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quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Quem salvará a Líbia de seus salvadores ocidentais?


15/8/2011, Jean Bricmont e Diana Johnstone, Counterpunch
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu




Jean Bricmont é autor de Humanitarian Imperialism. Sobre o livro, ver CHOMSKY, Noam, “A nova doutrina do direito imperial”, Monthly Review.



JB recebe e-mails em Jean.Bricmont@uclouvain.be



Diana Johnstone é autora de Fools’ Crusade. Yugoslavia, NATO, and Western Delusions, 2003.
Sobre o livro, ver em Monthly Review: “Intervenções militares supostamente humanitárias são traço característicos da ordem global pós-Guerra Fria. Desde 11/9/2001, essa forma de militarismo ganhou proporções jamais antes imaginadas. Diana Johnstone demonstra nesse estudo, fartamente documentado, que o momento crucial no qual se criou para a opinião pública – e, sobretudo, no contexto político do liberalismo, também para as esquerdas – a ideia de que essas intervenções teriam alguma legitimidade “humanitária” foi o bombardeio contra a ex-Iugoslávia, em 1999”, aqui traduzido).
DJ recebe e-mails em diana.josto@yahoo.fr 

Em março passado, uma coalizão de potências do ocidente e ditaduras árabes reuniram-se para patrocinar o que foi apresentado como rápida operação militar para “proteger cidadãos líbios”.

Dia 17 de março, o Conselho de Segurança da ONU aprovou a Resolução n. 1.973 que deu àquela especialíssima “coalizão de vontades” luz verde para iniciar sua guerra fechando o espaço aéreo sírio, e que, imediatamente passou a ser usada como autorização para que a OTAN bombardeasse o que quisesse bombardear. Os líderes da coalizão ocidental esperaram que cidadãos gratos se aproveitassem daquela violenta “proteção” para derrubar o governo de Muammar Gaddafi o qual, como se dizia no ocidente, desejava “matar seu próprio povo”. A partir da suposição de que a Líbia estivesse claramente dividida entre “o povo” de um lado e “o ditador maléfico” do outro, esperava-se que a queda do governo de Gaddafi seria questão de dias. Aos olhos do ocidente, Gaddafi seria ditador ainda pior que o da Tunísia, Ben Ali ou do Egito, Mubarak, que caíram sem qualquer intervenção da OTAN. Com as armas da OTAN, a queda de Gaddafi só poderia ser ainda mais rápida.

Cinco meses depois, todas as suposições e pressuposições nas quais se baseara a declaração de guerra, já estão provadas como falsas, total ou parcialmente. Organizações de direitos humanos não conseguiram encontrar qualquer tipo de prova dos “crimes contra a humanidade” que teriam sido ordenados por Gaddafi contra “seu próprio povo”. O reconhecimento do Conselho Nacional de Transição [ing. Transitional National Council (TNC)] como “único legítimo representante do povo líbio” por governos ocidentais transformou-se, de precipitado, em ridículo. 

A OTAN meteu-se e exacerbou uma guerra civil que já não parece ter fim à vista e está convertendo a Líbia, de país próspero, em amontoado de ruínas.

Mas, por sem fundamento e absurda que seja, a guerra na Líbia prossegue. Quem, ou o quê, pode pôr fim ao que se vê na Líbia?

Boa leitura para esse verão foi o excelente livro de Adam Hochschild sobre a 1ª Guerra Mundial, To End All Wars [Para pôr fim a todas as guerras]. Há ali várias lições para os nossos tempos, mas talvez a mais pertinente seja nos ensinar que, uma vez iniciada uma guerra, é difícil terminá-la.

Os homens que iniciaram a 1ª Guerra Mundial também esperavam que fosse guerra rápida. Mas apesar de milhões já terem sido devorados pela máquina de matar, e o sem propósito e sem saída de toda a empreitada já estarem claros para todos, a guerra arrastou-se por quatro miseráveis anos. A própria guerra gera mais ódio e mais desejo de vingança, cada dia mais. Uma vez que as grandes potências iniciam uma guerra, elas “tem” de vencer, custe o que custar – para elas próprias e, sobretudo, para impor-se aos outros.

Até agora, o custo da guerra contra a Líbia, para os agressores da OTAN, é apenas financeiro, o que gera a expectativa de recolher o botim do país “libertado”, que pagará o custo de ter sido bombardeado até virar ruínas. Só o povo líbio perdeu e continua a perder vidas e infraestrutura. O que, afinal, pode deter esse massacre?

Na 1ª Guerra Mundial, havia um valente movimento antiguerra que desafiou a histeria chauvinista do período de guerras e exigiu paz. Os que lutaram contra a guerra correram risco de vida e de prisão.

O relato que Hochschild oferece da luta pela paz, por homens e mulheres corajosos na Grã-Bretanha, deveria servir como inspiração – mas inspiração para quem? 

Os riscos de opor-se à guerra da OTAN contra a Líbia são mínimos, se comparados a 1914-1918. Mas não se vê nenhuma ativa oposição.

É particularmente verdade em relação à França, cujo presidente Nicolas Sarkozy tomou a iniciativa de iniciar aquela guerra.

Acumulam-se provas de mortes de cidadãos líbios, inclusive de crianças, causadas pelas bombas da OTAN.

O bombardeio da OTAN visa, diretamente, a infraestrutura civil, para privar a população que vive em território leal a Gaddafi das condições mínimas de sobrevivência, comida e água, aparentemente para inspirar as populações a derrubar Gaddafi. A guerra para “proteger civis” foi evidentemente convertida e guerra para aterrorizar e atormentar populações civis, de modo a conseguir que o Governo de Transição apoiado pela OTAN consiga chegar ao poder.

A guerra contra a Líbia já expôs a OTAN como entidade criminosa e incompetente.

Também já expôs como absolutamente imprestável a esquerda organizada nos países da OTAN. Talvez jamais antes tenha havido guerra mais fácil de desmascarar e de fazer-lhe oposição. Mas a esquerda organizada na Europa não está se opondo à guerra da OTAN contra a Líbia.

Há três meses, quando começou na imprensa o frenesi contra a Líbia, lançado pela rede de televisão Al Jazeera do Qatar, a esquerda organizada não hesitou ao escolher um lado. Duas dúzias de organizações esquerdistas francesas e norte-africanas convocaram uma “marcha de solidariedade ao povo líbio” em Paris, dia 26 de março. Em demonstração pública de total confusão, aquelas organizações pediam, simultaneamente, “o reconhecimento do Conselho Nacional de Transição como único legítimo representante do povo líbio” e, ao mesmo tempo, “proteção para imigrantes e residentes estrangeiros” os quais, de fato, precisam ser protegidos, isso sim, da ação criminosa dos “rebeldes” representados naquele Conselho.

Ao mesmo tempo em que implicitamente apoiavam a ação militar de apoio ao Conselho de Transição, aqueles grupos também falavam de “vigiar a duplicidade hipócrita dos governos ocidentais e da Liga Árabe” e uma possível “escalada” das operações.

As organizações que assinaram tal apelo incluíam grupos da oposição no exílio da Líbia, Síria, Tunísia, Marrocos e Argélia, além dos ‘Verdes’ franceses, do Partido Anticapitalista, do Partido Comunista Francês, do Partido Esquerda, do movimento antirracista MRAP e do ATTAC, um movimento eclético de educação popular, crítico da globalização financeira. Em conjunto, esses grupos representam virtualmente todas as gamas da esquerda política do Partido Socialista da França – o qual, por sua vez, apoiou o ataque da OTAN à Líbia, sem sequer alertar sobre qualquer “vigilância” de qualquer “hipocrisia”.

Nem agora, que as vítimas civis dos ataques da OTAN já se acumulam, vê-se qualquer sinal objetivo da prometida “vigilância para prevenir a escalada da guerra” nem qualquer denúncia do flagrante desrespeito à determinação do Conselho de Segurança da ONU.

Ativistas que, em março, diziam que “nós temos de fazer alguma coisa” para impedir um hipotético massacre por Gaddafi, que jamais houve, nada fazem hoje para parar um massacre nada hipotético e muito real e visível, e cujos criminosos ativos são, exatamente, os que fizeram “alguma coisa”.

