaça russa” ressurgente.

A estratégia de desescalada de Obama, portanto, continua altamente exposta à ação dos grupos de interesse da Defesa, a pressões que a OTAN fará, à nostalgia da Guerra Fria – e de eventos internos que podem brotar de dentro do sistema norte-americano, como se vê no seguinte incidente, dessa semana: o banco J. P. Morgan bloqueou uma transferência oficial de dinheiro russo, sob o pretexto de que a transferência desrespeitaria as sanções anti-Rússia impostas pelos EUA.

Sergey Lavrov, MRE da Rússia
Diferente da reação que se viu no caso de sanções anteriores que o ocidente impôs à Rússia, e que viraram objeto de piada no establishment russo, a Rússia, dessa vez, ficou furiosa: segundo a rede Bloomberg, o Ministro de Relações Exteriores da Rússia classificou a ação do banco JP Morgan como “ilegal e absurda”. Imediatamente depois a transferência foi “desbloqueada” e completada normalmente. Mas, se não tivesse acontecido assim, a ação do Banco JPM poderia desencadear uma guerra “de moedas”, (a Rússia poderia separar-se do dólar para seus pagamentos de energia), o que provavelmente geraria resposta-retaliação pelos EUA, que tomaria por alvo as vendas de gás e petróleo russos (como alguns já pregam, no Congresso dos EUA).

Vladimir Putin
Parece não haver dúvidas de que o presidente Obama não dá sinais de desistir da via que escolheu, mas há muitos e tais “fatores automáticos de desestabilização” (no que tenham a ver com a Rússia e com o presidente Putin) dentro do sistema dos EUA! A lista é longa: NED (National Endowment for Democracy), USAID, Departamento de Estado, a CIA, os grupos de lobby da Rua “K” e as Forças Especiais, os quais, todos esses, usam hoje elementos de operações clandestinas que, antes, eram de uso exclusivo pela CIA, para desestabilizar os inimigos dos EUA; evento como o do Banco JP Morgan, que se dá o direito de aplicar sanções suas contra o estado russo, numa transação financeira oficial, sempre se podem repetir. Num caso desse tipo, o Oriente Médio ver-se-á na linha de frente, exposto a todos os ataques, de duas guerras: uma “guerra” contra o dólar e uma guerra contra os oleogasodutos, as quais duas guerras terão implicações profundas.

Será que os líderes ocidentais realmente creem na própria retórica, quando dizem que Putin tem ambições expansionistas e quer reconstruir o Império Soviético? Será que Hillary Clinton, ex-secretária de Estado dos EUA acredita no que disse, que as ações da Rússia na Crimeia seriam “iguais ao que Hitler fez nos anos 1930s”?

Frank Furedi
Frank Furedi, ao responder a uma pergunta, feita por um jornalista russo, interessado em saber por que o ocidente recusa-se a admitir ou reconhecer o seu próprio papel na construção da crise na Ucrânia, disse que chegou “à conclusão nada confortável de que os motivos por trás da demonização da Rússia são decorrência de convicções sinceras.

“Claro que há muita propaganda, distorções propositais e muita fantasia nessa campanha” – prossegue Furedi – mas a ideia geral que a campanha manifesta foi tão profundamente internalizada por tantos no ocidente, que, agora, já constitui a realidade deles, uma espécie de para-realidade”.

De fato, Obama deu voz a essa narrativa de uma ascensão histórica linear convergindo na direção de valores partilhados do Iluminismo, no discurso de Bruxelas. (Naquele momento, argumentamos que Obama fora obrigado a tomar essa via, para, no mínimo, conseguir demarcar alguma diferença em relação à narrativa dos russos, que denunciavam a cumplicidade da União Europeia na desestabilização da Ucrânia).

Mas Furedi adverte: a postura estreita, de moralismo raso, que essa narrativa de Obama promove, representa real perigo de escalada contra a Rússia e, portanto, de escalada contra a estabilidade global.




