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domingo, 25 de janeiro de 2015

Rússia cansou-se de esperar que o Ocidente contenha Kiev

25/1/2015, [*] Alexander Mercouris, Rússia Insider
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Vladimir Putin
Houve muitos dias importantes no conflito ucraniano, mas é possível que 23/1/2015 revele-se um dos mais importantes. Nesse dia, reuniu-se o Conselho de Segurança da Federação Russa. É o principal corpo do qual emanam decisões nos campos de política exterior, defesa e segurança. E as reuniões do CSR são presididas pelo Presidente e Comandante-em-Chefe, Vladimir Putin.

Não há transcrição do que foi dito. O que se sabe é que naquela reunião discutiram a situação na Ucrânia.

A página internet de Putin oferece excertos do discurso de abertura da reunião. Vale a pena reproduzir aqui vários parágrafos:

Boa-tarde, colegas.

Estamos testemunhando deterioração dramática da situação no sudeste da Ucrânia, na República Popular de Donetsk e na República Popular de Lugansk. Quanto a isso, gostaria de repetir aqui a informação de que, há uma semana, na 5ª-feira (15/1/2015), enviei carta ao presidente da Ucrânia, com proposta, por escrito, para retirar armamento pesado – artilharia e lança-foguetes – para distância da qual não possam atingir áreas habitadas.

Gostaria de informar também que essa proposta cobre quase completamente os pedidos de Kiev oficial. Vocês sabem que pode haver uma área disputada ao longo da linha de separação entre as partes em conflito. Sugerimos então que armas e equipamento pesado deveriam ser retirados para a linha que as próprias autoridades de Kiev consideram justa e conforme os acordos firmados em Minsk dia 19/9/2014.

Infelizmente, não recebemos resposta clara à nossa proposta; de fato, vimos a ação contrária, a saber, que o governo de Kiev distribuiu ordem oficial para lançamento de operações de combate de larga escala ao longo de quase todo o perímetro de contato entre os lados opostos.

O resultado: dúzias de mortos e feridos, e não só soldados dos dois lados, mas, e até mais tragicamente, muitas mortes entre a população civil, incluindo crianças, idosos e mulheres. A artilharia, lançadores de foguetes múltiplos e aeronaves atiram indiscriminadamente, diretamente contra áreas densamente habitadas.

Tudo isso vem acompanhado de slogans de propaganda sobre o quanto se busca a paz e procuram identificar os responsáveis. A responsabilidade cabe a quem dá essas ordens criminosas. Quem faz isso deveria saber que não há outro meio para resolver conflitos desse tipo além de conversações de paz e meios políticos. Ouvimos frequentemente, mesmo hoje, de Kiev oficial, que esses seriam os meios preferenciais para tratar dessas questões, mas a realidade é bem outra. Tenho esperança de que esse senso comum venha afinal a prevalecer.

Peço que façamos um minuto de silêncio em homenagem às vítimas, inclusive os mortos num ponto de ônibus em Donetsk. [Segue-se o minuto de silêncio].

A imprensa-empresa ocidental focou-se na parte do discurso em que Putin fala de “ordens criminosas” que levaram militares ucranianos aos bombardeios indiscriminados e ataques contra áreas civis. Sem dúvida são palavras importantes. Mas não são as mais importantes dessa fala do presidente russo.

As mais importantes palavras de Putin são aquelas em que o presidente russo refere-se aos líderes políticos em Kiev não como “o governo da Ucrânia”, ou “o governo ucraniano” ou, mesmo “o lado ucraniano”, mas como “a Kiev oficial” ou “as autoridades de Kiev”.

Petro Poroshenko, presidente da "Kiev oficial"
É vocabulário extraordinário, porque põe em dúvida, pela primeira vez, o que os governantes em Kiev representam: toda a Ucrânia, ou apenas Kiev.

Putin refere-se sempre a Poroshenko como “o presidente da Ucrânia”, o que começou a fazer a partir de imediatamente depois da eleição de Poroshenko.