A falácia básica do “nós temos de fazer alguma coisa” dos grupos esquerdistas está, precisamente, no significado de “nós”. Se queriam dizer “nós” literalmente, então seria indispensável montarem brigadas internacionais para combater ao lado dos ‘rebeldes’. Mas, evidentemente, por mais que falem de “nós” termos de fazer alguma coisa para apoiar os “rebeldes”, nenhum esquerdista europeu dedicou qualquer reflexão mais séria ao caso e jamais cogitou de arriscar a própria vida para realmente apoiar coisa alguma.

Portanto, aquele “nós” dos esquerdistas europeus significa, de fato, “nós, as potências ocidentais”, OTAN e, sobretudo, os EUA, únicas entidades com “capacidades únicas” para inventar e manter uma guerra daquelas dimensões.

O pessoal do “nós temos de fazer alguma coisa” em geral mistura dois tipos de demandas: uma demanda que podem, com realismo, esperar que seja atendida por aquelas potências ocidentais – apoiar os “rebeldes’” reconhecer a legitimidade do Conselho de Transição – e outra demanda que, com realismo, não podem esperar que as Grandes Potências atendam e que, simultaneamente, os esquerdistas tampouco são capazes de fazer respeitar: limitar o bombardeamento a alvos militares e para proteger civis e exigir que a ação da OTAN mantenha-se estritamente nos limites das resoluções da ONU.

Essas demandas esquerdistas são contraditórias. Numa guerra civil, nenhum lado tem qualquer tipo de preocupação com respeitar resoluções da ONU ou proteger civis. Os dois lados querem vencer, ponto, parágrafo. E, de um ponto em diante, o que rege é o desejo de vingança, de retaliar. Se alguém ‘apoia’ os “rebeldes”, na prática está dando licença para que os “rebeldes” façam o que julguem necessário para vencer.

Mas, nesse caso, dá-se também carta branca aos aliados ocidentais e à OTAN, que talvez, em tese, sejam menos sanguinários que os ‘rebeldes’ mas que, por outro lado, têm à sua disposição, meios de destruição infinitamente mais daninhos. E todas essas potências são burocracias gigantescas, que contam também com gigantescas máquinas de “ressuscitação” a seu serviço. Sobretudo, essas potências têm de vencer. Se não vencerem, cria-se para as potências um grave problema de “credibilidade” (que atinge também diretamente os políticos que apoiaram a guerra – para nem falar dos que declararam a guerra!). Derrotados, todos perdem recursos e fundos de financiamento e apoio político. 

Declarada a guerra da Líbia, simplesmente não há força no ocidente, sobretudo em momento em que não haja movimento popular antiguerra, que possa obrigar a OTAN a respeitar o mandado que recebeu da ONU. Portanto, o segundo conjunto de demandas dos esquerdistas é delírio e cai fatalmente em ouvidos surdos. As demandas dos esquerdistas europeus servem, exclusivamente, para confirmar, para a opinião pública mundial e, sobretudo, para os próprios esquerdistas pró-guerra, que suas intenções são puras. 

Mas ao apoiar os “rebeldes”, os esquerdistas que defendem a intervenção “humanitária” mataram, de fato, o movimento antiguerra. A verdade é que não faz sentido algum apoiar “rebeldes” que anseiam pelo apoio das forças estrangeiras de intervenção numa guerra civil e, ao mesmo tempo, opor-se a intervenções. Pode-se dizer, portanto que a direita que apoia a intervenção na Líbia é muito mais coerente que as esquerdas que também apoiam aquela intervenção.

Os esquerdistas pró-intervenção na Líbia e a direita também pró-intervenção partilham a convicção de que “nós” (quer dizer: o ocidente democrático e civilizado) teríamos algum direito e alguma competência para impor nosso desejo e nosso direito a outros países. Alguns movimentos franceses cujo único trabalho é denunciar o racismo e o colonialismo não lembraram, sequer, que as conquistas coloniais sempre foram lutas contra sátrapas locais, príncipes indianos e reis africanos todos denunciados como autocratas (o que eram). Tampouco se dão conta de que há alguma coisa muito esquisita e suspeita na ideia de que organizações francesas (de direita ou de esquerda, tanto faz, se se observam os movimentos de todas essas) apresentem-se como competentes e legítimas para decidir quais seriam os “legítimos representantes” do povo líbio.

Apesar dos esforços de alguns indivíduos isolados, não há movimento popular na Europa capaz de deter ou, no mínimo conter o ímpeto da OTAN que, hoje, massacra cidadãos líbios. A única esperança é o colapso dos “rebeldes”, ou que os EUA decidam opor-se ao massacre, em vez de estimulá-lo, ou que alguma das ditaduras que hoje financiam e armam os “rebeldes” retirem seu apoio. 

Preocupante, isso sim, é que a esquerda europeia tenha desperdiçado a oportunidade de voltar às lutas pela dignidade dos oprimidos, fazendo oposição a uma das guerras mais escandalosamente injustificáveis de que se tem notícia. Nesse caso, sim, se pode falar de falência moral. Toda a Europa sofrerá por causa do fracasso moral de sua esquerda.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Cercar a Rússia, visar a China: “O verdadeiro papel da OTAN na grande estratégia dos EUA”

Diana Johnstone

2/12/2010, Diana Johnstone, Counterpunch
Traduzido por Margarida Ferreira, para ODiario.info

Introdução
Embora escrito antes da Cimeira da OTAN em Lisboa, este texto de Diana Johnstone mantém toda a atualidade. Depois de desmascarar os objetivos da OTAN, a autora conclui: “Os governos euro-atlânticos proclamam a sua «democracia» como prova do seu direito absoluto de intervir nos assuntos do resto do mundo. Com base na falácia de que os «direitos humanos são necessários para a paz», proclamam o seu direito a fazer a guerra. Uma questão crucial é se a «democracia ocidental» ainda tem força para desmantelar esta máquina de guerra antes que seja tarde demais” (ODiario.info)

Nos dias 19 e 20 de Novembro, reúnem-se em Lisboa dirigentes da OTAN numa cimeira designada por “Conceito Estratégico da OTAN”. Entre os tópicos para discussão encontra-se uma série de “ameaças” assustadoras, desde a guerra cibernética até à alteração climática, assim como belas coisas protectoras como armas nucleares e uma inútil Linha Maginot de alta tecnologia destinada a fazer parar os mísseis inimigos em pleno voo. Os dirigentes da OTAN não conseguirão evitar falar da guerra no Afeganistão, essa cruzada interminável que une o mundo civilizado contra o esquivo Velho da Montanha, Hassan i Sabah, chefe dos Assassinos do século onze na sua mais recente encarnação como Osama bin Laden. Sem dúvida vai haver muita conversa sobre os “nossos valores comuns”.

A maior parte do que vai ser discutido é ficção com uma etiqueta de preço.

A única coisa que falta na agenda da cimeira Conceito Estratégico é uma discussão a sério sobre estratégia.

Isto, em parte, resulta de a OTAN, enquanto tal, não ter qualquer estratégia, e não poder ter a sua própria estratégia. A OTAN é na verdade um instrumento da estratégia dos Estados Unidos. O seu único Conceito Estratégico operacional é o que é posto em prática pelos Estados Unidos. Mas até esse é um fantasma esquivo. Segundo parece, os dirigentes americanos preferem posições impressionantes, “soluções espetaculares”, em vez de definirem estratégias.

Um dos que pretende definir uma estratégia é Zbigniew Brzezinski, padrinho dos mujahidin afegãos quando estes podiam ser utilizados para destruir a União Soviética. Brzezinski não se coibiu de declarar abertamente o objetivo estratégico da política dos EUA no seu livro de 1993, O Grande Tabuleiro de Xadrez: “A supremacia americana”. Quanto há OTAN, descreveu-a como uma das instituições que servem para perpetuar a hegemonia americana, “fazendo dos Estados Unidos um participante chave até nos assuntos intra europeus”. Na sua “rede global de instituições especializadas”, que obviamente incluem a OTAN, os Estados Unidos exercem o seu poder através de uma “permanente negociação, diálogo, difusão e procura de um consenso formal, apesar de o poder ser sempre proveniente duma única fonte, nomeadamente, Washington, D.C.”

