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segunda-feira, 18 de maio de 2015

Pepe Escobar – Obama & Estados do Golfo: Convescote com atlanticistas wahhabistas

16/5/2015, [*] Pepe Escobar, RT – Rússia Today
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Fotos: Kevin Lamarque


Barack Obama reúne-se com representantes do CCG (14/5/2015)
A reunião de cúpula do presidente dos EUA Barack Obama com o Conselho de Cooperação do Golfo – CCG, em Camp David, essa semana, cabe melhor nos anais do surrealismo que da geopolítica.

A gangue do petrodólar do CCG – Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Kuwait, Bahrain e Omã – clamava por um “acordo de segurança” com Washington similar àquele “relacionamento especial” com Israel. Bem... Não vai acontecer, porque a coisa teria de ser aprovada pelo Congresso, absoluto não-não, considerando que o lobby pró-Israel controla a maioria do Congresso nos EUA.

Não sendo isso, a segunda opção seria espernear para arranjar alguma aliança formal com a OTAN. Ora, já existe praticamente isso mesmo, como na guerra à Líbia, que foi operação OTAN-CCG de fato. Pode-se chamar de atlanticismo wahhabista.

No final, o que com certeza obterão são mais armas norte-americanas cada dia mais caras. Isso sim, é fato consumado: bonança para o complexo industrial-militar – e mais pilhas de instrutores norte-americanos.

Quanto ao bônus extra, é pouco provável. Os sauditas também estão aos berros, querendo um escudo inexpugnável, feito escudo de mísseis de defesa, invencível, que os proteja da “agressão iraniana” Nonsense. Assumindo-se que haja algum acordo nuclear assinado pelo final de julho entre Irã e o P5+1 – do mais alto interesse para EU, China e Rússia – Teerã não só estará “normalizada” no ocidente, mas também receberá massivo influxo de fundos, logo que as sanções sejam levantadas.

Compare isso com a agenda não-dita – especialmente da Casa de Saud, dos falcões nos Emirados e do duro regime do Bahrain, que querem que o Irã continue sob sanção até o dia do Juízo Final, e que permaneça como estado pária perene no ocidente.

Barack Obama: EUA estarão com os Estados
do Golfo, contra “ataques externos”
O que torna tudo ainda mais absurdo é que os gastos militares dos países do CCG somados são muito mais altos que os do Irã. E também há divisões internas. Omã, menos linha dura que os demais membros do CCG, é amigável em relação a Teerã. E os Emirados Árabes Unidos – sobretudo via Dubai – não podem negar que estão vivendo tempos de vacas gordas em investimentos iranianos.

No final, lá veio o ‘'documento final'’ proverbialmente longo, vago, destacando que as partes devem fazer mais manobras militares conjuntas e cooperar em incontáveis campos, inclusive em matéria de mísseis balísticos de defesa. E há planos, também, para acelerar o armamento generalizado de todos. E repetiram sua “unidade” na luta contra ISISISILDaesh.

Cuidado com vassalos que pedem presentes

Não é mistério que o CCG – conveniente pós-apêndice do extinto Império Britânico – leva a palma no que tange a comprar lixo militar por bilhões de dólares e, no caso da Casa de Saud, também no que tange a fixar o preço do petróleo. Muitos dos membros do CCG recebem massivas populações de trabalhadores migrantes – quase todos vindos do sul da Ásia – que superam em número os locais e mal conseguem sobreviver, naquela armadilha suarenta em que caíram, com zero direitos humanos respeitados.

Absurdo extra aí, é Qatar e Arábia Saudita apoiando suas próprias redes, não necessariamente conflitantes, de jihadistas salafista na Síria. A Casa de Saud também disparou “operação cinética” ilegal ao estilo da “Tempestade Decisiva” do Pentágono, de guerra/bombas contra o Iêmen – operação que, reza a mitologia do Departamento de Estado, em termos os mais orwellianos, seria “esforço” ao qual Washington limita-se a “assistir”.

A proverbial histeria da imprensa-empresa comercial norte-americana decidiu que o ISIS/ ISILDaesh pode estar a alguns passos de tomar o Texas ou bombardear New York. Mesmo assim a maioria dos companheiros associados do CCG continuam paranoicos: naquela sua visão de mundo obtusa, a única coisa indispensável é esmagar o falso Califato que empodera o governo de maioria xiita em Bagdá, liderado por Haydar al-Abadi do Partido Da’wa, que ameaça os wahhabistas por serem o que são: intolerantes, armados e perigosos.