Os russos sempre trataram Poroshenko de modo diferente, porque Poroshenko foi eleito. Representavam-no como um moderado cercado por extremistas e, assim postas as coisas, os russos tentaram negociar com Poroshenko. Que haja alguma verdade na ideia de “Poroshenko, o moderado” é outro assunto. Mas Poroshenko é o presidente com os quais os russos teriam de negociar, se é que algum dia negociariam com algum governo da Ucrânia.

O fato de Putin ainda se referir a Poroshenko como “presidente da Ucrânia” sugere que os russos ainda não abandonaram completamente essa ideia. Mas o vocabulário já sugere que estejam bem próximo de abandoná-la. Putin cuidadosamente não se refere a Poroshenko pelo nome. Seus comentários são factuais e frios. É sinal de que o relacionamento aproxima-se do ponto de colapso.

Também importante no vocabulário de Putin sobre o governo da Ucrânia é o modo como fala das duas repúblicas rebeldes do leste da Ucrânia.

Pela primeira vez Putin fala delas sem qualificativos, servindo-se dos nomes que as próprias repúblicas assumiram: “República Popular de Donetsk” e “República Popular de Lugansk”. É o mais próximo que Putin já chegou até agora, de tratar as duas repúblicas como entidades políticas declaradas.

Tomado em conjunto, todo o vocabulário de que Putin se serviu para falar do governo na Ucrânia sugere que o presidente russo já não está assumindo que o governo da Ucrânia tenha legitimidade como governo no Donbass.

Aos que digam que isso seria superinterpretar as palavras de Putin, gostaria de lembrar que Putin é advogado experiente, que sabe escolher atentamente as palavras e que o que aqui se comenta é discurso publicado em sua página pessoal na Internet.

Lukashenko e Putin
Adiante, no mesmo dia, Putin teve também uma conversa telefônica com Lukashenko, presidente da Bielorrússia.

Lukashenko é aliado e parceiro chave dos russos no conflito ucraniano. E nem sempre concordou integralmente com a interpretação dos russos para o conflito.

Não se sabe exatamente o que Putin e Lukashenko disseram, mas sabe-se que o assunto da conversa foi a Ucrânia.

Tudo sugere que Putin, depois da reunião com seu Conselho de Segurança, conversou com Lukashenko para dizer-lhe das decisões tomadas, para manter Lukashenko como aliado e bem informado.

Outro aliado chave dos russos, Nazarbayev, Presidente do Cazaquistão, também deve ter sido informado das decisões que os russos tenham tomado.

Simultaneamente, no mesmo dia, no Fórum Econômico em Davos, Shuvalov, Vice-Primeiro Ministro da Rússia, encarregado de supervisionar a economia, alertou os delegados de que a Rússia não se submeterá a sanções e não mudará o próprio governo por causa delas. Um dos principais banqueiros russos, Kostin, Presidente do VTB Bank, também alertou os delegados em Davos contra qualquer tentativa para excluir bancos russos do sistema SWIFT de compensações interbancárias.

Shuvalov disse também, em sua intervenção em Davos, que a Rússia mantém-se em contato continuado com a China e que conta com apoio tanto econômico como político dos chineses. Não há qualquer dúvida de que os russos mantêm consultas com os chineses antes de cada decisão que tomam e de que os chineses são informados de tudo que se discutiu das decisões tomadas sobre a Ucrânia na reunião do Conselho de Segurança da Federação Russa.

Financial Times oferece bom sumário (só para assinantes) dos comentários de Shuvalov e Kostin em Davos [adiante, em nota de rodapé [1]].

Enquanto isso, examinando o noticiário russo sobre a Ucrânia num dia carregado de notícias, o Ministério da Justiça russo anunciou que várias organizações nacionalistas ucranianas, entre as quais o Setor Direita (Pravy Sektor), foram proibidas de operar em território russo. Muitos se surpreenderam ao saber que ainda não haviam sido banidas da Rússia.