Esta descrição assenta como uma luva na conferência “Conceito Estratégico” de Lisboa. Na semana passada, o secretário-geral dinamarquês da OTAN, Anders Fogh Rasmussen, anunciou que “estamos muito perto de um consenso”. E este consenso, de acordo com o New York Times, “seguirá provavelmente a formulação do Presidente Barack Obama: trabalhar para um mundo não nuclear mantendo embora um dissuasor nuclear”.

Esperem aí, será que isto faz sentido? Não, mas é o tipo de consenso da OTAN. A paz através da guerra, o desarmamento nuclear através do armamento nuclear, e acima de tudo, a defesa dos estados membros enviando forças expedicionárias para enfurecer os nativos de países distantes.

Uma estratégia não é um consenso escrito por comissões.

O método americano de “permanente negociação, diálogo, difusão e procura de um consenso formal” neutraliza qualquer resistência que possa aparecer ocasionalmente. Assim, a Alemanha e a França resistiram inicialmente à entrada da Geórgia para a OTAN, assim como ao célebre “escudo anti-míssil”, considerados ambos como provocações abertas capazes de provocar uma nova corrida às armas com a Rússia e de prejudicar as frutuosas relações da Alemanha e da França com Moscovo, sem qualquer resultado útil. Mas os Estados Unidos não aceitam um não como resposta, e continuam a repetir os seus imperativos até esmorecer a resistência. A única exceção recente foi a recusa da França em aderir à invasão do Iraque, mas a reação irritada dos EUA assustou a classe política conservadora francesa o que levou ao apoio de Nicolas Sarkozy, pró-americano.

À procura de “ameaças” e “desafios”

O verdadeiro sumo do que passa por um “conceito estratégico” foi declarado pela primeira vez e posto em ação na primavera de 1999, quando a OTAN desafiou a lei internacional, as Nações Unidas e a sua própria carta inicial entrando numa guerra agressiva, fora do seu perímetro de defesa, contra a Iugoslávia. Esse passo transformou a OTAN de uma aliança defensiva para uma aliança ofensiva. Dez anos depois, a madrinha dessa guerra, Madeleine Albright, foi escolhida para presidir ao “grupo de especialistas” que passaram vários meses a realizar seminários, consultas e reuniões para preparação da agenda de Lisboa. Entre os mais importantes nesses encontros, estavam Lord Peter Levene, presidente do Lloyd’s de Londres, a gigantesca seguradora, e o antigo diretor executivo da Royal Dutch Shell, Jeroen van der Veer. Estas figuras da classe dirigente não são propriamente estrategistas militares, mas a sua participação serve para garantir à comunidade internacional de negócios que vão ser tidos em consideração os seus interesses em nível mundial.

É bem verdade que o rol de ameaças enumeradas por Rasmussen num discurso do ano passado dava a entender que a OTAN estava trabalhando para a indústria dos seguros. Disse ser necessário que a OTAN tratasse do combate à pirataria, da segurança cibernética, da alteração climática, de incidentes radicais do clima tais como tempestades e inundações catastróficas, da subida dos níveis do mar, da movimentação em grande escala de populações para áreas desabitadas, por vezes atravessando fronteiras, da escassez de água, secas, da diminuição da produção de alimentos, do aquecimento global, das emissões de CO2, do recuo dos gelos do Ártico, que revelam recursos até agora inacessíveis, da eficiência de combustíveis, da dependência de recursos externos, etc.

A maior parte das ameaças apresentadas nem mesmo de longe podem ser interpretadas como exigindo soluções militares. Obviamente, não são os “estados vilões” nem os “bastiões de tirania” nem os “terroristas internacionais” que são responsáveis pela alteração climática, no entanto Rasmussen apresenta-os como desafios para a OTAN.

Por outro lado, alguns dos resultados destes cenários, como os movimentos de populações provocados pela subida dos níveis do mar ou pela seca, podem, de fato, ser considerados como potenciais causas de crises. O aspecto sinistro desta enumeração é precisamente que esses problemas são avidamente agarrados pela OTAN como exigindo soluções militares.

A maior ameaça para a OTAN é estar obsoleta. E a procura de um “conceito estratégico” é a procura de pretextos para se manter em ação.

A Ameaça da OTAN para o Mundo

Embora ande à procura de ameaças, é a própria OTAN que constitui uma ameaça crescente para o mundo. A ameaça básica é a sua contribuição para o reforço da tendência liderada pelos EUA para abandonar a diplomacia e as negociações a favor da força militar. Isto percebe-se claramente quando Rasmussen inclui os fenômenos climáticos na sua lista de ameaças para a OTAN, quando eles deviam ser, pelo contrário, problemas para a diplomacia e negociações internacionais. O perigo crescente é que a diplomacia ocidental está moribunda. Os Estados Unidos deram o tom: nós somos virtuosos, nós temos o poder, o resto do mundo tem que obedecer, senão…

A diplomacia é desprezada como sendo uma fraqueza. O Departamento de Estado há muito que deixou de estar no centro da política externa dos EUA. Com a sua ampla rede de bases militares em todo o mundo, assim como adidos militares em embaixadas e inúmeras missões em países clientes, o Pentágono é incomparavelmente mais poderoso e influente no mundo do que o Departamento de Estado.

Os últimos Secretários de Estado, longe de procurarem alternativas diplomáticas à guerra, desempenharam, de fato, um papel preponderante na defesa da guerra em vez da diplomacia, desde Madeleine Albright nos Balcãs ou Colin Powell acenando com falsos tubos de ensaio no Conselho de Segurança das Nações Unidas. A política é definida pelo Conselheiro de Segurança Nacional, por diversos grupos de opinião financiados por privados e pelo Pentágono, com a intervenção de um Congresso que, por sua vez, é formado por políticos ansiosos em obter contratos militares para as suas clientelas.

A OTAN está arrastando os aliados europeus de Washington pelo mesmo caminho. Tal como o Pentágono substituiu o Departamento de Estado, a OTAN está sendo utilizada pelos Estados Unidos como um potencial substituto para as Nações Unidas. A “guerra do Kosovo” de 1999 foi um primeiro passo importante nessa direção. A França de Sarkozy, depois de ter entrado no comando conjunto da OTAN, está destruindo os serviços de estrangeiros franceses, tradicionalmente competentes, reduzindo a sua representação civil em todo o mundo. Os serviços de estrangeiros da União Europeia que estão sendo criados por Lady Ashton não vão ter nem política nem autoridade próprias.

Inércia burocrática

Por detrás dos seus apelos aos “valores comuns”, a OTAN é impulsionada, sobretudo, pela sua inércia burocrática. A própria aliança é uma excrescência do complexo militar-industrial dos EUA. Há sessenta anos que as aquisições militares e os contratos do Pentágono têm sido uma fonte essencial da investigação industrial, dos seus lucros, de empregos, de carreiras no Congresso e até mesmo de financiamentos universitários. A interação destes diversos interesses converge para determinar uma estratégia implícita dos EUA de conquista do mundo.

Uma rede global sempre em expansão de umas 800 a mil bases militares em solo estrangeiro.

Acordos militares bilaterais com estados clientes que oferecem formação em troca da compra obrigatória de armas feitas nos EUA e da reestruturação das suas forças armadas, trocando a defesa nacional pela segurança interna (ou seja, repressão) e a possível integração nas guerras de agressão lideradas pelos EUA.

Utilização dessas relações estreitas com as forças armadas locais para influenciar a política interna de estados mais fracos.

Exercícios militares permanentes com estados clientes, que fornecem ao Pentágono um conhecimento perfeito sobre o potencial militar dos estados clientes, os integram na máquina militar dos EUA e alimentam uma mentalidade de “prontos para a guerra”.

Posicionamento estratégico da sua rede de bases, exercícios com “aliados” e militares de forma a cercar, isolar, intimidar e acabar por provocar importantes nações consideradas potenciais rivais, nomeadamente a Rússia e a China.