Por tudo isso, certo de que nada como um renovado surto de paranoia, e calculando que não sairia de Camp David com os presentes que foi buscar do governo Obama autodescrito como “Não faça merda coisa estúpida”, o novo capo da Casa de Saud, o rei Salman, deu chilique, resolveu não ir e mandar o seu novo príncipe coroado, príncipe Muhammad bin Nayef. Afinal, esse é o homem da hora, na “nova” Casa de Saud, como examinei aqui.

Presidente Obama olha para o Vice-Primeiro Ministro de Omã, Sayyid Fahd bin Mahmoud Al Said (esq.) e para o Emir do Kuwait, Sheikh Sabah Al-Ahmed Al-Jaber Al-Sabah (2º à esq.), ao receber representantes das seis nações do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) em Camp David, Maryland, dia 14/5/2015
Onde está Osama?

E aí, surge o fantasma de Osama bin Laden.

Recente matéria assinada por Seymour Hersh, em que expõe o saco de mentiras da Casa Branca sobre o fim que deram a bin Laden continua a agitar as águas. Muitas das revelações já haviam sido noticiadas em 2011, por outras fontes.

O que emerge é que bin Laden foi inicialmente capturado pelos serviços secretos do Paquistão (ISI) e mantido sob estrita vigilância em Abbottabad desde 2006. Foi denunciado por um ex-alto funcionário da inteligência paquistanesa, que embolsou uma fortuna em troca da informação e vive hoje amoitado, com a família, na Virginia.

Importante jornal paquistanês dedicou-se à história por algum tempo. Em seguida, outro confirmou a identidade do informante.

Tendo assistido à CIA em ação do Af-Pak ao Iraque, não me surpreendi. A CIA jamais encontraria nem um dos cobertores marrons pashtuns de bin Laden, ao contrário do que ensinam mitos fixados por Hollywood, tipo A hora mais escura.

Quanto ao assassinato, foi – como se diz na gíria dos drones em Nevada – simples assassinato rotineiro, assassinato predefinido. Mais uma vez, diferente do que reza o mito, bin Laden não estava armado com sua Kalashnikov nem usou uma de suas esposas como escudo.

Hersh vai direto ao cerne da questão, quando escreve:

Mas o alto nível de mentiras continua a ser o modus operandi da política dos EUA, além das prisões secretas, ataques de dronesraids noturnos de forças especiais e por aí vai.

E elemento chave de todo o imbróglio é – mais uma vez – a longa mão da Casa de Saud. A citação radicalmente importante do artigo, de fonte top da CIA, falando a Hersh:

Os sauditas não queriam que a presença de bin Laden nos fosse revelada, porque ele era saudita; então disseram aos paquistaneses que o mantivessem fora de circulação. Os sauditas temiam que, se nós soubéssemos, pressionaríamos os paquistaneses para que deixassem bin Laden começar a nos contar o que os sauditas andaram fazendo com a Al-Qaeda. Eles estavam fazendo chover dinheiro – muito dinheiro! Os paquistaneses, por sua vez, temiam que os sauditas dessem com a língua nos dentes sobre [os paquistaneses] estarem com bin Laden. O medo era que, se os EUA soubessem de bin Laden por Riad, seria o inferno. Os EUA terem sabido sobre a prisão de bin Laden por um terceiro não foi a pior solução possível.

Examinei aqui por que toda a “guerra ao terror” é fraude. O que a torna a coisa diferente agora é que parece que os verdadeiros Masters of the Universe que comandam o eixo Washington/Wall Street começam a cansar-se da Casa de Saud.

Barack Obama: Patrocinador do terrorismo wahabbista
Agora, até o New York Times tem licença para publicar que:

Apoio saudita à jihad afegã há décadas ajudou a criar a Al-Qaeda.

Até há bem pouco tempo, essa ‘'notícia'’ seria totalmente inadmissível. A mesma matéria também registra que o novo rei Salman

(...) foi homem de ponta da realeza e levantador de fundos para jihadistas a caminho do Afeganistão, da Bósnia, de vários destinos.