Na própria Ucrânia, o comandante rebelde [e presidente da República Popular de Donetsk] Zakharchenko anunciou que o Memorando de Minsk já não se aplica, e confirmou que a secessão das duas Repúblicas Populares, de Donetsk e de Lugansk, já separadas da Ucrânia, é processo sem retorno e que os rebeldes estão agora empenhados em libertar todo seu território, da Ucrânia.

Alexander V. Zakharchenko
O Memorando de Minsk não é o mesmo documento que o Protocolo de Minsk, que foi o acordo original de cessar-fogo assinado dia 5/9/2014. O “Memorando” é um documento técnico, de detalhamento, que foi assinado dias depois, dia 19/9/2014.

O Memorando de Minsk visava a detalhar os termos do cessar-fogo acertado no Protocolo de Minsk, dia 5/9/2014. Determinava a linha do cessar-fogo e fixava procedimentos para a retirada, pelos dois lados, de armamento pesado, que deveria ser deixado a uma distância de 15 km, de cada lado, da linha de cessar-fogo.

Nem o Protocolo de Minsk nem o Memorando de Minsk foram jamais implementados. As conversas constitucionais que o Protocolo de Minsk determinava jamais aconteceram. A Ucrânia cancelou unilateralmente a lei de status especial que tinham as regiões rebeldes do Donbass, nos termos do Protocolo de Minsk; e jamais definiu os termos ou reconheceu as eleições realizadas ali em novembro. Nenhum dos dois lados retirou suas tropas para a linha fixada do cessar-fogo e o armamento pesado jamais foi retirado.

Ao dizer que o Memorando de Minsk já não se aplica, Zakharchenko está dizendo o óbvio, e liberou os rebeldes para operações ofensivas, que já estão em andamento, com relatos de avanços dos rebeldes em Mariupol e Debaltsevo.

Mas também é possível que essas declarações, feitas dia 23/1/2015, deem em nada, ou em bem pouco. E é possível que não tenham sido coordenadas, e que a política russa não tenha mudado.

Mas consideradas à primeira vista, sugerem, sim, que a Rússia esteja começando a “endurecer”, e que os russos talvez tenham desistido da esperança de chegar a alguma solução negociada para a guerra, pelo menos nesse momento, solução que só seria pensável se houvesse pressão ocidental sobre Kiev, da qual não se vê nenhum sinal.

Se tudo isso estiver correto, os russos deram luz verde aos rebeldes para darem andamento à ofensiva deles, enquanto os comentários de Shuvalov e Kostin sugerem que todos se preparam para enfrentar mais dificuldades, caso o ocidente insista em mais sanções.



Nota de rodapé


Um dos principais banqueiros russos alertou na 6ª-feira (23/1/2015) [em Davos] que excluir o país do sistema SWIFT de compensações interbancárias equivaleria a “guerra” (...).

Andrey Kostin
Falando num painel em Davos na 6ª-feira, Andrey Kostin, presidente executivo do banco VTB, o segundo maior banco russo, Kostin disse que:

Sem SWIFT, não há relacionamento de banking. Significa que os países estão em guerra ou que, definitivamente, estão numa guerra fria. Dia seguinte, os embaixadores da Rússia e dos EUA teriam de voltar para casa – acrescentou.

O comentário do Sr. Kostin mostra o quanto as sanções ocidentais estão criando sentimentos de ira e de desafio dentro da elite política e empresarial russa.

Pelo que entendo, quanto mais pressionarem a Rússia, menos a situação mudar – disse ele, lembrando que os russos estão sendo empurrados para reduzir cada vez mais a confiança nos sistemas ocidentais de pagamentos como SWIFT.

Já criamos uma alternativa doméstica para o sistema SWIFT... E agora precisamos criar alternativas internacionais.

E lembrou os esforços em andamento entre Rússia e China, para criar plataforma separada, só deles, fora de qualquer controle ocidental.