[*] Conflicts Fórum visa mudar a opinião ocidental em direção a uma compreensão mais profunda, menos rígida, linear e compartimentada do Islã e do Oriente Médio. Faz isso por olhar para as causas por trás narrativas contrastantes: observando como as estruturas de linguagem e interpretações que são projetadas para eventos de um modelo de expectativas anteriores discretamente determinam a forma como pensamos - atravessando as pré-suposições, premissas ocultas e até mesmo metafísicas enterradas que se escondem por trás de certas narrativas, desafiando interpretações ocidentais de “extremismo” e as políticas resultantes; e por trabalhar com grupos políticos, movimentos e estados para abrir um novo pensamento sobre os potenciais políticos no mundo.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Diplomacia infantilóide e neodemonização da Rússia

24/3/2014, [*] Frank Furedi, Spiked Online e 30/3/2014, 4th Media, Pequim
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

A arrogância autista dos neodemonizadores da Rússia no ocidente é espantosa.

Vladimir Putin
Será que diplomatas e jornalistas ocidentais falam sério quando acusam o governo russo de estar lançando uma nova Guerra Fria? Será que realmente acreditam em sua própria retórica, quando dizem que Putin tem ambições expansionistas e quer reconstruir o Império Soviético?

Será que Hillary Clinton, ex-secretária de Estado dos EUA falava a sério quando disse que as ações da Rússia na Crimeia seriam semelhantes “ao que Hitler fez antes, nos anos 1930s”? Outros observadores anti-Rússia disseram também que a incorporação da Crimeia na Rússia seria análoga à anexação da Áustria pela Alemanha nazista nos anos 1930s. Será que toda essa gente acredita sinceramente na própria interpretação dos atuais eventos geopolíticos?

É sempre difícil, se não perigoso, especular sobre o processo mental que leva diplomatas poderosos e líderes políticos a dizer certas coisas. É especialmente difícil dar conta do significado da dinâmica que converteu a crise na Ucrânia em perigosa disputa internacional.

Em entrevista recente, um jornalista russo perguntou-me por que a imprensa-empresa ocidental tornara-se tão descuidada no trabalho de checar informações sobre a Ucrânia e, em geral, sobre a Rússia. Senti-me sem argumentos para responder e fui forçado a pedir tempo para pensar melhor.

Depois de analisar as declarações sobre a Ucrânia feitas por diplomatas ocidentais ao longo das duas últimas semanas, cheguei à conclusão, nada confortável, de que os motivos por trás da demonização da Rússia são decorrência de convicções sinceras. [1] Claro que há muita propaganda, distorções propositais e muita fantasia nessa campanha – mas a ‘'ideia geral'’ que a campanha manifesta foi tão profundamente internalizada por tantos no ocidente, que, agora, já constitui a realidade deles, uma espécie de para-realidade.

E o fato de que uma nova ninhada de pressupostos cruzados da Guerra Fria tenham-se autoconvencidos da ‘'verdade'’ da própria retórica pode ter consequências ainda mais desestabilizadoras do que se a campanha fosse só exemplo cínico de realpolitik à moda antiga. A realpolitik tinha o mérito, pelo menos, de ter raízes plantadas no mundo real; a atual campanha anti-Rússia, ao contrário, é baseada em confusão generalizada e, ainda pior, em autoengano.

A hitlerização infantil de Putin
Dois pesos e duas medidas

O autoengano do qual padece a atual diplomacia ocidental pode ser mais claramente percebido no modo como aplica dois pesos e duas medidas em suas avaliações dos assuntos globais. O autoengano simplório, quase infantil, do modo como o ocidente se posiciona em relação à Rússia foi-me apresentado, bem visível, em maio passado, numa visita a Budapeste. Depois de várias reuniões sobre o papel dos jovens na sociedade civil, tive oportunidade de conversar com jovens norte-americanos empregados de uma ONG que tem sede nos EUA e que trabalhavam na Rússia.