Não é coincidência que esse tipo de matéria apareça exatamente quando Salman “esnobou” Obama ao não dar as caras naquele convescote wahhabista-atlanticista em Camp David.

Assim sendo, eis a conclusão: os que pela primeira vez financiaram Osama bin Laden e depois pagaram aos paquistaneses para que o mantivessem fora de circulação, agora querem que Washington lhes dê todos os tipos de “garantias” de segurança, para terem certeza de que permanecerão para sempre no poder. E continuam a ser a matriz ideológica da qual brotam milhares de novos Osamas.

História assim tão inverossímil, só se for verdade.

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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: SputinikTom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009. 
− Adquira seu novo livro Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books.




sábado, 28 de fevereiro de 2015

Os EUA-OTAN encontram “porta dos fundos” árabe para armar a junta nazista de Kiev.

25/2/ 2015, [*] Finian Cunningham – Strategic Culture
Tradução: mberublue


Poroshenko e Mohammed Bin Zayed al Nayhan
Cresceram as suspeitas, que já eram fortes, de que a OTAN, aliança liderada pelos Estados Unidos, encontrou uma nova forma de fornecer armas sorrateiramente para a Ucrânia, depois do anúncio, feito nesta semana, de que o regime de Kiev teria concluído um grande negócio com os Emirados Árabes Unidos para o fornecimento de armamento militar. Só dizemos “nova forma” porque se acredita que os Estados Unidos e a OTAN secretamente já fornecem armas para o regime de Kiev, através de seus aliados Polônia e Lituânia.

O presidente da junta de Kiev, Petro Poroshenko, festejou a nova parceria estratégica com o reino do Golfo Pérsico enquanto visitava a International Defence Exhibition (IDEX), realizada na capital dos Estados Árabes Unidos, Abu Dhabi. Regiamente recebido pelo príncipe Mohammed Bin Zayed al Nayhan, Poroshenko afirmou ser um “presidente da paz” mas que a Ucrânia, ou melhor dizendo, o estado falido que seu regime comanda, precisa de forte armamento defensivo por causa de seu “inimigo russo”.

Tais desenvolvimentos surpreendentes encontram a explicação de seu significado real, quando se descobre que Poroshenko e seu anfitrião árabe, conforme relatado, realizaram reuniões discretas com funcionários do Pentágono e fabricantes americanos de armamento militar durante a realização da feira de armamento. Trata-se de indicação de que, na realidade, Washington está coordenando a já esperada transferência de armas para o regime de Kiev.

EUA-OTAN armam a junta de Kiev com a "mão de gato" do Emirados Árabes Unidos
Mesmo não tendo vazado nenhum detalhe da parceria Kiev/EAU, pode-se assumir sem medo de errar que o fornecimento de armas para a Ucrânia através dos árabes não passa de uma maneira encontrada pela OTAN e pelos Estados Unidos, apoiadores da junta colocada no governo pelo ocidente e que tomou o poder ano passado através de um golpe de estado, suprir de armamento o regime de Kiev. Este regime lançou uma guerra de agressão contra os federalistas do leste ucraniano, infligindo até agora cerca de 6.000 mortes, principalmente entre a população civil de etnia russa.

No início do mês tornou-se claro que Washington e seus aliados da OTAN podem vir a pagar um alto preço político pelo movimento desastroso que cometeram, ao se envolver cada vez mais no conflito ucraniano. Quando Washington anunciou que iria em frente com seu plano congressional de prover o regime de Kiev com “ajuda letal”, houve uma consternação internacional generalizada contra essas maquinações imprudentes.

Washington foi alertada por Moscou que um futuro apoio militar ao regime de Kiev, anti russo e reacionário, em sua fronteira ocidental, consistiria em uma “escalada desastrosa”. Então, aparentemente, o Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, recuou de suas propostas de fornecimento de armas e munições letais.

Hoje, os EUA fornecem armas para a junta de Kiev via Estônia
O fornecimento de armas também foi condenado pelos normalmente servis aliados europeus dos Estados Unidos. A Alemanha, a França e mesmo a Inglaterra indicaram sua desaprovação declarando que não seguiriam qualquer movimento no sentido de enviar mais armas para a Ucrânia. Quem talvez tenha mostrado de forma mais severa sua desaprovação foi a chanceler alemã, Angela Merkel. Durante visita aos Estados Unidos, ela reiterou sua posição de “não armar” a Ucrânia para a mídia estadunidense ao ser recebida por Obama na Casa Branca.

