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segunda-feira, 31 de março de 2014

Diplomacia infantilóide e neodemonização da Rússia

24/3/2014, [*] Frank Furedi, Spiked Online e 30/3/2014, 4th Media, Pequim
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

A arrogância autista dos neodemonizadores da Rússia no ocidente é espantosa.

Vladimir Putin
Será que diplomatas e jornalistas ocidentais falam sério quando acusam o governo russo de estar lançando uma nova Guerra Fria? Será que realmente acreditam em sua própria retórica, quando dizem que Putin tem ambições expansionistas e quer reconstruir o Império Soviético?

Será que Hillary Clinton, ex-secretária de Estado dos EUA falava a sério quando disse que as ações da Rússia na Crimeia seriam semelhantes “ao que Hitler fez antes, nos anos 1930s”? Outros observadores anti-Rússia disseram também que a incorporação da Crimeia na Rússia seria análoga à anexação da Áustria pela Alemanha nazista nos anos 1930s. Será que toda essa gente acredita sinceramente na própria interpretação dos atuais eventos geopolíticos?

É sempre difícil, se não perigoso, especular sobre o processo mental que leva diplomatas poderosos e líderes políticos a dizer certas coisas. É especialmente difícil dar conta do significado da dinâmica que converteu a crise na Ucrânia em perigosa disputa internacional.

Em entrevista recente, um jornalista russo perguntou-me por que a imprensa-empresa ocidental tornara-se tão descuidada no trabalho de checar informações sobre a Ucrânia e, em geral, sobre a Rússia. Senti-me sem argumentos para responder e fui forçado a pedir tempo para pensar melhor.

Depois de analisar as declarações sobre a Ucrânia feitas por diplomatas ocidentais ao longo das duas últimas semanas, cheguei à conclusão, nada confortável, de que os motivos por trás da demonização da Rússia são decorrência de convicções sinceras. [1] Claro que há muita propaganda, distorções propositais e muita fantasia nessa campanha – mas a ‘'ideia geral'’ que a campanha manifesta foi tão profundamente internalizada por tantos no ocidente, que, agora, já constitui a realidade deles, uma espécie de para-realidade.

E o fato de que uma nova ninhada de pressupostos cruzados da Guerra Fria tenham-se autoconvencidos da ‘'verdade'’ da própria retórica pode ter consequências ainda mais desestabilizadoras do que se a campanha fosse só exemplo cínico de realpolitik à moda antiga. A realpolitik tinha o mérito, pelo menos, de ter raízes plantadas no mundo real; a atual campanha anti-Rússia, ao contrário, é baseada em confusão generalizada e, ainda pior, em autoengano.

A hitlerização infantil de Putin
Dois pesos e duas medidas

O autoengano do qual padece a atual diplomacia ocidental pode ser mais claramente percebido no modo como aplica dois pesos e duas medidas em suas avaliações dos assuntos globais. O autoengano simplório, quase infantil, do modo como o ocidente se posiciona em relação à Rússia foi-me apresentado, bem visível, em maio passado, numa visita a Budapeste. Depois de várias reuniões sobre o papel dos jovens na sociedade civil, tive oportunidade de conversar com jovens norte-americanos empregados de uma ONG que tem sede nos EUA e que trabalhavam na Rússia.

Durante a conversa, uma jovem ongueira, de Seattle, disse que muito se surpreendera ao descobrir que alguns funcionários do governo russo a tratavam como se ela fosse “agente de uma potência estrangeira”. Vários colegas dela também se mostravam muito surpresos ante o fato de eles e a ONG para a qual trabalham serem tratados pelos russos... ora bolas!... como o que eles e elas realmente são: empregados de organizações que promovem os valores norte-americanos em outros países.

Quando me mostrei surpreso ante a reação deles, e perguntei “Mas vocês não sabem que trabalham para uma organização estrangeira e, ainda mais importante, para uma organização que critica muito ativamente o governo do país onde vocês estão trabalhando?”, eles e elas simplesmente não entenderam a pergunta. Quando perguntei: “E como o governo dos EUA classificaria uma ONG russa que estivesse promovendo valores da Igreja Grego Ortodoxa nas ruas de NY”?, ninguém me respondeu.