Durante a conversa, uma jovem ongueira, de Seattle, disse que muito se surpreendera ao descobrir que alguns funcionários do governo russo a tratavam como se ela fosse “agente de uma potência estrangeira”. Vários colegas dela também se mostravam muito surpresos ante o fato de eles e a ONG para a qual trabalham serem tratados pelos russos... ora bolas!... como o que eles e elas realmente são: empregados de organizações que promovem os valores norte-americanos em outros países.

Quando me mostrei surpreso ante a reação deles, e perguntei “Mas vocês não sabem que trabalham para uma organização estrangeira e, ainda mais importante, para uma organização que critica muito ativamente o governo do país onde vocês estão trabalhando?”, eles e elas simplesmente não entenderam a pergunta. Quando perguntei: “E como o governo dos EUA classificaria uma ONG russa que estivesse promovendo valores da Igreja Grego Ortodoxa nas ruas de NY”?, ninguém me respondeu.

Só quando perguntei qual seria a reação do governo do país deles, se um grupo de ongueiros de ONGs russas tivesse oferecido ajuda financeira e de pessoal para o movimento Occupy ou para o Tea Party, um dos meus interlocutores, afinal, reconheceu que eu talvez tivesse alguma razão.

O movimento Occupy Wall Street em New York City
Essa minha experiência em Budapeste mostrou-me o quanto é profunda a pressuposição autista, autorreferente, de autoperfeição, nas ações, e de retidão, nos próprios motivos, entre esses agentes que promovem valores ocidentais; a tal ponto, que jovens muito inteligentes, nem por isso, conseguiam ver que, claramente, estavam-se servindo de dois pesos e duas medidas: promover valores norte-americanos na Rússia seria “certo”; mas promover valores russos nos EUA seria “errado”. Por que pensam assim? Porque essa diplomacia de dois pesos e duas medidas é construída sobre o implícito de que haveria diferença essencial entre os países, no plano moral.

Esse pressuposto autorizaria os líderes ocidentais a “dar aulas” aos seus contrapartes estrangeiros sobre comportamentos certos e errados, aceitáveis e não aceitáveis. Diplomacia de dois pesos e duas medidas, que leva um lado a tratar o outro como se o outro lado fosse criança ou, no limite, como se fosse perfeito imbecil.

Observem, por exemplo, o à vontade com que importantes líderes políticos dos EUA e da União Europeia apareceram em Kiev, há poucas semanas, para manifestar sua solidariedade aos manifestantes golpistas.

Imaginem a reação, nos EUA e na Grã-Bretanha, se Putin ou algum alto governante russo aparecesse, distribuindo sanduíches em praças, no auge do movimento Occupy ou durante os tumultos de rua em Londres, e declarasse o apoio do governo russo aos grupos na rua. O ultraje seria cataclísmico. Mas, graças à diplomacia de dois pesos e duas medidas, com a Rússia tratada como se fosse criança, os líderes norte-americanos não veem problema algum em agir de modo que considerariam inaceitável, em outros.

Num ambiente global, onde o tráfego (tráfico?) cultural cresce sempre mais numa direção que na outra, com pequena variação e praticamente nenhuma oposição ativa, a Rússia é demonizada como sociedade atrasada e moralmente inferior, a ser condenada e, se necessário, a ser castigada, até que se modifique e aceite como seus os valores de seus críticos iluminados. E como ficam as coisas se o povo russo tiver outro padrão moral, diferente do que reina em Washington, Londres ou Hollywood? Pouco importa aos diplomatas que só sabem ver o próprio umbigo, especialistas em moral dupla, que querem-porque-querem que todos vejam o mundo como eles veem.

O ethos dos dois pesos e duas medidas é particularmente danoso no campo político. Formalmente, as elites culturais e políticas que dominam a sociedade ocidental creem nos ideais da democracia representativa. E falam da democracia representativa como pré-requisito para uma sociedade aberta.