Igor Shuvalov
Igor Shuvalov, Vice-Primeiro-Ministro russo, ecoou o mesmo tema.

Estamos desenvolvendo nosso vector oriental – disse o Sr. Shuvalov, destacando que, embora os esforços para construir laços com a China já estivessem em andamento bem antes da crise, foram dramaticamente intensificados depois do início das sanções, quando a Rússia procurava alternativas ao ocidente.

O Sr. Shuvalov disse que:

(...) os países chamados BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) também já estavam prontos para ajudarem-se uns os outros, numa crise financeira. Temos sido procurados por grandes investidores chineses.

O “pivô para a Ásia” tornou-se parte-chave da política exterior de Vladimir Putin, desde o estremecimento das relações com o ocidente, por causa da Ucrânia. Ao mesmo tempo em que se anunciavam vários acordos amplos, como o contrato de US$ 400 bi para fornecer gás russo à China pelos próximos 30 anos (...).

A situação atual parece menos grave [que a crise financeira de 2008-09], mas estamos entrando numa situação de longa crise, que pode ser prolongada – disse o Sr. Shuvalov.

Mas acrescentou que nenhuma pressa externa conseguirá “mudar o regime” na Rússia.

Sobreviveremos a qualquer racionamento, a qualquer tortura na Rússia – comeremos menos, consumiremos menos eletricidade – disse ele.

Alexei Kudrin, respeitado ex-ministro das finanças, previu que a Rússia pode sofrer fuga de capitais de US$ 90bi esse ano, depois da fuga recorde de US$ 151bi em 2014.

Certamente compreendemos perfeitamente o preço que estamos pagando pelas sanções – disse ele.



[*] Alexander Mercouris, ex político grego, especialista em Direito Internacional e Relações Internacionais. Articulista mundialmente reconhecido com especial interesse em leis, principalmente na legislação da Rússia e analista dos aspectos legais da espionagem da NSA − National Security Agency e sobre os eventos na Ucrânia, em termos de Direitos Humanos e a inconstitucionalidade do Golpe de Estado ucraniano. Trabalhou por 12 anos nas Royal Courts of Justice, em Londres, como advogado. Sua família tem se destacado na política grega por várias gerações. Atua frequentemente como comentarista de TV e conferencista em várias universidades pelo mundo. Reside em Londres.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Pepe Escobar: “De Minsk a Gales, a chave é a Alemanha”

28/8/2014, [*] Pepe EscobarRT−Russia Today, Moscou
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko (E); Presidente da Rússia, Vladimir Putin (centro-alto D); o Presidente da Bielorússia, Alexander Lukashenko (3º a D de Putin); reunidos com a alta cúpula da União Europeia e o presidente do Cazaquistão  em Minsk em 26/8/2014. (Alexei Druzhinin)
A estrada para a reunião de Minsk na 3ª-feira, 26/8/2014, começou a ser pavimentada quando a chanceler alemão Angela Merkel falou em programa distribuído pela televisão pública alemã ARD, imediatamente depois de uma rápida visita a Kiev no sábado.

Merkel afirmou que

(...) é preciso encontrar uma solução para a crise na Ucrânia que não agrida a Rússia.

Acrescentou que

É indispensável que haja diálogo. A solução tem de ser política. Não haverá jamais solução militar para esse conflito.

Merkel falou sobre “descentralização” da Ucrânia, sobre acordo definitivo para os preços do gás, sobre o comércio Ucrânia-Rússia, e até deixou no ar que a Ucrânia é livre para unir-se à União Eurasiana promovida pela Rússia (a União Europeia jamais criará “grande conflito” por causa disso). Saem de cena as sanções; entram propostas firmes.

Merkel não poderia ter sido mais explícita:

Nós [Alemanha] queremos ter boas relações comerciais também com a Rússia. Queremos relações razoáveis com a Rússia. Nossos países dependem um do outro; e há tantos conflitos no mundo nos quais podemos trabalhar juntos, que espero que consigamos alcançar progressos.