Não restaram dúvidas de que o público europeu, já cambaleante frente a uma cada vez mais forte austeridade econômica (leia-se arrocho – NT via Vila Vudu), desemprego e curtindo forte desdém para com os políticos europeus irresponsáveis movimentou-se concentradamente, em várias capitais, em direção à negação total de jogar mais lenha na fogueira do já furioso incêndio da guerra na Ucrânia.

A ideia de antagonizar cada vez mais a Rússia, seguindo o incendiário militarismo estadunidense na Ucrânia poderia provocar uma tempestade política na Europa. Então, os normalmente servis líderes europeus “sim, senhor, sim, senhor!” foram obrigados a desafiar a imprudência dos EUA.

Aparentemente, o início de discórdia entre Estados Unidos e União Europeia provocou o nervosismo de Washington, ante o temor de que o eixo tático de sanções anti russas acabasse por se desfazer.

Barack Obama e John Kerry
O Presidente Barack Obama e seu Secretário de Estado John Kerry se esforçaram para enfatizar que os Estados Unidos e a Europa estavam “unidos” sobre a crise ucraniana e sua alegada “agressão russa” – apesar de terem os líderes europeus, publicamente, no mínimo repudiado a política de armas de Washington.

Então, em vez de se arriscar a uma divisão nas fileiras da OTAN, Washington e seus aliados parecem ter encontrado uma engenhosa maneira de contornar o problema – tornar os Emirados Árabes Unidos a vanguarda para o fornecimento de armas ao regime de Kiev.

Uma “nova indústria de defesa” nos Emirados Árabes Unidos tem aparecido em relatos de vários órgãos da mídia. Acontece que qualquer indústria que tenha lugar em um reino inundado de petróleo, na verdade é, em grande medida, apenas um meio de acrescentar valor ou uma plataforma de marketing para as indústrias ocidentais. O setor de defesa dos Emirados Árabes Unidos é dominado por importações dos Estados Unidos e pelas grandes indústrias norte americanas do setor, tais como a Boeing, Lockeed Martin e Raytheon.

As operações “em parceria” com os Emirados refletem apenas a intenção da aristocracia do reino em provocar admiração por estar supostamente promovendo a diversificação com a criação de setores de alta tecnologia para fugir da dependência das receitas da exportação de petróleo.

Guerra é grana
Para as grandes empresas de armamento ocidentais, a venda a retalho nos Emirados promovem apenas uma cobertura conveniente em termos de relações públicas para as vendas globais de armamento. Assim, as armas norte americanas e europeias podem ser vendidas para todas as partes do globo, mesmo aquelas onde esses fornecimentos seriam considerados antiético – afinal, as vendas teriam sido feitas originalmente pelos Emirados Árabes Unidos.

Não se esqueça, no entanto, que, segundo o Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), os Emirados Árabes Unidos são o quarto maior importador de armas do mundo. Trata-se de um recorde estarrecedor quando se leva em consideração de que estamos falando de um país onde a população é de cerca de nove milhões de pessoas, das quais apenas um milhão são de árabes nacionais, sendo o restante pessoal expatriado da Ásia e África para trabalhar. Levando em conta apenas uma base per capita, os Emirados Árabes Unidos são de longe o maior importador de armas do mundo. Além disso, trata-se de um país que, desde que conseguiu sua independência formal da Inglaterra em 1971, nunca esteve em guerra.

O SIPRI afirma, em seu último relatório de tendências globais, que os países árabes do Golfo Pérsico dobraram suas exportações de armas em anos recentes, mesmo partindo de uma base já bastante elevada anteriormente. Atualmente, a Arábia Saudita é o quinto maior exportador de armas do mundo. Qatar, Barein e Omã também são grandes destinatários para as vendas de armas das indústrias armamentistas ocidentais.

Com 40% das vendas, o mercado de armas do Golfo Pérsico hoje é dominado pelos Estados Unidos. Outros grandes exportadores para a região são a Alemanha, França e Inglaterra. A Rússia também tem uma forte presença nesse mercado. Mas a parte do leão é dos aliados da OTAN. Particularmente, a Alemanha tem intensificado suas exportações de armamentos para o Golfo Pérsico, o que está causando alguns problemas para o governo Merkel entre a população alemã, que passou a considerar que o governo alemão está sustentando regimes repressivos e autocráticos. Blindados em geral e tanques Leopard estão entre as mais lucrativas exportações da Alemanha.