A estratégia implícita dos Estados Unidos, tal como as suas ações dão a entender, é uma conquista militar gradual para garantir o domínio do mundo. Uma característica original deste projeto de conquista do mundo é que, embora extremamente ativo, dia após dia, é praticamente ignorado pela grande maioria da população da nação conquistadora, assim como pelos seus aliados mais estreitamente dominados, ou seja, pelos estados da OTAN.

A propaganda infindável acerca das “ameaças terroristas” (as pulgas do elefante) e outras diversões mantêm a maioria dos americanos totalmente inconscientes quanto ao que se está passando, tanto mais facilmente quanto os americanos praticamente desconhecem o resto do mundo e portanto não se interessam minimamente. Os EUA podem varrer do mapa um país antes que a grande maioria dos americanos saiba onde é que ele se encontra.

A tarefa principal dos estrategistas dos EUA, cujas carreiras passam pelos grupos de opinião, conselhos de diretores, firmas de consultoria e governo, é muito mais justificar este gigantesco mecanismo do que tentar dirigi-lo. Em grande medida, ele dirige-se a si mesmo.

Desde o colapso da “ameaça soviética”, que os políticos andam à procura de ameaças invisíveis ou potenciais. A doutrina militar dos EUA tem como objetivo atuar preventivamente contra qualquer rival potencial para a hegemonia mundial dos EUA. Desde o colapso da União Soviética, é a Rússia que mantém o maior arsenal bélico para além dos Estados Unidos e a China está crescendo rapidamente em poder econômico. Nenhum deles ameaça os Estados Unidos ou a Europa ocidental. Pelo contrário, ambos estão dispostos e desejosos de se concentrarem em negócios pacíficos.

Mas encontram-se cada vez mais alarmados com o cerco militar e com os exercícios militares provocatórios realizados pelos Estados Unidos mesmo à sua porta. A implícita estratégia agressiva pode ser obscura para a maioria dos americanos, mas de certeza absoluta que os dirigentes dos países visados percebem o que se está a passar.

O Triângulo Rússia-Irã-Israel

Atualmente, o principal “inimigo” explícito é o Irã.

Washington afirma que o “escudo antimíssil”, que está tentando impor aos seus aliados europeus, se destina a defender o ocidente do Irã. Mas os russos vêem muito claramente que o escudo antimíssil está virado contra eles. Primeiro de tudo, sabem perfeitamente bem que o Irã não tem mísseis desses nem nenhum motivo para os usar contra o ocidente. É perfeitamente óbvio para todos os analistas bem informados que, mesmo que o Irã desenvolvesse armas nucleares e mísseis, seriam destinados a funcionar como dissuasor contra Israel, a superpotência nuclear regional que tem mãos livres para atacar os países vizinhos. Israel não quer perder essa liberdade de atacar, e naturalmente opõe-se ao dissuasor iraniano.

Os propagandistas israelenses clamam em voz alta contra a ameaça do Irã, e têm trabalhado incansavelmente para infectar a OTAN com a sua paranóia.

Israel até já foi descrita como o “29º membro da OTAN global”. Os funcionários israelenses têm trabalhado assiduamente junto de uma Madeleine Albright receptiva para se assegurarem de que os interesses israelenses são incluídos no “Conceito Estratégico”. Nos últimos cinco anos, Israel e a OTAN tomaram parte em exercícios navais conjuntos no Mar Vermelho e no Mediterrâneo, assim como em exercícios terrestres conjuntos desde Bruxelas até à Ucrânia. Em 16 de Outubro de 2006, Israel tornou-se no primeiro país não europeu a fazer um acordo chamado “Programa de Cooperação Individual” com a OTAN para cooperação em 27 áreas diferentes.

Vale a pena notar que Israel é o único país fora da Europa que os EUA incluem na área da responsabilidade do seu Comando Europeu (em vez do Comando Central que cobre o resto do Oriente Médio).

Num seminário de Relações OTAN-Israel em Herzliya em 24 de Outubro de 2006, o ministro dos estrangeiros israelense na altura, Tzipi Livni, declarou que “A aliança entre a OTAN e Israel é uma coisa natural… Israel e a OTAN partilham uma visão estratégica comum. Sob muitos aspectos, Israel é a linha da frente que defende o nosso estilo de vida comum”.

Nem todos nos países europeus consideram que as colôniass israelenses na Palestina ocupada refletem “o nosso estilo de vida comum”.

Esta é sem dúvida uma das razões por que o aprofundamento da união entre a OTAN e Israel não assumiu a forma aberta de membro da OTAN. Principalmente depois do selvagem ataque a Gaza, uma decisão dessas iria levantar objeções nos países europeus. No entanto, Israel continua a fazer-se convidado para a OTAN, apoiado ardentemente, claro, pelos seus fieis seguidores no Congresso dos EUA.

A causa principal desta crescente simbiose Israel-OTAN foi identificada por Mearsheimer e Walt: é o vigoroso e poderoso lobby pró-Israel nos Estados Unidos. [1]

Os lobbies israelenses também são fortes em França, na Grã-Bretanha e no Reino Unido. Têm desenvolvido com entusiasmo o tema de Israel como a “linha da frente” na defesa dos “valores ocidentais” contra o Islã militante. O fato de o Islã militante ser principalmente um produto dessa “linha da frente” cria um círculo vicioso perfeito.

A atitude agressiva de Israel para com os seus vizinhos regionais seria uma responsabilidade grave para a OTAN, capaz de ser arrastada para guerras do interesse de Israel que não interessam mesmo nada à Europa.

Mas há uma sutil vantagem estratégica na conexão israelense que, segundo parece, está sendo usada pelos Estados Unidos… contra a Rússia.

Subscrevendo a histérica teoria da “ameaça iraniana”, os Estados Unidos podem continuar a afirmar, sem corar, que o planejado escudo antimíssil é dirigido contra o Irã, e não contra a Rússia. Não é que esperem convencer os russos. Mas pode ser utilizado para fazer com que os protestos deles pareçam “paranóicos” – pelo menos aos ouvidos dos ingênuos ocidentais. Meu caro, de que é que eles se queixam, se nós “restabelecemos” as nossas relações com Moscou e convidamos o presidente russo para a nossa alegre assembleia de “Conceito Estratégico?

No entanto, os russos sabem muito bem que:

O escudo antimíssil vai ser construído em volta da Rússia, que tem mísseis, que mantêm como dissuasores.

Neutralizando os mísseis russos, os Estados Unidos ficam de mãos livres para atacar a Rússia, sabendo que a Rússia não pode retaliar.

Portanto, digam o que disserem, o escudo antimíssil, se funcionar, servirá para facilitar uma eventual agressão contra a Rússia.

O cerco em volta da Rússia

O cerco em volta da Rússia continua no Mar Vermelho, no Báltico e no círculo Ártico.

Funcionários dos Estados Unidos continuam a afirmar que a Ucrânia deve integrar a OTAN.

Ainda esta semana, numa coluna do New York Times, Ian J. Brzezinski, filho de Zbigniew, avisou Obama quanto ao perigo do abandono da “visão” de uma Europa “unida, livre e segura” incluindo “a inclusão da Geórgia e da Ucrânia na OTAN e na União Europeia”. O fato de a grande maioria da população da Ucrânia ser contra a entrada na OTAN não foi tida em consideração.

Para o atual rebento da nobre dinastia Brzezinski é a minoria que conta. Abandonar a visão “isola os que, na Geórgia e na Ucrânia, vêem o seu futuro na Europa. Reforça as aspirações do Kremlin a uma esfera de influência…”

A noção de que “o Kremlin” aspira a uma “esfera de influência” na Ucrânia é absurda, considerando os laços históricos extremamente fortes entre a Rússia e a Ucrânia, cuja capital Kiev foi o berço do estado russo. Mas a família Brzezinski é proveniente da Galícia, a parte da Ucrânia ocidental que pertenceu outrora à Polônia, e que é o centro da minoria antirrussa. A política externa dos EUA é demasiado frequentemente influenciada por essas rivalidades estrangeiras que a grande maioria dos americanos ignora completamente.

Os EUA continuam com a sua insistência incansável em absorver a Ucrânia apesar de isso implicar a expulsão da frota russa do Mar Negro da sua base na península da Crimeia, onde a população local é esmagadoramente de língua russa e pró-russa. Isto é a receita para uma guerra com a Rússia, se alguma vez ocorrer.