Só quando perguntei qual seria a reação do governo do país deles, se um grupo de ongueiros de ONGs russas tivesse oferecido ajuda financeira e de pessoal para o movimento Occupy ou para o Tea Party, um dos meus interlocutores, afinal, reconheceu que eu talvez tivesse alguma razão.

O movimento Occupy Wall Street em New York City
Essa minha experiência em Budapeste mostrou-me o quanto é profunda a pressuposição autista, autorreferente, de autoperfeição, nas ações, e de retidão, nos próprios motivos, entre esses agentes que promovem valores ocidentais; a tal ponto, que jovens muito inteligentes, nem por isso, conseguiam ver que, claramente, estavam-se servindo de dois pesos e duas medidas: promover valores norte-americanos na Rússia seria “certo”; mas promover valores russos nos EUA seria “errado”. Por que pensam assim? Porque essa diplomacia de dois pesos e duas medidas é construída sobre o implícito de que haveria diferença essencial entre os países, no plano moral.

Esse pressuposto autorizaria os líderes ocidentais a “dar aulas” aos seus contrapartes estrangeiros sobre comportamentos certos e errados, aceitáveis e não aceitáveis. Diplomacia de dois pesos e duas medidas, que leva um lado a tratar o outro como se o outro lado fosse criança ou, no limite, como se fosse perfeito imbecil.

Observem, por exemplo, o à vontade com que importantes líderes políticos dos EUA e da União Europeia apareceram em Kiev, há poucas semanas, para manifestar sua solidariedade aos manifestantes golpistas.

Imaginem a reação, nos EUA e na Grã-Bretanha, se Putin ou algum alto governante russo aparecesse, distribuindo sanduíches em praças, no auge do movimento Occupy ou durante os tumultos de rua em Londres, e declarasse o apoio do governo russo aos grupos na rua. O ultraje seria cataclísmico. Mas, graças à diplomacia de dois pesos e duas medidas, com a Rússia tratada como se fosse criança, os líderes norte-americanos não veem problema algum em agir de modo que considerariam inaceitável, em outros.

Num ambiente global, onde o tráfego (tráfico?) cultural cresce sempre mais numa direção que na outra, com pequena variação e praticamente nenhuma oposição ativa, a Rússia é demonizada como sociedade atrasada e moralmente inferior, a ser condenada e, se necessário, a ser castigada, até que se modifique e aceite como seus os valores de seus críticos iluminados. E como ficam as coisas se o povo russo tiver outro padrão moral, diferente do que reina em Washington, Londres ou Hollywood? Pouco importa aos diplomatas que só sabem ver o próprio umbigo, especialistas em moral dupla, que querem-porque-querem que todos vejam o mundo como eles veem.

O ethos dos dois pesos e duas medidas é particularmente danoso no campo político. Formalmente, as elites culturais e políticas que dominam a sociedade ocidental creem nos ideais da democracia representativa. E falam da democracia representativa como pré-requisito para uma sociedade aberta.

Infortunadamente, contudo, a atual coorte de líderes ocidentais adotaram, de fato, uma atitude altamente seletiva e desonesta em relação à democracia. Entendem que eleições são maravilhosas, se eles são eleitos, ou partido ou candidato aprovado por eles. Se um partido não apreciado pelos iluminados diplomatas ocidentais vence eleições, então, para os norte-americanos, o processo democrático teria falhado; e os norte-americanos passam a trabalhar para a “mudança de regime” mediante golpe; e o golpe se torna(ria) solução legítima.

Assim, em dezembro de 1991, a Frente de Salvação Islamista obteve vasta maioria dos votos – 181 cadeiras, de 231 – no primeiro turno das primeiras eleições legislativas livres na Argélia. O exército da Argélia reagiu com cancelamento das eleições e entregou o poder a uma comissão de cinco membros não eleitos. Ouviu-se um suspiro de alívio no ocidente e – surpresa, surpresa! – nenhuma sanção foi imposta à Argélia em resposta àquele golpe de estado.