Tanque alemão Leopard 2A6, com canhão de 120mm L55 (Rheinmetall)  
Os regimes árabes do Golfo Pérsico se tornaram, dessa forma, arsenais da OTAN. Entre eles, o arsenal da OTAN por excelência é o pequeno EAU, com seu orçamento de segurança de 13 bilhões de dólares anuais.

O novo contrato firmado entre o regime de Kiev e os Emirados Árabes Unidos para o suprimento de armamento tornou-se assim uma nova frente da OTAN para o fornecimento de armas para a junta de Kiev. Convenientemente para os governos ocidentais, o arranjo tende a tornar obscura a participação da OTAN aos olhos de seu público, mas apenas superficialmente.

É um mau sinal para o instável cessar fogo costurado pelo presidente da Rússia, Vladimir Putin, no início do mês. Putin tem continuamente alertado para a atitude hostil de Poroshenko e outros líderes de Kiev, que acusam rotineiramente a Rússia de agressão, enquanto vomitam bravatas sobre lutar uma “guerra total”. Além de indulgentes com essa retórica inflamada, Washington e União Europeia têm renovado as sanções contra Moscou e lançado a culpa do conflito sobre a Rússia.

A junta em Kiev está claramente usando o empréstimo de 40 bilhões de dólares dos pagadores de impostos ocidentais cedidos através do FMI para comprar armas para aperfeiçoar sua máquina de guerra apoiada pela OTAN. O acordo para a venda de armas dos Emirados Árabes Unidos é apenas uma porta dos fundos para a OTAN introduzir mais e mais armamento e incrementar o belicismo de Kiev contra a Rússia.


[*] Finian Cunningham nasceu em Belfast, Irlanda do Norte, em 1963. Especialista em política internacional. Autor de artigos para várias publicações e comentarista de mídia. Recentemente foi expulso do Bahrain (em 6/2011) por seu jornalismo crítico no qual destacou as violações dos direitos humanos por parte do regime barahini apoiado pelo Ocidente. É pós-graduado com mestrado em Química Agrícola e trabalhou como editor científico da Royal Society of Chemistry, Cambridge, Inglaterra, antes de seguir carreira no jornalismo. Também é músico e compositor. Por muitos anos, trabalhou como editor e articulista nos meios de comunicação tradicionais, incluindo os jornais Irish Times e The Independent. Atualmente está baseado na África Oriental, onde escreve um livro sobre o Bahrain e a Primavera Árabe.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Esfacela-se mais uma “frente-contra” inventada pelos EUA

O CCG − Conselho de Cooperação do Golfo RACHOU!

5/3/2014, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Comemoração do dia da libertação do Kuwait em 25/2/2014
Há muito tempo os EUA tentam firmar uma frente anti-Irã nos países árabes no Golfo Persa. O Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), fundado em 1981, incluía Bahrain, Kuwait, Omã, Qatar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. O braço militar do CCG, o escudo peninsular, foi formado sob orientação dos EUA e como uma grande feira cativa para a venda de armas fabricadas nos EUA:

Gostaríamos de expandir nossa cooperação de segurança com parceiros na região, trabalhando de forma coordenada com o CCG, inclusive mediante a venda de artigos norte-americanos de defesa, através do CCG, como organização. Esse é um passo adiante natural, para melhorar a colaboração EUA-CCG, e permitirá que o CCG adquira capacidades militares críticas, inclusive itens para defesa com mísseis balísticos, segurança marítima e contraterrorismo − disse o secretário de Defesa, Chuck Hagel
...

[Hagel] disse que nos últimos dez anos, a venda de armamento militar avançado dos EUA às nações do CCG alterou o equilíbrio militar a favor do CCG e contra o Irã.

O Conselho de Cooperação do Golfo (antes de "rachar")
Hoje, o CCG rachou:

Arábia Saudita, Bahrain e os Emirados Árabes Unidos retiraram seus embaixadores de Doha, na 4ª-feira (5/3/2014), como protesto contra a interferência do Qatar em seus assuntos internos, anunciaram em declaração conjunta.