Tradução simultânea de tudo isso é que não haverá nenhum Nulandistão (comandado pela neoconservadora Victoria “Foda-se a União Europeia” Nuland), controlado por controle remoto de Washington e totalmente pago pela União Europeia. No mundo real, o que a Alemanha diz, a União Europeia obedece.

Victoria Nuland
Geopoliticamente, implica revide gigante à “contenção & cerco” obsessivos de Washington contra a Rússia, que avançavam paralelamente ao “pivô para a Ásia” (contenção & cerco contra a China).

É a economia, estúpido

A economia da Ucrânia, agora sob intervenção do capitalismo de desastre – é hoje... bem, um desastre. Já passou há muito tempo da recessão; agora está em profunda depressão. Quaisquer futuros fundos que venham do FMI servem para pagar contas atrasadas e dar comida à máquina (em processo de derrota) militar; Kiev está lutando contra nada medos que o coração industrial profundo da Ucrânia. Nem é preciso repetir que as condições associadas ao “ajuste estrutural” do FMI sangram diariamente os ucranianos.

Impostos – e cortes no orçamento – só crescem. A moeda, Hryvnya, caiu 40% desde o início de 2014. O sistema bancário é piada. A noção de que a UE pagará as contas gigantescas da Ucrânia não passa de mito. A Alemanha (que manda na UE) quer acordo. É p’rá já.

A razão é simples. A Alemanha está crescendo só 1,5% em 2014. Por quê? Porque as sanções geradas pela histeria sancional de Washington estão machucando o business alemão. Merkel, afinal, captou a mensagem. Ou, no mínimo, parece que captou.

O primeiro estágio no rumo de acordo duradouro é energia. Nessa 6ª-feira (29/8/2014), há reunião chave entre funcionários da energia russos e da União Europeia, em Moscou. E na sequência, semana que vem, a reunião será entre funcionários russos, da União Europeia e ucranianos. O comissário para energia da UE, Gunther Oettinger, que estava em  Minsk, quer acordo provisório imediato, para garantir que o gás russo passe pela Ucrânia e possa chegar à Europa no inverno. O General Inverno, mais uma vez, vence qualquer guerra.

(E p/ D) Presidente do Cazaquistão, Nursultan Nazarbayev; Presidente da Rússia, Vladimir Putin; Presidente da Bielorússia, Alexander Lukashenko; Presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko; Ministra do Exterior da UE, Catherine Ashton; Comissário de Energia da EU, Guenther Oettinger; Comissário de Comércio da EU, Karel De Gucht; em foto oficial em Minsk, Capital da Bielorrússia em 26/8/2014). (Kirill Kudryavtsev)
Aqui, essencialmente, o que se tem é a União Europeia – não a Rússia – dizendo ao presidente Petro Poroshenko da Ucrânia que esqueça [orig. to stuff ] sua “mestratégia” (perdedora) de limpeza étnica em câmera lenta do leste da Ucrânia.

Moscou sempre insistiu que a crise na Ucrânia é problema político que exige solução política. Moscou aceitaria solução de descentralização considerando os interesses e – direitos ao próprio idioma – das populações em Donetsk, Lugansk, Odessa, Kharkov. Moscou não encoraja a secessão.

Poroshenko, por sua vez, é o típico oligarca ucraniano numa dança de oligarcas. Agora que está por cima, não quer virar carniça de beira de estrada. E pode virar, se confiar no “apoio” dos neonazistas do Setor Direita e Svoboda, porque nesse caso jamais haverá solução política.

O Império do Caos, desnecessário dizer, não quer uma solução política – com uma Ucrânia neutra economicamente ligada à UE e à Rússia; integração econômica/comercial na Eurásia é anátema.