Ano passado, foi a vez de o Egito descobrir que, quando são eleitos “os errados”, o ocidente num segundo esquece seu compromisso com o princípio da democracia representativa. Outra vez, o golpe militar no Egito derrubou o islamista Mohamed Mursi; e outra vez não se ouviu qualquer pregação, pelos políticos ocidentais, em defesa das virtudes das instituições democráticas.

E assim chegamos à Ucrânia. O governo livremente eleito do presidente Yanukovich foi derrubado pelo que se conhece convencionalmente como golpe, ilegal; pois para a imprensa-empresa ocidental a coisa não passou de “desenvolvimento democrático”. Hoje, temos uma situação na qual a imprensa-empresa ocidental apresenta o novo governo ucraniano como entidade legal e, ao mesmo tempo, diz que o regime legal que realizou um referendo na Crimeia seria regime ilegal. Extraordinários dois pesos e duas medidas!

Claro, os que foram escolhidos pelo povo na Argélia, Egito e Ucrânia ao longo das décadas recentes não eram democratas agradáveis, de ideias arejadas. Nos últimos anos, os governos da Ucrânia, incluído o de Yanukovich, apresentaram poucas qualidades recomendáveis. Yanukovich, como virtualmente toda a elite política ucraniana, é membro de uma oligarquia corrupta e interesseira.

Mas, diferente de Oleksander Turchynov, que foi posto em seu lugar, Yanukovich, pelo menos, é oligarca eleito! Se os governos ocidentais agem como se não houvesse problema algum em derrubar governos eleitos que não os satisfaçam, o que aqueles governos ocidentais fazem e minar a autoridade moral da própria democracia.

Por isso na Ucrânia hoje a maior ameaça à democracia vem do comportamento dos que são cúmplices na desestabilização e no golpe que derrubou regime democraticamente eleito. Os que protestaram em Kiev tinham todo o direito de protestar e desafiar o governo. Mas, se o veredito das urnas pode ser tão facilmente desmoralizado, o maior problema é que a genuína política democrática está sendo desmoralizada. A política de dois pesos e duas medidas de Washington e da União Europeia em Kiev desmoraliza a autoridade da política democrática em toda aquela região.

Diplomacia Ocidental Infantil
Diplomatas infantilóides

Qualquer pessoa que acredite no que vê e lê na mídia ocidental encontrará motivos para pensar que a Rússia seria potência expansionista e agressiva, à espera de uma chance para capturar o vizinho estado da Ucrânia. Nada mais falso. A realidade é que, apesar de uma ou outra posição nacionalista do presidente Putin, a Rússia está convertida em potência em status quo defensivo clássico. Desde a ruptura da União Soviética, a Rússia viveu um processo no qual seu poder e influência só diminuíram.

A Rússia lutou para preservar posições no Cáucaso e enfrenta movimento islamista radical muito maior que qualquer das forças que desafiam diretamente as sociedades ocidentais. E em seu front oeste, a Rússia sente-se ameaçada por pressões políticas e culturais que lhe chegam da Europa. Nessas circunstâncias, é compreensível que muitos, na elite russa, sintam que próprio tecido nacional russo esteja sendo esgarçado.

A principal realização do ocidente, especificamente da diplomacia da União Europeia na Ucrânia, foi empurrar a Rússia para posição ainda mais defensiva. A ação da Rússia na Crimeia é, pelo menos em parte, uma reação ao que os russos percebem como interferência estrangeira sistemática na Ucrânia. Mas... o que a União Europeia esperava que acontecesse, quando tentou anexar a Ucrânia à sua esfera de influência?

Stephen Cohen
Como o professor Stephen Cohen observou, esse perigoso conflito foi desencadeado:

(...) pelo temerário ultimato, em novembro, feito pela União Europeia, para que um presidente democraticamente eleito em país profundamente dividido, escolhesse entre Europa e Rússia .

O ocidente alega que já vão longe os velhos tempos do século 20, quando potências globais buscavam consolidar e dominar suas esferas de influência. Mas, desde o esfacelamento da União Soviética, o que sempre se viu foram tentativas sistemáticas para aproximar das fronteiras da Rússia, cada vez mais, a esfera de influência ocidental. A linha que dividia Leste e Oeste mudou de lugar: saiu do meio de Berlim, para a fronteira da Rússia.