E, entretanto, os funcionários americanos continuam a declarar o seu apoio à Geórgia, cujo presidente, treinado pelos americanos, espera abertamente levar a OTAN a apoiar a sua próxima guerra contra a Rússia.

Para além das manobras navais provocatórias no Mar Negro, os Estados Unidos, a OTAN e a Suécia e a Finlândia que não são (ainda) membros da OTAN, realizam regularmente importantes exercícios militares no Mar Báltico, praticamente à vista das cidades russas de São Petersburgo e Kaliningrad. Estes exercícios envolvem milhares de efetivos terrestres, centenas de aeronaves, incluindo os caças a jato F-15, aviões AWACS, assim como forças navais que incluem o U.S. Carrier Strike Group 12, barcos de desembarque e navios de guerra de uma dúzia de países.

Talvez o mais sinistro disto tudo, os Estados Unidos têm envolvido persistentemente, na região do Ártico, o Canadá e os estados escandinavos (incluindo a Dinamarca através da Groenlândia) num posicionamento estratégico militar abertamente dirigido contra a Rússia. O objetivo deste posicionamento no Ártico foi afirmado por Fogh Rasmussen quando referiu, entre as “ameaças” que a OTAN tem que enfrentar, o fato de que o “gelo do Ártico está recuando, libertando recursos que até agora têm estado cobertos pelos gelos”.

Ora bem, podíamos pensar que esta descoberta de recursos seria uma oportunidade para a cooperação na sua exploração. Mas não é essa a disposição oficial dos EUA.

Em Outubro passado, o almirante americano James G. Stavridis, comandante supremo da OTAN na Europa, disse que o aquecimento global e a corrida aos recursos podia levar a um conflito no Ártico. O almirante Christopher C. Colvin, da Guarda Costeira, responsável pela linha costeira do Alasca, disse que a atividade mercante marítima russa no Oceano Ártico constituía uma “preocupação especial” para os EU e pediu mais recursos militares na região.

O Serviço Geológico dos EUA crê que o Ártico contém um quarto dos depósitos mundiais inexplorados de petróleo e de gás. Sob a Convenção da Lei dos Mares das Nações Unidas, de 1982, um estado costeiro tem direito a uma EEZ [Zona Econômica Exclusiva] de 200 milhas náuticas e pode reclamar mais 150 milhas se provar que o fundo do mar é a continuação da sua plataforma continental.

A Rússia está requerendo esta pretensão.

Depois de pressionar o resto do mundo a adotar a Convenção, o Senado dos Estados Unidos ainda não ratificou o Tratado.

Em Janeiro de 2009, a OTAN declarou que o “Alto Norte” era de “interesse estratégico para a Aliança” e, desde então, a OTAN tem realizado vários importantes jogos de guerra nitidamente em preparação de um eventual conflito com a Rússia sobre os recursos do Ártico.

A Rússia desmantelou fortemente as suas defesas no Ártico depois do colapso da União Soviética e tem apelado para a negociação de compromissos quanto ao controle de recursos.

Em setembro passado, o primeiro-ministro Vladimir Putin apelou esforços conjuntos para proteger o frágil ecossistema, atrair o investimento estrangeiro, promover tecnologias amigas do ambiente e tentar solucionar as disputas através da lei internacional.

Mas os Estados Unidos, como de costume, preferem resolver as questões pela força. Isso pode levar a uma nova corrida ao armamento no Ártico e até mesmo a confrontos armados.

Apesar de todas estas movimentações provocativas, é muito pouco provável que os Estados Unidos procurem uma guerra com a Rússia, embora não se possa excluir confrontos e incidentes aqui e ali. Segundo parece, a política dos EUA é cercar e intimidar a Rússia de tal modo que ela aceite um estatuto de semi-satélite que a neutralize no futuro conflito previsível com a China.

O alvo China

A única razão para ter a China no ponto da mira é o mesmo da razão proverbial para subir a uma montanha: está ali. É grande. E os EUA têm que estar no topo de tudo.

A estratégia para dominar a China é a mesma seguida para com a Rússia. É a guerra clássica: cerco, assédio, apoio mais ou menos clandestino a problemas internos. Como exemplos desta estratégia:

Os Estados Unidos estão aumentando provocativamente a sua presença militar ao longo das costas chinesas do Pacífico, oferecendo “proteção contra a China” a países asiáticos do leste.

Durante a guerra-fria, quando a Índia recebia o seu armamento da União Soviética e assumia uma postura não alinhada, os Estados Unidos armaram o Paquistão enquanto seu principal aliado regional. Agora os EUA estão desviando os seus favores para a Índia, a fim de manter a Índia fora da órbita da Organização de Cooperação Xangai e de a utilizar como um contrapeso para a China.

Os Estados Unidos e seus aliados apoiam qualquer dissidência interna que possa enfraquecer a China, seja o Dalai Lama, os Uighurs, ou Liu Xiaobo, o dissidente na prisão.

O Prêmio Nobel da Paz foi atribuído a Liu Xiaobo por uma comissão de legisladores noruegueses chefiados por Thorbjorn Jagland, o eco de Tony Blair na Noruega, que foi primeiro-ministro e ministro dos estrangeiros da Noruega, e tem sido um dos principais defensores da OTAN do seu país.

Numa conferência patrocinada pela OTAN de parlamentares europeus no ano passado, Jagland declarou: “Quando somos incapazes de impedir a tirania, começa a guerra. É por isso que a OTAN é indispensável. A OTAN é a única organização militar multilateral com raízes na lei internacional. É uma organização que a ONU. pode usar quando necessário – para impedir a tirania, tal como fizemos nos Balcãs”. Isto é uma espantosa adulteração dos fatos, considerando que a OTAN desafiou abertamente a lei internacional e as Nações Unidas quando declarou guerra nos Balcãs – onde na realidade havia conflitos étnicos, mas não havia “tirania” nenhuma.

Ao anunciar a escolha de Liu, a comissão norueguesa do Nobel, chefiada por Jagland, declarou que “há muito que considerava que há uma estreita ligação entre os direitos humanos e a paz”. A “estreita ligação”, para seguir a lógica das próprias afirmações de Jagland, é que, se um estado estrangeiro não respeita os direitos humanos segundo as interpretações ocidentais, pode ser bombardeado, tal como a OTAN bombardeou a Iugoslávia. De fato, os mesmos poderes que mais barulho fizeram sobre os “direitos humanos”, nomeadamente os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, são os que mais guerras fazem em todo o mundo. As afirmações do norueguês tornam claro que a atribuição do Prêmio Nobel da Paz a Liu (que passou algum tempo na Noruega quando jovem) correspondia, na realidade, a uma confirmação da OTAN.

“Democracias” para substituir as Nações Unidas

Os membros europeus da OTAN pouco acrescentam ao poder militar dos Estados Unidos. A sua contribuição é acima de tudo política. A sua presença mantém a ilusão duma “Comunidade Internacional”. A conquista do mundo que está sendo tentada pela inércia burocrática do Pentágono pode ser apresentada como a cruzada das “democracias” do mundo para espalhar a sua ordem política esclarecida pelo resto de um mundo recalcitrante.

Os governos euro atlânticos proclamam a sua “democracia” como prova do seu direito absoluto de intervir nos assuntos do resto do mundo. Com base na falácia de que os “direitos humanos são necessários para a paz”, proclamam o seu direito a fazer a guerra.

Uma questão crucial é se a “democracia ocidental” ainda tem força para desmantelar esta máquina de guerra antes que seja tarde demais.

Nota: Agradecimentos a Rick Rozoff pelo seu permanente fluxo de importantes informações.