A questão geral é a OTAN

Em paralelo, todos e quaisquer diplomatas da União Europeia com consciência – ora bolas! Existem alguns! – sabem que a histeria non-stop em torno da ameaça” russa à Europa Oriental efeito de um mito promovido por Washington cujo único objetivo é promover a OTAN. O Secretário-Geral da OTAN, Anders “Fog(h) da Guerra” Rasmussen soa como CD arranhado.

Não é segredo em Bruxelas que as grandes potências da União Europeia simplesmente não querem bases permanentes da OTAN na Europa Oriental. França, Itália e Espanha são acintosamente contra. A Alemanha continua sentada no muro, pesando cuidadosamente um modo de não antagonizar nem Rússia nem EUA. Desnecessário dizer que a “relação especial” anglo-norte-americana quer muito as tais bases, apoiada na histeria desencadeada por Polônia e estados bálticos – Estônia, Letônia e Lituânia.

Anders Fogh Rasmussen (louco por guerra)
Assim sendo, Fog(h) da Guerra está em previsível frenesi, promovendo “reforços rápidos”, “facilidades de recepção”, “pre-posicionamento de suprimentos, de equipamentos, preparação de infraestrutura, bases e quartéis-generais, e “uma presença mais visível da OTAN”. Assim se prova cabalmente, mais uma vez, que o Império do Caos não dá importância à Ucrânia; a questão é, integralmente, a expansão da OTAN – e esse é o assunto chave do qual se falará semana que vem na reunião em Gales.

Agora já ninguém consegue fazer parar o assalto neoliberal sem barreiras contra patrimônios, a privatização selvagem e o saque alucinado na Ucrânia, disfarçados como empréstimos e “ajuda”. Mas devorar a agricultura e o potencial de energia da Ucrânia não basta para o Império do Caso. Ele quer a Crimeia de volta (aquela futura base da OTAN em Sebastopol…). Ele quer mísseis de defesa plantados na Polônia e nos Bálticos. Ele adoraria, mesmo, mudança de regime na Rússia.

E então aparece o MH17. Se se confirmarem as suspeitas de que o Império do Caos engambelou a Europa, levando-a a aplicar sanções contraproducentes baseada na mais tosca das “provas”, a opinião pública alemã obrigará Merkel a agir conforme a situação real.

A Alemanha era o segredo por trás da reunião de cúpula de Minsk. Vejamos se a Alemanha será também o segredo por trás da reunião de cúpula de Gales. No final, cabe à Alemanha impedir que a Guerra Fria 2.0 esquente ,cada dia mais, por toda a Europa
______________________

[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire, Counterpunch e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia TodayThe Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Red Zone Blues: A Snapshot of Baghdad During the Surge,  Nimble Books, 2007.    
 Obama Does Globalistan,  Nimble Books, 2009.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Uma união econômica no coração da Europa

31/5/2014, Yuri BARANCHIK, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Os especialistas ainda discutiam os resultados da cúpula histórica Rússia e China e o estrategicamente importante acordo de gás assinado dia 21/5/2014, quando outro evento não menos importante aconteceu, dia 29/5/2014. Em Astana, os presidentes de Rússia, Bielorrússia e Cazaquistão assinaram o tratado para criar a União Econômica Eurasiana (UEE), também conhecida como União Eurasiana (UEa) [orig. Eurasian Union (EaU)], que entrará em vigência dia 1º de janeiro de 2015.

“Estamos criando hoje coletivamente um poderoso e atraente centro de desenvolvimento econômico, um grande mercado regional que reúne mais de 170 milhões de pessoas”, disse o presidente Vladimir Putin da Rússia, acrescentando que a união abriga um quinto de todas as reservas mundiais de gás e cerca de 15% das reservas de petróleo do mundo. Além do que, Rússia, Bielorrússia e Cazaquistão têm bem desenvolvida base industrial e mão de obra qualificada.