Infortunadamente, contudo, a atual coorte de líderes ocidentais adotaram, de fato, uma atitude altamente seletiva e desonesta em relação à democracia. Entendem que eleições são maravilhosas, se eles são eleitos, ou partido ou candidato aprovado por eles. Se um partido não apreciado pelos iluminados diplomatas ocidentais vence eleições, então, para os norte-americanos, o processo democrático teria falhado; e os norte-americanos passam a trabalhar para a “mudança de regime” mediante golpe; e o golpe se torna(ria) solução legítima.

Assim, em dezembro de 1991, a Frente de Salvação Islamista obteve vasta maioria dos votos – 181 cadeiras, de 231 – no primeiro turno das primeiras eleições legislativas livres na Argélia. O exército da Argélia reagiu com cancelamento das eleições e entregou o poder a uma comissão de cinco membros não eleitos. Ouviu-se um suspiro de alívio no ocidente e – surpresa, surpresa! – nenhuma sanção foi imposta à Argélia em resposta àquele golpe de estado.

Ano passado, foi a vez de o Egito descobrir que, quando são eleitos “os errados”, o ocidente num segundo esquece seu compromisso com o princípio da democracia representativa. Outra vez, o golpe militar no Egito derrubou o islamista Mohamed Mursi; e outra vez não se ouviu qualquer pregação, pelos políticos ocidentais, em defesa das virtudes das instituições democráticas.

E assim chegamos à Ucrânia. O governo livremente eleito do presidente Yanukovich foi derrubado pelo que se conhece convencionalmente como golpe, ilegal; pois para a imprensa-empresa ocidental a coisa não passou de “desenvolvimento democrático”. Hoje, temos uma situação na qual a imprensa-empresa ocidental apresenta o novo governo ucraniano como entidade legal e, ao mesmo tempo, diz que o regime legal que realizou um referendo na Crimeia seria regime ilegal. Extraordinários dois pesos e duas medidas!

Claro, os que foram escolhidos pelo povo na Argélia, Egito e Ucrânia ao longo das décadas recentes não eram democratas agradáveis, de ideias arejadas. Nos últimos anos, os governos da Ucrânia, incluído o de Yanukovich, apresentaram poucas qualidades recomendáveis. Yanukovich, como virtualmente toda a elite política ucraniana, é membro de uma oligarquia corrupta e interesseira.

Mas, diferente de Oleksander Turchynov, que foi posto em seu lugar, Yanukovich, pelo menos, é oligarca eleito! Se os governos ocidentais agem como se não houvesse problema algum em derrubar governos eleitos que não os satisfaçam, o que aqueles governos ocidentais fazem e minar a autoridade moral da própria democracia.

Por isso na Ucrânia hoje a maior ameaça à democracia vem do comportamento dos que são cúmplices na desestabilização e no golpe que derrubou regime democraticamente eleito. Os que protestaram em Kiev tinham todo o direito de protestar e desafiar o governo. Mas, se o veredito das urnas pode ser tão facilmente desmoralizado, o maior problema é que a genuína política democrática está sendo desmoralizada. A política de dois pesos e duas medidas de Washington e da União Europeia em Kiev desmoraliza a autoridade da política democrática em toda aquela região.

Diplomacia Ocidental Infantil
Diplomatas infantilóides

Qualquer pessoa que acredite no que vê e lê na mídia ocidental encontrará motivos para pensar que a Rússia seria potência expansionista e agressiva, à espera de uma chance para capturar o vizinho estado da Ucrânia. Nada mais falso. A realidade é que, apesar de uma ou outra posição nacionalista do presidente Putin, a Rússia está convertida em potência em status quo defensivo clássico. Desde a ruptura da União Soviética, a Rússia viveu um processo no qual seu poder e influência só diminuíram.