Nenhum russo, hoje, dará sinais de paranoia se sentir que seu país está sendo cercado e lentamente minado por forças hostis à sua própria existência. Diplomatas ocidentais que não percebam nem isso são, esses sim, os paranoicos que já perderam completamente o contato com a realidade geopolítica.

A União Europeia e os EUA agem como se não tivessem nenhuma responsabilidade pela crise na Ucrânia e pelas tensões nas relações entre o ocidente e a Rússia. É possível que o ocidente se tenha autoenganado a tal ponto sobre os assuntos globais, que já nem consiga ver o quanto o próprio ocidente é cúmplice na atual crise. Esse autoengano delirante implica que as regras normais que regem as relações internacionais já nada regem, substituídas por “sermões” e pregações do moralismo mais oco, sempre interessado em gerar a reação mais bombástica, na mídia.

Essa corrosão da diplomacia ocidental é hoje um real perigo a ameaçar a estabilidade global. Ela mina também a autoridade moral da democracia. Num certo ponto, a política dos dois pesos e duas medidas em assuntos internacionais desmoralizará a tal ponto os ideais democráticos, que até a integridade das instituições democráticas dos próprios países agressores também ruirá, minada por dentro.
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Nota dos tradutores
[1] Impossível não lembrar Film Socialisme (Godard, 2010): “O que nunca muda é que sempre haverá fascistas. O que mudou hoje é que os fascistas são sinceros”) [aqui traduzido]. Trailer a seguir:

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[*] Frank Furedi (nascido em 1947, em Budapeste , Hungria) é Professor Emérito de Sociologia na Universidade de Kent, Reino Unido. É conhecido por seus trabalhos sobre Sociologia do Medo, Educação, Terapia pela Cultura, Paranoia Parental e Sociologia do Conhecimento.
Nos últimos anos, seu trabalho tem sido orientado para explorar a Sociologia do Risco e Baixas Expectativas. Furedi, autor de vários livros sobre o tema, mais recentemente escreveu Wasted: Why Education Isn't Educating (Continuum 2009) e Invitation to Terror: The Expanding Empire of the Unknown (Continuum 2007), uma análise do impacto do terrorismo pós 9 / 11. Suas publicações mais recentes: On Tolerance: A Defence of Moral Independence (Continuum 2011) e Authority: A Sociological Introduction (Cambridge University Press), debatendo os problemas de inter-relacionamento entre liberdade e autoridade. Ele é, segundo pesquisas, o sociólogo mais citado na imprensa britânica.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Obama faz uma oferta no caso da Crimeia

13/3/2014, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Paraquedistas saem de base na Ásia Central para a Crimeia em 11/3/2014 (RIA Novosti)
Quando um especialista em Rússia, de grande reputação, Stephen Cohen da New York University, diz que os EUA estão a dois passos de uma Crise dos Mísseis de Cuba e, pela primeira vez, a três passos de uma guerra contra a Rússia, as coisas parecem sombrias. Cohen insiste: “Temos de conseguir pôr em andamento uma negociação...”. [1]

Mas os EUA estão-se preparando para confronto militar com a Rússia? Parece, mais, que está em andamento uma campanha diplomática para isolar a Rússia. Os telefonemas do presidente Barack Obama a seus contrapartes, o chinês e o cazaque, na 2ª-feira, não são coisas de rotina.

Os EUA esperam empurrar China e Cazaquistão para posição de neutralidade. Obama tocou numa corda sensível para ambas as capitais, Pequim e Astana – a santidade da integridade territorial dos estados-nação.

Nursultan Nazarbayev
Significativamente, Obama conclamou o presidente Nursultan Nazarbayev do Cazaquistão a assumir papel “ativo” na crise da Ucrânia. Depois disso, a imprensa-empresa norte-americana tem insinuado que Nazarbayev teria cancelado visita marcada a Moscou, na 3ª-feira (11/3/2014).

No que tenha a ver com os EUA, a visita do primeiro-ministro do governo de Kiev, Arsenyii Iatsenyuk, à Casa Branca e ao Capitólio ontem (4ª-feira, 12/3/2014) é o fecho da história, quero dizer, significa que o novo governo de Kiev recebeu legitimação internacional.

Em resumo: a partir desse ponto, se o referendo na Crimeia seguir adiante como planejado, haverá pouco o que discutir com a Rússia. Na 5ª-feira (13/3/2014), Iatsenyuk deve falar ao Conselho de Segurança da ONU em New York, ao mesmo tempo em que uma delegação do Congresso dos EUA, liderada pelo irascível senador McCain chega a Kiev.

Preveem-se discursos fortes. Outra vez, o real significado da Resolução aprovada na Câmara de Deputados dos EUA na 3ª-feira (11/3/2014), condenando a “intervenção” russa na Crimeia, está no grande apoio que recebeu. Baseado nisso, o establishment político de Washington exige que Obama seja duro no caso da Ucrânia.

Mas até aqui, além de declarações fortes, há bem pouco que os EUA possam fazer para deter a Rússia. Até aqui, as sanções não têm capacidade para realmente cortar fundo.

Enquanto isso, o Parlamento em Kiev invocou as promessas de segurança feitas por EUA e Grã-Bretanha em 1994, como garantidores da soberania da Ucrânia, para que usem todas as medidas, inclusive militares, para conter a “agressão” da Rússia. Tecnicamente, se militares de EUA e/ou Grã-Bretanha se envolverem, a OTAN estará automaticamente envolvida.

AWACS - Airborne Warning And Control System
Na 2ª-feira (10/3/2014), a OTAN também anunciou sua intenção de mobilizar equipamento aéreo embarcado de reconhecimento [orig. AWACS] na Polônia e na Romênia, “para aumentar o conhecimento situacional da aliança”. Na 3ª-feira (11/3/2014), a Rússia iniciou manobras massivas envolvendo uma divisão aérea embarcada em condições de combate simulado.

Mas... o que mais podem fazer EUA ou OTAN?

O fato que não podem alterar é que o exército ucraniano não obedecerá ordens dos novos líderes em Kiev.

Mais importante: os comandantes militares ucranianos que foram treinados na Rússia, e mantêm relação muito próxima com seus contrapartes russos, jamais combaterão contra forças armadas russas.

Isso significa que, se EUA ou OTAN quiserem intervir militarmente em futuro próximo, terão de agir eles mesmos, quer dizer, terão de pôr os próprios coturnos em solo, como se diz.

Dito em termos simples, é ideia inconcebível, num momento em que dois terços da opinião pública britânica opõe-se a qualquer intervenção do Reino Unido na Ucrânia.

Em termos ainda mais claros, portanto, se o referendo na Crimeia decidir a favor de uma integração à Rússia, e se Moscou aceitar a integração, nada haverá que EUA ou seus aliados da OTAN possam fazer para impedir. O governo Obama parece bem consciente dos limites do que os EUA podem fazer para retaliar contra a Rússia.

Na conferência de imprensa em que Obama apareceu ao lado de Iatsenyuk na Casa Branca ontem (4ª-feira, 12/3), Obama voltou a “alertar” a Rússia sobre consequências à vista. Mas – e é muito curioso – usou a expressão “um custo pelas violações da Rússia”, expressão que ele, adiante, elaborou: disse que os EUA têm pronta uma “arquitetura” (...) para aplicar consequências financeiras e econômicas a ações que [Moscou] empreenda”.

Arsenii Iatsenyuk e Barack Obama na Casa Branca em 12/3/2014
Enquanto isso, os EUA anunciaram um pacote de ajuda à Ucrânia que inclui “garantias para um empréstimo de $1 bilhão que pode ajudar a pavimentar o caminho para reformas”, mas que não chega nem perto da proposta que a Rússia apresentou para resgatar a economia ucraniana, de $15 bilhões.