O PIB total da UEE está em cerca de US$ 2,6 trilhões. As barreiras alfandegárias serão eliminadas, unindo os mercados de bens, serviços e mão de obra. Em 2015, o processo de gradual unificação de energia, transporte, sistemas financeiros e econômicos começará a criar as condições para mudarem todos para uma única moeda. O PIB agregado dos estados que constituem a União Econômica Eurasiana aumentará cerca de US$900 bilhões em 2030 – como disse o presidente do Cazaquistão, Nursultan Nazarbayev.

Alguns pontos sensíveis nas relações bilaterais foram resolvidos, como os relacionados ao álcool e ao tabaco entre Rússia e Cazaquistão, e aos custos de alfândega para o petróleo entre Rússia e Bielorrússia. Os países fizeram algumas concessões e, em troca, obtiveram vantagens. Todas as partes sabem bem que o efeito geral positivo ultrapassa, em muito, qualquer possível perda pontual.

Viktor Khristenko
Planeja-se ter mercado unificado de energia até 2019 e mercado de petróleo e gás até 2025. O presidente da Comissão Econômica Eurasiana, Viktor Khristenko, disse que as regras unificadas que entrarão em vigência são resultado de esforços coordenados. Observou que o tratado atualizou as metas e as ferramentas para que se alcancem quatro liberdades de movimento: de bens, serviços, capitais e mão de obra. “Por exemplo, o tratado toca em áreas que antes sempre foram deixadas esquecidas fora do projeto de integração, a saber, energia, petróleo e gás. O tratado claramente fixa o objetivo de formar um mercado comum e, também, um cronograma preciso” – disse o presidente da Comissão Econômica Eurasiana. Disse também que 2025 não é apenas uma data demarcada sem compromisso; e que há muito trabalho para chegar como se deseja, até lá. Por exemplo, em 2016 os estados-membros passarão a adotar um conceito político comum para os mercados de petróleo, derivados do petróleo e gás.

O processo de integração de mercados financeiros estará concluído em 2025. Em janeiro de 2016 os governos devem apresentar o plano para harmonizar a legislação setorial. Regras comuns para bancos, corretores e autorizações para seguros devem estar fixadas em 2017, para serem mutuamente reconhecidas depois de 2020. Espera-se que a unificação das regulações para supervisão de bancos, empresas de seguros e firmas de corretagem esteja pronta em 2019.

A introdução da moeda única ainda não está na agenda. Segundo o serviço de imprensa da União Econômica Eurasiana, as estimativas mostram que aquele nível de integração econômica não é suficiente para a introdução de moeda única e assim permanecerá, pelo menos, até 2025.

A união monetária é a mais alta forma de integração a ser alcançada depois de tomados os passos microeconômicos coordenados, particularmente a adoção de política econômica comum, com o objetivo de criar um único mercado financeiro, esperado para 2020. Indispensável é, isso sim, a convertibilidade direta das moedas. E devem ser eliminadas todas as fases intermediárias de pagamentos em que se usem o dólar e o euro.

A segunda queda do US$
Apesar de os presidentes terem evitado comentários diretos sobre o significado político do Tratado de Astana, é evidente que se trata de evento de alta importância, com influência na política mundial. O acordo de larga-escala de venda de gás Rússia-China também tem alto significado político. É prova de que toda a conversa sobre a Rússia estar sendo “isolada” não passa de palavrório oco; o mundo dos negócios não fala a língua das sanções à moda Washington.

Há uma nova entidade econômica emergindo na Eurásia, com seus próprios interesses e metas. Facilitará a proteção de interesses econômicos dos membros. Mais dois países – Quirguistão e Armênia planejam unir-se à UEE ainda esse ano. A União Econômica Eurasiana está localizada no coração do continente europeu. É difícil implementar grandes projetos econômicos sem considerar os territórios dos estados-membros.


A nova associação fortalece a posição dos membros, no diálogo deles com EUA e Europa. Depois de Xangai e Astana, ninguém mais poderá continuar a ver a Eurásia como “tabuleiro de xadrez” no qual só os EUA movem peças e ditam caminhos.