* Diana Johnstone é analista de política internacional escpecializada em assuntos militares

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Nota  de tradução
[1] No seu livro “The Israel Lobby and U.S. Foreign Policy” (2007), descreve este lobby como uma “coligação informal de indivíduos e organizações que trabalham ativamente para guiar a política externa dos EUA numa direção pró-Israel”. O livro “concentra-se principalmente na influência do lobby sobre a política externa dos EUA e nos seus efeitos negativos para os interesses americanos”.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Carta aberta: Por que os jornalões franceses odeiam Chomsky

12/6/2010, Diana Johnstone, Counterpunch – Traduzido por Caia Fittipaldi

Caro Noam,

Foi imenso prazer tantas vezes adiado, para seus muitos amigos e admiradores, vê-lo em Paris. Sei que foi cansativo, mas não pense que consumiu sua voz, para nada. Temo que lhe fique uma má impressão de certa mídia, que parece que “nada aprendeu e nada esqueceu” [1]. Mas parece-me que o tratamento estúpido que você recebeu, notadamente do Le Monde, apenas chama a atenção para a importância de sua visita e o profundo significado geopolítico que Chomsky tem na França.

Releve que eu deixe de fora seu campo primário de estudos, a linguística, nesses comentários. Mas tendo a crer que a animosidade que você despertou em alguns círculos franceses tenha menos a ver com linguística e mais com seu papel de proeminente crítico norte-americano da política externa dos EUA. Sim, sabemos que há outros críticos, mas Chomsky é, de longe, o mais conhecido em todo o mundo. Minha opinião é que esse papel – de símbolo virtual de crítica moral sistemática da política externa dos EUA – é a causa fundamental da campanha contra Chomsky na Europa, iniciada há mais de 30 anos.

Parece-me que os discursos eloquentes sobre o Camboja e, depois, a defesa do direito do Professor Robert Faurisson [2] a expressar livremente seu pensamento [3], foram o início da campanha para desacreditar, na França, o principal crítico do imperialismo norte-americano. É argumento que tenho de por em contexto.

O final da II Guerra Mundial dividiu a Europa em dois blocos de países satélites das duas principais potências vitoriosas. Os métodos políticos da URSS tornaram óbvio para todos, o status de satélite da Europa Oriental, sobretudo para os próprios cidadãos daqueles países, que viam bem a coerção que os mantinha unidos no bloco comunista.

No Ocidente, a riqueza dos EUA, a pronta cumplicidade das classes reinantes nativas e os métodos infinitamente mais sofisticados de persuasão política, dramatizando uma “ameaça soviética” em larga medida fantasiada, conseguiram convencer os países satélites de que todos seriam aliados voluntários dos EUA.

Deu certo e funcionou, quase sempre, com poucas e temporárias exceções. A Suécia, que jamais foi nem ocupada nem libertada, teve momentos de genuína independência, sobretudo sob o governo de Olof Palme (cujo assassinato arrastou a Suécia gradualmente para os braços da OTAN). Nos anos 1960s, Charles de Gaulle deu importantes passos para readquirir, para a França, a independência política, sobretudo ao criticar a guerra dos EUA na Indochina e ao tentar estreitar relações com países do Terceiro Mundo. Mas foi movimento abortado pelos eventos de maio de 1968; e, depois da queda de Gaulle, implantou-se rapidamente um processo de normalização, para estabelecer e reforçar a hegemonia dos EUA na França, de uma vez por todas.

Claro que, precisamente porque a França foi cenário dos mais poderosos impulsos de independência, o processo de normalização teve de ser mais vigoroso.

Na vanguarda desse processo esteve a operação midiática em torno dos chamados “novos filósofos”, lançada em meados dos anos 1970s. Eu vivia em Paris naqueles anos e vi o que aconteceu. Ataques a Chomsky foram parte crucial daquela campanha, construída para desacreditar o grande movimento internacional contra a guerra dos EUA no Vietnã (que seria campanha “ingênua” ou “dos apologistas do Gulag” etc.). Foi campanha política ampla e multifacetada, conduzida pela mídia, para afastar o público, sobretudo os mais jovens, dos movimentos de esquerda, para longe do Partido Comunista, do Gaullismo social (Chaban-Delmas), da solidariedade com o Terceiro Mundo, em direção a pressupostos “direitos humanos” – que só seriam “direitos humanos” para os dissidentes nos países que se opunham aos EUA.

Os intelectuais do poder

O papel de intelectuais franceses naquele processo foi variado e sofisticado.

Para começar, a natureza e o papel dos “intelectuais do poder” é muito diferente, muitas vezes oposto, nos EUA e na França.

Nos EUA, os intelectuais do poder (os “novos mandarins”), e são numerosos, trabalham diretamente para o governo, nos think-tanks ou como conselheiros e editorialistas nas empresas jornalísticas. O “pensamento”, nesses casos, visa a reforçar o poder dos EUA no mundo.

Na França, a situação é praticamente oposta a essa, porque o real “poder” pelo qual trabalham os intelectuais do poder, não é a França, mas os EUA, considerados com o protetor indispensável para todo “o Ocidente”, Israel incluída.

Na França, os intelectuais que trabalham para o governo vêm tradicionalmente das melhores escolas e não raras vezes preocupam-se com interesses nacionais franceses. No plano privado, muitas vezes manifestam-se incomodados com a subserviência da França às políticas norte-americanas. Mas essas manifestações de incômodo raramente são visíveis para o grande público e o aconselhamento desses intelectuais tende a ser soterrado pelos interesses dos partidos e dos políticos.

De fato, na França, os verdadeiros “intelectuais do poder” são estrelas midiáticas, as quais, de um modo ou de outro, justificam a subserviência da França aos EUA. Para o velho “novo filósofo” Bernard-Henri Lévy, fascista é a “ideologia francesa”; e o povo e o governo franceses não merecem qualquer confiança. Assim, o principal objetivo político dos intelectuais do poder, na França, é tornar a França impotente, inserindo o país bem firmemente na Aliança Atlântica, na OTAN e na União Europeia.

Ao tempo em que os intelectuais do poder nos EUA tendem a ser nacionalistas pró-EUA, na França são essencialmente anti-França. Em histórias em quadrinhos e filmes, a classe trabalhadora francesa é pintada como monstros racistas. Desde o filme de 1969 “Le Chagrin et la Pitié” [4], o pêndulo afastou-se cada vez mais da celebração da Resistência francesa, para um discurso de autoflagelação por crimes contra judeus cometidos durante a ocupação pelos nazistas. Até a existência de Jean-Marie Le Pen e sua “Frente Nacional” contribui, já há 30 anos, para reforçar a atitude de oposição antinacionalista. Crítica justificada contra a União Europeia por fragilizar o tecido institucional do bem-estar social a favor do capital financeiro globalizado é estigmatizado como nacionalismo francês inaceitável. O centro-esquerda dominante abandonou as questões econômicas e o antimilitarismo em favor de uma ideologia de direitos humanos mais afinada com o Dalai Lama (em relação à qual a França nada pode fazer) do que com a desindustrialização da França. A esquerda dos direitos humanos abandonou completamente a discussão da economia política, deixando-a entregue à União Europeia e à política militar da OTAN e ao comandante de ambas, os EUA.

De vários modos, os intelectuais do poder “humanitário” estão exemplificados no trabalho de Bernard Kouchner para promover a divisão da humanidade em três “Vs”: Vilãos, Vítimas e Vitoriosos Salvadores. Esse específico fatídico triângulo acomoda, como leito de Procusto, todos os grandes eventos mundiais, a começar, claro, pela II Guerra Mundial, como é hoje ensinada em quase todas as escolas: o drama de um Vilão (Hitler), das Vítimas (os judeus) e o Vitorioso Salvador (o exército dos EUA). (Cada vez mais se deixam esquecidos o Tratado de Versailles, a depressão econômica, o antibolchevismo de Hitler, a batalha de Stalingrado e inúmeros outros detalhes sempre significativos.)

Forçada no mesmo molde, com talvez ainda maior distorção da realidade, a crise da Iugoslavia serviu para reforçar o modelo básico. Os intelectuais franceses do poder estiveram presentes em todas as linhas de frente – e manchetes – dessa guerra midiática, operando para fortalecer a imagem dos povos e das gentes como meras vítimas passavas de “ditadores genocidas”, cuja única esperança de salvação estaria em serem salvos pela OTAN.

O grupo de Euston [5] na Grã-Bretanha exerce a mesma função, com menos energia. Em toda parte, o que interessa é manter coesa a Aliança Ocidental contra o resto do mundo.