A Rússia lutou para preservar posições no Cáucaso e enfrenta movimento islamista radical muito maior que qualquer das forças que desafiam diretamente as sociedades ocidentais. E em seu front oeste, a Rússia sente-se ameaçada por pressões políticas e culturais que lhe chegam da Europa. Nessas circunstâncias, é compreensível que muitos, na elite russa, sintam que próprio tecido nacional russo esteja sendo esgarçado.

A principal realização do ocidente, especificamente da diplomacia da União Europeia na Ucrânia, foi empurrar a Rússia para posição ainda mais defensiva. A ação da Rússia na Crimeia é, pelo menos em parte, uma reação ao que os russos percebem como interferência estrangeira sistemática na Ucrânia. Mas... o que a União Europeia esperava que acontecesse, quando tentou anexar a Ucrânia à sua esfera de influência?

Stephen Cohen
Como o professor Stephen Cohen observou, esse perigoso conflito foi desencadeado:

(...) pelo temerário ultimato, em novembro, feito pela União Europeia, para que um presidente democraticamente eleito em país profundamente dividido, escolhesse entre Europa e Rússia .

O ocidente alega que já vão longe os velhos tempos do século 20, quando potências globais buscavam consolidar e dominar suas esferas de influência. Mas, desde o esfacelamento da União Soviética, o que sempre se viu foram tentativas sistemáticas para aproximar das fronteiras da Rússia, cada vez mais, a esfera de influência ocidental. A linha que dividia Leste e Oeste mudou de lugar: saiu do meio de Berlim, para a fronteira da Rússia.

Nenhum russo, hoje, dará sinais de paranoia se sentir que seu país está sendo cercado e lentamente minado por forças hostis à sua própria existência. Diplomatas ocidentais que não percebam nem isso são, esses sim, os paranoicos que já perderam completamente o contato com a realidade geopolítica.

A União Europeia e os EUA agem como se não tivessem nenhuma responsabilidade pela crise na Ucrânia e pelas tensões nas relações entre o ocidente e a Rússia. É possível que o ocidente se tenha autoenganado a tal ponto sobre os assuntos globais, que já nem consiga ver o quanto o próprio ocidente é cúmplice na atual crise. Esse autoengano delirante implica que as regras normais que regem as relações internacionais já nada regem, substituídas por “sermões” e pregações do moralismo mais oco, sempre interessado em gerar a reação mais bombástica, na mídia.

Essa corrosão da diplomacia ocidental é hoje um real perigo a ameaçar a estabilidade global. Ela mina também a autoridade moral da democracia. Num certo ponto, a política dos dois pesos e duas medidas em assuntos internacionais desmoralizará a tal ponto os ideais democráticos, que até a integridade das instituições democráticas dos próprios países agressores também ruirá, minada por dentro.
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Nota dos tradutores
[1] Impossível não lembrar Film Socialisme (Godard, 2010): “O que nunca muda é que sempre haverá fascistas. O que mudou hoje é que os fascistas são sinceros”) [aqui traduzido]. Trailer a seguir:

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[*] Frank Furedi (nascido em 1947, em Budapeste , Hungria) é Professor Emérito de Sociologia na Universidade de Kent, Reino Unido. É conhecido por seus trabalhos sobre Sociologia do Medo, Educação, Terapia pela Cultura, Paranoia Parental e Sociologia do Conhecimento.
Nos últimos anos, seu trabalho tem sido orientado para explorar a Sociologia do Risco e Baixas Expectativas. Furedi, autor de vários livros sobre o tema, mais recentemente escreveu Wasted: Why Education Isn't Educating (Continuum 2009) e Invitation to Terror: The Expanding Empire of the Unknown (Continuum 2007), uma análise do impacto do terrorismo pós 9 / 11. Suas publicações mais recentes: On Tolerance: A Defence of Moral Independence (Continuum 2011) e Authority: A Sociological Introduction (Cambridge University Press), debatendo os problemas de inter-relacionamento entre liberdade e autoridade. Ele é, segundo pesquisas, o sociólogo mais citado na imprensa britânica.