Os três países árabes do Golfo tomaram a decisão, depois do que os jornais descreveram como “reunião tempestuosa” em Riad, tarde da noite, na 3ª-feira (4/3/2014), entre os ministros de Relações Exteriores das seis nações que formam o CCG.

Os países do GCC “empreenderam esforços massivos para entenderem-se com o Qatar, em vários níveis, para chegar a uma política unificada (...) para garantir a não interferência, direta ou indireta, nos assuntos internos de cada um dos estados membros” – diz a declaração.

As nações também pediram ao Qatar, apoiador do movimento da Fraternidade Muçulmana, banido na maioria dos estados do Golfo, que “não apoie qualquer partido que ameace a segurança e a estabilidade de qualquer membro do CCG” – citando, em particular, as campanhas pela imprensa contra aqueles membros.

A declaração diz que, apesar de o emir do Qatar , Sheikh Tamim bin Hamad al-Thani, ter-se comprometido com esses princípios, em mini-cúpula realizada em Riad em novembro, com o emir do Kuwait e o monarca saudita, o Qatar não cumpriu o compromisso que assumiu.

Os investimentos do Golfo em empresas do Qatar caíram depois de divulgada a declaração, mas o Qatar ainda tem alguns instrumentos de pressão, porque fornece gás natural aos Emirados Árabes Unidos. Kuwait e Omã, também membros do CCG não convocaram seus embaixadores.

O Qatar não está navegando com segurança no Golfo Pérsico
Qatar e Arábia Saudita vêm lutando pela liderança do “arquivo sírio”, em torno de interpretações ideológicas do Islã, mas também em torno da posição anti-Irã fanática da Arábia Saudita. Omã é outro país que não adere muito firmemente à posição anti-Irã liderada por EUA/sauditas, no CCG. Agora, os EUA têm em mãos mais um grande problema de política exterior.

Os EUA parecem estar falhando em todos os cantos onde tentam unir seus “aliados” em campanha anti-alguém, sob comando dos EUA.

Na Europa, os “aliados” dos EUA discordam quanto a possíveis sanções contra a Rússia, e não seguirão o comando anti-Rússia que os EUA preferem. No sudeste da Ásia, os “aliados” dos EUA, Coreia do Sul e Japão batem cabeça um contra o outro, e não acompanharão os EUA em sua campanha anti-China. Agora, com o CCG rachado, a campanha anti-Irã comandada pelos EUA no Golfo parece também estar fazendo água.

As aspirações de política externa de total dominação pelos EUA enfrentam dificuldades, com os “aliados” cuidando cada vez mais dos próprios interesses, em vez de acompanhar a liderança, tantas vezes lunática, de Washington.

Aí está um fato histórico, que os atores da política exterior em Washington ainda não entenderam.
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Dos COMENTÁRIOS a esse postado:

Ver em:E o Kuwait está fazendo sua rebelião à parte, contra o CCG. (Postado por Mina − Mar 5, 2014 7:27:35 AM)



[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como “Whisky Bar” ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). No Brasil, produzimos versão SENSACIONAL, na voz de Cida Moreira, gravada em “Cida Moreira canta Brecht”, que incorporamos às nossas traduções desse blogMoon of  Alabama, à guisa de homenagem. Pode ser ouvida a seguir:

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Rússia surfa as ondas no Oriente Médio

11/2/2014, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Nabil Fahmy, MRE do Egito; Abdel Fattah al Sisi, Chefe militar do Egito; Sergey Shoigu, Ministro da Defesa da Rússia e Sergey Lavrov MRE da Rússia após assinatura do contrato de compra de armas russas pelo Egito e financiadas pela Arábia Saudita (13/2/2014) .
A imprensa-empresa israelense e iraniana noticiou ontem que Rússia e Egito fecharam negócio de armas no valor de $2 bilhões. Matérias especulativas em meses recentes já apontavam nessa direção, mas quando realmente acontece veem-se olhares de surpresa, porque o negócio significa a retomada de laços militares que passaram por rompimento de 40 anos que deixou gosto amargo em Moscou e no Cairo.

Ao que se sabe, o negócio estaria sendo financiado por Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, principais patrões da junta militar egípcia. Se alguém se interessar (desnecessariamente) por misturar política e moralidade, aí está um negócio que parece nada santo.