A segunda declaração do G7 distribuída na 5ª-feira (13/3/2014), fala de “outras ações, individualmente e coletivamente” no caso de a Rússia anexar a Crimeia, mas passa longe de qualquer especificação. No momento, o máximo que o G7 pode fazer é suspender a participação dos russos nas reuniões preparatórias para a reunião do G8 em junho, marcada para acontecer na Rússia.

Muito significativamente, a declaração de Obama na conferência de imprensa não tem qualquer traço de postura beligerante, embora tenha dito bem claramente que o apoio dos EUA ao governo da Ucrânia [de fato, sempre disse isso escondendo os EUA por trás da tal “comunidade internacional”; é ler e ver (NTs)] continuará inabalável. Mas limitou-se a falar de apoio moral, político e econômico. Isso é uma coisa.

A segunda coisa é que Obama reconheceu os laços históricos muito próximos que ligam Rússia e Crimeia. E bem profundamente escondida dentro da declaração de Obama há uma sugestão tentadora, de que o futuro status da Crimeia sempre pode ser regulado mediante um processo constitucional (para atender aos interesses russos).

O que Obama não disse, mas pareceu deixar implícito foi que, embora “com a mira de uma arma apontada para você”, as respectivas posições só endurecem; e se uma trilha diplomática puder ser aberta, podem surgir novas possibilidades de uma solução.

Em resumo, Obama, sim, ofereceu uma espécie de saída a Moscou – tanto quanto aos EUA e ao ocidente – por onde escaparem do feio poço da confrontação.

Não há dúvidas de que Moscou avaliará cuidadosamente as nuanças da fala de Obama, e tomará medidas para assegurar que aquelas palavras não são mero diplomatês, mas emanam de avaliação realista do impasse total que se desenvolvendo, pela qual o ocidente poderá ir até ali, mas não adiante daquilo, se a Rússia de fato pisar no acelerador para a anexação da Crimeia.

Em termos imediatos, ainda restam quatro dias antes do referendo na Crimeia. Obama quer que a Rússia pare de agir a favor do referendo, que criaria um ponto sem volta.

Lembra, sim, os navios soviéticos aproximando-se de Cuba, há 52 anos. A Crise dos Mísseis Cubanos só foi esvaziada quando os EUA reconheceram as legítimas preocupações de Moscou com mísseis mirados contra a URSS, e agiram de acordo. Cohen acerta, na sua analogia.



Notas dos tradutores

[1] Russia Expert Stephen Cohen: “Two Steps From Cuban Missiles Crisis” (11/3/2014, Larouchepac) – “Professor de Estudos Russos, Stephen Cohen, em entrevista a Fareed Zakaria, da rede CNN, dia 9/3/2014. Excertos (ing.), aqui traduzidos:

Stephen Cohen
Acho que estamos a dois passos de uma crise como a Crise dos Mísseis Cubanos e, pela primeira vez, a três passos de guerra com a Rússia.

E o prof. Cohen insistiu:

Temos de conseguir começar uma negociação. Ao longo dos últimos 20 anos, os EUA movemos a OTAN diretamente para as fronteiras da Rússia. Há dez anos, Putin anunciou muito claramente “eu não gosto da OTAN juntos às minhas fronteiras, mas, vejam bem, eu tenho duas linhas vermelhas: uma é a Geórgia’ (a ex-república soviética). E Putin entendia que os EUA pisáramos naquela linha vermelha. E houve guerra. Agora Putin está entendendo que pisamos outra vez a linha vermelha noutro ponto, na Ucrânia.  

Respondendo a outra pergunta de Zakaria, Cohen disse:

Eu gostaria de perguntar a todo mundo, inclusive ao presidente dos EUA: “A Rússia tem algum interesse legítimo? A Rússia está de algum modo certa na sua narrativa? Porque temos duas narrativas conflitantes. Agora, Putin quer que nós voltemos a 21 de fevereiro, quando o acordo negociado pelos ministros de Relações Exteriores da ONU foi destruído nas ruas. Ninguém pode fazer a história retroceder. Mas Obama diz que precisamos conversar. E se fizermos isso, acho que as negociações podem começar e posso imaginar uma saída que evitaria a guerra.
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[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Times Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.