Filósofos franceses

Claro, alguns ensaístas franceses contemporâneos criticam os EUA. “Le Monde des livres” listou alguns – Pierre Bourdieu, Alain Badiou, Antonio Negri, Slavoj Zizek et alia – como prova de que os franceses têm grandes intelectuais e não precisam ouvir o que Chomsky tenha a dizer.

Claro que todos são evidentemente muito diferentes uns dos outros, mas algumas diferenças entre os filósofos franceses contemporâneos e Chomsky merecem ser mencionadas.

Em primeiro lugar e mais importante, a questão dos fatos. A crítica de Chomsky é carregada de fatos, substância que parece entediar mortalmente os pensadores franceses contemporâneos. Por maior que seja a importância do ensaio no sistema educacional francês, o ensaísmo educou e treinou um mundo de “filósofos” cuja única habilidade para manipular ideias sem qualquer fundamentação do mundo dos fatos passou a ser garantia de carreiras acadêmicas bem-sucedidas. Louis Althusser confessou, em sua autobiografia, admitindo que só conhecia pouquíssimos fatos e, ainda mais, que também conhecia poucas obras de filosofia – mas que aprendera a construir sínteses. Assim se cria a questão de saber que utilidade social teria tal filosofia.

Se o objeto social está aí para ser entretido e distraído, então a escola francesa alcançou seu objetivo – a mistificação gera melhor entertainement que descrições atentas, acuradas e bem documentadas da realidade. Por outro lado, se o objetivo é auxiliar o leitor a construir sua compreensão pessoal da realidade, sobretudo da realidade política, então a primeira necessidade é que o leitor conheça fatos relevantes, que poucos têm tempo ou meios para pesquisar.

Portanto, Chomsky é muito útil aos cidadãos, também porque oferece quantidades imensas de fatos brutos a partir dos quais cada um pode desenvolver o próprio pensamento, de um modo que os divulgadores de ideias feitas, com muito fraco pé na realidade, não conhecem.

Duas outras diferenças têm a ver com ética e clareza de pensamento.

O foco ético de Chomsky orienta-se contra o abuso do poder na sociedade em que cada um viva, portanto na sua própria sociedade. Isso não implica rejeitar essa sociedade e, sob vários critérios, Chomsky é muito pró-EUA. Mas a atitude básica é que todos temos ao mesmo tempo a possibilidade e o dever de combater o abuso do poder na sociedade na qual vivemos, ao mesmo tempo em que é difícil analisar sociedades distantes, estrangeiras e, sobretudo, sociedade antagonistas.

Nas décadas mais recentes, os intelectuais franceses, por sua vez, têm tendido a adotar uma ética dualista, e a assumir posições intermediárias entre “campos”. Depois do colapso da URSS e do “campo socialista”, esse dualismo aplicou-se ao Ocidente, “lar dos direitos humanos”, versus o resto do mundo pressuposto atrasado. Isso levou a completa confusão sobre o trabalho de Chomsky, cuja crítica dos EUA nada tem a ver com optar por algum “campo” oposto.

Quanto à clareza da exposição, a ênfase na complexidade estilística do sistema acadêmico e escolar da elite francesa levou à noção de que discursos claros e ideias claramente expostas não seriam “profundas”. Alguma obscuridade é sempre desejável, porque sugeriria “profundidade” (Pierre Bourdieu fez uso deliberado desse preconceito, ao usar longas sentenças para pensamentos simples. Uma vez, disse a John Searle, filósofo norte-americano, que, para ser levado a sério na França, era preciso que pelo menos 20% do que se escrevesse fosse absolutamente incompreensível.)

Em parte por causa dessas diferenças, há natural antagonismo entre Chomsky e seus contemporâneos franceses. Dificuldade que se complicou ainda mais ante a controvérsia política. Primeiro, no caso do Camboja, a preocupação de Chomsky com oferecer fatos claramente expostos e sem exageros, foi mal interpretada como manifestação de apoio ao Khmer Rouge. Foi clara colisão entre alguém para quem não pode haver opinião séria sem fatos bem investigados, e outros que prestigiam, sobretudo, a própria opinião, sem dar grande importância aos fatos.

Além disso, no caso Faurisson [2], consideravelmente mais explosivo, o simples fato de defender o princípio da liberdade de expressão, foi interpretado como apoio às teses de Robert Faurisson, apesar de Chomsky ter insistido que as duas coisas eram separadas. Nesse caso, é impossível determinar o momento em que as diferenças filosóficas saem de cena, e cedem lutar à manipulação e à exploração dos discursos, com vistas a desacreditar a crítica anti-imperialista que Chomsky construía.

A “Lei Gayssot” e o Holocausto como Religião Oficial

Nos anos 1980s, ninguém saberia prever até onde o “affair Faurisson” nos levaria. A discussão sobre o professor de literatura que assumiu o desafio de contestar um fato histórico aceito (que se usaram câmaras de gás para exterminar judeus nos campos de concentração nazistas) foi usada como fato chave num processo que levou à sacralização do Holocausto de judeus (Shoah, em hebraico, termo religioso hoje já usado correntemente na França) como uma espécie de religião de lembrança e arrependimento, e dogma oficial.

Em vez de ouvir a argumentação de Chomsky, de que as coisas se decidiriam mediante livre debate, com todas as posições expostas e discutidas, a Assembleia Nacional Francesa, em julho de 1990, aprovou uma emenda a lei de 1881 sobre liberdade de imprensa, conhecida como “Lei Gayssot” (nome do deputado comunista que a apresentara). Essa específica emenda exige punição para todos quantos publicamente “contestem” (questionem ou ponham em dúvida) “a existência de um ou vários dos crimes contra a humanidade” nos termos em que estão definidos pelo Estatuto do Tribunal de Nuremberg de 1945 e que tenham sido cometidos “por membros de organização declarada criminosa” [pelo Estatuto de 1945] ou “por pessoa condenada por tais crimes por tribunal francês ou jurisdição internacional”.

Os crimes que Nuremberg definiu como crimes contra a humanidade são “assassinato, extermínio, escravização, deportação e todos os demais atos desumanos cometidos contra populações civis” além de “perseguições por motivação política, racial ou religiosa”.

Em geral, a Lei Gayssot tem sido usada para processar ou calar pessoas que, de fato, nem contestam nem disputam nem questionam a existência dos crimes acima listados, mas questionam o uso de câmaras de gás para cometer genocídio e assassinato em massa. De fato, praticamente não há “negação” da perseguição que os nazistas moveram aos judeus. Por isso a lei serve para “quaisquer casos” em que alguém manifeste posições ou ideias que qualquer um, em quaisquer circunstâncias, considere antissemitas.

Assim aconteceu no processo movido contra Bruno Gollnisch, membro destacado do Front National. Gollnisch, professor de estudos asiáticos na Universidade de Lyon, apenas descartou, sem responder, uma pergunta sobre o Holocausto, durante uma entrevista, dizendo que seria questão para especialistas. O processo afinal foi anulado, em segunda instância, mas até que isso acontecesse o professor passou cinco meses impedido de trabalhar na universidade.

Esse tipo de lei tem efeitos que vão além da aplicação imediata.

Primeiro, contribuiu para a sacralização do Holocausto, ou “Shoah”, que cada dia é mais considerado como dogma sagrado e menos como evento histórico. Em estado secular, no qual as religiões tradicionais são excluídas das escolas públicas, só o Holocausto ainda é tratado com a paixão mental e o envolvimento emocional que tradicionalmente só se reservam para as religiões. Nos currículos escolares, aumenta o lugar do Holocausto, na exata medida em que encolhe o lugar das aulas de História em geral.

Inicialmente, os crimes nazistas foram ensinados como crimes contra toda a humanidade. A identificação das vítimas foi-se, contudo, centrando nos judeus. Com isso, até as crianças nas escolas foram implicitamente divididas entre potenciais vítimas, a saber, as crianças judias e o resto do mundo, cuja inocência não está absolutamente garantida. É praticamente o verso da medalha do preconceito medieval, quando os judeus eram ditos “matadores de Cristo”. Hoje, os não judeus estão na difícil posição de serem descendentes de “matadores de judeus” (ou, na melhor das hipóteses, como descendentes dos que fracassaram na tentativa de salvar crianças judias da deportação para Auschwitz).

Efeito inevitável de tudo isso é encorajar outras comunidades étnicas a reforçar seus traços comunitários como também vítimas históricas, quase sempre vítimas de “genocídio”. Africanos, armênios, muçulmanos e outros muitos povos que sofreram tragédias de grandes proporções também se sentem humanos o suficiente para exigir que suas tragédias sejam respeitadas e relembradas, como a tragédia dos judeus. Essa disputa quanto ao “nível” de vitimização pode levar a extensões da Lei Gayssot, ou de lei anterior, contra o incitamento ao ódio racial, e levar a processos contra pessoas que considerem inadequada a expressão “genocídio” aplicada aos eventos trágicos na Ucrânia, na Armênia, na Bósnia etc.

Converter a história mais em objeto de reverência, do que de curiosidade, marca regressão sutil, mas grave, dos valores seculares do livre pensar e do livre investigar. Essa conversão regressista contribui para criar atmosfera de autocensura, de censura pelo “politicamente correto”, que mais estimula a covardia do pensamento, que a coragem.

Efeito político disso tudo é ensinar às crianças francesas, desde a escola, a visão de mundo dos ‘Três Vs’, segundo a qual os EUA são sempre o Vitorioso Salvador e a França não passa de semiculpada coadjuvante da própria história.

Os tempos, afinal, estão mudando

Para parte significativa da nova geração, o culto do Holocausto, com obrigação de comemorações anuais e o “dever de lembrar”, está-se tornando tão tedioso quanto qualquer outra religião imposta pelo Estado. Já não impede, sequer críticas, por judeus, do tratamento que os israelenses dão aos palestinos. A arapuca da culpa (europeia) pode estar começando a ruir.

Sua visita, Noam, a Paris, nos últimos dias de maio, acontece em momento em que já se veem sinais de que os ventos ideológicos estão mudando. Sinal eloquente dessa mudança foi o público jovem que acorreu para ouvi-lo no salão da Mutualité, em conferência patrocinada pelo jornal mensal Le Monde Diplomatique.

Em atitude oposta à de Le Monde Diplomatique, o jornal Le Monde, que já foi jornal respeitado, tornou-se porta-voz do “pensamento único” sempre a favor da subserviência aos EUA, à União Europeia e à Aliança Atlântica.

Primeiro, o Le Monde publicou matéria ridícula, assinada por um repórter que não assistiu à conferência de Chomsky no Collège de France; e escreveu longa matéria ressentida, por ter ficado do lado de fora.

Poucos dias depois, Le Monde voltou à carga, e publicou coluna, na seção de livros, ignorando todos os novos lançamentos e desenterrando o “caso Faurisson”, como pretexto para requentar todos os argumentos que se usaram contra, sem apresentar nenhum dos argumentos da defesa de Chomsky.

Por outro lado, ao final de sua visita a Paris, o professor Chomsky foi entrevistado num programa de alta audiência popular, Ce soir ou jamais, onde encontrou uma chance, depois de tantos anos, de responder às boas perguntas propostas pelo entrevistador, Frédéric Taddei. É programa popular, e os telespectadores que durmam cedo podem assisti-lo facilmente pela internet [6].

Essa entrevista recebeu comentários elogiosos na revista Marianne que, nos anos recentes, tornou-se a revista semanal de maior tiragem na França. Marianne destacou o “estranho silêncio da mídia” em torno da visita de Chomsky, sobretudo ao ignorar suas duras críticas ao ataque, pelos israelenses, contra a Flotilha da Paz, que acontecera naquela manhã. A revista reproduziu palavras do próprio Chomsky, para explicar o estranho silêncio: às vezes conscientemente, às vezes inconscientemente, tendemos a filtrar o que não queremos ver ou ouvir, se são coisas que nos perturbam.

Não há dúvidas de que Chomsky ainda perturba muito gravemente muita gente na mídia francesa contemporânea.

Mas nem todos. Houve, é claro, ampla cobertura da visita em Le Monde Diplomatique, copatrocinador da visita, que publicou longo artigo do professor Jacques Bouveresse, que recebeu Chomsky no Collège de France. Daniel Mermet mestre de cerimônias do popular “Là-bas si j’y suis”, do rádio vespertino, cobriu o encontro entre Chomsky e líderes operários. O jornal católico La Croix também publicou matéria informativa sobre o visitante.

De volta a fevereiro de 2003, o então ministro das Relações Exteriores Dominique de Villepin discursou no Conselho de Segurança da ONU, opondo-se ao ataque dos EUA contra o Iraque. O discurso recebeu elogios entusiasmados em vários jornais do mundo. Na França, ainda falta reencontrar vozes independentes.

Mas o medo de sofrer retaliações pelos EUA, pela impertinência daquele ministro, foi fator decisivo para que Sarkozy, imediatamente depois, se alinhasse aos EUA e Israel. Nada recebeu como recompensa interessante, além do ‘direito’ de também envolver-se no labirinto afegão, e alienar parte significativa da população francesa de raízes árabes. Anos de George W. Bush, a guerra do Afeganistão, o apoio sem qualquer crítica que os EUA garantem aos crimes que Israel comete em série, a crise financeira e a desilusão crescente com a União Europeia estão fazendo despertar os franceses e minando a aceitação, pelos cidadãos, da posição de parceiro passivo do imperialismo norte-americano.

O pêndulo vai e vem. Villepin, inimigo político figadal de Sarkozy, está de volta à cena, conclamando a França “a aprender as lições do Vietnã, da Argélia, do colonialismo”, a retirar-se do Afeganistão, a reconhecer que o mundo está mudando. O Ocidente já não pode impor a própria voz ao mundo, há novos poderes emergindo, Villepin insiste. É voz ainda muito distante do poder, mas suas palavras continuam ecoando.

É paradoxal que Chomsky, considerado antifrancês pelo desdém que sempre manifestou pelos intelectuais franceses contemporâneos, ofereça hoje a base argumental para todos quantos desejam que a França recobre sua independência nacional para que consiga desempenhar papel construtivo e de pacificação no mundo multipolar que se avizinha. Não se pode negar que Chomsky é e sempre foi uma voz a favor da liberdade de expressão.

Saudações cordiais,

[assina] Diana Johnstone

O artigo original, em inglês, pode ser lido em: Why the French Hate Chomsky

Notas de Tradução

[1] Frase de Talleyrand [1754-1838], falando dos Bourbons restaurados com Luis 18, depois de Napoleão: “nada aprenderam e nada esqueceram...” (NT).

[2] Robert Faurisson (25/1/1929) é professor universitário francês, que se tornou conhecido por artigos em que nega vários aspectos do Holocausto (publicados no Journal of Historical Review, dentre outros periódicos) e em cartas aos jornais franceses (sobretudo ao Le Monde). Dentre outros aspectos, as pesquisas de Faurisson negam a existência de câmeras de gás nos campos de concentração dos nazistas; a matança sistemática de judeus, em câmeras de gás durante a II Guerra Mundial; a autenticidade do Diário de Anne Frank, e a autenticidade dos depoimentos de Elie Wiesel relacionados ao que teria sofrido durante a guerra.

[3] O chamado “Caso Faurisson” foi uma grave polêmica gerada pela inclusão, em livro de Robert Faurisson (n.1), sem autorização, de uma introdução assinada por Noam Chomsky (Some Elementary Comments on the Rights of Freedom of Expression). Para Chomsky, Faurisson teria direito de manifestar suas ideias e publicar seu livro, porque a liberdade de expre ssão deve ser assegurado a todas as opiniões, em todos os casos, por impopulares ou falaciosas que sejam (ver aqui a tradução). Para ler os artigos da polêmica, em francês, ver Resultado da condenação nesse processo, o prof. Faurisson perdeu a cátedra na qual lecionava e à qual não voltou (NT).

[4] Le Chagrin et la Pitié é documentário franco-suíço dir. por Marcel Ophüls, rodado na primavera de 1969 (NT). Sobre o filme (em francês).

[5] Pode-se ver o Manifesto do Grupo de Euston (2006), (em inglês).

[6] Pode-se assistir à entrevista, em Entrevista 1 e Entrevista 2 (em francês).