O Egito não está diante de ameaça de agressão armada, mas enfrenta, sim, situação aguda de insegurança interna, ampliada pelo caráter repressivo do regime, que parece ter voltado à era de Hosni Mubarak. Bem se pode dizer que o Egito é caso perfeito para um embargo internacional de armas.

Mas está emergindo um curioso consenso sobre o futuro trágico da Primavera Árabe, que põe lado a lado Rússia e Arábia Saudita. Os dois países concordam que o que o Egito enfrenta é terrorismo islamista. A Junta, é claro, insiste que a Fraternidade Muçulmana é puro terrorismo.

Barack Obama
Ironicamente, só o governo Obama aparece como voz dissonante. E insiste numa reconciliação nacional no Egito que leve a “democracia inclusiva, tolerante, governada por civis” – itens que absolutamente não encontram hoje, por causa do “ambiente político polarizado, a falta de um processo inclusive para redigir e debater a Constituição (...) e as prisões dos que se posicionam contra a Constituição”, etc. etc., como o secretário de Estado dos EUA John Kerry disse claramente em declaração recente.

Mas os conselhos dos norte-americanos caíram em ouvidos surdos, porque a junta militar no Cairo aposta no fato de que os EUA não têm meios para pressionar na direção da política que estão prescrevendo nem para apertar os parafusos contra os generais egípcios. Enquanto isso, o negócio com a Rússia dá aos russos ímpeto e meios para ganharem tempo com o governo Obama.

Bandar bin Sultan
Mas os russos não podem não estar vendo que tudo isso tem sabor de coquetel geopolítico indigesto. Vejam bem: a Arábia Saudita paga salafistas na Síria com laços duvidosos com a al-Qaeda, os mesmos contra os quais luta o regime em Damasco, com a ajuda dos russos; e, no contexto do Egito, as mesmas Moscou e Riad parecem concordar que o islamismo é veneno. É claro que tem de haver outra explicação para tudo isso. 

A Rússia, pelo menos, é consistente sobre a absoluta necessidade de combater os salafistas – seja no Norte do Cáucaso ou Ásia Central ou Levante. Simultaneamente, o governo Obama fala diferentes falas, conforme a situação exija – e, na Síria, segundo as últimas revelações da mídia, enquanto aparentemente trabalha com a Rússia sobre a Conferência Genebra-2 e professa empenho no combate contra a al-Qaeda, não para, simultaneamente, de insistir no golpe (“mudança de regime”) contra o governo Assad.

Todas essas profundas contradições fazem do Oriente Médio uma espécie de arena para o jogo geopolítico entre EUA e Rússia. Há elementos para mais uma “guerra à distância” feita pelos EUA, na Síria. O Egito tem alta possibilidade de converter-se em batalha campal. Os fortes laços entre Rússia e Irã criam espaço político e diplomático para que o Irã negocie melhor com os EUA. Mas o namorico com os generais egípcios pode até levar a um namorico também entre russos e sauditas, bem agora quando Obama prepara-se para visitar Riad no final de março. O príncipe Bandar, chefe da inteligência saudita já esteve duas vezes em Moscou – e o golpe militar no Egito, ano passado, pode ser considerado sua obra-prima.

Bibi Netanyahu
Onde entra Israel em tudo isso? Com certeza Israel partilha a angústia saudita por o governo Obama ter desistido de atacar a Síria. Israel também não conseguiu pôr fim ao engajamento EUA-Irã. Simultaneamente, já surgiu novo atrito entre EUA e Israel, também porque o governo Obama voltou a insistir sobre um acordo palestinos-israelenses. Kerry alertou sobre o perigo de Israel enfrentar campanha crescente de deslegitimação, em fala que causou mal-estar em Telavive.

Nessa conjuntura, o mínimo que Moscou pode fazer pelo Primeiro-Ministro Bibi Netanyahu é deixar-se ver em público de mãos dadas com ele. É o que está fazendo. De fato, a diplomacia russa não precisou de muito tempo para decifrar a charada de EUA-Israel. Faz lembrar famosa lição do surfe, de origens imemoriais – “Se o mar crescer, surfe” [1]. Porque, na dúvida entre serpentes venenosas ou recifes pontiagudos, sempre se pode remar para fora.



[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

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Nota dos tradutores
[1] Orig. If it swells, ride it!”. Assista a seguir um swell épico: